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sexta-feira, 22 de julho de 2016

«Manual para mulheres de limpeza» de Lucia Berlin :: Opinião


A critica é unânime. Lucia Berlin é largamente aclamada e premiada. No passado mês de Junho, "Manual para mulheres de limpeza", foi o título ganhador do California Book Award, destacando o melhor livro de ficção nos Estados Unidos, e ainda o Prémio Libreter que destaca o melhor livro de literatura estrangeira em Espanha, atribuído pelo Grémio de Livreiros da Catalunha. Os jornais The New York Times e The Guardian atribuem-lhe o selo: "descoberta literária do ano". Por cá, quem o publica é Alfaguara, do Grupo Penguin Random House que reúne 43 das 76 histórias que são conhecidas de Lucia Berlin. Segundo a editora, "um estilo muito próprio", "faz eco da sua própria experiência -- tão rica quanto turbulenta".


A forma esporádica como foi escrevendo deixa na sua escrita a marca do dia a dia, trazendo-nos histórias que sobrevivem tanto à banalidade como ao peso do quotidiano. A realidade relatada nos escritos de Berlin foi associada à sua própria vida. Talvez seja essa autenticidade associada à brutalidade em muitas das partes da sua narrativa que lhe conferem uma importância ainda maior. Os seus contos oscilam assim, tal como a vida, entre episódios peculiares e divertidos, mas também momentos dramáticos e perturbadores que se conhecem por terem pautado a sua atribulada vida.

A selecção dos contos foi muito bem feita e até a forma como vão surgindo no livro, permitem-nos acompanhar o passar do anos, mas também, atingir um ponto tal de confusão entre relatos pessoais e ficcionais, ao ponto de o leitor não conseguir dizer ao certo que fio condutor rege estas vidas, mas será preciso?

"Que outras coisas perdi? Quantas vezes na minha vida terei estado sentada no alpendre das traseiras, não no da frente? O que teria sido dito que não consegui ouvir? Que amor podia ter havido que eu não senti?
São perguntas vãs. (...)"

A força da sua escrita sente-se de tal forma que em breves parágrafos e com a energia que nos transmite, passamos a ser testemunhas de cada acontecimento. É como se estivéssemos lá. E termos lá chegado valida cada momento ali descrito. Em alguns deles, Berlin parece contar-nos segredos, como se sussurrasse aquelas palavras, e dessas vezes, a força é mais contida, como que sufocada, mas muito mais profunda. Há dor, drama, muitas lágrimas e medo, nas linhas que rebatem certos acontecimentos aqui expostas ao leitor.
Ainda assim, percebe-se o quanto se nega à auto-complacência ou ao ressentimento. Aliás no final, é exactamente isso que volta a ser frisado:

"(...) O único motivo por que vivi tanto tempo foi ter largado o meu passado. Fechar a porta à dor, ao arrependimento, ao remorso. Se os deixar entrar, basta uma nesga autocomplacente, zás, a porta abre-se por inteiro e eis que entra uma torrente de dor que me rasga o coração e me cega os olhos de vergonha (...)"

Por isso, o melhor fio condutor para todos os seus contos é o humor. Nuns contos será a gargalhada alta e estridente, noutros apenas o leve sorriso que apenas sobe um canto da boca, mas ainda assim, está lá. Sim, é isso. A energia dos seus contos é fruto do humor que coloca em cada relato que faz do que a rodeia ou do que marcou a sua vida.

"«Sim, agora não parece tão chocante, não é? Que tenham vindo de férias depois de a mãe ter morrido.»
«Sabe... é pena que não seja uma tradição. Umas férias pós-funeral, como uma lua-de-mel ou uma festa de boas-vindas a um bebé.»
Riram-se as duas. «Herman!», disse a Srª Wacher ao marido. «Depois de nós as duas morrermos, vocês, homens, prometem ir fazer uma férias juntos?»
Herman abanou a cabeça. «Não. São precisos quatro para jogar brídege.»

Despudorada, meio seca, recheada de análises simples do quotidiano e um bando de gente anónima. São estes os ingredientes destes contos. E se a certa parte, quase no final, lemos: "Tudo o que de bom e mau aconteceu na minha vida foi previsível e inevitável, especialmente as escolhas e as acções que garantiram que agora estou totalmente sozinha." Talvez sejamos levados a pensar que a escrita foi uma companheira de vida e de estrada de Lucia Berlin e que muito do que guardou para os seus contos fossem conversas que nunca chegaram a acontecer, no entanto, talvez o facto de só postumamente ter obtido reconhecimento literário venha aumentar o mito e o drama em torno da sua vida. No entanto, quer-me parecer que viveu consoante os seus desejos, fervilhantes e intensos, e só digo isto pelo que de apaziguador que a sua escrita me transmite.

E há ainda outra coisa, Berlin tem contos que são como uma ode à frase de Mae West: «quando sou boa, sou muito boa, mas quando sou má, sou melhor ainda!»




Um livro ALFAGUARA.
Para ler mais sobre a autora: 
Lydia Davis na Sábado e o texto de Isabel Lucas no Público

quinta-feira, 14 de julho de 2016

«AS REPUTAÇÕES» de Juan Gabriel Vásquez :: Opinião



Li «AS REPUTAÇÕES» de Juan Gabriel Vásquez de uma assentada e recomendo bastante a sua leitura. Julgo ser difícil que se faça de outra forma já que o texto flui de forma viciante. 

"Ele já quase nunca vinha à cidade e habituara-se a olhar o mundo através dos ecrãs e das páginas, a deixar que a vida viesse até si em vez de a perseguir nos seus esconderijos (...)
Sim, a cidade era outra. Contudo, não era nostalgia aquilo que embargava Mallarino quando constatava as mudanças, mas um curioso afã por suster a sua própria entropia interior, a lenta oxidação dos seus órgãos, a erosão da sua memória reflectida na memória erodida da cidade: (...)
O maior caricaturista político da história colombiana tinha sido devorado, como tantas outras figuras, pela fome sem fundo do esquecimento. Também de mim se esquecerão um dia, (...)"

É nesta fome sem fundo e neste parágrafo, que para mim fica tudo dito, ou seja, desde o início vemos o passado e o futuro de Mallarino e em função disso acompanhamos as decisões e compreendemos as suas divagações do personagem. 

É um livro pequeno mas que abarca tanta coisa grande. A força do desenho de opinião que pode mudar passados e mover futuros. 
"- Ricardo Rendón, o meu mestre - apressou-se a dizer -, comparou certa vez a caricatura a um aguilhão, mas forrado a mel."
Através do traço que denuncia, Mallarino guia o seu trabalho com esta bússola, exprimindo assim o que o preocupa, mas também o que o faz rir, apelando ao humor negro característico do cartoon. 

"- Ouça - disse Mallarino -, vivemos tempos desnorteados. Os nossos líderes não andam a liderar nada, e muito menos a contar-nos o que está a acontecer. E é aí que eu entro. Conto às pessoas o que está a acontecer. O importante na nossa sociedade não é o que acontece mas quem conta o que acontece."

As polémicas, as reputações, os jogos de poder e a necessidade de denúncia política, juntamente com o procurar uma outra versão dos acontecimentos... é com o que Vásquez constrói uma intriga muito pertinente com questões ainda mais pertinentes face aos eventos que têm marcado a actualidade. Recorde-se a polémica e os atentados em torno dos desenhos do Charlie Hebdo que ocorreram pouco depois do lançamento deste livro e que colocam todo um novo enfoque na importância da liberdade de expressão. No entanto, o livro lança também outras questões, sobretudo a importância da busca pela verdade.

Vásquez cria imagens marcantes com determinados parágrafos, imagens que nos fazem sentir conhecer os personagens. 

"Há mulheres que não conservam, no mapa da sua cara, nenhum traço da menina que foram, talvez por se terem esforçado muito por deixar a infância para trás (...) talvez por entretanto algo ter acontecido, um desses cataclismos íntimos que não moldam uma pessoa, antes a arrasam, como a um edifício, e a obrigam a construir-se de nodo desde os alicerces."

A escrita do autor é especialmente visual quando Mallarino descreve os cartoons que criou, tanto com um traço espicaçante como humorístico. A própria intriga tem também os seus momentos de humor, mas julgo que com as questões que levanta, Vásquez pretende convocar o leitor para uma reflexão mais critica da sociedade, olhando às fragilidades e ao lado efémero das reputações bem como para as relações entre os poderes instituídos.

"(...) a humilhação, toda a humilhação, precisa de uma testemunha. Não existe sem ela: ninguém se humilha sozinho, a humilhação a sós, não é humilhação."

*
No dia 8/7 o autor recebeu o Prémio Literário CAL/Grupo Lena, na Casa da América Latina e no dia 11/7, esteve na Fundação José Saramago, à conversa com o realizador e escritor espanhol Javier Rioyo.
- Discurso na Casa da América Latina

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Esta leitura teve o apoio da ALFAGUARA | Penguim Random House Grupo Editorial 



quinta-feira, 13 de março de 2014

"Os Transparentes", de Ondjaki - Opinião

Em Os Transparentes, Ondjaki expõem uma Luanda, que talvez não resuma, mas caracteriza Angola, naquela globalização e capitalismo acelerados, na imposição de uma mutação acelerada.
É com base nessa realidade que o escritor conhece e sobre a qual escreve, uma realidade que estrangula a ficção e expõe a verdade. A urgência da verdade! A desconstrução moral e a urgência do capitalismo bruto que urge, que queima e que expõe uma cidade, um povo, diria eu, a uma corrupção desenfreada que não olha a meios.

"- a verdade é ainda mais triste, Baba: não somos transparentes por não comer... nós somos transparentes porque somos pobres." (pág. 203)

É nesta constatação da transparência de um povo, que Ondjaki revê também os portugueses. Talvez, arrisco a dizer, também os veja com o humor que reconhece no povo angolano, na alegria de viver, no desenrascanso típico, por vezes arrojado e criativo, tanto para sobreviver como para atalhar nas dificuldades da vida. Se neste livro eu li e vi Luanda, vi também Portugal. As makas podem ser outras, a banga também, mas os vijús tendem a ter a mesma vivacidade na hora de inventar e dar corda ao mujimbo ... ;)
É também nesta particularidade linguística e de contexto que o livro de Ondjaki ganha riqueza e promove aprendizagem. Há uma certa vivência que se experimenta lendo assim estes diálogos, que tendem a arrancar de nós uma certa teatralidade e interpretação, fazendo-nos rir e experienciar o livro.

"(...) desorientado por vocação, acordava cedo para ter mais tempo de não fazer nada." (pág.25)
Talvez a característica do Ciente seja uma forma de compreender a noção de tempo e o que se faz com ele... espelha uma certa contrariedade, uma atitude dúbia, mas que nos deixa a pensar. Aliás, todas as personagens irão ter características chave que nos deixam alerta: o Carteiro, o VendedorDeConchas ou o Cego, e a dureza da luta diária, mas também a simplicidade. A ideologia e o credo da AvóKunjikise, a corrupção e as manhas dos Fiscais ou do Ministro,... o amor à cidade e a transparência de Odonato... são transparentes, mas cheios de conteúdo!

"(...) porque só os grandes homens choram na companhia solitária de outros homens..." (pág.201)

Outro conteúdo que é trazido para o livro é a cidade, metamorfoseada pela exploração, pela corrupção... pelos mesmos de sempre e agora pelas perfurações em busca de petróleo... Ondjaki, tal como refere em algumas entrevistas, pretende chamar à atenção para a necessidade de se pensar Luanda, como cidade, como ser vivo, volátil e permeável a todas as mudanças trazidas pela globalização e capitalismo. É nessa mutação acelerada que a cidade perde qualidades e esmaga o povo, que luta pela dignidade de um dia melhor, menos sofrido, menos explorado... com menos fome. A fome é também uma grande temática.

Com um estilo e humor característico, o autor vai levantando o véu e denunciando o que lhe preocupa:
"- mas quem manda em tudo isto?
- gente muito superior.
- superior.. como deus?
- não. superior mesmo! aqui em Angola há pessoas que estão a mandar mais que deus."

A cada parte do livro, o leitor ganho um novo fôlego, naquelas páginas a negro, onde as palavras do autor ganham uma nova aura e anunciam a imaginação essa "faculdade que nos separa dos outros seres" ... essa potencialidade que tanto a ciência como a humanidade precisam.
Espelho dessa humanidade, mas também da criatividade do autor, é o prédio, metáfora para o povo e daquilo que os homens são feitos. Ele, o prédio, é o palco de uma Luanda esburacada, fragmentada.

Na lança que Ondjaki solta com este romance está uma imaginação que se embriagou nas estórias de um povo bom vivant que talvez ainda queira a sua Angola de outros tempos.


*
Uma leitura com o apoio CAMINHO, veja mais aqui.
Ondjaki, vence Prémio José Saramago, veja a notícia em Novembro 2013, aqui.

sábado, 23 de novembro de 2013

PRÉMIO GONCOURT 1º ROMANCE 2011 - "O Filho", de Michel Rostain

Ultimamente parece que o tema é recorrente, foi o último de Valter Hugo Mãe e também de Afonso Cruz e agora este romance de estreia - "O Filho", de Michel Rostain.

Deixo aqui na voz de Carlos Vaz Marques, o destaque desta edição da SEXTANTE, no «O Livro do Dia» na TSF.
Clique na imagem para ouvir:


Clique na imagem para ler mais sobre o livro


sábado, 16 de novembro de 2013

«O Viajante do Século» - Andrés Neuman - Opinião


Distinguido com o Prémio Alfaguara 2009, Andrés Neuman brinda-nos com este «O Viajante do Século» um romance apaixonante ao estilo dos grandes clássicos com uma boa dose de escrita moderna. Um romance onde a política e as artes se encontram, numa cidade perdida, no meio das diferentes regiões da Alemanha. Apesar das diferenças, um ambiente acolhedor, onde existe ao mesmo tempo um grande sentimento de liberdade e de pertença a este espaço imaginário, palco de uma enorme paixão.


Hans, um tradutor com hábitos nómadas chega a Wandernburgo e rapidamente se perde pelas suas ruas e dificilmente consegue sair. É como se tivesses ficado acorrentado a este lugar estranho, mas aconchegante.

Dividido entre a ideia de ser Hans ou Wandernburgo a personagem principal, passo a explicar-vos o que tanto atraiu este homem das letras a este espaço territorial "dominado" pelas artes e pessoas peculiares.
Hans, encontra uma grande variedade de cidadãos invulgares e apaixonados pelas artes, começo por uma das que gostei mais, o mendigo que toca um belo realejo italiano na praça principal. Um velho que irá ser uma grande surpresa por ser educado, bem falante, mas enigmático, por ter uma visão complemente diferente das dos outros, um velho preso ao seu instrumento como se fosse parte do próprio corpo.

Estranho velho, deveria
eu permanecer junto de ti?
Quererás acompanhar o meu canto
ao som do teu realejo?
Wilhelm Müller/Franz Schubert

Grande parte da acção decorre da convivência entre estes dois homens, tanto na praça a ouvirem a sua musica, como na caverna onde passam serões inteiros a falar sobre a natureza ou os aspectos mundanos da vida, tal como a necessidade de viajar ou a força que os "prende" a esta cidade. A contemplação da Natureza e as conversas mais existenciais e materialistas preenchem os diálogos de muitas e muitas páginas.

Hans ainda tem o prazer de conhecer mais alguns cidadãos como Álvaro um espanhol exilado, o Sr. Gottlieb, Rudi Wilderhaus e o Professor Mietter que em conjunto vão discutir semanalmente na casa Gottlieb,  literatura, poesia, filosofia, artes e pintura, irão debater sobre a política e questões da Europa enquanto continente e potência e ainda as guerras subjacentes entre a Prússia e França.

Reuniões que fariam inveja a qualquer pessoa culta ainda hoje. Digamos que seriam tertúlias onde, para além da discussão politico-social dos temas quentes do momento, se crescia culturalmente. Lia-se poesia, representavam-se pequenas peças de teatro, tocava-se música... enfim algo que quase todas as pessoas iriam apreciar e gostar de ter a hipótese de participar.

Para apimentar mais o livro e o seu lado apaixonado, o enredo integra em si uma história de amor à antiga, aqueles amores proibidos, cheios de floreados e declarações de amor... amores impossíveis, já que Sophie Gottlieb, é uma jovem comprometida a casar com Rudi Wilderhaus e Hans é um cavalheiro que deveria respeitar tal condição de contrato social, como mandava a época!

Afinando o toque clássico, a história de amor começa com a troca de cartas, onde os nossos apaixonados trocam poemas, onde tentam decifrar os pensamentos nas palavras um do outro, cartas enviadas pelos criados que se tornam cúmplices deste amor, permitindo os encontros amorosos e mais quentes que mantêm-a a chama acesa.
Um livro já por si belo, mas que ainda melhora com esta relação entre Sophie e Hans que decidem contornar a impossibilidade de ser amarem, decidindo começar a trabalhar em conjunto nas traduções de grandes poetas e romancistas europeus e americanos.

Um livro que é uma ode ao amor. E na mesma linguagem digo que amei a maneira como esta escrito, envolvi-me muito com as personagens e sobretudo apreciei a maneira, quase épica, como o autor nos consegue prender, seja através dos poemas, do romance ou dos factos históricos, que todos juntos contribuem para fazer deste um grande livro.

Leiam um excerto aqui no site da Editora Alfaguara, uma chancela da Objectiva.


quarta-feira, 13 de novembro de 2013

"Os demónios de Álvaro Cobra" de Carlos Campaniço - Opinião

"Quando Álvaro Cobra a despiu com os seus dedos grossos e desajeitados e a pôde, finalmente, ver nua sobre a cama, pensou que se tratava de um milagre, num tempo em que já não havia milagres sobre a Terra, por se ter esgotado a capacidade inventiva dos santos ou a benevolência pedregosa dos homens. Todavia, do mal dos divinizados não padecia o lavrador Álvaro Cobra, que possuía uma imaginação sem arreios..."
Carlos Campaniço oferece-nos uma galeria de personagens inesquecíveis, que vão de um anarquista à dona de um bordel ambulante, e recicla de forma original o realismo mágico para revisitar as virtudes e os defeitos das pequenas comunidades rurais do nosso Portugal.
Tendo como editora, Maria do Rosário Pedreira, a obra de Carlos Campaniço foi editada em Abril de 2013 pela Teorema, chancela do Grupo Leya. O mesmo título foi destacado com o Prémio Literário Cidade de Almada 2012


É nessa imaginação sem arreios que Carlos Campaniço traz até ao leitor um livro que é puro deleite. Este «Os demónios de Álvaro Cobra» é uma preciosidade tal qual o seu Alentejo, na aldeia de Medinas, e que lhe serve de pano de fundo para todas as maleitas dos Cobra, uma família cheia de eventos e raridades que tocam o bizarro.

O retrato rural, mágico e até surreal do nosso Alentejo é muito bem recheado com personagens assombrosas e dignas de "se lhe tirarem o chapéu". Se o próprio Álvaro Cobra é uma achado, a avó centenária não lhe fica atrás ou a irmã brasa, mesmo meio morta, não deixa de dar mais vivacidade à história.

Se as maleitas e enguiços associados à tenacidade ímpar dos Cobra é por si só dúbia, junte-se ainda, cristãos (precocemente convertidos), árabes e judeus, tudo em ampla convivência, num Alentejo que se reinventa por entre cultos pagãos para uma nova fé monoteísta!? 

Para além de religião e culto, encontramos também lendas e mitos associados não só às tradições populares alentejanas, como também do cunho cultural e geográfico herdado da ocupação árabe. O próprio autor afirma a necessidade de se escrever sobre o que se sabe, passando assim ao leitor uma maior credibilidade e conferindo um papel mais forte e real a toda a história.

Apesar de toda a magia que envolve e caracteriza o desfile de personagens deste romance, reconhecem-se nos traços pessoais de muitos deles, muitos de nós, actuais ou antepassados, demonstrando uma óptima análise do ser-se português nas palavras rebuscadas e sonhadoras do autor.

Carlos Campaniço brinda às gentes da aldeia e presta-lhes uma homenagem. É nesta passagem de testemunho que se imortaliza a tradição oral das estórias das gentes, das bichanisses que se cochicham e das histórias orelhudas, que de tanto serem contadas passam a ser verdadeira. Apesar de negra, a história é rica em graciosidade. É a linguagem, é a forma como o autor enlaça os acontecimentos e as personagens, conferindo, mesmo aos regionalismos mais brutos uma certa magia que os tornam belos.

É quase impossível destacar partes deste livro, pois são inúmeras e tenho o livro todo etiquetado, mas existem frases que são verdadeiras tiradas de mestre e nos transportam para uma outra dimensão de pensar a realidade. A ideia da solidão da morte e de o morto (o pai Cobra) não conseguir conviver com essa mesma solidão. Ou o recuo do exército de sapos, não pelos desígnios de deus, mas pelas mezinhas de nómada de Clarinha. Talvez a piada com o nome do padre Jesuíno (Je, do pai e suíno da mãe) ou outras tantas, sejam ainda mais do que o são, se lermos as entrelinhas... a religião pensada com o pragmatismo das gentes simples e que procuram a paz na opinião alheia... a importância de Miss Margot e os pares de pernas de deusas que vêm aliviar as noites... neste livro até o sexo tem cheiro a terra e os dissabores brutos das intempéries.

A própria ligação dos personagens à terra ou a comunicação paranormal com os animais, vista como bruxaria em algumas vezes, mas solução divina, quando assim é preciso. A divagação sobre o credo e tendências de culto tida nas páginas 94 e 95 é simplesmente deliciosa e por certo um pouco de todos nós se revê nalguma daquelas imagem - afinal de contas quem é não vai à apanha da espiga e põe o raminho atrás da porta!?

Em suma, os demónios que apoquentam Álvaro Cobra podem ser os que atormentam qualquer homem, nem santo nem bruxo, esta é uma história dos homens, onde a fé, a dor, o amor, a solidão, a morte, a tristeza e a alegria convivem todos os dias, tornando-nos parte da terra, parte do pó dos dias!


Este livro chamou-me pela primeira vez à atenção pelo título, depois o amigo e conselheiro de leituras Jorge Navarro leu e recomendou e logo de seguida, também Mário Rufino, leu e destacou e como tal, não me poderia passar ao lado. Mais tarde apanho também a entrevista que aconteceu antes do lançamento e na qual gostei bastante de ouvir o autor.
Neste Verão chegou a oportunidade de o ler e fico muito feliz de só agora me despedir dele, revisitando-o e escrevendo sobre ele, pois foi mais uma oportunidade de saborear algumas das passagens que fui destacando.

Para quem ainda não leu, leia! Boas Leituras.

domingo, 10 de novembro de 2013

Mia Couto - 30 Anos A Escrever


No ano em que comemora 30 anos desde o lançamento do seu primeiro livro de poesia, Mia Couto é distinguido com o Prémio Camões 2013 e com o Prémio Internacional Neustadt de Literatura.

A LeYaOnline quer festejar estas três décadas de maravilhamento consigo oferecendo descontos que chegam aos 30% na obra do autor.


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terça-feira, 1 de outubro de 2013

«Cidade Aberta», de Teju Cole - Opinião


Cidade Aberta é uma denominação de guerra. Acontece quando uma cidade se declara publicamente rendida e abandona os seus esforços de defesa, esperando uma ocupação pacífica por parte do inimigo, premissa nem sempre cumprida pelos invasores.

Entendendo assim Nova Iorque como uma cidade aberta (?), metrópole cosmopolita e que encerra em si todos os pedaços do mundo, pelo manancial de culturas e povos emigrantes que compõe o mosaico que é a cidade e as suas características e influências.

É no trilho destas influências e nas dúvidas sobre a condição humana que Julius (o personagem) divaga e vagueia pela cidade, confrontando-se com acontecimentos e as questões que daí advêm e que levantam temas tão imensos como: o sonho da multiculturalidade, o pluralismo, o direito à diferença (diferente de indiferença), a religião, a aculturação dos emigrantes, a invisibilidade do indivíduo na sociedade... entre tantos outros temas que encerram em si a complexidade do que é compreender a sociedade actual, altamente modificada por acontecimentos como foi o 11 de Setembro.

Se partirmos desse acontecimento, já rodeado de diversas teorias, mas que, independente de todas elas, mudou a Big Apple e o mundo, como vemos Nova Iorque? Que marco histórico frisou aquele atentado? Nova Iorque era ou ficou uma Cidade Aberta? Se pensarmos politicamente e em termos de segurança talvez se tenha fortalecido, mas e no sentimento humano, nos seus habitantes, o que restou para além da perda, da solidão, da dúvida, do sofrimento e da insegurança?

Explorando a imperfeição e a dúvida que tolda muitas vezes o discernimento, considerando que cada vez mais se olha ao invés de se observar, Julius foca-se na relação com o Outro. Considerando e dando algumas referências literárias, que o Eu se constrói, se altera e se completa na relação com o Outro. Sendo assim, como podemos estar cada vez mais isolados e sós? Afinal é solidão que sente e que vê, diariamente!

A fragilidade das multidões é justificada sob a égide de Obatalá, filho de Olorum, que na mitologia africana explica a criação do mundo e a presença de seres defeituosos. A criação de todos através de um molde de barro justificaria assim a ausência de diferença, e quando a há (os "defeituosos") serem interpretados como sagrados.

A sua origem Nigeriana é aqui espelhada, no entanto, Julius intriga-se com as questões religiosas que há séculos separam Cristãos e Muçulmanos, levantando questões sobre a fé e a adoração e a questão monoteísta e politeísta. Os encontros com Farouk desempenham um papel crucial, com diálogos enriquece dores sobre religião e liberdade.


Entre Nova Iorque e Bruxelas, dois centros mundiais, as diferenças não se esbatem, nem criam contrastes nas questões que Julius que ver respondidas. A questão da emigração e da consequente adaptação e aculturação é por si só uma questão, mas está intimamente ligada a outras.

O sonho da multiculturalidade é cada vez mais posto em causa, pela dificuldade de aceitação das diferenças,
as gerações de emigrantes e a pluralidade que compõe as grandes cidades, dificultam o entendimento e a aproximação ao Outro.
Partindo do princípio que a aceitação e a igualdade têm caminhado a passos largos, em que pé estamos hoje? É necessário respeitar a cultura, a religião, os costumes dos Outros, mas em que medidas não são os de todos nós? Na actual sociedade de consumo, onde a ausência de valores e princípios impera muitas vezes, não se viverá actualmente desprovido de traços de individualidade?

Que não se confunda: individualidade e individualismo.

Mas onde eu quero chegar e foi algo que o livro me levou a pensar, foram as seguintes questões?
Na preocupação de respeitarmos a diferença do Outro e de promover a multiculturalidade teremos vindo a perder o direito à diferença?
Na ilusão de um sonho comum de igualdade e pervertendo o conceito, termo-nos tornado mais ocos e desprovidos de traços genuínos?
Não será na diferença própria de cada um, que estará a riqueza que promove a cultura e nos educa a respeitarmos a diferença do próximo?

O motor do desenvolvimento pessoal está na sociedade à nossa volta, mas a sociedade somos todos nós. O culto pelo imaginário de uma sociedade melhor, passa muitas vezes pelo revestimento superficial dado pelo consumismo  e a plasticidade das ideias, oscilando entre impulso e tendências (devo confessar que a leitura deste livro acompanhou a leitura de «A Civilização do Espectáculo» de Mario Vargas Llosa - Artigo de opinião aqui).

Lê-se Teju Cole e não se sai com um sentimento de revolta ou incompreensão, mas antes cativados para ler todas as referências com que ele abrilhanta o seu relato. Saí-se sim, compreendendo a dimensão da luta pela singularidade e a ferida profunda que é a solidão. Sem nunca esquecer o papel da liberdade.

"Nós experimentando a vida como uma continuidade e só quando ela sai dos seus eixos, só quando se torna parte do passado, é que vemos as suas descontinuidades. O passado, se é que tal coisa existe, é sobretudo um espaço vazio, grandes dimensões de nada onde flutuam pessoas e acontecimentos importantes."

*

Uma leitura com o apoio QUETZAL, saiba mais do livro aqui.

quarta-feira, 19 de junho de 2013

A Rainha dos Estapafúrdios dá prémio a Agualusa

José Eduardo Agualusa venceu a primeira edição do Prémio Manuel António Pina com A Rainha dos Estapafúrdios e pretende que sirva de incentivo e promoção à literatura infantil.

Fonte: Público e RTP Notícias




sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

Mais uma vez os PORTUGUESES PELO MUNDO

Portugueses pelo Mundo nomeado para "Troféus de Televisão 2012"

categoria de Programa de Informação Cultural, contamos com os vossos votos!


VOTEM


Link de votação

E nunca é demais relembrar um destino que gostamos ou queremos conhecer... desta vez viajava até GOA, ou se me quiserem por lá deixar... eu visitava a ÍNDIA toda...



E agora já é tempo de pedir a edição de um 2º volume do LIVRO PORTUGUESES PELO MUNDO, com todos os novos destino que por lá podem vibrar.
Fica a sugestão para a MARCADOR.




terça-feira, 27 de novembro de 2012

Valter Hugo Mãe é o grande vencedor do Prémio Portugal Telecom 2012


Valter Hugo Mãe é o grande vencedor da 10ª edição do Prémio Portugal Telecom de Literatura em Língua Portuguesa. O escritor português recebeu esta noite numa cerimónia que decorreu no Auditório Ibirapuera, em S. Paulo, no Brasil, o prémio na categoria de melhor romance com a A Máquina de Fazer Espanhóis e também foi o vencedor do Grande Prémio Portugal Telecom 2012.

Confira o resto da notícia no Público.

O blogue Efeito dos livros, descobriu recentemente o EfeitoValter Hugo Mãe, confira a critica de "Filho de Mil Homens" ... 

O aclamado autor português ganha este prémio com a obra A Máquina de Fazer Espanhóis:

Sinopse
Esta é a história de quem, no momento mais árido da vida, se surpreende com a manifestação ainda de uma alegria. Uma alegria complexa, até difícil de aceitar, mas que comprova a validade do ser humano até ao seu último segundo. a máquina de fazer espanhóis é uma aventura irónica, trágica e divertida, pela madura idade, que será uma maturidade diferente, um estádio de conhecimento outro no qual o indivíduo se repensa para reincidir ou mudar. O que mudará na vida de antónio silva, com oitenta e quatro anos, no dia em que violentamente o seu mundo se transforma? valter hugo mãe nasceu em Saurimo, Angola, no ano de 1971. Licenciado em Direito, pós-graduado em Literatura Portuguesa Moderna e Contemporânea. Vive em Vila do Conde. Publicou três romances: o apocalipse dos trabalhadores (2008), o remorso de Baltazar serapião, Prémio José Saramago (2006) e o nosso reino (2004). A sua obra poética está revista e reunida no volume folclore íntimo (2008). valter hugo mãe é vocalista do grupo musical Governo (www.myspace.com/ogoverno) e esporadicamente dedica-se às artes plásticas.


Críticas de imprensa
«[...] com este livro, valter hugo mãe aproxima-se a passos largos (e seguros) da maturidade plena.»
Eduardo Pitta, Público

«Um romance poderoso.»
José Mário Silva, Expresso

«Ler vhm é entrar numa viagem feita de imprevisibilidade enquanto estado humano de absoluta surpresa e espanto, de fortuitidade, de acaso, de percurso animado de múltiplos acidentes e peripécias que desviam a personagem de atingir o seu objectivo, atrasando-o, jogando-o por caminhos e situações insólitas e por sentimentos e estados interiores que lhe são totalmente desconhecidos, forçando-o a ceder ou a resistir, a recuar ou a avançar, a hesitar e a conciliar.»
Miguel Real, JL

Fonte: Wook 

Sem dúvida um autor para ler toda a sua obra. E melhor, é português!!!

Boas Leituras.