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terça-feira, 21 de março de 2017

“O retorno” de Dulce Maria Cardoso :: Opinião



Li este livro em 2015 enquanto visitava Munique e me desloquei ao campo de concentração de Dachau. Foi interessante, e não deixa de ser bizarro, a ligação entre algumas coisas que li, vi e senti, tanto ao ler o livro, como ao visitar o campo. A memória realmente deve ser alimentada para que determinados eventos, que marcaram toxicamente a história de um país, não se percam na fraca e limitada memória colectiva das gerações vindouras. 

"Estavam lá retornados de todos os cantos do império, o império estava ali, naquela sala, um império cansado, a precisar de casa e de comida, um império derrotado e humilhado, um império de que ninguém queria saber."

«O Retorno» de Dulce Maria Cardoso regressa aos tempos da descolonização quando chegam a Lisboa cerca de meio milhão de pessoas, a precisar de alojamento, trabalho, comida e integração numa sociedade diferente daquela que deixaram nas ex-colónias. Neste caso em particular, Angola, de onde Rui e a família saíram. Rui, de quinze anos, é o narrador deste retorno, com ele e pelos seus olhos assistimos a esta situação que se degradava de dia para dia, enquanto o processo revolucionário tentava ganhar o seu lugar. 

"A culpada de a mãe ser assim é esta terra. Sempre houve duas terras para a mãe, esta que a adoeceu e a metrópole, onde tudo é diferente e onde a mãe também era diferente. O pai nunca fala da metrópole, a mãe tem duas terras mas o pai não. Um homem pertence ao sítio que lhe dá de comer a não ser que tenho um coração ingrato (...)"

O regresso é pautado por sentimentos de desconfiança, mas de esperança, de humilhação, mas de saudades. Há amor de diversas formas, um amor à terra que os viu crescer, um outro que os liga a uma terra que os acolhe, o amor entre irmãos... há tantas formas de amor, como de revolta num livro terno, mas duro, divertido, mas também recheado de episódios negros desta nossa história tão recente. 

"(...) mas o João Comunista não é comunista, chamam-lhe assim por estar sempre a dizer que o império era uma vergonha, que devíamos ter vergonha por termos subjugado inocentes durante tantos séculos. Já houve macas enormes à conta disso, (...), o Sr. Serpa só gritava, que os de cá digam isso é uma coisa mas você devia ter juízo e vergonha nessa cara."

"(...) os que lá trabalhavam para o estado não estão nos hotéis, têm a vida arranjada, foram colocados nalgum sítio ou reformaram-se, alguns até têm trabalho e reforma. São recompensados como se tivessem estado no inferno enquanto nós somos tratados como se tivéssemos de ser castigados."

O hotel que os recebe e a respectiva directora sofrem transformações que acompanham o mesmo tipo de mudanças que estão a acontecer com as famílias acolhidas. A revolução não se faz só na rua, as atitudes e as opiniões reaccionárias estão ali e talvez ali sejam tão ou mais precisas, de modo a devolver dignidade e esperança aqueles que ali estão. Estão, mas estão como se estivessem sem chão e tecto, sentem-se injuriados e sem perspectivas e isso a autora consegue muito bem relatar pelas constante acção atrás de acção e simultânea reacção. 

"Mas o que fazem é gastarem horas a lembrar-se do que perderam, se me ponho a pensar no que lá ficou dou um tiro na cabeça, acho que já ouvi cada um deles nesta conversa pelo menos uma vez.
Os homens também querem arranjar trabalho para mostrar aos mangonheiros da metrópole de que massa os retornados são feitos, se conseguimos construir terras como as que fomos obrigados a deixar também conseguimos mudar o atraso de vida que a metrópole é."

O relato de Dulce Maria Cardoso é bastante sentido, diria assim, com muita coisa preto no branco, tipicamente como se vê com os olhos dos nossos 15 ou 16 anos, com as ideias a fervilharem e a pedirem conselhos, mas a quererem toda a liberdade que com essa idade se anseia, isto tudo junto com o clima de instabilidade e transformação social e uma série de ideais que aparecem em conversas que deixam dúvidas e das quais também se fazem piadas.

O conteúdo é assim bastante rico e abre espaço para inúmeras reflexões, tanto para quem viveu esse período do Verão Quente de 75, como retornado ou não ou quem, como eu, apenas o estudou nos manuais na escola. É igualmente interessante ler este livro e ver a série portuguesa "E depois do adeus" que a RTP passou, julgo, que entre o final de 2014 e o início de 2015. 



"Las coas que se mueren
no de deben tocar." 
Dulce María Loynaz
*
"Faz do sol uma advertência, os povos devem saber que são mortais.
Inscrição no monumento comemorativo da memória judaica
Dachau, 2015 


segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

Leituras de 2015 - Balanço

Livro a livro se faz mais um ano de leituras.


Aqui fica um balanço com todas as leituras deste ano, ficando apenas a faltar os textos de alguns que foram lidos, mas ainda não foram comentados.

*

Os meus livros do ano:

"Acredito que esta qualidade de partilhar o sofrimento é fundamental para o que significa ser um ser humano."

«Esta distante proximidade» de Rebecca Solnit :: Opinião



"Não estou a falar de um mero jogo de combinações e articulações, à maneira de um puzzle, e sim da literatura como experiência limite, porque a literatura é uma experiência sobre aquilo a que chamamos limites (...)"


"Não sei se arrancar amor a um homem requer mais força hoje do que antes, mas por acaso até sei: requer. É horrível. É uma provação inenarrável."

«ACASALAMENTO» de Norman Rush :: Opinião



"A natureza está constantemente a misturar-se com a arte."


"Alguém me disse uma vez que a morte é um parto de si mesmo. Uma consumação, uma onda que nos varre até ao cabo de nós mesmos (...)"


"Bater naquilo que não se sabe bem o que é chega a ser um exercício cruel, espécie de planeamento a frio de um assassínio. A bondade é condição da inteligência no que toca à crítica do outro (...)"
http://efeitodoslivros.blogspot.pt/2015/03/a-manha-do-mundo-de-pedro-guilherme.html


Pertence também ao Top, o livro de contos «Meninas» de Maria Teresa Horta, do qual não me saiu um texto de opinião (ainda!), mas antes um conto (para a gaveta!).

Livros para pensar a família:

"Mas por vezes parecia-me muito claro que um irmão tem pouco espaço na vida de um irmão (...)"

"O Meu Irmão" - Afonso Reis Cabral - Opinião

http://efeitodoslivros.blogspot.pt/2015/01/o-meu-irmao-afonso-reis-cabral-opiniao.html


"O rancor é uma boa forma de garantir companhia, o poder de lançar à cara de alguém, todos os dias, o mal que nos fez: isso cria estabilidade. As pessoas pensam: que hei-de fazer? Ficar sozinho? (...)

«Na Margem» de Rafael Chirbes :: Opinião



"Quem parte é alguém que desaparece, se aniquila, já não existe. Vive exclusivamente como lembrança (...)"

Cotovia de Dezsö Kosztolányi - Opinião





"Nas famílias predomina essa virtude de admitir a extravagância quotidiana como normalidade."

"Aberto toda a noite" de David Trueba - Opinião



A terapia do amor por Mary MacCracken 


Pretendo voltar sempre à escrita de Sándor Márai

Livros para se ler de uma dentada:



Um livro que é uma pérola.
"Fez uma pausa:
- Com a idade, desisti de tentar reformar a estupidez do mundo."


Qualquer semelhança com a realidade é pura coincidência.


Thriller à martelada e alguma facada. M. J. Arlidge é garantido.


O marginal ameno de Nuno Costa Santos


Trilogia do Espião Português

Livros Puzzle:

Numa estreia com Davanzati, fiquei fã de Faciolince e decididamente é para voltar em 2016.


Há uma certa geografia muito própria de Gonçalo M. Tavares que me fará voltar constantemente. 


"Flaubert aconselhava a ter cuidado com a tristeza. Cuidado com a tristeza, dizia ele, pode tornar-se um vício. Percebo bem o que queria dizer."


"De um momento para o outro aquela história tinha a ver comigo. Nunca me aconteceu, é certo, mas algum dia podia ser o primeiro."

Livros donos de uma geografia particular:

O mundo anda faminto de qualquer coisa que não sabe o que é. Mãos estendidas, estômagos vazios, gente que morre à espera. 


"A literatura é a mais horrenda das artes, porque é feita da mesma matéria com que falamos e nos enganamos a nós e aos outros."


"(...) era isso que eu mais desejava: cancelar as palavras que, em liberdade, sussurravam às palavras seguintes, até formarem uma teia que se urdia em meu redor, cada palavra segregando, na sua esteira, o fio que a unia à palavra seguinte (...)"

"Por maior que seja a insistência, de nada disto se falará aqui, porque foram acontecimentos menores, passados numa freguesia pequena, onde uma mulher, que carrega um Dom, viveu rodeada de seres passados (...)"

"Viagem ao coração dos pássaros" - Opinião



"Também era essa a sensação que tinha de mim própria - dissociação. Aquele «eu» lido não era eu, mas quem lia também não. Afinal onde estava eu? Quem se lembraria do meu verdadeiro eu?


"Posso afirmar que o sofrimento agudo é como um assomo de loucura."

Livros que vamos querer ver no cinema (ou em série):

Dará um excelente filme, se adaptado com os actores certos. A história autista de Don e o amor.


Trilogia viciante.


"É aqui que os manequins articulados com quem travei conhecimento começam a bocejar e a espreguiçar-se, a ganhar vida própria."


"(...) Muitas poucas pessoas vivem verdadeiramente as suas fantasias. As que o fazem encontraram a chave."


Tal como ocorreu enquanto lia, espero que seja adaptado ao cinema:


Um dos livros do Ano!


"Se não estiveres sentado à mesa, então é porque fazes parte da ementa."


Depois de True Detective (T1) pela mão de Nic Pizzolatto, gostaria muito de ver este Galveston.


"A velocidade é um direito do homem."
Por muito que ache que a velocidade de Kushner se poderia perder no cinema, talvez adaptado de forma adequado fosse brilhante, quem sabe por Paul Thomas Anderson.

Livros terapia:

Impossível contornar um livro de Afonso Cruz


"Vive e inventa" como escreve Malone em «Malone está a morrer" de Beckett ou "Creio profundamente no poder do trabalho inacabado para nos manter vivos" frase brilhante de Bellow em Ravelstein







Livros surpresa:

"O conhecimento humano tendo, por definição, para o infinito, até uma coisa falsa ou um disparate que acabámos de inventar é conhecimento à sua maneira. Sabemos lá se um dia não é verdade."


"Amanhã manda a Ruth me telefonar que eu explico pra ela que um patrimônio que nem você tem que ser dividido com o resto da humanidade."


"As janelas descascavam ao sabor dos elementos, e nos recantos teias urdidas por aranhas que há muito tinham morrido, mas continuavam a acumular presas (...)"


"Arrancar a vida ao dia-a-dia, será isso a poesia."

Livros de outro planeta:

Da Nigéria até nós, pelas palavras lúcidas de Teju Cole



Tóquio será mesmo outro planeta. 


Um livro sensibilizante e revoltante.

«Escravas do poder» de Lydia Cacho :: Opinião



O outro lado da violência extremista.




"Um fragmento de uma nuvem rápida estilhaça o prato de porcelana da lua."

O livro que menos gostei de ler:


****

Por comentar ficaram estes da foto, mas não ficaram por comentar.



Mais vergonhosa é a pilha dos que ainda estão por ler, mas ... ainda agora começou um novo ano ;)




terça-feira, 22 de dezembro de 2015

“Todos os dias são bons para roubar” de Teju Cole :: Opinião


Regressar à escrita de Teju Cole era imperativo. Depois de uma estreia fabulosa com «Cidade Aberta» ficou uma enorme vontade de voltar e de conhecer um pouco mais da sua prosa e das suas influências e neste, «Todos os dias são bons para roubar» encontramos exactamente isso, a capacidade de Cole para relatar a realidade com o dom de um contador de histórias. 

"Uma música suave desperta-me na manhã do dia seguinte: o chamamento do muezim para as orações ecoa através da floresta do vale que separa a propriedade do minarete. Levanto-me e deambulo pela casa (...) O desfiladeiro já não tem agora o mesmo aspecto imaculado (...) A floresta perdeu a batalha. Visto de um certo ângulo, o desfiladeiro tem ainda alguma coisa de primitivo, condiz com uma certa visão que se tem de África."

Num relato carregado de memórias, chegamos a uma ficção que espelha a realidade nigeriana aquando da volta do narrador a Lagos, capital da Nigéria, após mais de uma década de ausência. 
Apesar das semelhanças, já que o autor nasceu nos E.U.A. e cresceu na Nigéria, também o narrador, cujo o nome não sabemos, vem de Nova Orleães até Lagos para visitar a família. No entanto, a desigualdade com que se depara é alarmante e chega até a ser desesperante tanto para quem sempre lá viveu como para quem regressa. 

Confundido desde cedo com um oyibo, um estrangeiro, o nosso narrador divaga e recorda as diferenças com que os anos carregaram a Nigéria e sem esquecer a atitude com que deve caminhar nas ruas para evitar determinadas abordagens prejudiciais. Ainda assim, relata tudo de forma quase cinematográfica, fazendo um roteiro para o qual as fotografias são um excelente ponto de partida, espicaçando a nossa curiosidade.  

"Tudo nesta cidade que me é, ao mesmo tempo, estranha e familiar, está pejado de histórias, o que me faz pensar na vida como uma sucessão de histórias. (...) É toda essa textura literária que existe em vidas cheias de narrativas imprevisíveis que me agrada."

Talvez fosse em busca dessa textura literária e também da imprevisibilidade própria da Nigéria que o narrador enveredou por este retorno. Com o ponto de partida em Nova Orleães, em mais um dia bom para roubar, a corrupção é uma constante e viaja com ele. Estabelecendo um paralelismo entre a sociedade evoluída e recheada de oportunidades com aquela em que tudo tem um preço e vários intermediários a quem pagar. 

Numa análise mais profunda ao que vê, analisa o Governo, a falta de regras definidas, a corrupção, a educação e a dificuldade em atingi-la nas devidas condições, tal como a música, os livros... a cultura em geral... todas essas dinâmicas da sociedade nigeriana são reveladas ao leitor como se de pequenas histórias se tratassem e, sem esforço nenhum, se entrelaçassem e fizessem o leitor viajar nesta terra tokunbo... "para além do mares", num local e com um povo cheio de contradições e tensões acumuladas.

"É uma coisa que não se pode dizer em voz alta, mas há por aqui muita violência reprimida. (...) E é por isso também que é difícil ver o que está aqui tão presente à nossa volta (...)" As palavras são de Tomas Tranströmer, mas o narrador diz-nos que podiam ter sido escritas a pensar na Nigéria, quando avalia, por exemplo, a falta de arte em geral e a ausência de investimento em autores nigerianos ou em como um livro ou um cd estão acima das posses do cidadão comum.

"É errado ser infeliz. E também nunca vale a pena aprofundar pormenores, porque a ideia geral é mais do que suficiente. São estas e outras palavras que ficam deste último livro de Teju Cole, assentes sempre em contradições, cuja a análise não sabemos se deve ser feita. 
Entre memórias e relatos, visitas familiares e pequenos incidentes, existe reconhecimento e gratidão e, aqui e ali, réstias de esperança de quem continua a criar e a acreditar, como a editora que apoiou Fatai Rolling Star, dos quais deixo as sonoridades com que aumentam a World Music.

  


Uma leitura com o apoio QUETZAL.

segunda-feira, 21 de dezembro de 2015

«A Casa de Bonecas»de M.J. Arlidge :: Opinião



Aviso! Não comece a ler este livro deitada na cama... 
...nem com ideias de ir dormir!

Inquietante, arrepiante e viciante, tal como os outros dois livros de M.J. Arlidge.
O ambiente criado pelo autor é constantemente sufocante e povoado por personagens recheados de passados angustiantes. «A Casas de Bonecas» é um relato que expõe transtorno e demência, encaminhando um jovem a tornar-se no maior pesadelo das mulheres que têm o azar de corresponder ao seu modelo, à sua boneca... ao seu fantasma.

A acção deste thriller divide-se entre momentos escuros e sombrios, tanto com as mulheres em sofrimento, como com os corpos que são descobertos na praia. No entanto, o sofrimento é uma constante neste livro. Arlidge traz-nos sempre mulheres e homens sofridos e aturdidos com os caminhos que a vida os faz levar. Helen, Ceri, Charlie, Ruby, Emilia e até Summer são todas elas um elenco poderoso de vidas perdidas ou em recuperação. Mulheres que arriscam por se salvar ou por conceder salvação a outros. Todas elas assombradas por decisões do passado e tormentos do presente.

Os homens que Arlidge constrói também não são menos danificados que as mulheres que os acompanham. Loyde, Daniel, Jack ou Ben, todos eles vivem os seus dias em busca de outras conquistas, umas mais tóxicas que outras, mas são todos eles personagens cheios de remorsos e culpas. 

Em suma, M. J. Arlidge habituou o leitor a personagens despedaçadas, que buscam esperança uns nos outros e depositam as suas piores e melhores intenções no trabalho, já que é mesmo a profissão o bem (e o mal) maior naquelas vidas frágeis e desapegadas. 

Ainda assim, este «A Casa de Bonecas» é menos sádico no que se refere a descrições dos crimes, comparativamente aos anteriores. O cativeiro não deixa de ser tenebroso, mas julgo que este terceiro livro é bem mais para viciar o leitor no leque de personagens. Dei por mim, a certa parte, muito mais interessada em saber até onde iria a chefe Ceri Harwood ou a questionar-me sobre os enredos em torno da vida da sóbria, mas inquieta Helen Grace.

"Captara na perfeição a magnitude do crime, a frialdade da praia e a solidão dos túmulos (...)"
As palavras são da jornalista Emilia Garanita, mas espelham bem os cenários que Arlidge consegue oferecer aos leitores ávidos de policiais.

Para a Ruby e para o livro escolho o novo single - “The Story of a Rag Doll” - de at freddy's house que me tem arrebatado pela sonoridade e densidade que me encaminha para o livro em si.


*
Uma leitura com o apoio TOPSELLER.


sábado, 12 de dezembro de 2015

«Tóquio vive longe da terra» de Ricardo Adolfo :: Opinião

Ao lermos este «Tóquio vive longe da terra» ficamos a saber que é possível casar novamente com o marido, mas sem ter a presença desse no "novo" dia de casamento. Estranho? É verdade, neste livro existem relatos de coisas muito estranhas. No entanto, o estranho, o alien, é o próprio autor e ao que parece protagonista, português a residir em Tóquio que reuniu agora as crónicas que foi publicando na revista Sábado, dedicadas ao modo de vida que tem experimentado desde que se mudou para aquela ilha. 

Afastado da terra, mas sem estar próximo dos ilhéus, Ricardo Adolfo traz-nos, num registo peculiar, as excentricidades de viver numa realidade quase que paralela à nossa. Peculiar é também o mix entre realidade e ficção. Temos o autor e temos um personagem, mas e distinguir a realidade da ficção? Terão todos aqueles episódios acontecido? Ou o autor conseguiu reunir um conjunto muito caricato e hilariante de hábitos que caracterizam o povo japonês!? Ficcionado ou não, os hábitos é o que interessa e a viagem é completamente feita à deriva. 

"(...) os policias não perceberam a pergunta. Como é que alguém poderia querer fazer algo que não se podia fazer?
Enquanto eles tentavam processar o desejo de se fazer algo que não se deve, corri praia fora com um sorriso do tamanho do oceano, sempre à espera de bater com a cara na porta transparente do mar."

Entre quartos gaveta, regras de elevador, um Natal vazio, não ter direito a férias e assédio pós-laboral, concordamos com o autor que amar em estrangeiro é difícil. Ser alien de aluguer é ser pai por um dia sem saber como e lutar pela integração de um alien num casamento singular... Poderia continuar a cruzar os títulos das crónicas do autor, mas nada se compara ao rumo que o livro traça. 

Seja com que ordem for, «Tóquio vive longe da terra» é um livro hilariante e recheado de eventos surreais completamente díspares das nossas referências.

"Se queria ser um alien integrado, mais uma vez teria de ser capaz de descodificar o que ficara por dizer e descobrir qual seria a regra aleatória a cumprir. 
Cada vez mais concluo que o cânone dos nativos não é deste mundo."

As crónicas foram sempre acompanhadas de fotos que se podem ver através dos códigos qr que estão no início de cada capítulo e que remetem para imagens que o autor foi postando na rede Instagram.


Uma leitura com o apoio:
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sexta-feira, 11 de dezembro de 2015

«Butcher's Crossing» de John Williams :: Opinião

"A natureza está constantemente a misturar-se com a arte."

É nas palavras de Ralph Emerson que melhor se resume o que encontramos no enredo que John Willians cria e que torna a Natureza, a paisagem, os animais e o Oeste nas personagens mais vívidas e impactantes deste romance.

«Butcher's Crossing» revela uma América profunda, numa busca pela vastidão do Oeste, já ameaçado pelo avanço da sociedade moderna que começava a impor barreiras à própria Natureza. Um jovem de Harvard, cansado da sua vida académica e urbana, pretende enfrentar as provações e descobrir por si, as experiências que só uma expedição nas montanhas lhe poderá dar e na procura por um mentor, chega até Butcher's Crossing para ter a experiência de uma vida.

Apesar de todo o encantamento que as descrições minuciosas nos causam, há todo um relato de solidão, vazio e dureza que quase causam dor e desconforto no leitor. O frio é inquietante ao ponto de o sentirmos. A passagem das estações do ano demarcam muito bem a passagem do tempo. Longo e infinito, numa demanda diária, numa luta desigual. É apenas o vazio que preenche o tempo que passa entre aqueles homens que apenas partilham um espaço exíguo quando existe toda a vastidão de um vale ou de uma montanha, mesmo ali à mão, mas a barreira imposta pelos rigores da natureza são esmagadores e fazem alterações profundas no Eu que ainda estava por descobrir em Will Andrews.

A invulgar carnificina que mancha a brancura que invade grande parte deste livro, acompanhará o leitor até ao final, a mim acompanhou-me. Na sinopse lemos que o que nos deslumbrará será a natureza humana, no entanto, a Natureza propriamente dita, no seu estado mais puro e violento eleva cada personagem, cada homem a um limite que altera o curso de cada uma daquelas vidas de forma visceral. No entanto, para mim, é a Natureza a verdadeira personagem deste livro. É com ela que nos deslumbramos.

A leitura deste livro surge após uma leitura compulsiva e viciante que obtive com «Stoner» e compará-los é difícil, mas foi impossível não o fazer. A perícia da escrita de Williams mantêm-se, aliás, apura-se, bem mais que em Stoner, mas Stoner tem todo um ambiente literário que o coloca num outro patamar perante as minhas escolhas. Ainda assim, o preciosismo que John Williams coloca nos detalhes das longas descrições que faz dos dias em que os homens aguardam pela caçada ou lutam contra a intempérie poderiam tornar-se enfadonhos ou desmotivantes, mas não, são esses momentos descritivos que abrilhantam o enredo e envolvem o leitor, tornando também este um grande livro. Outra comparação que senti necessidade de fazer foi com «O Deserto dos Tártaros» de Buzzati, mas julgo que é mesmo a escrita de Williams que me leva a isso. Apesar de todo o detalhe quase obsessivo com que Williams carrega os seus livros, há todo aquele deserto interior que povoa as vidas das suas personagens e isso liga-me sempre ao relato inóspito da vida de Giovanni Drogo.

Uma leitura com o apoio DOM QUIXOTE.

quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

«Descobri que estava morto» J. P. Cuenca :: Opinião


"A franqueza é a primeira virtude de um defunto." Brás Cuba

Quando terminei «Descobri que estava morto» do Cuenca pensei: "é muito frontal com fanta". E é bem verdade se o ligar ao desejo de invisibilidade com o qual começa o livro, espelhando o trabalho de Oscar Munõz e a constante reconstrução do retrato. 

«Descobri que estava morto» funciona como um epitáfio para um pseudo morto. Um ser transtornado, mas ainda muito consciente que, por entre ruas do Rio de Janeiro, faz um inventário de críticas à cidade em ambiente pré-olímpico. Com a geografia de road book, revela-nos quem queria fugir mas ter quem lhe sentisse a falta. 

Este é um livro pejado de pérolas.

Aquele que se vai apagando nesta história é dado a reclamações e depressões, alimentava vagas de inquietação metafísicas e criava narradores desafinados e donos de platitudes já gastas. Com apurada vocação para a tristeza, herdada desde o cordão umbilical, e ampliada por algum misantropismo, altera períodos de fanfarronice com outros mais atávicos e delirantes.

Cuenca traz novamente à acção Tomás Anselmo e é com ele, numa espécie de solidariedade postiça masculina que arregaça as gengivas e combate a letargia de querer estar morto. No entretanto, cutuca o excesso de orgulho do brasileiro em espírito de olimpíada, apontando o dedo à cidade neo-pacificada, mas sem se excluir, o que torna ainda mais esquizofrénica e divertida a sua análise. 

Os anos avançam, a política e os melhoramentos na cidade também, mas nada de muito profundo que quebre a esculhambação típica do brasileiro e ele, na sua recém conquistada solidão dá passos, pequenos e pouco firmes na direcção de resolver o mistério da sua morte fictícia. O vício no circo portátil do hedonismo que o persegue apodera-se cada vez mais, patrocinando a sua enclausura e abandono, apelidada pelo próprio de procrastinação masturbatória e inútil, aumentando assim a certeza de que é uma fraude, tal como o Rio pré olímpico que o acolhe. 

A fatídica prosperidade que afecta a sua cidade traz um equilíbrio frágil e até pernicioso, uma espécie de imunidade que vai talhando a bolha de delírio em torno da sua literatura e o faz questionar tudo.

"Como o que eu realmente desejava era destruir tudo e não criar porra nenhuma, todas as minhas escolhas pareciam me levar para longe de onde eu devia estar. Para longe do lugar correto. Todos os caminhos, uma vez que eu os pisava, transformavam-se em desvios."  


Uma leitura com o apoio Caminho/Leya, veja mais aqui.

quarta-feira, 18 de novembro de 2015

«Na pele de uma jihadista» de Anna Erelle :: Opinião

 

É importante começar logo mesmo antes do começo propriamente dito quando Anna Erelle, nome fictício para uma jornalista francesa, indica: "os factos a seguir narrados ocorreram na Primavera de 2014, dois meses antes da tomada de Mossul, segunda cidade do Iraque, pelo Estado Islâmico, e da autoproclamação de um califado pelo seu líder Abu Bakr al-Baghdadi."
O trabalho de pesquisa e de infiltrada nos meandros da comunicação com jihaditas coloca este testemunho em destaque perante os últimos acontecimentos, numa tentativa de explicar a forma de recrutamento virtual praticado pelo fanatismo dos combatentes da brigada islamita.

Desde as primeiras palavras aprendemos a designação que nos é dada, kuffar, e como infiéis que somos, devemos ser banidos de entrar no paraíso que a jihad em nome de um Islão mais puro está a alcançar. É esta a mensagem que os devotos, os fanáticos ou os soldados recrutadores tentam passar aos recém convertidos ao islamismo (e não só) a fim de abraçarem a causa e abandonarem as vidas impuras que levam. Nomeadamente a família, caso essa seja um factor de limite da missão que devem seguir.

Na senda dos mujahedins que usam as redes sociais, Anna Erelle, assume um perfil falso de Facebook, como Melánie, uma jovem recentemente convertida e que busca orientação e é desde logo um alvo fácil para homens e mulheres que a tentam convencê-la a efectuar a sua hégira (abandonar o seu país e família infiel e juntar-se à luta). Com as redes sociais estes combatentes mantêm o anonimato e prosseguem com a jihad virtual, espalhando o horror com vídeos violentos mantendo a promessa de mais mortes, torturas, violações, saques e conquistas para os futuros guerreiros.

É muito interessante a forma como a jornalista francesa explica como são feitos esses recrutamentos e quem são os potenciais alvos. A fé talvez seja a menor das preocupações de quem recruta, já que Erelle dá a perceber que a situação económica, a criminalidade ou a falta de rumo na vida, são factores fulcrais para permitirem que a lavagem cerebral ocorra. É isso que tentam fazer com Melánie, quando esta se apresenta mais frágil por falta de apoio familiar. Para sua surpresa quem a aborda via Facebook e Skype é Abu-Bilel, combatente na Síria e braço direito do califa.

Estabelecido o contacto e ganha a confiança necessária é altura da jornalista perceber como se processa a fase seguinte. Levar os candidatos até terras do califato e que papeis irão assumir. Mas como lá chegam? Com que meios? Com o apoio de quem e passando que fronteiras?
A partir deste momento o seu trabalho como infiltrada aumenta e o perigo também. São muitas as questões que Erelle levanta e mostra a teia que envolve muitos dos acontecimentos desde a separação de uma célula da Al-Qaeda que é hoje a Daesh e como tem evoluído até à data, não esquecendo o papel dos Estados Unidos da América e da própria França. E não esquecendo também de demonstrar o reconhecimento e a afirmação que estes heróis buscam. Ou até o quão é difícil de avaliar e vigiar (e nunca se pode vigiar toda a gente!) alguém só porque se recolhe mais perante dada religião ou efectua determinadas viagens para países mais fundamentalistas.

Desde as explicações iniciais que contextualizam o tema, até ao momento fulcral de se infiltrar, o testemunho de Erelle tem um balanço positivo e até educativo, para além de assumir em certas partes contornos assustadores, mas alguns dos diálogos parecem forçados e até simplistas, não sei explicar melhor, não esperava aquele tipo de diálogos. Um outro detalhe que me deixa a pensar é ter-lhe "calhado" logo um dos homens em quem o califa deposita mais confiança. Gosto do lado informativo e até especulativo, mas na sua totalidade como caso real...

Uma leitura:

terça-feira, 17 de novembro de 2015

«O Segundo Cérebro» de Miguel Ángel Almodóvar

Sabia que os intestinos têm um cérebro próprio? E que do seu bom funcionamento depende grande parte da nossa saúde?

Sendo a designação «cérebro», metáfora ou não, responder afirmativamente a esta questão pode ser o mesmo que encontrar respostas para uma série de perguntas ou até de sintomas que já experimentámos diversas vezes.
Compreender melhor o nosso corpo e a forma como o podemos ajudar a funcionar melhor parece-me uma excelente meta, já que o seu bom funcionamento é imprescindível e as agressões que fazemos são constantes e nefastas a médio e longo prazo.

Miguel Ángel Almodóvar, expõe casos clínicos e recentes descobertas que fundamentam a necessidade de olhármos ao intestino como um sistema com ideias próprias, ou seja, mais funcionalidades. Pode parecer ridículo, mas se já sofreu de alguma disfunção e sentiu na pele as dificuldades ou as doenças associadas ao aparelho digestivo talvez aceite melhor o que aqui é dito, quando chegar à parte onde Ángel Almodóvar expões os sintomas que validam o que aqui é dito.

É aqui largamente referido o desequilíbrio da flora intestinal e a disbacteriose, um termo menos ouvido, mas com causas ligadas ao estilo de vida actual, o stress e a má alimentação, entre outras são  atitudes conhecidas e confirmadas como comportamentos tóxicos para a nossa saúde, por isso, os problemas tendem a surgir nos mais variados sistemas do nosso corpo.

A meu ver e dentro daquilo que sei, que leio e que sinto em mim, encontro informações úteis e explicações que fazem sentido. Cada vez mais acredito que devemos analisar-nos ao máximo, sentirmos e conhecermos o nosso corpo, procurar resposta naquilo que o corpo transmite e cada vez que aplicamos ou testamos algo novo, seja da medicina convencional ou milenar, das terapias alternativas ou holísticas, o corpo dará sempre uma resposta. No entanto, gosto sempre de continuar a pesquisar e a debater ideias, esperando por novas partilhas.

Se escutar o nosso corpo não for suficiente, encontramos também resposta nas emoções e sabendo de antemão que a alegria e o bem estar estão dependentes de serotonina e que a mesma se produz/forma em parte no intestino, temos logo mais fundamento. De mão dada com a serotonina vem a melatonina, auxiliando o sono e a recuperação, como tudo está interligado e não é assim tão fácil de compreender em todas as suas ramificações, o importante é reter que ambas são produzidas e libertadas pelas glândulas intestinais. Terei contudo falhas nas explicações mais técnicas, mas o mecanismo faz-me sentido, avaliando os sintomas quando as coisas não estão a funcionar correctamente.

Em suma, achei bastante elucidativo e bem sumariado este manual sobre os neurónios que queremos conhecer para que funcionemos melhor como um todo que somos. Quero ainda apontar mais um detalhe: as receitas fornecidas no final são uma óptima ajuda para confeccionar receitas ricas em pré e probióticos.

http://www.vogais.pt/livros/o-segundo-cerebro

«Sumos e Águas Detox» de Lillian Barros - Opinião

Comecei a fazer alguns sumos detox, de forma meio desorganizada, com o propósito de desintoxicar o organismo e obter alguns dos benefícios divulgados. Buscava essencialmente melhor funcionamento intestinal, melhorias na pele e um boost de energia. Os sumos deram resultado, mas faltava algo. Sentia-me sonolenta, já acusava algum tédio na hora de preparar os sumos e ficava sempre na dúvida se estaria a escolher e a combinar os melhores vegetais e frutos. Na época a base era sempre a água e isso era muito monótono e apesar de já combinar smoothies com sumos, esses também passaram a não me satisfazer. Ao fim de cerca de 6 meses, reduzi a quantidade de sumos na minha alimentação diária, mas logo tive a surpresa e a sorte de ganhar um workshop onde aprendi mais sobre o tema e desde aí tenho sempre tentado obter o máximo de informação possível sobre questões nutricionais para fazer os sumos e as águas mais adequadas para mim.


Nessa sequência da pesquisa cheguei até ao livro da nutricionista Lillian Barros e fiquei agradavelmente surpreendida pelas explicações e alertas que a mesma dava ao leitor e fiquei desde logo interessada pelo simples facto de ela renomear os detox, para «sumos funcionais», o que faz muito mais sentido, pois é exactamente isso que procurava, melhorar as funcionalidade do meu corpo, para além de, em certas ocasiões, precisar de limpar e desintoxicar.

Partindo então para os novos sumos funcionais, fiquei com mais informação para escolher melhor os ingredientes de cada sumo ou água e isso também despertou a minha curiosidade por certos alimentos e suplementos. Tal como é dito na sinopse deste livro, a nutricionista responde a inúmeras questões que são colocadas quando alguém pondera começar a introduzir sumos na sua alimentação. Que combinações fazer? Qual é a melhor hora para os beber? Existem contra-indicações? Como devemos conservá-los para não perderem propriedades? Fazer um jejum de líquidos é o aconselhado para desintoxicar? Durante quanto tempo?

Há já algum tempo que utilizo algumas das receitas aqui indicadas no livro e ter substituído a água de base, por águas aditivadas (como gosto de lhes chamar) ou por chá, melhorou os sumos nos quais acrescentava apenas água, isto porque existem ingredientes com sabor mais adstringente, amargo ou simplesmente forte, como a couve, a beterraba, a romã, o marmelo ou o dióspiro, que convêm diluir.

Aconselho a livro a quem queira começar ou melhorar as receitas que já usa. Julgo que encontrará informação útil e equilibrada neste «Sumos e Águas Detox» de Lillian Barros, que até se encontra organizado por capítulos bastante amigos do utilizador, separando por ex. os sumos energizantes, dos para emagrecer ou daqueles para se preparar para treinar ou os que deve fazer para recuperar do treino, entre outras categorias.
Tenho consultado alguns livros nas livrarias, mas optei por este e gostei de "o conhecer".
Deixo a recomendação.

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Uma edição:
Leia mais sobre o livro nesta entrevista da autora.

«Se me restasse apenas uma hora para viver», de Roger-Pol Droit :: Opinião

Se vos restasse apenas uma hora para viver, viveriam-na a ler?
Não!?
Coincidência ou não, o autor concebeu um texto que é ao mesmo tempo uma reflexão mas também um relato inspirador sobre as coisas importantes da vida...
mas que se lê numa hora. Curioso?

Nascido em 1949, Pol Droit dedica este livro à neta, mas será este um registo pessoal? A narrativa na primeira pessoa deixam a pensar numa reflexão do seu percurso talvez necessária para corrigir o curso da vida, realinhar pensamentos e reposicionar prioridades? Logo perto do início, perante a ideia de morte, diz-nos "adeus vida, bom dia mistérios."
Será a morte uma sedutora caixa de mistérios que uns têm mais curiosidade de abrir que outros?

Pol Droit tem a certa parte deste curto percurso uma reflexão chave, já que eu olhei a este livro como uma reflexão para a vida de um escritor. Pensei no impacto daquilo que se deixa, daquilo que se transmitiu e que passa para o próximo. O escritor tem a palavra escrita e isso fica sempre.

"Que irreprimível necessidade leva os seres humanos a inventarem ficções para se aproximarem da realidade?"

Não bastaria a vida para nos fazer viver a realidade?
Será a ficção uma boa forma de viver a vida e se sim, será igualmente uma boa forma de experimentar a morte?
"fazem-me rir, os filósofos, com esse velho projecto absurdo de «aprender a morrer» como se fosse possível aprender aquilo que não se repete."

No pronuncio da morte anunciada chega a vontade de viver tudo o que até ali se evitou ou aquilo a que nos proibimos, acaba-se a tolerância, a prudência, os recalcamentos ou os medos, afinal a morte tem hora marcada.
"por que não explodir numa primeira e última pedrada inverosímil, resultado de todo os pós brancos, de todos os cogumelos, de todos os êxtases químicos possíveis..."
Apesar da explosão inicial, penso que o livro tem duas partes, inicialmente o choque e posteriormente aceitar que precisamos de cultivar outras coisas para que tenhamos uma vida mais real, mais consciente.

Na última hora ocuparemos a cabeça com que preocupações, com que frustrações ou ressentimentos? Ou pensaremos a felicidade fragmentada que pulsou ao ritmo dos acontecimentos e agora ao sabor das melhores memórias. Em que pensar? Que filtro aplicaríamos, se conseguíssemos, para só ter ideias que garantiam a melhor hora. Seria possível?

Julgo que perante a ideia de anúncio tão bizarro como o de saber a hora da morte a minha cabeça devia virar ainda mais anarca do que já o é ;))) Seria capaz de quebrar com a linha intermitente e obsessiva de querer compreender tudo? Talvez me preocupasse em eternizar momentos, se é que se levam alguns...
Talvez gostasse numa última hora abandonar-me simplesmente à alegria de sentir, sem ambição de compreender e evitar a angustia de não ter feito, lido, ouvido, visitado, amado... tudo o que havia por fazer.

Se inicialmente vamos pensando no lado mais pessoal do autor e daquilo que nos escreve, é inevitável não reflectirmos sobre nós próprios.

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Durante a leitura desta livro apercebi-me da existência do Projecto 2114, The Future Library, de Katie Paterson, que podem ler aqui no P3 ou no Blog Sentido dos Livros.

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Uma leitura com o apoio PLANETA.
A opinião da metade colorida aqui também no blogue.