Conhecem aquela sensação ao abrir um livro e voltar a lê-lo, aqui e ali, seguindo os cantos dobrados, as folhas mais marcadas, as frases sublinhadas e redescobrir o que tanto nos atraiu e nos fez ficar presos nesse livro!? Foi isso mesmo que me aconteceu quando ontem peguei para comentar este último romance de Sandro William Junqueira (SWJ) que já li em Agosto.
Não deixei por rever este livro por acaso. Há tanto de extraordinário como de comum neste romance de contornos meio surreais e distópicos, mas igualmente semelhante aos dias de hoje, com tudo o que de nefasto existe nos flagelos actuais. Existe fé, mas não vence a corrupção do corpo. Existe deus, mas é conspurcado pela mente dos homens. Poderia existir amor, mas o poder fala sempre mais alto... talvez haja inocência, mas é confundida com desconhecimento ou falta de sofrimento. Existe humor, mas lapidado pelo lado negro.
Sandro William Junqueira junta as dualidades mais opressivas que o ser humano acarreta em si e transporta-as para um lugar desconhecido que poderia ser o país de qualquer um, mas planta a acção perto do mar ;() onde a Avó consegue sentir a aragem marítima. Separa o Norte do Sul, atribuí grandezas a uns e fome de tudo a outros, mas separa-os por uma fronteira tenebrosa, mas ténue onde os interesses e o poder se confundem em prol dos desejos e das necessidades fúteis dos mesmos do costume.
Não é fácil fazer-me entender ao falar deste livro sem ter a tendência, ou para explicá-lo (conforme eu entendi) ou para enredá-lo e complicá-lo um pouco mais. É complexo, sim. A forma e a estrutura que assume é diferente, não será novidade para quem leu o romance anterior, mas não deixa de ser complexo imaginar todo um enredo sem espaço geográfico definido, tempo ou nome para as personagens. A Avó é assim nomeada pelas características óbvias, como o Bispo, pelas funções que desempenha, ou o Padre, ou até a Adolescente evidentemente pela idade e outros atributos.
A espontânea maldade intrínseca no argumento que compõe este "No céu não há limões" é, a meu ver, um olhar atento à Humanidade e aos dilemas intemporais e existenciais que o ser humano atravessa nas várias idades da vida, mas essencialmente naquela em que questiona o sentido e a direcção da sua missão, do seu papel e talvez questione a presença de uma mão superior, abstracta e poderosa que possa garantir o seu caminho. Mas isso não acontece de forma suave e muito menos sem perguntas e dúvidas.
Estou a falar de fé, de religião, de acreditar ou não em Deus e decidir o que sentimos segundo as leis dessa crença, dessa espiritualidade. Não sei se esta é a essência deste romance, mas foi isso que ficou evidente para mim. Em que ponto da nossa vida procuramos a fé e a espiritualidade? E quando surge, é facilmente absorvida ou somos antes de tudo absorvidos para os dilemas e os problemas associados?
Penso no lado menos colorido deste tema, pois o livro segue esse lado mais negro. Um lado que desenterra o passado, um lado que verte sangue e derrama lágrimas. Julgo que o centro da acção deste enredo está precisamente nessa maldade que aguarda a queda do homem. À distância de promessas sem compromisso ficam acções que poderiam salvar as almas e orientá-las num futuro melhor, mas sente-se pouca esperança ao longo das páginas.
A missão falha, arrasta-se e está obstipada. Há um certo azedo que acidifica todo este cenário estruturado para o que é feio e que torna os homens em meros figurantes. Um discurso recheado de metáforas para a ficção em que se tornou o palco da vida.
E julgo que não podia ter encontrado melhor parágrafo para finalizar, tentando fazer justiça ao único traço belo deste romance: a linguagem extremamente funcional mas lírica com que Sandro Willliam Junqueira consegue compor, usando palavras simples, mas que não podiam ser as mais adequadas.
Uma leitura com o apoio EDITORIAL CAMINHO.
A leitura é uma viagem por palavras nacionais, estrangeiras, umas cultas, outras menos... umas quem sabe rebuscadas e outras simplificadas, algumas levam-nos às lágrimas, muitas delas às gargalhadas e as melhores, aquelas que nos deixam abismadas, tamanha é a profundeza da ideia, da genuinidade expositiva, onde a simples contemplação daquele texto nos deixa assim, sem palavras! É este o Efeitos dos Livros!
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quarta-feira, 31 de dezembro de 2014
No céu não há limões de Sandro William Junqueira - Opinião
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terça-feira, 30 de dezembro de 2014
Feliz Idade de Sigrid Undset - Nobel de Literatura 1928 - Breve Opinião
Feliz Idade de Sigrid Undset trazia com ele a premissa de ser uma leitura leve, mas marcante, naquela que é a idade para se tomar determinadas atitudes e avançar. Uma novela moderna pela mão da nobelizada Sigrid Undset que pretende mostrar certas viragens que o século XX permitiu, como a emancipação das mulheres. Com uma voz forte, mas igualmente simples, Undset, a norueguesa nobelizada em 1928 traz ao enredo a saga da busca pela felicidade, tanto no espectro pessoal como social e ainda o esforço para que existisse outra aceitação das mulheres, em muito para quebrar a solidão e alguns estigmas com o casamento e a família.
Uma novela que me fez pensar na importância da liberdade dos dias de hoje e de uma maior abertura em termos de sociedade moderna, de resto é uma escrita e um enredo que não me cativa. Sinto que se passou o mesmo com Victoria do também nobelizado Knut Hamsun (Opinião).
Em "Feliz Idade" a autora revela também a preocupação com a possibilidade de perdermos o rumo e o controlo das nossas vidas e desperdiçarmos os nossos melhores anos. Linha que foi interessante de seguir e pensar sobre, já que li este livro enquanto "peregrinei" este ano a Fátima. Coloco peregrinação entre aspas, já que a espiritualidade e a religião não foi o foco, mas pode bem ter sido essa busca pelo sentido dos dias e para promover o reencontro tranquilo e solitário com os meus próprios pensamentos.
Foi curioso a certa altura ler que a ela caminhava pelas ruas de Cristiânia, ficando a conhecer a cidade e quebrando a solidão. Perdoem a ignorância mas não sabia que Oslo, havia sido Cristiânia. ;)
Quem sabe 2015 traz a hipótese de umas caminhadas em terras escandinavas.
Este livro foi lido durante os 138kms a pé até Fátima.
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Sigrid Undset
Retrospectiva de leituras de 2014
*
Não faço retrospectivas de tudo e nem todas faço com (muito) gosto, no entanto, confesso que traçar linhas sobre o que decorreu no ano, balanceando os resultados, é sempre uma forma palpável e concreta para ingressar um novo ano com as perspectivas mais direccionadas. Não sei se me faço entender. Fazer balanço acarretar diversos tipos de sentimentos.
*
Ficam então aqui o registo daquelas que foram as leituras deste ano, com alguns livros ainda por comentar, tais como: No céu não há Limões; a tetralogia de Valter Hugo Mãe, Os olhos de Tirésias e Jerusalém. Tenho ainda quase todos os livros de Afonso Cruz por comentar... Sendo assim, foram mais de 70 bons momentos de encontro entre a leitura e a escrita... Sem esquecer todos os quilómetros que palmilhei, a pé por aqui e ali, durante este ano, como por exemplo a "peregrinação" a Fátima onde li Feliz Idade (agora já com review!).
*
Uma surpresa deliciosa, pela escrita, pela pigologia. Uma história aterrador e desconcertante e ainda assim bela.
- Breviário das más inclinações, de José Riço Direitinho - Opinião
Um total destaque dentro do género que o caracteriza, superior em tudo. De topo, senão o topo.
- "Tenho o direito de me destruir", de Kim Young-ha - Opinião
Subintitulei-o de "a esquizofrenia de querer ser um deus", mas ficou aquém, eu queria mais e queria-o macabro.- A Vida Peculiar de um Carteiro Solitário, de Denis Thériault - Opinião
Existem livro feitos para nos desafiar, este é um desafio. Há algo a Oriente que me falta entender e percepcionar para atingir a beleza de desafios literários surreais como este.
- A peregrinação do rapaz sem cor, de Haruki Murakami - Opinião
Se não fosse a leitura de Stoner não teria conseguido enfrentar o retorno à melancolia murakamiana. Valeu todas as horas. Aliás, ambos.
- STONER de John Williams - Opinião
No topo dos livros deste ano. A resiliência e a vontade de persistir, insistir, resistir. Viver.
- UM, DÓ, LI, TÁ... de M. J. Arlidge - Opinião
O policial que mais me arrepiou neste 2014. O vencedor.
- "dizem que sebastião" de João Rebocho Pais - Opinião
À espera de mais para confirmar o gosto pela escrita curiosa e saltitante de JRP.
- Haatchi & Little B, de Wendy Holden - Opinião
Um livro que mostra a minha vontade de abraçar a causa e adoptar e voltar a ter um patudinho.
- "Eu. Alex Cross" - James Patterson - Opinião
De volta aos policiais acelerados e "limpos" de Patterson.
- "Saber Perder", David Trueba - OpiniãoA confirmação de que Trueba é para ler, se bem que não começámos com o pé direito em 4 Amigos.
- "Quatro Amigos", David Trueba - Opinião
Não escondo, não foi fácil prosseguir na leitura, mas foi um bom exercício de férias.
- A Mulher Má, de Marc Pastor - Opinião
Um livro que podia roçar o mais negro universo da mente humana, caso o autor não tivesse medo de chocar.
- "A Mulher Louca", de Juan José Millás - Opinião
Uma loucura enredada em lições de gramática. Soma pontos na originalidade.
- Valentina, o lado obscuro do desejo - Evie Blake - Opinião
Para aumentar o fogo debaixo dos lençóis e virar a página no fetichismo.
- Leituras, d. Arena - Saúde, Nutrição e Dietas - Dr. Hiromi Shinya e Ana Bravo - Opiniões
Na busca constante por mais informação. A alargar horizontes para uma alimentação alternativa, mais saudável, mas se possível mais elucidada.
- Um Homem Singular, Christopher Isherwood - Opinião
Dos favoritos. Singular na forma como nos faz sentir o personagem e "pedir" por ele.
No filme, é impossível não gostar de Colin Firth.
- A Confraria do Vinho, de John Fante - Opinião
A confraria de bêbados e drogados, alucinados pela falta de amor paternal e de alguma liberdade de comunicação. Um livro simples, cru, mas muito eficaz.
- A Delicadeza, de David Foenkinos - Opinião
A delicadeza de passar de recordação e, recordação e com elas aprender a viver e a amar outra vez. É essa a "lição" entre as duas leituras. (As Recordações, leitura 2013)
- A vida segundo María Jesús Álava Reyes, leituras e opinião - As três chaves para a felicidade
Os livros de auto ajuda vivem de fases. E esta não será a melhor fase para os ler e encarar com pragmatismo.
- Natureza Morta, de Louise Penny - Opinião
Policial à antiga. Há um certo classicismo nos policias que não em atraí. Tem de haver sangue. Hora de chá para discutir provas não me convence.
- INVISÍVEL, de James Patterson e David Ellis - Opinião
Gostei. A ideia do fogo e da dor levada ao extremo em leituras nocturnas no meio do campo ainda me fez transpirar. Confesso.
- "Um grito de socorro", de Casey Watson - Opinião
Crianças, cães e necessidades educativas especiais, excelente tríada para me agarrar a um romance ou caso real.
- Morte numa noite de verão, de K. O. Dahl - Opinião
A confirmação, à terceira. Os nórdicos não são todos para o meu dente, nem mesmo em policiais.
- "MAL NASCER" - o regresso de Carlos Campaniço - Opinião
A confirmação. Carlos Campaniço é um autor a seguir.
- "Sono", de Haruki Murakami, Opinião
Preparem-se para se sentirem com sono. Se essa era a sensação a provocar, Murakami conseguiu. É de génio dar-nos o clima sonolento para compreendermos e pensarmos na privação física e mental provocada pela insónia. É o universo Murakami em pleno, nas divagações da mente e na busca para as compreender.
- Morte nas Trevas, de Pedro Garcia Rosado - Opinião
Queremos mais de PGR, mais sangrento, mais acutilante. A voz do policial português em locais bem próximos de nós que aumentam e adensam o ambiente que se vive nos seus enredos. A seguir.
- "Biografia Involuntária dos Amantes" - o retorno aos livro de João Tordo - Opinião
O retorno a Santiago de Compostela pelas palavras de João Tordo. E o regresso à sua escrita pelo universo alucinado de um altruísta no mínimo estranho, mas intrigante.
- Uma outra voz, de Gabriela Ruivo Trindade - Opinião
Uma "voz" que espero voltar a ler. É a total confirmação que o Alentejo espelhado na literatura me cativa muito.
- "As Coisas Que te Caem dos Olhos", de Gabriele Picco - Opinião
Depois de Mathias Malzieu, outro universo ilógico encantatório. A prova de que gosto de fantasia, em toques infantis e surreais, mas dentro da nossa realidade.
- A Mecânica do coração» de Mathias Malzieu - Opinião
Para minha surpresa não me encantou tanto quanto o anterior. Acredito que o autor tem vindo a apurar o seu Universo. E aqui senti o peso de uma má tradução, de uma tradução que não se preocupou em compreender o universo do autor/enredo.
- "Marginal", de Cristina Carvalho - Opinião
Numa linha em que apostei este ano. Autores lusófonos e pré e pós 25 de Abril. Em Marginal encontrei um lado jovem.
- "Até que sejas minha", de Samantha Hayes - Opinião
Um thriller em tom feminino, com foco no feminino. A demência da maternidade num limite desumano.
- Índice Médio de Felicidade - David Machado - Opinião
Um livro para abrir uma conversa entre amigos e discutir. Pensar em muitos assuntos actuais entre um copo de vinho.
- "Mar Humano" de Raquel Ochoa - Opinião
Um livro meio desequilibrado que me fez pouco sentido. Há muito que não me liga a ele e menos ainda o fim.
- História de um caracol que descobriu a importância da lentidão, de Luís Sepúlveda - Opinião
A segurança e a beleza da fábula em tom infantil e inocente. Há magia.
- "Firmin" de Sam Savage - Opinião
Um, dois, três. Três delícias, três monólogos hilariantes pela autoria de Sam Savage, Mas nada bate "O Grito da Preguiça"
- "Victoria" de Knut Hamsun - Opinião
Entender os clássicos ou compreender o impacto que têm na literatura!? Vou aguardar Fome para me apaixonar por Hamsun, pois com este, apesar do amor, não aconteceu.
- "Intempérie" de Jesús Carrasco . Opinião
Nem sei bem que diga. Um enredo atordoado como o personagem. Houve algo que me confundiu neste romance que não me deixou rendida e não sei bem o que foi.
- "Sou Um Clandestino" de Susana Tamaro - Opinião
Voltar aos autores de juventude tem sempre um certo saudosismo, tal como este clandestino. Uma excelente metáfora para a duplicidade da vida.
- "Livro sem ninguém" - Opinião
Livro sem ninguém... um livro cheio de rastos de gente! Mas falta muito para ter de tudo ou conter o vazio. Conceito complexo.
50 páginas deliciosas, quase 100 de tédio.
- "A volta ao medo em 80 dias" - Opinião
Simples, tocante, com sentimentos e sem medo de os mostrar. Um relato do medo como motor de retenção de um povo.
- "Infravermelho" de Nancy Huston - Opinião
Um livro a repetir. Um guia para uma viagem às Tosca e uma introspecção feminista.
Ter ganho o prémio para o livro com a pior cena de sexo é em si hilariante e demonstra todo o sentido de humor que o livro espelha.
- "A casa de papel" um livro de culto! - Opinião
Um pequeno deleite para os leitores. Um guia para futuras leituras.
- "A mulher de verde" de Arnaldur Indridason - Opinião
A violência doméstica tratada com a frieza do clima nórdico. Um enredo que volta a trazer o estigma das crianças nascidas de relações consequentes da segunda grande guerra, como já antes fiquei desperta pelo relato em "A vida com alpendre de vidro cego." (opinião)
- "Perfumes", de Philippe Claudel - Opinião
Não há vez que agora faça pêras bêbadas que não me recorde das descrições da canela e de outros traços familiares. Há cheiros que acompanham a nossa vida. Há toda uma vida própria dos cheiros que nos acompanham.
- ROSA CANDIDA - Opinião
Os nórdicos andam com saldo negativo. São mais os que não me cativam na sua totalidade. Rosa Candida tem tanto para dar certo, mas há uma certa inocência e infantilidade nos gestos que desacreditam o livro.
- "Os Memoráveis" de Lídia Jorge - Opinião
Tal como já referi na crítica. Os Memoráveis são um hino. Uma ode, ao povo, à revolução, à força de uma geração.
- "O melhor lugar do mundo é aqui mesmo", Opinião
Para me recordar o quanto gosto de algumas singsongwrites. E para me despertar para haikus.
- "A Fenda", Doris Lessing - Opinião
A intrigante exploração de Doris Lessing pelo mundo da concepção sem homens. Estranho, intrigante, irritante e até certo ponto meio non sense. Não foi uma boa estreia com esta Nobel.
- "Principezinho põe a gravata" de Borja Vilaseca - Opinião
Porque todos crescemos, mas por vezes precisamos de um pouco de magia. Um enredo que roça (em muito) o inverossímil.
- "Os Transparentes", de Ondjaki - Opinião
Um livro. Uma música. Um quadro, um cenário. Ondjaki recria com palavras a Angola que imaginamos. Traz sonoridade, cheiro, dialecto, calor... o resto, são adereços.
"(...) desorientado por vocação, acordava cedo para ter mais tempo de não fazer nada."
- «Que importa a fúria do mar», de Ana Margarida de Carvalho - Opinião
O Tarrafal com uma história de amor... pergunta-nos: será o amor o pilar da nossa luta, da nossa resiliência?
- «Brincar com coisas sérias» - Opinião
De volta aos tempos de escola. Nada mais.
- A Rainha dos Sipaios, de Catherine Clément - Opinião
Da Índia com amor, mas não me encheu o peito. Continuo a preferir a história das religiões explicada a Theo.
- BOM CAMINHO, de Fausta Cardoso Pereira - Opinião
Não fui a Santiago, mas calcorreei o Caminho de Fátima desde a porta de casa ao Santuário. E compreender que o mundo por vezes se resume a um par de botas, conteúdo da mochila e quem connosco divide alegrias, dores e kms, é tudo o que de melhor há. É mágico.
- "Um piano para cavalos altos", de Sandro William Junqueira - Opinião
Uma estreia. Um formato totalmente inovador e desconhecido até agora. Um cenário frio e negro. Dividido.
Esperei o próximo para me prender e tal aconteceu. No Ceú não há limões foi um dos meus livros de 2014.
- "O Deserto dos Tártaros" de Dino Buzzati - Opinião
Uma chapada sem mão para revelar o quão desértica podem ser as nossas vidas. Um livro em que voltei a pensar várias vezes este ano. Um marco.
Haverá ainda "tempo para falar" de (mais) casos ocorridos durante a 2ª Grande Guerra?
É "tempo para falar" e reavivar o passado?
Onde reside a força para revelar tais memórias angustiantes e apavorantes?
- A Segunda Grande Guerra em literatura juvenil :: Editorial Presença - Opinião
Um excelente livro para ler em família. Aliás dois!
Juntar o filme "O rapaz do pijama às riscas."
- «A Caça» de James Patterson - Opinião
48h de leitura acelerada. Repetindo a dose do ano anterior. Patterson é sempre seguro.
*
75 bons exemplares de como praticar a Livroterapia!!
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terça-feira, 16 de dezembro de 2014
Pigtopia de Kitty Fitzgerald - Opinião
Pigtopia, pigologia, suinotopia.
A arte de compreender os porcos.
Num universo pigotópico, Jack, o anão (que é a primeira visualização que fazemos dele!), vive atarefado nas suas actividades porcinas, pleno de encantamento com a única família que tem, os porcos.
Num universo paralelo, naquele que será o da realidade do dia a dia, Holly, apega-se a Jack, como bóia de salvação do mundo que conhece e que lhe foge das mãos.
"(...) levo uma tristeza embrulhada na minha barriga, pesada como uma pedra (...)"
Numa amizade peculiar, dividida entre adorações suínas e problemas de parte a parte, os dois amigos orientam-se por aquilo que conhecem e dominam, Jack pela pedra-porco-relíquia e Holly pelas cartas de tarot. Ambos seguem tais orientações meio holísticas para ir resolvendo os problemas e deixam-se levar pela relação que vão mantendo, um com o outro, mas também com Freya e Peach (porcos!) Há no entanto uma relação, ou várias, que atrapalham a inocência e a magia desta relação.
"As coisas estão todas ligadas, a lua, a água, os porcos, a esperança, a Holly, eu, tudo num círculo redondo."
"Contacto visual voluntário é uma ousadia quando vem de um animal não apreciado como eu (...) Já a a minha sombra a pulsar no chão é suficiente para meter medo à maioria das pessoas."Buscam ambos um futuro mais risonho e menos sofrido, onde o calor de uma amizade verdadeira poderia dar-lhes o caminho para a verdadeira felicidade.
Até lá, o perigo e o medo espreitam nos cantos e tem o nome de Samantha, uma menina cujo as suas atitudes reflectem a sua dor, perspicazmente sentida pelo sexto sentido de Jack. Mas existem mais medos, aqueles que se escondem nos cantos da grande cabeça de porco de Jack Plum, fruto da insegurança e rejeição de que tem sido vítima. Na cabeça de Holly surgem outros medos, outros receios, o da juventude e da sexualidade que despertam, bem como o medo do abandono.
"Isto quer dizer que a Samantha é como uma roda de carroça, que perdeu uma parte da fixação, mas ninguém notou e em breve a carroça vai destruir-se completamente e provocar uma devastação."
Narrada a duas vozes, esta história mostra dois mundos com caminhos muito diferentes mas que se cruzam, que se completam. A escrita de Kitty Titzgerald é tão depressa doce como ácida. Existem momentos de puro deleite, vivências de uma amizade pura e desinteressada e momentos de tensão e horror... mas tudo descrito de forma cuidada e com recurso a uma linguagem porcina. As analogias, especialmente as de Jack são maravilhosas e enaltecem os porcos como animais inteligentes e com quem podemos aprender muito.
"E tenho a crença que possuir uma cauda para mostrar as emoções interiores é muito mais verdadeiro do que o sorriso das pessoas-porco."
Basicamente é um livro sobre a amizade, mas dizer só isso é redutor. É uma narrativa, no mínimo peculiar, de amor aos porcos, por alguém rejeitado e por alguém meio negligenciado... mete o dedo em temas como a monoparentalidade, a deficiência e a tolerância e até a dificuldade da inclusão escolar... dizer mais tiraria o efeito surpresa e até algum esgar perante certos momentos.
Definitivamente uma leitura diferente, intensa e que nos arrebata por completo.
*
Vejam mais do livro, aqui.
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Pigtopia
Não resisti...
a deixar aqui publicado.
umas palavras de:
o afinador de silêncios
“Eu nasci para estar calado. Minha única vocação é o silêncio. Foi meu pai que me explicou: tenho inclinação para não falar, um talento para apurar silêncios. Escrevo bem, silêncios, no plural. Sim, porque não há um único silêncio. E todo o silêncio é música em estado de gravidez.
Quando me viam, parado e recatado, no meu invisível recanto, eu não estava pasmado. Estava desempenhado, de alma e corpo ocupados: tecia os delicados fios com que se fabrica a quietude. Eu era um afinador de silêncios.”
Mia Couto
e
uma sonoridade que me acompanhou todo o dia...
umas palavras de:
o afinador de silêncios
“Eu nasci para estar calado. Minha única vocação é o silêncio. Foi meu pai que me explicou: tenho inclinação para não falar, um talento para apurar silêncios. Escrevo bem, silêncios, no plural. Sim, porque não há um único silêncio. E todo o silêncio é música em estado de gravidez.
Quando me viam, parado e recatado, no meu invisível recanto, eu não estava pasmado. Estava desempenhado, de alma e corpo ocupados: tecia os delicados fios com que se fabrica a quietude. Eu era um afinador de silêncios.”
Mia Couto
e
uma sonoridade que me acompanhou todo o dia...
Boa semana!
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quinta-feira, 11 de dezembro de 2014
Breviário das más inclinações, de José Riço Direitinho - Opinião
De meados da década de 90 chega-nos este Breviário das más inclinações, de José Riço Direitinho, reeditado em 2012 pela Quetzal e chegou-me pela mão de um amigo, a propósito da ruralidade e do voltar às origens enquanto falávamos do livro «Cornos da Fonte Fria» de Abel Neves.
Se a ruralidade do livro de Abel Neves tinha sido apreciada, também os eventos insólitos que caracterizam vidas um tanto surreais são do meu agrado, como foi o caso com a personagem Álvaro Cobra de Carlos Campaniço. Dentro deste género, o qual apelidam de realismo mágico, também já tinha lido alguns livros de Afonso Cruz que me despertaram para o género, bem como "O remorso de Baltazar Serapião" ou "O nosso reino" de Valter Hugo Mãe.
Isto para dizer que ter descoberto este livro foi como ter descoberto a fonte, a essência, o verdadeiro. Não digo isto apenas em função da escrita e da peculiaridade dos detalhes do realismo mágico, mas sim em função do personagem. Conhecer este alter ego de Riço Direitinho, como José de Risso foi sem dúvida o meu personagem favorito em relação a todos os outros dos títulos anteriores.
Há aqui uma mistura meio demente entre religião, paganismo, história local, enamoramento pela ruralidade e natureza e ainda todos os detalhes de cura pela terra, pelas raízes, como se todo o livro fosse um receituário... mesmo que de más inclinações.
Há também a necessidade de compilar todo um histórico, maioritariamente oral e quase ancestral, como que querendo manter vivas as tradições que com a celeridade dos tempos se vão perdendo entre gerações.
"(...) não acreditou que estivesse grávida, mas que a ausência do sangue se devesse a qualquer desarranjo, ou a ter olhado para dentro do forno enquanto o pão crescia."
Nascido no dia de São Bartolomeu, carregava o peso de uma marca de nascença que sangrava e fazia dele um condenado. A fama de José de Risso correu romarias, foi tão afortunado como desgraçado e toda a sua vida se resumiu no que projectou nas gentes da terra.
Nascera condenado, isso toda a gente sabia!
Vilarinho dos Loivos não esqueceria José de Risso. Entre abluções, rituais e superstições, as gentes da terra aprenderam a colocá-lo à margem, mas a chamá-lo quando era preciso...
"(...) fará mezinhas curadoras dos males do corpo e do juízo."
Por entre maleitas do corpo e do juízo, José de Risso luta para equilibrar as suas atitudes, ora beneméritas ora devastadoras.
"(...) um olhar matreiro e de más inclinações, a puxar o sentido para as porcarias."
Por entre algumas dessas "porcarias" e fraquezas da carne humana e outras actividades ilícitas, notamos a dualidade do personagem. O dom para salvar os outros, mas também como sentença para o mal e a errância no seu caminho.
"O resto foi fácil; a morte dos outros é-nos geralmente fácil quando nos são indiferentes. Até a nossa própria morte nos é fácil quando nos tornamos indiferentes a nós mesmos. É esse o nosso último passo: tornarmo-nos indiferentes à vida. Isso chega."
José Riço Direitinho merece todos os louvores por ter compilado este breviário com conhecimentos profundos que revelam os hábitos das gentes do campo, sem perder o polimento literário necessário de saber contar um boa história. Tem os detalhes adequados na hora certa e sem adensar demasiado a narrativa, mantendo assim o leitor agarrado pelos gorgomilos aspirando a saber o que acontece até ao padecimento final.
"- Há sangue que só traz desgraças à terra onde se derrama, há sangue que é de muito má natureza e esse todos dispensamos que se entorne e empape o pó da terra. (...) A demência é uma grande virtude, mas nunca se deve usar em demasia..."
Arrisco-me a dizer que todos deviam ler esta preciosidade, repleta de cheiros, folhas, paisagens, tradições, gentes, palavras... tanto mais. Deixem-se embrenhar.
Se a ruralidade do livro de Abel Neves tinha sido apreciada, também os eventos insólitos que caracterizam vidas um tanto surreais são do meu agrado, como foi o caso com a personagem Álvaro Cobra de Carlos Campaniço. Dentro deste género, o qual apelidam de realismo mágico, também já tinha lido alguns livros de Afonso Cruz que me despertaram para o género, bem como "O remorso de Baltazar Serapião" ou "O nosso reino" de Valter Hugo Mãe.
Isto para dizer que ter descoberto este livro foi como ter descoberto a fonte, a essência, o verdadeiro. Não digo isto apenas em função da escrita e da peculiaridade dos detalhes do realismo mágico, mas sim em função do personagem. Conhecer este alter ego de Riço Direitinho, como José de Risso foi sem dúvida o meu personagem favorito em relação a todos os outros dos títulos anteriores.
Há aqui uma mistura meio demente entre religião, paganismo, história local, enamoramento pela ruralidade e natureza e ainda todos os detalhes de cura pela terra, pelas raízes, como se todo o livro fosse um receituário... mesmo que de más inclinações.
Há também a necessidade de compilar todo um histórico, maioritariamente oral e quase ancestral, como que querendo manter vivas as tradições que com a celeridade dos tempos se vão perdendo entre gerações.
"(...) não acreditou que estivesse grávida, mas que a ausência do sangue se devesse a qualquer desarranjo, ou a ter olhado para dentro do forno enquanto o pão crescia."
Nascido no dia de São Bartolomeu, carregava o peso de uma marca de nascença que sangrava e fazia dele um condenado. A fama de José de Risso correu romarias, foi tão afortunado como desgraçado e toda a sua vida se resumiu no que projectou nas gentes da terra.
Nascera condenado, isso toda a gente sabia!
Vilarinho dos Loivos não esqueceria José de Risso. Entre abluções, rituais e superstições, as gentes da terra aprenderam a colocá-lo à margem, mas a chamá-lo quando era preciso...
"(...) fará mezinhas curadoras dos males do corpo e do juízo."
Por entre maleitas do corpo e do juízo, José de Risso luta para equilibrar as suas atitudes, ora beneméritas ora devastadoras.
"(...) um olhar matreiro e de más inclinações, a puxar o sentido para as porcarias."
Por entre algumas dessas "porcarias" e fraquezas da carne humana e outras actividades ilícitas, notamos a dualidade do personagem. O dom para salvar os outros, mas também como sentença para o mal e a errância no seu caminho.
"O resto foi fácil; a morte dos outros é-nos geralmente fácil quando nos são indiferentes. Até a nossa própria morte nos é fácil quando nos tornamos indiferentes a nós mesmos. É esse o nosso último passo: tornarmo-nos indiferentes à vida. Isso chega."
José Riço Direitinho merece todos os louvores por ter compilado este breviário com conhecimentos profundos que revelam os hábitos das gentes do campo, sem perder o polimento literário necessário de saber contar um boa história. Tem os detalhes adequados na hora certa e sem adensar demasiado a narrativa, mantendo assim o leitor agarrado pelos gorgomilos aspirando a saber o que acontece até ao padecimento final.
"- Há sangue que só traz desgraças à terra onde se derrama, há sangue que é de muito má natureza e esse todos dispensamos que se entorne e empape o pó da terra. (...) A demência é uma grande virtude, mas nunca se deve usar em demasia..."
Arrisco-me a dizer que todos deviam ler esta preciosidade, repleta de cheiros, folhas, paisagens, tradições, gentes, palavras... tanto mais. Deixem-se embrenhar.
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terça-feira, 9 de dezembro de 2014
"Tenho o direito de me destruir", de Kim Young-ha - Opinião
... a esquizofrenia de querer ser um Deus!
É assim que interpreto este romance de estreia de Kim Young-ha. Se "só há duas maneiras de ser um deus: através da criação ou do assassínio." Kim, K. ou C. e o narrador/autor conseguem-no através de uma esquizofrenia ou de uma bipolaridade artística, conseguida através das páginas insólitas deste romance que mistura diversas formas de arte, desde a pintura, à música, às performances mais vanguardistas e a cenas de sexo, no mínimo curiosas.
Desde o olhar que se perde no quadro A Morte de Marat de Jacques-Louis David até à sonoridade única de Everybody knows de Leonard Cohen, o relato é envolto em enigmas e em episódios insólitos que parecem despegados uns dos outros, mas ainda assim não é um livro que pratique tanto o desapego como esperava que aí incidisse. Procurava um livro cru e sem qualquer tipo de remorso ao descrever formas de "angariar" clientes para suicídios por encomenda, de preferência donos de uma performance macabra e digna de registo por palavras e imagens. Mas não é nada disso que aqui se encontra.
O narrador, no seu caminho sereno e controlado, estuda meticulosamente as estratégias para encontrar as potenciais vítimas de suicídio, donas de vidas inutilmente prolongadas...
"Quem não conhece a beleza da simplificação, da supressão do que é necessário, morre sem chegar a conhecer o verdadeiro sentido da vida."
"Será pecado
Precipitarmo-nos para a casa secreta da morte
Antes que a morte ouse vir buscar-nos?
Nas palavras de Shakespeare julgo termos a chave para o incidente que mais à frente revela a problemática entre irmãos gémeos. A competição entre eles é enorme e sã vidas que seguem caminhos opostos, se bem que um abdica sempre em detrimento do outro. O que me deixou a pensar: será que existem mesmo dois? Ou será um traço de bipolaridade no personagem que perante a fraqueza age, despegado de si, e tem actos que o aproximam de deus!?
Será que K. e C. são um só e que as mulheres que vão surgindo, tal qual Judites de Klimt são sempre a busca por um modelo, uma aspiração, uma ilusão!? A procura de uma perfeição artística que completa o clímax da obra em que o suicídio se tornaria!?
Julgo que há neste romance contornos de um enorme transtorno do personagem que questiona constantemente o sentido da vida, balançando entre tradição da cultura oriental, subvertida às novidades e influências ocidentais, gerando uma crise de valores que se espalha a todos os sentidos da vida. É nessa busca por sentido que o narrador expõe o suicídio como solução. Encenando-o como forma de abrilhantar a vida, encenando uma realidade.
"Às vezes, é mais fácil compreender a ficção do que os acontecimentos reais. A realidade é muitas vezes patética. Aprendi muito cedo que , para marcar uma posição, o mais fácil é inventar uma história. (...) o mundo está cheio de ficção."
No entanto, não é nenhuma ficção a taxa de suicídio ou a realidade do direito de pôr fim à vida. Talvez sejam essas ideias que marcam posição no final desta leitura. Ou então as inúmeras referências que só me fizeram lembrar de mais. Aliás, desde o início que quis rever a exposição de Vik Muniz, na sua interpretação muito própria, de Marat.
![]() |
| A Morte de Marat, por Jacques-Louis David e por VikMuniz |
A ligação à pintura, ao acto de criação de algo como forma de quebrar o medo, talvez o medo do vazio, da ausência de ideias com que se defrontar... a tal parede branca (pp.104)... aqui em conjugação com o aproveitamento do lixo, num confronto com o desperdício da sociedade ocidentalizada... dá que pensar. Especialmente quando C. e Mimi se debatem com a ideia: "Mas a arte não é sempre um filtro da realidade?"
E qual será a realidade de C.? A mesma de Sardanapalo!? Um espectador e um executor.
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| Delacroix, A Morte de Sardanapalo - Louvre, Paris |
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sexta-feira, 5 de dezembro de 2014
A Vida Peculiar de um Carteiro Solitário, de Denis Thériault - Opinião
Conhecer um carteiro que adoça os seus dias com as palavras alheias e apimenta a sua vida com os dissabores das vidas dos demais não deve ser uma novidade. No entanto, este pequeno livro traz originalidade na escrita com que brinda o leitor e na paixão que espelha pela tradição japonesa.
"Ouviu-se um repentino estalar de trovão, como se uma colossal embalagem de batatas fritas se tivesse rasgado mesmo por cima da sua cabeça, e o céu abriu-se."
Abriu-se:
"Rodando como
água contra as rochas,
o tempo gira."
Gira e desabrocha num orgasmo poético, recheado de cenários minimalistas e poesia nipónica. Do haiku ao tanka, num romance renku entre Bilodo e Ségolène.
Um livro mágico, meio surreal e onírico que encaminha o leitor à paixão pela cultura e tradição japonesa. Uma prosa poética que se perde no tempo e na razão e nos leva a travessar fronteiras. Acreditar depende do quanto o leitor se rende à escrita de Denis Thériault, essa sim, peculiar.
Julgo que todo este romance tem por enredo a palavra, a forma poética, a sonoridade, talvez mais isso que o próprio romance em si.
A vida em tom monocórdico e rotineira que Bilodo levava é completamente arrancada pela mesma enxurrada que leva a de Grandpré e é a partir daí que o imaginário ganha mais vida.
Nesta arte de se apaixonar por haikus, o autor traz-nos, por exemplo, detalhes da ilha de Guadalupe e das suas iguarias, descritas de forma a que o leitor saboreie e as imagine e creio que todo o leitor se sente tentado a escrever os seus próprios haikus.
A verosimilhança ou a lógica não interessam avaliar neste romance platónico. Interessa sim, o encantamento pela palavra e pela simplicidade, julgo que é aí que reside a beleza deste romance. Há também um desafio imposto pela barreira cultural de ver em tão parcas palavras, criatividade, tradição, equilíbrio, essência e até espiritualidade.
No final da leitura, fica a curiosidade pelo conceito de ensö, como símbolo zen de excelência, um círculo de encontro cósmico e de meditação... numa continuidade da vida.
A influência dos cenários mais
"Ouviu-se um repentino estalar de trovão, como se uma colossal embalagem de batatas fritas se tivesse rasgado mesmo por cima da sua cabeça, e o céu abriu-se."
Abriu-se:
"Rodando como
água contra as rochas,
o tempo gira."
Gira e desabrocha num orgasmo poético, recheado de cenários minimalistas e poesia nipónica. Do haiku ao tanka, num romance renku entre Bilodo e Ségolène.
Um livro mágico, meio surreal e onírico que encaminha o leitor à paixão pela cultura e tradição japonesa. Uma prosa poética que se perde no tempo e na razão e nos leva a travessar fronteiras. Acreditar depende do quanto o leitor se rende à escrita de Denis Thériault, essa sim, peculiar.
Julgo que todo este romance tem por enredo a palavra, a forma poética, a sonoridade, talvez mais isso que o próprio romance em si.
A vida em tom monocórdico e rotineira que Bilodo levava é completamente arrancada pela mesma enxurrada que leva a de Grandpré e é a partir daí que o imaginário ganha mais vida.
Nesta arte de se apaixonar por haikus, o autor traz-nos, por exemplo, detalhes da ilha de Guadalupe e das suas iguarias, descritas de forma a que o leitor saboreie e as imagine e creio que todo o leitor se sente tentado a escrever os seus próprios haikus.
A verosimilhança ou a lógica não interessam avaliar neste romance platónico. Interessa sim, o encantamento pela palavra e pela simplicidade, julgo que é aí que reside a beleza deste romance. Há também um desafio imposto pela barreira cultural de ver em tão parcas palavras, criatividade, tradição, equilíbrio, essência e até espiritualidade.
No final da leitura, fica a curiosidade pelo conceito de ensö, como símbolo zen de excelência, um círculo de encontro cósmico e de meditação... numa continuidade da vida.
A influência dos cenários mais
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quinta-feira, 4 de dezembro de 2014
A peregrinação do rapaz sem cor, de Haruki Murakami - Opinião
A minha relação com os livros de Haruki Murakami não tem seguido uma linha recta e ininterrupta, antes pelo contrário. As leituras e a interpretação que faço dos seus livros, personagens e enredos, levaram-me a querer conhecê-lo melhor, especialmente quando tomei conhecimento de que era corredor de ultra maratonas. Na época pensei: como é que alguém tão disciplinado e persistente se revela um autor entregue a tanta divagação e peripécias fantasiadas e oníricas!? A dúvida persistiu e isso fez-me intercalar muitos dos seus livros com outros e, até certa parte, (quase!) desistir de lê-lo. Isto porque os contos de Murakami deixam-me sempre na dúvida... por isso, parei e não o tenho lido quase nada.
Curiosamente foi com "Sono" que despertei novamente para Murakami. Talvez por esse conto me ter deixado num limbo de tédio inquietante. Fiquei mentalmente fatigada por tanta ideia repetida, mas igualmente disposta a escrutiná-lo até à exaustão e ligá-lo a considerações sobre mim mesma.
Por isso, assim que surgiram as primeiras impressões sobre este novo "A Peregrinação do rapaz sem cor", senti-me tentada a ficar sob o efeito... a deixar-me ficar murakamizada.
E fiquei! A vontade de prosseguir ou retomar leituras de Murakami voltou, não talvez aos seus enredos mais fantasiados e oníricos, mas aqueles que esmiúçam e propagam no território da introspecção, elevando-nos o pensamento, sobre nós e os outros.
Os detalhes da escrita redundante e até difusa estão lá e alguns desvarios e persistência na melancolia e uma certa depressão também, porém há uma aura mais romântica, ainda assim fria e distante, que envolvem o personagem, tornando-o menos bipolar que outras personagens de Murakami.
Tsukuro Tasaki sofreu com o abandono por parte dos amigos, uma solidão exacerbada e violenta, auto-infligida e mantida, como se o próprio Tasaki decidisse, no isolamento, a punição pelos seus pecados. Pormenor interessante foi deixar-se ficar, anos e anos, sem saber o porquê desse isolamento. O que levanta uma questão curiosa: ficaríamos nós tantos anos nessa inquietude?
Há um permanente desassossego nas personagens de Murakami e talvez, através da reduzida celeridade imposta pelas descrições do autor, nos vamos alimentando dos cenários mentais criados para a inquietude do personagem, levando o leitor a simpatizar com ele e em certa parte, compreendê-lo, aceitá-lo e seguir com ele esta jornada menos colorida.
Ardilosamente, Murakami constrói Tsukuru Tasaki, um fazedor de coisas, aparentemente sem cor, no entanto, há uma certa transparência reparadora nas atitudes de Tsukuro, conseguindo apaziguar e envolver quem com ele se cruza.
Claro que a forma inebriante e encantatória do sonho se mistura na interpretação da realidade e isso faz-nos ter algumas reservas sobre o personagem. Ainda assim, a forma pragmática e até inocente de reservar os problemas para mais tarde... nas gavetinhas da mente... dão uma ideia muito interessante da forma como talvez o autor deseja que o leitor veja o personagem.
Existe sempre uma infantilidade genuína que o acompanha, mesmo assim é uma ternura moderada que facilmente abandona o livro quando Murakami instruí o leitor sobre estações, música clássica, ou detalhes culturais ou tradicionais do Japão... o que também é hábito nos livros do autor. Neste levou-me até um cenário que apreciei bastante. E levou-me a compreender que os romances de Murakami estão pejados de tumbleweeds, alimentando a nostalgia e a melancolia que nos fazem por vezes regressar a certas estações da vida.
Com a sonoridade de "Le mal du pays" e as tumbleweeds de fundo, Murakami encaminha-nos na peregrinação sensorial, musical e tanto mais da vida de Tsukuro Tasaki. No reencontro com Haida, Sara, Shiro, Kuro, Ao e Aka, Tsukuro pára e avança e encontra as várias estações da sua vida.
Curiosamente foi com "Sono" que despertei novamente para Murakami. Talvez por esse conto me ter deixado num limbo de tédio inquietante. Fiquei mentalmente fatigada por tanta ideia repetida, mas igualmente disposta a escrutiná-lo até à exaustão e ligá-lo a considerações sobre mim mesma.
Por isso, assim que surgiram as primeiras impressões sobre este novo "A Peregrinação do rapaz sem cor", senti-me tentada a ficar sob o efeito... a deixar-me ficar murakamizada.
E fiquei! A vontade de prosseguir ou retomar leituras de Murakami voltou, não talvez aos seus enredos mais fantasiados e oníricos, mas aqueles que esmiúçam e propagam no território da introspecção, elevando-nos o pensamento, sobre nós e os outros.
Tsukuro Tasaki sofreu com o abandono por parte dos amigos, uma solidão exacerbada e violenta, auto-infligida e mantida, como se o próprio Tasaki decidisse, no isolamento, a punição pelos seus pecados. Pormenor interessante foi deixar-se ficar, anos e anos, sem saber o porquê desse isolamento. O que levanta uma questão curiosa: ficaríamos nós tantos anos nessa inquietude?
Há um permanente desassossego nas personagens de Murakami e talvez, através da reduzida celeridade imposta pelas descrições do autor, nos vamos alimentando dos cenários mentais criados para a inquietude do personagem, levando o leitor a simpatizar com ele e em certa parte, compreendê-lo, aceitá-lo e seguir com ele esta jornada menos colorida.
"O coração humano é como um pássaro nocturno. Espera por qualquer coisa em silêncio
e, (...) levanta voo e vai direito a ela." (pp.258)
Ardilosamente, Murakami constrói Tsukuru Tasaki, um fazedor de coisas, aparentemente sem cor, no entanto, há uma certa transparência reparadora nas atitudes de Tsukuro, conseguindo apaziguar e envolver quem com ele se cruza.
Claro que a forma inebriante e encantatória do sonho se mistura na interpretação da realidade e isso faz-nos ter algumas reservas sobre o personagem. Ainda assim, a forma pragmática e até inocente de reservar os problemas para mais tarde... nas gavetinhas da mente... dão uma ideia muito interessante da forma como talvez o autor deseja que o leitor veja o personagem.
Existe sempre uma infantilidade genuína que o acompanha, mesmo assim é uma ternura moderada que facilmente abandona o livro quando Murakami instruí o leitor sobre estações, música clássica, ou detalhes culturais ou tradicionais do Japão... o que também é hábito nos livros do autor. Neste levou-me até um cenário que apreciei bastante. E levou-me a compreender que os romances de Murakami estão pejados de tumbleweeds, alimentando a nostalgia e a melancolia que nos fazem por vezes regressar a certas estações da vida.
Com a sonoridade de "Le mal du pays" e as tumbleweeds de fundo, Murakami encaminha-nos na peregrinação sensorial, musical e tanto mais da vida de Tsukuro Tasaki. No reencontro com Haida, Sara, Shiro, Kuro, Ao e Aka, Tsukuro pára e avança e encontra as várias estações da sua vida.
"As nossas vidas são uma partitura complexa (...) interpretá-la correctamente revela-se uma tarefa árdua e, mesmo que se consiga fazê-lo e produzir os sons correctos, não significa forçosamente que as pessoas captem e compreendam o sentido implícito." (pp.335)
*
"- É muito simples. Se não houvesse estações, os comboios não paravam."
Uma leitura com o apoio Casa das Letras/Leya.
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segunda-feira, 1 de dezembro de 2014
STONER de John Williams - Opinião
Começarei por um detalhe, um a que cada vez dou mais importância, por cada vez desconfiar mais ;) a capa!
A multiplicidade de capas que encontramos para esta obra de John Williams, revelam um cuidado extremo, quem as seleccionou, reuniu nelas a singularidade, a autenticidade, a persistência e a tenacidade que o próprio autor deu à sua personagem. William Stoner é um exemplo de resiliência, a sua força é profunda e talvez seja por aí que nos agarramos e nos deixamos levar, até que nos confrontamos com o fim e prestamos-lhe um certo culto.
Apesar de logo ao início toda a história apontar para Stoner como um homem que morreu sem deixar grande marca ou sem ser recordado com grande nitidez, julgo que ele causa exactamente o oposto no leitor. Ao lê-lo recordei algumas ideias e imagens que me assaltaram aquando da leitura de "O Deserto dos Tártaros" de Dino Buzzati. Há também aqui um certo deserto, talvez não tão permanente, mas a mesma falta de apego, de relações interpessoais, de objectivos subvertidos... mas por outro lado, há como que o encarar da vida como uma peregrinação singular, sem atalhos para voltar atrás, sem lugar a arrependimentos (que existirão, é certo!). Há um olhar a vida juntamente com os seus obstáculos, aqueles que podemos contornar e deixar pendentes e aquelas que nos surpreendem e que queremos mesmo galgar, ignorando a dificuldade, esperançosos apenas do que haverá do lado de lá.
Não sei se sou bem sucedida com a metáfora que escolhi, mas interpretar a mensagem nas entrelinhas de Stoner, foi para mim tão pessoal quanto o ensinamento que podemos retirar da mensagem de Buzzati. Para mim, ambos grandes livros, como mensagens duras que revelaram também muito do entendimento dos autores para a vida, a deles e a dos demais. Não digo que quem lê um tenha, obrigatoriamente de ler o outro, mas eu liguei-os muito.
Ultrapassando a introspecção a que o livro me levou, o autor é exímio em também nos fazer sentir um maior carinho pelos livros e pela literatura. Stoner teria nos seus livros uma maior herança do que aquela que a vida que escolheu lhe deixaria. A prisão de um casamento, o afastamento da filha, a perda de entusiasmo, a doença, a falta de amigos, tudo deixou a sua nódoa, a sua cicatriz, mas perder as suas capacidades ou lutar contra o esquecimento era uma ferida demasiado grande.
Todo este livro um culto à literatura. É o poder redentor da paixão pelos livros, pela educação, pelo passar da palavra, da mensagem e das transformações que operam nas pessoas. Há uma amizade e uma paixão criadas através do gosto e do prazer que se tem pelos livros. É assim (inicialmente) com a filha e com alunos, mas também com alguém muito especial que nos faz ter um olhar inovador e quase desenfreado para este personagem até então, tão espartano e até melancólico.
Neste relato muito lúcido e até despojado, vemos, a certo ponto, o desfiladeiro, o abismo, a prova derradeira que a tal peregrinação terá de atravessar e aí lembrei-me de "Um Homem Singular", do quanto torci pelo personagem... nós sabemos que não vai dar certo, que existem obstáculos que causam sofrimentos atrozes e incuráveis, mas admiramos tanto a honestidade do personagem que queremos que ele vença.
Os livros não o acompanharam toda vida, mas a maior parte dela e ainda assim houve solidão, uma solidão que alimentou fragilidades, angústias e desamor, mas também foi essa solidão que lhe abriu portas à tolerância e a uma certa ingenuidade, mascarando o lugar frio que é mundo é, permitindo-lhe a paixão e a livre vontade do pensamento.
Leia mais sobre o livro aqui no site da Leya.
A multiplicidade de capas que encontramos para esta obra de John Williams, revelam um cuidado extremo, quem as seleccionou, reuniu nelas a singularidade, a autenticidade, a persistência e a tenacidade que o próprio autor deu à sua personagem. William Stoner é um exemplo de resiliência, a sua força é profunda e talvez seja por aí que nos agarramos e nos deixamos levar, até que nos confrontamos com o fim e prestamos-lhe um certo culto.
Apesar de logo ao início toda a história apontar para Stoner como um homem que morreu sem deixar grande marca ou sem ser recordado com grande nitidez, julgo que ele causa exactamente o oposto no leitor. Ao lê-lo recordei algumas ideias e imagens que me assaltaram aquando da leitura de "O Deserto dos Tártaros" de Dino Buzzati. Há também aqui um certo deserto, talvez não tão permanente, mas a mesma falta de apego, de relações interpessoais, de objectivos subvertidos... mas por outro lado, há como que o encarar da vida como uma peregrinação singular, sem atalhos para voltar atrás, sem lugar a arrependimentos (que existirão, é certo!). Há um olhar a vida juntamente com os seus obstáculos, aqueles que podemos contornar e deixar pendentes e aquelas que nos surpreendem e que queremos mesmo galgar, ignorando a dificuldade, esperançosos apenas do que haverá do lado de lá.
Não sei se sou bem sucedida com a metáfora que escolhi, mas interpretar a mensagem nas entrelinhas de Stoner, foi para mim tão pessoal quanto o ensinamento que podemos retirar da mensagem de Buzzati. Para mim, ambos grandes livros, como mensagens duras que revelaram também muito do entendimento dos autores para a vida, a deles e a dos demais. Não digo que quem lê um tenha, obrigatoriamente de ler o outro, mas eu liguei-os muito.
Ultrapassando a introspecção a que o livro me levou, o autor é exímio em também nos fazer sentir um maior carinho pelos livros e pela literatura. Stoner teria nos seus livros uma maior herança do que aquela que a vida que escolheu lhe deixaria. A prisão de um casamento, o afastamento da filha, a perda de entusiasmo, a doença, a falta de amigos, tudo deixou a sua nódoa, a sua cicatriz, mas perder as suas capacidades ou lutar contra o esquecimento era uma ferida demasiado grande.
“Por vezes, imerso nos seus livros, tomava consciência de tudo o que não sabia, que não lera, e a serenidade à qual aspirava estilhaçava-se, quando percebia o pouco tempo de que dispunha na vida para ler tanta coisa, para aprender o que queria.”
Todo este livro um culto à literatura. É o poder redentor da paixão pelos livros, pela educação, pelo passar da palavra, da mensagem e das transformações que operam nas pessoas. Há uma amizade e uma paixão criadas através do gosto e do prazer que se tem pelos livros. É assim (inicialmente) com a filha e com alunos, mas também com alguém muito especial que nos faz ter um olhar inovador e quase desenfreado para este personagem até então, tão espartano e até melancólico.
Neste relato muito lúcido e até despojado, vemos, a certo ponto, o desfiladeiro, o abismo, a prova derradeira que a tal peregrinação terá de atravessar e aí lembrei-me de "Um Homem Singular", do quanto torci pelo personagem... nós sabemos que não vai dar certo, que existem obstáculos que causam sofrimentos atrozes e incuráveis, mas admiramos tanto a honestidade do personagem que queremos que ele vença.
Os livros não o acompanharam toda vida, mas a maior parte dela e ainda assim houve solidão, uma solidão que alimentou fragilidades, angústias e desamor, mas também foi essa solidão que lhe abriu portas à tolerância e a uma certa ingenuidade, mascarando o lugar frio que é mundo é, permitindo-lhe a paixão e a livre vontade do pensamento.
Leia mais sobre o livro aqui no site da Leya.
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quarta-feira, 26 de novembro de 2014
UM, DÓ, LI, TÁ... de M. J. Arlidge
Arlidge brinda-nos com o verdadeiro page turner "recheado de farrapos humanos traumatizados e balbuciantes". A descrição não é minha, está no livro numa altura em que já não há esperança para quase nenhum dos personagens e é uma forma muito acertada de caracterizar e resumir este thriller, sem ser de modo algum redutora ou sensacionalista.
M. J. Arlidge criou um relato arrepiante!
Só pelo título fez-me lembrar mais do que um dos episódios da temporada 8 de Mentes Criminosas, mas a sua leitura ligou-me a imagens ainda mais imponentes. A escrita de Arlidge consegue transportar-nos a locais tenebrosos, negros, fétidos, marcantes... miseráveis. Sem dúvida que em "UM, DÓ, LI, TÁ" o autor e produtor de séries televisivas terá uma potencial saga de culto para os fãs do género. Por isso, venha em livro ou em episódios, serão todos bem vindos, os novos desenvolvimentos e investigações de Helen Grace, Charlie e quem sabe Jake.
"Um vive e um morre. Não há outra sorte." funciona como um slogan sádico, uma promessa, um teaser para o fim de duas vidas, e não só! A solução de uma mente perturbada para pôr fim ao seu sofrimento, causando ainda mais sofrimento, punição, angústia e morte, nunca sem antes revelar muita miséria humana.
O enredo e o motivo são bem construídos e igualmente bem desconstruídos, integrando muito bem o leitor dentro da investigação. A vontade de ler é imparável. Os capítulos curtos e os relatos dos cativeiros são um acelerador propositado para o leitor se envolver. Dos detalhes sórdidos aos episódios mórbidos, o livro tem parágrafos estruturados para nos fazer tremer. A velocidade com que Arlidge muda de cena e de personagem mantêm a atenção no máximo, no entanto, não há aqui show forense, nem especulação desnecessária ou stress burocrático e altas patentes ... não, aqui há cenas arrebatadoras, sem medo de chocar.
"Dois reféns, uma bala. Sacrificaria a sua vida pela de outra pessoa?"
E realmente é de sacrifício que aqui se fala. Sacrifício e sobrevivência, mas tal como comecei, os farrapos humanos que restam, que sobram, chegam-nos desumanizados, brutalizados... e depois disto que vida resta? Sacrificar o outro é salvar quem sobra? Ou quem sobrevive já lhe resta pouco a que possa chamar de vida? São questões interessantes, a especular não só aplicando o caso de crimes e violência frutos do acaso, mas também fruto do abuso familiar ou em larga escala de uma guerra, por exemplo.
"UM, DÓ, LI, TÁ" foi uma leitura imparável, mas ainda assim detalhada e interligada (ao Criminal Minds!).
Em resumo, Arlidge é meticuloso, organizado, sem rodeios, promove um thriller frio e cinzento, como um dia típico londrino... mas aqui não há lugar a chá das cinco... a delicadeza e a etiqueta são coisas que já não se usam.
Uma leitura obrigatória para arrebatar as leituras de policias de 2014 e dizer: este foi o meu favorito!
Uma leitura com o apoio TOPSELLER, leia mais aqui.
M. J. Arlidge criou um relato arrepiante!
Só pelo título fez-me lembrar mais do que um dos episódios da temporada 8 de Mentes Criminosas, mas a sua leitura ligou-me a imagens ainda mais imponentes. A escrita de Arlidge consegue transportar-nos a locais tenebrosos, negros, fétidos, marcantes... miseráveis. Sem dúvida que em "UM, DÓ, LI, TÁ" o autor e produtor de séries televisivas terá uma potencial saga de culto para os fãs do género. Por isso, venha em livro ou em episódios, serão todos bem vindos, os novos desenvolvimentos e investigações de Helen Grace, Charlie e quem sabe Jake.
"Um vive e um morre. Não há outra sorte." funciona como um slogan sádico, uma promessa, um teaser para o fim de duas vidas, e não só! A solução de uma mente perturbada para pôr fim ao seu sofrimento, causando ainda mais sofrimento, punição, angústia e morte, nunca sem antes revelar muita miséria humana.
O enredo e o motivo são bem construídos e igualmente bem desconstruídos, integrando muito bem o leitor dentro da investigação. A vontade de ler é imparável. Os capítulos curtos e os relatos dos cativeiros são um acelerador propositado para o leitor se envolver. Dos detalhes sórdidos aos episódios mórbidos, o livro tem parágrafos estruturados para nos fazer tremer. A velocidade com que Arlidge muda de cena e de personagem mantêm a atenção no máximo, no entanto, não há aqui show forense, nem especulação desnecessária ou stress burocrático e altas patentes ... não, aqui há cenas arrebatadoras, sem medo de chocar.
"Dois reféns, uma bala. Sacrificaria a sua vida pela de outra pessoa?"
E realmente é de sacrifício que aqui se fala. Sacrifício e sobrevivência, mas tal como comecei, os farrapos humanos que restam, que sobram, chegam-nos desumanizados, brutalizados... e depois disto que vida resta? Sacrificar o outro é salvar quem sobra? Ou quem sobrevive já lhe resta pouco a que possa chamar de vida? São questões interessantes, a especular não só aplicando o caso de crimes e violência frutos do acaso, mas também fruto do abuso familiar ou em larga escala de uma guerra, por exemplo.
"UM, DÓ, LI, TÁ" foi uma leitura imparável, mas ainda assim detalhada e interligada (ao Criminal Minds!).
Em resumo, Arlidge é meticuloso, organizado, sem rodeios, promove um thriller frio e cinzento, como um dia típico londrino... mas aqui não há lugar a chá das cinco... a delicadeza e a etiqueta são coisas que já não se usam.
Uma leitura obrigatória para arrebatar as leituras de policias de 2014 e dizer: este foi o meu favorito!
Uma leitura com o apoio TOPSELLER, leia mais aqui.
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quinta-feira, 20 de novembro de 2014
"dizem que sebastião" de João Rebocho Pais - Opinião
Nada zarolho este romance peculiar de João Rebocho Pais!
Homem que, tudo tendo, nada tem,
Que vida e gentes suas quase ignora,
Perde-se do caminho a quem quer bem,
Cavalgando num galope que o devora;
E quando vê o passado que lá vem
Morto descobre o sentir de tanta hora
E, olhando incréu o vazio assim nascido
Chora triste o seu mundo desaparecido.
É talvez a passagem deste livro que mais sentido faz na história de vida de Sebastião.
"dizem que sebastião" é um enredo em formato de remédio. É um livro terapêutico por assim dizer.
Se o enredo funcionar bem, tornar-se-á naqueles comprimidos de pequenas doses, mas aos quais se fica agarrado a vida toda. Talvez seja essa a cura de Sebastião, ficar agarrado à Literatura e aos autores portugueses o resto dos seus dias. E quem sabe a Margarida...
Largado num jantar sem sobremesa, é Margarida que dispara, sem saber, o golpe mais forte e inesperado no coração deste homem de negócios que, após um susto, parte em descoberta dos grandes clássicos da Literatura Portuguesa. Fora de portas, entre livros e bancos de jardim, tendo por companhia frias pedras com marcas intemporais, Sebastião descobre toda uma outra forma de organizar o teu tempo. De uma forma mais boémia e descontraída, sente a mensagem metafórica que a vida lhe está a transmitir. Aceita até uma certa nudez para encarar o dia a dia e conquistar (de vez!) a vida!!!
"(...)
De tudo o que foi, que é,
E na erma vida só vê
O raio da vaga esp'rança"
Para além de um guia para uma visita a estátuas célebres em Lisboa, este livro de Rebocho Pais é também um hino à Literatura Portuguesa. Apesar de uma história de amor, julgo que o amor maior é mesmo à palavra, à língua, ao testemunho escrito que fica e passa pelo tempo.
Há também neste livro uma curiosa forma de jogar com os nomes dos personagens, como se o surgimento dessas pessoas, com determinados nomes, fosse só por si um contributo para a sua cura, como o Dr. Boavida ou o livreiro Simplício...
É hilariante a forma como começa esta aventura literária. É francamente de gargalhar nas primeiras páginas e sempre que Sebastião analisa e critica a sociedade que o envolve. Que nos envolve, já que Sebastião é uma excelente metáfora para muitos.
O desaire amoroso e até de carácter pessoal resolvido através das letras é genuíno, mas parece-me um pouco ingénua a forma como o personagem segue com a sua história de vida. Parece simples demais.
De salientar a forma intrincada, cuidada e quase camaleónica com que o autor escreve, o que dá outro brilho ao livro, é como se o texto fosse acompanhando toda a mudança do personagem.
João Rebocho Pais é um dos autores do Colectivo Nau, que já referi e destaquei no Efeito dos Livros. Vejam mais do grupo aqui: http://colectivonau.blogspot.pt/
Homem que, tudo tendo, nada tem,
Que vida e gentes suas quase ignora,
Perde-se do caminho a quem quer bem,
Cavalgando num galope que o devora;
E quando vê o passado que lá vem
Morto descobre o sentir de tanta hora
E, olhando incréu o vazio assim nascido
Chora triste o seu mundo desaparecido.
É talvez a passagem deste livro que mais sentido faz na história de vida de Sebastião.
"dizem que sebastião" é um enredo em formato de remédio. É um livro terapêutico por assim dizer.
Se o enredo funcionar bem, tornar-se-á naqueles comprimidos de pequenas doses, mas aos quais se fica agarrado a vida toda. Talvez seja essa a cura de Sebastião, ficar agarrado à Literatura e aos autores portugueses o resto dos seus dias. E quem sabe a Margarida...
Largado num jantar sem sobremesa, é Margarida que dispara, sem saber, o golpe mais forte e inesperado no coração deste homem de negócios que, após um susto, parte em descoberta dos grandes clássicos da Literatura Portuguesa. Fora de portas, entre livros e bancos de jardim, tendo por companhia frias pedras com marcas intemporais, Sebastião descobre toda uma outra forma de organizar o teu tempo. De uma forma mais boémia e descontraída, sente a mensagem metafórica que a vida lhe está a transmitir. Aceita até uma certa nudez para encarar o dia a dia e conquistar (de vez!) a vida!!!
"(...)
De tudo o que foi, que é,
E na erma vida só vê
O raio da vaga esp'rança"
Para além de um guia para uma visita a estátuas célebres em Lisboa, este livro de Rebocho Pais é também um hino à Literatura Portuguesa. Apesar de uma história de amor, julgo que o amor maior é mesmo à palavra, à língua, ao testemunho escrito que fica e passa pelo tempo.
Há também neste livro uma curiosa forma de jogar com os nomes dos personagens, como se o surgimento dessas pessoas, com determinados nomes, fosse só por si um contributo para a sua cura, como o Dr. Boavida ou o livreiro Simplício...
É hilariante a forma como começa esta aventura literária. É francamente de gargalhar nas primeiras páginas e sempre que Sebastião analisa e critica a sociedade que o envolve. Que nos envolve, já que Sebastião é uma excelente metáfora para muitos.
O desaire amoroso e até de carácter pessoal resolvido através das letras é genuíno, mas parece-me um pouco ingénua a forma como o personagem segue com a sua história de vida. Parece simples demais.
De salientar a forma intrincada, cuidada e quase camaleónica com que o autor escreve, o que dá outro brilho ao livro, é como se o texto fosse acompanhando toda a mudança do personagem.
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| João Rebocho Pais - Feira do Livro de Lisboa 2014 |
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terça-feira, 4 de novembro de 2014
Haatchi & Little B, de Wendy Holden - Opinião
No entanto, este relato tem ainda mais um detalhe interessante que é o facto de Little B ou Owen ser portador de uma doença da qual nunca tinha ouvido falar e que também me interessou à partida. Estou sempre mais inclinada para ler sobre Autismo e Asperger, mas existem outras doenças ou síndromas sobre os quais também gosto de ler e até lamento que o relato deste livro não aprofunde mais as causas, a sintomatologia ou os tratamentos para a síndrome Schwartz-Jampel.
A doença genética de Owen e a mutilação de Haatchi são duas situações tocantes e que conquistam a atenção de muitos e isso vem sido revelado pelo constante apoio, mesmo antes da publicação do livro e da expansão que o mesmo tem feito mundo fora. São expressões como «beijos nas pintas» ou «orações caninas» que conquistam e nos fazem, por vezes, esquecer toda a dor e luta por detrás desta história envolvente e cheia de ternura.
«O laço que os une é lindo», diz a certa altura a madrasta de Owen e grande impulsionadora de inúmeros acontecimentos na vida destas duas vidas, mas também na de Will, pai de Owen.
Apesar de todo o lado de superação e de lição de vida que este livro passa, há também variadíssimo conhecimento, especialmente sobre programas de apoio, concursos, prémios, sites, instituições... tanta e tanta informação que pode ajudar em outros casos ou até dar ideias de como instituí-los no próprio país. O prémio Friends for Life, o British Animal Honours ou o London Pet Show são exemplos disso.
A recaída de Haatchi e o próprio acidente, aquando do abandono, ensinam inúmeras coisas sobre cães e terapias para os tratar e ajudar, que nos faz perceber a quantidade de possibilidades que têm vindo a ser desenvolvidas, tal como se faz para com as pessoas. Conhecia as próteses, mas o recurso à hidroterapia e até à acupunctura eram tratamentos dos quais não tinha conhecimento e que pelos vistos têm resultados comprovados. Há também a alimentação com crus, que o livro poderia explorar mais, julgo que para quem tem animais seria um dado importante.
Só posso recomendar que leiam e que se deixem envolver por esta história que se pode ligar a tantas outras. Muitas coisas erradas podem acontecer pelo caminho, mas muitos mais obstáculos são ultrapassados e julgo que é disso que este livro trata de mostrar.
Se o início é chocante e revoltante, especialmente no abandono de Haatchi, mas também na impotência perante a doença rara de Owen, o final chega a ser hilariante com os votos de casamento de Colleen e Will, demonstrando que a família venceu e saiu fortalecida para todas as próximas batalhas.
Fica o pequeno documentário A Boy and his dog, que já ganhou um prémio BAFTA.
Vejam mais e vão seguindo a história na página oficial do facebook, aqui.
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domingo, 26 de outubro de 2014
"Eu. Alex Cross" - James Patterson - Opinião
"Eu, Alex Cross" é, tão depressa, acelerado e contagiante, como, ternurento e emocional, chegando a tornar-se claustrofóbico, quando pensamos que tudo pode correr mal, mas Alex Cross é Cross, único e heróico e não permite que nada se cruze no seu caminho. Alex Cross já não só desafia a sua própria morte, ele evoluiu, ele é superior, quase como que dotado de poderes sobrenaturais, conseguindo recuperar até os quase irrecuperáveis.
Não, não me refiro a Caroline Cross! E aliás, o desfecho da história e a forma como o criminoso sucumbe é brilhante pois afasta esse manto de considerarmos sempre Cross como eterno herói e justiceiro.
Curiosos?
Leiam. Patterson é infalível, se bem que esta saga, assume neste volume contornes muito mais pessoais do que os anteriores. E em algumas coisas, o enredo assemelha-se ao de "A Amante", pelo menos chegámos a algumas dessas conclusões, aqui entre conversas de leitures assíduos de Patterson.
É quase como se a "perseguição" às altas patentes e nomes influentes e até ao próprio governo americano fosse sempre o objectivo final. Os serviços secretos e os seus agentes e claro o núcleo presidencial.
Se era de desconfiar!? Talvez. Tanto interesse deveria levantar suspeitas, ainda assim, julgo não dar quaisquer spoilers.
O detective Alex Cross, o Sherlock Americano, é também um chefe de família, uma família que faz parte da estabilidade e do empenho que o detective coloca em tudo. No entanto, há um pilar, uma estrutura que aguenta tudo, uma ligação tão forte que Cross não pode perder, não agora!
Desde o filme protagonizado por Tyler Perry que, para mim, deixou de fazer sentido idealizar outro personagem, outro rosto. Se bem que aqui o foco ajusta-se mais à envolvente, aos restantes personagens que vão surgindo e claro no caso. O que não deixa de ser interessante e me faz pensar: porque será que mesmo com tantas séries de policiais e criminologia não há lugar para um com esta saga protagonizada por Alex Cross, até porque os assassínios, alguns, continuam a voltar.
Como diz a célebre frase: Os maus voltam sempre!
Se em vez de filme, acontecesse uma série deveria ser mais um fenómeno de massas, assim num misto de cruzar os detectives de Private como os de NYPD Red, em casos específicos de Cross... e os livros que surgem de parcerias dariam episódios especiais... Um Jerry Bruckheimer seria perito em fazer disto um sucesso! Já estou a imaginar... algo que oscilasse entre o lado emocional de "Cold Cases" e o lado tecnicista de "Criminal Minds". Portanto, que tal reunirem o Patterson, Bruckheimer o e ainda a Meredith Stiehm. De quem é o badalado "Homeland" e da qual ainda quero ver "The Bridge".
Não, não me refiro a Caroline Cross! E aliás, o desfecho da história e a forma como o criminoso sucumbe é brilhante pois afasta esse manto de considerarmos sempre Cross como eterno herói e justiceiro.
Curiosos?
Leiam. Patterson é infalível, se bem que esta saga, assume neste volume contornes muito mais pessoais do que os anteriores. E em algumas coisas, o enredo assemelha-se ao de "A Amante", pelo menos chegámos a algumas dessas conclusões, aqui entre conversas de leitures assíduos de Patterson.
É quase como se a "perseguição" às altas patentes e nomes influentes e até ao próprio governo americano fosse sempre o objectivo final. Os serviços secretos e os seus agentes e claro o núcleo presidencial.
Se era de desconfiar!? Talvez. Tanto interesse deveria levantar suspeitas, ainda assim, julgo não dar quaisquer spoilers.
O detective Alex Cross, o Sherlock Americano, é também um chefe de família, uma família que faz parte da estabilidade e do empenho que o detective coloca em tudo. No entanto, há um pilar, uma estrutura que aguenta tudo, uma ligação tão forte que Cross não pode perder, não agora!
Desde o filme protagonizado por Tyler Perry que, para mim, deixou de fazer sentido idealizar outro personagem, outro rosto. Se bem que aqui o foco ajusta-se mais à envolvente, aos restantes personagens que vão surgindo e claro no caso. O que não deixa de ser interessante e me faz pensar: porque será que mesmo com tantas séries de policiais e criminologia não há lugar para um com esta saga protagonizada por Alex Cross, até porque os assassínios, alguns, continuam a voltar.
Como diz a célebre frase: Os maus voltam sempre!
Se em vez de filme, acontecesse uma série deveria ser mais um fenómeno de massas, assim num misto de cruzar os detectives de Private como os de NYPD Red, em casos específicos de Cross... e os livros que surgem de parcerias dariam episódios especiais... Um Jerry Bruckheimer seria perito em fazer disto um sucesso! Já estou a imaginar... algo que oscilasse entre o lado emocional de "Cold Cases" e o lado tecnicista de "Criminal Minds". Portanto, que tal reunirem o Patterson, Bruckheimer o e ainda a Meredith Stiehm. De quem é o badalado "Homeland" e da qual ainda quero ver "The Bridge".
As nossas leituras:
Série Alex Cross:
- «Alex Cross» - Opinião
«Alex Cross, Perigo Duplo» - Opinião
- «A Caça» - Opinião
Série Private c/ Maxine Paetro
- «PRIVATE - Opinião - Efeitocris
- PRIVATE - Principal Suspeito :: Opinião
Série NYPD Red c/ Marshall Karp
- NYPD Red - Opinião
- NYPD Red: À Margem da Lei - Opinião
e ainda:
- INVISÍVEL - Opinião
Opinião Caracol Literário - em breve
- A Amante - Opinião
Um leque de leituras que aqui foram devoradas com o apoio:
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quinta-feira, 16 de outubro de 2014
"Saber Perder", David Trueba - Opinião
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| «SMS: posar-li memoria al temps», Josep Santilari, 2005 |
Não consigo iniciar um comentário a este livro de Trueba sem que antes refira o impacto da capa. Há em todo este cenário, aparentemente calmo, mas ansioso, que reflecte na totalidade, o espírito inquieto, lânguido, um tanto sensual e ainda de resignação que reside em cada uma das histórias de vida que aqui são narradas.
É um poder enorme o desta composição, que a um primeiro olhar parece banal e rotineira, mas que encerra em si inúmeras preocupações e ansiedades desconcertantes.
A procura por uma resposta, a mensagem que não chega, a solução que tarda, o sim ou o não pretendido que falha e que não corresponde...
É, em toda essa complexidade do quotidiano, mas também na sua beleza, que o enredo, quase só familiar, de Saber Perder se foca e é tão bom, tão real, quanto assombroso e próximo.
Todo este Saber Perder de Trueba foi uma surpresa. Há uma certa embriaguez e um tanto de volúpia que dão um toque de magia e de esperança aquilo que é narrado e que se desenrola sem segredos na nossa frente. Ainda assim, teimamos em querer ver para além daquilo que há e vai continuar a existir, a perda, a dor, o sofrimento infligido no próximo, a morte, o esquecimento. E é nessa dualidade, ora de prazer como de dor, ora de extravagância como de recatamento, que Sílvia ou Leandro se deslumbram com proibições ou Lorenzo e Ariel aceitam as rasteiras da vida.
As histórias cruzam-se e alimentamo-nos delas ao longo de quase quinhentas páginas, sabendo que são quase mil, tal é o enredo ou as letras miudinhas que dificultam as largas horas em que nos embrenhamos na história. Até isso, uma certa demora em ler o livro, parece propositado, como que nos fazendo ver que a vida pode muito bem desacelerar... que nós só temos a ganhar com isso.
Com amor, humor, emoção, desilusão, aventura, mas também abrandamento, todos os personagens desta vida comum vão terminar a celebrar esta aventura que é saber perder para saber (continuar a) viver!
*
Saber Perder foi o romance vencedor do Prémio Nacional de la Critica, em 2009 e o júri não hesitou em compara o elevado realismo literário com o romance A Colmeia, do Prémio Nobel da Literatura de 1989, Camilo José Cela. Fica mais uma referência para juntar à wishlist de leitura.
Encontrei Quatro Amigos que não me conquistaram! ;)
Apostei em Saber Perder onde confesso, agarrou-me!
Resta-me agora encontrar Aberto toda a noite e render-me a Trueba.
"Saber Perder", David Trueba foi uma aquisição em Alfarrabistas nesta FLL de 2014.
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segunda-feira, 13 de outubro de 2014
A Mulher Má, de Marc Pastor - Opinião
Decorria o ano de 1911 e a época natalícia era assombrada pela mulher má, de seu nome Enriqueta Marti, para muitos uma vampira, para outros uma traficante de crianças, para todos uma prostituta e uma mulher de muitos truques... mas o que muitos não sabiam é que ela era realmente um monstro!
Marc Pastor traz-nos, no seu aclamado policial, a história verídica de Enriqueta Marti, aquela que assombrou Barcelona do início do século XX como a traficante de crianças. Apimentou os factos e apoquentou alguns leitores com descrições mais tenebrosas que me relembram alguns relatos de A traficante de crianças de Gabrielle Wittkop.
"Barcelona tão depressa ama como esquece, odeia como adormece, e aquilo que hoje é um pânico insuportável, amanhã derreter-se-á como um torrão de açúcar molhado nas páginas dos jornais." (pp.213)
Mas não para Moisés Corvo! O inspector não esquece e não lida bem com as vontades dos seus superiores que pedem para que largue, esqueça e siga para outras investigações.
"Moisés Corvo é um cão: ninguém mija no seu território. (...) Há já algum tempo que Moisés Corvo deixou de ser um policia novato (...) para se converter no perdigueiro que agora é.
Já não é defensor das boas pessoas, porque já não acredita nas boas pessoas.
(...) Corvo é um cão velho, mal encarado e cheio de vícios, mas não está disposto a ceder as ruas a ninguém." (pp.48)
A sensibilidade de Corvo é distante da nossa quando confrontados com certas passagens. Pastor é detalhado, mas não em demasiado, já que deixa muito nas entre linhas e nas suposições que somos levados a ter sobre que episódios de tortura teria Enriqueta (e não só) com as crianças raptadas. A acção decorre sempre alimentando o clímax narrativo e como que mentalizando o leitor para o horror final. Aliás as descrições são mais negras e a análise a uma realidade mais nefasta e podre de um início de século cheio de avanços, mas pejado de doenças, de flagelos sociais, de mortes... de um fosso social enorme, onde a fronteira é violenta e não poupa quem a pretende ultrapassar.
"Há quem viva com gosto em tempos convulsos, com sangue nas ruas, porque isso lhe permite andar entre a violência e beber-lhe o prazer. Na Rosa de Foc cada um pensa em si: uns tentam arranjar comida para levar à boca, outros enchem os bolsos e fazem ostentação disso; pedintes que dormem numa taberna porque não têm uma reles cama onde cair mortos, ricos que viajam até San Sebatian para tomarem banho medicinal na praia; há quem não fale com ninguém com medo de que descubram o seu segredo, há quem diga tudo procurando companhia." (pp.68)
É neste clima convulso que muitos temem o vampirismo, mas muito outros vampirizam, chupando o sangue, encontrando nele a vitalidade que lhes foge do corpo aos poucos e no final fará falhar o discernimento e não temer o perigo da descoberta.
No seu todo, A Mulher Má de Marc Pastor é um policial com um cunho histórico e com explicações que tendem ao fantástico, mas sem nunca esquecer que se baseia num caso verídico e por isso, talvez, suavize as descrições e implicações de Enriqueta em mais e piores episódios dos seus crimes. Há também várias referências a reter, que nomeiam outros detectives da literatura, outros autores, como os policiais de Edgar Allan Poe ou Robert Louis Stevenson ou até dados históricos sobre Espanha que são curiosidades interessantes. Não esquecendo certa terminologia e as referências a Bram Stocker, que muito me agrada.
Uma leitura com o apoio TOPSELLER, veja aqui o vídeo e espreite as primeiras páginas.
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