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segunda-feira, 19 de fevereiro de 2018

Balanço 2017 :: Leituras e estantes novas

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Não é uma foto lá de casa, mas podia ser. Não tenho estantes a ladear janelas, mas podia ter. Optei por uma estante do chão até ao tecto e logo no início do ano. Não para alojar os volumes de 2018, mas antes reestruturar a biblioteca pessoal. Noutro espaço, já mais a terminar o ano, inspirei-me numa pseudo-árvore e fiz crescer uns ramos, parede afora, reciclei e inventei. Escolhi esta imagem por ter ali num canto uma máquina de costura antiga, tal como eu herdei uma, e que é a peça central de onde partem os ramos recheados de livros. Esses sim, vieram para alojar 2017. Ou seja, entro em 2018, novamente, a servir-me da secretária para abrigar os novos amigos. Um caos!!! ;)

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Em 2017 li o bonito número redondo de 70 livros!

59 deles podem encontrar aqui, com opinião no Efeito dos Livros
Outros 10, encontram-se opinados no Deus me Livro, aqui
Há 1 perdido, por terminar de ler e ter direito a um texto, a saber: «A Guerra de Samuel», o livro póstumo de Paulo Varela Gomes, não por não ser bom, mas por ser tão diferente de «O Hotel», um dos meus livros de eleição de 2016 e que podem ler sobre ele aqui.

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O post deste ano será diferente dos anteriores. Resumir e destacar é o importante. Por isso agreguei as leituras em três categorias e destaquei alguns autores. 

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TOP 2017 

Sem ordem de preferência, pois são todos para ler e pedir mais. E são escolhas pautadas pela solidão, aquelas que fazem a minha lista de favoritos.

«O Pianista de hotel» de Rodrigo Guedes de Carvalho 

«A bofetada» de Christos Tsiolkas, seguindo as traduções da Tânia Ganho.

«Onze Tipos de Solidão», Contos de Richard Yates - vou querer tudo do Yates.

«YORO» de Marina Perezagua , uma excelente aposta da Elsinore

«Fora do Mundo» de Michael Finkel 

«O leitor do comboio» de Jean-Paul Didierlaurent :: Opinião 

«A Educação de Eleanor» de Gail Honeyman :: Opinião

«Uma conspiração de estúpidos» de John Kennedy Toole :: Opinião 

De Isabela Figueiredo, duas leituras
«A Gorda» texto de opinião na Roda dos Livros
&
«Caderno de MEMÓRIAS COLONIAIS» - Opinião

“Meio Sol Amarelo” | Chimamanda Ngozi Adiche 
no Deus me Livro, leia opinião aqui

«as coisas que perdemos no fogo» de Mariana Enriquez :: Contos


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Os repetentes

Não podia deixar de salientar em primeiro lugar um dos meus escritores portugueses favoritos, João Tordo. Em 2017 foi ano de terminar a trilogia dos lugares sem nome, dando destaque ao «O Deslumbre de Cecília Fluss». E como esse não me chegou, requisitei um outro, creio que o seu primeiro livro, «O livro dos homens sem luz».

Também a repetir e porque ficamos sem palavras quando se lê «Impunidade», foi preciso comprar e ler, assim que saiu, «As pessoas do drama» de H. G. Cancela. Mas não há amor como o primeiro.

Voltei também a José Eduardo Agualusa, com o «A teoria geral do esquecimento». Sonhar sonhar e saborear uma África que só ele ou o Mia sabem descrever. 

Para me redimir, voltei a Siri Hustvedt e gostei muito mais deste «Verão sem homens» do que do, um tanto pedante, «Mundo Ardente».

Repeti ainda, M. J. Arlidge, um prazer - sem culpa - para alimentar o meu lado mais negro.


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As estreias

Entre vários nomes que tenho abordado num curso de escrita que estou a fazer e que leio excertos e contos, há alguns autores que estão sempre em falta. E quanto mais se pesquisa, mais faltas temos. Tentando colmatar tais falhas li: O mais recente Man Booker Prize, George Saunders; o aclamado, Ian McEwan, de quem li «Sábado», por recomendação do João Tordo e que muito agradou; o eterno Calvino com as suas «Cidades Invisíveis»; o acarinhado A. P. Reverte que quem a Roda dos Livros é muito fã, mas que não me atraiu; a premiada Leila Slimani com «Canção Doce», nada doce por sinal; a estreante Sarah Perry que viu o seu livro premiado na Waterstones e marcou o lançamento da chancela Minotauro (Grupo Almedina) e ainda a estreia de Helen Oyeyemi em Portugal/Elsinore. Nos portugueses, conheci os romances de João Reis e Carla Pais, dos quais irei querer ler mais. 

terça-feira, 2 de janeiro de 2018

«O Assassino do Crucifixo" de Chris Carter :: Opinião


A par com outras leituras este foi o livro escolhido para ler num ápice, tal como gosto de fazer, nos finais de ano. E foi uma excelente escolha. A leitura foi tão viciante que na manhã de 31 acordei mais cedo só para terminá-lo.
Sou fã dos policiais da Topseller e acredito nas escolhas da editora, ainda assim, sendo seguidora da série criada por Arlidge ainda não me tinha dedicado à deste autor americano, Chris Carter. Mas em muito boa hora o fiz e espero acompanhar as próximas investigações de Robert Hunter.

Em «O Assassino do Crucifixo» temos um policial muito bem conseguido. A acção apimenta-se logo de início, ficando o leitor a saber que os detectives irão ter a vida em perigo e que o assassino irá jogar com a vida deles. Logo de seguida, o leitor recua mais de um mês na narrativa para se deparar com o início dos crimes, ser apresentado ao inspector Hunter que desperta de uma noite na companhia de uma mulher que não conhece e a primeira cena chocante e violenta provocada pelo assassino do crucifixo.

A violência das primeiras imagens que são dadas ao leitor só devem ser desvendadas no acto da leitura e não aqui como spoiler ou demonstração da crueza e a crueldade do assassino, no entanto, a segunda mantêm essa mesma brutalidade, chegando a arrepiar o leitor e fazendo-nos pensar no que virá a seguir. 
Ainda assim, este policial não se alimenta só de cenas brutais, o autor coloca uma parelha de detectives, que conseguem, de uma forma sarcástica, gozarem-se um ao outro e divertirem o leitor, enquanto fazem piadas, mas também quando a acção avança e a violência escala a outros patamares que já os coloca em perigo. 
Para além disso, coloca a vida social de L.A. no centro da acção, juntamente com a droga e o crime organizado da prostituição, que se vai misturar com diversas vidas particulares e em nada envolvidas com esses meandros, atribuindo assim diversas camadas ao livro. E sem esquecer a camada psicológica, seja na explicação, aqui e ali, das motivações para a psicopatia ou a sociopatia e o quanto esse estudo pode afectar os psicólogo criminais; bem como as principais diferenças que separam, em estilo e motivo, os crimes cometidos por homens e mulheres.

O livro tem ainda uma conversa de engate entre Isabella e o detective que fará as delícias de qualquer bom observador que se perde nestas observações amorosas e a descrição de uma morte incrivelmente estúpida que só pode levar o leitor a gargalhadas sonoras. E ainda um cheirinho do Brasil que o autor traz da infância e que colocou no parceiro de Robert, o maçarico Garcia.

Um policial mesmo como eu gosto e que me deixou com muita curiosidade pelos seguintes.


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sexta-feira, 22 de dezembro de 2017

«MEA CULPA» de Carla Pais :: Opinião


Carla Pais venceu em 2016 o Prémio Literário Revelação Agustina Bessa-Luís, com este romance «Mea Culpa», agora publicado pela Porto Editora. O júri qualifico-o como “um romance realista e telúrico”, o que só por si já me chama à atenção. Sou fã desse lado telúrico e da linguagem que traz agarrada a si, a terra e as suas gentes, mais simples, talvez mais sombrias, mas também mais carregadas de matéria literária. Sou por isso fã de José Riço Direitinho ou Carlos Campaniço, que nos trazem enredos em torno da terra, da gente e das histórias que sentimos saírem da boca de velhotes que se amparam na bengala e ajeitam a boina. É dessa mesma casta que me parece que Carla Pais conseguiu tecer o seu primeiro romance e nos dá a conhecer Amadeu Jesus, homem nascido do lado de lá da ponte, o lado errado. 

No mesmo ano, a autora candidatou-se à Antologia de Contos do Centro Mário Cláudio, com o conto «O Búzio do meu pai» que integra a Colectânea «A Criança Eterna» publicada em Outubro de 2017. Esse conto foi lido primeiro que este romance e deixou-me logo com um bom prenúncio para a capacidade da autora em levar o leitor até às dores dos personagens. A forma como apela ao lado mais emocional do leitor é feito através de descrições incisivas, escolhendo muito bem as palavras com que espeta o leitor e o faz avançar dentro da acção.

As dores dos personagens são, a meu ver, o principal enredo deste livro. Todos eles sufocam nos males que os condenaram a vidas cheia de segredos e ocultações. Uns por nojo, outros por medo, outros por condição social... A história tem contornos conhecidos e já ouvidos em muitas aldeias. Os abusos que os perpetuadores julgam escondidos pela geografia mais recôndita são, infelizmente só ao fim de muitos anos, revelados pelos medos mais próximos do julgamento final. O julgamento e a condenação, muitas vezes fruto da opinião e olhares alheios, alteram as vidas drasticamente. São esses injustiçados que Carla Pais acolhe e poetiza. 

"O vento é uma mão que guia os pés cegos

A esposa do senhor presidente vem outra vez nua pela rua. Traz um lenço de linho branco suspenso na ponta dos dedos, abre muito a boca, mas o grito não sai, não se ouve nada para além do vento que bate na bainha do lenço e sacode a mágoa dos olhos. A cobardia da boca pede silêncio e ela cede, fica presa naquele longo refreio que se instala na contracurva do medo. Desta vez a rua está deserta e a taberna fechada, porém há uma enorme sombra a cobrir a praça, uma sombra que fuma charuto e envenena o ar, mas ela já não tem medo, nem frio, nem nada. Tem apenas o nojo a subir a garganta e então tosse, tosse para que as palavras e os gritos embolados na vesícula biliar se escapem na debilidade de um soluço, na contracção de um músculo que a faça chorar." 

*

Uma aposta PORTO EDITORA.

«Mal me quer» M. J. Arlidge - Opinião


" - De joelhos!
Emilia sentiu os canos da arma cravados na nuca e atabalhoadamente ajoelhou-se.
- Olhe para o chão.
- Eu não conto nada à Polícia, prometo. Faço de conta que nunca aconteceu...
- Acho que já vamos um bocadinho para lá disso, não?"

Voltar a Arlidge é como seguir uma novela sombria, recheada de acontecimentos sinistros e personagens que já conhecemos e queremos rever. Helen Grace ou Garanita são as minhas favoritas e neste «Mal me quer» continuamos a acompanhar ambas numa reviravolta do seu percurso, pessoal e profissional. Helen regressa ao trabalho, depois de um período presa, no livro «Na boca do lobo» e Garanita que se vê perdida nos meandros dos jogos que sempre jogou para subir na carreira. 

Talvez este rol de crimes sangrentos que têm palco em «Mal me quer» sejam menos tenebrosos para o leitor viciado e que acompanha a saga desde o início pois em nada se liga a Helen e não explora os seus fantasmas. Ainda assim é interessante ver o efeito desastroso do abandono, expondo friamente a capacidade de desapego e mente fria de uma adolescente. 

O regresso de Helen ao trabalho está muito bem conseguido, dando à inspectora um rol de dúvidas, baixa auto-estima e uma dúvida constante das suas capacidades em continuar a gerir a sua equipa.

"A dor percorreu-lhe o corpo e de repente Helen acalmou. Olhando para baixo, viu a sua mãe ferida, os nós dos dedos rasgados e assanhados. Amaldiçoando-se, (...)Ao fazê-lo, olhou para cima para o espelho. Tinha uma fenda grossa a atravessá-lo ao meio, distorcendo-lhe o reflexo, transformando-a numa louca disforme."

Talvez este não seja dos livros desta saga que mais vá arrepiar o leitor. Não tem recantos tão bicudos ou pautados por ideias ou emoções que chocam, ainda assim, o motor que desencaminha a adolescente é transversal a muitas família e isso talvez toque inúmeros leitores que são pais. Por isso, o hábito de Arlidge nos dar personagens destroçadas e despedaçadas continua e bastante bem. 


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Um livro TOPSELLER.

quinta-feira, 30 de novembro de 2017

«Pastoralia» de George Saunders - Opinião


"Os seus sonhos de infância tinham sido bonitos, alimentara tantas esperanças, não queria acreditar que se transformara num zé-ninguém, embora, por outro lado, quem mais além de um zé ninguém passaria os melhores anos da sua vida a insultar uma fotocopiadora?"

É com Morse, numa reflexão de meia idade, no conto «As Cataratas» que podemos abrir as hostes para estes seis contos de Saunders, Man Booker Prize deste ano, que explora de forma coloquial, satírica, ácida e absurda, vidas nos seus mais variados estados do quotidiano. Se o aborrecido das crises existenciais é por vezes retratado com questões profundas, aqui o dilema chega de forma inesperada e divertida. 
O mesmo se passa nos restantes contos. Há em todos um traço de ridículo que encaminha o leitor numa curiosidade que se poderia chamar de mórbida, pois em alguns parece que o fim pode estar no virar da próxima página. E no entanto, as descrições loucas continuam e o leitor flutua entre uma dose de realidade duvidosa e um humor negro e alucinogénio. 

"Cedo na manhã seguinte estava sentado na banheira, a preparar-se para o encontro. Ali estava a sua salsicha flutuante, como se fosse um animal marinho, e ali os seus cotos encostados aos azulejos verdes. Mexeu-os nervosamente de um lado para o outro, como Fred Astaire a dançar numa parede, e arrastou uma toalhinha pela a´gua, segurando-a por um canto, de forma que parecia outro animal marinho, uma raia, uma raia bordada com monograma que atravessava o território que era a sua barriga e atacava o animal marinho que era a sua salsicha."

Imaginar um homem adulto, cheio de conquistas falhadas, em constante luta com a mãe, com quem ainda mora, e um emprego de barbeiro onde a maior felicidade é poder colocar-se à porta do salão, a ver as mulheres que passam, cobiçando-as com piropos foleiros, como se elas ali passassem para um desfile privado, sendo ele o espectador principal; faz lembrar o divertido romance «Uma conspiração de estúpidos» de John Kennedy Toole. 

Os contos de Saunders são palco para todos os males e vícios actuais, as crises conjugais, as rotinas embrutecedoras, a necessidade da linguagem de auto-ajuda, os estrangeirismos para nos parecermos mais cultos e "in", a psicologia de trazer por casa como solução motivacional a crueldade do fim da infância/adolescência, os vizinhos, os colegas de trabalho, a decrepitude geral e generalizada.

"- Estou perdido! - gritou o tu. - Ando às voltas numa espécie de deserto!
- Ó Tu, chega aqui! - gritou uma rapariga do outro lado do palco, cuja tabuleta dizia «Paz Interior». - Aposto que andaste a vida inteira à minha procura.!
- Bolas, se andei! - disse Tu. - Vou já!
Mas logo a seguir apareceram mais actores no palco, com tabuletas a dizer «Choramingão». «Narcisista», «Culpa os outros pelo facto de seres gordo» e assim sucessivamente, que rodearam Tu e começaram a empurrá-lo e a dar-lhe carolos.
- Não acredito que gostas mais da Paz Interior do que de mim, ó Tu! - disse o inseguro. - Isso deixa-me mesmo magoado.
- Fracamente, nunca me senti tão desiludido na minha vida - disse o desiludido.
- Ai, meu Deus, toda esta confusão está a provocar-me um ataque de ansiedade - disse o Demasiado tenso para funcionar normalmente.
- Estou à espera, Tu - disse a Paz Interior. - Queres vir ter comigo ou não?
- Quero, mas sinto-me encurralado! - gritou Tu."

É muito bem trabalhado neste conto, «Winky» a luta interna entre desejos, necessidades, vontade própria e o tão conhecido "deixar andar", um tom permissivo que abunda e que tão associado está ao "sobreviver" e ao "tentar" Acho que é exactamente isso que estes contos pretendem relatar. Temos uma sociedade que está ocupada em tentar sobreviver, gerindo o melhor que consegue entre sonhos, ilusões e realidade. 

Realidades como a de bairro social, em «Carvalho do Mar» ou de reallity shows aí descritos e a dura realidade de se conviver com o próprio corpo e o crescimento (FIRPO) que tantas vezes se faz sem suporte familiar, havendo na mesma, a família, como último reduto quando tudo o resto falha. 

"Os comentadores de cabine por cima do salgueiro começaram a chorar quando ele se sentou ao colo da Mamã e pediu desculpa por ter sido um filho tão FIRPO e a mamã disse: Obrigada, obrigada, Cody, por finalmente admitires, isso torna tudo melhor (...)"

Nunca chegamos a saber o que é FIRPO, tal como vamos avançando nas muitas páginas de «Pastoralia» apenas desconfiando de que aquilo pode ser um trabalho, um ambiente laboral. Estranhamos e depois reconhecemos detalhes do real, do diário. É realmente uma mistura muito peculiar a que Saunders consegue, um lado humano descrito por imagens selvagens e surreais. 

~

“Quando me afasto dos universos alternativos e tento ser realista à la Hemingway ou Raymond Carver, parece que estou a deixar qualquer coisa na mesa; há sempre qualquer coisa em que acredito que não teve hipótese. Gosto de histórias com alguma selvajaria. Para mim, beleza e selvajaria estão próximas, e não consigo atingir isso quando tento ir por um caminho realista. A história perde fulgor. Quero que as minhas histórias tenham um certo grau de energia. Há uma citação bonita da Flannery O’Connor: ‘Podemos escolher sobre o que escrever, mas não podemos escolher o que fazer viver’. Para mim, respeitar a arte é respeitar a força das minhas histórias, saber que há coisas que não posso decidir.” Saunders numa entrevista no Público




terça-feira, 28 de novembro de 2017

«O Pianista de hotel» de Rodrigo Guedes de Carvalho :: Opinião



"- É conforme
foi conforme saiu, só sabe que lhe pareceu que as notas lhe queriam sussurrar uma triste confissão, é o que acontece quando apanhamos acordes menores, são melancólicos e não resolvidos, o que poderia aplicar-se a tantos de nós afinal, será que a música foi inventada para utilização dos que gostam pouco de falar, dos que, tanto que lhes perguntam, só lhes apetece responder

- É conforme"

É conforme a melancolia, a solidão e a perda, que vamos conhecendo e aprofundando cada personagem deste romance, do qual é difícil dizer do que trata, se não da vida como ela é: "(...) a criança quer que o mundo lhe seja explicado em linha recta, e depois passamos a vida a tentar aguentar o balanço de tanta curva e contracurva."

Será nessas curvas, que umas personagens entram em alta velocidade, outras aos tropeções e outras ao acaso, mas todas donas de perdas constantes e dores que os encaminham à solidão e a uma certa invisibilidade, tal como a de um pianista de hotel. A dureza e a exigência da realidade é vista com força bruta, que escraviza e extingue pessoas raras, condenando à sobrevivência e à procura do sentido dos dias. Tal como a memória, castigadora e dominante. 

As disfunções são muitas, a violência alguma, os imprevistos e a força do acaso, constantes; é a vida de cada um tal como ela é. E talvez seja isso que dá ainda mais profundidade e mestria a este romance, ser plausível e num tom tão honesto. Concedendo até a possibilidade de reflexão e psicanálise tão necessária e urgente aos dias de hoje.

"Depois de a cabeça perceber o que tem de fazer, ainda que falemos de melodias e harmonias muito básicas, falta os dedos corresponderem ao que lhes diz a cabeça. Se ousarmos começar a tocar um instrumento sendo já velhos, ou adultos há muito tempo, a primeira reacção dos dedos vai ser
- Que é que queres de nós a esta hora (...)"

E desta forma intrometida a narrativa vai entrando na cabeça do leitor e conversa com ele, e só assim o leva a acreditar em cada uma das personagens como se lhe fossem pessoas próximas, sentimos com Maria Luísa, Luís Gustavo, Samuel ou Pedro Gouveia a dificuldade que é estar vivo o peso dos dias e a loucura de seguir para saber o nosso destino.

"Se uma ventura divina calha fazer-nos bons no que fazemos, e ainda conseguimos ser capazes de gentilezas, provas de amizade, manifestações de integridade, e ainda temos sentido de humor, que anima jantares e alivia pressões (...), então o mundo será nosso, e a dificuldade é arranjar espaço com tanta gente deitada aos nossos pés. Sim? Não. 
Nada mais errado. 
Pessoas assim correm os mesmos perigos dos animais em via de extinção (...) A mediocridade é o mais perigoso dos caçadores furtivos (...)"

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segunda-feira, 27 de novembro de 2017

«não digas nada» de Brad Parks - Opinião



Brad Parks é um reconhecido autor de séries de detectives e multi premiado, acumulando o Shamus, o Nero e o Lefty Awards, prémios de destaque na ficção de crime. Este thriller «Não digas nada» é um livro único e despegado dos detectives que se lhe conhecem e que em muito boa hora chegou a Portugal, dando-nos a conhecer um enredo que cruza o mal que pode estar dentro da casa de cada um e a ganância transversal a tantos que se cruzam no nosso caminho. 

"O terceiro dia de uma crise é uma altura estranha. No primeiro dia, está-se em choque total. O segundo, é uma extensa sessão de triagem. Pelo terceiro dia, o mundo pode ter-se estilhaçado, mas começa a ter-se os primeiros sinais de que continuam a girar, quer se queira quer não."

É curiosa a frase se pensarmos que o juiz Scott Sampson perdeu os seus filhos às mãos de um esquema de rapto numa quarta feira. O terceiro dia da semana que marcava um momento entre pai e filhos, gémeos, que dava todo um outro sentido à semana rotineira e cansativa da vida do juiz. Nesse fatídico dia, uma mensagem da mulher, Alison, muda o curso destas quatro vidas de uma forma irreversível.

"É peculiar como certas frases ficam dentro de nós, coladas ao interior do nosso crânio.
Ao princípio, talvez, parece não haver uma boa explicação para isso. Depois começamos a perguntar-nos se haverá alguma razão mais profunda para que uma particular ordem de palavras se torne tão pegajosa."

Se esta frase viesse logo numa das primeiras 100-150 páginas não nos teríamos deixado enganar. Parks joga bastante bem com a areia que vai acumulando e que atira aos olhos do leitor. No entanto, as dicas talvez estejam lá, quase desde o início, seria era preciso virarmos a nossa "investigação" nesse sentido, mas é brilhante a maneira como, ao ir investigar a mulher, nos distraia apenas para dois potenciais cenários.
É igualmente muito interessante a forma como ele vai caracterizando a família, primeiro a central, a dele, chegando a dizer que ficaram num triângulo com mais arestas do que só as que se vêem e depois a forma como caracteriza as irmãs e a própria relação dos filhos gémeos.

"Em alguns aspectos, as irmãs conseguem ser particularmente duras umas com as outras. Como os pais, elas estão super conscientes dos pontos fracos e dos defeitos de cada uma; mas, sem a infinita capacidade parental para o amor e o perdão, julgam-se umas às outras com muito maior severidade.
Juro que houve alturas em que julguei que seriam capazes de se matar. Até, claro, uma delas ter um problema ou ser ameaçada por um agente externo, caso em que se juntavam numa força inquebrável.
Divididas por dentro, mas unidas por fora. Por todo o mundo, é a própria definição de irmãs."

«Não digas nada» está bastante bem engendrado, talvez não tenho, logo ao início, um ritmo tão alucinante como outros livros do género, mas com as reviravoltas impactantes que tem, apanha o leitor e domina-o até ao fim. E o fim... até para mim, que não sou de lágrimas, confesso que me caiu uma naquela imagem final em que Parks transporta completamente o leitor para aquele funeral.


quarta-feira, 22 de novembro de 2017

«As pessoas do drama» de H. G. Cancela :: Opinião


Convêm primeiro que tudo dizer que as narrativas criadas por Cancela atraem o leitor para um redemoinho de ideias e sensações, difíceis de explicar, seja enquanto se lê, seja já depois, quando se vai digerindo e relendo certas partes. Ou seja, julgo que Cancela escreve com o propósito de expor o leitor a uma certa angústia que se cruza com episódios de violência, emergindo o leitor na mesma experiência traumática em que desenvolve os seus personagens. Personagens esses que se confundem, seja no carácter, nas decisões ou nos dramas com os de outros seus livros, mais propriamente em «Impunidade». No entanto, este «As pessoas do drama» explora muito a arte de imitar a vida e ao mesmo tempo a dificuldade de vivê-la desapegada da imitação, da dissimulação e do uso, constante, de máscaras. 

"O palco imitava o mundo que imitava o palco sem se dar conta de que imitava uma caricatura de si mesmo. A incongruência era que a caricatura parecia mais espessa do que o ponto de partida."

Cancela explora, já como no anterior romance, a solidão, a condição do vazio, a transgressão e a expiação, a espiral destrutiva a que as escolhas conduzem, o pecado e a amoralidade; como que numa colecção de peças preciosas, que constroem personagens com preocupações próximas das de todos, mas com actos que apelam a uma certa repugnância e confusão. Repete-se o incesto. Insiste-se no percurso auto-destrutivo, que encena a humilhação e antecede-a, mas não a evita, antes pelo contrário, faz dela uma herança, quase uma tradição. Ainda assim, o poder que essa força exerce é de acumulação e não de aprendizagem. Os personagens caminham em paralelo com uma história que conhecem, mas seguem-na na mesma, como se o seu conteúdo interno não fosse forte o suficiente para contrariar o apelo exterior. 

É difícil perceber se será mesmo esta a menagem do enredo, há sempre algo que percebemos não ser dito. Partes que são explicada por metáforas que poderão ter diversas interpretações. O corpo talvez comparado à cidade; com heranças dos anos, que se deteriora e esconde detalhes decisivos que nos enviam mensagens que não sabemos descodificar. 

"À minha volta havia um mundo morto. Se tal era visível nas ruínas que construíam o coração da cidade, era-o de um modo menos evidentes, apesar de mais forte (...) elas surgiam-me como manifestação de um mundo em degradação. (...) Não era diferente do modo como o tempo se amalgamava, antepondo o efeito à causa, a punição ao crime, a redenção à culpa..."

Na parte central do enredo temos um homem que talvez possamos apontar como errático, que divaga entre a solidão, como parte integrante do seu ser, e a obsessão por uma mulher, uma actriz que descobre num filme. Laura, é uma personagem no lato sentido da palavra, a sua vida é uma amálgama de personagens que lhe toldam as decisões, anulando-lhe a vontade. Para decidir por ela temos o encenador, um homem que parece amá-la, mas que a humilha e oprime. Todo este composto formará mais que o típico triângulo amoroso. Todos eles são assombrados por memórias e por outras pessoas que já foram, para além do conhecimento que tentam ter de si próprios e a culpa que a isso está associada. Nesta parte central está também a tragédia grega e uma interpretação mais profunda de Antígona (a peça que traz Laura à cena) poderá dar mais camadas às interpretações que retiramos do enredo.

"Respondeu que sabia pouco de lama, mas compreendia a vedação, mesmo que não a víssemos, nunca deixava de haver alguma e talvez fosse preferível sermos nós próprios a construí-la."

Julgo que a culpa pode aqui representar uma enorme vedação, tal como a máscara a que a convivência com os outros obriga, mas mais ainda a que por vezes se vê reflectida no espelho, contribuindo mais para a dor do que para a felicidade. Porém, nem sei se se possa dizer que estes personagens fujam da dor ou persigam a felicidade, julgo que prefeririam partilhar o peso da culpa e a solidão que não se esgota. 

"Visto dali, não havia nomes, rotas, gente, talvez houvesse história, mas mesmo ela parecia incompatível com o que se avistava. (...) O que sobrava, o resíduo seco, seria ele próprio atirado para o charco. Talvez acabasse por o reabsorver, tornando possível repetir o processo e confundir experiência com conhecimento, sem pretender que houvesse a capacidade de aprender com os erros, pois entre ir e voltar, fazer e repetir, não restava mais do que uma grosseira tentativa de manipulação, uma comédia obscena na qual quem ri só ri para esconder a vergonha de si mesmo."

Sobra ainda a reflexão sobre o poder da manipulação e o quando dela compõe a vida, anulando inocência e esperança, encaminhando para o flagelo da decadência e o vazio criado por tantas incertezas. 


sexta-feira, 17 de novembro de 2017

«O Livro dos Homens sem Luz» de João Tordo - Opinião




«O Livro dos Homens sem Luz» explora a solidão e o desdobramento do homem em vários, seja em episódios de alucinação e loucura, seja em sonhos ou pesadelos, mas a verdade é que encontramos nestas páginas pessoas que se fragmentam em função das memórias, absorvendo dores que parecem não ser suas e, que ainda assim condionam as suas decisões e dias. 

Funcionando como um todo, unido por uma linha que conduz à auto-tortura, a uma certa demência e à constante solidão, encontramos quatro personagens essenciais e distintas, que pela força do que os atormenta, cruzam-se ao longo da narrativa. 

Num primeiro espaço, em «Diários de Londres», vagueamos com David por outras vidas tão sós quanto a sua, incapazes de perceber o verdadeiro sentido daquilo que procura quando escreve e para quem escreve, já que sabemos que o faz forçadamente por trabalhar para Roy, que desconhecemos e não sabemos se é inventado na sua cabeça perturbada e em luto. Aliás, fica-nos até a dúvida de o luto ser igualmente verdadeiro. Porém, em «Insónias» dá-se uma reviravolta que nos faz voltar a este primeiro momento, olhando-o com outra realidade.

"O que aconteceu foi que o tempo passou e, um por um, os dias chegaram e partiram. O tempo passou, indiferente, moroso, e eu passei com ele, e assim fui esquecendo. Esqueci o trabalho em primeiro lugar, tarefa muito mais fácil do que teria julgado. Não é possível negar que trabalhar para Roy não tivesse sido, a certa altura, um verdadeiro prazer. (...) Mas, ao mesmo tempo, esse é um mundo impossível de sustentar, no qual não se pode viver em estado lúcido, porque é como uma embriaguez constante que aturde os sentidos, que esbate os contornos de todas as coisas, que induz a maravilhosa fantasia de pensarmos que a vida está fora de nós."

Esta fantasia está ainda mais patente no relato seguinte, «Soterrados», em que Helena e Joseph se deparam com a a vida a acontecer com eles fora de cena e no entanto, a vida que lhes acontece num espaço exíguo e carregado de opressões consegue ser ainda mais opressivo fruto das transformações de ambos; ele embrutece mais com ela, mas rende-se e ela, usa a sua fragilidade para se adaptar e cuidar dele. É um relato estranho, sofrido, dono de uma densidade sufocante, onde esperamos a salvação ou o fim rápido que termine com o definhamento do casal.

"Mas mesmo Helena não era imune à tentação do esquecimento. Havia uma força invisível que por vezes a chamava, sobretudo nas longas horas em que, enconstada à parede junto das escadas, sem conseguir ver Joseph através do negrume, sentia que o andamento do mundo tinha sido cancelado e que ela era a última sobrevivente. A terra era um lugar vazia e o último homem encontrava-se preso num abrigo subterrâneo. Nesses momentos de solidão - uma solidão tão potente e irrevogável que julgava ouvir vozes à distância - parecia-lhe que o único destino possível era extinguir a luz e deitar-se sobre o colchão, onde se abandonaria. Parecia-lhe que o único final era apodrecer."

Irrevogáveis são também os efeitos da solidão e do abandono a que as personagens pautam o seu destino, vivendo num esquecimento e torpor que mesmo assim não esconde a escuridão da dor.

«A memória é a forma mais precária de documentação porque morre quando aquele que relembra morre, é como se a vida fosse o documento de si própria – uma vida que, a cada momento, se esquece de si.»


quinta-feira, 16 de novembro de 2017

«SÁBADO» de Ian McEwan :: Opinião



"Quem não dorme de madrugada faz um ninho com os seus próprios medos. Imaginar acontecimentos assustadores e esquemas para lhes escapar deve oferecer vantagens do ponto de vista da sobrevivência. Esse truque dos pensamentos negros é um legado da selecção natural num mundo perigoso. Na última hora esteve num estado de profunda insensatez (...) A incompreensão está generalizadas a todo o mundo. Como podemos confiar em nós próprios?"

Abrimos este «Sábado» às 03.40 com Henry Perowne, nu, contemplando o frio do quarto no corpo e apreciando essa sensação. Há também nele um certo despeito pelo que o rodeia, nada o incomoda para justificar aquela insónia; mas ainda assim teme estar a ver-se a ele mesmo num sonho, coisa que o desaponta, já que considera a realidade uma experiência muito mais rica. 

Analisa detalhadamente a Londres que consegue avistar da janela, pensa em Rosalind, a mulher com quem é casado e por quem continua a sentir um desejo sexual enorme e questiona casamentos falhados fruto de traições para as quais nunca se sentiu tentado; lembra-se da filha e das leituras que faz para se manter em contacto com ela; divaga por mudanças e exigências da sua profissão e das transformações dos últimos tempos no hospital, orgulhando-se da sua prestação. Continua a contemplar a cidade, avaliando-a à luz dos mais recentes eventos, como o atentado de 11 de Setembro. A mulher que se remexe ao de leve na cama, fá-lo parar por breves momentos as suas reflexões, mas volta rapidamente a um episódio que capta a sua atenção e o afasta de outros pensamentos como aqueles que tem sobre a criatividade do filho.

"A guitarra de Theo toca-o porque contém uma censura, um resquício da insatisfação mitigada da sua própria vida, do elemento que falta. Esse sentimento surge por vezes quando o concerto acaba, quando o neurocirurgião se despede afectuosamente de Theo e dos amigos e, ao chegar à rua, decide ir a pé e reflectir. Não há nada na sua vida que contenha aquela criatividade, aquela liberdade."

Talvez possamos ver neste longo primeiro capítulo, de um modo introdutório, um homem que se debate e procura conciliar o interno e o externo, exigindo da vida ou da idade, explicações e considerações que lhe mostrem a grandiosidade da vida. Uma grandiosidade em que ele tendia a acreditar e a querer ver, mas sem esquecer o peso de um outro lado da realidade, pejado de maus exemplos. A História estava viva e alimentava bem as memórias e o pessimismo actual. Ainda assim, seguimos neste «Sábado» com um dilema que se alimenta das divagações de Perowne, dissertando sobre a fragilidade da vida, o pessimismo, o terrorismo, mas também o valor das artes: a música, o romance ou a poesia e o seu papel na rotina do indivíduo.  

"(...) o sobrenatural era o recurso de quem tinha uma imaginação insuficiente, uma incúria, uma fuga infantil às dificuldades e às maravilhas do real, à exigente recriação do plausível”.

As maravilhas do real, dominadas por dois lados, aquele que é assustador e monstruoso, mas ainda assim cada vez mais especulado pelas notícias; e o lado do indivíduo, que fechado na sua individualidade cultivada e informada, julga ter algum papel activo na sociedade, esquecendo-se da sua pequenez. Desta forma questionamos qual é o papel de cada um de nós em questões importantes, mas que se passam do outro lado do mundo. E assim se assiste a uma clivagem entre pai e filha que discutem manifestações e motins pelo Não à guerra no Iraque. 

Ainda assim julgo que nada prepara o leitor para os episódios que o atingem e lhe abalam o fim do dia. O medo e o perdão, juntamente com a fragilidade da vida, que talvez pautem todas as considerações e decisões do personagem ao longo do livro,  não deixam adivinhar o desenlace final e as diferenças entre um Perowne confiante que madruga e se coloca à janela e um Perowne mais frágil que se aninha na mulher e aceita que o futuro nem sempre está nas nossas mãos.



quarta-feira, 15 de novembro de 2017

“A Queda de um Homem” de Luís Osório :: Opinião



"Ela esforçou-se por executar o primeiro movimento. (...), sabia que precisava de se apressar porque o primo tentaria entrar no seu espaço e ela não lhe desejava fazer mal, só matá-lo o que pouca importância tinha, já o vira morrer antes. 
(...) Uma mão oferece-se à outra mão, intimidade que a levou a contorcer-se ligeiramente, um indecente formigueiro misturado com o medo de lhe tocar, de a porta de abrir e ele a possuir. (...) Quer e não a quer. Amar o que nunca será consumado é o seu campo de batalha, a sua especialidade e conforto, um amor não correspondido. (...) Há muitas maneiras de sobreviver quando a vida parece um poço. Sofrer é uma delas (...)"

Sofrer é uma das palavras de ordem neste «A Queda de um Homem». Um homem e uma mulher que em todas as suas potencialidades, mas também em todas as suas formas defeituosas de viver e sofrer, são palco e metáfora para todos nós. Um romance em que a sua estrutura desafia a resiliência do leitor em ser constantemente baralhado, chocalhado e posto novamente no caminho para tentar compreender quem busca compreensão e confundindo-se nas suas próprias preocupações. Este primeiro romance de Luís Osório é como uma descida aos confins dos pensamentos de cada um e um vir à tona com tantas ou mais dúvidas que pautam os dias de quem se questiona e busca um sentido para a vida. 

"(...) A marcha acelerada do comboio disfarçara o descabido ruído de que nunca mais se lembrara. A hipótese de existir uma outra carruagem, as feridas cicatrizadas, o vendedor de botões, a maneira como cortara um homem às postas, as pessoas lá fora, a visão do apocalipse, o anão que era gigante (...) A prima condenara-o a morrer dentro de um sonho. (...) Há força de tanto fantasiar talvez tenha criado uma maneira de penetrar nos sonhos dos outros."

Se pensarmos no comboio tantas vezes referido neste livro, como uma metáfora para o que se apanha
e o que se perde durante a vida, possamos perceber o jogo confuso com carruagens que o homem vê e deixa de ver e outras que não sabe se existem. Tal como tantos acontecimentos na vida. E o sonho, que impacto tem o sonho nos nossos dias? Se à força de sonharmos muitas vezes formas capazes de viver dentro do sonho ou transformá-lo em realidade? Será assim? Será essa parte da mensagem que acompanha a decadência destes dois personagens?

Por outro lado, esta prima, esta mulher meio enigmática e "aleijada", presa a uma cama, tem o dom de escrever, criando histórias, o que leve a leitor a pensar no papel do escritor e do quanto as histórias que os livros encerram podem contribuir para a reinterpretação da vida e dos dias, que atrás uns dos outros, se somam e seguem e por vezes nos comem os significados que buscamos. 

“Um escritor inventa histórias, especula com as palavras e faz nascer vidas que antes de as pensar não existiam. Um tempo difícil para os escritores, a maioria exige carne e o osso, coisas que a televisão torna reais, sangue a sério. Uma ironia. Porque é no tempo em que tudo parece virtual e volátil que se exige que tudo seja implacavelmente real. Ser escritor é não capitular a tal mentira, é recusar escrever a partir da realidade (o lugar em que a verdade melhor se esconde).”

Percebemos ao longo da leitura, que exige e espreme o leitor, a ironia latente em toda a narrativa, já que é difícil, se não impossível, descortinar quando é realidade ou sonho, quando a personagem vive ou habita o sonho, e se o seu ou o do outro. Este estranho real que se confunde e esconde as verdades dos personagens, terminando sem que o leitor compreenda ou possa afirmar, com certezas, tudo o que aconteceu naquilo que acabou de ler. 


Um livro TEOREMA.




quinta-feira, 9 de novembro de 2017

«Os livros das nossas vidas» de Mendo Henriques e Nazaré Barros - Opinião


"Afinal, o modo correcto de ler é o que satisfaz a nossa necessidade. A leitura apressada, lenta ou cuidadosa, depende dos nossos objectivos. Escreveu Francis Bacon: «alguns livros são para ser degustados, outros engolidos e outros ainda mastigados»."

Pequeno, conciso e variado assim é este «Os livros das nossas vidas». Um compêndio generoso de diversas sugestões de leitura, espalhadas por várias áreas e para serem degustadas consoante a nossa vontade ou não fosse este livro ser apresentado como uma roda dos alimentos, sendo os livros, nas seus mais variados conteúdos, as diferentes fracções da roda dos alimentos. 

"Transportamos recordações e, através delas, construímos narrativas do que somos, do que vivemos e do que queremos vir a ser e a fazer. 
Bibliotecas e livrarias são os locais destas memórias. (...) Retiramos um livro da prateleira, consultamos, lemos, anotamos, e repomos como numa despensa organizada e repleta de sabores, condimentos e aromas."

Por isso, arrancamos para a leitura com duas perguntas: «como é a nossa dieta?» e «se tivermos o prato vazio, o que vamos lá colocar?». 
Fácil, percebi logo que o meu ficaria recheado de hortícolas e frutas, ou seja, romances e outras ficções e alguns romances cheios de fibra. Mas como é óbvio, uma dieta saudável precisa de variedade e pequenas pitadas de coisas diferentes que exponham o indivíduo a novos apetites. Também seria fácil: alguns ensaios e poesia.

Mas também entendi que o melhor tempero são as personagens: aquelas cheias de força, de indecisões, dores e tormentos ou então vidas cheias de absurdo, de ridículo; personagens que fazem um romance ganhar força e fibra.

"Em Conversa na Catedral (1969), de Vargas Llosa, temos de viver com as personagens, dar a mão aos figurantes e caminhar com eles, tomar partidos pelas personagens, rir e discutir, viver uma experiência abrangente, porque a relação é intelectual e emocional. É preciso consentir que as personagens ganhem vida na nossa imaginação e seguir-lhes o rasto de modo a saborear os diferentes paladares da obra."

Se o tempero característico e de base, que dá sabor ao prato são as personagens, o condimento que acusa se a narrativa está no ponto ou não, é a quantidade de sal, certo?; então aí temos uma mistura de sais, conspiração, intriga, suspense... e chegamos aos mestres desses despertares, onde os crimes espreitam a cada esquina e o leitor consome páginas vorazmente, garfada, atrás de garfada.

"O suspense aguça o raciocínio e aumenta a concentração. Todos os neurónios se agitam e a curiosidade intelectual vai-se adensando à medida que o suspense aumenta (...)
A atitude interrogativa na literatura policial e de espionagem é absorvente. Somos levados a analisar o caso, levantar hipóteses, verificar perspectivas, relacionar pistas..."

Nada melhor que um policial para digerir o jantar e o stress acumulado de um dia de trabalho. Ler implica desligar do resto e concentrarmo-nos ali, naquelas vidas, naquele enredo e relaxar do nosso próprio enredo. 

"Ler implica saber ouvir, disponibilidade para seguir a outra voz e nos deixarmos levar pelos seus caminhos, não de um modo passivo, mas tentando compreender o outro acima de tudo, sem urgência de nos pronunciarmos, actividade cada vez mais rara."

Ou seja, ler melhora a alimentação e o estado de espírito, em suma, faz de nós, leitores, melhores pessoas, mais sensíveis, mais despertas para a linguagem e os sinais do outro.

"(...) é importante não resistir ao efeito da literatura. Devemos deixar que a narrativa nos comova. O romancista maximiza as ambiguidades latentes da linguagem para alcançar a riqueza e a força da vida interior..." 

Este pequeno livro de Henriques e Barros dão uma visão alargada do poder dos livros nas nossas vidas, sejam eles romances que alegram e dar cor ao nosso prato ou grande épicos que nos enchem de fibra e energia, tal como as proteínas dadas pela filosofia ou os livros de História, sem esquecer os deleites com o teatro e a poesia ou as digestões mais difíceis e trabalhosas dos grandes temas da Humanidade que o jogo da informação actual nos oferece ou os caminhos sinuosos das Religiões. 

Seja qual for o foco de cada leitor, o recomendado é que se varie e e se saboreei o melhor da cada mundo. 

"Comecemos pela epopeia de Gilgamesh, gravada em tabuinhas sumérias em 2000 a. C., embora a narrativa date de 2750 a. C. Após muitas aventuras, Gilgamesh chora a morte de Enkidu, seu companheiro,. Incapaz de aceitar a aniquilação, o herói começa a busca pela vida eterna. Quem encontrou na sua caminhada, incita-o a apreciar a vida (...)"

E talvez seja essa a maior saga do leitor: procurar a imensidão da vida eterna, vivendo muitas vidas através dos livros, ou, aproveitar a vida, gozando os livros e o quanto eles ensinam a aproveitar o agora, através de lições e exemplos de superação que nos ensinam a relativizar. 

"Ler poesia é escutar, conversar, dialogar. Não é um monólogo, antes um contacto com outro mundo (...) Os grandes livros de poesia são aqueles que contêm as grandes ideias ou as ideias que vão ao encontro das nossas inquietações. O poema tem essa mesma função: elevar, transportar a outros estágios, causar bem-estar. Todo o poema é uma lição de vida. (...)
Quem lê poesia, vive menos cansado das coisas bruscas da vida."



quarta-feira, 8 de novembro de 2017

«As Cidades Invisíveis» de Italo Calvino :: Opinião



Difícil tarefa tem o leitor viajante para se aventurar nesta viagem por entre cidades invisíveis contadas a quem tanto deseja conhecer e narradas por quem parece ter algo a esconder. «As Cidades Invisíveis» é um conjunto de divagações ou micro narrativas de Italo Calvino, por entre conversas entre Marco Polo e Kublai Kan e eu diria até entre um leitor viajado que vai em busca de reconhecer alguns dos destinos que já visitou e com boa memória mantêm vivas diversas viagens.

"Tudo para Marco Polo pudesse explicar ou imaginar que explicava ou ser imaginado a explicar ou conseguir finalmente explicar a si próprio que aquilo que ele procurava era sempre algo que estava diante de si, e mesmo que aquilo que ele procurava era sempre algo que estava diante de si, e mesmo que se tratasse do passado era um passado que mudava à medida que ele avançava na sua viagem, porque o passado do viajante muda de acordo com o itinerário realizado, digamos não o passado próximo a que cada dia que passa acrescenta um dia, mas o passado mais remoto. Chegando a qualquer nova cidade o viajante reencontra o seu passado que já não sabia que tinha: a estranheza do que já não somos ou já não possuímos espera-nos ao caminho nos lugares estranhos e não possuídos."

Talvez esta longa explicação possa orientar o leitor por entre tantas possibilidades de visitar cidades com nome de mulher a quem o narrador remete características oníricas e descrições, que na objectividade podem encaixar em diversas cidades reais (quais nunca saberemos), mas na subjectividade já só podem encaixar naquelas em que se criaram memórias, de onde se trouxeram cheiros e sabores e imagens que, inevitavelmente, mudam à medida que cada um de nós muda e já com outros olhos, olha e recorda uma viagem.

"Se devo explicar-te de que maneira o espírito de Olívia tem a tendência para uma vida livre e uma civilização requintada, falar-te-ei de damas que navegam cantando de noite em canoas iluminadas por entre as margens de um verde estuário; mas é só para te recordar que, nos subúrbios onde desembarcam todas as noites homens e mulheres como filas de sonâmbulos, há sempre quem  no meio do escuro desate a rir, quem dê o sinal de partida às brincadeiras e aos sarcasmos."

Aqui, neste pequeno excerto da terceira parte, «As cidades e os sinais» pude perfeitamente regressar a 2006 quando visitei Veneza, quando dei por mim, novamente, parada junto a um cais olhando perdida ao romantismo que envolvia aquelas gondolas que navegavam devagar e contrastavam com a horda de vaporettos carregados de pessoas que regressavam do trabalho, envolvidas e revolvidas com turistas.
Este retorno sentiu-o outras vezes, dei por mim a viajar nas palavras de Calvino e a aterrar outra vez em Ronda, contemplando o horizonte que se estende e diminui ainda mais o caminheiro, que palmilha campos e planaltos na ânsia de atingir o topo e usufruir da cidade. Ou cheguei outra vez a Roma, olhando-a sempre com outros olhos, mas também com um resquício de nostalgia de quem procura aquilo que a fez regressar.

"Clarice, cidade gloriosa, tem uma história atribulada. Várias vezes decaiu e refloresceu, tendo sempre a primeira Clarice como modelo inigualável de todo o esplendor, em comparação com o qual estado presente da cidade não deixa de suscitar novos suspiros... (...)
Nos séculos de degradação, a cidade, esvaziada das pestilências, baixando a estatura devido aos desmoronamentos (...) entupida por incúria ou falta dos responsáveis pela manutenção (...) Agarravam-se a tudo o que se pudesse retirar donde estava e pôr noutro lugar para servir para outro uso (...) E então os resquícios do primeiro esplendor que se tinham salvado adaptando-se a necessidades mais obscuras eram novamente deslocados..."

Muito se podia viajar e esmiuçar neste compêndio de divagações, memórias e observações de Calvino, mas deixo para cada leitor, a fuga para dentro destas invisíveis, ocultas na memória de cada um e guardo para o fim, retirado de «As cidades e os mortos» um excerto e uma pergunta, serão as viagens um somatório de retalhos, com vivências, cheiros, pessoas, imagens... que vão completar a cidade final; a cidade que habitaremos quando já mortos?

"Pensei: «Se Adelma é uma cidade que vejo num sonho, onde só se encontram mortos, o sonho faz-me medo. Se Adelma é uma cidade verdadeira, habitada por vivos, bastará continuar a fixá-los para que as parecenças se dissolvam e apareçam caras estranhas, que dão angústia. (...)»
«Chega-se a um momento da vida em que da gente que se conheceu são mais os mortos que os vivos. E a mente recusa-se a aceitar outras fisionomias, outras feições (...)»
«Talvez Adelma seja a cidade a que se chega ao morrer e em que cada um reencontra as pessoas que conheceu. É sinal de que também estou morto» (...)"


quinta-feira, 12 de outubro de 2017

Guia de Tratamento | Paciente: Metade Negra


«Remédios Literários, Livros para salvar a sua vida - de A a Z»
de
Ella Berthoud & Susan Elderkin | Edições Quetzal 

*
Paciente: respondo pelo nome de Metade Negra, tenho 35 anos e várias patologias.
Sintomas
- Diagnostico em mim crises diversas e variadas; teimosia agravada e solidão cristalizada;
- entre outras coisitas físicas mais simples, como dificuldade em fechar a boca ou síndrome de cão da pradaria...

Após uma leitura atenta, divertida e considerando conselhos e avisos das autoras, estou prepara para emitir a Guia de Tratamento e a posologia adequada perante as diversas crises diagnosticadas.

A forma como o diagnóstico se vai construindo a ele próprio, é brilhante, ou seja, este livro é a prova de que um mal nunca vem só e à medida que procuramos por uma maleita encontramos logo outra associada que facilmente reconhecemos como mais uma na nossa lista.

Por isso aqui fica o enumerado de maleitas e respectiva prescrição.

- Prisão de Ventre e Flatulência - para soltar notícias das suas entranhas, as autores prometem que «Shantaram» de Gregory David Roberts fará milagres, tais são as descrições. Aliás, a barrigada de riso que é a entrada neste livro sobre esse outro livro, é divinal e só por si já melhora os movimentos intestinais. No caso concreto da flatulência, estou muito satisfeita com a medicação, aliás, já a testei (opinião), é o livro «Uma conspiração de estúpidos», um livro fabuloso de John Kennedy Toole. 

Associado a estas quezílias do corpo com ele mesmo, o livro diagnostica também irritabilidade (confirmo!), gula (culpada!), rabugide e letargia... tudo sintomas várias vezes experimentados, logo para tratar a irritabilidade a proposta é: «O navio-farol de Blackwater» de Colm Tóibín; para superar a rabugide, que as autoras avisam ser contagiosa e eu não quero contagiar ninguém, que não quero ninguém igual a mim, a sugestão é: «A Ilha do Doutor Moreau» de H. G. Wells - que pela descrição deste livro de remédios me parece ir encaixar que nem uma luva. 

Para acabar com a Gula, essa inimiga eterna, as autores sugerem «A divida ao prazer» de John Lanchester que tem uma sinopse bem suculenta. E ainda para o combate à letargia, um livro que promete alimentar o bichinho carapinteiro, que eu ás vezes também preciso controlar, por isso ficam ambas as sugestões: «O céu que nos protege» de Paul Bowles e "Ulisses" de Homero.

Associado ao desejo de andar de um lado pro outro, há duas patologias distintas, uma é o desejo de abandonar o barco e outra é o de viajar, para o qual, Ellen e Susan, alertam para o seguinte: não vá você tornar-se numa dessa pedras que não criam musgo. A ideia é maravilhosa, mas como por enquanto não me importa de ser um seixo rolante, iria bem até ao Japão e para tal viagem é recomendado tomar uma dose de Yasunari Kawabata com o seu «Terra de Neve». 
Daqui, fico ainda com a referência à série de John Updike com início em «Corre Coelho», na qual estive para pagar neste final de Verão, mas faltava precisamente este primeiro livro. Agora já tenho mais um motivo.

Para as noites de insónia, que não é bem assim que elas o referem, fica o curioso título, «A Casa do Sono» de Jonatham Coe, que eu tenho na estante há tanto tempo. A ver se lhe pego.

Tal como a insónia quem é que, de vez em quando, não se sente insatisfeito ou com saudades de algo!?
Para combater a Insatisfação: «Bairro de lata» de Steinbeck e para as Saudades um livro ternurento, misterioso e suave, «Seda» de Alessandro Baricco: um livro muito bom e que já li. (opinião)

Típico de gaja são as dores associadas àquela altura chata e tenebrosa do mês, para esses dias algumas das recomendações eu já li, por isso escolho, pelo título «A Tenda Vermelha» de Anita Diamant, livro o qual não deverá ser fácil de encontrar, por isso, outra sugestão é o «Até ao fim do mundo» de Maria Sample, que eu, gentilmente, sugerir à rede de bibliotecas e eles adquiriram. 

Nessa altura do mês outra coisa que me afecta são as dores, umas mais gerais que outras e logo aqui eu já tomei deste remédio: «Acasalamento» de Norman Rush e é um remédio muito bom (opinião).
A outra sugestão é um livro que me persegue «A história de Edgar Sawtele» de David Wroblewski

Para quem como eu, pode, sabe-se lá, não arriscar o suficiente, o remédio é português e é do meu ano, 1982... tantas coincidências. A prescrição é «Balada da praia dos cães» de José Cardoso Pires.

O mais patológico talvez sejam dois:
- em busca da felicidade - o remédio é ler «Fahrenheit 451» de Ray Bradbury (lido agora em 2018, opinião)
- não ter filhos (e continuar a não tê-los) as autoras recomendam: "She" de H. Rider Haggard que pela sinopse não me convence e pergunto-me se depois de "Temos de falar sobre Kevin" é preciso mais discussões!?

Para terminar a lista de medicamentos, faltam três:

- para tratar a patologia de DIY, "faça você mesmo", um livro e um pedido de atenção para não martelar dedos - «A ilha de Caribau» de David Vann

- para se iniciar à ficção científica - como se não lê-la fosse um mal maior, mas ok, pelas sugestões apresentadas eu até considerei: «1984» e «Nunca me deixes» no novo Nobel da Literatura

E a cereja no topo do bolo, um dos meus livros de sempre e recomendados para quem tem mais de 100, exacto, cem anos ;) o «DRACULA» pois claro. Não sei o que dirá de mim ter como favorito um dos livros recomendados para pessoas com mais de 100 anos. E atenção, na lista existem outros, como o hilariante e já lido (opinião), «O centenário que fugiu pela janela e desapareceu". Li o livro e vi o filme, dose dupla, sou um fóssil!!! 


Se estes remédios não forem suficientes há uma lista de livros só porque a malta já passou dos 30, mas ainda não entrou nos 40, aqui ficam:

- «A inquilina de Wildfell Hall» de Anne Brontë
- «Middlesex» de Jeffrey Eugenides
- «O sol nasce sempre (hiesta)» de Ernest Hemingway
- «Anna Karénina» de Lev Tolstoi
- «Servidão Humana» de W. Somerset Maugham
- «2666» de Roberto Bolaño
- «A sorte de Jim» de Kingsley Amis
- «Orgulho e Preconceito» de Jane Austen
- «Mau tempo no canal» de Vitorino Nemésio (Já tentei e desisti, se calhar foi antes dos 30)


Ah, já me esquecia. Hoje o meu sobrinho disse-me, como já me disse muitas vezes: "Tia, és estranha."
Não quero deixar de ser estranha, mas aceito o remédio para a estranheza: «Oscar e Lucinda» de Peter Carey



Peguem neste livro e passem umas horas bem divertida a fazer a vossa prescrição




quarta-feira, 11 de outubro de 2017

«as coisas que perdemos no fogo» de Mariana Enriquez :: Opinião


"Vi-a quando estava prestes a atravessar a avenida. Estava no meio de um monte de lixo, abandonada sobre as raízes de uma árvore. (...) 
Peguei nela com as duas mãos, para não a desmontar. A caveira não tinha mandíbula nem dentes (...)
(...)
Comprei à Vera umas luzes decorativas, dessas que servem para enfeitar árvores de Natal. Não podia continuar a vê-la sem olhos, ou melhor dizendo, com os olhos mortos,e, por isso, decidi que dentro das órbitas vazias brilhariam luzinhas. Como são coloridas, vão mudando, e um dia a Vera terá olhos vermelhos, noutro dia serão verdes, e ainda outro, azuis."

Se já se riu, não se habitue. 
Se por acaso se espantou, não se renda.
Se só se arrepiou, aviso desde já que se arrepiará mais e repetidamente. 

Mariana Enriquez especializou-se na arte de bem combinar palavras para arrepiar o leitor, mas mesmo assim ser capaz de o viciar no macabro e no sórdido que, conto a conto, o vai envenenando para perder a fé nas pessoas.

O excerto pertence ao conto "Nada de carne sobre nós", que foi o primeiro e talvez o único a fazer-me rir, no entanto, todos os outros contos traçam histórias macabras e de um horror e bizarria bem mais malévolos que este. Ainda assim, Enriquez é capaz de satirizar e dar um tom humorístico ao que escreve, o que revela e eleva ainda mais a violência e o diabólico de cada acontecimento. 

Em "Fim de Ano", por exemplo, vamos seguindo aqueles dias de aulas quase como se estivéssemos na sala, assistindo, pacíficos, aliás, como toda a turma e, sentimo-nos a pertencer a um grupo de sanguessuga que espera, avidamente, mais sangue e drama ... E como se não bastasse uma, no final, somos varridos por duas adolescentes que sofrem da mesma patologia e com uma só frase a autora é capaz de nos derrubar. 

Derrubar-nos com os finais acontece em vários contos, quase como se nada preparasse o leitor para aquele embate, mas pior embate é ouvir a autora, com quem estive, estivemos, à conversa na Feira do Livro de Lisboa deste ano, e ouvi-la dizer que esta é uma Buenos Aires que existe e nem tão assim escondida, o que nos arrepia, seja com o primeiro conto ou com o último, que, se pensarmos bem são tudo formas medonhas de morrer e seguir vivendo.

"Quando o sol caiu, a mulher eleita dirigiu-se para o fogo. Lentamente. Silvina pensou que a rapariga se ia arrepender, porque estava a chorar. Tinha escolhido uma canção para a sua cerimónia (...). A mulher entrou no fogo como quem entra numa piscina, atirou-se, num mergulho convito: não havia dúvida que o fazia de livre vontade. (...)"

*
Um livro QUETZAL

segunda-feira, 9 de outubro de 2017

«Lanzarote» de Michel Houellebecq :: Opinião



Imaginemos cactos. Aqueles arbustos ou árvores, consoante o género, com mais ou menos picos, com ou sem flor, erectos ou ramificados, tortos ou inclinados... não sei... pensemos em cactos desde o início para não pensarmos em outro tipo de espécimes erectos, já que o narrador é o Houellebecq e eu não me apetece imaginá-lo nu. 

Com este pequeno livro, quase literatura de viagens, consegui redimir-me e voltar às leituras desde autor. Esse sim, recheado de picos, com certeza na língua, pois parece que nada lhe fica por dizer, ultrapasse ou não o politicamente correcto. Parte na qual, devo concordar, às vezes já enjoa e existem coisas que precisam ser ditas. E Houellebecq não perdoa!

Passando estes parágrafos introdutórios convêm ainda dizer que este pequeno livro é a prova de que mesmo os mais cínicos, espinhosos e do contra, merecem e têm férias. Mal seria se assim não fosse!
Por isso, temos em mãos mais de cinquenta páginas de humor, entre paisagem árida, reflexões cáusticas, banhos de mar e algumas cenas de sexo em grupo. Que mais para ter umas boas férias!? 
Companhia? Isso o narrador também terá. Rudy é o companheiro para uns copos e o que permite a viragem da acção e da reflexão durante estas merecidas férias no início do ano 2000. 

O sentido da vida, especialmente na viragem do século, está na ordem do dia, mas não se espere uma reflexão muito exaustiva. Afinal é um período de férias e “Podemos viver sem esperar nada da vida?”é a pergunta chave deste relato. Se não esperarmos nada, pelo menos que se usufrua de sexo, em qualidade e quantidade. 

"Eu penetrava-a profundamente, devagar e depois depressa. Pam acariciava-lhe os seios. (...)
Empenhou-se com uma tal sensibilidade que Barbara e eu gozámos exactamente ao mesmo tempo...
Fiquei exausto e dirigi-me para a cama suplementar - na realidade, a cama de criança - enquanto Pam e Barbara continuavam a masturbar-se e a lamber-se uma à outra na cama de casal. Eu estava nu e feliz. Sabia que ia dormir muito bem."

A aventura na ilha termina, mas os registos de férias ou o traço critico e hedonista do autor não. Avançamos por outras reflexões e mais sexo. Perguntando até que limite o autor pretende chocar o leitor ou apenas dar-lhe outras formas de observar a realidade. Será? 
Se com a leitura de «Extensão do domínio da luta» eu fiquei desinteressada das suas palavras, com este registo mais sardónico, mas no qual até lhe encontro um certo sentido, já fico mais curiosa com a tão falada obra «Submissão». 

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Um livro ALFAGUARA