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terça-feira, 14 de março de 2017

«A mulher que prendeu a chuva» de Teolinda Gersão :: Opinião



Originalmente publicado em 2007, «A mulher que prendeu a chuva» reúne quatorze contos de Teolinda Gersão, arrecadando dois prémios: Prémio Máxima de Literatura e Prémio Fundação Inês de Castro. O mesmo livro entrou também no Plano Nacional de Leitura. 

A propósito da participação da autora no Clube de Leitura do Lumiar, decidi revisitar este livro na sua 6ª edição que é de 2016, ano em que o li e mais precisamente no Verão, talvez por isso, o primeiro conto a que me atirei foi precisamente o último, «O Verão das teorias» para o qual o sub-título: reunionite aguda acentaria como uma luva, já que aqueles dois tios impuseram as reuniões como uma dinâmica familiar que aquelas crianças jamais iriam esquecer. É um conto delicioso e cheio de episódios caricatos, repletos de inocência e de magia que só os Verões em família podem ter... numa certa idade. 

"E a tia Serafina, que arrumava o armário, sabíamos que tinha um namorado que lhe escrevia cartas e ia aparecer no final do Verão para a pedir em casamento.
Pedir a mão, ouvíamos dizer. Ela podia mandar-lhe a mão, dentro de uma carta. Uma mão pintada, ou recortada, num papel. Nós sabíamos desenhar uma mão assim."

Depois de ter começado pelo fim, voltei ao primeiro conto e fiquei conquistada pela preocupação daquela mulher que não sabia em que língua deveria comunicar com o marido morto. É uma ideia brilhante, aliás todo o conto nos submerge numa metáfora muito interessante. 

"Não sabia onde estava e recordava-me só vagamente do meu nome. Mas não me esquecera o teu. Nem o facto de que estavas morto."

Não continuei o livro pela sua ordem e fui ler o conto que dá título à colectânea, maravilhando-me com a estória dentro da estória que fez ainda mais sentido quando entrei de seguida no conto "Se por acaso ouvires esta mensagem" e fiquei a pensar na ligação entre ambos os contos pela frase: "

Há palavras que uma vez ouvidas, nos mudam para sempre. Devias saber isso, afinal não eras tu mesmo que o dizia? É isso que eu pretendo, falando: mudar-te. Se me ouvires não poderás continuar como és, alguma coisa em ti se transforma e te coloca em movimento. Mesmo que apenas dês, na minha direcção, o menor dos teus passos."

Este foi um dos contos favoritos, mas também aqueles que falam de cidades que conheço e outrora visitei, tendo a Teolinda a capacidade de me colocar lá de volta, a locais que se fechar os olhos, revejo e reencontro, como as cores do Outono nas tonalidade do Tiergarten. 

"A vertigem do tempo. Um lugar reflectia outros lugares, os rostos outros rostos. Caminhavam ao acaso, deixando-se levar pelo que acontecia, porque eram os choques casuais com a banalidade que de repente se revelavam portadores de sentido, como iluminações momentâneas."

E se não é isto a essência de tantas viagens, o que é?

*
Agora é tempo de me lançar a mais outros quatorze contos, desta vez reunidos no livro «Prantos, amores e outros desvarios», uma edição Porto Editora.

segunda-feira, 6 de março de 2017

«Crash» de J. G. Ballard :: Opinião

Estranhos prazeres estes de ler livros e ver filmes cujo uma certa bizarria pauta grande parte da acção. É o caso de «Crash» de J. G. Ballard, tal como já tinha sido o de «Arranha-céus», onde o narrador se vê envolvido em acontecimentos visionários que exploram possibilidades derradeiras e colocam em cenários de violência os seus intervenientes. «Crash» não é excepção, antes pelo contrário é a obra mais destacada e chocante de Ballard pelo conteúdo erótico e exploratório do corpo humano brutalmente danificado pelos acidentes de viação.

Originalmente publicado em 1973 e adaptado mais de vinte anos depois por David Cronenberg, o conteúdo brutal deste enredo continua, ainda hoje, a surpreender e a explorar os limites da dependência de objectos como forma de potenciar ou promover as relações humanos.

"Após a sua última tentativa para matar a minha mulher, a Catherine, percebi que o Vaughan se tinha finalmente refugiado na sua própria mente. Nesse mundo vibrante dominado pela violência e pela tecnologia, ele estava agora a conduzir eternamente a cento e sessenta quilómetros por hora numa autoestrada vazia, (...) Na sua mente, o Vaughan via o mundo inteiro a morrer num acidente automóvel simultâneo, milhões de veículos a embaterem uns contra os outros numa amálgama final de ejaculações e líquido de refrigeração."

O caos dos corpos e do metal, num misto de superfícies amolgadas e marcadas pelos desastres, encaminharão as diversas personagens para outros desenvolvimentos não menos marcantes. Maioritariamente guiados pelas ideias de Vaughan, um homem perturbado, mas igualmente desafiante e de postura vibrante, capaz de reunir à sua volta um grupo de mentes perturbadas, recheadas de desejos de sexo e dor.

"Em muitas fotografias (...) via-se a imagem de um travão de mão, por cima do grande plano de uma vulva profundamente lesionada estava a imagem do centro do volante com o respectivo símbolo do fabricante. Estas confluências entre órgãos genitais lacerados e partes de carroçaria e painéis de instrumentos formavam uma série de módulos perturbantes (...)
Aqueles ferimentos pareciam autênticas iluminuras, quais manuscritos medievais, com os pormenores dos frisos do painel de instrumentos e das buzinas(...)"

As fotografias, as filmagens, a repetição dos acidentes são igualmente formas de excitação às quais recorrem para recriar fantasias. Tanto Vaughan como Ballard, o narrador, permitem-se a entrar em fantasias que evoluem numa espiral de violência e decadência, um por estar a atingir o seu limite de demência e o outro por estar a explorar a sua curiosidade mórbida.

*
Um livro ELSINORE

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

Balanceando entre os livros lidos... 2016

2016... esse ano híbrido, atípico, revolto, confuso...

Tenho cerca de (à vontade!!!) 20 livros aos quais devo um texto, desses 20, talvez uns 5 por terminar, com 2 deles a pesarem-me, pois não vejo forma de os terminar.
Quando comecei este registo achava que 2016 tinha sido um dos anos mais fracos em termos de livros lidos, mas fazendo este pseudo balanço vejo que foi um ano com boas descobertas e a confirmação da importância do conto. E afinal não foram assim tão poucos, eu é que tenho a mania de ver tudo enviesado!!!
Conto cerca de 50 lidos e comentados. Faltam os outros, o que estão na foto que encerra o balanço.
Ou seja, li então cerca de 70 livros. Está na média!

Sendo assim descobri:

- Desmobilizados de Phil Klay - http://efeitodoslivros.blogspot.pt/2016/02/desmobilizados-de-phil-klay-opiniao.html
Não sendo um livro nada fácilé um livro que nos leva à desfragmentação sentida pelos operacionais. Um livro que é o rescaldo da loucura da guerra.
"O gatilho estava ali, a pedir que eu o apertasse. Não há muitas ocasiões na vida em que tudo se resume a um «carrego neste botão?»"

- «Oculta» que veio afirmar Faciolince como um autor a seguir e por falar em seguir «Somos o esquecimento que seremos» está na lista para 2017.
http://efeitodoslivros.blogspot.pt/2016/02/oculta-de-hector-abad-faciolince-opiniao.html
Um livro sobre a Colômbia rural, mas mais ainda sobre o regresso à terra, às origens e o peso, a marca que é a família.
"La Oculta faz sonhar (...)
(...) às vezes apodreço de frio e de nostalgia por não estar lá, em La Oculta. O Jon ensinou-me o significado da palavra nostalgia. Nostos, em grego, disse-me ele, quer dizer «regresso», e algia, «dor», e tal como mialgia é a dor dos músculos, a nostalgia é a dor do regresso.

- A amiga genial
Em 2016 foi o ano da Ferrantomania, febre esse que não me pegou. Li o 1º volume e por aí fiquei.
http://efeitodoslivros.blogspot.pt/2016/02/a-amiga-genial-elena-ferrante-opiniao.html

- «Romance» de Hélder Macedo, numa tentativa de conhecer mais um autor português.
http://efeitodoslivros.blogspot.pt/2016/03/romance-de-helder-macedo-opiniao.html
Julgo correr o risco de não voltar a este autor. Apesar da beleza da escrita, o fio condutor é muito ténue e perde-se a história no meio de tanto disse que não disse, ama que não ama...
"um poema de silêncio
um romance que fosse
o que nele não fosse escrito
um olhar a olhar um olhar
a olhar em direcções opostas"

- «O primeiro muçulmano» lido a par com os volumes de Marek Halter, numa senda de conhecer melhor o Islão e os seus fundamentos.
http://efeitodoslivros.blogspot.pt/2016/03/o-primeiro-muculmano-de-lesley-hazleton.html
e os volumes de Marek Halter:
Khadija & Fatima: http://efeitodoslivros.blogspot.pt/2016/03/as-mulheres-do-islao-trilogia-de-marek.html
Ficam-me duas grandes frases:
"Se o homem fosse um rio, a mulher seria a ponte."
"As palavras são pássaros - disse-lhe. Se sabes abrir-lhes a gaiola, descobrem sempre para onde devem ir. E podes confiar nelas: conhecem os melhores ninhos."

2016 trouxe vários novos autores portugueses que descobri com imensas vontade e dos quais pretendo ler outros livros. É preciso salientar que talvez um deles tenha sido o (meu) livro do ano, a saber: «Impunidade» de Hélder Gomes Cancela.

- http://efeitodoslivros.blogspot.pt/2016/03/impunidade-de-h-g-cancela-opiniao.html
"Aquilo éramos nós, sem espaço para dúvidas. Cada um sozinho diante do outro como se permanecesse imóvel perante si mesmo. Não no reflexo de um espelho, susceptível de produzir um mínimo de identidade (...) continuava a ser eu. Continuava a ser ela (...) Com a extensão da posse e da privação, distinta na carne, no género, na vontade."

- Nuno Costa Santos - http://efeitodoslivros.blogspot.pt/2016/03/ceu-nublado-com-boas-abertas-de-nuno.html

- Isabel Rio Novo - http://efeitodoslivros.blogspot.pt/2016/03/o-rio-do-esquecimento-de-isabel-rio.html

- Patrícia Muller, com «Uma senhora nunca», de TOP!
http://efeitodoslivros.blogspot.pt/2016/07/uma-senhora-nunca-de-patricia-muller.html

Descobri ainda a escrita de Ana Cristina Silva e Lara Morgado, mas que não me conquistaram na totalidade:

- A noite não é eterna: http://efeitodoslivros.blogspot.pt/2016/04/na-romenia-de-ceausescu-sob-alcada.html
- As cores de branca: http://efeitodoslivros.blogspot.pt/2016/05/as-cores-de-branca-de-lara-morgado.html

Foi também ano de regressar a Afonso Cruz, num mini romance delicioso e num outro, todo ele musicado e que me conquistou, pois parece que os livros do Afonso chegam sempre quando mais me são precisos.
- Vamos comprar um poeta: http://efeitodoslivros.blogspot.pt/2016/05/vamos-comprar-um-poeta-de-afonso-cruz.html
- Nem todas as baleias voam: http://efeitodoslivros.blogspot.pt/2016/11/nem-todas-as-baleias-voam-de-afonso.html

Falando em regressos, 2016 foi também o ano de Possidónio Cachapa com a publicação de «Eu sou a árvore» que volta com o universo particular do autor de «Materna Doçura», mantendo tudo o que me agarrou à sua escrita.
- http://efeitodoslivros.blogspot.pt/2016/07/eu-sou-arvore-de-possidonio-cachapa.html
"As árvores sabem uma coisa que os homens negam. Que um segredo sobre o fim de tudo é, na verdade, apenas o começa de outra coisa qualquer.
(...) da forma como confundiam o tamanho das suas sombras com a dos próprios corpos.
(...)
Concluíam que os homens ora se vêem sementes muito ao fundo da terra ora carvalhos milenares acima da florestas."

Regressou também, Cristina Drios, com um romance arrebatador e digno de toda a adoração possível.
- Adoração: http://efeitodoslivros.blogspot.pt/2016/10/a-adoracao-de-cristina-drios-opiniao.html

E ainda, o caríssimo Carlos Campaniço que com muito humor nos brindou com Dom Rufia e suas aventuras:
- «As viúvas de Dom Rufia» http://efeitodoslivros.blogspot.pt/2016/07/as-viuvas-de-dom-rufia-de-carlos.html

Seguindo uma sugestão li «Regresso a Mandalay» que não me conquistou minimamente:
http://efeitodoslivros.blogspot.pt/2016/03/regresso-mandalay-de-rosanna-ley-opiniao.html
Acho que o interesse que alguns livros podiam ter perdem-se sempre para enredos amorosos já banais.

Um livro surpresa e sensação foi «A Resistência» do brasileiro Fulks que arrecadou prémios e destaques e de quem espero vir a ter a possibilidade de ler mais.
Um livro que é um hino à resiliência e à resistência, nem que seja a de continuar pensando!
http://efeitodoslivros.blogspot.pt/2016/03/a-resistencia-de-julian-fuks-opiniao.html

Num dia muito especial abracei «Seda» como se algo deliciado e ingénuo me pousasse entre as mãos. O resultado foi uma paixão assolapada por um pequeno livro, meio triste, meio longuínquo, carregado de amor e sensibilidade.
- «Seda» de Baricco: http://efeitodoslivros.blogspot.pt/2016/04/seda-de-alessandro-baricco-opiniao.html

Também em 2016 e muito fruto das temáticas que estão na ordem do dia, cheguei até à autora senegalesa, Fatou Diome que nos dá um olhar diferente e que pondera ambos os lados do Atlântico.
- «O ventre do Atlântico»: http://efeitodoslivros.blogspot.pt/2016/04/o-ventre-do-atlantico-de-fatou-diome.html

Sempre em busca de conhecer novos autores, mas também de seguir recomendações da comunidade de leitores, li alguns autores que não me arrebataram, tal como foi o caso de Meg Wolitzer de quem muito falam a propósito de «Os Interessantes». Li «A Mulher» e não fiquei fã.
http://efeitodoslivros.blogspot.pt/2016/04/a-mulher-de-meg-wolitzer-opiniao.html
Já o mesmo não se passou com Henrique Vila-Matas, não fiquei fã, mas fiquei curiosa q.b. para voltar aos seus livros. Dele escolhi ler « A Viagem Vertical», por ir de viagem e querer levar um autor até então desconhecido. Revelou-se uma boa introspecção.
http://efeitodoslivros.blogspot.pt/2016/07/a-viagem-vertical-de-henrique-vila.html

Outra novidade foi o livro «A factura» de Jonas Karlsson. que nos coloca a pensar nos nosso valor e que "factura" temos de pagar perante a felicidade que experimentamos. Foi uma boa experiência: http://efeitodoslivros.blogspot.pt/2016/07/a-factura-de-jonas-karlsson-opiniao.html

Também na corrida para os melhores livros lidos em 2016 tem que constar José Ovejero e a sua invenção em torno de Samuel.
«A invenção do amor» é um livro obrigatório!
http://efeitodoslivros.blogspot.pt/2016/05/a-invencao-do-amor-de-jose-ovejero.html

Nos lugares de topo está também o romance meio nonsense do francês Olivier Bourdeaut que me colocou a ouvir, quase diariamente, Bojangles na voz de Nina Simone.
Haja só um deus que dance comigo todos os dias ;)))
http://efeitodoslivros.blogspot.pt/2016/05/a-espera-de-bojangles-de-olivier.html

Para não lhe perder o jeito, de vez em quando lá leio um policial ou um thriller, mas há muito que não leio nenhum que me arrepie e me arranque alguns esgares de nojo ou surpresa.
- A saga de Arlidge continua: http://efeitodoslivros.blogspot.pt/2016/04/a-vinganca-serve-se-quente-de-m-j.html

Na tal corrida dos óscares literários terá também de integrar mais este autor colombiano, Juan Gabriel Vásquez de quem li dois livros e estou em pulgas para ler o recentemente publicado (Fev'17)
- «As reputações»: http://efeitodoslivros.blogspot.pt/2016/07/as-reputacoes-de-juan-gabriel-vasquez.html
"(...) a humilhação, toda a humilhação, precisa de uma testemunha. Não existe sem ela: ninguém se humilha sozinho, a humilhação a sós, não é humilhação."
«O barulho das coisas ao cair» é um dos que está à espera que eu lhe pegue e escreva.

Não sei se já tinha a minha quota parte de autores holandeses, mas neste ano paguei essa factura, li dois livros de Herman Koch e que bem que me souberam lidos os dois quase de empreitada. A voltar, decididamente!
- «O Jantar» http://efeitodoslivros.blogspot.pt/2016/11/o-jantar-de-herman-koch-opiniao.html
- Casa de férias com piscina» - http://efeitodoslivros.blogspot.pt/2016/07/casa-de-ferias-com-piscina-de-herman.html

A minha saga com latinos nunca tem fim e no catálogo da Quetzal descobri um autor que me era totalmente desconhecido e nas descrições da terra longínqua da Patagónia e afins descobri afinidades com o destino de férias que iria ter em breve. As descrições rudes, sós e silenciosas da Terra do Fogo tinham algo em comum com a Terra do Gelo. Li «Para lá da Terra do Fogo» de Eduardo Belgrano Rawson enquanto palmilhava a Islândia. Ficar-me-à para sempre.
http://efeitodoslivros.blogspot.pt/2016/07/para-la-da-terra-do-fogo-de-eduardo.html

Por falar em regressos, este foi o ano de continuar a saga dos Baltimor ou melhor dizendo regressar a Joel Dicker.
- «O livro dos Baltimore» - http://efeitodoslivros.blogspot.pt/2016/07/o-livro-dos-baltimore-de-joel-dicker.html

Julgo que em 2016 firmei o gosto por contos e esses pautaram essencialmente a segunda metade do ano. Nessa categoria Lucia Berlin está entre os favoritos com a sua colectânea «Manual para mulheres da limpeza». Brilhante!
http://efeitodoslivros.blogspot.pt/2016/07/manual-para-mulheres-de-limpeza-de.html
"Que outras coisas perdi? Quantas vezes na minha vida terei estado sentada no alpendre das traseiras, não no da frente? O que teria sido dito que não consegui ouvir? Que amor podia ter havido que eu não senti?
São perguntas vãs. (...)"

Outra surpresa foi o pequeno livro «Quero ser absurdamente feliz» que me arrancou gargalhadas enormes e que era, exactamente, o que eu precisava quando me cruzei com este livro.
- http://efeitodoslivros.blogspot.pt/2016/10/quero-ser-absurdamente-feliz-de-isabel.html
"Tirei uma alface aterrorizada e consumi-a, sacrificando também alguma fatias de pão proibido e um pedaço de queijo completamente vetado." ;)))

Tenho uma tendência para ler livros focados na família e este romance de John Fante não foi excepção. Voltei ao autor de «A confraria do vinho» e em boa hora aconteceu.
- «Cheio de vida» - http://efeitodoslivros.blogspot.pt/2016/10/cheio-de-vida-de-john-fante-opiniao.html

Mantendo as sugestões de alguns amigos leitores que aprecio, li, ou regressei a Juan José Millás e descobri um fio louco que conduz o leitor, fazendo-o atravessar os vários livros do autor. Desta feita li: «Desde a sombra»: http://efeitodoslivros.blogspot.pt/2016/11/desde-sombra-de-juan-jose-millas-opiniao.html
"(...)
- As pessoas - respondeu, visivelmente incomodado com a ironia do apresentador - já eu conhecia. Ia a Marte para não ter de aturá-las.
- É pouco sociável?
- Digamos que sou esquisito.
- Esquisito em que sentido?
- No sentido de ser uma boa pessoa. Eu sou uma boa pessoa, nunca fiz mal a ninguém, e isso afastou-me do mundo."

Na mesma senda, descobri Juan Marsé que com a divagação em torno da memória não me convenceu com o seu mais recente romance:
- «Essa puta tão distinta»: http://efeitodoslivros.blogspot.pt/2016/12/essa-puta-tao-distinta-de-juan-marse.html

Por último e de forma alguma menos importante, antes pelo contrário, está o brilhante romance, m tanto platónico, meio erótico, dividido e divagante de Paulo Varela Gomes, «hotel»
http://efeitodoslivros.blogspot.pt/2017/01/hotel-de-paulo-varela-gomes-opiniao.html

"O observador começa por ser confrontado com uma porta muito velha, perfurada por dois orifícios, através dos quais só uma pessoa de cada vez pode aceder à vista, uma função privada característica do voyeurismo. (...) os lábios do seu sexo estão mesmo em frente da abertura da parede. Todo o dispositivo está construído de modo rudimentar, mas a figura poderia ser interpretada como vítima de um crime..."

Descubro ainda, na Roda dos Livros que li mais alguns livros que publiquei só lá.
São eles:
- Sete Anos bons - https://rodadoslivros.wordpress.com/2017/01/27/sete-anos-bons-de-etgar-keret-opiniao/
- Uma dor tão desigual - https://rodadoslivros.wordpress.com/2017/01/17/uma-dor-tao-desigual-opiniao/
- A vida amorosa de Nathaniel P. (que não me conquistou!!!) - https://rodadoslivros.wordpress.com/2016/03/19/a-vida-amorosa-de-nathaniel-p-de-adelle-waldman-opiniao/
- «Nós os dois» lido a meias com os poemas de Carlos Drummond de Andrade - https://rodadoslivros.wordpress.com/2016/03/16/nos-os-dois-de-andy-jones-opiniao/
- «O coro dos defuntos» de António Tavares, de quem também tenho lido um outro de contos e que também ficou me ficou por escrever.
https://rodadoslivros.wordpress.com/2016/01/23/o-coro-dos-defuntos-de-antonio-tavares-opiniao/

Outro livro fabuloso, «A árvore das palavras» de Teolinda Gersão: https://rodadoslivros.wordpress.com/2016/02/02/a-arvore-das-palavras-de-teolinda-gersao-opiniao/
“Frases muito livres, por vezes quase obsessivas, que pareciam terminar mas voltavam, iguais a si próprias ou escondidas em variações como atrás de máscaras.”
E ainda o fabuloso regresso de Valter Hugo Mae com o seu «Homens imprudentemente poéticos» que, como não podia deixar de ser, está entre os melhores livros que li este ano transacto.
https://rodadoslivros.wordpress.com/2016/12/17/homens-imprudentemente-poeticos-de-valter-hugo-mae-opiniao/

Para, verdadeiramente e de vez, terminar este balanço, é preciso assinalar a minha presença no Deus me Livro que muito bem me fez, pena este ano híbrido que não me deixou colaborar mais e melhor. De lá, retiro ainda mais três boas leituras, entre outros que já foram anteriormente destacados. Estavam a faltar:
- «Macaco Infinito» estreando-me na prosa de Jorge Marmelo - http://deusmelivro.com/mil-folhas/macaco-infinito-manuel-jorge-marmelo-23-9-2016/
- «Cinco esquinas», em mais um regresso, desta vez ao Nobel Varas Llosa - http://deusmelivro.com/mil-folhas/cinco-esquinas-mario-vargas-llosa-16-7-2016/
- «Mulher de Porto Pim» também para me estrear na escrita de Tabucchi - http://deusmelivro.com/mil-folhas/mulher-de-porto-pim-antonio-tabucchi-13-7-2016/


sábado, 14 de janeiro de 2017

«Hotel» de Paulo Varela Gomes :: Opinião

Adicionar legenda
Apetece-me começar logo por dizer que «Hotel» foi uma das grandes leituras de 2016 e que o recomendo pelo brilhantismo que encontramos na escrita de Paulo Varela Gomes, mas também pelo intrincado artístico que encontramos no dito hotel, que é muito mais que um antigo palacete acastelado e propriedade de Joaquim Heliodoro que, brotado milionário recentemente deseja que as obras sejam capazes de o transformar numa peça de arte para a qual o leitor se dispõem, com muito gosto e admiração, a olhar e a querer conhecer, durante todo o livro.

"Era dele, dele!, aquela enorme casa, um mundo de recantos e desníveis, de portas e postigos, de passagens e escadas, de corredores e impasses, por onde podia, se quisesse, andar livremente, cosido às paredes como um espião, ou todo-poderoso como um fantasma, onde podia abrir todas as portas, deitar-se em todas as camas, repousar em todos os sofás, refrescar-se em todas as casas de banho, olhar para o seu feio corpo em todos os espelhos."

Para além da arquitectura e de uma certa adoração aos ornamentos e ao detalhe, existe todo um lado carnal e de retoque erótico que vai alimentando uma curiosidade no leitor, especialmente pelas preferências escopofílicas de Heliodoro. Cedo ficamos a perceber o seu desejo incontrolável de observar. Percorremos corredores, subimos e descemos escadas juntamente com este personagem longilíneo e leptossómico, na ânsia de, entre coisas não ditas e lições de arquitectura, possamos compreender o jogo erótico que se poderá esconder por detrás de tão misterioso espelho.

"(...) e tudo se decidiu num intervalo de tempo, mas também num lugar preciso, uma casa, porque a escopofilia, diferentemente de outras orientações sexuais, resulta directamente das características do espaço que separa o olhador do objecto olhado, do modo como a luz ilumina certos lugares e se afasta de outros (...), quer dizer, a escopofilia é uma pulsão arquitectónica e arquitectada, a ponto de o lugar (...) adquirir uma intensidade erótica que subsiste muito para além do olhar."

Paulo Varela Gomes escreve prodigiosamente, o impacto da linguagem e o poder de inúmeras descrições conferem à narrativa toda uma outra dimensão e profundidade, tal como a Joaquim Heliodoro. O enredo não avança durante inúmeros capítulos, mas no entanto toda a erudição alimenta o leitor com curiosidades e conhecimentos que se tornam suculentos e completam muito bem a acção.

"Disse ao casal, o seu fascínio quase hipnótico pelo exercício da erudição, uma espécie de arte de memória e da minúcia, nas suas palavras, uma arte ao mesmo tempo de arquivista e de presciente (...). O erudito é aquele que faz melhor uso do arquivo da memória. (...)
(...) a remissão para autores ou fontes não prova nada, só prolonga a espiral do conhecimento, vertiginosa e sem destino, sem fixação possível."

É com Heliodoro, Margaret, Laszló Batory e Manuela que andamos nesta espiral, que se prolonga num livro maravilhosamente hábil, inteligente, delirante, intrincado e divertido que ora esconde, quase que por pudor, ora desvenda e explica de forma enciclopédica e explícita e vai mimando o leitor, tornando-o ele mesmo num voyeurista dissimulado, mas viciado nos pequenos alarmes que se vão acendendo à medida que o mistério avança.

"O observador começa por ser confrontado com uma porta muito velha, perfurada por dois orifícios, através dos quais só uma pessoa de cada vez pode aceder à vista, uma função privada característica do voyeurismo. (...) os lábios do seu sexo estão mesmo em frente da abertura da parede. Todo o dispositivo está construído de modo rudimentar, mas a figura poderia ser interpretada como vítima de um crime..."

Se quisermos podemos ainda olhar a este hotel, com os seus quartos e corredores, dignos de desencontros e conjugações que entre si permitem diversas orientações ou atalhos para o enredo. O enredo é a vida. O hotel é a vida de Joaquim Heliodoro, a obra que um homem pensa, desenvolve e na qual toma parte, um legado, um feito para observação e contemplação póstuma. Em paralelo com estas conclusões, mais para o final do livro, existe um capítulo fabuloso que encerra em si, exactamente, esta noção de que a vida é uma combinação de desencontros e conjugações.



quinta-feira, 15 de dezembro de 2016

«Essa puta tão distinta» de Juan Marsé :: Opinião


«Descobrimos a verdade, e a verdade não faz sentido.»
G.K. Chesterton

Começamos pelo fim, digamos assim. A descoberta da verdade. Tal resolução não nos salva, não sara as feridas que o tempo acumulou, não encerra a máscara que usámos! É apenas a verdade e, muitos anos depois, que importância tem? Que sentido traz ao agora?

"Sempre acreditei que a verdade, na ficção como na vida, nasce às vezes do que não tem sentido e oferece-se-nos como um presente."

A verdade pode e é muitas vezes, asséptica, testemunhal e até convencional. Então para que a queremos? Será o desejo da verdade uma veleidade da memória? Uma exigência das reminiscências e rasteiras que a memória nos passa?
Que verdade vem com a memória? Quantas nuances se encarrega a vida de nos dar para satisfazer a cumplicidade criativa a que a memória apela?

É nessa cumplicidade criativa que julgo que este livro se insere e se torna peculiar. É preciso descodificar e descobrir os factos verídicos de um crime, resolvido com contornos menos transparentes, para produzir um guião para um realizador caprichoso. Um escritor reconhecido, mas relutante, decide aceitar o trabalho e proceder à tal investigação, tanto a documentalista como a presencial já que o assassino ainda é vivo. Fermín Sicart passa então a encontrar-se com o escritor e a sua cinéfila empregada e vão libertando, a pouco e pouco, doses de informação para uso doméstico.

O livro demora-se, o guião atrasa-se e o leitor (talvez!?) vá perdendo o fôlego e a certa parte pensa em ir ver ou rever «Gilda», filme o qual estava a ser projectado aquando do homicídio no cinema Delícias. Barcelona, 1946.

Verdade seja dita que o rumo que o livro segue, infelizmente, é decrescente. Começa com todo o impacto, como se de um ataque emocional se tratasse, promovendo uma leitura, inicialmente, imparável. No entanto, a distorção inicial que motiva o leitor, torna-se arriscada ao continuar, pois já não surpreende. Vale-nos sempre a azáfama cinéfila e capítulos com trechos fabulosos. As considerações sobre a palavra e a ligação à política, as cenas pensadas para o potencial filme ou as que descrevem o «Gilda», são partes extremamente bem conseguidas.

"(...) até que comecei a perguntar-me quanto de fantasia haveria na sua melancólica e magoada evocação. (...) numa memória sonâmbula como a dele, reelaborada por instâncias alheias tão suspeitas e nefastas, as incongruências, os lapsos e os enganos podiam ter tanto ou mais interesse que as verdades (...)
Agora, enquanto estava a ouvi-lo, pensei que o seu infeliz histórico clínico desmentida aquele célebre máxima de Friedrich Richter segundo a qual a memória é o único paraíso de onde não podemos ser expulsos. "

Será a memória um paraíso?
Julgo que não dá para contornar esta pergunta e ela ressoa em nós, constantemente, o livro inteiro.

" Quanto ao resto, eu sabia perfeitamente que recordar é interpretar, é ver as coisas passadas de uma determinada maneira."

A narrativa segue entre relatórios, apresentação de personagens, dúvidas e enigmas, mas o lado revelador ou a promessa da verdade e alguns retoques das cenas,  não são suficientes para garantir o interesse do leitor. Julgo que ficaremos presos ao inicio ou ao duplo início e ao jogo de adivinhação cinéfila, tentando nós responder a Felicia. Talvez das personagens mais interessantes. Ou ela, ou o potencial de Encarnita.

*
Este texto estará igualmente publicado no Deus me Livro e na
Comunidade de Leitores Roda dos Livros.

sábado, 26 de novembro de 2016

«Nem todas as baleias voam» de Afonso Cruz :: Opinião



ABERTURA 



"A realidade é apenas uma fantasia exageradamente bem penteada, disse o escritor sérvio Goran Petrovic. O que me agrada particularmente nos blues é precisamente a recusa em pentear a realidade (...). Nos blues há uma denúncia constante da opressão, da injustiça, do racismo, da miséria."

*

A genialidade, a desordem, a excitação e a entrega que visualizei neste vídeo de Glenn Gould foi exactamente o que fui sentido ao longo da leitura deste «Nem todas as baleias voam», por isso fez-me todo o sentido unir esta peça de Bach, tocada por um outro Gould ao Gould que Afonso Cruz criou, oferecendo ao leitor um enredo carregado de blues e de frases com dotes de pugilismo, tal como esta, presente na abertura deste livro, que eu diria que encerra em si mesmo um género de caixinha de sapatos para doentes terminais, coleccionadores de dores, mas também de muitos pequenos momentos de magia.

"Traço mapas com histórias obscuras, que iluminam becos, atalhos, lugares que ninguém se lembraria de percorrer."

Desde cedo percebemos que há aqui uma ode ao belo dentro da maldade e do mal, aliás somos logo avisados para essa maneira sórdida e até perversa de alimentar esse engenho do mal, do medo e do aberrante como solução para nos mantermos à tona, à superfície da sobrevivência. 
Parece estranho? Se não o fosse é que seria de estranhar. Estamos novamente perante um livro intenso e imenso de Afonso Cruz, onde as personagens e as histórias se cruzam de tal forma que, mesmo a muitos quilómetros de distância, ganham uma intimidade que chega a fazer doer. 

"Depois abria os olhos, concentrava-se nas fotografias do atlas correspondentes ao território escolhido pela ponta do dedo (as fotografias ficavam sempre com a marca da unha do indicador, porque Tristan, ansioso e triste, deixava que alguma violência lhe saísse pelo dedo ao pressionar o lugar onde estaria a mãe.
(...)
- Onde estava ela?
- No mar.
Naquela manhã não lhe apeteciam frases compridas, foi só isso, mar, que é uma das palavras mais profundas e o lugar onde o dedo se espetara, uma marca de unha de indicador no meio da água."


RELATÓRIO GOULD




Julgo que o leitor vai entrando lentamente e vai sendo atraído para esta espécie de improvisação que pauta a estratégia do autor em nos encher os sentidos e nos explorar as emoções, apelando à palavra escrita, à cantada ou até àquela que não se ouve, mas está lá, saindo pela ponta de uns dedos que exprimem afecto e sentimentos profundos, tocando melodias que são autênticos relatórios das marcas que o tempo deixa. 

"(...) uma lesão incurável. 
- Vês?
- Não há pomadas?
- Dizem que o tempo cura.
- O tempo é uma pomada?
- Uma espécie de pomada.
- Não tem funcionado, pois não?
- Não. É que também vamos criando afecto pela dor, ela diz-nos que estamos vivos (...)"

EPÍLOGO



"O corpo dela cheirava agora a sabão, mas não disfarçava o odor intenso a uma certa solidão que lhe dava um ar quase etéreo, de quem vive acima do lodo do quotidiano (...)"

É neste acima do lodo do quotidiano que a história vai avançando, orientando-se na geografia do que é estranho, mas se intromete nas vidas, pejadas de dor e de solidão, mas também abertas à esperança que desponta aqui ou ali, como uma música que passa por uma frincha, uma brecha e nos entra na cabeça e permite a redenção que todos procuramos, corrigindo diferenças e tratando-nos do coração. 


MENSAGEM ARQUIVADA




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Este texto estará igualmente publicado no Deus me Livro e na
Comunidade de Leitores Roda dos Livros.

Uma leitura com o apoio da ALFAGUARA.

sexta-feira, 18 de novembro de 2016

«Desde a sombra» de Juan José Millás :: Opinião


Perante mais uma leitura a um livro de Juan José Millás, tenho vontade de começar este texto exactamente com a mesma frase com que caracterizei o anteriormente lido, «A Mulher Louca», no entanto, basta acrescentar que a arquitectura deste enredo torna-se inquestionável, pois o autor não esqueceu nenhum detalhe. Quanto à criatividade, que parece pautar todos os seus livros, Millás volta a tecer uma barreira muito fina que filtra a realidade de forma muito pertinente, fazendo sempre a acção evoluir. Já os rasgos de loucura que pautam este «Desde a Sombra» remetem a lugares do imaginário comum, o dos fantasmas ou dos esqueletos no armário. 

"Ali estava ele, incrivelmente, a fazer-se passar por um fantasma enquanto lá fora a vida seguia um curso de que se retirara como quem se apeia de um autocarro."

Um armário é o mote para um indivíduo desprovido de vida própria, Damián Lobo, entrar numa casa e nas vidas de uma família que se alimenta de problemas usuais e estabelece com o armário uma relação de amor/ódio. Ainda assim, sentimos essa tensão muito ténue, eu diria que é quase inexistente ao início, mas a forma como o armário penetra na vida daquele casal, faz crescer todo o delírio de quem lá se esconde. E cresce no leitor a curiosidade por saber se ele será ou não apanhado em deambulações domésticas.

Se em «A mulher louca» tivemos um Millás de lá e um de cá, neste temos um armário que cria com a sua presença, lados e perspectivas também de lá e de cá, para um casal com inúmeras dificuldades de comunicação e só por essa falha abrem espaço para essa sombra, que com o tempo ganha corpo e um lugar entre eles. Mas não só. Há mais lados a considerar, pois Damián tem vozes a quem responde como se estivesse a ser entrevistado e seguido por um apresentação, Sergio O'Kane, com quem tece avaliações quase sociológicas.

"Viu toda aquela vida que ainda estava a tempo de recuperar, mas que lhe parecia alheia. Podia apropriar-se dela sem dificuldade, pois dispunha da documentação necessária, mas não se via lá apesar do momento de pânico por que passara cá."

Toda a beleza desta narrativa passa por, tanto rirmos como reflectirmos, com uma sombra que é um facilitador da felicidades alheia, um fantasma bebedor de água e com dotes de fada do lar que se incrustou na vida de Lucia e Fede, ganhando uma corporeidade insólita que até a esfera virtual chegou. Parece estranho e sem sentido? Pode ser, mas ainda assim não é tudo, pois Millás tem em pouco mais de cem páginas um universo próprio pejado de detalhes que são de todos nós.

"(...)
- As pessoas - respondeu, visivelmente incomodado com a ironia do apresentador - já eu conhecia. Ia a Marte para não ter de aturá-las. 
- É pouco sociável?
- Digamos que sou esquisito.
- Esquisito em que sentido?
- No sentido de ser uma boa pessoa. Eu sou uma boa pessoa, nunca fiz mal a ninguém, e isso afastou-me do mundo."

Toda esta paranormalidade do real que Millás vai construindo à frente do leitor, aproximando o sórdido ao belo, o anormal ao usual ou a paranóia como aceitável e talvez até saudável, faz-nos querer continuar a lê-lo sempre com imensa curiosidade. 

*

terça-feira, 15 de novembro de 2016

«O Jantar» de Herman Koch :: Opinião



Menu:
- um restaurante difícil de reservar
- dois casais de meia idade
- uma pitada de mediatismo
- uma mão cheia trivialidades 
- violência verbal em temperatura controlada
- crimes q.b.
- uma boa dose de aparências para polvilhar 

*

Convêm que pegue neste Jantar logo com um bom digestivo, forte, caso contrário ficará empanturrado com tanto osso duro de roer e alguns condimentos mais abrasivos. Herman Koch não poupa as suas personagens e coloca-as de tal forma na ementa que faz com que o leitor se sinta indeciso, entre qual delas escolher para odiar mais. Digamos que este evento familiar está recheado de pratos de assinatura, mas com um sabor e conteúdos indigestos, ou não fossem eles família e todos a necessitar de manter as aparências. 

A tragédia familiar está na mesa ainda antes de qualquer aperitivo, de um lado Serge e Babette, do outro Paul e Marie Claire, no meio um crime cometido pelos filhos de ambos os casais. Como resolver a situação será um assunto tão quente quanto a discussão gastronómica. 

"Se tivesse de definir felicidade, seria assim: a felicidade basta-se a si mesma, não precisa de testemunhas. «Todas as famílias se parecem; cada família infeliz é infeliz à sua maneira», é a primeira frase de Anna Karenina, de Tolstói. No máximo, acrescentaria que as famílias infelizes - e logo, dentro dessas famílias, os casais infelizes - nunca conseguem sê-lo sozinhas. Quanto mais testemunhas, melhor. A infelicidade procura sempre companhia, não suporta o silêncio..."

Eu diria até que esse silêncio é insuportável, e o é mais ainda, quando uma família tem entre si aspectos dos quais se quer desenvencilhar, sem que disso sobrem feridas irreparáveis. No entanto, a complexidade das relações pode moldá-los para a indiferença e a falsidade, desde que isso garanta que todos saem ilesos. Contudo, os acontecimentos ganham contornos espinhosos e se a certa altura todos os questionamentos indicam uma só saída, o autor trabalha-a de uma forma doentia, provocadora e controversa que propõe dar resposta à questão inicial: até onde iria para proteger a sua família?. 

"(...) Partilhávamos algo. Algo que antes não existia. É certo que não partilhávamos os três o mesmo, mas talvez não fosse necessário. Não era preciso saber tudo de todos. Os segredos não impedem a felicidade."

Feitas as contas, pode sair sempre sem pagar a despesa, ainda assim há quem fique com uma parte mais pesada da factura, um lado mais invisível. Porém, quem é que não esconde para si, o seu lado mais negro!?

*
Uma outra leitura de Herman Koch «Casa de férias com piscina» - leia a opinião aqui.

terça-feira, 25 de outubro de 2016

«Cheio de Vida» de John Fante :: Opinião


Apreciem o arranque deste relato:

"Era uma casa grande porque éramos pessoas com planos em grande. O primeiro já lá estava, um monte na barriga dela, uma coisa que se mexia com movimentos intensos, deslizando e contorcendo-se como um novelo de serpentes. (...) Tinha a coisa dentro de si e estava alheada, altiva, com uma aura de beatitude. 
Todavia, eu não gostava da protuberância." 

É isso mesmo, beatitude, humor, algum alheamento e muitos planos. É assim este «Cheio de Vida» de John Fante que mais uma vez me conquistou como aquando da leitura de «A confraria do vinho». Com uma linha cronológica mais firme, vamos acompanhando as peripécias da evolução da protuberância de Joyce juntamente com o marido, o próprio Fante. No entanto, para o quadro familiar ficar completo precisamos que Nick Fante salte para cena e o autor não deixou o pai ficar de fora. Nem ele, nem as suas manias que conferem a atribulação necessária ao seio familiar. Se o leitor julgava que as térmitas iriam ser o pior problemas deste casal com uma casa grande, desengane-se.

"Eles estavam arregimentados contra mim, e havia um muro a separar-nos, uma lareira."

"- Então? - disse ela.
- Quero falar contigo.
- A sim?
Começou a escovar o cabelo.
- Quero que te deixes de parvoíces. Nada de pegar em pesos. Nada de partir pedras. 
- É tudo?
Queria abaná-la.
- Cheguei a uma decisão. Pára com isso ou saio desta casa.
Ela esboçou um sorriso e sacudiu o cabelo molhado.
- Podes sair a qualquer altura.
- É essa a tua decisão?
- Sim, querido. 
Carrancudo, saí do carro. A escolha tinha sido dela. Fora ela a decidir. Mas não saí. Não se pode deixá-las quando estão naquele estado."

O humor e a emoção são uma constante em todo o livro, sem nunca perder o traço da simplicidade que caracteriza a sua escrita, no entanto, Fante mantêm a tensão e a intimidade, abordando as alterações na vida de um casal prestes a ter um filho. As dúvidas, os medos, as inseguranças e claro, o próprio conceito de família que testam a boa saúde de qualquer relação.

"Como se fosse uma pedra, a criança pôs-se entre nós."

O mito do american way of life choca, recorrentemente, com as raízes italianas da família Fante, especialmente quando esta nova vida traz consigo o chamamento religioso, ainda assim quando as situações se tornam dignas de cada um rugir para seu lado, os diálogos formam como que um rodopio, revelando toda a boa disposição e esperança que este livro encerra.

"A Mamã sorriu.
- Porque salpiquei a vossa cama com sal.
O Papá riu-se.
- Pois foi. Sal na cama. Fui eu que dei a ordem.
Aquilo era muito irritante. Presunçosos, ficavam com os louros de tudo."


Um livro ALFAGUARA | Penguin Random House Grupo Editorial

quarta-feira, 19 de outubro de 2016

«Quero ser absurdamente feliz" de Isabel Losada :: Opinião

AVISO AO FUTURO LEITOR!!!
Não me responsabilizo por estados eufóricos, fruto de ler e não conseguir parar de rir.

«Sabe aquelas pessoas que irradiam sempre um optimismo alegre independentemente do que lhes esteja a acontecer na vida? Repugnantes, certo? Quero ser uma delas. […] Quero descobrir como viver a vida inteiramente, abundantemente, alegremente, estupidamente. Esta é a minha demanda. A iluminação espiritual.»

Isabel Losada traz-nos, sem dúvida, um livro alegremente provocador, inteligente, atribulado e honesto, tal como os jornais internacionais a destacaram.

É difícil explicar o quão divertida pode ser esta leitura se ainda não tiverem passado por nenhuma destas experiências ou nem sequer pensem em passar, ainda assim, só pela curiosidade é hilariante pensar em workshops entre freiras ou dança de deusas da fertilidade ou coisas mais evasivas como irrigação do cólon ou a busca pelo nosso anjo da guarda. No entanto, essas formações existem e estão espalhadas por inúmeros países, dando origens a imensos programas, palestras e livros e torna-se muito divertido ler sobre tais situações pela mão desta autora, já que a forma como se auto-questiona é um misto de displicência e de desejo em acreditar que seja possível. E melhor, vai sendo.

"Tirei uma alface aterrorizada e consumi-a, sacrificando também alguma fatias de pão proibido e um pedaço de queijo completamente vetado."

Entre de coração aberto para este relato de incursões nas práticas dos New Age, ainda assim não espere receitas infalíveis, nem planos de 7 dias ou programas de guru, há sim uma constante vontade de olhar à vida como ela é, com a necessidade de crescer emocionalmente e com isso sim chegar a patamares (ténues e até meio desfocados) de felicidade.

"O passado acabou. A única validade no acto de nos lembrarmos de vidas passadas consiste em pô-las no passado."

"-Gostaria de experimentar chavati thirumal?
Não é todos os dias que ouvimos alguém perguntar-nos isto. Dá a sensação de que a resposta deveria ser: «Não. Acho que prefiro tikka masala.»"

E atenção, este livro é sobre atribulações no caminho para a iluminação, não os passos certos para esse estado do absurda e estupidamente feliz, mas realmente, só andando é que se faz o caminho, teste lá este feito em 14 fases.

"Fase oito: de cabo a rabo
(...)
Irrigação do cólon.
Em Nova Iorque, se nun a tiver feito, as pessoas olham para si com nojo. Seria o mesmo que admitir publicamente que nunca tomou banho.
(...)
- Qual é a sua regularidade? (...)
- Uma vez por dia? Uma vez por semana? (...)
- E quando acaba, sente que o trabalho foi completo?
- Ah, a completude! Não era isso o Caminho para a Iluminação?"

Se desejar banda sonora, clique aqui.

Um livro SINAIS DE FOGO.

quarta-feira, 27 de julho de 2016

«As viúvas de Dom Rufia» de Carlos Campaniço :: Opinião


"O vendedor pensou mal de si; pensou que a deferência que lhe notara nos olhos fora coisa engolida pelo bolor da solidão..."

"Firmino jurava ao tio que nascera para estar ali, para ser aquele homem, e não o que fora parido tão pobremente. «Quem fabrica os destinos também tem direito a errar uma vez ou outra. O meu, como vinha enganado, foi preciso emendá-lo», disse ao tio com sorriso de troça, enquanto sorvia copos de champanhe. 

Não se engane é o leitor e fique com este livro por ler!

Carlos Campaniço regressa ao Alentejo, criando um cenário de uma terra típica como muitas outras alentejanas, como a sua Safara, numa época onde as lides da recente República se sentem na presença da Guarda Nacional Republicana. Neste caso, a mãos com o homicídio de Firmino António Pote, de sua alcunha ou baptismo popular, Dom Rufia ou também Dom Morto. Mas que não lhe caia o nome em desgraça e perca o Dom, pois tudo este homem fez para obter melhor título e posição social. No entanto, talvez o charme e o bigode fininho lhe atrapalhassem os planos, já que as mulheres foram muitas e quase lhe arruinaram o dom da ubiquidade.

Na ânsia de enganar o destino e os corações de quem se perdia de amores pelos seus atributos, Dom Rufia foi conseguindo troçar do destino e inventar uma nova vida. Uma não! Uma por cada vila alentejana e respectiva mulher. Podemos até dizer que ele reencarna a ideia do homem dos sete ofícios sem ter tido ofício nenhum.

"Lembro-me como se fosse hoje como se iniciou no contrabando e na venda de canários do Brasil.
Aquelas palavras, ditas em tão sossegado ar, foram uma espécie de toque de cornetim. A gente que estava apardalada sacudindo o sono e pôs-se em sentido, ademais falava Teresina e ela podia não gostar que não se desse atenção às suas lembranças, sendo essa uma forma usual de pranto."

Maria Teresina, tia e mãe de criação de Dom Rufia é a meu ver, a personagem feminina com mais personalidade, as cenas que têm acções suas são sempre de risada total. Aliás todo o livro está repleto de humor, não só pelas aventuras do próprio Firmino, como pelo uso rebuscado da língua, que lhe dá toda uma outra graça. Através de todas as outras mulheres o leitor sabe, pela voz do narrador, das fanfarronices e das diatribes persuasivas do personagem e somos incapazes de não rir e não nos divertirmos com ele.
Todo o livro tem o velório a pano de fundo, mas todo ele tem uma aura sarcástica e humorística, pela forma como se vai sabendo da vida deste alentejano peculiar, para não lhe chamar mentiroso.

"Com uma educação treinada para angariar simpatias, e depois de tanto contacto com os melhores salões e as mais educadas famílias, os gestos e os dizeres de Firmino deixavam as senhoras deleitosas. Um homem gentil e importado com as mulheres, num tempo de maridos afirmativos, era uma sombra naquele grande deserto que era a igualdade de géneros, onde nem a palavra nem o conceito haviam ainda sido inventados."

De Fernão Baixo como vendedor de canários, a passagens por Évora para actividades ilícitas, ou em Alvito para lides de médico, Firmino foi sempre surpreendendo, juntamente com um conjunto de personagens, umas mais especiais, outras com um toque de surreal, uns bonacheirões, outros mais pantemineiros, o que é certo é que o rol delas é afinado perante a exigência de cada situação. De destacar são também os nomes de cada um que só por si colocam logo um sorriso no rosto do leitor.

Senti até que toda a intriga se chega muito próxima à mestria do autor em «Os Demónios de Álvaro Cobra», dando, sem dúvida, um enlevo diferente a este livro que desencabresta o leitor. ;)

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Em função de algum alentejanar talvez possa o leitor sentir curiosidade e desejar a consulta mais atenta deste Dicionário Alentejano. Para a leitura do livro, é claro!


Um livro CASA DAS LETRAS | LEYA


sexta-feira, 22 de julho de 2016

«Eu sou a árvore» de Possidónio Cachapa :: Opinião


Quando assistimos ao lançamento de um livro ficamos logo um pouquinho mais ligados a ele, certo?
Vimos de lá de livro na mão, na maioria das vezes, e somos incapazes de não espreitar como começa.
Este começa assim:

"Nenhum de nós sabe o que sente Hyperion entre as árvores de Redwood. Ou o que avista esta sequóia gigante ao sobrancear o resto da floresta (...)
O que sente a mais alta das plantas, Hyperion, a que não vai a lugar nenhum?
Sonhará a árvore com o som dos seus membros a quebrar, com a dor gigante de quem cai de uma descomunal altura, com a vibração dolorosa das coisas que se partem, a vir desde as raízes mais fundas até à última das folhas?"

Não é com Hyperion que seguimos por esta floresta dentro. Seguimos antes o rasto de Samuel, também ele do alto da sua solidão, da sua dor que se agiganta com o passar dos anos. A vibração sentimo-la pela escrita muito próxima e real de Possidónio Cachapa que consegue abarcar com uma árvore só, e os seus ramos, muitas das ramificações da vida.

"As árvores sabem uma coisa que os homens negam. Que um segredo sobre o fim de tudo é, na verdade, apenas o começa de outra coisa qualquer.
(...) da forma como confundiam o tamanho das suas sombras com a dos próprios corpos.
(...)
Concluíam que os homens ora se vêem sementes muito ao fundo da terra ora carvalhos milenares acima da florestas."

É nesta oscilação entre sementes e carvalhos milenares que vamos encontrando personagens como Jude e Samuel ou os seus três filhos, Laura, Esperanto e Vitória, mas também ao inspector Casaca (que sem o inspector atrás não tem a postura de uma árvore) e a Marcelino. E isto sem esquecer de Mário ou das famílias que alimentaram silêncios e condicionaram futuros.

"Numa altura em que o mundo era muito diferente. Onde se achava que o futuro seria algo mais do que uma parede espessa que os impediria de chegar a qualquer lado.
(...)
O silêncio tem, entre os medíocres, a fantástica virtude de permitir falar por cima."

É difícil falar sobre este livro sem revelar detalhes da história de Samuel, mas revejo nele algumas das preocupações com a família, recordando-me o «Materna Doçura». Quando o li, salientei a escrita devoradora. E aqui, isso repete-se. Há uma energia devoradora nos enredos que Cachapa constrói. Uma preocupação constante com o amor e com a necessidade de sermos benévolos e carinhosos. Estando a redenção maior no amor aos outros. Voltando assim ao amor de sangue, o amor aos nossos.

"(...) tomar conta dos outros, às vezes temos de parar, abrir-lhes apenas os braços e ficar ali, sem fazer nada. (...) Rir com eles. Ser amado e amar. Só isso. Ou não deixar que a necessidade de abrir o ventre da terra, ciclicamente, se torne uma obsessão. O vício que tudo cega. A terra dá e a terra tira. Porque a terra espera também o dia em que será vencedora sobre o corpo físico do homem. Nela entrará a sua carne ou pousarão as suas cinzas."

Neste «Eu sou a árvore» há a presença constante da morte. A morte nas mais variadas formas. E talvez esse peso esteja cá para lembrar o quão frágil e efémera pode ser a vida quando abandonada apenas à brutalidade do destino, misturado aqui com a ruralidade com que se cruzaram estas vidas.

"E Samuel, com o coração cheio, esqueceu-se de que nunca antes as tinha visto, muito menos tocado um daqueles troncos rugosos, um ramo um pouco mais velho do que ele próprio e que parecia comunicar consigo.
(...)
Samuel tirou as mãos dos bolsos e viu que estavam brancas e duras. Mãos-montanhas, prontas para lutar amorosamente com a dureza da terra. E assim foi."

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Um livro COMPANHIA DAS LETRAS | Pengin Random House

«Manual para mulheres de limpeza» de Lucia Berlin :: Opinião


A critica é unânime. Lucia Berlin é largamente aclamada e premiada. No passado mês de Junho, "Manual para mulheres de limpeza", foi o título ganhador do California Book Award, destacando o melhor livro de ficção nos Estados Unidos, e ainda o Prémio Libreter que destaca o melhor livro de literatura estrangeira em Espanha, atribuído pelo Grémio de Livreiros da Catalunha. Os jornais The New York Times e The Guardian atribuem-lhe o selo: "descoberta literária do ano". Por cá, quem o publica é Alfaguara, do Grupo Penguin Random House que reúne 43 das 76 histórias que são conhecidas de Lucia Berlin. Segundo a editora, "um estilo muito próprio", "faz eco da sua própria experiência -- tão rica quanto turbulenta".


A forma esporádica como foi escrevendo deixa na sua escrita a marca do dia a dia, trazendo-nos histórias que sobrevivem tanto à banalidade como ao peso do quotidiano. A realidade relatada nos escritos de Berlin foi associada à sua própria vida. Talvez seja essa autenticidade associada à brutalidade em muitas das partes da sua narrativa que lhe conferem uma importância ainda maior. Os seus contos oscilam assim, tal como a vida, entre episódios peculiares e divertidos, mas também momentos dramáticos e perturbadores que se conhecem por terem pautado a sua atribulada vida.

A selecção dos contos foi muito bem feita e até a forma como vão surgindo no livro, permitem-nos acompanhar o passar do anos, mas também, atingir um ponto tal de confusão entre relatos pessoais e ficcionais, ao ponto de o leitor não conseguir dizer ao certo que fio condutor rege estas vidas, mas será preciso?

"Que outras coisas perdi? Quantas vezes na minha vida terei estado sentada no alpendre das traseiras, não no da frente? O que teria sido dito que não consegui ouvir? Que amor podia ter havido que eu não senti?
São perguntas vãs. (...)"

A força da sua escrita sente-se de tal forma que em breves parágrafos e com a energia que nos transmite, passamos a ser testemunhas de cada acontecimento. É como se estivéssemos lá. E termos lá chegado valida cada momento ali descrito. Em alguns deles, Berlin parece contar-nos segredos, como se sussurrasse aquelas palavras, e dessas vezes, a força é mais contida, como que sufocada, mas muito mais profunda. Há dor, drama, muitas lágrimas e medo, nas linhas que rebatem certos acontecimentos aqui expostas ao leitor.
Ainda assim, percebe-se o quanto se nega à auto-complacência ou ao ressentimento. Aliás no final, é exactamente isso que volta a ser frisado:

"(...) O único motivo por que vivi tanto tempo foi ter largado o meu passado. Fechar a porta à dor, ao arrependimento, ao remorso. Se os deixar entrar, basta uma nesga autocomplacente, zás, a porta abre-se por inteiro e eis que entra uma torrente de dor que me rasga o coração e me cega os olhos de vergonha (...)"

Por isso, o melhor fio condutor para todos os seus contos é o humor. Nuns contos será a gargalhada alta e estridente, noutros apenas o leve sorriso que apenas sobe um canto da boca, mas ainda assim, está lá. Sim, é isso. A energia dos seus contos é fruto do humor que coloca em cada relato que faz do que a rodeia ou do que marcou a sua vida.

"«Sim, agora não parece tão chocante, não é? Que tenham vindo de férias depois de a mãe ter morrido.»
«Sabe... é pena que não seja uma tradição. Umas férias pós-funeral, como uma lua-de-mel ou uma festa de boas-vindas a um bebé.»
Riram-se as duas. «Herman!», disse a Srª Wacher ao marido. «Depois de nós as duas morrermos, vocês, homens, prometem ir fazer uma férias juntos?»
Herman abanou a cabeça. «Não. São precisos quatro para jogar brídege.»

Despudorada, meio seca, recheada de análises simples do quotidiano e um bando de gente anónima. São estes os ingredientes destes contos. E se a certa parte, quase no final, lemos: "Tudo o que de bom e mau aconteceu na minha vida foi previsível e inevitável, especialmente as escolhas e as acções que garantiram que agora estou totalmente sozinha." Talvez sejamos levados a pensar que a escrita foi uma companheira de vida e de estrada de Lucia Berlin e que muito do que guardou para os seus contos fossem conversas que nunca chegaram a acontecer, no entanto, talvez o facto de só postumamente ter obtido reconhecimento literário venha aumentar o mito e o drama em torno da sua vida. No entanto, quer-me parecer que viveu consoante os seus desejos, fervilhantes e intensos, e só digo isto pelo que de apaziguador que a sua escrita me transmite.

E há ainda outra coisa, Berlin tem contos que são como uma ode à frase de Mae West: «quando sou boa, sou muito boa, mas quando sou má, sou melhor ainda!»




Um livro ALFAGUARA.
Para ler mais sobre a autora: 
Lydia Davis na Sábado e o texto de Isabel Lucas no Público

quinta-feira, 21 de julho de 2016

«O Livro dos Baltimore» de Joël Dicker :: Opinião


"Naquele ano pareceu-me que a qualidade da refeição do Dia de Acção de Graças era superior (...) O tio Saul estava rejuvenescido. A tia Anita tornara-se ainda mais bela. (...) O meu tio, a minha tia, os meus primos: julgava-os em perpétua ascensão, mas estavam em plena queda. Não o compreendi senão anos mais tarde. (...) Como podia eu ter imaginado o que lhes iria acontecer."

São exactamente esses anos mais tarde, mas também os de juventude e os de infância que encontramos em «O Livro dos Baltimore». A história da parte mais admirável da família Goldman antes, durante e depois de o Drama se ter imposto naquelas vidas.

Dicker volta a conseguir escrever um page turner capaz de agarrar o leitor, capítulo atrás de capítulo, dando pulos cronológicos que não baralham o leitor, mas antes alimentam nele uma enorme curiosidade de conhecer mais daqueles três primos, quase como se entrássemos num livro de aventuras. 
Dicker repetiu a proeza, reafirmando o que deixou escrito nas páginas do "A Verdade Sobre o Caso de Harry Quebert". 

"Um bom livro, Marcus, é um livro que lamentamos ter acabado de ler"

Sabendo que este livro vem na sequência do de Nola Kellergan, somos tentados a recordar toda a intriga pensando nós que o Drama a que Marcus se refere é esse, mas não. O nosso engano dura menos que cem páginas. E com isto não estou a dar qualquer spoiler. Percebemos rapidamente que o autor voltou a criar um novo enredo de mestre, colocando o foco no seio da família. Por isso, oscilamos entre o deleite com que lemos as aventuras dos primos, o peculiar Hillel, o duro Woody e o romântico Markie; e a desventura que os apanhará anos mais tarde, alterando a vida de todas estas ramificações da família Goldman. 

É muito interessante a forma como este livro emparelha com o anterior, sendo, cronologicamente, anterior. Parece complexo mas não é e não precisamos de estabelecer ligações, pois a força com que este decorre absorve-nos por completo e ficamos novamente presos à busca pela verdade que esconde a história desta família. Dicker volta a traçar um enredo minucioso e consegue, novamente, fazer-nos ficar ligados às personagens. Fiquei fã de Hillel.

No entanto, acho que algumas das divagações ou diálogos em que o autor coloca Mark, nomeadamente sobre o futuro, talvez sejam um pouco mais negros e descrentes e em certa parte mais realistas para os tempos actuais. Nisso, senti um afastamento face ao anterior.

"- Oh, peço-lhe: pare com as suas cantigas de revolucionário quem que ninguém acredita. O livro é o passado, meu pobre Marcus.
(...)
Os filhos dos seus filhos vão olhar para os livros com a mesma curiosidade com que nós olhamos para os hieróglifos dos faraós. Dir-lhe-ão: «Avô, para que servem os livros?» e responder-lhes-á: «Para sonhar. Pu para cortar árvores, já não sei.» 
(...) O futuro já não está nos livros, Goldman."

Alguma desta inocência militante de Mark podemos também encontrar na aproximação romântica ao seu primeiro amor, se por um lado as cenas com o cachorro se tornam deliciosas, já os diálogos entre os dois têm um pouco de mel a mais, mas é o único defeito que tenho a apontar à escrita do autor. Nesse aspecto de amor pouco funcional, se é que esta é a palavra; o toque de Lolita no primeiro, funcionou melhor.

Se antes a pergunta que sempre atormentou o leitor é: «Quem matou Nola Kellergen?», agora preocupamo-nos com: «O que, de facto, aconteceu com os Goldman de Baltimore?» 

Sem dúvida, uma leitura para este Verão!

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Um livro ALFAGUARA | Penguin Random Grupo Editorial

«Uma senhora nunca» de Patrícia Müller :: Opinião



Patrícia Müller cativa-nos desde logo pelo título sugestivo. «Uma senhora nunca» parece inacabado, como que lançando uma pergunta ao leitor ou até, pedindo-lhe uma resposta, oferecendo depois nas suas páginas a confirmação, ou não, do que podemos pensar que uma senhora nunca deve fazer, pensar, sentir...

"Nunca suportou a ideia de que um comportamento seu pudesse ser alvo de crítica. A santidade é uma prática e não um conceito longínquo. (...) A religião é a psicanálise de uma senhora."

Neste primeiro contacto com a escrita de Patrícia Müller fica desde cedo a certeza de uma narrativa espirituosa, pautada de um humor peculiar, elevada crítica social, que mesmo de época, se estende até aos nossos dias e de um enredo cativante e envolvente.

"Maria Laura sentiu-se encurralada (...) imagens do fatídico dia perseguiam-na. Nunca tinha sido feliz, mas durante muito tempo foi essencialmente triste."

De forma sôfrega vamos devorando esta narrativa que não nos oferece respostas, antes pelo contrário, assalta-nos com novas questões que temos medo de não ver respondidas devido à demência que vai atacando Maria Laura.

"A mente é o mais formidável órgão que Deus fez», Maria Laura repete isso nas intermitências da lucidez (...)"

"Maria Laura tem uma carroceira dentro de si e ela não sabia. E não sabe onde é que a carroceira aprendeu a bíblia do vernáculo. (...) Lucinda fica petrificada de horror diante deste cenário (...) sem a Maria Laura introvertida, moralista e tristonha, alguém tem de gerir a espiritualidade da família."

É essa família que vamos conhecendo através de capítulos de fervilham de detalhes e novos tentáculos que envolvem e acrescentam emoções, acontecimentos, tragédias, decisões, amores e obrigações que foram determinando a vida de Glória e Policarpo, os pais de Maria Laura; a vida com Carlos e o enteado e até a sua filha Lucinda, de todos nos vamos tornando íntimos, aceitando a duplicidade e os segredos que os saltos temporais revelam.

"O barroco de Maria Laura também vem da avó Augusta. Nunca lhe deu um abraço, mas ensinou-a a espremer o sumo trágico de qualquer acontecimento."

"É a tarefa mais árdua, mesmo para Maria Laura: fazer da duplicidade escancarada uma ideologia que converta qualquer alma à religião que ela propagandeia, a apologia do segredo."

Este «Uma senhora nunca» pode muito bem elogiar e propagandear os segredos e os pecados familiares e até uma certa mesquinhez que daí advenha, mas em altura alguma se perde no melodrama familiar, pois Maria Laura é uma personagem fortíssima, uma senhora que tenta superar todas as neuroses próprias da vida que escolheu, empurrada pela época, mas também por Policarpo e Glória.

"O coração de Policarpo descobriu-se totalitário com a mulher e concretizou-se ditador com a filha."

Maria Laura é uma senhora, mas foi também filha, esposa, neta, avó, foi mais ainda, quando sem deixar de ser uma senhora, foi simplesmente mulher.

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Este texto foi publicado no Deus Me Livro, para a rubrica Mil Folhas, confira aqui.

terça-feira, 19 de julho de 2016

«Para lá da Terra do Fogo» de Eduardo Belgrano Rawson :: Opinião


Li na Islândia, este romance de Eduardo Belgrano e senti em certos momentos que me encontrava em paisagens semelhantes àquelas que me apresentavam a Terra do Fogo. E isso, é algo a que ficarei apagada, tanto ao que vi lá como aos momentos em que me sentei e absorvi aquele silêncio quase ancestral, para ler este relato de violência, mas também de ode à Natureza e aos povos indígenas. «Fuegia» ou «Para lá da Terra do Fogo» é um romance baseado em factos verídicos denunciando as provações pelas quais passaram os indígenas da tribo Kawésqar ou Alacalufes.

Esta é uma narrativa de apelo à memória, para que as Nações não se construam com base no esquecimento e na violência que perpetuaram contra os povos indígenas, sempre em função da prosperidade, do dinheiro e da conquista de soberania.

"De vez em quando estalava a polémica. Durante algumas semanas os diários vociferavam. Por ocasião de uma daquelas gritarias um cura piedoso escreveu a Buenos Aires. «De que serve remoer tudo isto? Já não vamos ressuscitar os pobres infelizes. E aqueles que os mataram já não estão entre nós. Mas agora convivemos com os seus descendentes. Querido padre: não temo a verdade. Mas prefiro dizê-las entre linhas, para não faltar à caridade."


O cenário com que arranca o enredo é o mais próximo da Natureza possível, em terra de guanacos e sobrevoados por procelárias, os canaleses e os parrikens, os pescadores, os ovelheiros, os ladrões e os aventureiros convivem numa paz fragilizada e tão instável como as águas das quais desconheciam a profundidade.
Os naufrágios e os mortos não seriam de forma nenhuma mais do que aqueles que morreram às mãos de novos povoadores e conquistadores, naquela que ficou conhecida com a matança de Lackawana.

"Da coberta avistavam-se perfeitamente os caranguejos que caminhavam no fundo. As margens povoadas de mirtos e o vento trazia com frequência o estalar das geleiras. Noutros tempos estes lugares tinham sido os melhores sustentáculos das goletas que andavam à caça de lobos-marinhos, quando disparavam de uma velha lancha a vapor em busca de caçadores furtivos." 

O primeiro desafio deste livro é mesmo a linguagem riquíssima e até certo ponto específica com que o autor classifica e descreve de tudo um pouco. Entre kauwi, wigwam, corcovos, baldões ou caldeiros, goletas  e escunas e os seus capitães gritadores; o enredo adensa-se e os costumes e afazeres de todos eles propalam-se e sentimo-nos um tanto perdidos. E para além deste choque inicial, é abraçar o desconhecido juntamente com todo o emaranhado de personagens que à semelhança de uma rede de pesca nos enrolam e caçam. No entanto, há uma personagem que se destaca, Camilena Kippa e a sua inesgotável capacidade de persistir.

"As pancadas que sentia nas costas indicavam que Camilena remava freneticamente. (...) Deu um par de remadas precisas. A canoa rolou perigosamente e acomodou-se ao seu novo rumo. A escuma foi atrás deles numa manobra elegante. Isso incomodou a canoeira. As escunas lobeiras viraram pesadamente enquanto os seus tripulantes praguejavam. Mas a escuna voava. Não havia cachiyuyos nem escolhos (...).
Camilena nem se virou para trás. Sentia sobre os ombros o olho maligno do homem da proa e esperava a explosão da sua Winchester."

Para além da força de Camilena há também toda a força da narrativa que Belgrano Rawson conduz com mestria e exige ao leitor atenção e entrega. O livro está repleto de uma poética irrefutável que atinge o leitor com a beleza descritiva de imagens que evocam outros tempos.

"Cada vez que via uma mulher a arranjar o cabelo pensava na sua avó. Recordava as suas irmãs a penteá-la com esmero, até o seu cabelo ficar com a cor de uma tempestade. Às vezes untavam-lhe o cabelo com tutano de cria de guanaco perfumado com violetas"

"Camilena descobriu a boneca de Isabela no chão e saiu-lhe um gemido do peito. (...) perguntou a si mesma se a morte dos seus filhos seria capaz de a matar. (...) Eram meditações difíceis, pois não havia maneira de esquecer por completo a uma pessoa morta, por mais que uma pessoa não dissesse o seu nome ou queimasse as suas coisas e matasse os seus cães."

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Em 1992 este romance arrecadou o Prémio da Crítica e em boa hora foi cá publicado. Em 2009, quando o autor participou no LEV e agora finalmente, chegou-me às mãos. Recomendo vivamente a sua leitura e acredito que fará as delícias de muitos leitores. E também de alguns viajantes.

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