quinta-feira, 7 de fevereiro de 2019

"Com ESTE HOMEM"

Jesse e Ava estão tão loucos como estavam há 12 anos atrás, ou para mim, como estavam em 2014 quando li a trilogia Este homem e fiquei a conhecer o mundo louco, a personalidade mandona, o sexo escaldante e a perdição por manteiga de amendoim de Jesse Ward.
Estive a reler a opinião à trilogia e resumo a minha opinião com esta citação:
"Passei por diferentes opiniões ao longo desta trilogia. Comecei por gostar da história mas não de Jesse, depois era Ava e a sua passividade que me irritavam enquanto o enredo melhorava mas quando entrei no terceiro capítulo, decidi meter tudo para trás das costas e dar-lhe uma última oportunidade de me arrebatar por inteiro. O caminho foi tumultuoso mas o destino final surpreendeu-me pela positiva. Agora, aplaudo de pé!!"


Em "Com Este Homem" reencontramos Ava e Jesse com 12 anos de relação solida mas igualmente louca e carinhosa. 

Num dia a dia feito lado a lado, a trabalhar no ginásio/spa que ambos criaram, este casal continua no auge ao longo de mais de uma década de casamento, mesmo com um par de gémeos de 11 anos.
Mas são os momentos baixos que nos fazem agradecer pelos altos e a vida desta família é revirada do avesso quando Ava sofre um acidente que a deixa em coma. E ao acordar Ava não reconhece Jesse, os filhos...na realidade Ava acha que ainda está nos primeiros anos da sua vida adulta, com muita coisa para curtir, um corpo todo no lugar e que é a única pessoa que tem de ouvir para tomar decisões da sua própria vida. 
Como dar a conhecer a Ava a história tão especial que viveram juntos?
Como faze-la entender que não só é mulher como mãe de dois miúdos?
Como lidar com isso tudo e ainda com as outras complicações que Jesse e Ava sempre tiveram de lidar ao longo da última década juntos?




Regressar a este casal anos depois de ter lido a história faz-me sentir tão amenésica como a personagem.
O que me lembrava?
Ele - escaldante, mandão, dono de mansão de sexo, louco por rendas
Ela - desafiadora, igualmente louca mas por ele :)
O que me lembra deles como casal?
Só me lembro que era sexo e confusão intercalado com muito drama ao longo de três livros.
Curiosamente este foi o melhor.
Porquê? 
Porque não me lembro dos outros. Porque fui relembrada de episódios que viveram ao mesmo que Ava os ia descobrindo e acabei por gostar da ideia do "oh meu Deus tenho 50 anos mas continuo um deus do sexo"
Por vezes é engraçado voltar a estas histórias.
Quem gostou de reencontrar Jesse e Ava?

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2019

"Dois Guardam um Segredo"

Foi com gosto que peguei e devorei este livro, os últimos capítulos roubaram 2h de sono pela noite dentro tal era a vontade de dar resposta à pergunta "Quem?". 
Num registo que me captou a atenção pela memória dos meus teen years a ver "Sei o que fizeste no verão passado", "Scream" e outros filmes do género, este "Dois guardam um segredo..." constrói uma malha tão bem feita que estive até às últimas a pensar "foi este ou este?" sem nunca ter bem a certeza.  



"Bem-vindos a Echo Ridge.
População:4935
Durante os 18 anos em que lá vivi, este número nunca se alterou. Parecia que, se quisesses levar lá alguém, outra pessoa teria de sair primeiro"


Echo Ridge pode ser uma bonita e a abastada cidadezinha no Vermont mas tem sido notícia pelas piores razões, raparigas desaparecidas e/ou mortas. Nenhuma cidade é perfeita mas esta é consumida recorrentemente por segredos, intriga e crime. Primeiro o mistério do desaparecimento de Sarah Corcoran e muitos anos depois, a doce rainha do baile de boas vindas Lacey Kilduff que aparece morta no parque temático de Halloween Murderland (os states e estas cenas macabras que só ajudam aos massacres). Nenhum destes crimes foi resolvido por mais dedos que tenham sido apontados e o presente de Echo Ridge ainda tem estas histórias todas à flor da pele. 

 Quando os gêmeos Ellery e Ezra, os sobrinhos da primeira rapariga desaparecida, chegam pela primeira vez a Echo Ridge encontram uma cidade muito simpática, que os conhece muito bem mas que esconde demasiados segredos sob a sua superfície polida. E tão rápido como a sua passagem pela placa que dá à boas vindas à cidade, os eventos estranhos e directamente relacionados com as rainhas dos bailes de boas vindas (mortas e vivas) recomeçam. 
Mau timing ou a altura perfeita para fechar o círculo que começou com Sarah há mais de 16 anos atrás? 

 Se Ezra é um camaleão que rapidamente se acostuma aos lugares por onde passa, Ellery é mais difícil de convencer, não fosse ela desconfiada de natureza, uma perita em criar teorias criminais depois de tantos anos a ler livros sobre crimes reais e a querer resolver o mistério do desaparecimento da tia. Serão eles parte da investigação ou da nova onda de crimes que assola Acho Ridge?

Uma história que se devora em meia dúzia de horas de leitura e que nos faz pensar que a grande maioria das pessoas tem algo a esconder.

Karen M. MaManus já me tinha cativado com "Um de Nós Mente" mas com este segundo livro veio suspender o meu actual estado de apatia literária. 
E ainda bem...tenho saudades de ler mas não creio que ande a cruzar-me com os livros certos.
O que acharam deste "Dois Guardar um Segredo"?

quinta-feira, 31 de janeiro de 2019

"Pequenos Delírios Domésticos" (contos) de Ana Margarida de Carvalho :: Opinião




Este livro é um como álbum, composto por várias músicas, começando por esta "Pequenos Delírios Domésticos" de Sérgio Godinho, e se pararmos na estrofe:

"Vou até bater ao fundo
depois venho respirar, o ar
que me coube nesta vida
volto ao ponto de partida
(...)"

É talvez o melhor resumo para quase todos os contos que li.
Desses pego em três deles e escrevo:

Entrei num táxi numa qualquer avenida, esbarrei o olhar numa estranha perspectiva.
Era uma nuca conhecida. Sem confiança no percurso, dei voltas e voltas, estremunhei e sonhei, lá fui misturada em delírios-desvarios, numa aventura centrifuga.
Acordei à terceira buzinadela, havia chegado.
Impaciente. Ele impaciente, ralhando qualquer coisa que não decifrei.
A porta rústica escancarada, como uma cabeça aberta, uma entrada para o sótão das memórias.

Os contos de Ana Margarida de Carvalho são preciosos!

Fazem o leitor divergir da realidade e entrar em momentâneo delírio. O pequeno delírio de querer fazer parte daqueles contos. O lado fabuloso de um bom conto é fazer crer nas possibilidades ilimitadas de o alterar, dar-lhe continuidade, mexer e remexer-lhe nas personagens, inventar-lhes passados, dar-lhes futuros de uma linha ou ligá-los a um outro personagem vinte páginas mais à frente.

Ler contos é divagar em como lhes acrescentar um ponto, pois a mim, um conto parece sempre uma peça inacabada ou com rachaduras, pequenos veio por onde podemos acrescentar uma linha.


«Filho Único» de Rhiannon Navin :: Opinião



Entramos por este drama adentro fechados num armário, escondidos como quem fez asneira ou quem não quer ser apanhado. Tacteamos no escuro, mantemos o silêncio e quase não respiramos. Podia ser uma brincadeira, mas não é. Começamos nesse armário com medo e seguimos por outro armário para combater o luto e a vida que se complica para este menino apenas de seis anos. 
É pelos seus olhos que vamos conhecendo o que lhe aconteceu na escola, mas também em casa, numa luta renhida entre um pai e uma mãe perante a dificuldade de enfrentar o futuro. "Um cego a andar" é o título de um capítulo e uma frase que faz muito sentido nesta forma de colocar um menino a narrar a sua vida e a dificuldade que é encarar os enigmas e as metáforas que são as decisões e as frases dos adultos.

É no descodificar desse mundo que o rodeia que os capítulos ganham imenso e apaixonam o leitor, prendendo-o à acção, perguntando-se o que se seguirá e onde ficaremos especados a olhar, imaginando a situação, ilustrando-a na nossa cabeça e já com uma lágrima a se abeirar, até porque Zach usa algumas referências de adultos para ilustrar as palavras novas que aprende ou as actividades extra que faz na escola. 
Com Matsuo Bâshó ele quer aprender a beleza das pequenas coisas e dos gestos simples. 
Com Frida Khalo aprende a dar tons fortes ou fracos para colorir sentimentos, pois acha que as palavras não chegam.
Com livros que lê sozinho aumenta o seu dicionário pessoal para compreender o mundo dos adultos e de lá tira lições que deseja ensinar aos pais. 
Dos filmes do Hulk pensa no bom que seria ter aquela força verde, mas ao mesmo tempo deseja saber conter a raiva que esmaga tudo.

Uma nova missão e um outro rumo aparece com a palavra "comiseração", Zach quer saber o que significa e o que deve fazer com ela; daí até à "missão urgente"ainda rolaram muitas lágrimas, mas Zach sabe que, tal como os seus heróis, terá de ser corajoso e seguir adiante. 

«Filho Único» é um livro para se ler de rompante e sentir tudo o que está lá para ser sentido. 


quarta-feira, 23 de janeiro de 2019

«Uma boa morte» de Hans Küng :: Opinião


Importa começar por dizer que Hans Küng é teólogo e que João Paulo II o proibiu de dar aulas de Teologia em 1979, no entanto, a este teólogo rebelde ninguém o tem impedido de pensar, seja sobre a eutanásia e os dogmas do catolicismo, mas mais que tudo fala de fé, da sua fé: "(...) mas eu tenho a convicção de que a morte não me levará ao nada, mas a uma realidade última e será um caminho interior, por assim dizer, levando à realidade mais profunda, a partir da qual, então, descobrirei uma nova vida."

São questões teológicas, mas também muita introspecção sobre a sua própria forma de avaliar a dignidade humana, a doença terminal, o sofrimento atroz e claro, o lado ainda mais pessoal que são as mortes de entes queridos que marcam e moldam a forma de olhar a morte como uma fase da vida.

“A vida transforma-se, não nos é tirada (…). Não se trata de um acabar nem, muito menos, de um perecer, mas de um consumar: a pessoa finita entra no infinito.»

Küng também aborda a mudança de opinião, que com o passar do tempo há quem defenda a prática do suicídio assistido, como quem ao ver essa fase da vida mais próxima de si, muda de opinião: "(...) perante a incerteza e a ignorância completas do que há para lá da morte. A monstruosidade da morte operada por acção própria surge perante a alma com uma atitude ameaçadora. Os sentimentos mudam [...])"

Os sentimentos mudam, é verdade de certeza, bem como a experiência pessoal quando confrontados com a dureza e a desumanidade da doença, aquando dos cuidados paliativos, e desses Küng também fala, e pergunta se a vida deverá ser isso, essa perda de dignidade e sofrimento tal que leva alguns ao suicídio, alguns, os que conseguem. Porém, há imensos presos a camas, totalmente dependentes, incapazes de pôr fim à vida mesmo que assim o desejem. E os familiares, os cuidadores: o sofrimento deles, a responsabilidade e até a culpa. 

Tais questões que levanta e procura responder, desejando um aprofundamento maior, no amplo sentido de se compreender que a eutanásia é também uma "assistência na passagem para a morte", aliás a ética mundial tem vindo a formar um quadro de princípios éticos e morais que assenta precisamente sobre esse acto como um acto de responsabilidade pela vida digna.

Falando de religião, prática médica, Alzheimer, a decisão de jejuar até morrer ou esclarecer a etimologia da palavra "eutanásia", são tudo temas dentro deste relato muito acessível e lúcido que espelha, essencialmente, a vontade de um homem em chamar à atenção para o sofrimento insuportável dos doentes e da família, tentando tornar o tema menos controverso. 

"Muitas pessoas fazem actualmente a experiência de uma despedida alongada pelos sucessos ambivalentes da medicina no que se refere ao prolongamento da vida na doença. Mas, quando o ser humano se despede na passagem para a morte, quando se interrompem todas as suas relações exteriores, extinguindo-se por vezes órgão após órgão (...) entra numa nova relação, oculta para nós. Vita mutatur, non tollitur. A vida transforma-se, não nos é tirada."