terça-feira, 6 de agosto de 2019

«Cada dia é um milagre» de Yasmina Khadra - Opinião


Estreei-me em Khadra com este «Cada dia é um milagre», que pelo título já deixa adivinhar um pouco do seu conteúdo e pelo título original: “L'équation africaine”, é ainda mais notória a equação em causa: o valor da vida e a importância das pequenas coisas, dos pequenos milagres de cada dia e o saber agradecer as benesses de certas localizações geográficas.

Kurt, um médico endinheirado que vive confortavelmente no silêncio alcatifado de um bom condominio vê a sua vida estilhaçada pela morte da mulher. E consequentemente pelo desinteresse e insensibilidade dos outros perante a sua dor.

"(...)Jessica reduzida a um simples despojo coberto com um lençol branco."
 "Eu estava em choque. triturado por uma tormenta que me aspirava sabia lá para que abismo..."

Desde cedo há um toque de dramalhão na escrita de Khadra, mas misturam-se muito bem com descrições bem conseguidas (do sogro, por exemplo) e uma forma de falar de sentimentos que mostra como a dor alheia causa pouca empatia e em parte por ser tão difícil falar da dor, explicá-la, catalogá-la. Nisso, há passagens na sua escrita que são exímias em ler-nos a alma.

Rapidamente esta vida de zebruras (palavra aprendida neste livro) atinge picos nunca antes imaginados quando Kurt aceita a proposta de Hans Na segunda parte do livro, Blackmoon, Kurt e Hans vêem-se apanhados na teia da miséria humana que se alastra nesse colosso que é o continente africano, alimentado diariamente a doses elevadas de violência, fome, corrupção e guerra.

O barco em que viajavam é atacado e os amigos, Kurt e Hans são raptados. O interesse neles é dinheiro, como é costume dos regastes, mas cedo se percebe que estão entregues às oscilações dos humores figadais de um pirata filosófico que tem todo um leque de teorias e mão pesada na forma de os violentar e humilhar.

"(...) só sinto desdém pela sua autoridade de bandida, nojo pela espécie de ogro paranóico que se esconde por trás da sua lanterna, ódio frio por todo esse bando de degenerados à solta na natureza como os germes virulentos de uma pandemia..."

Há nestas descrições um lado quase poético ao descrever a violência que existe em África, tão visceral e crua como a beleza intemporal e virgem da sua Natureza, sempre presente em tudo. Há uma veneração por África que a torna personagem, aliás, em parte essa personagem é Bruno, um anacoreta itinerante devoto a África.

"África é uma certa filosofia de redenção."

Na relação de cativeiro, conhecemos esse peregrino poeta, emocionado e embriagado pela própria prosa, que enaltece África e as suas gentes, mas também a sua condição de andarilho perdido por um país que lhe mostrou o que outras zonas boas do mundo não conseguiram e o fez gente.

Há um outro personagem que dá dimensão humana às crises inúmeras que acontecem por todo o continente, o Capitão encarna todos aqueles que foram escolhidos pela violência, aqueles a quem a vida não deixou outro caminhão se não o da força e do medo. Ser-se temido é por vezes a forma de se manter vivo, mas a que custo? É também esse lado que o autor quer salientar e tornar menos abstracta aos olhos de quem o lê.

"Desde os tempos remotos que o Homem, desconfiando daquilo que não o faz sofrer, corre atrás da própria sombra (...) incessantemente esquartejado entre o que acredita ser e o que desejava ser, esquecendo que a maneira mais saudável de existir é, muito simplesmente, continuar a ser ele próprio."

Em suma, este é um livro que explora sentimentos opostos e nos confunde com tantas sensações divergentes. Se por um lado Khadra consegue parágrafos brilhantes que espelham uma análise e um entendimento brutal da humanidade e da sua complexidade, bem como o choque de culturas e o peso do homem branco em África; por outro, a persistência de cenários previsíveis cansaram-me imenso.

Ao longo de todo o livro existem falhas de tradução que são notórias. Há parágrafos muito bem conseguidos, onde se nota um trabalho soberbo da tradutora em fazer soar bem a poética do autor e noutros parece ter-se usado o google translator - não me sai da cabeça (e já o li há meses) - "vou tomar um bom chuveiro". Não sou uma entendida em tradução, nem nada que se pareça, mas há falhas flagrantes.

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