quarta-feira, 9 de outubro de 2013

Sempre Vivemos no Castelo – Shirley Jackson - Opinião

Não posso falar deste «Sempre Vivemos no Castelo», sem antes agradecer ao meu "guru" dos livros, um amigo por quem tenho elevada estima, essencialmente pelas suas sugestões literárias e os conhecimentos que detêm, ele sim, está sob o verdadeiro efeito dos livros. Por isso, obrigada Jorge Navarro, mais uma sugestão brilhante.



Este livro de Shirley Jackson, editado em Portugal pela mão da Cavalo de Ferro, está destacado como um dos 10 melhores romances da literatura norte-americana. Se isso não bastasse, juntam-se prémios e distinções dadas à vasta obra deixada pela autora, só esperamos que publiquem mais. Porém, junta-se a isto uma capa misteriosa e uma sinopse que atraí o leitor para as primeiras páginas e estas jamais o largam, já que o início é arrebatador.

ora vejam:

«Chamo-me Mary Katherine Blackwood. Tenho dezoito anos e vivo com a minha irmã Constance. É frequente pensar que se tivesse tido um pouco de sorte poderia ter nascido lobisomem, porque o anular e o dedo médio das minhas mãos têm o mesmo comprimento, mas tive de me contentar com aquilo que tenho. Não gosto de me lavar, nem de cães ou barulho. Gosto da minha irmã Constance, de Ricardo Coração de Leão e do Amanita phalloides, o cogumelo da morte. Todas as outras pessoas da minha família estão mortas.»

Ilustração: Amanita-Phalloides by Sobii, in Devian Art

Merricat, pequena porção que sobrou da família Blackwood, contorna obstáculos, mentais e não só, para se deslocar semanalmente à aldeia. Sob o olhar dos conterrâneos é ostracizada e o negrume acompanha cada uma destas viagens.
Se neste ponto, o mistério da morte de toda a família Blackwood já nos intrigou, estas viagens tenebrosas, adensam ainda mais tal mistério.

Se reconhecemos em Merricat uma personagem austera, misteriosa e obsessiva, recheada de ideias de morte e de mezinhas que espera que resultem em protecção, uma segurança ingénua, como berlindes enterrados ou livros pendurados em árvores, num prenúncio de afastar presenças indesejadas. Reconhecemos em Constante (mais uma porção sombria e sobrevivente da morte colectiva dos Blackwood) traços de agorafobia, protegendo-se por sua vez com plantações, conservas e compotas e um cuidado extremo com Merricat e um tio acamado. As idades das irmãs são meramente cronológicas, já que não se reflectem nos seus actos e atitudes.

A casa esconderijo, a casa protectora, refugio das maldades da sociedade é corrompida pela chegada de um parente afastado, supostamente bem intencionado, Charles vem destabilizar a harmonia e criar mais fissuras no entendimento da realidade, já tão difícil a estas duas personagens trágicas e perturbadas.

A narração é célere e despreocupada com o julgamento alheio, sendo o que brilha neste enredo. Ora estamos a adorar os diálogos surreais entre irmãs, como estamos a odiar os aldeões ou estamos a sonhar entre os cheiros rurais e as compotas de Constance. Mas também somos capazes de sentir o frio gélido das decisões envenenadas pelo medo da mudança, que tanto aterroriza Merricat...

Uma história que cruza o medo do desconhecido e a suspeita pelo o Outro, afirmando a dificuldade do viver em sociedade, segregando o espaço que falta para a diferença. O ambiente é hostil, subjugando assim atitudes que não se entendem para o campo da anormalidade. Há também o peso dos segredos e o combate às emoções. Sem esquecer o medo, talvez mais do que tudo, seja o medo dos segredos que se encerram em cada personagem que nos faz avançar neste livro, sempre a mãos com uma angustia enorme, temendo o desfecho e a ignorância da justiça pelas próprias mãos.

A meu ver, é um enredo deliciosamente negro, angustiante, mas extremamente bom, que nos permite entrar nos distúrbios mentais, tendo como mapa uma relação familiar perturbante, num ambiente rural místico e uma casa quase com propriedades humanas. Um relato brilhante sobre a condição humana que não deixará nenhum leitor indiferente.

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