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quarta-feira, 27 de julho de 2016

«As viúvas de Dom Rufia» de Carlos Campaniço :: Opinião


"O vendedor pensou mal de si; pensou que a deferência que lhe notara nos olhos fora coisa engolida pelo bolor da solidão..."

"Firmino jurava ao tio que nascera para estar ali, para ser aquele homem, e não o que fora parido tão pobremente. «Quem fabrica os destinos também tem direito a errar uma vez ou outra. O meu, como vinha enganado, foi preciso emendá-lo», disse ao tio com sorriso de troça, enquanto sorvia copos de champanhe. 

Não se engane é o leitor e fique com este livro por ler!

Carlos Campaniço regressa ao Alentejo, criando um cenário de uma terra típica como muitas outras alentejanas, como a sua Safara, numa época onde as lides da recente República se sentem na presença da Guarda Nacional Republicana. Neste caso, a mãos com o homicídio de Firmino António Pote, de sua alcunha ou baptismo popular, Dom Rufia ou também Dom Morto. Mas que não lhe caia o nome em desgraça e perca o Dom, pois tudo este homem fez para obter melhor título e posição social. No entanto, talvez o charme e o bigode fininho lhe atrapalhassem os planos, já que as mulheres foram muitas e quase lhe arruinaram o dom da ubiquidade.

Na ânsia de enganar o destino e os corações de quem se perdia de amores pelos seus atributos, Dom Rufia foi conseguindo troçar do destino e inventar uma nova vida. Uma não! Uma por cada vila alentejana e respectiva mulher. Podemos até dizer que ele reencarna a ideia do homem dos sete ofícios sem ter tido ofício nenhum.

"Lembro-me como se fosse hoje como se iniciou no contrabando e na venda de canários do Brasil.
Aquelas palavras, ditas em tão sossegado ar, foram uma espécie de toque de cornetim. A gente que estava apardalada sacudindo o sono e pôs-se em sentido, ademais falava Teresina e ela podia não gostar que não se desse atenção às suas lembranças, sendo essa uma forma usual de pranto."

Maria Teresina, tia e mãe de criação de Dom Rufia é a meu ver, a personagem feminina com mais personalidade, as cenas que têm acções suas são sempre de risada total. Aliás todo o livro está repleto de humor, não só pelas aventuras do próprio Firmino, como pelo uso rebuscado da língua, que lhe dá toda uma outra graça. Através de todas as outras mulheres o leitor sabe, pela voz do narrador, das fanfarronices e das diatribes persuasivas do personagem e somos incapazes de não rir e não nos divertirmos com ele.
Todo o livro tem o velório a pano de fundo, mas todo ele tem uma aura sarcástica e humorística, pela forma como se vai sabendo da vida deste alentejano peculiar, para não lhe chamar mentiroso.

"Com uma educação treinada para angariar simpatias, e depois de tanto contacto com os melhores salões e as mais educadas famílias, os gestos e os dizeres de Firmino deixavam as senhoras deleitosas. Um homem gentil e importado com as mulheres, num tempo de maridos afirmativos, era uma sombra naquele grande deserto que era a igualdade de géneros, onde nem a palavra nem o conceito haviam ainda sido inventados."

De Fernão Baixo como vendedor de canários, a passagens por Évora para actividades ilícitas, ou em Alvito para lides de médico, Firmino foi sempre surpreendendo, juntamente com um conjunto de personagens, umas mais especiais, outras com um toque de surreal, uns bonacheirões, outros mais pantemineiros, o que é certo é que o rol delas é afinado perante a exigência de cada situação. De destacar são também os nomes de cada um que só por si colocam logo um sorriso no rosto do leitor.

Senti até que toda a intriga se chega muito próxima à mestria do autor em «Os Demónios de Álvaro Cobra», dando, sem dúvida, um enlevo diferente a este livro que desencabresta o leitor. ;)

*
Em função de algum alentejanar talvez possa o leitor sentir curiosidade e desejar a consulta mais atenta deste Dicionário Alentejano. Para a leitura do livro, é claro!


Um livro CASA DAS LETRAS | LEYA


quarta-feira, 30 de julho de 2014

"MAL NASCER" - o regresso de Carlos Campaniço


Regressar à escrita de Carlos Campaniço foi um enorme gosto. Retornar igualmente ao (áspero) Alentejo foi igualmente muito bom e aliás, espero que o autor lá volte novamente, pois estou em crer que se sairá bem novamente.
De "Mal Nascer" este romance têm apenas o nome e o berço de Santiago. O mau agoiro, o azar, a dureza da campo, as dificuldades, a violência... a tal aspereza alentejana só trazem de bem e de belo à escrita e à narrativa do autor. Já assim esperava, é certo. Depois do fantástico "Os demónios de Álvaro Cobra", só posso tecer bons comentário a este novo romance. Aliás, acho extraordinária a capacidade de transformação, tanto na abordagem ao Alentejo, como na mastigação deste enredo e mais ainda no toque especial que a linguagem deste romance contêm. É louvável que um autor consiga tal mudança camaleónica, já que nem todos conseguem. Ou seja, muitas vezes, um autor escreve, narra e compõe de uma forma e é só com essa que nos brinda, não é mau, antes pelo contrário, quem gosta, facilmente gostará sempre. No entanto, na escrita de Campaniço encontramos mudança, total transformação, ambos bons livros, ambos boas surpresas. O que nos deixa com ânsias por um terceiro livro, aguardando algo, novamente bom e "igualmente" diferente.

Na personagem de Álvaro Cobra, Carlos Campaniço deu asas à imaginação e teve rasgos de criatividade divinais, com Santiago Barcelos - nascido Bento -, o autor trouxe-nos uma história dura e plena de realismo. Retratando e enquadrando o nosso país e mais propriamente o Alentejo num período conturbado entre absolutistas e liberais. Num relato marcado pela linguagem mais "regionalista" do Alentejo de outrora, que tanto brilhantismo dá ao enredo, situando-nos definitivamente naquelas terras, naqueles campos, mas também na violência tida no calor do lar.

Este romance é uma denúncia, é um reclamar pelos direitos das mulheres, num período e numa localização tão marcada pela desigualdade e pela violência, não só tida para com as mulheres, como também na desvalorização e no conceito da infância, tão pouco reconhecida como tal.

"Mal Nascer" não verte só as dores de uma mãe ou as injustiças com um filho, abandonados um pouco à sorte do campo, criados a meias com os bichos e a jorna na terra. Este enredo relata também o poder, as ordens às mãos de um só homem, revelando o peso da riqueza e das terras. Mas há ainda espaço para o amor, trazendo uma certa inocência e sensualidade ao ambiente, mitigando as mágoas de Santiago, fazendo-o sonhar. Pelo menos até certa parte. Mesmo nessa parte, de amor fatal e incondicional, o autor é bem sucedido. É sensível, sem ser lamechas, é sensual sem ser banal.

Há em todo o livro uma luta pela dignidade, pela sobrevivência, pela liberdade e pelo amor, enaltecendo assim as personagens e envolvendo o leitor, que anseia por um desfecho que teima em fugir por entre os dedos. A leitura tornou-se a certa parte comovente, em especial para mim, a parte da infância. Certas partes foi como estar entre família e ouvi-los relatar a dura infância na aldeia, alguns períodos de fome ou escassez ou as alegrias de brincadeiras simples e até certas diabruras com os bichos.

Se por um lado o livro é pleno no relato amoroso, até meio inocente, é duro e negro no expor o embrutecimento das gentes largadas à mercê das necessidades do campo e das intempéries de um Alentejo de extremos. Digamos que o livro tem uma capacidade transformadora fenomenal, é como ir, de bestial a besta, acho que me entendem. É nisso que eu gosto ainda mais deste livro. É o seu realismo, a sua força.

Não posso deixar de dizer que existem personagens apaixonantes e a Amália é uma delas.
Mais apaixonante é a capacidade do autor em criar um cenário com meia dúzia de palavras, como se numa pequena frase fosse tudo dito.

"Dá-se uma primavera numa sala de inverno." (pág.100)

E fica tudo dito!

As diferenças são inúmeras, porém há uma certa constante nos dois romances que li de Carlos Campaniço. É o retorno ao Alentejo, a paixão pelas gentes e tradições, e a vontade de espelhar, através de personagens densas, os traços marcantes de um país e de uma época. E os rasgos de criatividade continuam lá, desta vez mais pelo esmero na escolha da palavra.

"Começo a ter uma fome miudinha que me rói o estômago como os bichos-da-seda fazem às folhas. Já nem dois cocharros de água me afastam as lembranças da comida."


Uma leitura com o apoio Leya. Uma edição Casa das Letras. Veja a sinopse, aqui, no booktrailer.

quarta-feira, 13 de novembro de 2013

"Os demónios de Álvaro Cobra" de Carlos Campaniço - Opinião

"Quando Álvaro Cobra a despiu com os seus dedos grossos e desajeitados e a pôde, finalmente, ver nua sobre a cama, pensou que se tratava de um milagre, num tempo em que já não havia milagres sobre a Terra, por se ter esgotado a capacidade inventiva dos santos ou a benevolência pedregosa dos homens. Todavia, do mal dos divinizados não padecia o lavrador Álvaro Cobra, que possuía uma imaginação sem arreios..."
Carlos Campaniço oferece-nos uma galeria de personagens inesquecíveis, que vão de um anarquista à dona de um bordel ambulante, e recicla de forma original o realismo mágico para revisitar as virtudes e os defeitos das pequenas comunidades rurais do nosso Portugal.
Tendo como editora, Maria do Rosário Pedreira, a obra de Carlos Campaniço foi editada em Abril de 2013 pela Teorema, chancela do Grupo Leya. O mesmo título foi destacado com o Prémio Literário Cidade de Almada 2012


É nessa imaginação sem arreios que Carlos Campaniço traz até ao leitor um livro que é puro deleite. Este «Os demónios de Álvaro Cobra» é uma preciosidade tal qual o seu Alentejo, na aldeia de Medinas, e que lhe serve de pano de fundo para todas as maleitas dos Cobra, uma família cheia de eventos e raridades que tocam o bizarro.

O retrato rural, mágico e até surreal do nosso Alentejo é muito bem recheado com personagens assombrosas e dignas de "se lhe tirarem o chapéu". Se o próprio Álvaro Cobra é uma achado, a avó centenária não lhe fica atrás ou a irmã brasa, mesmo meio morta, não deixa de dar mais vivacidade à história.

Se as maleitas e enguiços associados à tenacidade ímpar dos Cobra é por si só dúbia, junte-se ainda, cristãos (precocemente convertidos), árabes e judeus, tudo em ampla convivência, num Alentejo que se reinventa por entre cultos pagãos para uma nova fé monoteísta!? 

Para além de religião e culto, encontramos também lendas e mitos associados não só às tradições populares alentejanas, como também do cunho cultural e geográfico herdado da ocupação árabe. O próprio autor afirma a necessidade de se escrever sobre o que se sabe, passando assim ao leitor uma maior credibilidade e conferindo um papel mais forte e real a toda a história.

Apesar de toda a magia que envolve e caracteriza o desfile de personagens deste romance, reconhecem-se nos traços pessoais de muitos deles, muitos de nós, actuais ou antepassados, demonstrando uma óptima análise do ser-se português nas palavras rebuscadas e sonhadoras do autor.

Carlos Campaniço brinda às gentes da aldeia e presta-lhes uma homenagem. É nesta passagem de testemunho que se imortaliza a tradição oral das estórias das gentes, das bichanisses que se cochicham e das histórias orelhudas, que de tanto serem contadas passam a ser verdadeira. Apesar de negra, a história é rica em graciosidade. É a linguagem, é a forma como o autor enlaça os acontecimentos e as personagens, conferindo, mesmo aos regionalismos mais brutos uma certa magia que os tornam belos.

É quase impossível destacar partes deste livro, pois são inúmeras e tenho o livro todo etiquetado, mas existem frases que são verdadeiras tiradas de mestre e nos transportam para uma outra dimensão de pensar a realidade. A ideia da solidão da morte e de o morto (o pai Cobra) não conseguir conviver com essa mesma solidão. Ou o recuo do exército de sapos, não pelos desígnios de deus, mas pelas mezinhas de nómada de Clarinha. Talvez a piada com o nome do padre Jesuíno (Je, do pai e suíno da mãe) ou outras tantas, sejam ainda mais do que o são, se lermos as entrelinhas... a religião pensada com o pragmatismo das gentes simples e que procuram a paz na opinião alheia... a importância de Miss Margot e os pares de pernas de deusas que vêm aliviar as noites... neste livro até o sexo tem cheiro a terra e os dissabores brutos das intempéries.

A própria ligação dos personagens à terra ou a comunicação paranormal com os animais, vista como bruxaria em algumas vezes, mas solução divina, quando assim é preciso. A divagação sobre o credo e tendências de culto tida nas páginas 94 e 95 é simplesmente deliciosa e por certo um pouco de todos nós se revê nalguma daquelas imagem - afinal de contas quem é não vai à apanha da espiga e põe o raminho atrás da porta!?

Em suma, os demónios que apoquentam Álvaro Cobra podem ser os que atormentam qualquer homem, nem santo nem bruxo, esta é uma história dos homens, onde a fé, a dor, o amor, a solidão, a morte, a tristeza e a alegria convivem todos os dias, tornando-nos parte da terra, parte do pó dos dias!


Este livro chamou-me pela primeira vez à atenção pelo título, depois o amigo e conselheiro de leituras Jorge Navarro leu e recomendou e logo de seguida, também Mário Rufino, leu e destacou e como tal, não me poderia passar ao lado. Mais tarde apanho também a entrevista que aconteceu antes do lançamento e na qual gostei bastante de ouvir o autor.
Neste Verão chegou a oportunidade de o ler e fico muito feliz de só agora me despedir dele, revisitando-o e escrevendo sobre ele, pois foi mais uma oportunidade de saborear algumas das passagens que fui destacando.

Para quem ainda não leu, leia! Boas Leituras.