quarta-feira, 20 de novembro de 2013

«A Desumanização» de Valter Hugo Mãe - Opinião

«Um homem não é independente a menos que tenha a coragem de estar sozinho.»
Halldór Laxness, Gente Independente 

«A Desumanização» Edição Porto Editora, saiba mais aqui


E você, será capaz de estar sozinho para ler este livro?
Não se trata propriamente de um livro assustador ou de terror, mas pode aterrorizá-lo e desumanizá-lo um bocadinho. E utilizar o diminutivo é apenas para reduzir a elevada dor e angustia que atormenta, a já atormentada vida de Halldora.

«A Desumanização» são as sobras, as dores, as perdas, os terrores de ficarmos sobreviventes da morte. A morte dos outros mata-nos. Apesar de estarmos todos a morrer, a morte de alguém que amamos e que nos completa, mata-nos mais um pouco e deixa um buraco, um fosso, uma negritude que não se ilumina. Uma profunda tristeza que levaremos para o dia-a-dia e que nos envergonha cada vez que sorrimos e nos redimimos da dor, querendo avançar na vida.

É este o retrato com que Valter Hugo Mãe emoldura a solidão de caminharmos na vida sem um ente querido. No caso de Halldora, a perda da irmã gémea, Sigridur faz dela a metade menos morta da criança plantada. A ideia dos corações dos mortos como caroços na terra, semeiam uma certa bizarrice, mas não deixa de ter um certa inocência de explorar um tema tão misterioso e tabu quanto a morte surge quando se é criança. Agora imaginem quando a morte nos leva o nosso espelho, o gémeo, a outra metade de nós, igual a nós, aquela parte intrínseca e que nos completa.

Para além do peso da morte da irmã, Halla carrega o peso de sobrar para uma mãe atormentada pela dor de ver em Halldora a imagem constante do que a vida lhe roubou. A dor maior, a perda de um filho é aqui violentamente exposta por imagens muito fortes. A dor física como purga da dor invisível que nos mata por dentro, é mais dolorosa ainda quando feita no corpo do outro e este outro é a criança. É logo nas primeiras páginas que vemos uma mãe perturbada ferir-se e ferir quem deveria proteger. Desumanizem-se, se assim precisarem. Soltem-se da imagem mental que fica, mas leiam. Leiam até ao fim.

"Quem sepulta um filho não tem idade. Está para lá das idades, para lá dos tempos." (pág. 131)
"Em sobrar estava a oportunidade de prosseguir e de alguma vez ser feliz." (Halldora, pág. 159)

A terra como comedora da felicidade. A Islândia como um corpo pulsante. Deus está na Islândia, a Islândia é deus! A ideia da terra e do papel dos mortos debaixo da terra é, a meu ver, dado como metáfora para o quanto as raízes e a nossa posição geográfica condicionam a nossa visão da vida, aliás a nossa visão do mundo. O gelo e as temperaturas negativas talvez justifiquem a tal desumanização? Sempre que nos defendemos e criamos estratégias para lidar com os outros, ultrapassando-os, desumanizamo-nos? Serão essas defesas altas barreiras como as montanhas, afastando-nos, estratificando-nos uns dos outros?
E se nos afastarmos, quando perdemos o outro, sofremos menos!?

São inúmeras as questões que as metáforas e os jogos de palavras, tão visuais, levantam nesta sua viagem e homenagem à terra dos fiordes. Como a própria criança afirma, "Os livros eram ladrões. Roubavam-nos do que nos acontecia. Mas também eram generosos. Ofereciam-nos o que não nos acontecia." (pág. 63) E este livro é isso mesmo uma utopia de chegar ao outro e quebrar a barreira, é uma oferenda. Um enredo ensanguentado, que nos faz pensar a solidão, que o autor acredita ser de todos nós (entrevista no Bairro Alto, aqui).

"A poesia é a linguagem segundo a qual deus escreveu o mundo. (...) Onde há palavra há deus."
Se deus está na Islândia e a Islândia está neste livro, então este é um livro sobre deus!? Talvez seja uma tentativa de desumanizar a morte e o encontro com deus... talvez! Mas isso caberá a cada um de nós sentir o que esta leitura nos traz.

«Queria proteger contra o esquecimento. A maior vulnerabilidade do humano, a contingência de não lembrar e de não ser lembrado.»
Valter Hugo Mãe, “A Desumanização”

7 comentários :

Philipa Amaral disse...

Clap clap clap...impossivel não ficar cheia de vontade de passar este livro á frente dos 200 em lista de espera.
Muito boa a critica.
;)

EfeitoCris disse...

;)

faz isso, que fazes bem!

Carlos Faria disse...

O livro parece-me interessante, o artigo reforçou-me essa ideia, mas nas obras que li de VHM a esperança e o humanismo eram válvulas para a sobrevivência...
Em desumanização, quer pelo título quer pelo que li, quer pelo País de Haldór Laxness, não sei se não estou perante uma obra deprimente onde o desespero tudo sufoca.

D disse...

Feliz ou Infelizmente recebi 2 destes no Natal, tenho um talão para trocar um deles, mas não sei por que livro trocar. Já acabei de ler a Desumanização, (o meu primeiro livro de VHM), adorei a escrita enérgica, seguida, sem grandes pausas. As ilusões, utopias e pensamentos, que todos nós, enquanto crianças, provavelmente tivemos, apesar de, como VHM retrata Halla ser uma criança diferente. Gostei do género, mas preciso de uma sugestão.

EfeitoCris disse...

Carlos Faria, um pouco, sem dúvida. O sofrimento pauta e dita o curso do livro, mas a meu ver, vale a pena esse olhar, para ver também outras coisas.

EfeitoCris disse...

D,

troca por outro do VHM, terminei agora num espaço de dias, dois dele:
«a máquina de fazer espanhóis» e "o Apocalipse dos trabalhadores» e a meu ver a máquina supera a desumanização.
quando puder leia também «o filho de mil homens»

Anónimo disse...

Ainda não li o livro, mas achei o comentário muito bem feito!