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quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

«As Recordações de Edna» de Sam Savage - Opinião




"Quero falar acerca do silêncio: é o silêncio da ausência de rugido, um rugido que se ouve (...) um rugido cacofónico e mesclado da amálgama de pessoas..." (pág.31)

É neste rugido, já quase imperceptível, não que esteja a ficar surda, mas porque já o ignora, que Edna vê passar os seus dias. É no silêncio e na ausência que Edna para e sente, realmente, o passar do tempo e Clarence que já se foi.

Inclinada para a divagação, Edna tem em mãos a árdua tarefa de dissertar acerca de Clarence, aquele que foi seu marido e companheiro de uma vida, mas de quem recorda tiques, manias, taras e alegrias, entre as suas próprias memórias, confundindo entre o que é seu e o que era de Clarence. O que me deixa logo a mãos com uma questão: ao fim de tantos anos de vida em comum, que memórias são as nossas, a não ser as que são de ambos!?

É no "martelar das teclas" que Edna se sente tentada a deixar "trovejar" os pensamentos e a aplicar-lhes pouco filtro... já se sabe, que muitos anos de vida em comum, são mais do que suficientes para apontar todos os defeitos... mas será isso que os leitores de Clarence querem ler!? Mas se assim não for, conheceram verdadeiramente o homem por detrás do escritor?

"As solidões, reparei, não gozam de atracção mútua."
É nesta frase brilhante que Edna nos apresenta Potts, a vizinha que lhe fará uma brecha na solidão, não pela sua presença, mas por outra, um tanto peculiar e que aqui não vou desvendar. 

«As recordações de Edna» são quase como um resumo atabalhoado daquilo que pode ser a vida conjugal, depois de muito se ter ido embora e apenas restarem as atribuladas e magoadas visões do passado, que poderão alternar-se entre saudade, nostalgia, remorso, frustração... afinal tudo isto se acumula ao longo da vida, ou não?

"Quando li aquilo pensei, mas qual é a vida que tem capítulos?" (pág.38)


Que capítulos se estabelece na idade geriátrica? É nessa canseira, entorpecida pelo peso da idade que Edna se vê confrontada com ideias e mais ideias que surgem em catadupa, numa torrente imparável, uma fonte que não seca, onde as águas se sobrepõem em movimentos enérgicos. Ainda para mais, tudo isto em contraponto com a falta de energia física, que apenas dá para uma voltinha no jardim e escrever à máquina virada para um vidro, literalmente, marcado pelo passar do tempo.

E o barulho das coisas mortas que incomoda tanto o silêncio dos vivos!? Curioso, não é?
Pensamentos de quem pensa demais. Pensamentos de quem deseja o sossego, para não encarar o desassossego dos outros e dos seus dias cheios de vida.

"(...) empurrada para aqui e para ali pelos ventos da veleidade e da memória (...)" Edna volta a escrever, perdão, a dactilografar, entreolhando as folhas escritas que teimam em fugir debaixo do pisa papeis, que é nada mais nada menos que O Peso do Mundo de Peter Handke, numa metáfora, a meu ver, surreal, para a mão critica de Edna sobre Clarence.
Mas afinal, que peso e importância teve Clarence na vida de Edna?

"O que me leva a perguntar se o importante é o que acontece no passado, ou o que nos lembramos que aconteceu." (pág.98)

As divagações continuam e esperamos o resultado de tanta dactilografia de Edna. Mas, sucede-se o mesmo com as respostas que queríamos que Andrew Whittaker recebesse e nunca recebeu. É este estado de, sem resposta, que caracteriza os livros de Sam Savage. Esta tendência de abrir várias janelas e lançar muitas discussões, mas sem nunca bater com a porta ou dar o assunto encerrado.
Será isto uma analogia com a própria vida? Whittaker e Edna são ambos personagens solitários, terminaremos todos assim?

«Nem sequer é solidão, é pior do que solidão, é uma mente cheia de coisas» (p. 182)

E o que é esta mente cheia de coisas?
Talvez uma mente cheia de dúvidas!

«Há uma incongruência. Talvez os acontecimentos sejam demasiado grandes para as palavras. (...)Ou talvez seja ao contrário: as palavras é que são demasiado grandes; algumas palavras são demasiado grandes. A palavra «amor» é demasiado grande. (...)" (pág.163)

Que laço é esse o do amor? Uma ilusão? Um desgosto? Ou simplesmente o melhor que nos pode acontecer e que tanta falta nos faz quando o perdemos.
Na ilusão de que Clarence pode ter sido o tudo, como o nada, Edna vê-se presa às recordações e às dúvidas, à desconfiança do que teria sido, ou não, a sua vida ou até do que foi, deixando no ar a dúvida sobre se o destino cabe nas nossas mãos ou está às mãos do acaso.
A propósito de tal temática, Edna despertou-me a curiosidade para «Winesburg, Ohio», de Sherwood Anderson . E continuo também a querer ler Firmin, a primeira obra de Sam Savage.


«Uma mulher idosa dactilografa a sua vida numa sala cheia de luz suja»
«Isto não é literatura, é dactilografia" Capote ao livro de Keroauc.

Uma leitura com o apoio da Planeta. Obrigada!

sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

Revisitando as Leituras de 2013 - Efeitocris...

Não gosto de balanços antes das coisas realmente terminadas e, agora sim temos 2013 terminado e arrumado (ou não!... pelo menos, não no que respeita a artigos de opinião escritos aqui para o blogue)
Em jeito de balanço, fica a listagem das leituras deste ano, clicando em cada título vão directos ao artigo de opinião que coloquei aqui no blogue aquando da leitura.
Juntamente ao título, deixo uma indicação com a avaliação ou apenas sobre a leitura, caso contrário, revisitei o meu próprio texto e deixo um excerto.

Espero que gostem... eu gosto sempre. Afinal, recordar é viver!

# 88 - (por terminar, +- 100 páginas) - «Trópico de Câncer»

# 87 - «O Deserto dos Tártaros»

# 86 - «As Recordações de Edna"

# 85 - «A Casa com Alpendre de Vidro Cego» de Herbjorg Wassmo - Uma dose de poesia tão negra que chega a brilhar... e não sei se me explico bem, mas só lendo perceberão.
Wassmo foi uma descoberta e tanto.

# 84 - «A Última Canção da Noite» de Francisco Camacho - Uma descoberta totalmente musical. Aproveito e aqui fica, revisitando Pati Smith:



# 83 - «O Boneco de Neve» de Jo Nesbo - Um policial que veio do frio, mas que não me constipou... se é que me entendem.

# 82 - «O Filho» de Michel Rostain - A perda dos filhos é um tema recorrente nos livros deste 2013, VHM, AC e também Rostain, este sem dúvida tem uma orquestração totalmente diferente e de todos por certo o menos lamechas.

# 81 - «Para onde vão os guarda-chuvas» de Afonso Cruz - O livro, a história, as premissas, a constatação ... Afonso Cruz é um autor a seguir. Em 2013 é de certeza o autor de quem mais livros li e pretendo continuar.

# 80 - «Jesus Cristo bebia cerveja», de Afonso Cruz - Brindemos, Afonso Cruz é português!!!

# 79 - «A Desumanização» de Valter Hugo Mãe - Que posso dizer!? Uns falam mal, outros bem... eu gostei bastante. A "nortificação" vai continuar nestes lados.

"A poesia é a linguagem segundo a qual deus escreveu o mundo. (...) Onde há palavra há deus."

# 78 - «As primeiras coisas» Bruno Vieira Amaral - A estreia de Bruno Vieira Amaral que me trouxe (ainda mais) de volta à realidade do bairro social... para quem cá vive, bairro social + bairro social, é capaz de ser dose dupla muito forte, caso contrário, leia, leia que é um raio x muito nítido da realidade portuguesa.

# 77 - "Os demónios de Álvaro Cobra" de Carlos Campaniço - E o Globo de Ouro vai para: CARLOS CAMPANIÇO... a obra que divide o pódio de originalidade e de gargalhadas que me fez dar com o «Jesus Cristo bebia cerveja» de Afonso Cruz.

como faço review aos livros do Afonso Cruz!?   

Não sei, não faço bem ideia, mas os primeiros três foram de tal forma marcantes que já estão lidos, mas ainda por "criticar" :
# 76 - - O Livro do Ano
# 75 - - O Pintor debaixo do lava-loiça
# 74 - - A Boneca de Kokoschka 

Fica uma apanhado em imagens


# 73 - «Memórias de um amigo imaginário» de Mathhew Dicks - Revisitando o autismo, mas desta vez de uma forma original e bastante hilariante.

# 72 - "Depois de morrer aconteceram-me muitas coisas" de Ricardo Adolfo - A estreia com os, carismáticos, livros de Ricardo Adolfo. Venham mais.

# 71 - "A Verdade Sobre o Caso de Harry Quebert" de Joel Dicker - Sem dúvida o policial do ano! Leiam, sff!!!

# 70 - “As Velas Ardem até ao Fim” - Sándor Márai - Uma pequena, mas deliciosa, maratona. Márai voltará de certeza às minhas leituras de 2014.

# 69 - O Rapaz das Fotografias Eternas - Edson Athayde - Um misto de realismo mágico, com non sense, com alucinação... com um local paradisíaco onde eu não me importava de ir passar umas férias!

# 68 - «Cornos da Fonte Fria» de Abel Neves - E a descoberta do ano é: Abel Neves... só podia, uma descoberta a 2€ na Feira da Ladra na Festa do Avante... extraordinário! O livro da ruralidade que faz falta na minha vida. 

# 67 - "A Chuva Antes de Cair", de Jonathan Coe - O livro que não me convenceu. 

# 66 - O Passageiro do Fim do Dia - Rubens Figueiredo - Um livro que me fez sentir claustrofóbica. Foi demasiado ónibus para mim.

# 65 - Sempre Vivemos no Castelo – Shirley Jackson - Uma das leituras do ano, sem dúvida. Shirley Jackson fez um livro angustiante, mas belo, marcante.

# 64 - «Nada a Dizer» de Elvira Vigna - O adultério escrito por uma mulher que se masculinizou para escrever este livro, desta maneira. Um livro com apenas 1 traço, um parágrafo de lamechice não deve ser fácil em mulher traída!?

# 63 - «O Grito da Preguiça» de Sam Savage - O autor revelação. Que escrita estonteante. Um livro que me deu vontade pegar numa caneta e endereçar umas cartas ao autor...

# 62 - «O que morre no Verão» de Tom Wright - Um livro que me faz pensar nas músicas de Mazgani, só pode ser um livro bom. É este de Wright.
Cause summer is gone
My bones are cold 
Summer is gone
My shoes are old ... 
             Mazgani

# 61 - «Cidade Aberta», de Teju Cole - O livro que me permitiu estar na Zambujeira do Mar mas com a cabeça em Nova Iorque, ah que saudades. Um livro que antes de nos pôr a viajar, nos mete a pensar.

"Nós experimentando a vida como uma continuidade e só quando ela sai dos seus eixos, só quando se torna parte do passado, é que vemos as suas descontinuidades. O passado, se é que tal coisa existe, é sobretudo um espaço vazio, grandes dimensões de nada onde flutuam pessoas e acontecimentos importantes."

# 60 - «A Civilização do Espectáculo» de Mario Vargas Llosa - Sem dúvida a leitura mais acesa deste Verão. Um livro que entre os amigos certos daria horas, noitadas, serões e madrugadas de conversa. Um livro para pensar. Sem dúvida, um livro de eleição para este 2013.

# 59 - «A Travessia» de Wm. Paul Yong - Uma leitura para não repetir. Desculpem mas, pode ser bom, mas não é para mim.

# 58 - «La Coca» José Rentes de Carvalho - José Rentes de Carvalho continua a chamar por mim, para Mazagran, Ernestina e Os Lindos Braços de Júlia da Farmácia. 

# 57 - «O Menino que ninguém amava» de Casey Watson - Os livros da Presença deste ano foram maioritariamente para (quase) me lavarem em lágrimas. Sem ser lamechas, um livro que nos apela para olharmos à sociedade e à temática da adopção. 

# 56 - «Salvo pelas estrelas» de Kristine Barnett - O autismo é um tema recorrente. Asperger é uma temática pela qual ficou o bichinho desde a universidade.

# 54/55 - «Morte na Arena» e «Morte com vista para o mar», os thrillers de Pedro Garcia Rosado e a nossa incursão a Lisboa, ficam marcados nos eventos literários deste anos, obrigada Topseller e Joana.

Evento de Reentre Literária 2013Entre os livros de Pedro Garcia Rosado... Por Lisboa e com o Efeito dos Livros em peso ;)



# 53 - «LIVRE» de Cheryl Strayed - O livro que incita a caminhar e depois de lê-lo, incluindo as caminhadas de verão, não sei mas eu arrisco a dizer que devo ter mais de 300 kms nas pernas ;) Santiago de Compostela é para este 2014!? ahahahaha

# 52 - «Mil Sóis Resplandecentes» de Khaled Hosseini - O livro que mais frases e imagem me deixou na cabeça. Morder pedras!? Realmente, a realidade do Médio Oriente é de uma dureza que me atravessa e me corta. Posso afirmar que perdi algumas horas de sono recordando este livro. Não é novidade a temática ou os episódios marcantes, mas são sempre duros de se "ver".

# 51 - As Recordações - David Foenkinos - O livro que só dá vontade de fazer fotos!
Por isso fica uma recordação de um local mágico.


# 48/49/50 - A saga de Alex Cross - «Alex Cross, Perigo Duplo»  ou  «Alex Cross» ou ainda «PRIVATE» de James Patterson 

# 47 - «O Conto da Ilha Desconhecida» de José Saramago - Porque dá sempre vontade revisitar o Nobel.

# 46 - «O Filho de Jesus» de Denis Johnson - Mais um que não me convenceu, mas que tive de terminar... havia ali qualquer coisa que não me permitia deixá-lo de lado.

# 45 - «Adeus Berlim» de Wolfgang Herrndorf - E eu queria era reviver Berlim e dizer-lhe "Olá" outra vez! ;)
Dizem ser um livro juvenil, uma quase tentativa de "Pela estrada fora!"... não sei, não li esse, ainda!

# 44 - «Lionel Asbo» de Martin Amis - Revisitar Amis, Martin, porque o Kingsley ainda nunca visitei A ver se é este ano. Quanto ao Asbo de Amis, é um asno, é certo, mas a escrita é muito perspicaz, cansativa, em alguns pontos, mas sagaz e mordaz. 

# 43 - «O Segredo de Compostela» de Alberto S. Santos - Despertou-me muito a vontade de caminhar, já que não irei a Santiago por fé. Quanto ao livro, não posso dizer que não me cansou um pouco, porque cansou.

# 42 - «O Suave e o Negro» de Manuel Monteiro - Em «O Suave e o Negro» Manuel Monteiro deixa-nos a braços com uma questão (pelo menos a mim deixou) - vale sempre a pena ter um amigo? qual o custo de uma amizade? E mais não digo.

# 41 - Uma Noite em Lisboa de Erich Maria Remarque - Um remate sem fim, um passaporte sem saída, uma viagem sem retorno... a Guerra, revisitada de todas as formas, ainda assim inesgotável. 

# 40 - «A Confissão da Parteira» de Diane Chamberlain - Um livro que apela ao coração, mas fala mais alto sobra as estranhas dinâmicas familiares e das amizades que podem comprometer uma vida. 

# 39 - «Dai-lhes, senhor, o eterno repouso» de Miguel Miranda - Hilariante, cativante... uma tacada de mestre.
França, Mário França.
De Portugal para o Mundo, aliás do Porto.
O maior detective do mundo, na cidade que é o centro do mundo.

O detective que me fez revisitar a belíssima Saahirah

# 38 - «O Colecionador de Mundos» de Ilija Trojanow - O único livro do qual estive para desistir, não por ser "mau", mas por ter achado - "isto não é pra mim!" - e depois, oh se foi... maravilhoso! Um dia terei um só para mim...

# 36/37 - O prémio Leya 2012 em dois livros «No meu peito não cabem pássaros» e «Debaixo de Algum Céu», de Nuno Camarneiro - Uma paixão, sem dúvida! Digam lá o que quiserem, Nuno Camarneiro é um tudo e um nada, um detalhe e um todo, um livros que são livros, uma história que são milhares. Leiam!!!

# 35 - Jeff Em Veneza, Morte em Varanasi, Geoff Dyer - Se Veneza foi uma desilusão, Varanasi uma podridão... Desprendimento, despretensioso, mas por vezes quase pedante... um livro que ainda hoje me está entalado, pois tem tanto de estranho como de entranhado. Não posso dizer que o adorei, mas não consigo detestá-lo... mas não me passa igualmente ao lado.


# 34 - «Revolução Paraíso» de Paulo M. Morais - O livro da Revolução, talvez a das palavras e da escrita, um romance que se reinventa enquanto a gente o lê.

# 33 - «Destruir a Prova» de Dana Spiota - A música arrancou com uma força, que me foi quase impossível resistir a livros + música em, quase todos os seguintes. 


# 32 - «Homer & Langley» de E. L. Doctorow - Um livro surpreendente. Os túneis ainda hoje são lembrados!

# 31 - «BATALHA» de David Soares - Mais uma revelação para este ano. A dura batalha de Batalha. Leiam que é delicioso, apesar de eu estar a referir-me a uma ratazana.

# 30 - «Depois» de Rosamund Lupton - Ora "Depois" vem a preencher o legado deixado por "Irmã", mas cá para mim não venceu. O primeiro romance de Lupton é brutal, este é ... é assim... um travo sabor a amargo.

# 29 - «O Vento dos Outros» Raquel Ochoa, A cada passo a vida inteira e está tudo dito.

# 28 - «A Filha do Papa» Luís Miguel Rocha - O autor a quem eu disse, "ah mas se eu não gostar, eu falo mal!" Pois, não deu para vir aqui falar mal. Um thriller com os ingredientes na medida certa.

# 27 - «Governo Sombra» de Casimiro Teixeira - Um thriller que tinha tudo para dar certo, mas que a certo passo se desgorvenou.

# 26 - «Os Guerreiros do Arco-íris» de Andrea Hirata - Mais um momento literário do ano. Ler para receber e entrevistar este pequeno exemplo de como existem histórias que devem correr o mundo.

# 25 - Andrea Hirata em Portugal - "É preciso saber ver os sinais!" E claro, acreditar no destino - "Eu acredito no destino."

# 24 - «A Caixa» - Günter Grass - para o projecto de Ler Prémios Nobel da Literatura, chegou a vez de ler Günter Grass... se Mo Yan foi um desafio, este não foi menos. Ficam as ideias das fotos e de alguma alucinação com as marcas da Guerra. Um autor a voltar, aliás duas das suas "bíblias" já cá estão na estante, «O Pregado» e «O Tambor de Lata».

# 23 - Hoje Lembrei-me que te Amo, de Miguel Novo - Uma descoberta de um autor bastante novo e com enorme criatividade.
Vejam o Teaser, feito pelo próprio Miguel:

"Hoje lembrei-me que te amo!"
"(...) berrava, banhado em lágrimas."

Um livro diferente, uma panóplia de amores!

# 22 - A GARÇA, Giorgio Bassani - Uma surpresa... um relato que tem tanto de belo como de melancólico. Um relato recatado, lento, mas que transpira vivacidade, nem que seja a que se perde pelas páginas do livro.

# 21 - «Influência Externa» Brad Thor - Um policial com tendências a agência de viagens. Recomendado para quem gosta de policiais a alta velocidade.

# 20 - A Geração BEAT e os Hipopótamos de W. Burroughs e J. Kerouac - O meu primeiro contacto com os Beat... a ver vamos se lá voltamos. Um livro que se forja no ócio e na tentação... "A chave de tudo foi o tédio" já diria Hal Chase. Tédio, álcool, droga, homossexualidade, mas também uma enorme libido pelo desconhecido desafiante e a sofreguidão por enlaçar a diferença.

# 19 - Uma leitura a duas cabeças e em voz alta - História Politicamente Incorrecta de Portugal Contemporâneo (de Salazar a Soares) - Se quer pensar e gosta de pesquisar, leia este livro.

# 18 - A Mulher-casa, de Tânia Ganho - O romance feminino do ano, um relato que me fez querer voltar a Paris. Mas que só me faz lembrar desta música... vá se lá perceber estas associações:


# 17 - O DIPLOMATA, de Vasco Ricardo - Um pequeno passo para uma boa amizade. Obrigada Vasco, não esquecerei a lágrima de Malik. Vasco Ricardo escreve assim um thriller sobre a importância da vida, do amor, da família e dos valores pelos quais Gabriel pauta a sua vida.
Queremos mais! ;)

# 16 - Cartas que falam de Bullying... seja ele na escola, em casa ou até internamente... - Um livro que é um diário, um relato de raiva, de purga, de inocência perdida... uma história comum a muitas.

# 15 - O Quente Aconchego da Mãe Negra, Sérgio Veiga, Marcador - Um livro que nos leva de volta a Mia Couto - um autor a redescobrir neste 2014.

# 14 - AMOR PERFEITO - Opinião - um livro de Nuno Nogueira Silva - Pegue numa chávena grande de chá, bem doce e leia Nuno Nogueira Silva... assim, de um só trago.

# 13 - A Balada de Johnny Sosa, Mario Delgado Aparín - Um romance tão negro quanto a noite, tão brilhante como uma super nova, talvez a primeira grande surpresa de 2013.

# 11/12 - Seja o autor da sua vida e Trata a vida por tu - Porque uma dose de positivismo e auto-ajuda fazem sempre falta e quem diz que não é bem capaz de estar enganado!?

# 10 - FICA COMIGO, Noelia Amarillo - Marcador - Uma leitura com um sabor "caliente", vindo directamente de españa ;)

# 9 - Metamorfose à Beira do Céu, de Mathias Malzieu, Bertrand - ... Tom Hematoma «Quanto mais caía, mais popular me tornava».
É como se Mathias fosse uma pessoa e Malzieu fosse outra, mas que se completam ardilosamente e genialmente, dando origem a esta fábula sobre liberdade.

# 8 - ÓSCAR e a Senhora Cor-de-Rosa, MARCADOR - Um livro mágico.

# 7 - Morreste-me... OBRIGATÓRIO!!!

# 6 - PEITO GRANDE ANCAS LARGAS - Finalmente o Nobel de 2012, uma leitura densa, mas marcante. «Hino de Libertação das Mulheres» - Uma obra obrigatória, são palavras do autor.

# 5 - Gente com gente dentro, de Beatriz Gil - Alfarroba - Livros e Música,  uma combinação que não pode faltar. E este livro só me fez pensar no fado, brilhantemente interpretado pela Mariza.

# 4 - Amor Carnal, de Pedro Pinto - Alfarroba - Para começar o ano a soprar por mudanças.

# 3 - PORTUGUESES PELO MUNDO - Simplesmente um livro que me fez viajar sem sair do sítio.

# 2 - UM MANIFESTO "PELA EUROPA", da Editorial Presença
É preciso acção!!! "... já não podemos continuar a tergiversar* sobre a Europa que desejaríamos, mas decidir antes sobre a Europa que se tornou necessária."

# 1 - A Vida Pi, de Yann Martel, Editorial Presença - Enfim, A Vida Pi é um relato de fé, de humanidade e de sobrevivência. Um excelente arranque de leituras para 2013.


Ler talvez seja o melhor exercício para equilibrar o que vai desequilibrado dentro de nós. Depois de lido, desequilibra-se tudo outra vez, num balanço em corda banda, mas desta vez o abismo é menos tenebroso.
Efeitocris

quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

«A Casa com Alpendre de Vidro Cego» de Herbjorg Wassmo - Opinião


É impossível ficar indiferente a este «A Casa com Alpendre de Vidro Cego» da norueguesa Herbjorg Wassmo!

"A poesia espera emboscada nos pormenores - no abençoado gotejar do caleiro partido, por exemplo. Porém, este era tão tímido e esquecido quanto uma criança miserável que ninguém ama ou cuida." (pág.26)

E assim começa a poesia e a magia deste livro. Como que um binómio, onde a tudo o que é belo, corresponde algo monstruoso e nefasto. Onde a tudo o quanto é mágico, corresponde a algo tenebroso. 

"A magia de se estar vivo raramente ocorria a qualquer uma dessas pobres pessoas. Para isso, eram precisas, pelo menos, ventanias fortes e naufrágios." (pág.27)

Sem dúvida! É nessas ventanias e naufrágios da vida, que Tora, a nossa personagens principal, se vai, ora afogando, ora nadando para longe, entortando-se conforme o lado para onde o vento sopra mais forte, mas também resistindo como uma árvore rija, de folha persistente.

Tora persiste à descendência de "fedelha alemã", contornando a aspereza de uma população que a olha de lado. O seu tom ruivo de tranças enredadas relembra-a todos os dias, as diferenças, mas igualmente uma força que não a deixa render-se.
A crueldade, esse lado duro e frio - tão bem descrito por todo o livro - mistura-se com os tons agrestes de uma vila piscatória de beira mar, assombrada pelas dificuldades de subsistência que também condicionam a vida de Tora. 

A ausência da mãe, Ingrid, trabalhadora e ganha pão da casa, aumenta as investidas nocivas de um padrasto bêbado e violento, que vê nela um abrigo para as suas falhas, silenciando nela as suas investidas nocturnas. Transtornada e assombrada pelo negrume em que vive, Tora refugia-se nos ensinamentos e desafios da professora Gunn e da tia Rakel, duas mulheres de força, pouco subjugadas e menos ainda rendidas às evidências. 

"O pai delas era um homem pequeno e grisalho que nunca batia com as portas (...) um género de sombra amena a quem ninguém prestava atenção..." (pág.45) mesmo descrevendo com beleza e mestria, Wassmo revela uma comunidade repleta de homens não assim tão rijos como seria de esperar e mulheres lutadoras e que estavam lá para marcar a História.

Sendo, «A Casa com Alpendre de Vidro Cego» o primeiro volume de uma trilogia, quem sabe, este relato histórico continua pelos anos afora, testemunhando a vida de Tora, como se espera, mas também, nos ensinando a história do próprio país, sem que para isso recorra a relatos intrincados ou desnecessariamente detalhados. É na simplicidade que Wassmo ganha fãs.
Porém, a meu ver, essa simplicidade é mascarada, já que a densidade está nas personagens e nos seus actos. Resta ao leitor, desmembrar e visualizar as várias camadas que o texto comporta em si.
"As histórias esperavam por ela, lá, junto às paredes, nas sombras da mobília, entre as vigas atravessadas no tecto. 
As melhores tinham sempre um pai que regressava." (pág.65)

É nesta, quase ansiedade que esperamos que o sol brilhe para Tora. Que as suas histórias se escrevam por linhas direitas e as alegrias de estar vivo sejam mesmo alegrias. Um relato repleto de pequenos detalhes, rebuscados, mas igualmente simples, pormenores de uma vida pobre, onde a felicidade é ter um par de botas (disponíveis), ou um caderninho e um lápis escondido, como um tesouro... 

É a densidade da dor e a dureza de vidas como a de Tora ou a de Sol que amplificam todas as imagens que este livro cria na nossa cabeça. Somos incapazes de não verter uma lágrima quando lemos o capítulo do quarto malcheiroso de Elisif e a separação da família. É quase que descabido que a menina se chame Sol e viva num local tão pouco acalentado por ele. É nestas metáforas e jogos de palavras que a escrita de Wassmo se torna ainda melhor.

Mesmo descrevendo o feio, o frio, o áspero, Wassmo é belíssima:
"Por outro lado, a luz sobre a mesa brilhava nas suas caras pálidas e indefesas, e transformava todas as linhas do rosto numa cicatriz de cirurgia mal curada, e todas as borbulhas, num desafio nojento e pouco chamativo." (pág.116)

A desumanização que se encontra neste livro é descrita de uma forma tão tocante que volta a reanimar o lado romântico e até sonhador de qualquer desumanizado:

"Bom dia, Tristeza" poderia ser o hino dos dias de Tora, mas não... "Quando Tora lia, quase tudo o resto perdia importância." ... "Era por isso que Tora remava sempre de frente."
e
Ver o amor como "um domingo no verão." é brilhante!!!



Não resisti a uma pequena sugestão sonora. Mais pela sonoridade do que propriamente pela mensagem. 
Espero que gostem.

Uma edição ARKHEION, veja mais aqui.

sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

«A Última Canção da Noite» de Francisco Camacho - Opinião

Conceda a si mesmo uma última dança. Usufrua desta «A última canção da noite» como se de um doce, um mimo se tratasse.
Francisco Camacho brinda-nos com uma imaginação fértil e uma escrita exemplar, trazendo até ao leitor uma saga musical.
Jack Novak, guitarrista dos Bitters, desapareceu! David Almodôvar, crítico musical, a desaparecer... Vera, fugida, Lola caída no esquecimento e Capri, um charlatão à procura da nova oportunidade, personagens fortes que imprimem um ritmo acelerado e intenso a todo o enredo.


Pense neste livro como num Best Off. Um álbum duplo, recheado de sucessos, de grandes êxitos.
Cada capítulo é como um solo, ora a bateria, para períodos de guerra, ora uma guitarra para períodos, talvez, de maior sensibilidade e paixão, ora uma voz rouca e meio arrastada que dá um tom nostálgico às memórias que compõem a vida.
É no desenterrar dessas memórias como quem redescobre grandes êxitos do melhor rock'n'roll que Francisco Camacho constrói a vida, a carreira e a alma de uma grande banda - Bitters. Uma banda aclamada pela crítica que bebeu das melhores influências, tal está exposto no roteiro musical que o próprio livro é!
E para o qual o autor fez uma playlist e eu, sem saber, fiz outra. A minha garante-vos pelo menos 10 horas de música. Não se preocupem, o livro lê-se muito mais rápido, no entanto, se se perderem como eu pelas músicas, levarão certamente mais tempo.



A relação entre David e Jack releva uma perspectiva muito mais humana, que dá à música e aos que lhe dão corpo uma aura muito mais terrena. É olhar um ídolo como quem olha um amigo, talvez um amigo mágico e com super poderes, assim ao jeito de herói do fantástico... mas até os heróis precisam de ajuda.

Um romance que molda a nossa forma de olhar as relações, colocando em causa a autenticidade de cada um e quanto o passado e as origens condicionam as escolhas e os caminhos que seguimos.
É igualmente um romance que abre caminho para o acaso e a beleza de aproveitar cada momento como se fosse o último.

A escrita de Francisco Camacho é simples, concisa, mas muito rica, colorida, detalhada, quase como uma fotografia instantânea, assim ao jeito de uma polaroid, sem retoques nem polimentos. O roteiro musical dá vontade de ir rebuscar velhas cassetes e um walkman e sair estrada fora, então para quem já saiu daqui sem rumo definido, sabendo apenas que Marrocos era o alvo, sem gps ou altas tecnologias... deixa ainda um travo nostálgico ainda maior.

«A Última Canção da Noite» é uma melodia simples, mas intensa, numa voz peculiar e inquieta, que nos arrebata com enorme paixão.

A minha recolha musical tentou ser o mais fiel possível ao roteiro que o livro nos dá, no entanto, não resisti a incluir um tema para a aventura marroquina e também um pequeno apontamento para a Lola.

Uma leitura com o apoio D. Quixote

sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

«O Boneco de Neve» de Jo Nesbo - Opinião

Não resisto a arrepiar-vos desde o início com o trailler deste livro:




O prenúncio de morte trazido pelo «O Boneco de Neve» mantêm-se até ao final. Aquela manhã de 5 de novembro de 1980 deixa-nos enregelados com aquele traço de destino: "Vamos morrer."

Os anos passam, as neves vêm e vão, tal como os crimes. Harry Hole, o detective com a mania dos serial killers e o drama de beber uns copos a mais do que a conta certa, vê nestes assassinatos algo mais profundo do que um mero crime passional. A frieza, o traço calculista e a associação à imagem de um vulgar boneco de neve, levam Hole a suspeitar de algo mais tenebroso.

Não me irei prender muito às personagens que fazem o núcleo central desta série, já que este policial é antecedido de outros tantos e acredito que me escapem certos detalhes, como a história Hole e Rakel, mas que em nada nos condicionam o entendimento e capacidade para desvendar o crime, ou uma série deles!

Deixo-vos já de aviso para Katrine Brett, que sem ser altamente descrita como a próxima "gata do pedaço", tem potencialidades para tal e desenrola aqui um enredo que pode provocar algumas rasteira a nós leitores e detectives de bancada, munidos de manta e chá.
Ainda assim, Jo Nesbo não me conseguiu confundir assim tanto, há detalhes que são decisivos, basta estarmos atentos, e mais não revelo, nem posso.

Esta reencarnação do assassino na figura do boneco de neve, não deixa de ser uma ideia bastante bem explorada, dada à frieza dos crimes e ao bizarro provocado pelo uso de certo instrumentos (descrição essa bastante arrepiante). A ideia do toten ainda me levou a pensar na recente série Hannibal e vi avizinhar-se um cenário ainda mais sangrento, mas não, ainda assim as aparições dos vários bonecos não deixa de ser macabra o suficiente. 

A maneira como as personagens vão entrando em cena vão recheando as divagações do leitor e faz-nos procurar defeitos que justifiquem actos criminosos. O rol de personagens vai-se ligando de forma doentia (e esta palavra faz todo o sentido). Doença é ainda a chave de todo o enigma e é nessa esfera de psicose mórbida que vimos o quanto o rumo que uma família escolhe, pode ser nefasto para os seus filhos.

Porém, nem sempre os traumas justificam tudo, mas a verdade é que os livros espelham muitas vezes casos verídicos, com uma pitada de ficção abrilhantam o enredo, mas o foco é mesmo a realidade. E a realidade é o que torna casos destes, ou semelhantes, ainda mais fortes e arrepiantes.

Mesmo pertencendo a uma série não deixem de se embrenhar no frio norueguês e sentir alguns arrepios com este assassino vindo do frio!

Uma leitura com o apoio da Dom Quixote, vejam mais sobre o livro aqui e leia as primeiras páginas aqui.


BOAS LEITURAS

quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

«O Filho» de Michel Rostain - Opinião



"Um filho que perde um pai chama-se órfão. Como se chama um pai que perde um filho?"

Um livro que começa logo pela capa. Um enredo negro e lúgubre o suficiente que pode desencorajar pessoas que se julguem mais sensíveis ou impressionáveis, mas que ninguém deixe de ler este relato sofrido, negro, mas também com um lado sarcástico e de humor, que mesmo negro, nos arranca alguns sorrisos. Não esperem contudo rir à gargalhada, fala-se de morte e da morte de um filho, algo fulminante. Mas fala-se de superação, de perdão, de confissão... de um pai purgar a sua dor através de um relato quase musical. Entre o lirismo de algumas peças, o tom dorido dos dias que passam sem sentido para um pai e a voz sarcástica e jovial de Lion... assim se narra «O Filho», o romance de estreia de Michel Rostain, a purga que lhe valeu a superação do luto, a imortalização da memória e do nome de Lion, mas valeu-lhe também um Prémio Goncourt em 2011.

Michel Rostain, para além de autor deste peculiar romance é também encenador de óperas, por sinal, algumas delas sobre a morte, em particular uma delas até a encenou e dirigiu perto da data de morte do filho. O percurso musical e a forma de sentir do autor estão intimamente ligadas à música, a própria forma de Michel sentir um outro cortejo fúnebre, pouco antes daquele que viria a "organizar" para o seu filho Lion, é caracterizado e descrito através das músicas. Mas não é só ai que a música entra, ela está em inúmeras páginas. Desde Bach a Ravel, Radiohead ou Portishead, Schubert ou até Audrey Tautou... o percurso musical é um caminho que é inevitável. Tão inevitável que lhe fiz uma banda sonora. O poder da música, confere ora ritmo ora pausas a este relato tão caricato. Carismático também, mas caricato e peculiar serão as palavras de ordem.

"Um pai herdeiro do filho, encadeamento incompreensível de palavras. Desordens do tempo." (pág. 23)

É nessa desordem do tempo que um pai se habitua a viver sem um filho, sem nunca esquecer que tem a necessidade de lutar para se lembrar disso... de que é capaz de viver depois da morte.
No caos e no sofrimento, por onde continua a vida? Acariciando fotos num computador? Relendo cadernos e outros testemunhos parcos em ensinamentos... que um pai procura para conhecer melhor o filho perdido!?

"A morte é uma máquina de arrependimentos?" (pág. 51)

Como se desimpede o caminho da dor? Que arrependimentos ficam... os das coisas que fizemos ou daquelas que nem sequer fizemos?

Confusão, medo, negação... lágrimas, luto! O peso do ontem.
Luta, purga, superação... lágrimas, luto! A força do amanhã!

"A caderneta de família não está em dia!" (pág.107)
E depois da morte de um filho, algum dia volta a estar em dia, essa tal caderneta de família?

E não podia acabar sem música, «Hold On» Tom Waits.




Uma leitura com o apoio da Sextante Editora, uma belíssima estreia para esta nossa nova parceria.
Leia mais sobre o livro aqui. Ou leia as primeiras páginas aqui.

Boas Leituras.

terça-feira, 26 de novembro de 2013

«Para onde vão os guarda-chuvas» de Afonso Cruz - Opinião

"Os caminhos são mais longos - disse um dia Elahi - para quem está sozinho. (...) Os dias esticam e ficam mais longos, o relógio diz que não, mas, com licença, o que sabem os relógios da alma humana? Não sabem nada, Alá me perdoe. O tempo demora mais a passar, muito mais, é assim que se sofre. Quando se está feliz, esse mesmo tempo passar a correr, parece que vai atrasado para uma festa, mas, se vê uma lágrima, pára e fica a ver o acidente, dá voltas à nossa desgraça e não anda para a frente como os relógios dizem que ele faz.

(...) Disse Ali: Não é a falta de pessoas à nossa volta que faz a solidão. São as pessoas erradas."


O caminho é verdadeiramente longo. Os dias irão esticar-se. O tempo parecerá parado. Os relógios avariados. «Para onde vão os guarda-chuvas» de Afonso Cruz é uma trovoada de questões e um dilúvio de emoções. Um relato carregado de luz, mas marcadamente povoado de nuvens negras.
"54. Encheremos o mundo de coisas preciosas. Serão tantas que os homens passarão por elas julgando-as banais."
Assim estou eu perante este livro. É precioso todo o encadeamento, todo o complexo de histórias que se cruzam, como as tais linhas dos tapetes de Fazal Elahi, mas o sofrimento é tanto, que eu ainda estou a recuperar de todos os socos violentos que esta narrativa nos dá! E o fim!? O fim foi sufocante.
Não posso dizer inesquecível, pois eu quero esquecer a possibilidade de tal acontecer, mas é inevitável dizer que o fim quebra todas as regras do quanto o ser humano suporta sofrimento.

Fazal Elahi era um homem com o desejo de passar invisível, acreditaria que de tão invisível conseguiria enganar a morte. E enganou, pelo menos a física, já a emocional...
Fazal Elahi era bom muçulmano, mas uma alma irrequieta e turbulenta, atulhada de questões, muitas a Alá.
A própria forma como aceitava as irreverência de Bibi demonstrava que o seu entendimento suplantava os ensinamentos mais restritos ou fundamentalistas. Aliás, a vida de Fazal Elahi foi toda feita de irreverências e rodeada de pessoas ainda mais irreverentes.


Badini, o mudo mais falador de sempre (só pode) fazia das mãos palavras e das suas palavras poemas, artes, explicações divinas para o entendimento supremo da vida. Mas se segundo ele somos estrelas, aquelas que Alá vê quando olha lá de cima, porque razão o futuro se pinta tão negro? O mudo tinha muito medo da felicidade. A felicidade era como uma mão que tira e uma outra que dá, mas só que em locais diferentes.

Nas mentes irrequietas e intelectualmente desconcertantes de Badini e Elahi recaem as melhores partes do livro. Os seus diálogos, revelando preocupações que ultrapassam religiões, costumes ou política, são antes o espelho das preocupações humanas, revelando as semelhanças que nos unem. Talvez nunca se diga em palavras explícitas, mas o que ambos desejariam era ponderação, tolerância, equilíbrio... mas a vida, o mundo, para além de ser um composto frágil, tem também um equilíbrio absurdamente/moralmente/curiosamente/esteticamente desequilibrado.

Curiosamente são as ideias, que mesmo dispersas rapidamente se unem, permitindo, quase absurdamente, ver um equilíbrio entre ensinamentos cristãos, hindus e muçulmanos, como se com um pouco de cada lado, se obtive-se um conjunto quase perfeito.

"- Disse Rumi: uma opinião é um pássaro com apenas uma asa."
"- Posso continuar cristão? (Isa, pág.379)
Fazal Elahi coçou a barba e condescendeu:
- Podes, desde que sejas um bom muçulmano."

Mas a religião não fica por aqui e não se esgota. A antiga Pérsia é também trazida para dentro do livro com toda a beleza dos Fragmentos Persas, um livro dentro de um livro. Como o Afonso Cruz já nos habituou. Há também ascetismos, esoterismo e misticismo... há filosofia, numa preocupação de entender a Humanidade, de compreender o próximo como uma continuação de nós mesmos.

Fazal Elahi será um exemplo? Será a sua fé e a sua capacidade de ser reinventar e perdoar um ensinamento? Mas o que lhe falta para ser constantemente magoado, espezinhado e atraiçoado?
Fazal Elahi perde um filho.
Bibi é atraiçoada nas suas convicções.
Aminah é fútil ou quererá apenas testar um sonho, uma promessa de emancipação!?
Badini que na sua divindade prova a sua teoria da felicidade.
Nachiketa Mudaliar converte-se por amor, mas não esquece as raízes e é com elas que justifica a vida
Salim, Nauman ou Isa... a inocência reflectida no íngreme que são as escadas da vida.

O rol de personagens é extenso, mas consistente. Afinal a vida é pautada de inúmeros encontros e desencontros que, mais ou menos, contribuem para a nossa educação, para a nossa liberdade...
"(...) a educação é uma limitação da nossa liberdade, ensinamos os outros a respeitar fronteiras..."

É difícil explicar, mas este livro é um compêndio de ideias, de ensinamentos, de questões... quem sabe uma bíblia para ateus, daqueles que crêem em algo, mas não sabem bem o quê. E "se é difícil de explicar, é porque não é verdade, a verdade é algo muito simples."

Mas como se ensina esta verdade simples, se somos todos tão complicados!? Não ensinamos, não explicamos... perguntamos, questionamos, vivemos na dúvida.

"O futuro é uma pergunta. Se há terrorismo eficaz, que valha a pena, é perguntar."

E vocês, sabem para onde vão os guarda-chuvas?


"Alguns poemas, traduzia Elahi às crianças, ficam colados nas árvores e no céu, e só se apanham quando estamos suficientemente maduros para o fazer."

*
Uma leitura com o apoio da Alfaguara/Objectiva. Vejam mais do livro, nos diversos links disponibilizados:
Facebook de Para onde vão os guarda-chuvas
Blogue da Editora Objectiva


quinta-feira, 21 de novembro de 2013

«Jesus Cristo bebia cerveja», de Afonso Cruz - Opinião

Brindemos, Jesus Cristo bebia cerveja!


Que fado dos infernos viveu esta Rosa. Malfadada personagem, perdida num lugarejo lúgubre alentejano, onde a ruralidade não deveria ser desculpa para as brutalidades cometidas.
Filha de mãe fugida e pai enforcado, junta-se ainda um avô atirado num poço e uma avó que mija a seus pés e que já conta com muitas dívidas à saúde.

Quem leu e não gostou, ou leu e achou pouco, eu creio que não precisa de ser tudo dito. Por um lado, ainda bem, por outro porque nos deixa magicar aquilo que o autor não revela, não cria... dando ao leitor um pedaço de criação. As personagens são marcantes. Todas elas. Rosa é inocente ... pen­sava que a san­ti­nha tinha as mãos jun­tas por­que batia palmas.
O Faia era bombeiro, mas pelos vistos não tinha quem lhe apagasse os seus fogos.
O pastor Ari, "o leão deitar-se-à com as ovelhas" ... e a profecia cumpre-se!
O policia que é corrupto, é bruto e muito pouco polícia, o que não deixa de ser irónico e talvez exemplificativo de como certa coisas acontecem com naturalidade, naturalmente aceite.

Há uma certa tendência para o exagero, dirão alguns. Eu encontro uma elevada tendência mágica para mascarar os acontecimentos, tornando-os na mesma brutos e crus, mas menos chocantes. As cenas de violência, de abuso, de sofrimento, de ignorância... estão todas lá, mas muito bem camufladas nesta capacidade quase poética de Afonso Cruz.

Se o Alentejo é terra árida, seca, sofrida e até selvagem, então Rosa é o Alentejo. A terra desenvolve-se (ou não) e Rosa cresce. A acção avança, as tragédias continuam a acontecer.

O Professor Borja e Miss Whitmore começam a ser fulcrais e a ideia central do livro começa a desenhar-se. Trazer Jerusalém ao Alentejo. Será o Alentejo a Terra Santa? Poderá este enredo original e idílico trazer água no bico e ser metáfora e piada a algumas considerações sobre a importância (ou a falta dela) do nosso Alentejo!? Não sei, deixo à discussão, mas essa ideia não me abandonou em todo o romance. Afinal o próprio autor trocou a capital pelo Alentejo, algo o atraiu para lá...

Os episódios acumulam-se e queremos ver tal engenho trazer a terra santa para que os desejos da idosa, a avó de Rosa, sejam cumpridos. Mas o melhor de todo o enredo, não está neste foco central, está sim nas palavras que o autor usa para criar certos ambientes e preencher, dar alma, às suas personagens. Mesmo quando a alma se sente vazia.

“Rosa nunca se sentiu única” porque tudo o que lhe acontece é minimizado pela avó, que lhe diz “isso também já me aconteceu. A vida de Rosa é partilhada por todos (...) Ela pertence a todos, como o pão da missa que se divide pela humanidade” (p. 157)

Pensando no sentido do título e no cabimento de Jesus Cristo dentro deste livro, existem inúmeras frases que são assim como que iluminadas, como que tocadas pela sabedoria, como aquelas que teimavam em reaparecer, divinamente, no muro branco da inglesa. "Parece que a sabedoria teima em reaparecer, como os fungos." (pág. 31).

As questões existenciais continuam e a luta de ideologias entre o hindu, os cristãos, ou até budistas... todos são chamados ao debate do "Eu", do vazio, alquimias e magias... os desígnios das "coisas". Enfim, a liberdade de ter opinião e deixá-la ganhar asas ou ser como as árvores ter asas e não voar, as raízes são profundas, enterradas, como palavras.

Existem aqui muitas, dessaspalavras enterradas, mudas, invisíveis... deixadas para o leitor para que não lhe sobre o "silêncio na boca". Talvez este livro seja preenchido com alguns silêncios, aqueles que fazemos entre determinadas frases mais profundas, aquelas que nos fazem ter vontade de gritar, mas "gritar é coisa de pessoa sozinha. Quando temos pessoas para nos ouvir não precisamos de gritar, pois não?" (pág.87)

E já para o fim, para se fazer ouvir, Rosa terá de tomar decisões. Talvez deixe de ser como os gatos. "a comer pássaros para voar." (pág.190) Talvez deixe de chupar pedras como se fossem rebuçados a vida se torne menos pesada e pedregosa. Talvez dê "carne às palavras" e de beber à solidão.
Talvez, talvez... Rosa, de menina a mulher, com a alma como "uma casa a precisar de ser caiada" (pág.246)

*

O Alentejo é um deserto onde a morte não ouve o pianista, Harold Estefânia, um nómada, que devia ter aprendido a cultivar... talvez, quem sabe. E mais não digo, o mistério da cerveja é, diria, alucinante e deixa-nos de sorriso nos lábios.

*

«Jesus Cristo bebia cerveja» é uma edição Alfaguara/Objectiva, consultem mais no Blogue da Objectiva
e oiçam aqui o livro em destaque na TSF, na rubrica Livro do Dia
ou oiçam o autor a falar deste seu livro no programa Ler Mais, Ler Melhor, aqui.


quarta-feira, 20 de novembro de 2013

«A Desumanização» de Valter Hugo Mãe - Opinião

«Um homem não é independente a menos que tenha a coragem de estar sozinho.»
Halldór Laxness, Gente Independente 

«A Desumanização» Edição Porto Editora, saiba mais aqui


E você, será capaz de estar sozinho para ler este livro?
Não se trata propriamente de um livro assustador ou de terror, mas pode aterrorizá-lo e desumanizá-lo um bocadinho. E utilizar o diminutivo é apenas para reduzir a elevada dor e angustia que atormenta, a já atormentada vida de Halldora.

«A Desumanização» são as sobras, as dores, as perdas, os terrores de ficarmos sobreviventes da morte. A morte dos outros mata-nos. Apesar de estarmos todos a morrer, a morte de alguém que amamos e que nos completa, mata-nos mais um pouco e deixa um buraco, um fosso, uma negritude que não se ilumina. Uma profunda tristeza que levaremos para o dia-a-dia e que nos envergonha cada vez que sorrimos e nos redimimos da dor, querendo avançar na vida.

É este o retrato com que Valter Hugo Mãe emoldura a solidão de caminharmos na vida sem um ente querido. No caso de Halldora, a perda da irmã gémea, Sigridur faz dela a metade menos morta da criança plantada. A ideia dos corações dos mortos como caroços na terra, semeiam uma certa bizarrice, mas não deixa de ter um certa inocência de explorar um tema tão misterioso e tabu quanto a morte surge quando se é criança. Agora imaginem quando a morte nos leva o nosso espelho, o gémeo, a outra metade de nós, igual a nós, aquela parte intrínseca e que nos completa.

Para além do peso da morte da irmã, Halla carrega o peso de sobrar para uma mãe atormentada pela dor de ver em Halldora a imagem constante do que a vida lhe roubou. A dor maior, a perda de um filho é aqui violentamente exposta por imagens muito fortes. A dor física como purga da dor invisível que nos mata por dentro, é mais dolorosa ainda quando feita no corpo do outro e este outro é a criança. É logo nas primeiras páginas que vemos uma mãe perturbada ferir-se e ferir quem deveria proteger. Desumanizem-se, se assim precisarem. Soltem-se da imagem mental que fica, mas leiam. Leiam até ao fim.

"Quem sepulta um filho não tem idade. Está para lá das idades, para lá dos tempos." (pág. 131)
"Em sobrar estava a oportunidade de prosseguir e de alguma vez ser feliz." (Halldora, pág. 159)

A terra como comedora da felicidade. A Islândia como um corpo pulsante. Deus está na Islândia, a Islândia é deus! A ideia da terra e do papel dos mortos debaixo da terra é, a meu ver, dado como metáfora para o quanto as raízes e a nossa posição geográfica condicionam a nossa visão da vida, aliás a nossa visão do mundo. O gelo e as temperaturas negativas talvez justifiquem a tal desumanização? Sempre que nos defendemos e criamos estratégias para lidar com os outros, ultrapassando-os, desumanizamo-nos? Serão essas defesas altas barreiras como as montanhas, afastando-nos, estratificando-nos uns dos outros?
E se nos afastarmos, quando perdemos o outro, sofremos menos!?

São inúmeras as questões que as metáforas e os jogos de palavras, tão visuais, levantam nesta sua viagem e homenagem à terra dos fiordes. Como a própria criança afirma, "Os livros eram ladrões. Roubavam-nos do que nos acontecia. Mas também eram generosos. Ofereciam-nos o que não nos acontecia." (pág. 63) E este livro é isso mesmo uma utopia de chegar ao outro e quebrar a barreira, é uma oferenda. Um enredo ensanguentado, que nos faz pensar a solidão, que o autor acredita ser de todos nós (entrevista no Bairro Alto, aqui).

"A poesia é a linguagem segundo a qual deus escreveu o mundo. (...) Onde há palavra há deus."
Se deus está na Islândia e a Islândia está neste livro, então este é um livro sobre deus!? Talvez seja uma tentativa de desumanizar a morte e o encontro com deus... talvez! Mas isso caberá a cada um de nós sentir o que esta leitura nos traz.

«Queria proteger contra o esquecimento. A maior vulnerabilidade do humano, a contingência de não lembrar e de não ser lembrado.»
Valter Hugo Mãe, “A Desumanização”

quinta-feira, 14 de novembro de 2013

«As primeiras coisas» Bruno Vieira Amaral - Opinião


«As primeiras coisas» é o regresso às origens olhando os "estendais de gente mórbida", num rol de relatos que oscilam entre as tragédias e os enguiços que compõem a manta de retalhos que é um bairro, agora mais retalhado e remendado, sofrendo o natural passar dos anos, na dureza dos remendos dos dias!

Um romance a modos que disfarçado de enciclopédica que pretende nessa mestria de organização alfabética ordenar personagens desorganizados só por si e pelas vidas que levam, fruto do suburbano e das vicissitudes da vida.

Se alguns retomam às origens e não se orgulham de morar atrás do sol posto, Bruno, o personagem e narrador não se orgulha de retornar, tal qual retornado, mas para ele a guerra ainda haveria de começar e tem agora que voltar ao Bairro Amélia, sentindo o amargo de uma volta forçada.

Desempregado, recém-divorciado e a voltar à casa mãe (em toda a ascensão da palavra) o narrador é capaz de criar uma empatia imediata com o leitor, já que desde a sua condição a toda a conjectura bairrista, o que não lhe faltará serão fãs. Acredito que entre as mais de 50 personagens todos teremos traços que reconhecemos em alguma delas ou pelo menos algum nome nos fará lembrar alguém, tão ou mais "personagem" do que os habitantes do Bairro Amélia.

Com ou sem a Grande Pintura, o que dá cor a este livro, já que a enciclopédia reúne tragédias, enguiços, maledicências, fofocas, crimes, ladrões, putas e abortos, é mesmo os peculiares habitantes que no seu composto tecem a partitura que musicaliza os dias mais sossegados do Bairro ou são as suas histórias que puxam o brilho aos dias cinzentos. A cor deste livro são os detalhes. São os traços minuciosos que enaltecem a escrita de Bruno Vieira Amaral e que, mesmo em jeito de crítica social, retratam tão bem este ser-se português e ser-se bairrista, fatalista e até capitalista de bens pequeninos mas que tão grandes nos tornam.

Começando com a premissa de que "Portugal é um país de poetas" (Fion, página 36), passando pelos tempos em que éramos guerreiros com metralhadoras em tubos de pvc que cuspiam cartuchos de papel (pág. 45) e tínhamos o pai ou o tio que ao Domingo lavavam o carro na via pública ou saiam pro café com "bocadinhos de papel higiénico na cara depois de um golpe ao fazer a barba..." (pág. 206)... enfim, traços de um Bairro, que pode ser qualquer bairro, desde que habitado por gente que não tem medo de ser gente.

Para além da crítica social, que a meu ver está espelhada em tantas frases, habilmente cronológicas ou biográficas mas que se deixam ler nas entrelinhas, o traço idiossincrático que a todos dirá algo de diferente, mas que nos torna a todos semelhantes.
"Casal feliz (...) viviam numa barraca, das que tinham sido construídas perto das hortas, longe do bairro para que não os considerássemos vizinhos, mas perto o suficiente para que não fossem estranhos." (pág. 88)

Há, em todo o compêndio de crónicas, a meu ver será isso, muito mais que um romance, uma forte tendência para a introspecção - até que ponto nos esquecemos de onde vimos e para onde vamos? O lado da estrada em que está o nosso prédio condiciona o entendimento que temos de um bairro e por si só, o entendimento que fazemos da sociedade?
Será a estratificação social um bem necessário para que todos saibamos com o que contar do próximo, porque o dia a dia programado deixou-nos intolerantes ao acaso e ao inesperado!?

Creio que sociologicamente o livro levanta muitas questões, no entanto não sei se é ai que o autor deseja chegar ou sequer que seja isso que pensemos durante a leitura ou quando chegamos ao fim, mas perante alguma ausência de enredo e fio condutor, está lá, mas é ténue ou é a questão estética que assim obriga e o leitor menos habituado enseja por algo que não vai ter...
Talvez isso nos deixe a braços com a tal introspecção e cheguemos a pensar na tal "energia geriátrica" que nos pode faltar se tivermos de recomeçar, ultrapassar o "dilúvio do esquecimento" e enfrentar, de orgulho ferido, "o mastigar estúpido dos dias".

Apesar de a gíria dizer que "a vida são dois dias", nem todos somos como o camaleónico Moreno e por vezes exacerbamos "a nostalgia pelos paraísos perdidos", tendo como certeza que "nada é eterno, nem sequer o descanso dos mortos."

"Prédios" é o meu capítulo favorito, pela dureza, fria e áspera como o cenário de betão que compõe muitos bairros Amélia e nos relata os tais "estendais de gente mórbida"...
"Tal como os seres humanos, as cidades, as vilas, os bairros adaptam-se, têm movimentos orgânicos, desenvolvem-se, crescem, certas zonas são como células cancerígenas, outras como defesas imunitárias contra o desespero..."

Só resta perguntar, em que célula estamos nós?

«As primeiras coisas» Bruno Vieira Amaral é o seu romance de estreia, num compêndio de personagens, introduzido por cerca de 50 páginas de apresentação, mais de 90 notas de rodapé, num enredo de mais de 50 personagens e mais de 300 páginas (301 para ser exacta) onde a volta de um homem pode desvendar mistérios, alguns internos e tão pessoais, que só revisitados passam a fazer sentido. Do Aborto, aos Enguiços ou aos "melhores lugares para voar no Bairro Amélia", não esquecendo que teremos de contornar os "Prédios" e o picante das peculiaridades suburbanas de um Portugal que não se quer esquecido.

quarta-feira, 13 de novembro de 2013

"Os demónios de Álvaro Cobra" de Carlos Campaniço - Opinião

"Quando Álvaro Cobra a despiu com os seus dedos grossos e desajeitados e a pôde, finalmente, ver nua sobre a cama, pensou que se tratava de um milagre, num tempo em que já não havia milagres sobre a Terra, por se ter esgotado a capacidade inventiva dos santos ou a benevolência pedregosa dos homens. Todavia, do mal dos divinizados não padecia o lavrador Álvaro Cobra, que possuía uma imaginação sem arreios..."
Carlos Campaniço oferece-nos uma galeria de personagens inesquecíveis, que vão de um anarquista à dona de um bordel ambulante, e recicla de forma original o realismo mágico para revisitar as virtudes e os defeitos das pequenas comunidades rurais do nosso Portugal.
Tendo como editora, Maria do Rosário Pedreira, a obra de Carlos Campaniço foi editada em Abril de 2013 pela Teorema, chancela do Grupo Leya. O mesmo título foi destacado com o Prémio Literário Cidade de Almada 2012


É nessa imaginação sem arreios que Carlos Campaniço traz até ao leitor um livro que é puro deleite. Este «Os demónios de Álvaro Cobra» é uma preciosidade tal qual o seu Alentejo, na aldeia de Medinas, e que lhe serve de pano de fundo para todas as maleitas dos Cobra, uma família cheia de eventos e raridades que tocam o bizarro.

O retrato rural, mágico e até surreal do nosso Alentejo é muito bem recheado com personagens assombrosas e dignas de "se lhe tirarem o chapéu". Se o próprio Álvaro Cobra é uma achado, a avó centenária não lhe fica atrás ou a irmã brasa, mesmo meio morta, não deixa de dar mais vivacidade à história.

Se as maleitas e enguiços associados à tenacidade ímpar dos Cobra é por si só dúbia, junte-se ainda, cristãos (precocemente convertidos), árabes e judeus, tudo em ampla convivência, num Alentejo que se reinventa por entre cultos pagãos para uma nova fé monoteísta!? 

Para além de religião e culto, encontramos também lendas e mitos associados não só às tradições populares alentejanas, como também do cunho cultural e geográfico herdado da ocupação árabe. O próprio autor afirma a necessidade de se escrever sobre o que se sabe, passando assim ao leitor uma maior credibilidade e conferindo um papel mais forte e real a toda a história.

Apesar de toda a magia que envolve e caracteriza o desfile de personagens deste romance, reconhecem-se nos traços pessoais de muitos deles, muitos de nós, actuais ou antepassados, demonstrando uma óptima análise do ser-se português nas palavras rebuscadas e sonhadoras do autor.

Carlos Campaniço brinda às gentes da aldeia e presta-lhes uma homenagem. É nesta passagem de testemunho que se imortaliza a tradição oral das estórias das gentes, das bichanisses que se cochicham e das histórias orelhudas, que de tanto serem contadas passam a ser verdadeira. Apesar de negra, a história é rica em graciosidade. É a linguagem, é a forma como o autor enlaça os acontecimentos e as personagens, conferindo, mesmo aos regionalismos mais brutos uma certa magia que os tornam belos.

É quase impossível destacar partes deste livro, pois são inúmeras e tenho o livro todo etiquetado, mas existem frases que são verdadeiras tiradas de mestre e nos transportam para uma outra dimensão de pensar a realidade. A ideia da solidão da morte e de o morto (o pai Cobra) não conseguir conviver com essa mesma solidão. Ou o recuo do exército de sapos, não pelos desígnios de deus, mas pelas mezinhas de nómada de Clarinha. Talvez a piada com o nome do padre Jesuíno (Je, do pai e suíno da mãe) ou outras tantas, sejam ainda mais do que o são, se lermos as entrelinhas... a religião pensada com o pragmatismo das gentes simples e que procuram a paz na opinião alheia... a importância de Miss Margot e os pares de pernas de deusas que vêm aliviar as noites... neste livro até o sexo tem cheiro a terra e os dissabores brutos das intempéries.

A própria ligação dos personagens à terra ou a comunicação paranormal com os animais, vista como bruxaria em algumas vezes, mas solução divina, quando assim é preciso. A divagação sobre o credo e tendências de culto tida nas páginas 94 e 95 é simplesmente deliciosa e por certo um pouco de todos nós se revê nalguma daquelas imagem - afinal de contas quem é não vai à apanha da espiga e põe o raminho atrás da porta!?

Em suma, os demónios que apoquentam Álvaro Cobra podem ser os que atormentam qualquer homem, nem santo nem bruxo, esta é uma história dos homens, onde a fé, a dor, o amor, a solidão, a morte, a tristeza e a alegria convivem todos os dias, tornando-nos parte da terra, parte do pó dos dias!


Este livro chamou-me pela primeira vez à atenção pelo título, depois o amigo e conselheiro de leituras Jorge Navarro leu e recomendou e logo de seguida, também Mário Rufino, leu e destacou e como tal, não me poderia passar ao lado. Mais tarde apanho também a entrevista que aconteceu antes do lançamento e na qual gostei bastante de ouvir o autor.
Neste Verão chegou a oportunidade de o ler e fico muito feliz de só agora me despedir dele, revisitando-o e escrevendo sobre ele, pois foi mais uma oportunidade de saborear algumas das passagens que fui destacando.

Para quem ainda não leu, leia! Boas Leituras.

domingo, 10 de novembro de 2013

como faço review aos livros do Afonso Cruz!?

A ideia não me sai da cabeça...
Eu passo por ele. Tento evitá-lo.
«Para onde vão os guarda chuvas» é o meu próximo livro!
Passando à frente de muitos, mas não consigo resistir!


Mas entretanto...
Como se escreve sobre os livros e as leituras ao Universo Livresco de Afonso Cruz!!!???
?


Talvez com estes livros comece ou melhor, retome um velho hábito.
Colagens.
A escrita de Afonso Cruz é tão visual e apelativa que só me apetece pintar, colar... misturar!



Mas eu chego lá - e amanhã talvez seja o dia!

Na lista estão:
- O Livro do Ano
- O Pintor debaixo do lava-loiça
- A Boneca de Kokoschka 
- Jesus Cristo Bebia Cerveja


«Memórias de um amigo imaginário» de Mathhew Dicks - Opinião

O herói deste livro é Budo. Amigo imaginário, cinco anos, melhor amigo de Max.
Max é uma criança autista, que detesta cocós extra e que tem em Tommy Swinden um inimigo.
A escola pode por vezes ser um campo de batalha e são sempre precisos guerreiros verdadeiros como a professora Gosh, para vencerem os guerreiros mal intencionados como a professora Patterson. 
Em suma, a vida em si é uma batalha e nem sempre fomos feitos para vencê-la!

As peripécias vividas entre Max e Budo (visível apenas para amigos altamente imaginários) são deliciosamente narradas por este inocente amigo imaginário. Igualmente inteligente e instruído ou não fosse o seu amigo um entusiasta da aprendizagem. 

Max é autista e os relacionamentos e a identificação com um grupo e com os outros afectam e condicionam-lhe as decisões, a sua liberdade e o seu dia a dia. Quando tudo o que quer é sossego e concentração para aprender, Max vê-se confrontado com a urgência de utilizar o wc escolar e trava a maior batalha da sua vida solitária e recatada. A aventura intimista com Tommy Swinden traz-lhe alguns dissabores, mas que todos os seus males fossem esse!

Gosh e Patterson são ambas professoras de Max e entendem as suas dificuldades, mas igualmente as suas magníficas capacidades, pena é que retiram daí conclusões e usos completamente diferentes. Enquanto Gosh estimula e potencia as capacidades de Max, Patterson aproveita as fragilidades e prega uma partida a Max, dito assim é uma expressão fraca, mas é a melhor para não estragar a surpresa a quem irá ler.

Um livro belo pelas expressões que tem. Um relato inocente, mas que chega a ser alucinante. 
É uma viagem à infância e um retorno à idade adulta pelas dificuldades que a vida traz com as perdas que temos que aceitar.



"No mundo, há duas espécies de professoras: as que brincam às escolas e as professoras que ensinam."
Toda esta descrição sobre o ensino (pág. 217) é bastante elucidativa do tipo de professor, entre os que são professores por carreiras e os que são professores com o coração e a alma, talvez o que se chama vocação.
Todo o livro é brilhante na forma de interpretar o autismo e os seus "tiques" típicos, mas pelo olhar de uma menino com 5/6 anos, apesar de imaginário funciona como se tivesse o entendimento de uma criança real perante um amigo ou colega com algum tipo de necessidade educativa especial. O melhor. O melhor é que Matthew Dicks trabalha ainda melhor a personagem quando lhe dá ainda mais inocência do que um menino daquela idade. 

O mundo imaginário e a ficção a abrilhantarem um tema que precisa de ser cada vez mais desmistificado!
Se quiserem dar uma espreitadela a esse mundo, leiam o diálogo (pág. 258/259) entre Budo e Oswald, um herói com uma mão entre dois mundos. O mundo dos heróis de palmo e meio, outro tipo de Rambo's das nossas vidas (piada, pág. 304).




BOAS LEITURAS.
Com o apoio da Editorial Planeta