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terça-feira, 30 de dezembro de 2014

Feliz Idade de Sigrid Undset - Nobel de Literatura 1928 - Breve Opinião


Feliz Idade de Sigrid Undset trazia com ele a premissa de ser uma leitura leve, mas marcante, naquela que é a idade para se tomar determinadas atitudes e avançar. Uma novela moderna pela mão da nobelizada Sigrid Undset que pretende mostrar certas viragens que o século XX permitiu, como a emancipação das mulheres. Com uma voz forte, mas igualmente simples, Undset, a norueguesa nobelizada em 1928 traz ao enredo a saga da busca pela felicidade, tanto no espectro pessoal como social e ainda o esforço para que existisse outra aceitação das mulheres, em muito para quebrar a solidão e alguns estigmas com o casamento e a família. 

Uma novela que me fez pensar na importância da liberdade dos dias de hoje e de uma maior abertura em termos de sociedade moderna, de resto é uma escrita e um enredo que não me cativa. Sinto que se passou o mesmo com Victoria do também nobelizado Knut Hamsun (Opinião).

Em "Feliz Idade" a autora revela também a preocupação com a possibilidade de perdermos o rumo e o controlo das nossas vidas e desperdiçarmos os nossos melhores anos. Linha que foi interessante de seguir e pensar sobre, já que li este livro enquanto "peregrinei" este ano a Fátima. Coloco peregrinação entre aspas, já que a espiritualidade e a religião não foi o foco, mas pode bem ter sido essa busca pelo sentido dos dias e para promover o reencontro tranquilo e solitário com os meus próprios pensamentos.

Foi curioso a certa altura ler que a ela caminhava pelas ruas de Cristiânia, ficando a conhecer a cidade e quebrando a solidão. Perdoem a ignorância mas não sabia que Oslo, havia sido Cristiânia. ;)

Quem sabe 2015 traz a hipótese de umas caminhadas em terras escandinavas. 

Este livro foi lido durante os 138kms a pé até Fátima.
Vejam mais em, Publicação


sexta-feira, 27 de junho de 2014

"Victoria" de Knut Hamsun - Opinião

Como eu senti (e questionei!) "Victoria" :
A impossibilidade de amor no romance platónico e imensurável de Johannes por Victoria. E sim, digo dele, porque para mim era amor só com um sentido. Não correspondido. Um amor gozado, um amor menosprezado.
As dúvidas de Victoria, a indecisão, a divisão social, o desprezo, mas ao mesmo tempo o alimentar da amizade, da presença, da amizade... atitudes nem correctas e possível para ele de suportar.
Essencialmente, este curto romance de Hamsun é a história de um não romance, de um desamor, de um desencontro. Da fatalidade do destino reservar uma condição social em lados opostos para estes dois jovens.

Neste primeiro contacto com a escrita do Nobel norueguês do que mais sinto falta são detalhes, são construções mais densas, personagens mais fortes. Talvez erre e interprete erradamente e esteja tudo lá, nas poucas palavras, nas descrições breves, nos diálogos quase telegráficos.
Os desaparecimentos constantes, sejam de Johannes, para se refugiar na escrita ou os dela, para, ora aparecer ou desaparecer da vida dele e a pouca explicação sobre o fenómeno da educação de Johannes e de como surge escritor... não há referências à sua educação...
O amor e a escrita como processo de introspecção, de cura, de delírio, a dor de parto de um livro “nove meses de trabalho (pp.56)”... tudo isso me parece brilhante, mas realmente muito deixado à capacidade de ler nas entrelinhas, ler o que não lá está.

Por exemplo, a personagem do professor é um prenúncio do seu destino!? Até certa parte é Johannes que temos ali? E o delírio total, (páginas 113-115) – o relato do monge Vendt e o homem que se desfigura.

Porém, o que lá está é bom. Sem dúvida. É bem escrito. E mesmo que o livro não tivesse mais nada, valeria apenas por esta passagem, a qual não me inibi de transcrever na integra.

O que é o amor? (pp.31)
“Mas o que era o amor? Um vento que sussurra entre as rosas? Não, uma fosforescência amarelada no sangue. O amor era uma música de um fervor infernal, que pode fazer dançar o coração dos velhos. Era como a margarida que se abre totalmente com o aproximar da noite, era como uma anémona que se fecha ao mais ténue sopro e morre quando é tocada.
O amor era isso.
Podia destruir um homem, reerguê-lo para o destruir de novo. Podia amar-me a mim hoje, a ti amanhã e a ele à noite, de tal modo era inconstante. Mas também podia permanecer solidamente intacto, como um selo lacre inviolável e podia arder inextinguível-mente até à hora da morte, porque era eterno. O que era então o amor?
Oh! O amor é uma noite de verão com estrelas no céu e fragrâncias na terra. Mas porque encoraja o jovem a fazer desvios e porque leva o velho a erguer-se na ponta dos pés no seu quarto solitário? Ah! Porque o amor transforma o coração do homem num jardim de cogumelos, um opulento e vistoso jardim, onde cresce o cogumelo misterioso e audaz.
Não é o amor que incita o monge a entrar de noite nas cercas dos jardins para espiar às janelas as belas adormecidas? Não é ele que enlouquece a monja e faz perder a razão à princesa? Não é ele que faz com que o rei ande com a cabeça rente ao chão, com os cabelos a varrer o pó, ao mesmo tempo que murmura palavras impudicas, ri e põe a língua de fora?
O amor era isso.
Não, não, era uma coisa muito diferente, uma coisa única. Veio à terra numa noite de Primavera, quando um jovem viu dois olhos… dois olhos. Olhou fixamente e viu.
Beijou uma boca e houve um encontro de duas luzes no seu coração, um sol que brilhou dentro de uma estrela. Caiu num abraço e não viu nem sentiu mais nada no mundo.
O amor é a primeira palavra de Deus, o primeiro pensamento que atravessou o seu espírito. Quando ordenou «Que se faça luz!», foi o amor. Tudo o que criara era muito bom e estava contente por tê-lo feito. E o amor foi a origem do mundo e o dominador do mundo, mas todos os seus caminhos estão semeados de flores e de sangue, de flores e de sangue.”


É um amor que sacode o corpo, mas não acode à alma, um coração que se sente incompleto. É a desistência face à fraca tentativa dela.
E nessa conclusão ora idílica ou (quase) nefasta que o livro é brilhante. De resto, tudo o resto está lá para fundamentar esse binómio que é o amor.

São episódios de delírio que não se distinguem da realidade. Escasseia nas poucas referências temporais. Surgem relatos que parecem ideias/cenários para o livro ou para um futuro dele e de Victoria, como se fossem chegar a velhos, juntos...

A escrita de Hamsun relata alterações pelas estações do ano que são breves mas brilhantes, que revelam uma capacidade extraordinária de dizer muito em poucas palavras, é uma capacidade de síntese que abarca um cenário enorme, natural e que engole os personagens.
Uma ligação maior à natureza.
“Existe uma espécie de amor que é muito inebriante.” E talvez o mais inebriante seja mesmo a Natureza.

Uma leitura cheia de arestas. Uma vontade de continuar a ler Hamsun, mas um certo tédio pelo lado banal e previsível destes amores tão fatais.
Fica já no final, outra aresta - A carta final de Victoria é um lamento, é um pedido de perdão por tê-lo praticamente desprezado constantemente? É a amargura de reconhecer que morreu sozinha e sem se realizar amorosamente, mas ao mesmo tempo agradece-lhe o amor que ele sempre lhe teve?!?

Outra dúvida: O pai de Victoria suicida-se depois do futuro genro morrer no (estranho) acidente de caça?!?
... Enfim, talvez o amor, assim descrito e posto de forma tão conturbada, mas simultaneamente tão simples, não seja para ser questionado, seja apenas para ser sentido.

*
Uma edição Cavalo de Ferro

quinta-feira, 17 de abril de 2014

"A Fenda", Doris Lessing - Opinião


Chego a Doris Lessing, através da apresentação de "Amar de novo", referido e comentado na Roda dos Livros, na qual participo e aprendo bastante, ficando igualmente atenta para novos autores, como foi o caso.
Doris Lessing é galardoada em 2007 com o Prémio Nobel da Literatura vindo assim firmar o valor das suas obras controversas e que fogem ao seu tempo, pondo em causa ideologias e religião. "A Fenda" segue esse percurso e dá um olhar feminista e de ruptura perante o papel atribuído à mulher. A critica em geral atribui-lhe enorme significado e tem uma vasta obra publicada, com mais de 70 livros. Começou a escrever a partir dos 25 e faleceu recentemente, em 2013, com 94 anos.

Sob o seu olhar feminista, "A Fenda" parte do princípio: «Foi apontada a possibilidade de a estirpe humana básica e primordial ser feminina e de o aparecimento dos homens ser mais tardio, à semelhança duma reflexão cósmica posterior.»
O livro abre também com a premissa: "O homem faz, a mulher é." de Robert Graves, deixando adivinhar a declaração de poder e primazia das mulheres.

As mulheres deste (quase) romance efabulatório, são as Fendas, fêmeas que apenas dão à luz outras fêmeas por partenogénese (gestação/reprodução sem fecundação) e que, acidentalmente, sem se saber como, uma delas dá à luz um bebé diferente, um exemplar do sexo masculino, portanto, um Monstro, ou um Esguicho (por oposição a fenda)... termo que posteriormente os passa a caracterizar visto serem portadores de uma fisionomia diferente e quase que preocupante face à das fêmeas.

Numa luta entre o Bem e o Mal, coloca-se a possibilidade de eliminar tais Esguichos, revelando assim um lado mais violento e por tal, contestado. Lessing demonstra a urgência e quase o prazer daquelas mulheres em massacrarem e exporem ao abandono os bebés masculinos.

: «Quando expúnhamos os nossos bebés deformados, as águias vinham buscá-los. Nós não matávamos os bebés, as águias é que os matavam.»

A repugnância, o medo, o desconhecido e o "ser diferente", mas tão próximo e semelhante abalou e pôs em causa a inquestionável descendência das Fendas pela Fenda e o papel das mesmas na comunidade já ancestral. A separação por sexos, em lados opostos da montanha e a quase protecção por elementos diferentes da Natureza talvez queria desenhar e organizar as diferenças que separam e rivalizam homens e mulheres, no entanto, a meu ver, a acção, o enredo e até a própria linguagem deixa muito a desejar.

A sobrevivência associada ao Rochedo da Morte e à Mãe águia, salvadora dos Esguichos e a Fenda protectora e que abriga as Fendas, a divisão entre as anciãs, Velhas Elas e outras personagens como Astre, Maire ou o primeiro Ele, são personagens e cenários com os quais tive imensa dificuldade de me ligar. A própria narração da história, sempre na suposição, no carácter experimental... retira o impacto e a litologia que a autora pudesse querer dar com a obra. Vejo essas partes da narrativa como cortes, que quebra e chegam a permitir ridicularizar toda aquela nomenclatura, que a certa parte me parece forçada e descontextualizada.

Sendo assim, a minha estreia com esta autora, cuja biografia (que tenho vindo a ler aqui e ali) me parece melhor que esta obra, se bem que os entendidos, afirmem que obra e biografia se fundem e daí a fama de grande parte das obras de Doris Lessing.

Quem sabe, se me cruzar com Os Diários de Jane Somers e com O Verão Antes das Trevas, os adquira e me perca pelas personagens que se misturam na biografia da autora.

*
Banda sonora (enquanto escrevi o artigo), clique na cassete ;)



quarta-feira, 20 de novembro de 2013

Prémio Nobel - Mario Vargas Llosa em destaque

«O Herói Discreto» já vigora na minha wishlist desde que saiu, mas agora ainda mais.
Não resisto às sugestões de Carlos Vaz Marques.



Aqui fica «O Herói Discreto» no Livro do Dia, TSF
Clique na imagem para ouvir


Uma edição QUETZAL

terça-feira, 1 de outubro de 2013

«A Civilização do Espectáculo» de Mario Vargas Llosa - Opinião


A metamorfose da palavra cultura, ou melhor do seu significado e conteúdo é o alvo desta radiografia ensaísta do Prémio Nobel da Literatura de 2010. Mario Vargas Llosa afirma-se preocupado com o desaparecimento da cultura (se é que já não desapareceu) e a banalização e frivolidade dos conteúdos exibidos sob a denominação de cultura.

Vargas Llosa não está só preocupado com a fragmentação e as temáticas temerárias que alastram na cultura dos nossos dias, mas também com a complacência e a letargia do receptáculo, que, ao que parece, não se preocupa ou ainda não se apercebeu o quão nefasto é esta falta de qualidade actual, degenerando assim a sociedade em geral.

Num ensaio curto e com uma escrita pragmática, sem rodeios nem polimentos, o nobel encaminha-nos pelos meandros da cultura, que desde o início nos indica considerar perdida e vendida às exigências de uma sociedade dependente do fácil, do superficial, do vendável e das modas. Questionando a massificação da cultura e culpando-a pela perda da mesma.

Citando T. S. Eliot, na sua obra Notas para a definição de cultura (1948) "Não vejo razão alguma pela qual a decadência da cultura não possa continuar e não possamos prever um tempo, de alguma duração, do qual se possa dizer que tem falta de cultura", o autor adianta-se e desde logo afirma (p. 12), sem rodeios, que "esse tempo é o nosso".

Desde o início deste livro, a sua leitura envolve-nos em diversos conceitos, especulando inúmeras questões e alertando-nos para leituras paralelas ou posteriores, espicaçando-nos para compreender melhor aquilo que Steiner chama «a retirada da palavra» e a degradação progressiva da mesma já que a cultura actual subverte-se ao poder da imagem e à rapidez de absorção desses conteúdos imagéticos.



Qual é o impacto deste bombardeamento asfixiante de ideias, imagens, diversão, espectáculo...?
Que papel tem a inquietação e a ansiedade que o consumismo desenfreado provoca?
Numa época cada vez mais individualista como se aceita uma cultura cada vez mais despersonalizada?

Vargas Llosa alerta também para a constante alienação (Marx, 1884) provocada pela Civilização do Espectáculo que vem expandir o fenómeno da «reificação» ou da «coisificação» do indivíduo, anestesiando-o e afastando-o dos reais problemas. As políticas de facilitismos, camuflam estratégias de aprisionar o indivíduo a uma sociedade industrial, criando necessidades onde não existem, estupidificando e futilizando a sociedade, deslocando assim a sua atenção.

A crítica é incisiva e toca a todos, expande-se pelos vários acontecimentos político-sociais da actualidade, questionando o prazer, o poder, a arte, a proibição, a religião, a informação, a guerra... ou seja, muitas das ramificações que estruturam e atribuem valor e conteúdo a uma cultura que se tem vindo a perder. Fundamentando e expandindo os seus próprios escritos, o Nobel da literatura faz a ponte com inúmeros escritores, filósofos, sociólogos e obras de renome, abrindo assim um leque vastíssimo quando se deseja aprender mais.

A reflexão continua e divide-se entre seis capítulos e uma reflexão final, tendo todas elas um fragmento extra, intitulado de pedra de toque (a designação não será acidental), conferindo assim uma maior acidez ao discurso e afirmando ainda mais o seu carácter crítico e o olhar desencantado de quem se sente um dinossauro numa época profanada pelo light, e aqui entenda-se que este light é pesado e enredado, é irresponsável e manipulador.

É urgente a mobilização de consciências e o compromisso de não nos volatilizarmos tanto, sem prejuízo, é certo, de sermos capazes de nos divertir e entreter, mas não fazendo disso o adágio dos nossos dias. O entretenimento não pode converter o mundo num palco gigante, banalizando o sofrimento e a violência, que nos consegue tornar apáticos e passivos, uns conformistas conflituosos, superficiais e cheios de opiniões, meramente exibicionistas e pouco fundamentadas ou conscientes.


O inconformismo do autor é descaradamente delicioso de ler, já que nos brinda com uma escrita explícita e em nada labiríntica ou complexa contrariando muitos dos ensaios que nos inibem de lê-los, adivinhando ideias intrincadas e parágrafos que nunca mais terminam, mas neste livro nada disso ocorre, levando-nos a acreditar que este género de prosa ensaísta seja o último reduto e chame a si os produtos da sociedade actual.  


«A Civilização do Espectáculo» é uma edição Quetzal, tenha mais informações aqui ou no blogue da editora.

quinta-feira, 28 de março de 2013

«A Caixa» - Prémio Nobel da Literatura


"«A Caixa» (...) mosaico de fragmentos que era a nossa família."
"(...) pelo ar circulam palavras ainda por pronunciar."

Entre na caixa, não deixe nada ficar de sobra.
Sem flache, entram e saem episódios, anos de vida... assim em termos de milagre.
Entre o que acontece e o que desejamos é a só a distância de um clique, uma linha, uma palavra.
É a barafunda das ideias de quem já celebra 80 anos, 8 filhos, 4 mulheres (ou mais) e claro todos sob o efeito de ped'um desejo de Mariachen que têm o poder de quebrar muros (ou levantá-los) inventar cães, destronar guerras, criar e destruir famílias... é a loucura de entrar num buraco escuro e em instantâneos momentos viver uma guerra, escrever livros, galgar fronteiras, contornar negócios escuros e ainda um Nobel. Retrospectivamente a Agfa Box é uma máquina do tempo com poderes semelhantes aos do alto dos céus que prevê e lapida o futuro ou conserta e abrilhanta o passado, conseguindo assim en-caixar melhor o presente.

"(...) sem que eu precisasse de dizer «tir'aí uma, Mariachen!"



"A minha Box tira fotografias que não há como elas. E vê coisas que antes nem lá estavam. Ou então mostra aquilo que a vocês nem em sonhos vos ocorreria."
"A minha Box é como o nosso querido Deus: vê tudo o que é, o que foi e o que há-de ser. A ela ninguém a pode trapacear."
*

É o melhor que vos posso dizer de uma obra tão peculiar, que várias horas de sono me tirou, me fez reler e dobrar cantos para lá voltar novamente.
Uma escrita diferente, digna de alguma barafunda ou o passados por vezes não fosse isso mesmo, um misto de ideias, sensações, acontecimentos e vivências que às tantas os fantasmas lutam todos por um papel principal.

Prepare a mente, receba as imagens e sinta peculiaridade de um autor que tem tanto de aclamado como de controverso.

Boas Leituras.

Uma edição Casa das Letras - Leya


Outras informações e notícias sobre o autor - aqui - de onde li vários artigos para entranhar melhor na leitura.

segunda-feira, 18 de março de 2013

A ler... Günter Grass - A CAIXA


Günter Grass em seu ateliê em Behlendorf
"Numa tentativa após a outra", ele queria ultrapassar a fronteira alemã-alemã e se intrometer nas duas eleições, de maio e de dezembro. Foi com essa intenção que Grass começou, em 1990, a fazer suas anotações. Dezenove anos depois – e meio ano após o lançamento de seu livro autobiográfico Die Box (A Caixa) – seus diários daquela época foram publicados: Unterwegs von Deutschland nach Deutschland(Em trânsito da Alemanha para a Alemanha).

Um autor preso ao "vício" de escrever diários e contar os seus pensamentos e acontecimentos. Um homem da política, mas um homem de família, «A Caixa» revela e conta vivências em família em torno de 8 filhos, dando continuidade à sua auto-biografia, polémica e controversa  começada em «Descascando a Cebola»

«Era uma vez um pai, que, por ter envelhecido, convocou os seus filhos e filhas – quatro, cinco, seis, oito, assim eram eles em número - , até que após longas hesitações estes obedeceram ao seu desejo. Estão agora sentados ao redor de uma mesa e desatam logo em amena cavaqueira: cada um por si, uns por cima dos outros, imaginados pelo pai e postos a falar com as palavras deste, contudo renitentes e, apesar de todo o amor, sem querer poupá-lo. Continuam ainda a debater uma questão: quem irá começar?»

Um escrito amplamente envolvido nas crises alemãs, desde as tropas das SS até à queda do Muro, Grass nem sempre é visto com os melhores olhos.
Galardoado com o Prémio Nobel em 1999 e estando traduzido em inúmeros países, amplamente reconhecido pelo seu sucesso ainda tem "este espantoso medo infantil" de emudecer como escritor. O escrito conta já com 86 anos!

Christina Knight, do Escritório Alemão do Livro em Nova York, salienta na sua escrita:
"admira-se nele o fato de ser um bom narrador e sua maneira de escrever possui um ritmo musical que se pode comparar ao jazz".

Mais reportagens sobre o autor aqui.
«A Caixa» é uma edição CASA DAS LETRAS

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

Uma curiosidade, Kenzaburo Oe - Prémio Nobel 1974


Ler - Prémios Nobel da Literatura...


Depois de Gabriel Garcia Marquez, Mo Yan e alguns outros que eu já tenha lido sem saber... heis que as pesquisas me alertaram para Kenzaburo Oe:


PRÉMIO NOBEL DA LITERATURA 1994

Escritor japonês, Kenzaburo Oé nasceu a 31 de janeiro de 1935 numa pequena aldeia situada algures na orla da floresta que preenche a Ilha de Shikoku, a mais pequena do arquipélago japonês. Cresceu de acordo com a tradição milenar japonesa, na época ainda intacta na aldeia, e aprendeu a recitar lendas e a pintar com a avó, uma cronista oral de grande reputação no lugarejo.

Kenzaburo Oé contava apenas seis anos de idade quando a Segunda Guerra Mundial assolou o país, e a sua primeira escolaridade ficou marcada pelo inculcar dos ideais imperiais nipónicos. O seu pai faleceu em combate no Pacífico em 1944. Perdeu também a sua avó nesse mesmo ano, ficando sob a tutela espiritual da sua mãe.
Pouco tempo após a derrota do Japão, em 1945, Kenzaburo Oé ingressou numa escola secundária da cidade de Matsuyama. Revelando prestações exemplares, foi admitido em 1954 no curso de Literatura Francesa da Universidade de Tóquio, que concluiu em 1959. Estreou-se como contista em 1957, com a publicação de Shisha

No Ogori e, logo no ano seguinte, viu o seu primeiro romance, Memushiri Kouchi (1958, Não Matem O Bebé), ser recompensado com o Prémio Literário Akutagawa. Descrevendo o impacto da guerra sobre a mentalidade da juventude rural japonesa, Oé demonstrava claras influências por parte da literatura francesa sua contemporânea.

Após um período em que se debruçou sobre o fenómeno da aculturação na cidade Tóquio, causada essencialmente pela ocupação norte-americana, em 1964 o autor publicou Kotjinteki Na Taiken, obra em que procurava lidar com a tragédia pessoal que sobre si recaiu quando, em 1963, se tornou pai de uma criança com uma malformação craniana congénita. Refletindo a revolta de muitos japoneses quanto às consequências dos bombardeamentos atómicos de Hiroshima e Nagasaki sobre a carga genética do seu povo, apareceu em 1964 com Hiroshima Nooto.

Prosseguindo a sua investigação sobre os efeitos do convívio forçado entre povos, desenvolveu um interesse particular sobre Okinawa, outrora a zona mais tradicionalista do Japão mas que, com a derrota do país, serviu de alojamento para uma base aérea norte-americana. Esse período da obra do escritor culminou com o aparecimento de Man'en Gannen Futoboru (1967).

Galardoado com o Prémio Nobel da Literatura em 1994, Kenzaburo Oé nunca deixou de escrever, surpreendendo os seus leitores com obras como Jinsei No Shinseki (1989), Boku Ga Hontu Ni Wakakatta Koro (1992) e Tsugaeri (1999).

In Infopédia . Porto: Porto Editora, 2003-2011.

E a melhor notícia é que a Rede de Bibliotecas tem 3 deles, ora vejam:


A título de curiosidade, um artigo da Sábado que diz
VENHA O MELHOR DO JAPÃO E ESCOLHA


Ficam as dicas. Até lá - BOAS LEITURAS

sábado, 2 de fevereiro de 2013

Finalmente o Nobel


PEITO GRANDE ANCAS LARGAS


“Mo Yan é um escritor cujo realismo alucinatório funde contos tradicionais, História e contemporaneidade”, disse o comité aquando da decisão pelo autor chinês para Prémio Nobel da Literatura 2012 


- Está calado! 

- Não estou! 













E ainda bem que não ficou calado!!!

Mo Yan significa "está calado" e é o pseudónimo de Guan Moye, nascido na China rural de 1955, crescendo entre os transtornos da guerra e da fome, intercalado com a vida no campo e as tradições enraizadas da cultura chinesa.

Antes de mais, eu recomendaria a leitura de algumas informações sobre o autor, mas mais ainda sobre a China. Acredito que só assim possamos interpretar a profundidade de alguns dos episódios, cenários e personagens que Peito Grande, Ancas Largas. Algo que eu só me apercebi depois.

Mo Yan, expõe com mestria, mas é o nosso olhar que está turvo e toldado pelo peso das páginas, pela brutalidade de algumas situações, pelo enredo das descrições, mas pior ainda, o nevoeiro que jaz na nossa compreensão é fruto do desconhecimento de uma China tão distante, de tradições tão díspares, de uma cultura com riquezas próprias e de um clima de guerra, fome e subjugação da mulher, que nós só conhecemos dos livros, dos filmes, dos relatos noticiosos... felizmente.
Mesmo assim, é possível ler Mo Yan! E é bem possível que se vicie na história, que a leia incessantemente, mas - vá com calma! São 600 páginas, são 100 anos de história, são 8 filhas, 1 filho e 1 mãe, mas são maridos, netos, padres, soldados, fome, violações, peitos, seios, mamas... tudo muito intenso e intensamente descrito, intensamente rebuscado, hilariantemente no estilo inconfundível deste marcante narrador e ferozmente um romance sobre a história, a guerra, a política, a fome, a religião, o amor e o sexo, na China do século XX, pelo olhar de um filho da terra, censurado, recrutado, proibido, badalado, controverso... 

... e assim nasce Mo Yan, no Peito Grande, Ancas Largas: “O impulso criativo veio-me da profunda admiração pela minha mãe”.

Considerando o impulso e a inspiração materna, as informações sobre o autor e ainda o que ele diz sobre a sua própria obra:“Se quiserem podem ignorar todos os meus outros livros. Mas é obrigatório que leiam Peito Grande, Ancas Largas. É um romance sobre história, a guerra, a política, a fome, a religião, o amor e o sexo” ... é impossível não questionar: será Jintong, o narrador uma personificação do próprio autor?


Perceba-se aqui que este é um livro que espelha a força e perseverança do sexo feminino, hiperbolicamente descrita em cenários brutos, tocantes, chocante: “Nesse momento, vimos que metade da cabeça de Mudo Grande desaparecera e que um buraco do tamanho de um punho aparecera na barriga de Mudo Pequeno. Ainda vivo, mostrava-nos o branco dos olhos. A Mãe pegou numa mão-cheia de terra alcalina e pressionou-a contra o buraco, mas tarde de mais para impedir que um liquido verde borbulhante e o branco dos intestinos escorresse para fora". 

No entanto, a fraqueza e obsessão de Jintong é abismal-mente controversa ao poderia feminino da família. Ainda assim a forma como é descrita a sua dependência física e mental garante ao leitor uma amálgama de bizarrice digna de nos viciar também... conduzindo-nos ao profundo desequilíbrio visual, num festim de cenas carnais, até aos confins da imensidão das metáforas do pensamento sexual, num fetiche omnipresente!
"O pastor estava de pé, alto e maciço por trás dela; as suas mãos, tão feias, contornaram-na e cobriram as duas pombas brancas. Com os dedos grosseiros alisaram-lhes as penas, beliscaram e apertaram as suas cabecinhas! Pobres cabaças! Pombinhas queridas! (...) Berros sonantes romperam-me da garganta; um rio de lágrimas turvou-me os olhos."

Poderia continuar a revelar-vos descrições marcantes, exageradas, delirantes, não só de seios, mulheres, corpos, sexo, mas de também de guerra, fome, subjugação... em variadíssimas partes há simultaneamente um realismo profundo, bruto, cruel, que quase nos fere, mas logo em seguida é como se a escrita do autor esvoaçasse até terrenos do delírio, plataformas da alucinação de um qualquer opiáceo e toda a dureza se transforma numa beleza inebriante de uma escrita metafórica única.

"Nos últimos dez anos, ou mais, os membros da família Shangguan morreram que nem pés de cebolinho. Ao mesmo tempo, nasceram outros para tomar o lugar deles. Onde há vida, há morte. Morrer é fácil, o difícil é viver. E quanto mais difícil, maior é a vontade de viver. E quanto maior o medo da morte, mais a gente luta para continuar viva. (...) Os seus olhos marejados de lágrimas porém cuspindo fogo, varreram os nossos rostos e vieram pousar no meu, como se eu fosse o depositário de todas as suas esperanças. Isto deixou-me incrivelmente nervoso e assustado, dado que, com a excepção do meu jeito para memorizar as lições e para cantar o «Hino de Libertação das Mulheres» (...) era um bebé chorão, apavorado coma própria sombra, e um fraco, como um borrego castrado."


sexta-feira, 16 de novembro de 2012

O autor da liberdade de expressão


Excerto do diálogo diário entre irmãs, sobre o seu maior assunto: Livros ou melhor
blogue...


Elsar: Cris - deixo para ti o post sobre os 90 anos de Saramago?
(... e passa-me vários links, que partilho para mais informações)

Efeitocris: ... qt a Saramago, queres q eu faça um post sobre o autor - a pessoa - !?!?!
o que queres? tens ideia?
...
Elsar: Saramago, hoje comemora-se o Dia do Desassossego, em memória do autor pelo que seria o seu 90º aniversário... há eventos na Casa dos Bicos - Fundação... era só para estar "actualizada com o mundo dos livros" :P

Efeitocris: qt a saramago, deixa lá!!!
to sem inspiração e o pouco de li dele, entediou-me tanto qt gostei!?!?!
gosto das ideias caóticas dele... assim soltas, ao acaso...
saramago encaixa-se melhor quando espalhado pelas paredes aqui e ali


... e entretanto aquilo que ia ser um e-mail de desabafo foi compondo-se como aquilo que achei quase um lixo extraordinário...

...
... esta é a minha forma de relembrar Saramago e alertar para as comemorações em seu nome:

talvez hajam coisa que devam ser amadurecidas com a idade, talvez Saramago chegue com a idade... quem sabe ainda não estou assim "tão velha"... Saramago ainda é muito o Memorial do Convento, de atazanados tempos de escola e de obrigação da sua leitura... mas Saramago é também um excelente filme com Jullianne Moore ou não fosse ela a atriz que é e com a dignidade excepcional que coloca em cada interpretação... assim incapaz de ler o ensaio sobre a cegueira, sem que antes as imagens do filme se escurecerem, se esbatam, já que esquecer será difícil, pois Fernando Meirelles é exímio no seu trabalho, pois os filmes que vi e que têm a mão dele, não é um, nem dois, nem três... são todos "de se lhe tirar o chapéu"... mas voltando a Saramago... vou antes reduzir-me ao Memorial do Convento, A Viagem do Elefante e à Maior Flor do Mundo (sim... porque as Intermitências da Morte continuam por ler)
... para vos dizer sinto sempre que me escapa qualquer coisa, qualquer coisa que fará o click e me fará dar sentido a cada obra de Saramago... ou será antes esse o intuito do autor!? Pairar nas nossas mentes, a ad eternum até percebermos que não se trata de nos ter escapado algo, antes sim que "esse algo" reside em nós e na compreensão que cada leitor faz das palavras de Saramago - será isso!? ... ou não fosse Saramago o autor da liberdade de expressão!?!?


Quero ainda destacar o livro O Ano da Morte de Ricardo Reis, em forma de roteiro pela cidade de Lisboa, quem sabe um dia...


Boas leituras e bom fim de semana...

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

«Tudo o que eu tenho trago comigo» de Herta Müller, Dom Quixote


Tudo o que eu tenho trago comigo. 

Ou: Tudo o que é meu trago em mim.



Talvez estas sejam as frases mais passíveis de resumir este livro. Um livro muito pouco passivo ou sequer histórico ou até biográfico, este livro, destacado pelo Nobel da Literatura 2009, tal como está escrito, transcende a própria história, transcende o homem desprovido de bens, transcende a nossa capacidade de ler sobre tanta miséria, tanta fome, tanta morte, tanta pobreza.


Um livro que não se faz notar pelo peso que tem, mas antes pelo peso de cada palavra, uma a seguir à outra, detalhadamente escolhidas, calculadas, estrategicamente colocadas para nos fazer viajar por tamanha brutalidade, a doença da fome, que se alastra pelo corpo ao mesmo tempo que consome a mente, rendilha as ideias e os sentimentos.

Este livro arrepiou-me tantas vezes que algumas mo fizeram fechar, a dimensão do sofrimento humano é tal, que chega a ser difícil suportar... quem sabe não foi isso que em muitas noites me tirou o sono. Fiquei com muita curiosidade por outras obras da autora, se bem que houve partes em que desejei já ter terminado o livro, a carga emocional é demasiado grande.



"A Irma Pfeifer jazia no meio, de cara voltada para baixo. A argamassa fazia bolhas (...)A cabeça afundou-se e o barrete flutuou lentamente até ao bordo, como pomba emproada. Com as mordidelas dos piolhos em crosta, a nuca rapada (...) a Irma Pfeifer desceu à terra provavelmente vestida e os mortos não precisam de roupa, quando há vivos a morrer de frio.
Achar pode achar-se muita coisa. Saber é que não."


A frieza das palavras, a rapidez com que as coisas acontecem, os pensamentos duros, nus, crus, cozinhados apenas na dor causada pela fome, são para mim atordoantes, de chegar a dar medo.

"O anjo da fome deita um olhar à sua balança e diz: "Ainda não estás suficientemente leve..."
E com rapidez, de lábio empinado, comi então todas as cascas de batata enregeladas.
E chega a noite. (...) E todos sobem para a fome...
(...)
Quando a fome aperta mais, falamos da infância e de comida. (...) Umas vezes é o pato recheado à evangélica, outras, o recheado à católica." 




Volker Weidermann refere que esta é uma obra que se alimenta do horror, eu acrescentaria que se alimenta antes do poder de gerar horror, numa tal dimensão que nos deixa alerta para o respeito e a humildade com que devemos olhar à história e retirar dela todas as lições que o futuro nos pede. Sei que pode parecer filosófico, mas a guerra é o horror daquilo que uns são capazes de fazer contra os outros, por necessidade, por defesa, por obrigação. A verdade é que a guerra é um complexo de horrores, de mortes, de atrocidades que marca toda uma história mundial.

Já quase no final do livro, no capítulo "a gente vive, vive só uma vez", as primeiras palavras são curtas, concisas e arrepiantes - "a alimentação do corpo permanece até hoje um mistério para mim."


"A minha radical prática de abandono. Preciso muito de proximidade, mas sou incapaz de me entregar. (...) Desde o anjo da fome, não permito que ninguém me tenha."


TAMBÉM LÁ ESTIVE (...) EU FIQUEI LÁ (...) DE LÁ NÃO CONSIGO SAIR



sexta-feira, 20 de agosto de 2010

A viagem do Elefante

Passados não sei bem quantos anos, decidi que queria voltar a ler Saramago, quis começar pelas Intermitências da Morte, mas a minha Biblioteca favorita não tinha para requisitar, então decidi comprar na WOOK e foi um fiasco (uma história/reclamação) para depois! Afinal agora descobri que o meu amigo Valadas tem e adorou esse livro e, como é óbvio será ainda leitura deste Verão.

Mas este post será sobre "A Viagem do Elefante" e deixem que comece já por dizer que adorei o modo como está escrito, pelos jogos de palavras, pela inteligência como certas ideias estão colocadas, mas sinceramente tenho a necessidade de dizer que o livro me chateou, achei-o enfadonho! Dos muitos últimos que tenho lido este foi realmente cansativo de ler, não me apetecia, cansava saber que ia continuar a seguir com os olhos as palavras que descreviam, sempre, desde o princípio até ao fim, a viagem de certo Elefante desde Belém, Lisboa até Valladolid e depois até à Áustria...

Será que aqui um detalhe histórico que me falha?
Existe alguma ironia e critica à monarquia desta época que eu desconheço e então a história perde o sentido e o interesse?

Ainda assim quero dizer que o modo como está escrito é sem dúvida o melhor deste livro, Saramago descreve-nos o Elefante como um ser equiparável às pessoas que o rodeiam, ou melhor, em certas fases, um ser superior!

Quem já leu, gostou e encontrou sentido para a história que me explique por favor, pois fiquei com a sensação de me ter escapado algo!

Ainda assim estou preparada para as "Intermitências da Morte", logo depois de ler "O Homem que sonhava ser Hitler", do Tiago Rebelo e heis aqui reveladas as próximas reviews que serão feitas por mim!

Vivas ao Verão!

quinta-feira, 29 de julho de 2010

"Ensaio sobre a cegueira" de José Saramago



Talvez um dos melhores livros que já li, se não o MELHOR.
é verdade, não li muitos mas este deixou-me de rastos.
é poderoso,
tocante
marcante
perturbante
pega na nossa imaginação e esfrega-a no chão, no lixo, deixa-a moribunda na valeta quando tenta nos mostrar o nível baixo a que podemos chegar.
Demorei um pouco a digerir a escrita, é diferente, completa e complexa.
O livro agarrou-me do princípio ao fim, dava por mim a pensar na história sem a estar a ler.
Dei por mim a olhar para um copo de água e a pensar "e se este fosse o último"
Este livro é um abanão, uma chapada na cara e um murro no estômago.

Quem o lê e não se sente assim ou tem uma carapaça muito dura ou não percebeu metade do lá estava escrito.

Este é daqueles que tenho de ter na minha estante para o reler.....marcar...sublinhar....ser meu.
Este é daqueles que não pode faltar.

Ignorante fui todo este tempo que me recusei a lê-lo.

Agora....Tenho o Blindness de Fernando Meirelles à minha espera lá em casa.