quarta-feira, 10 de julho de 2013

«O Conto da Ilha Desconhecida» de José Saramago - Opinião

                                 "Dá-me um barco."

Era este o requerimento de um sujeito, incógnito, que de pedra e qual se prostrou à porta das Petições, fazendo o obséquio (envenenado) de por ali se quedar até El Rei  se designar a atendê-lo e ouvi-lo, revoltando-se contra a indiferença e espera prolongada causada pela porta favorita do Rei.
Indignada estava também a mulher da limpeza que assistia, extasiada, pela coragem e determinação do revoltoso.

El Rei, dono e senhor era tendencioso e tinha uma preferência pela porta dos obséquios, apreciando todos os favores que a ele lhe prestavam. Incomodado com a indignação do pedinte e com o potencial aflorar de desencantamento social, o Rei ponderou os futuros benefícios e, com maus modos, atendeu o homem que queria um barco.

Impulsionado pela apreensão e pelo tumulto social, o Rei concedeu o desejo do pedinte.
Agora restava saber como iria ele, já de barco e punho, atingir e descobrir uma ilha desconhecida. Ora tal preciosidade, sendo desconhecida, é como se não existisse, não figurava no mapa, nem nas ideias dos homens que opinavam e aconselhavam o pedinte com o desejo de chegar à ilha desconhecida.
Impulsionada, estava também a criada, que arrebatada, saiu pela porta das decisões.

A decisão estava tomada. As portas abertas. O barco escolhido.
Homem e mulher tinham tarefa árdua pela frente, mas...

"Gostar é provavelmente a melhor maneira de ter, ter deve ser a pior maneira de gostar."

E aqui, a indecisão, a contrariedade e insegurança assombram o projecto e a aventura.

...

«O Conto da Ilha Desconhecida» é um conto recheado de metáforas, eu diria até que é uma escrita icónica, mas alegórica que se refugia num tom quase infantil, levando-nos a descurar o quão intensa e mordaz é a crítica social neste conto, e o quanto nos pede para olharmos para dentro, já que o social somos todos.

"Tenho, tive, terei se for preciso, mas quero encontrar a ilha desconhecida, quero saber quem sou quando nela estiver, Não sabes, Se não sais de ti, não chegas a saber quem és, O filósofo do rei, quando não tinha nada para fazer, ia sentar-se ao pé de mim (...) dizia que todo o homem é uma ilha, eu, como aquilo não era comigo, visto que sou mulher, não lhe dava importância. tu que achas, Que é necessário sair da ilha para ver a ilha."

Apesar de ser um conto, eu vejo um livro, vejo algo para além das frases enérgicas, labirínticas e por vezes até confusas. É época é confusa, o ser humano é complexo, indestrinçável, enigmático, duvidoso e cheio de dúvidas.
Se vivemos na senda do conhecimento, da evolução, da inovação, vivemos inextricavelmente na senda da busca interior e do conhecimento de nós mesmos, como solução para decifrar os sonhos, os que temos para nós e para o mundo.

"o sonho é um prestidigitador hábil, muda as proporções das coisas e as suas distâncias, separa as pessoas, e elas estão juntas, reúne-as, e quase não se vêem uma à outra (...) tinha-lhe desejado felizes sonhos, mas foi ele quem levou toda a noite a sonhar."


Uma excelente leitura proporcionada pela minha grande amiga Philipa a quem agradeço a recomendação!
Uma edição da Editorial Caminho, saiba mais aqui e do livro, aqui.



1 comentário :

helena frontini disse...

Tenho-autografado pelo autor. É lindo!