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sábado, 25 de fevereiro de 2017

«Laços de família» de Clarise Lispector - Opinião

A minha relação com a escrita da Lispector começa há alguns anos quando tentei ler o seu primeiro e aclamado romance, «Perto do coração selvagem». Foi uma relação de curta duração. Curtíssima. No momento só me cansou e confundiu e abandonei rapidamente. Mais tarde, um par de anos depois, por oferta e sugestão, tentei «A paixão segundo G.H.», desisti também. Para mim a Lispector era uma autora indecifrável, fragmentária, carregada de metáforas incompreensíveis e o mundo misterioso, psicótico e íntimo das mulheres também não me conquistou, só via frustrações, relações desconexas e achei a escrita estranha e depressiva. 

Mais anos passaram e eu nunca mais voltei a esta brasileira que marca uma viragem na Literatura Brasileira Moderna. Por isso era tempo de voltar e a oportunidade surgiu a propósito da participação no Grupo de Leitores de Alverca (GLA) que se iria debruçar sobre este «Laços de família»

*

A leitura de «Laços de família» decorreu, mas nem por isso me conquistou. De entre os vários contos que compõem este pequeno livro, li «Devaneio e embriaguez duma rapariga»; «Amor»; «Uma galinha», «O Jantar»; «Os laços de família»; «Começos de uma fortuna» e já depois da sessão da comunidade de leitores decorrer fui ler, «A menor mulher do mundo», portanto li metade da colectânea e apesar de ter ficado com uma maior noção da sua escrita e dos temas que aborda e pelos quais é destacada, não será uma autora na qual pegarei com facilidade. 

Reconheço que somos bem capazes de ficar intrigados e desafiados para continuar a leitura, na esperança de apreender o sentido de cada conto, no entanto, os fragmentos que parecem surgidos do nada, as mudanças inesperadas, os devaneios de algumas personagens ou a repetição de sentimentos e episódios como a depressão, a dúvida, a solidão ou o caótico que são as relações familiares, talvez perturbem a leitura ou pelo menos a continuidade da mesma.

Em todos os seus contos há um misto de sentimentos que revelam a solidão de cada personagem e o quanto a mesma se controla por não extravasar as suas crises mais profundas e que seriam reveladoras de preocupações que não se identificam na personagens pelos seus pares. Ou seja, nos primeiros contos, temos duas mulheres supostamente confortáveis e acomodadas à sua vida familiar e doméstica, no entanto, pelas divagações percebe-se a luta interna em que ambas vivem. A forma como a autora aponta o trabalho doméstico ou o regresso a casa como formas de limpar os pecados ou os transtornos aponta numa direcção que mais tarde ou mais cedo, as crises e a explosão das necessidades daquelas mulheres, vão acontecer.
Na mesma linha temos o conto «Laços de família», onde Catarina, após a saída da mãe se vê muito mais altiva e confiante, pois já está sozinha. Daí eu apontar a solidão como uma temática transversal. Porém, é uma solidão que nos deixa divididos, será uma solidão que as move num sentido de se fortalecerem enquanto mulheres ou de as fragmentar e provocar crises emocionais!?

No caso do conto «A galinha» que confesso, fui reler, julgo ver traços, muito subtis, de alguma preocupação com a questão da maternidade, como se esse estado conferisse à galinha, metáfora para mulher, um momento mais seu, de espaço próprio, ainda assim, com o passar do tempo... tudo muda. Pode ser esta a interpretação, como pode ser a de uma critica social. E talvez isso seja um dos melhores traços da escrita de Lispector, a panóplia de sentidos e de discussões que se pode ter em torno dos seus contos.

Numa análise ainda mais esmiuçada, vemos que a autora recorre a elementos que são constantes entre contos, como por exemplo os espelhos, as senhoras de chapéu, o sonho, o sono ou a insónia, as personalidades dominantes dos maridos, o peso das senhoras (que pode ser o "serem gordas" ou o peso que carregam ao serem mulheres), o devaneio, a lida doméstica, uma determinada hora do dia que se torna perigosa ou ainda a importância de observarmos os outros. Neste caso particular, centrado na observação dos outros temos o conto, «O jantar», que de todos os que li é o único que tem um narrador masculino e isso deixou-me a pensar se um homem observaria e retiraria todos aquelas ilações estando ele a observar outro homem!? Para mim é dos contos mais intrigantes e mais detalhados e com menos devaneios, a não ser o final, que neste caso é mais, julgo eu, metafórico e do qual é difícil retirar um sentido que justifique aquele final.

Ainda assim, Lispector escreve com um polimento muito interessante e consegue em poucas linhas dar profundidade, tanto às suas personagens como aos momentos e ambientes que cria.

"Em que momento é que a mãe, apertando uma criança, dava-lhe esta prisão de amor que se abateria para sempre sobre o futuro homem. 
(...)
Depois ninguém saberia de que negras raízes se alimenta a liberdade de um homem."

"(...) numa intimidade de corpo há muito esquecida, vindo do tempo em que se tem pai e mãe. Apesar de que nunca se haviam realmente abraçado ou beijado. Do pai, sim. 
(...) Como se "mãe e filha" fosse vida e repugnância. Não, não se podia dizer que amava sua mãe. Sua mãe lhe doía, era isso."

"Todo o seu desejo vagamente artístico encaminhara-se há muito no sentido de tornar os dias realizados e belos; com o tempo seu gosto pelo decorativo se desenvolvera e suplantara a íntima desordem (...) a vida podia ser feita pela mão de um homem."

"A vastidão parecia acalmá-la, o silêncio regulava sua respiração. Ela adormecia dentro de si."

Talvez seja isso, relatos de pessoas que foram adormecendo dentro delas mesmas e de, de vez em quando, despertam e vivem momentos de angústia, desequilíbrio e tormento enquanto buscam por algo que perderam, mas talvez sem saberem muito bem o quê ou onde, perderam.




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