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quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

Breviário das más inclinações, de José Riço Direitinho - Opinião

De meados da década de 90 chega-nos este Breviário das más inclinações, de José Riço Direitinho, reeditado em 2012 pela Quetzal e chegou-me pela mão de um amigo, a propósito da ruralidade e do voltar às origens enquanto falávamos do livro «Cornos da Fonte Fria» de Abel Neves.

Se a ruralidade do livro de Abel Neves tinha sido apreciada, também os eventos insólitos que caracterizam vidas um tanto surreais são do meu agrado, como foi o caso com a personagem Álvaro Cobra de Carlos Campaniço. Dentro deste género, o qual apelidam de realismo mágico, também já tinha lido alguns livros de Afonso Cruz que me despertaram para o género, bem como "O remorso de Baltazar Serapião" ou "O nosso reino" de Valter Hugo Mãe.

Isto para dizer que ter descoberto este livro foi como ter descoberto a fonte, a essência, o verdadeiro. Não digo isto apenas em função da escrita e da peculiaridade dos detalhes do realismo mágico, mas sim em função do personagem. Conhecer este alter ego de Riço Direitinho, como José de Risso foi sem dúvida o meu personagem favorito em relação a todos os outros dos títulos anteriores.

Há aqui uma mistura meio demente entre religião, paganismo, história local, enamoramento pela ruralidade e natureza e ainda todos os detalhes de cura pela terra, pelas raízes, como se todo o livro fosse um receituário... mesmo que de más inclinações.

Há também a necessidade de compilar todo um histórico, maioritariamente oral e quase ancestral, como que querendo manter vivas as tradições que com a celeridade dos tempos se vão perdendo entre gerações.

"(...) não acreditou que estivesse grávida, mas que a ausência do sangue se devesse a qualquer desarranjo, ou a ter olhado para dentro do forno enquanto o pão crescia."

Nascido no dia de São Bartolomeu, carregava o peso de uma marca de nascença que sangrava e fazia dele um condenado. A fama de José de Risso correu romarias, foi tão afortunado como desgraçado e toda a sua vida se resumiu no que projectou nas gentes da terra.
Nascera condenado, isso toda a gente sabia!

Vilarinho dos Loivos não esqueceria José de Risso. Entre abluções, rituais e superstições, as gentes da terra aprenderam a colocá-lo à margem, mas a chamá-lo quando era preciso...
"(...) fará mezinhas curadoras dos males do corpo e do juízo."

Por entre maleitas do corpo e do juízo, José de Risso luta para equilibrar as suas atitudes, ora beneméritas ora devastadoras.
"(...) um olhar matreiro e de más inclinações, a puxar o sentido para as porcarias."
Por entre algumas dessas "porcarias" e fraquezas da carne humana e outras actividades ilícitas, notamos a dualidade do personagem. O dom para salvar os outros, mas também como sentença para o mal e a errância no seu caminho.

"O resto foi fácil; a morte dos outros é-nos geralmente fácil quando nos são indiferentes. Até a nossa própria morte nos é fácil quando nos tornamos indiferentes a nós mesmos. É esse o nosso último passo: tornarmo-nos indiferentes à vida. Isso chega."

José Riço Direitinho merece todos os louvores por ter compilado este breviário com conhecimentos profundos que revelam os hábitos das gentes do campo, sem perder o polimento literário necessário de saber contar um boa história. Tem os detalhes adequados na hora certa e sem adensar demasiado a narrativa, mantendo assim o leitor agarrado pelos gorgomilos aspirando a saber o que acontece até ao padecimento final.

"- Há sangue que só traz desgraças à terra onde se derrama, há sangue que é de muito má natureza e esse todos dispensamos que se entorne e empape o pó da terra. (...) A demência é uma grande virtude, mas nunca se deve usar em demasia..."

Arrisco-me a dizer que todos deviam ler esta preciosidade, repleta de cheiros, folhas, paisagens, tradições, gentes, palavras... tanto mais. Deixem-se embrenhar.


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