quinta-feira, 18 de abril de 2019

«Princípio de Karenina» de Afonso Cruz :: Opinião



O princípio de Karenina ou a imperfeição que é querer medir a felicidade. 


"A imperfeição salvar-me-ia com igual intensidade e na mesma medida com que me faria sofrer"

É nesta medida dúbia, tendo na imperfeição a salvação, que um homem narra a sua história, numa longa carta de apresentação, à filha que não viu crescer. Explicando-lhe "uma orientação invisível e subtil das nossas vidas através dos afectos", mas também o drama de ter medo do desconhecido e como isso limita o tamanho do mundo; mundo esse sempre estrangeiro como o das mulheres que mais amou.

Essa aversão ao estrangeiro, as costas voltadas ao infinito que é uma janela aberta e toda as fronteiras que mais parecem muralhas, são heranças que cedo sabemos lhe terem ficado do pai. Heranças angustiantes, marcadas por sentimentos fortes que o sufocaram durante décadas. 

"Lembro-me muito bem dessa refeição em que o Dr. Vala disse à mesa que as batatas vinham da América do Sul. As emoções, positivas ou negativas, são uma máquina de impressão. Todos os acontecimentos tendem a desvanecer-se, mas a emoção grava-os na pedra da realidade, da nossa realidade (...) O cheiro das batatas cozidas estragava-me o nariz, (...). Olhei de soslaio para o meu pai, tentando perscrutar alguma reacção sua que confirmasse aquilo que eu acabara de perceber, a imoralidade de certa comida que mastigávamos e engolíamos (...)
- O que é que se passa? O menino está pálido.
Estava, efectivamente. Como se enfia na boca uma coisa de tão longe, com um oceano pelo meio, como se mastiga aquela distância toda?"

É essa distância, difícil de mastigar e, mais ainda de engolir, que o assombrou a vida inteira. Vida essa falsamente protegida pela imponência dos muros da moralidade, pregada entre gerações como estandarte contra o Mal.

"Um herói ou um santo só existe se confrontado com o Mal, só existe depois de emergir ileso da barbárie, e eu queria ser um santo como os que ouvia na missa e admirava nos nichos de pedra e nos frescos da igreja."

Para além dos santos, também a mãe vivia encerrada nesses nichos. Temente, ausente e de poucas palavras, constantemente esmagada entre a forte personalidade do marido e "a necessária encenação social que nos mantém coesos enquanto comunidade".

São entre estas personagens e outras pontuais que vamos conhecendo a história deste homem e de uma mulher vinda de geografias longínquas. Conhecemos-lhe o amor e os medos e questionamos atitudes de decisões de quem esteve mais perto de uma felicidade maior e a deixou fugir. Será mesmo assim? 
Este, como todos os livros de Afonso Cruz, faz-nos olhar para dentro. São frases pequenas, que parecem simples e que nos arrebatam, puxando-nos para dentro, numa tentativa de perceber mais o que metemos para fora. 
E a certa altura, numa conversa entre miúdos, concluímos que onde não há flores há caminho E que o medo nos pode fazer coxos da cabeça, deformando-nos. E que mesmo deformados encontramos um atalho para a vida.




sexta-feira, 12 de abril de 2019

O Arquipélago do Cão» de Philippe Claudel - Opinião


Um livro SEXTANTE

Pode este arquipélago usar a intensidade sufocante da ilha para se tornar num bom thriller? Philippe Claudel diz que sim e afirma ainda que a investigação atravessa toda a narrativa, não para se desvendar o crime, mas para revelar a mesquinhez e a passividade que altera os homens bons em seres medíocres e corruptos. 

"A morte dos três jovens negros não ocorrera na ilha. O mar abandonara-os na costa como se fossem madeiras que flutuavam. Ninguém os conhecia e as suas vidas de outrora nunca tinham tido qualquer contacto com as vidas dos habitantes da ilha. Só a morte os fizera cruzarem-se, mas isso não era uma razão suficientemente forte para que o quotidiano dos vivos fosse afectado." 

"O Cão está ali (...). Preparado para retalhar a imensidão azul-cobalto, longa e pálida, que o mapa cobre de números, que indicam as profundidades (...). As suas mandíbulas são duas ilhas encurvadas, a sua língua também, e os seus dentes, uns pontiagudos, outros maciços, outros afiados como punhais. (...) A vida na ilha provém do vulcão (...) Chamam-lhe o Brau. O nome tem uma sonoridade bárbara (...)"

«O arquipélago do cão» serve-se da parábola para figurar a actualidade da emigração e apontar o dedo à inércia de uma Europa envelhecida. O autor avisa-nos e coloca-nos naquele local, afirmando que fazemos parte dele. No entanto, a solidão árida e típica da ilha, envolta no odor a peixe e na miscelânea de cheiros de um vulcão adormecido pode não ter esse impacto no leitor.

O Cão, desumanizado pelas estações agrestes e pela emigração, simboliza uma comunidade de pessoas que estão conformadas e acomodadas à vida que levam, por isso, o autarca, o padre, a velha professora e os pescadores encarnam mais do que uma personagem, eles são o espelho das camadas da sociedade. Serem anónimos é o que lhes confere transversalidade, para que o leitor encontre semelhantes e desvende as metáforas inerentes às suas palavras, descrições e atitudes. 

"- Que querem que vos diga? Pensam que porque sou padre sei mais do que os senhores? (...) Se me fizessem perguntas sobre abelhas, poderia responder-lhes (...) - Aprendi muito com elas e o milagre do mel continua a deslumbrar-me. Se Deus existe está no mel! Foi isso que descobri em sessenta e nove anos de vida e cinquenta de sacerdócio. (...)
A religião cansava-o. Havia quem pensasse que ele próprio já não acreditava muito nela. Continuava a fingir, para não abandonar as suas últimas ovelhas, que, porém, chocara um dia durante o sermão, ao dizer-lhes que Deus partira, num regime de pré-reforma. (...) Está num processo de cessação progressiva de actividade. E a culpa é nossa."

Sempre a culpa. A tragédia grega envolta em culpa cristã. E se até Deus rescinde que sobra àquela comunidade? Um apelo à consciência? Ou um elemento que os venha espicaçar? ... sob a aparência de funcionário dos correios dormita uma moreia... e o que virá ela caçar com o seu olfacto apurado?

quarta-feira, 10 de abril de 2019

«Até ao fim do mundo» de Maria Semple :: Opinião


"Numa colina de Seattle, de onde se avistam ferry boats a deslizarem como caracóis na água, uma mãe peculiar, Bernadette Fox, evita conflitos e batalhas de melgas, que ela esmagaria só com um esgar e o seu toque de insólito. Com isso e com cartazes gigantes que deslizam em avalanches de lama.
INSÓLITO?
A maioria dos acontecimentos deste livro são insólitos e excêntricos!
A EXCENTRICIDADE cai aqui nas páginas deste livro como chuva, que tipicamente, cai em Seattle.

Mas passemos ao enredo. Bernadette comanda este show de marionetas peculiares. Manjula, a secretária virtual, sediada algures na Índia está encarrega de organizar uma viagem idealizada por Balakrishna ou Bee, a filha de Berdanette e do guru da Microsoft. Juntos, em família, eles pretendem chegar à Antártida, mas antes há que desmistificar o tumultuoso Estreito de Drake que já existe entre eles.
Isto tudo sem esquecer o naipe de estarolas que é a comissão de pais do Colégio Galer Street, especialmente com Soo-Lin Lee-Segal e Audrey Griffin, as melgas de eleição. 

Bernadette é louca? Talvez.
A sua filha é excêntrica? Pois claro. Vá lá ser-se de outra forma com uma mãe destas.
Bernadette é genial? Isso é de certeza. E o projecto Vinte Milhas (que gostava de perceber se existe!) é uma ideia maravilhosa e genial.

«Até ao fim do mundo» é uma leitura obrigatória? Não é, mas devia!
E o título também devia ter respeitado o original. «Para onde foste Bernadette?» é o enredo mais presente, já que esta mãe tem mais do que uma fuga em curso. Eu sei que a Antártida pode ser o fim do mundo, mas a viagem desta família começa dentro de casa, nas dinâmicas familiares e nas suas fugas excêntricas, mas iguais a tantas outras.

Se o enredo é estranho? Totalmente. Tal como a organização das vozes que o narram e o tipo de texto que usam, desde e-mail's a relatórios. Mas é tudo muito bom e faz uso da excentricidade da melhor forma possível. Maria Semple tem o dom da criatividade e suga o leitor para esta história louca e imparável. E sem esquecer um roteiro musical que acompanham mãe e filha, que estava a passar por uma fase «Abbey Road». 

"Quando começou «Here comes the sun», o que é que aconteceu? Não, o sol não apareceu, mas a mãe abriu-se num sorriso como o sol a trespassar as nuvens. Sabem como nas primeiras notas daquela canção há algo na guitarra do George que é tão cheio de esperança? Era como se, quando a mãe cantou, também ela estivesse cheia de esperança. Até acertou nas palmas irregulares durante o solo de guitarra (...) Por isso, quando chegou àquele medley fabuloso, a mãe e eu cantámos a acompanhar «You never give me your money» e depois «Sun King», que a mãe sabia, mesmo a parte em espanhol, e ela nem sequer sabe espanhol (...)


terça-feira, 2 de abril de 2019

Dia internacional do livro infantil


ilustração de Abigail Ascenso


DIA INTERNACIONAL DO LIVRO INFANTIL - 2 DE ABRIL
A 2 de abril, comemora-se o nascimento de Hans Christian Andersen e foi a partir de 1967 que este dia ganhou o título de Dia Internacional do Livro Infantil, inicialmente a sua comemoração era responsabilidade do IBBY Internacional, mas mais tarde foi alargada a as instituições que queiram chamar a atenção para a importância da leitura e dos livros para a infância, como é o caso da nossa DGLAB
Para celebrar o Dia Internacional do Livro Infantil em 2019, a DGLAB convidou a ilustradora Abigail Ascenso, vencedora de uma Menção Especial do Prémio Nacional de Ilustração do ano passado, para ser a autora da imagem do cartaz. 
Sobre a ilustradora:
Abigail Ascenso nasceu em 1979, em Leiria. Licenciada em Design de Comunicação/Arte Gráfica pela Faculdade de Belas-Artes da Universidade do Porto, fundou em 2003, com Fedra Santos, o atelier Furtacores Design e Comunicação, onde tem desenvolvido trabalho nas áreas de design gráfico, fotografia e ilustração infantil. Tem realizado exposições individuais de ilustração infantil e participado em colectivas de pintura. Com o livro Gaspar, o dedo diferente (texto de Ana Luísa Amaral), participou na mostra «100 Livros para o Futuro» promovida pela DGLAB na Feira do Livro Infantil de Bolonha em 2012. Ilustrou já mais de uma dezena de livros para os mais novos. Em 2018 recebeu uma das duas Menções Especiais do Prémio Nacional de Ilustração com o livro “A Noite”, com texto de Manuel António Pina.
Todos os anos é nomeado um país responsável pela mensagem e cartaz internacionais e em 2019 ficou a cargo da Lituânia, o texto e o cartaz são do escritor e ilustrador Kęstutis Kasparavičius. A tradução é de Maria Carlos Loureiro, directora dos serviços da DGLAB e que traduziu recentemente «Depois do Divórcio» da Nobel da Literatura Grazia Deledda (Sibila Publicações). 

OS LIVROS CONVIDAM A UMA PAUSA 

“Tenho pressa! … Não tenho tempo!... Adeus!...” Eis aqui expressões que ouvimos quase todos os dias, provavelmente não apenas na Lituânia, no coração da Europa, mas um pouco por todo o mundo. E também com frequência se ouve dizer que vivemos numa época de excesso de informação, de pressa, de aceleração. Mas quando pegamos num livro, sentimo-nos logo diferentes. É como se os livros tivessem uma característica maravilhosa: ajudam-nos a relaxar. 

Abrimos um livro, mergulhamos nas suas profundezas tranquilas, e esquecemos o medo de que tudo passe ao nosso lado a uma velocidade vertiginosa, não nos permitindo ver o que quer que seja. O livro faz-nos acreditar que podemos abandonar as tarefas aparentemente urgentes. Nele, tudo se passa calma e silenciosamente, segundo uma ordem pré definida
Será porque as suas páginas são numeradas, e porque o virar das folhas, uma após outra, produz um murmúrio tão calmo, tão leve? 

Num livro, aquilo que é já passado encontra-se docemente com o que está ainda por chegar. 
O mundo do livro é um mundo aberto; nele, a realidade convive com a fantasia e com a imaginação. E às vezes não sabemos bem onde observámos - se no livro, se na vida - a beleza dos pingos de neve que escorrem do telhado da casa, ou do musgo que cobre a cerca do vizinho. 

Terá sido no livro ou na vida que provámos as bagas silvestres e percebemos que, apesar de bonitas, são igualmente amargas? E foi no livro ou na vida que um dia te deitaste na relva, ou te sentaste depois, de pernas cruzadas, contemplando o movimento das nuvens que atravessam o céu? 

Os livros ensinam-nos a abrandar, ensinam-nos a observar; os livros convidam-nos, obrigam-nos quase a estar sentados. Sentamo-nos para ler um livro, poisamo-lo numa mesa ou nos joelhos – é ou não assim?! E será que nunca sentiram outro milagre? É que quando leem um livro, ele também vos lê. Sim, os livros também sabem ler. Leem a vossa testa, as sobrancelhas, os cantos dos lábios, que sobem, que descem, mas sobretudo, claro, leem os vossos olhos. E através dos olhos, eles veem… bem, todos sabemos o que eles veem! 

Tenho a certeza de que os livros poisados nos vossos joelhos não se aborrecem nem um minuto. É que quem lê – seja criança ou adulto -, é só por isso muito mais interessante do que aquele que resiste a pegar num livro, que está sempre com pressa e nunca se senta, e jamais tem tempo de observar seja o que for à sua volta. 

No Dia Internacional do Livro Infantil, o meu maior desejo é que existam livros interessantes para os leitores - e leitores interessantes para os livros. Kęstutis Kasparavičius (Trad. Maria Carlos Loureiro)

terça-feira, 19 de março de 2019

«Numa casca de noz» de Ian McEwan - Opinião

"O útero, ou este útero, não é um lugar tão mau quanto isso; assemelha-se ao túmulo, «agradável e privado», num dos poemas favoritos do meu pai.
Eu sei. Os sarcasmos não ficam bem a um nascituro."


Um nascituro "de pernas para o ar dentro de uma mulher" é o narrador deste relato ácido, peculiar e humorístico. O narrador-feto tem uma presença omnipresente e um lugar privilegiado garantindo-lhe saber dos acontecimentos em primeiríssima mão. McEwan consegue, com descrições brilhantes das personagens e de alguns acontecimentos, envolver o leitor nesta massa insólita e alimentar a sua curiosidade, apesar do tem banal do adultério.

"(...) Ouvi dizer uma vez e registei: um parolo de cérebro embotado. As minhas perspectivas tornam-se sombrias. A existência dele impede as minhas legítimas reivindicações a uma vida feliz ao cuidado dos dois progenitores. (...) 
E o Claude, como uma mosca volante (...) Nem sequer é um oportunista colorido, nem apresenta o mais leve indício do patife sorridente, (...) insípido para além da invenção, e de uma banalidade tão requintadamente trabalhada como os arabescos da Mesquita Azul."

Juntamente com Claude, Trudy a desleal, é a mãe deste narrador e congeminam um crime passional: matar John, marido, irmão e pai deste narrador ainda por nascer. 
Sim, leu bem, tal como em «Hamlet»  A mãe tem um caso com o cunhado, o irmão do marido. Tudo nesta noz tem traços de tragédia clássica. Aliás, o marido, é um poeta falhado, um ser envolto em neblinas de tristeza que declama o seu amor sob a forma antiquada de um soneto. Por outro lado, Claude, é um palerma, um parolo, um néscio, podendo-lhe ser atribuído título de bobo da corte.

Mas voltemos ao narrador, já que tudo à sua volta é caótico, desde os planos a que assiste à casa imunda onde a mãe e o tio habitam ou o seu mundo amniótico bem regado a copos de vinho que facilmente passam o ponto da degustação e podcasts sombrios que o vão educando para o estado do mundo.

"Todas as fontes concordam que a casa é imunda. Só lugares-comuns a definem bem: delapidada, a descascar-se, a desmoronar-se. A geada por vezes gela e torna rígidas as cortinas do Inverno; com as grandes chuvadas, os esgotos, como bancos de confiança, devolvem os depósitos com juros (...9"

Melhor que o argumento é a maneira como McEwan o expõem ao leitor. É brilhante a acidez e humor negro com que o descreve, deixando o adultério e até o crime para segundo plano, conferindo ao narrador preocupações existenciais e avaliações criticas do que o rodeia.

"Portanto, estamos sozinhos, todos nós, até eu, cada um a percorrer uma estrada deserta, transportando ao ombro, numa trouxa atada a um pau, os esquemas e os diagramas para um progresso inconsciente.
É um peso excessivo para suportar, demasiado sinistro para ser verdade. Porque havia o mundo de ser apresentar sob uma forma tão dura?"

O narrador é requintado e pejado de carácter, é um ser critico, mordaz e necessariamente dramático:
"Que me envenenem ao teu lado em vez de me entregarem em qualquer sítio
Típica auto-complacência de terceiro trimestre (...) Se a hipocrisia é o único preço, compro a vida burguesa e considero o preço barato. (...) e o meu direito é ao amor de uma mãe e é absoluto. Não vou dar aval às suas maquinações de abandono. O exilado não serei eu, mas ela. Vou atá-la com esta corda fina, pressioná-la, no dia do meu nascimento, com o olhar atordoado de recém-nascido e um lamento de gaivota solitária para lhe arpoar o coração."

Esta visão ampliada da realidade, proporcionada pela membrana reveladora é constantemente conseguida com ironia e erudição, ou não fosse a linguagem de McEwan o melhor deste romance ao conseguir dar a este personagem-narrador-feto-provocador camadas e camadas e personalidade.

"Nem toda a gente sabe o que é ter o pénis do rival do nosso pai a centímetros do nariz. Nesta última fase, deviam pensar em mim e conter-se. Se não em nome do parecer clínico, pelo menos por cortesia. Fecho os olhos, cerro as gengivas, apoio-me às paredes uterinas. (...) a cada movimento de êmbolo, receio que ele vá investir, perfurar o meu cérebro de ossos tenros e semear nos meus pensamentos a sua essência, a nata transbordante da sua banalidade. (...)
Como um sapo a copular, ele cola-se-lhe às costas. Em cima dela, agora dentro dela, e bem fundo. É muito pouco o que da minha mãe traiçoeira me separa do pretenso assassino do meu pai."



segunda-feira, 18 de março de 2019

«A Última Ceia» de Nuno Nepomuceno :: Opinião


"Os italianos chavamam-lhe Il Cenacolo. (...)
Todos a conheciam como A Última Ceia
(...)
Apesar do restauro recente, o estado de degradação não só era considerável, como notório. Partes do desenho inicial do desenho de Leonardo estavam desaparecidas, outras simplesmente tinham sido eliminadas, mas, quando a luz na sala diminuiu ligeiramente, provavelmente devido a uma nuvem que passava lá fora, Sofia deu por si maravilhada.
Pálidas carícias de cor, na sua maioria em tons pastel, ganharam vida perante si. Depois da entrada triunfal em Jerusalém, Jesus reuniu os apóstolos para uma refeição e previu, entre outras coisas, que um deles iria traí-lo. As grandes figuras dos discípulos agruparam-se à sua volta em conjuntos de retórica. Revoltados, gesticularam e argumentaram com uma emotividade nunca antes representada, escutados ao longe pelas montanhas que os espiavam através das janelas entreabertas."


Uma obra de arte icónica, um roubo que supera interesses monetários e uma história de amor fugaz repintam esta última ceia num tom enigmático e conferem-lhe um acabamento de thriller sofisticado. As descrições bem conseguidas e uma escrita que cativa pelo ritmo que impõe, conduz o leitor por uma viagem entre ruas, igrejas, galerias e obras de arte, como se ele próprio viajasse por Itália. E o leitor escolherá: ou vive intensamente a paixão recente entre Giancarlo Baresi e Sofia Conti, especulando as intenções de cada um ou se preocupa em desvendar a motivação por detrás do roubo de tal peça gigantesca e de valor incalculável. Independentemente da escolha, o leitor é sempre acompanhado por bons momentos literários, navegando ao longo de diversos períodos da História, tal como acontece nos últimos dois livros de Nuno Nepomuceno: «A célula adormecida» e «Pecados Santos». 

"Mas a arte é um conceito poderoso (...)
O povo hebraico achou a escultura de um bezerro de ouro tão impressionante, que resolveu venerá-lo tanto como a Deus. Luís XVI perdeu o trono devido, em parte, aos gastos excessivos que fez em quadros (...)
»A arte mão é um animal exótico que se guarde em cativeiro para que possamos admirá-lo todos os dias (...)"

A religião está sempre presente nos últimos livros de Nepomuceno, se bem que neste há um salto, cruzando religião e arte, tornando os crimes mais passionais, conferindo um tom airoso para falar do Cristianismo. Outro detalhe sempre bem conseguido é a forma como o autor aprofunda a vida dos personagens que se repetem e vêm pintalgando as três narrativas. Vemo-los surgir em cada um dos livros sempre com mais detalhes, como se cada um deles fosse um quadro em constante restauro, é assim no caso de Afonso (e de Diana), permitindo ao leitor acompanhar aquela história e os fantasmas que ficam adormecidos e, a quem que não leu os livros anteriores, a querer lê-los para entender determinadas acções dos personagens. 

Outro pormenor que tem marcado estas leituras são os relatos dos crimes ou das cenas de violência e é interessante ver como um autor evolui e com muito menos descrições consegue transmitir violência, pavor, angústia e medo, sem perder humor ou a capacidade de permitir ao leitor várias sensações numa só passagem. 

"O Tamisa serpenteava no meio dos edifícios vitorianos, mas eram os arranha-céus que mais se destacavam. O sempre ácido humor britânico batizara-os bem. Os ingleses chamavam-lhes The Gherkin - O Pepino -, The Cheesegrater - O ralador de queijo -, The Razor - A lâmina de barbear (...)
Antes de começar a falar, Richard lançou um último vislumbre aos arranha-céus. Curioso, era exactamente assim que se sentia, como um aperitivo cortado em pedaços e pronto a ser servido grelhado para o italiano degustar."


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terça-feira, 12 de março de 2019

«o escuro que te ilumina» de José Riço Direitinho - opinião


Tenho, necessariamente, de pessoalizar este meu texto sobre o mais recente livro de Riço Direitinho. Sou fã do autor e sigo muitas vezes sugestões de leitura comentadas por ele no Público. Por isso, e por ser fã do fabuloso breviário; só podia correr a comprar e, a ler, este novo livro perante o lançamento tanto alarido se fez. 
No entanto, ao lê-lo fui ficando escurecida com o que me esperava, página atrás de página. O tom encantatório que eu queria reencontrar, apenas me chegava por referências do autor e não pelas suas palavras.
Agora, volvidos mais de seis meses da sua leitura e por motivo deste texto, releio partes, umas ao acaso, outros marcadas e descubro-lhe uns traços que captaram a minha atenção e me puxam para o reler na íntegra.

*

O narrador, homem de meia idade e professor universitário, entediado com a rotina da vida, decide espiar a vizinhança e com os segredos dos outros expiar os seus males. Entretanto vai tecendo um diário e mina-o de referências e citações de outros autores. Se inicialmente me pareceu um exagero, agora em releitura acho-o um detalhe obrigatório para a personagem. Ossos do ofício!

"Contrariando o que disse Herr Nietzsche:
Não são os abismos que só por si nos atraem, são os nossos próprios precipícios que se iluminam com a visão desses outros abismos: dos teus."

Nesses abismos, ficamos logo a saber, existe um alvo: uma mulher, ser observado e desejado, para quem o narrador se dirige: escrevo como se me lesses. (...)
"Ficaram-me os olhos em ti na primeira vez que te vi (...) 
Não sei como exprimir a ideia.
Fui-te construindo: como quem constrói com objectos soltos uma infância que a vida fez esquecer (...)"

Desenamorado da vida, o professor avança compulsivamente com o telescópio e o acto de espiar rapidamente o ultrapassa. 

"As vidas dos outros, olhadas com distância, sempre me interessaram (...) interessam-me como histórias: matéria bruta: acasos. Não me prendem por aquilo que contam, mas pelo que possam esconder: (...) como algo que está ali diante de nós e que não se revela a um olhar distraído: que temos de descobrir: como deve acontecer nas boas histórias."

“O espaço doméstico, esse ringue de silêncios pactuados e de lutas mudas, pode ser o território mais difícil de habitar: mas é talvez dos poucos a que sabemos poder sempre voltar, e é isso que, de uma forma ou de outra, nos conforta e sobretudo nos protege.”

Eu não sei se Riço Direitinho consegue essa tal boa história, mas consegue escamotear as intenções do personagem que mais adiante no relato podem surpreender o leitor. Fugindo desse ringue doméstico e de forma tão ao acaso e quase natural, a vida evolui para a devassidão. 

"É verdade que, depois de termos deixado calcificar a vida (assim como acontece com as torneiras que já não abrem nem fecham, só pingam durante a noite - não, isto não é uma irónica metáfora sobre o sexo conjugal), precisamos quase sempre de um estímulo para ressuscitar."

Contrariando essa calcificação da vida, o professor ressuscita fantasias sexuais que compulsivamente segue, com bazófia e profusão, trazendo constantes descrições de cenas de sexo explícito para a narrativa.  

"A transgressão, mais do que libertar, conduz ao desejo: a fantasia é sempre um acto transgressor, necessário para todas as almas que acreditam - que acreditam no que quer que seja."

Se o personagem transgride fá-lo em plena consciência e coragem. Pode não a ter para a sua fantasia mais concreta: ela, a desejada, mas o abismo profundo da solidão revela-lhe lugares e noites de plurais onde se pode abandonar à libertinagem que Lisboa lhe oferecer e a partir daí detalha um guia com direito a códigos de conduta, dress code e localizações gps. 

"Há nas verdadeiras almas atormentadas um desespero existencial que passa para o sexo (...)"

E é isso, temos aqui uma alma atormentada e não se lhe conhecem mais motivos do que um amor angelical e platónico e umas quantas críticas à sua forma física, erotizando-lhe apenas a inteligência. No entanto, para além da solidão também o sexo é embutido na rotina: sexo desenfreado como catarse para esbater a solidão nos breves segundos de um orgasmo.

As repetidas jogadas sexuais, algumas roçando o ridículo (como a aluna que pede: “Foda-me o cu, professor! E vá declamando um soneto de Bocage." - que professor faz) tornam-se o «pão nosso de cada dia» e o relato vai perdendo intensidade. Repete-se o sexo explícito mas cheio de metáforas, a critica social é mordaz e inteligente, mas o que mais fica é que o sexo tanto exibe o mais moderno de cada um, como esconde medos, fracassos e o peso do envelhecimento. 

sexta-feira, 8 de março de 2019

«O meu amante de domingo» de Alexandra Lucas Coelho - Opinião


"Alguém com uma vingança nunca está só."


Há um "não sei o quê" que me puxa para os livros de Alexandra Lucas Coelho (ALC) que eu não sei o que é, mas que me leva a entrar neles adentro e só sair quando atinjo o fim. 
Encontro sempre personagens que têm um traço meu, neste claramente é a linguagem desbragada, como muitos me acusam de ter. A narradora consegue ser fulminante com alguns comentários e pensamentos tóxicos, no entanto, o tom que o romance leva, que se esforço por não querer parecer sério, faz-nos cingir essa linguagem à revolta e à fúria que aquela mulher sente e então passa a fazer sentido.

"Lá fui para a Bobadela à hora a que já estaria no centro de Lisboa a nadar, apurando a cada braçada o sofrimento mais adequado a um filha da puta criativo. Roda? Garrote? Esmagamento por pata de elefante? A vingança é muito subestimada até se manifestar (...)"

Neste "O meu amante de domingo" há uma mulher esmagada pela solidão imposta pelo árido Alentejo, sufocando-a num espaço aberto mas exíguo delimitado por um muro. E isso pode, e deve ser, metáfora para tanta coisa seja na vida desta personagem, seja nas vidas que lhe quisermos juntar. Isto para dizer que sinto sempre os livros de ALC como tratados sociológicos cheios de detalhes reais, mas que fogem para um campo surrealista pela riqueza com que a autora divaga e cruza referências. Aqui, a cabeça do autor viaja entre defuntos, vinganças, memórias póstumas e sexo sem compromisso entre viagens a Lisboa. 

"Porque confiei naquele cabrão? (...)
O decapitador dará a mão ao filho depois dos trabalhos do dia, talvez até lhe ensine como é isto de cortar cabeças, talvez lhe cante uma canção. Amor total e ausência de amor são quartos contíguos da mesma casa."

Todo o livros está pejado de referências, Machado de Assis, Nelson Rodrigues, entre outras que não Literatura, ainda assim, vemos que o foco central é a revolta de uma mulher que busca no sexo ocasional uma ligação para compreender que é no sexo que tudo conflui: nada nos aproxima tanto, título de um dos capítulos, resumo bem essa ideia. Sexo, paixão, revolta, vingança, geram e são emoções associadas a tantas outras: solidão, desconexão, fracasso, entrega, medo... Tal como a paixão, o sexo ou a amizade.

"Toda a paixão é um ataque ao sistema imunitário. Se precisamos dela para viver, mais precisamos que ela acalme, ou seja, acabe, para continuarmos vivos."

quarta-feira, 6 de março de 2019

«Epidemia» de Reina James :: Opinião


«This times of dying» terrivelmente traduzido como «Epidemia, um tempo para viver» sugere, na sinopse, um amor proibido e talvez afaste leitores ao pensarem que vão ler só mais uma história de amor. No entanto, também não é um romance histórico que nos acrescente muito sobre esse episódio negro da Gripe Espanhola em finais da primeira Grande Guerra. Ainda assim, é um livro bastante competente e que explora subtilmente inúmeros temas: a crucial diferença entre classes sociais; o peso de um casamento, a violência doméstica e o papel da mulher, esmagada pelos costumes da época, apesar de serem tempos de guerra e de ausência de muitos homens da família. O livro é ainda estranhamente exímio em traçar uma imagem que espelha bem o rasto de destruição provocado por uma Epidemia para a qual as autoridades não tiveram mão, através das descrições dos materiais em falta para construir caixões e fazer enterros. 

O romance promete um curso curioso já que as personagens centrais são: Allen, uma professora primária, aparentemente nova mas viúva, filha de boas famílias, mas que trata a sua solidão fazendo-se acompanhar de um cangalheiro, Henry, que não tem mãos a medir com os inúmeros pedidos para tirar medidas a corpos e construir caixões; tem também uma criada lésbica que ela protege e trata fora das convenções sociais. Ambos têm ainda irmãs e amigos próximos que compõem, com requinte, este ramalhete. Ela tem uma irmã que entra em greve de fome, como medida de protesto contra os espiões alemães que diz ter em casa. Ele, tem duas que são tipicamente as irmãs protectoras mas codrilheiras, muito preocupadas com a influência desta professora no negócio de família, que ele gere e as alimenta a elas. 

Toda a paleta de personagens chega a ser sórdida face aos acontecimentos gerais e que afectam quase todos em geral, no entanto o flagelo da Gripe Espanhola só atinge proporções de cataclismo à medida que o número de mortos esgota desde a madeira aos locais onde enterrar os mortos. Ainda assim, não será uma história de amor a atropelar um flagelo que dizima milhares de pessoas pela Europa fora. são sim episódios desta natureza mais rocambolesca que alimentam a curiosidade do leitor. Isso e o facto de estar bem escrito, apesar de por vezes repetir ideias e se alongar em descrições. 


Alguns excertos:

"Depois de todos aqueles anos em que o homem lhe batera (...) Ele esperava que a sua viúva o seguisse, isto segundo ela, e achava que ela deveria ter-se suicidado para ir atrás dele lá para onde quer que ele tivesse ido. (...) Mas na noite antes de eu ter ido buscar o corpo para o funeral, ela cravou-lhe pregos de quatro centímetros nos pés para evitar que ele andasse atrás dela. Se ele voltar, disse, ouço logo aqueles pregos a baterem nas tábuas do soalho."

"Quando desci à loja, já lá estava um homem a bater à porta. Assim que o deixei entrar, ele agarrou-me a mão e apertou-ma firmemente, não me deixando afastar. Tinha acordado e deparara com a mulher morta na cama junto dele, e o bebé morto no berço. (...) O home que me tinha apertado a mão tinha sido a primeira alma viva a tocá-la em dias."

"Havia um bacio cheio junto à cama, fezes a flutuar no seu interior. Era mais que provável que este tivesse transbordado porque o chão em volta estava manchado - o cheiro terrível.
Allen sabia que devia esvaziar o bacio. Sabia que se o deixasse onde estava, eles não teriam escolha, ou conseguiam descer, ou ensopavam a sala. Todo o seu conflito interior em relação a visitar doentes se continha na relutância de fazer aquilo. Aquilo requeria uma generosidade extrema da sua parte. O esvaziamento regular da cadeira sanitária de Lily desgastara o seu altruísmo."

"Depois acendi a lareira com restos de chão da oficina e sentei-me para tocar a música que tinha feito para o poema. Depois de ter pensado que o piano seria de maior utilidade se desmontado e transformado num caixão (...)"





«O Desfile da Primavera» de Richard Yates :: Opinião



São tristes, são sós, chegam até a ser deprimentes, as personagens e os enredos de Yates, mas é tão bom, mas tão bom de ler que tive necessidade de repetir a incursão na obra do autor.
Descobri Richard Yates em 2017 com o fabuloso conjunto de contos «Onze tipos de solidão» e foi daqueles autores que me cativou desde logo.
Por isso, quando este ano começou, peguei logo num livro dele: «O desfile da primavera» que arranca assim: “Nenhuma das irmãs Grimes estava destinada a ser feliz, e olhando para o passado sempre houve a sensação de que os problemas começaram com o divórcio de seus pais.”

Se desde o início sabemos que nenhuma das irmãs Grimes será felizes, sabemos também que será a escrita de Yates que oferecerá algum tipo de redenção à descrição dos acontecimentos naquelas vidas. E é isso que é brilhante, a escrita de Yates. É impressionante como em tão poucas páginas o autor é capaz de enfiar anos de vida de duas mulheres perdidas na luta pela felicidade. Tentem elas atingi-la da forma mais segura e até banal ou, de forma aventureira e moderna. No entanto, o autor avisa-nos desde a primeira linha que o que lhes reserva não é bom.

"O olho de Sarah não sofreu danos - os seus grandes e profundos olhos castanhos continuaram a ser o traço dominante de um rosto que haveria de ser belo - mas ficou para o resto da vida com uma cicatriz azulada que descia da sobrancelha até à pálpebra, como o risco hesitante de um lápis, e Emily não podia nunca olhar para ela sem se recordar de como a irmã tinha aguentado tão bem a dor. Recordava-lhe também, vezes sem conta, da sua própria susceptibilidade para o pânico e do seu incomensurável pavor de estar só."

Yates tem esta capacidade de montar todo um cenário com frases aparentemente simples e capítulos breves. Numa frase curta ele é capaz de nos dar informação capaz de revirar tudo o que sabíamos até ali.

"Mas parou de chorar abruptamente quando se apercebeu que até isso era mentira: aquelas lágrimas, tal como todas as outras que derramara durante toda a sua vida, era apenas para ela - para a pobre e sensível Emily Grimes, que ninguém compreendia, e que não compreendia nada."

Quer parecer-me que todos os contos e romances de Yates têm sugestões musicais, algumas delas poderiam são até capazes de denunciar desejos dos personagens, mas o autor é implacável e o rumo é maioritariamente negro, com vidas preenchidas de solidão, ainda assim o lamento transmitido ao leitor perante algumas das situações vividas pelas personagens tem rasgos de humor, que chegam a ridicularizar a situação, revelando a desesperança.

"- Oh" Como lhes chamas os seus amigos? Andy?
- Oh, meu Deus, não. «Andy» não! Dá a ideia de um tipo demoníaco e desbragado, que não sou de todo. Sempre fui tratado por Andrew, assim mesmo, sem diminutivos (...)
Pela forma como comia, ela apercebeu-se que Andrew gostava de comida (...) não disse grande coisa até estar cheio, e por essa altura havia uma fugaz auréola de gordura em volta da sua boca. Depois começou a falar como se conversar fosse outro prazer sensual (...)"

A mim cativa-me sempre. E continuo com a mesma ideia: quero ler tudo o que houve para ler de Richard Yates.

*

Numa pesquisa sobre o livro encontrei o trabalho fotográfico de LIRON KROLL inspirado neste romance e de onde retirei as fotos para este post.

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2019

«Cronovelemas" de Mário de Carvalho - Opinião


«Cronovelemas" ou crono-novelemas, como eu insisti em lhe chamar, integra duas novelas: "A Arte de Morrer Longe" e "Quando o Diabo Reza", unidas agora sobre este neologismo ou cruzadas aqui, visto a sina da escrita também ser sistematicamente traída pelos caprichos da realidade. 


"Quando o Diabo Reza" traz-nos dois artistas daqueles com quem já todos nós nos cruzámos numa esquina de Lisboa ou ao balcão baço de um tasco a beber uma mini. Estes artistas, Bartlo & Abreu, o uso do "e" comercial é propositado, se bem que é um negócio condenado ao insucesso, por um lado devido às perlengas vagas e repetitivas de um e, às estratégias e ideias já gastas, de outro. 
No entanto, a congeminação é feita muito ao jeito típico e comunicativo de Mário de Carvalho que conquista o leitor a cada palavra, o enreda a cada linha e o embrenha em parágrafos cheios de rasgo.

"Mas Abreu optou pela serenidade desprendida, naquele jeito de boca descaída, de infinito desprezo pelo mundo, sem pachorra para atender Bartlo e os outros mangas que estavam ali a fazer-lhe confusão, enquanto ele se concentrava. Ficar-lhe-ia bem um cigarro ao canto do beiço, o olho meio fechado por causa da linha do fumo (...)"

"Mas Abreu não convenceu ninguém. Acabou por confessar, meio envergonhado:
- Sempre tens mais presença, pá. E faladura.
A ele entravava-se-lhe a voz sempre que acelerava o pensamento. No fundo, invejava aquele desembaraço com que Batlo, em abancando, estendia as pernas, levantava a mão a meia altura e vá de palavrear e enfiar histórias, magnetizando quem estiver em volta. Não era grande cabeça para meditar, mas tinha uma boca de ouro para a palradeira."


"A Arte de Morrer Longe" é um hilariante relato do que pode ser uma discussão sem fim à vista, perdida nos pântanos sombrios em que se tornam certos casamentos. Vagamente desdenhoso, mas carregado de humor negro, a novela traça uma crítica feroz a certas dinâmicas românticas. E, como foi lido depois de "Quando o diabo reza" parece que estava a encontrar os tais policias com pouco treino no diálogo, já que aqui, os encontros com a policia dão todo um outro desenlace a esta arte de (fazer) morrer longe e dão um outro significado à célebre frase: «o escuro tem vida própria».
Sobre a saga da tartatura nada direi, para permitir ao futuro leitor todas as risadas que este trio lhe proporcionará.

"Nas nossas ruas, ao anoitecer, há tal soturnidade, há tal melancolia, e no século XXI, Cesário amigo, pouca é a melhoria. As municipalidades poupam nos gastos de iluminação, porque interiorizam que os habitantes já chegam à noite muito fartos da célebre luz de Lisboa e precisam de descansar os olhos e os sentidos. 
E, se assim é nas praças históricas, como o Rossio, com grande profusão de sombras, e nos antigos bairros que tomam trevas de floresta negra, então mais se enegrece o ambiente quando se trata de alumiar plantas, relvados, bichos, espaços vazios e águas largas (...)
Por tudo isto, não é fácil abandonar uma tartaruga no lago do Campo Grande (...) atolando os pés em torrões de terra, fazendo rechinar a relva, criando em torno de si um halo de crepitações capazes de despertar qualquer tigre dente-de-sabre à solta."





quinta-feira, 7 de fevereiro de 2019

"Com ESTE HOMEM"

Jesse e Ava estão tão loucos como estavam há 12 anos atrás, ou para mim, como estavam em 2014 quando li a trilogia Este homem e fiquei a conhecer o mundo louco, a personalidade mandona, o sexo escaldante e a perdição por manteiga de amendoim de Jesse Ward.
Estive a reler a opinião à trilogia e resumo a minha opinião com esta citação:
"Passei por diferentes opiniões ao longo desta trilogia. Comecei por gostar da história mas não de Jesse, depois era Ava e a sua passividade que me irritavam enquanto o enredo melhorava mas quando entrei no terceiro capítulo, decidi meter tudo para trás das costas e dar-lhe uma última oportunidade de me arrebatar por inteiro. O caminho foi tumultuoso mas o destino final surpreendeu-me pela positiva. Agora, aplaudo de pé!!"


Em "Com Este Homem" reencontramos Ava e Jesse com 12 anos de relação solida mas igualmente louca e carinhosa. 

Num dia a dia feito lado a lado, a trabalhar no ginásio/spa que ambos criaram, este casal continua no auge ao longo de mais de uma década de casamento, mesmo com um par de gémeos de 11 anos.
Mas são os momentos baixos que nos fazem agradecer pelos altos e a vida desta família é revirada do avesso quando Ava sofre um acidente que a deixa em coma. E ao acordar Ava não reconhece Jesse, os filhos...na realidade Ava acha que ainda está nos primeiros anos da sua vida adulta, com muita coisa para curtir, um corpo todo no lugar e que é a única pessoa que tem de ouvir para tomar decisões da sua própria vida. 
Como dar a conhecer a Ava a história tão especial que viveram juntos?
Como faze-la entender que não só é mulher como mãe de dois miúdos?
Como lidar com isso tudo e ainda com as outras complicações que Jesse e Ava sempre tiveram de lidar ao longo da última década juntos?




Regressar a este casal anos depois de ter lido a história faz-me sentir tão amenésica como a personagem.
O que me lembrava?
Ele - escaldante, mandão, dono de mansão de sexo, louco por rendas
Ela - desafiadora, igualmente louca mas por ele :)
O que me lembra deles como casal?
Só me lembro que era sexo e confusão intercalado com muito drama ao longo de três livros.
Curiosamente este foi o melhor.
Porquê? 
Porque não me lembro dos outros. Porque fui relembrada de episódios que viveram ao mesmo que Ava os ia descobrindo e acabei por gostar da ideia do "oh meu Deus tenho 50 anos mas continuo um deus do sexo"
Por vezes é engraçado voltar a estas histórias.
Quem gostou de reencontrar Jesse e Ava?

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2019

"Dois Guardam um Segredo"

Foi com gosto que peguei e devorei este livro, os últimos capítulos roubaram 2h de sono pela noite dentro tal era a vontade de dar resposta à pergunta "Quem?". 
Num registo que me captou a atenção pela memória dos meus teen years a ver "Sei o que fizeste no verão passado", "Scream" e outros filmes do género, este "Dois guardam um segredo..." constrói uma malha tão bem feita que estive até às últimas a pensar "foi este ou este?" sem nunca ter bem a certeza.  



"Bem-vindos a Echo Ridge.
População:4935
Durante os 18 anos em que lá vivi, este número nunca se alterou. Parecia que, se quisesses levar lá alguém, outra pessoa teria de sair primeiro"


Echo Ridge pode ser uma bonita e a abastada cidadezinha no Vermont mas tem sido notícia pelas piores razões, raparigas desaparecidas e/ou mortas. Nenhuma cidade é perfeita mas esta é consumida recorrentemente por segredos, intriga e crime. Primeiro o mistério do desaparecimento de Sarah Corcoran e muitos anos depois, a doce rainha do baile de boas vindas Lacey Kilduff que aparece morta no parque temático de Halloween Murderland (os states e estas cenas macabras que só ajudam aos massacres). Nenhum destes crimes foi resolvido por mais dedos que tenham sido apontados e o presente de Echo Ridge ainda tem estas histórias todas à flor da pele. 

 Quando os gêmeos Ellery e Ezra, os sobrinhos da primeira rapariga desaparecida, chegam pela primeira vez a Echo Ridge encontram uma cidade muito simpática, que os conhece muito bem mas que esconde demasiados segredos sob a sua superfície polida. E tão rápido como a sua passagem pela placa que dá à boas vindas à cidade, os eventos estranhos e directamente relacionados com as rainhas dos bailes de boas vindas (mortas e vivas) recomeçam. 
Mau timing ou a altura perfeita para fechar o círculo que começou com Sarah há mais de 16 anos atrás? 

 Se Ezra é um camaleão que rapidamente se acostuma aos lugares por onde passa, Ellery é mais difícil de convencer, não fosse ela desconfiada de natureza, uma perita em criar teorias criminais depois de tantos anos a ler livros sobre crimes reais e a querer resolver o mistério do desaparecimento da tia. Serão eles parte da investigação ou da nova onda de crimes que assola Acho Ridge?

Uma história que se devora em meia dúzia de horas de leitura e que nos faz pensar que a grande maioria das pessoas tem algo a esconder.

Karen M. MaManus já me tinha cativado com "Um de Nós Mente" mas com este segundo livro veio suspender o meu actual estado de apatia literária. 
E ainda bem...tenho saudades de ler mas não creio que ande a cruzar-me com os livros certos.
O que acharam deste "Dois Guardar um Segredo"?

quinta-feira, 31 de janeiro de 2019

"Pequenos Delírios Domésticos" (contos) de Ana Margarida de Carvalho :: Opinião




Este livro é um como álbum, composto por várias músicas, começando por esta "Pequenos Delírios Domésticos" de Sérgio Godinho, e se pararmos na estrofe:

"Vou até bater ao fundo
depois venho respirar, o ar
que me coube nesta vida
volto ao ponto de partida
(...)"

É talvez o melhor resumo para quase todos os contos que li.
Desses pego em três deles e escrevo:

Entrei num táxi numa qualquer avenida, esbarrei o olhar numa estranha perspectiva.
Era uma nuca conhecida. Sem confiança no percurso, dei voltas e voltas, estremunhei e sonhei, lá fui misturada em delírios-desvarios, numa aventura centrifuga.
Acordei à terceira buzinadela, havia chegado.
Impaciente. Ele impaciente, ralhando qualquer coisa que não decifrei.
A porta rústica escancarada, como uma cabeça aberta, uma entrada para o sótão das memórias.

Os contos de Ana Margarida de Carvalho são preciosos!

Fazem o leitor divergir da realidade e entrar em momentâneo delírio. O pequeno delírio de querer fazer parte daqueles contos. O lado fabuloso de um bom conto é fazer crer nas possibilidades ilimitadas de o alterar, dar-lhe continuidade, mexer e remexer-lhe nas personagens, inventar-lhes passados, dar-lhes futuros de uma linha ou ligá-los a um outro personagem vinte páginas mais à frente.

Ler contos é divagar em como lhes acrescentar um ponto, pois a mim, um conto parece sempre uma peça inacabada ou com rachaduras, pequenos veio por onde podemos acrescentar uma linha.


«Filho Único» de Rhiannon Navin :: Opinião



Entramos por este drama adentro fechados num armário, escondidos como quem fez asneira ou quem não quer ser apanhado. Tacteamos no escuro, mantemos o silêncio e quase não respiramos. Podia ser uma brincadeira, mas não é. Começamos nesse armário com medo e seguimos por outro armário para combater o luto e a vida que se complica para este menino apenas de seis anos. 
É pelos seus olhos que vamos conhecendo o que lhe aconteceu na escola, mas também em casa, numa luta renhida entre um pai e uma mãe perante a dificuldade de enfrentar o futuro. "Um cego a andar" é o título de um capítulo e uma frase que faz muito sentido nesta forma de colocar um menino a narrar a sua vida e a dificuldade que é encarar os enigmas e as metáforas que são as decisões e as frases dos adultos.

É no descodificar desse mundo que o rodeia que os capítulos ganham imenso e apaixonam o leitor, prendendo-o à acção, perguntando-se o que se seguirá e onde ficaremos especados a olhar, imaginando a situação, ilustrando-a na nossa cabeça e já com uma lágrima a se abeirar, até porque Zach usa algumas referências de adultos para ilustrar as palavras novas que aprende ou as actividades extra que faz na escola. 
Com Matsuo Bâshó ele quer aprender a beleza das pequenas coisas e dos gestos simples. 
Com Frida Khalo aprende a dar tons fortes ou fracos para colorir sentimentos, pois acha que as palavras não chegam.
Com livros que lê sozinho aumenta o seu dicionário pessoal para compreender o mundo dos adultos e de lá tira lições que deseja ensinar aos pais. 
Dos filmes do Hulk pensa no bom que seria ter aquela força verde, mas ao mesmo tempo deseja saber conter a raiva que esmaga tudo.

Uma nova missão e um outro rumo aparece com a palavra "comiseração", Zach quer saber o que significa e o que deve fazer com ela; daí até à "missão urgente"ainda rolaram muitas lágrimas, mas Zach sabe que, tal como os seus heróis, terá de ser corajoso e seguir adiante. 

«Filho Único» é um livro para se ler de rompante e sentir tudo o que está lá para ser sentido. 


quarta-feira, 23 de janeiro de 2019

«Uma boa morte» de Hans Küng :: Opinião


Importa começar por dizer que Hans Küng é teólogo e que João Paulo II o proibiu de dar aulas de Teologia em 1979, no entanto, a este teólogo rebelde ninguém o tem impedido de pensar, seja sobre a eutanásia e os dogmas do catolicismo, mas mais que tudo fala de fé, da sua fé: "(...) mas eu tenho a convicção de que a morte não me levará ao nada, mas a uma realidade última e será um caminho interior, por assim dizer, levando à realidade mais profunda, a partir da qual, então, descobrirei uma nova vida."

São questões teológicas, mas também muita introspecção sobre a sua própria forma de avaliar a dignidade humana, a doença terminal, o sofrimento atroz e claro, o lado ainda mais pessoal que são as mortes de entes queridos que marcam e moldam a forma de olhar a morte como uma fase da vida.

“A vida transforma-se, não nos é tirada (…). Não se trata de um acabar nem, muito menos, de um perecer, mas de um consumar: a pessoa finita entra no infinito.»

Küng também aborda a mudança de opinião, que com o passar do tempo há quem defenda a prática do suicídio assistido, como quem ao ver essa fase da vida mais próxima de si, muda de opinião: "(...) perante a incerteza e a ignorância completas do que há para lá da morte. A monstruosidade da morte operada por acção própria surge perante a alma com uma atitude ameaçadora. Os sentimentos mudam [...])"

Os sentimentos mudam, é verdade de certeza, bem como a experiência pessoal quando confrontados com a dureza e a desumanidade da doença, aquando dos cuidados paliativos, e desses Küng também fala, e pergunta se a vida deverá ser isso, essa perda de dignidade e sofrimento tal que leva alguns ao suicídio, alguns, os que conseguem. Porém, há imensos presos a camas, totalmente dependentes, incapazes de pôr fim à vida mesmo que assim o desejem. E os familiares, os cuidadores: o sofrimento deles, a responsabilidade e até a culpa. 

Tais questões que levanta e procura responder, desejando um aprofundamento maior, no amplo sentido de se compreender que a eutanásia é também uma "assistência na passagem para a morte", aliás a ética mundial tem vindo a formar um quadro de princípios éticos e morais que assenta precisamente sobre esse acto como um acto de responsabilidade pela vida digna.

Falando de religião, prática médica, Alzheimer, a decisão de jejuar até morrer ou esclarecer a etimologia da palavra "eutanásia", são tudo temas dentro deste relato muito acessível e lúcido que espelha, essencialmente, a vontade de um homem em chamar à atenção para o sofrimento insuportável dos doentes e da família, tentando tornar o tema menos controverso. 

"Muitas pessoas fazem actualmente a experiência de uma despedida alongada pelos sucessos ambivalentes da medicina no que se refere ao prolongamento da vida na doença. Mas, quando o ser humano se despede na passagem para a morte, quando se interrompem todas as suas relações exteriores, extinguindo-se por vezes órgão após órgão (...) entra numa nova relação, oculta para nós. Vita mutatur, non tollitur. A vida transforma-se, não nos é tirada."