sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

Não abras os olhos, de John Verdon - Porto Editora

O mestre dos enigmas!

Não abras os olhos, não te escondas no bosque... não fujas para longe...
Deixa de ser inocente, pequenos pássaros e bosques verdejantes, são só ilusões...
Bonecas são gente crescida, a brincar com afiadas tesouras, a fazerem do sexo uma teia
... pesadas malhas, tenebroso veneno, que esconde crimes horrendos.

Tu que és pai, mata!
Tu que és mãe, viola!
Tu, criança...
come criancinhas!!!
Abre os olhos, foge... esquece o mundo, não lhe dês voltas!
Corre, nunca pares!
Encontra o teu refugio, muda de nome, de vida, de história
Se tiveres medo, isola-te. Se tiveres medo, desconfia...
Teme-te a ti próprio... hoje, já ninguém está seguro.
Amanhã, o caos - o ontem: o pesadelo...

***

Quando pensei escrever sobre o mais recente livro de John Verdon editado pela Porto Editora antes da critica propriamente dita saíram-me todas essas palavras assim como que a modos de resumo atordoado .. é esse o efeito John Verdon - ficamos meio aturdidas com as suas descrições quase cinematográficas,que nos transportam para a acção, tornando muito difícil não abrir os olhos. Aliás todo o livro está construído para que em cada parte que vai nascendo nós sejamos capazes de abrir mais ainda os nossos olhos para o horror e a violência que, de uma forma ou outra acontecem à nossa volta.

 Os detalhes, as descrições e a quantidade de informação é realmente brilhante, apesar de ainda serem mais de 500 páginas para misturar tudo muito bem. A ligação entre Thomas Kyd e a sua Tragédia Espanhola (que fui confirmar e realmente existe... brilhante!) e o episódio bíblico de Salomé, femme fatale dão um brilhantismo diferente ao enredo deste policial fugindo assim ao género literário, romanceando de uma forma única.
Claro está que existem detalhes que a minha mente ligou a episódios do Dexter ou o detalhe da rede internacional ao filme Hostel de Eli Roth, felizmente que a bizarrice é limitada! ;\

Existem no livro explicações brilhantes sobre a verdade, a mentira, o disfarce, a confiança... é imaginarmos que as aulas de Gurney são reais e nós estamos lá, somos um dos detectives em formação.

"O sociopata nunca se confunde a si próprio e às suas necessidades (...)"

"Mas não falarei sobre os alunos. Vivemos num mundo escorregadio, inspector, caso não tenha notado. Não temos nenhum ponto de apoio mais firme do que os nossos princípios."

(...) "- Um terapeuta disse-me uma vez que uma expectativa é apenas o embrião de um ressentimento."

John Verdon consegue desde o início, após explicar a «falácia do eureka» levar-nos a experienciar isso mesmo. A certeza com que começamos, logo desde muito cedo, a desconfiar da personagem certa e a acreditarmos que sabíamos sempre o que ia acontecer, esbarrando logo de seguida em mais um pormenor novo e louco, que nos mostrava a força da verdade daquilo em que queremos acreditar . Muito perspicaz e inteligente, sem dúvida o melhor detalhe!

A prova irrefutável são os detalhes! Qualquer bom enigma está recheado de detalhes e o autor é mestre.

Quem já leu John Verdon? Este ou outro?
Deixo aqui uma entrevista que gostei bastante de ouvir

Boas leituras

1 comentário :

André Nuno disse...

Olá, Cris!
Que opinião fabulosa. Foste ao âmago deste livro e transcreveste-o de forma brilhante.
Também gostei imenso de Não Abras os Olhos. (O título é muito bem escolhido)
Apesar de ser uma obra muito bem conseguida, talvez do calibre de Pensa num Número, confesso-te que gostei mais do primeiro livro.
Tinha expectativas muito elevadas para o segundo e embora não tenham sido defraudadas também não foram superadas.
E tu, tens preferência por algum dos dois?
Aguardemos que editem em PT o terceiro livro de Verdon, já disponível noutras Línguas.
Boas leituras!