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quinta-feira, 29 de agosto de 2019

«Voar no Quarto Escuro» de Márcia Balsas :: Opinião



"Há mais calma na sinfonia de uma casa abandonada, do que no silêncio familiar do medo."

No desempoeirar de memórias e com personagens decididas a pisar no passado, Balsas leva-nos a diversos quartos escuros, mas talvez nenhum nos prepare para as bofetadas, mesmo às claras, que nos vai dando durante a leitura. 

"Os primeiros tempos de tratamento foram duros: sempre atordoada, um nó no pensamento, a cabeça vazia como se uma equipa de limpeza lhe tivesse esfregado o crânio por dentro. A brilhar como uma pista de gelo. Deixou deixou de ser ela. Se calhar por isso, tudo melhorou na sua vida. (...), e nada lhe tirava o sono à noite."

Com uma escrita seca e acutilante, dá-nos cenários muito transparentes enquanto nos envolve num labirinto de sentimentos e emoções de mulheres, cheias de pessoas que lhes passeiam por dentro e que se cruzam nas arestas vivas e tóxicas do mundo do trabalho. 

Há cenas bastante bem conseguidas, sejam no escritório - sempre com um humor retorcido; seja a reforma de sexo entre Adelaide e Jorge ou a barricada de livros entre este mesmo casal. As angústias de Ema ou a violência contra Eduarda. São imagens que perduram na cabeça do leitor pela caracterização inteligente que adensam cada personagem. 

"(...)um bebé sozinho, fechado numa caixa, rodeado de velas. (...) nenhuma da família da defunta. «Defunta.» A palavra a bailar-lhe na cabeça. Como se chama a um bebé morto antes de nascer? (...)
Agora estava tudo acabado, tudo debaixo de uma carpete verde, fofa. (...)
«Branco não!», recusa Ema perentória, a quem os caixões para bebés lembravam bolos de noiva mal acabados."

Em todas as mulheres é fácil reconhecer traços que se confundem com os nossos ou que outrora já pautaram as nossas vidas. Como Beatriz, que na erosão dos dias vê a sua angústia, tristeza e solidão aumentadas, mas retratadas pela autora de forma muito privada, no entanto, quando se revelam os seus textos, já mais para o final, a metáfora usada dá toda uma outra dimensão à solidão, ao medo e às diferentes prisões que permanecem em toda a narrativa.

"Procrastinação. (...) Envergonha-se das coisas que lhe ocorrem, materialismos que não a definem, só a atormentam por definirem o mundo. (...)
Dar tempo ao tempo, conceito obsoleto. Toda a ansiedade é destrutiva."

segunda-feira, 26 de agosto de 2019

«As longas noites de Caxias» de Ana Cristina Silva - Opinião


«As longas noites de Caxias» de Ana Cristina Silva é um livro necessário essencialmente para recordar a maldade inerente à polícia política do Antigo Regime, mas mais do que tudo expor a maldade no feminino, daí que a PIDE venha na imagem da agente Leninha. No entanto, para deixar maior marca no leitor a autora precisava de ter sido mais crua, fosse com as descrições das personagens, fosse com as longas noites de tortura. Ainda assim é um documento importante e interessante para se pensar a perseguição política e a humilhação a que tantos homens e mulheres foram sujeitados. Em certas partes, a linguagem com um leve toque poético não lhe cai mal, mas distraí o leitor do importante: a violência, o ódio, a injustiça e o clima de medo. 

"Como represália, gritaram-lhe que fizesse a estátua: «Agora vais fazer de Cristo». Um dos agentes riu-se e os outros pegaram-lhe nos braços. Laura sentiu um calafrio, uma horrível sensação causada pelo toque das mãos suadas na sua pele. Bastavam poucas horas naquela posição para ficar rígida como um cadáver. (...) 
As noites pertenciam às agentes femininas que as impediam de dormir. (...) - Leninha, Odete ou Lourdes - ia batendo com  moeda debaixo da mesa. Aquele ruído tinha o som de um trovão numa penumbra de profundo silêncio."

Há um constante duelo entre Laura e a agente, no entanto, a narrativa segue um outro rumo a partir do momento em entra mais na vida de Leninha e vemos que a sua luta é muito anterior à PIDE e percebemos que o caminho da violência lhe era adivinhável. 
"No dia em que Salazar foi a Setúbal e beijou Maria Helena na testa, o seu pai deu uma tareia à mulher."

Nestas descrições de época, retratando as décadas de ditadura e a necessidade de deixar muitas palavras rentes à boca que conhecemos o outro lado, o de Laura, a jovem a quem é dada a oportunidade de vir para Lisboa estudar Direito e por aqui, anos mais tarde, entra-se na luta e na resistência estudantil, mas também com Laura, Ana Cristina Silva coloca-nos a pensar na sobrevivência e na superação do trauma. Se é que é possível e como, com que limitações.

“A vigilância praticada pelos agentes da PIDE era um serviço de Estado Português. O seu propósito secreto era o de que as pessoas deixassem de ter pensamentos para se transformarem numa frágil teia de espírito permeável ao terror.”

Quase no final, o palrar patriótico e a justificação pela lealdade e cumprimento de ordens, juntamente com nenhuma procura por redenção ou perdão, intensifica os traços psicológicos da personagem ligando-a à enorme desumanização de todos os regimes. 


quarta-feira, 3 de julho de 2019

“Alma e os mistérios da vida”, de Luísa Castel-Branco - Opinião


A minha mãe pede-me um livro e é assim que chego até este «Alma». Cheguei e fiquei até ao fim e não sei bem porquê, pois é uma leitura completamente fora das minhas escolhas, mas achei que um país mergulhado nas trevas da ditadura desse uma boa personagem, mas o país não se revela e a ditadura também não. São poucas as linhas que o descrevem, tal como a personagem que dá nome ao romance. Alma é uma personagem quase invisível, descrita pelas palavras dos outros e é a vida dos outros que vamos seguindo. 

"A sala estava à cunha e nem uma mosca zumbia, o ara estava pesado e peganhento. Com umas voz de cana rachada, tão fina como o bigode, o senhor inspector, sujeito atarracado, que tinha semelhança com o retrato do grande presidente, o Salvador da Nação, cujo o rosto presidia a todas as aulas numa moldura escrupulosamente limpa, procedeu à leitura das folhas de exame..."

Esta descrição, quase nas primeiras páginas, dão-nos o ambiente do Portugal de 70, mas o restante escrutinio passa rapidamente para as vidas de um leque amplo de personagens tapando a vida propriamente dita de Alma. No entanto, o tom em que o povo é descrito retrata muito bem a portugalidade da época e alguns traços que ainda hoje persistem.

"No Inverno, escondidas atrás das cortinas, espreitavam como gato castrados, e assim podiam recitar de cor a lista de quem tinha ido ao confessionário nos últimos anos..."

"(...) mesmo depois da Revolução, e durante uma época em que o ódio era o estrume das terras..."

Em parte, este romance alimenta-se muito desse estrume inerente à alma humana, uma estranha necessidade de dificultar a vida alheia, especialmente nesta época e essencialmente as vidas femininas, entregues aos caprichos das heranças de família e as falsas cortesias de homens que não as queriam, mas as precisavam desposar. Assim, as almas que povoam este livros estão entregues ao sofrimento. Seja ele por amor, ódio ou devoção.

"(...) e uma vez mais agradeceu ao bom Deus nunca lhe ter dado a conhecer o amor ou a paixão, livrando-o assim de ser barro nas mãos do destino."

Fruto da época, o medo também assume destaque: "O medo não morre de idade nem é passível de se perder nas brumas das memórias". Sentir medo, incutir medo, ter fé por ter medo... 

Existem, em certas passagens, descrições bem conseguidas das personagens, mas falta muito para ser um livro apetecível de ler e com um enredo bem entrelaçado.

"Tinha os olhos descaídos, como que prontos a tombar em cima da mesa ou de qualquer outra coisa, a todo o momento. Quando era criança, até que lhe emprestava um certo ar encantador, mas quando cresceu o rosto acabaria por descair como os seus olhos (...). Recordava um buldogue em poisio, um animal enroscado em si mesmo, cheio de pregas e mais pregas."



quinta-feira, 18 de abril de 2019

«Princípio de Karenina» de Afonso Cruz :: Opinião



O princípio de Karenina ou a imperfeição que é querer medir a felicidade. 


"A imperfeição salvar-me-ia com igual intensidade e na mesma medida com que me faria sofrer"

É nesta medida dúbia, tendo na imperfeição a salvação, que um homem narra a sua história, numa longa carta de apresentação, à filha que não viu crescer. Explicando-lhe "uma orientação invisível e subtil das nossas vidas através dos afectos", mas também o drama de ter medo do desconhecido e como isso limita o tamanho do mundo; mundo esse sempre estrangeiro como o das mulheres que mais amou.

Essa aversão ao estrangeiro, as costas voltadas ao infinito que é uma janela aberta e toda as fronteiras que mais parecem muralhas, são heranças que cedo sabemos lhe terem ficado do pai. Heranças angustiantes, marcadas por sentimentos fortes que o sufocaram durante décadas. 

"Lembro-me muito bem dessa refeição em que o Dr. Vala disse à mesa que as batatas vinham da América do Sul. As emoções, positivas ou negativas, são uma máquina de impressão. Todos os acontecimentos tendem a desvanecer-se, mas a emoção grava-os na pedra da realidade, da nossa realidade (...) O cheiro das batatas cozidas estragava-me o nariz, (...). Olhei de soslaio para o meu pai, tentando perscrutar alguma reacção sua que confirmasse aquilo que eu acabara de perceber, a imoralidade de certa comida que mastigávamos e engolíamos (...)
- O que é que se passa? O menino está pálido.
Estava, efectivamente. Como se enfia na boca uma coisa de tão longe, com um oceano pelo meio, como se mastiga aquela distância toda?"

É essa distância, difícil de mastigar e, mais ainda de engolir, que o assombrou a vida inteira. Vida essa falsamente protegida pela imponência dos muros da moralidade, pregada entre gerações como estandarte contra o Mal.

"Um herói ou um santo só existe se confrontado com o Mal, só existe depois de emergir ileso da barbárie, e eu queria ser um santo como os que ouvia na missa e admirava nos nichos de pedra e nos frescos da igreja."

Para além dos santos, também a mãe vivia encerrada nesses nichos. Temente, ausente e de poucas palavras, constantemente esmagada entre a forte personalidade do marido e "a necessária encenação social que nos mantém coesos enquanto comunidade".

São entre estas personagens e outras pontuais que vamos conhecendo a história deste homem e de uma mulher vinda de geografias longínquas. Conhecemos-lhe o amor e os medos e questionamos atitudes de decisões de quem esteve mais perto de uma felicidade maior e a deixou fugir. Será mesmo assim? 
Este, como todos os livros de Afonso Cruz, faz-nos olhar para dentro. São frases pequenas, que parecem simples e que nos arrebatam, puxando-nos para dentro, numa tentativa de perceber mais o que metemos para fora. 
E a certa altura, numa conversa entre miúdos, concluímos que onde não há flores há caminho E que o medo nos pode fazer coxos da cabeça, deformando-nos. E que mesmo deformados encontramos um atalho para a vida.




segunda-feira, 18 de março de 2019

«A Última Ceia» de Nuno Nepomuceno :: Opinião


"Os italianos chavamam-lhe Il Cenacolo. (...)
Todos a conheciam como A Última Ceia
(...)
Apesar do restauro recente, o estado de degradação não só era considerável, como notório. Partes do desenho inicial do desenho de Leonardo estavam desaparecidas, outras simplesmente tinham sido eliminadas, mas, quando a luz na sala diminuiu ligeiramente, provavelmente devido a uma nuvem que passava lá fora, Sofia deu por si maravilhada.
Pálidas carícias de cor, na sua maioria em tons pastel, ganharam vida perante si. Depois da entrada triunfal em Jerusalém, Jesus reuniu os apóstolos para uma refeição e previu, entre outras coisas, que um deles iria traí-lo. As grandes figuras dos discípulos agruparam-se à sua volta em conjuntos de retórica. Revoltados, gesticularam e argumentaram com uma emotividade nunca antes representada, escutados ao longe pelas montanhas que os espiavam através das janelas entreabertas."


Uma obra de arte icónica, um roubo que supera interesses monetários e uma história de amor fugaz repintam esta última ceia num tom enigmático e conferem-lhe um acabamento de thriller sofisticado. As descrições bem conseguidas e uma escrita que cativa pelo ritmo que impõe, conduz o leitor por uma viagem entre ruas, igrejas, galerias e obras de arte, como se ele próprio viajasse por Itália. E o leitor escolherá: ou vive intensamente a paixão recente entre Giancarlo Baresi e Sofia Conti, especulando as intenções de cada um ou se preocupa em desvendar a motivação por detrás do roubo de tal peça gigantesca e de valor incalculável. Independentemente da escolha, o leitor é sempre acompanhado por bons momentos literários, navegando ao longo de diversos períodos da História, tal como acontece nos últimos dois livros de Nuno Nepomuceno: «A célula adormecida» e «Pecados Santos». 

"Mas a arte é um conceito poderoso (...)
O povo hebraico achou a escultura de um bezerro de ouro tão impressionante, que resolveu venerá-lo tanto como a Deus. Luís XVI perdeu o trono devido, em parte, aos gastos excessivos que fez em quadros (...)
»A arte mão é um animal exótico que se guarde em cativeiro para que possamos admirá-lo todos os dias (...)"

A religião está sempre presente nos últimos livros de Nepomuceno, se bem que neste há um salto, cruzando religião e arte, tornando os crimes mais passionais, conferindo um tom airoso para falar do Cristianismo. Outro detalhe sempre bem conseguido é a forma como o autor aprofunda a vida dos personagens que se repetem e vêm pintalgando as três narrativas. Vemo-los surgir em cada um dos livros sempre com mais detalhes, como se cada um deles fosse um quadro em constante restauro, é assim no caso de Afonso (e de Diana), permitindo ao leitor acompanhar aquela história e os fantasmas que ficam adormecidos e, a quem que não leu os livros anteriores, a querer lê-los para entender determinadas acções dos personagens. 

Outro pormenor que tem marcado estas leituras são os relatos dos crimes ou das cenas de violência e é interessante ver como um autor evolui e com muito menos descrições consegue transmitir violência, pavor, angústia e medo, sem perder humor ou a capacidade de permitir ao leitor várias sensações numa só passagem. 

"O Tamisa serpenteava no meio dos edifícios vitorianos, mas eram os arranha-céus que mais se destacavam. O sempre ácido humor britânico batizara-os bem. Os ingleses chamavam-lhes The Gherkin - O Pepino -, The Cheesegrater - O ralador de queijo -, The Razor - A lâmina de barbear (...)
Antes de começar a falar, Richard lançou um último vislumbre aos arranha-céus. Curioso, era exactamente assim que se sentia, como um aperitivo cortado em pedaços e pronto a ser servido grelhado para o italiano degustar."


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Mais informações em:



terça-feira, 12 de março de 2019

«o escuro que te ilumina» de José Riço Direitinho - opinião


Tenho, necessariamente, de pessoalizar este meu texto sobre o mais recente livro de Riço Direitinho. Sou fã do autor e sigo muitas vezes sugestões de leitura comentadas por ele no Público. Por isso, e por ser fã do fabuloso breviário; só podia correr a comprar e, a ler, este novo livro perante o lançamento tanto alarido se fez. 
No entanto, ao lê-lo fui ficando escurecida com o que me esperava, página atrás de página. O tom encantatório que eu queria reencontrar, apenas me chegava por referências do autor e não pelas suas palavras.
Agora, volvidos mais de seis meses da sua leitura e por motivo deste texto, releio partes, umas ao acaso, outros marcadas e descubro-lhe uns traços que captaram a minha atenção e me puxam para o reler na íntegra.

*

O narrador, homem de meia idade e professor universitário, entediado com a rotina da vida, decide espiar a vizinhança e com os segredos dos outros expiar os seus males. Entretanto vai tecendo um diário e mina-o de referências e citações de outros autores. Se inicialmente me pareceu um exagero, agora em releitura acho-o um detalhe obrigatório para a personagem. Ossos do ofício!

"Contrariando o que disse Herr Nietzsche:
Não são os abismos que só por si nos atraem, são os nossos próprios precipícios que se iluminam com a visão desses outros abismos: dos teus."

Nesses abismos, ficamos logo a saber, existe um alvo: uma mulher, ser observado e desejado, para quem o narrador se dirige: escrevo como se me lesses. (...)
"Ficaram-me os olhos em ti na primeira vez que te vi (...) 
Não sei como exprimir a ideia.
Fui-te construindo: como quem constrói com objectos soltos uma infância que a vida fez esquecer (...)"

Desenamorado da vida, o professor avança compulsivamente com o telescópio e o acto de espiar rapidamente o ultrapassa. 

"As vidas dos outros, olhadas com distância, sempre me interessaram (...) interessam-me como histórias: matéria bruta: acasos. Não me prendem por aquilo que contam, mas pelo que possam esconder: (...) como algo que está ali diante de nós e que não se revela a um olhar distraído: que temos de descobrir: como deve acontecer nas boas histórias."

“O espaço doméstico, esse ringue de silêncios pactuados e de lutas mudas, pode ser o território mais difícil de habitar: mas é talvez dos poucos a que sabemos poder sempre voltar, e é isso que, de uma forma ou de outra, nos conforta e sobretudo nos protege.”

Eu não sei se Riço Direitinho consegue essa tal boa história, mas consegue escamotear as intenções do personagem que mais adiante no relato podem surpreender o leitor. Fugindo desse ringue doméstico e de forma tão ao acaso e quase natural, a vida evolui para a devassidão. 

"É verdade que, depois de termos deixado calcificar a vida (assim como acontece com as torneiras que já não abrem nem fecham, só pingam durante a noite - não, isto não é uma irónica metáfora sobre o sexo conjugal), precisamos quase sempre de um estímulo para ressuscitar."

Contrariando essa calcificação da vida, o professor ressuscita fantasias sexuais que compulsivamente segue, com bazófia e profusão, trazendo constantes descrições de cenas de sexo explícito para a narrativa.  

"A transgressão, mais do que libertar, conduz ao desejo: a fantasia é sempre um acto transgressor, necessário para todas as almas que acreditam - que acreditam no que quer que seja."

Se o personagem transgride fá-lo em plena consciência e coragem. Pode não a ter para a sua fantasia mais concreta: ela, a desejada, mas o abismo profundo da solidão revela-lhe lugares e noites de plurais onde se pode abandonar à libertinagem que Lisboa lhe oferecer e a partir daí detalha um guia com direito a códigos de conduta, dress code e localizações gps. 

"Há nas verdadeiras almas atormentadas um desespero existencial que passa para o sexo (...)"

E é isso, temos aqui uma alma atormentada e não se lhe conhecem mais motivos do que um amor angelical e platónico e umas quantas críticas à sua forma física, erotizando-lhe apenas a inteligência. No entanto, para além da solidão também o sexo é embutido na rotina: sexo desenfreado como catarse para esbater a solidão nos breves segundos de um orgasmo.

As repetidas jogadas sexuais, algumas roçando o ridículo (como a aluna que pede: “Foda-me o cu, professor! E vá declamando um soneto de Bocage." - que professor faz) tornam-se o «pão nosso de cada dia» e o relato vai perdendo intensidade. Repete-se o sexo explícito mas cheio de metáforas, a critica social é mordaz e inteligente, mas o que mais fica é que o sexo tanto exibe o mais moderno de cada um, como esconde medos, fracassos e o peso do envelhecimento. 

sexta-feira, 8 de março de 2019

«O meu amante de domingo» de Alexandra Lucas Coelho - Opinião


"Alguém com uma vingança nunca está só."


Há um "não sei o quê" que me puxa para os livros de Alexandra Lucas Coelho (ALC) que eu não sei o que é, mas que me leva a entrar neles adentro e só sair quando atinjo o fim. 
Encontro sempre personagens que têm um traço meu, neste claramente é a linguagem desbragada, como muitos me acusam de ter. A narradora consegue ser fulminante com alguns comentários e pensamentos tóxicos, no entanto, o tom que o romance leva, que se esforço por não querer parecer sério, faz-nos cingir essa linguagem à revolta e à fúria que aquela mulher sente e então passa a fazer sentido.

"Lá fui para a Bobadela à hora a que já estaria no centro de Lisboa a nadar, apurando a cada braçada o sofrimento mais adequado a um filha da puta criativo. Roda? Garrote? Esmagamento por pata de elefante? A vingança é muito subestimada até se manifestar (...)"

Neste "O meu amante de domingo" há uma mulher esmagada pela solidão imposta pelo árido Alentejo, sufocando-a num espaço aberto mas exíguo delimitado por um muro. E isso pode, e deve ser, metáfora para tanta coisa seja na vida desta personagem, seja nas vidas que lhe quisermos juntar. Isto para dizer que sinto sempre os livros de ALC como tratados sociológicos cheios de detalhes reais, mas que fogem para um campo surrealista pela riqueza com que a autora divaga e cruza referências. Aqui, a cabeça do autor viaja entre defuntos, vinganças, memórias póstumas e sexo sem compromisso entre viagens a Lisboa. 

"Porque confiei naquele cabrão? (...)
O decapitador dará a mão ao filho depois dos trabalhos do dia, talvez até lhe ensine como é isto de cortar cabeças, talvez lhe cante uma canção. Amor total e ausência de amor são quartos contíguos da mesma casa."

Todo o livros está pejado de referências, Machado de Assis, Nelson Rodrigues, entre outras que não Literatura, ainda assim, vemos que o foco central é a revolta de uma mulher que busca no sexo ocasional uma ligação para compreender que é no sexo que tudo conflui: nada nos aproxima tanto, título de um dos capítulos, resumo bem essa ideia. Sexo, paixão, revolta, vingança, geram e são emoções associadas a tantas outras: solidão, desconexão, fracasso, entrega, medo... Tal como a paixão, o sexo ou a amizade.

"Toda a paixão é um ataque ao sistema imunitário. Se precisamos dela para viver, mais precisamos que ela acalme, ou seja, acabe, para continuarmos vivos."

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2019

«Cronovelemas" de Mário de Carvalho - Opinião


«Cronovelemas" ou crono-novelemas, como eu insisti em lhe chamar, integra duas novelas: "A Arte de Morrer Longe" e "Quando o Diabo Reza", unidas agora sobre este neologismo ou cruzadas aqui, visto a sina da escrita também ser sistematicamente traída pelos caprichos da realidade. 


"Quando o Diabo Reza" traz-nos dois artistas daqueles com quem já todos nós nos cruzámos numa esquina de Lisboa ou ao balcão baço de um tasco a beber uma mini. Estes artistas, Bartlo & Abreu, o uso do "e" comercial é propositado, se bem que é um negócio condenado ao insucesso, por um lado devido às perlengas vagas e repetitivas de um e, às estratégias e ideias já gastas, de outro. 
No entanto, a congeminação é feita muito ao jeito típico e comunicativo de Mário de Carvalho que conquista o leitor a cada palavra, o enreda a cada linha e o embrenha em parágrafos cheios de rasgo.

"Mas Abreu optou pela serenidade desprendida, naquele jeito de boca descaída, de infinito desprezo pelo mundo, sem pachorra para atender Bartlo e os outros mangas que estavam ali a fazer-lhe confusão, enquanto ele se concentrava. Ficar-lhe-ia bem um cigarro ao canto do beiço, o olho meio fechado por causa da linha do fumo (...)"

"Mas Abreu não convenceu ninguém. Acabou por confessar, meio envergonhado:
- Sempre tens mais presença, pá. E faladura.
A ele entravava-se-lhe a voz sempre que acelerava o pensamento. No fundo, invejava aquele desembaraço com que Batlo, em abancando, estendia as pernas, levantava a mão a meia altura e vá de palavrear e enfiar histórias, magnetizando quem estiver em volta. Não era grande cabeça para meditar, mas tinha uma boca de ouro para a palradeira."


"A Arte de Morrer Longe" é um hilariante relato do que pode ser uma discussão sem fim à vista, perdida nos pântanos sombrios em que se tornam certos casamentos. Vagamente desdenhoso, mas carregado de humor negro, a novela traça uma crítica feroz a certas dinâmicas românticas. E, como foi lido depois de "Quando o diabo reza" parece que estava a encontrar os tais policias com pouco treino no diálogo, já que aqui, os encontros com a policia dão todo um outro desenlace a esta arte de (fazer) morrer longe e dão um outro significado à célebre frase: «o escuro tem vida própria».
Sobre a saga da tartatura nada direi, para permitir ao futuro leitor todas as risadas que este trio lhe proporcionará.

"Nas nossas ruas, ao anoitecer, há tal soturnidade, há tal melancolia, e no século XXI, Cesário amigo, pouca é a melhoria. As municipalidades poupam nos gastos de iluminação, porque interiorizam que os habitantes já chegam à noite muito fartos da célebre luz de Lisboa e precisam de descansar os olhos e os sentidos. 
E, se assim é nas praças históricas, como o Rossio, com grande profusão de sombras, e nos antigos bairros que tomam trevas de floresta negra, então mais se enegrece o ambiente quando se trata de alumiar plantas, relvados, bichos, espaços vazios e águas largas (...)
Por tudo isto, não é fácil abandonar uma tartaruga no lago do Campo Grande (...) atolando os pés em torrões de terra, fazendo rechinar a relva, criando em torno de si um halo de crepitações capazes de despertar qualquer tigre dente-de-sabre à solta."





quinta-feira, 31 de janeiro de 2019

"Pequenos Delírios Domésticos" (contos) de Ana Margarida de Carvalho :: Opinião




Este livro é um como álbum, composto por várias músicas, começando por esta "Pequenos Delírios Domésticos" de Sérgio Godinho, e se pararmos na estrofe:

"Vou até bater ao fundo
depois venho respirar, o ar
que me coube nesta vida
volto ao ponto de partida
(...)"

É talvez o melhor resumo para quase todos os contos que li.
Desses pego em três deles e escrevo:

Entrei num táxi numa qualquer avenida, esbarrei o olhar numa estranha perspectiva.
Era uma nuca conhecida. Sem confiança no percurso, dei voltas e voltas, estremunhei e sonhei, lá fui misturada em delírios-desvarios, numa aventura centrifuga.
Acordei à terceira buzinadela, havia chegado.
Impaciente. Ele impaciente, ralhando qualquer coisa que não decifrei.
A porta rústica escancarada, como uma cabeça aberta, uma entrada para o sótão das memórias.

Os contos de Ana Margarida de Carvalho são preciosos!

Fazem o leitor divergir da realidade e entrar em momentâneo delírio. O pequeno delírio de querer fazer parte daqueles contos. O lado fabuloso de um bom conto é fazer crer nas possibilidades ilimitadas de o alterar, dar-lhe continuidade, mexer e remexer-lhe nas personagens, inventar-lhes passados, dar-lhes futuros de uma linha ou ligá-los a um outro personagem vinte páginas mais à frente.

Ler contos é divagar em como lhes acrescentar um ponto, pois a mim, um conto parece sempre uma peça inacabada ou com rachaduras, pequenos veio por onde podemos acrescentar uma linha.


quarta-feira, 19 de dezembro de 2018

«Pão de Açucar» de Afonso Reis Cabral - Opinião




"(...) soube que me oferecia tudo o que eu procurava: a colisão de mundos em perigo, o conflito dos intervenientes com ele no centro, a problematização do corpo, as consequências da miséria, essa palavra que já não se usa mas ainda se aplica, o equilíbrio entre o desespero e a esperança. Quer dizer, nada de especial. 
A partir daí, pesquisei os acontecimentos a fundo.
Li o processo judicial sem parar, (...)"

É em conversa com um interveniente das zonas sujas, Rafael Tiago, que Afonso Reis Cabral parte para esmiuçar a ideia central deste «Pão de Açúcar». A morte violenta de Gisberta, facto verídico (Porto, 2006), confere a este romance o lado mais negro de uma sociedade que alimenta e faz crescer crianças que se tornam adolescentes desajustados e desapegados de valores ficam muito aquém dos desejados. 

"(...) A bicicleta ainda não se tornara real, faltava dá-la a conhecer. Assim é com desgraças e felicidades, partilhamo-nas para mediar a emoção. Mas então pensei, qual alegria qual tristeza, era só sucata despejada com outras porcarias. Calei-me porque achei ridículo, angustiante também, que o lixo de um fosse o entusiasmo de outro."

É no meio do lixo e da doença que uma amizade frágil e intermitente se dá, satisfazendo necessidades de atenção de ambas as partes e reciclando os restos de uma bicicleta, entretanto, entre visitas, a violência e os ânimos exaltam-se e resultam na morte de um transsexual seropositivo e sem abrigo.

"Ela meteu a ponta do indicador no arroz, experimentou um bocado, e depois já punha a mão inteira, já dizia «Está quente!», engolindo com gozo e fazendo os gemidos de quando o ser humano é bicho. (...) Ávida de limpar o lado dela, não reparava na minha cautela. 
Apesar de contente por vê-la satisfeita, a imagem da doença babada para a panela fez-me nojo. (...)
Contudo, o nojo persistia como as tareias que se apanham na infância e nos deixam o corpo dorido até ao fim da vida."

O cenário não podia ser mais degradante e é em si uma personagem que sublinha a critica social, alertando para um problema que persiste em tantas cidades de norte a sul do país; prédios abandonados aos quais os interesses económicos ou os imbróglios jurídicos não deram seguimento e que são focos promotores de miséria. 

"(...) O esqueleto não dava hipermercado. (...)
As ratazanas foram as primeiras. Ainda as obras decorriam e já elas se aninhavam nos cantos. (...)
À noite, os ocupantes dormiam em barracas improvisadas com caixotes, toros, cartões, plásticos e colchões. Melhor dito, dormiam em lares com toques de luz a conquistar o cimento. A ruína sobrevivia à frustração e sublinhava-se: era só gente a dormir.
(...) Para ser útil, não bastava abrigar pedintes, segredos, porrada, troca de seringas, orgasmos e gestos brandos. Não, para ser útil, havia que inaugurar um parque de estacionamento."

O livro é rico nas cenas de convívio entre os jovens e no Pão de Açúcar com Gisberta, mas também dá saltos temporais que levam o leitor a conhecer as duras realidades que ali chocam. Os capítulos oscilam entre o presente de Rafael como mecânico, o lar/abrigo onde os jovens foram criados e a pensão onde Gisberta se prostituía, bem como momentos específicos de algumas daquelas vidas. 

"A determinado momento, a Gi passou-lhe a mão pelo cabelo e ele aceitou a carícia com uma naturalidade que eu nunca igualaria. A naturalidade de quem lida desde pequeno com travestis. Para mim foi como levar uma flechada na cabeça: ser assim afagado era mais do que muita gente podia esperar da vida."

Entre alimentar Gisberta e auxiliar Rafael no arranjo da bicicleta, outros episódios acontecem entre os restantes jovens, ainda assim, e mesmo o leitor sabendo o fim, não parece existir nada de decisivo para que a violência ocorra e persista dia após dia. Talvez as circunstâncias, o acaso, a revolta, a desesperança e a solidão... Talvez. Mas isso e muita falta de carinho.

"Dali veríamos as coisas de outra maneira, os problemas ficariam na cave. Os dela, a morte que a comia por dentro, que a obrigava a abdicar a cada dia; os meus, saber que a necessidades de a ajudar só fazia sentido por ambos não termos mais ninguém."



sexta-feira, 7 de dezembro de 2018

«Salvação» de Ana Cristina Silva - Opinião


"Não grito menos, talvez grite mais baixinho, não choro menos, mas talvez as minhas lágrimas se tenham tornado menos silenciosas. Pela aritmética passaram seis meses desde a morte de Sofia, pelas minhas contas não passou nem um dia."

"Salvação" é um livro de recolhimento na morte e de superação pela escrita. Ou do processo de criação de personagens com as quais se reconstrói um sentido para a perda, o luto, mas também o perdão.

"Eu e David Negro recolhemo-nos na morte da mulher amada e tornámo-nos um só. Esta absorção de um no outro explica que tenha conseguido escrever um capítulo num único mês como se a minha personagem tivesse pegado na minha mão e redigisse por mim as frases."

Colonizado pela dor, o narrador deste livro dedica-se a preencher os seus dias com a escrita de um romance, um novo livro imposto pelo mulher que acabou de falecer, um pedido feito estratégia para que ele supere o luto.
Dividido em pouco mais de doze meses, acompanhamos os capítulos de "O Livro", escrito também sobre o luto e a perda de uma filha, onde o protagonista David Negro expõe as suas mágoas, memórias e reflexões. Ao mesmo tempo, em capítulos que são as fases de luto do narrador, vamos sabendo mais da sua vida com Sofia e do seu dia-a-dia lutando pela superação.

"Desde que a minha mulher morreu o meu luto tornou-se num dilúvio que não deixa espaço para mais nada. A dor não é um local iluminado (...) Mas neste momento, sinto que a jornada de David Negro se transforma num dever que vai para além do pedido de Sofia, ainda que esse percurso não esteja, nem nunca possa estar, separador dela. Até porque é minha intenção apontar o dedo ao deus a que ela tanto rezou e aprisioná-lo numa rede de acusações."

No longo corredor que é o luto e no qual não é possível passar a correr, o narrador embrenha-se numa complexa rede de memórias, no sofrimento e na culpa, sem esquecer acusações e dúvidas, onde Deus tem um papel decisivo, mas a História e o seu curso também. A forma como "O Livro" percorre séculos, o rumo dos eventos chega até aos actuais e as inquietações ancestrais são equiparadas às de hoje: as crises de fé e de valores e as consequências no ser humano. E assim, desta forma, Ana Cristina Silva cava ainda mais fundo o fosso do abandono e da culpa, retratando muito bem o lado emotivo dessa pressão psicológica.

"Continuo a falar com a minha mulher, mas lentamente a morte de Sofia vai deixando de ser a medida de todas as coisas. (...)
Se a dor tivesse assas e batesse, diria que o seu movimento se foi tornando mais suave (...) Porém, o sofrimento do luto não voa, apenas pulsa por dentro (...) tanto assim que só vivo para me afundar na memória dos tempos felizes."

Se retirássemos os capítulos que dizem respeito à escrita de "O Livro", a maneira como a autora relata a perda e a dor é de tal forma emotiva e insistente que traz o leitor para o sofrimento do narrador, tornando a leitura quase aflitiva. E quero com isto dizer que é extraordinária essa capacidade, pois não acho que caia na repetição, mas sim aumentando a densidade psicológica do personagem.

"(...) Em cada intervenção, ele alcança um novo patamar de profundidade, frases empolgadas, quase poéticas - como se existisse uma estética da morte - (...)"

Também seguindo uma estética da morte, associada à própria estética de fé e crença, "O Livro" transforma-se num romance histórico que denuncia e relembra o fanatismo religioso do século XVII e o liga aos eventos violentos actuais para os quais o próprio escritor se sensibiliza quando o luto lhe permita se ligar novamente à realidade que o rodeia: a morte no espectro do fanatismo jihadista.

"Há um momento em que tenho o mais absurdo dos pensamentos: talvez estivesse a ver repetidamente o mesmo grupo de pessoas a sofrer o mesmo atentado (...) Como se aquelas pessoas não tivessem individualidade, como se se tivessem convertido num borrão desfocado de um ecrã, como se a morte se tivesse tornado uma banalidade."



quarta-feira, 5 de dezembro de 2018

«Jogos de raiva» de Rodrigo Guedes de Carvalho :: Opinião



Rodrigo Guedes de Carvalho escreve como quem atalha pelo mato. Muitas frases curtas como passos decididos mas que a falta de trilho obriga a recuar e a escolher outro sítio onde pisar. Repetem-se palavras, gestos, passos. Nessas insistências, uns quantos arranhões, dilacerando aqui e ali as pernas com que quer percorrer o resto do caminho. A mata é densa e os obstáculos exigem esforço e persistência. A mente, entregue mais aos pensamentos do que ao que palmilha, avança e reage, conforme o que o terreno pede. E se isto for metáfora suficiente para descrever, pela rama, a escrita do autor, não é suficiente para explicar o tamanho do enredo e das personagens deste livro.

"É tão difícil resistir quando nos elogiam, quando nos querem tudo o que em nós é inteligente e desconfiado se verga por vezes à cauda do pavão."

«Jogos de raiva» fala do mundo inteiro visto da janela jornalística deste externo ocidental, na mesma medida gigantesca que cava fundo um fosso familiar. Raiva, ódio, desenraizamento, memórias ou a incerteza de todas as mudanças e falsidades actuais, são apenas alguns dos grandes motes deste livro; e a forma como esses temas se transformam em sentimentos e nos entram pela casa adentro também. 
O romance expõe um olhar crítico e ácido denunciando como a actualidade afecta e condiciona e claro, molda a vida familiar. Isso tudo sem esquecer a equação complexa que é a vida por si só e o peso do passado. 

"Dividido por secções, para melhor organização do consumidor, o jornalismo só tem verdadeiramente uma área, que engole o mundo inteiro: nós. (...) 
O jornalismo, na verdade, não é realmente necessário para que o mundo gire e progrida, (...) nós viveríamos sem ele. (...) O jornalismo é só um espelho na parede, não é o cimento que sustém a casa. (...) O jornalismo não é água ou comida ou abrigo ou medicamentos. Só existe porque queremos saber do resto de nós. Somos animal de grupo. Queremos espelho e o jornalismo pendura-se à nossa frente."

As reflexões presentes no livro podem ser interpretadas à luz do tema específico ou como metáfora alargada a várias áreas da vida familiar e em sociedade. O tom crítico nunca se perde, bem como a tensão e o enigma em torno da família Sereno: "O problema dos segredos é que não são biodegradáveis. Não desaparecem só porque os amarramos a uma pedra pesada e os lançamos ao rio." 

Também muito presente no livro, são as referências constantes a Virginia Woolf, Oscar Wilde ou Tim Burton, talvez como pedras-de-toque para reforçar a qualidade e o sentido das revelações que conferem reviravoltas na vida das personagens. Ou para aferir a necessidade das obras de artes na nossa vida. Farão falta as pinturas, os livros, a música ou filmes? Fará falta o livro «O Fantoche» que Francisco Sereno irrompe a escrever? 
São essas reviravoltas que podem estar imiscuídas nas brechas que o jornalismo tem e onde esconde meias verdades, ou nas redes sociais, cheias de zonas cinzentas que dificultam a divisão entre o bem e o mal ou na relação entre pai e filho, que discutem como se a vida não fosse finita e o fim não chegasse de forma inesperada.

O inesperado acontece várias vezes ao longo do livro, com pequenos retornos ao passado, precipitando o leitor em conclusões que saberá logo a seguir serem erradas. E esse é um jogo ainda maior que Rodrigo Guedes de Carvalho estabelece com os seus leitores. Joga com perspicácia, aguçando a curiosidade do leitor. No entanto, existe uma passagem, quase logo ao início que espelha muito bem o que o autor engendrou para este livro: "Há uma brutal exigência na psiquiatria e são poucos os que a antevêem quando se decidem pelo ramo. Ser, entre todos, um curador de almas. Vestir uma túnica e abrir os braços. Deixai vir a mim os depressivos, os dementes e esquizofrénicos, os ansiosos e os bipolares. Pretende-se do que resgata almas um primado de razão rodeado por irrazoáveis."

sexta-feira, 14 de setembro de 2018

"UPA-LA, UPA, UPA, UPA-LA"

"UPA-LA, UPA, UPA, UPA-LA" ou «A nossa alegria chegou» é o regresso, esfuziante e fantasioso, de Alexandra Lucas Coelho ao romance.



Agarre neste livro e num pano de estampagem colorida, tire os chinelos de enfiar no dedo e siga pelo trilho mais isolado até à praia. Sinta o calor da areia a espalhar-se pelo dedos, a chegar aos tornozelos, deixe a brisa invadir-lhe o rosto. Encontre um pedaço de areia só para si e leia. Leia sem parar. A sensação que se tem com este livro é de que Alexandra Lucas Coelho (ALC) o escreveu de rompante, tal é a energia com que nos agarra e prende do princípio ou fim da leitura.

"- A história do mundo começou em Alendabar, contam os nativos!
O convidado está disposto a concordar, perante o que vê. Uma orla florejante bordeja o areal, extensíssimo. Num extremo da praia, a falésia negra, encostada a um vulcão. No outro, a foz do rio incandescente (...)
Valeu a pena contornar o planeta, pensa. Nem muros nem mastins, a selva será a melhor guarnição."

Alendabar é lugar imaginário, tem cheiros fauna e flora e, restos de uma língua perdida entre canoas e um povo que se balança nas redes suportadas pelas morambeiras. Povo esse que come as cinza dos seus mortos, misturada na polpa tenra e fresca das morambas, num ritual ao pé do rio que abriga os mitos dos seus deuses ancestrais.

"Há milénios que as morambeiras de Alendabar são o braço a camas de rede, guarida a barcos de pescador, além de tudo o que nelas pousa, mora, se come ou se bebe. (...)
Mais antigo, só o cacto flor de índigo...
(...)
Fantasia é quase fé. E um sexo exposto é deus."

A escrita escorreita e tão directa de ALC quase que ataca o leitor. Há coisas escritas de forma tão declarada, tão escarrapachada, que o leitor até precisa de as ler duas vezes para as perceber melhor, e percebeu, é claro que percebeu, mas é essa incidência, esse lado tão incisivo que abanam o leitor.

"Então Aurora parou de pensar nisso. Pensou que pensar nisso é que era um truque do mal para nos desorientar, até não acreditarmos em nada. E quando não acreditamos em nada o mal ganha. Não podemos esquecer quem é o verdadeiro inimigo. O bem não é um truque do mal. O bem é acreditar que o mal não levará tudo. O bem é a luta."

E sim, este é um livro de luta, de denúncia, do mal contra o bem, da inocência da idade, mas da pouca idade marcada pelos desaires da vida. Aurora, Ossi e Ira são três jovens em defesa desse bem, buscando o lugar próprio de cada um entre a tirana que escraviza e amedronta. Tá cá tudo, neste livro cheio de foco: política, escravidão - a mais velha de todos os tempos e a mais moderna, a poluição e a preocupação com o ambiente, as questões de género e de igualdade, a falta de ética da exploração animal e a violência inerente, a ganância e a demência dos tempos modernos; mas também o amor, o luto, a paixão, o sexo e o acreditar que a vida pode ser sempre mais.

"Não há nada mais vazio do que um ecrã negro de um computador. (...) e dentro desse espelho dorme a voz que Zu mais ouviu nos últimos anos. Como pode ter saudades de alguém sem corpo, sem coração? Se Jade existe, como pode não estar com ela agora? Se Jade não existe, que faz ele aqui, de computador aberto?
(...)
Jade é a bela adormecida deste tempo. Aquele que nem pode ser beijada."

Alendabar tem aura de mil e uma noites, onde o sultão é o leitor, entretido pelas histórias, não de uma bela condenada à morte, mas de três jovens que parecem viver uma aventuras de «Ali Baba e os 40 ladrões», não no deserto mongol, mas numa praia de «Lagoa Azul», ou não fosse os cabelos loiros de alguns dignos de um espectáculo exótico.

Nestes cabelos loiros, a história é tecida com outros fios e unida à de Atlas, por quem Felix e a mãe estão de luto. Por fios ainda mais imaginário, há a história de um convidado, Zu, que encerra em si os medos e as ansiedades do homem moderno, essencialmente em conflito consigo mesmo.

"O humano é esse primata, não o que fala, não o que pensa, mas o da planta do pé arqueada que imagina histórias, ri com elas, chora com elas. Só ele sabe como estar vivo é o grande buraco negro."

quinta-feira, 19 de julho de 2018

«O Bom Inverno» de João Tordo - Opinião


Frustrado, cínico e hipocondríaco, o narrador: um escritor entregue à melancolia e a um certo ócio, está descrente do poder da literatura. Céptico com o poder dos livros e das suas histórias e, igualmente pessimista com o que a realidade tem para lhe oferecer.

"Se antes eu era um pessimista, depois de comprar a bengala passei a ser um cínico. Um homem novo com uma bengala podia dar-se ao luxo de desprezar o mundo e, assim sendo, eu tencionava aproveitar a oportunidade para ajustar contas com a realidade."

Apoiado na bengala que recentemente adquirida, o narrador escritor larga o conforto anestesiante do seu apartamento e segue em direcção a um enigma oferecido por Vincenzo e um grupo de jovens escritores com quem se encontra numa palestra internacional. 

"«Sabes o que é curioso?», perguntei, sorrindo, embora sem grande vontade, «Eu , no que diz respeito à literatura, regredi. (...)
Nina pensou durante uns momentos.
«(...) cada vez mais acredito que só vale a pena ler um romance (...) quando temos uma pergunta na cabeça para a qual não sabemos a resposta. Ou, mesmo que tenhamos encontrado a resposta, se precisarmos de confirmação.»
Fiquei intrigado. Pedi-lhe nova explicação.
«Pensa bem: o mesmo se aplica a escrever livros, ou não? Não será o escritor, verdadeiramente, o único interessado naquilo que escreve? Quero dizer, porquê andar a inventar histórias a torto e a direito, a menos que essas histórias sejam a solução, temporária ou absoluta, para um enigma qualquer?»
«Todos temos enigmas por decifrar», repliquei. «No entanto, nem todos lemos ficção. E somos ainda menos os que a escrevemos.»
«Justamente», respondeu Nina. «Porque pessoas diferentes encontram as respostas em lugares diferentes (...)»
«Ao mesmo tempo é uma forma de cobardia», respondi (...)
«Pois é», (...) «Os escritores, no fundo, são todos uns cobardes.»
Fiquei sem resposta..."

Com alguma cobardia e sem grande determinação, o destino é a idílica Itália, com o objectivo de conhecer uma prometedora sumidade do cinema e das artes em geral, Don Metzger e usufruir de uma temporada de Verão na sua casa com a promessa de algumas peripécias e acontecimentos inesperados.

"Sabaudia é um lugar estranho, que cai algures entre o cinema realista italiano aprovado por Vittorio Mussolini, filho do grande ditador, e o melhor surrealismo de Fellini. Difícil de explicar. A cidade foi mandada construir por Mussolini em cima de uma vasta extensão de pântanos drenados (...)
«Um lugar bizarro»"

E num lugar bizarro espera-se que aconteçam coisas igualmente bizarras. Vicenzo esperava-o e silenciosamente o escritor desesperançado também, nem que fosse alguma curiosidade que Nina despertava nele para um ajuste de contas com a realidade. Juntos rapidamente se vêem enredados num crime, uma morte seguida de outra, como num jogo viciado ou envolvido nos meandros da máfia. 

"Cauteloso era um eufemismo para aquilo que eu me tornara; na verdade, eu desistira, permitindo que a indiferença vencesse. 
Ajustar contas com a realidade escusando-me de existir, e um homem que se escusa voluntariamente a existir sucumbiu ao apelo da fraqueza, ou da cobardia, ou da ausência..."

Um homem que se escusa voluntariamente a existir, mas que mesmo assim seguiu aquele grupo, embora esteja coxo, deprimido, cansado, não é um homem que abandona tudo por completo. É sim um cínico, um escritor camuflado na lentidão da bengala, na soberba de captar os melhores detalhes para um enredo refinado e primoroso como os balões de ar quente que dão pano de fundo a esta narrativa, juntamente com a voluptuosidade de um bom inverno e o misticismo da floresta.

"O Verão instalou-se na sua grandeza e também na sua miséria. A noção de que pouco havia a fazer naquele momento infundiu nas almas uma entranha apatia e, ao mesmo tempo, de uma urgência em regressar ao quotidiano (...) e partilhavam-no com quem quer que se encontrasse por ali (...) e os seus silêncios eram longos, melancólicos e pesados."

*

Desde «A biografia involuntária dos amantes» que um livro do Tordo não me prendia tanto ao enredo e ao narrador. Há como que uma salvação pessoal apegada à salvação dos outros, sempre voluntariamente disfarçada, um pouco cobarde, um tanto cínica, numa procura constante pelas miudezas que dão sentido à vida.

terça-feira, 22 de maio de 2018

«A cidade e as serras» de Eça de Queiroz - Opinião

As cidades e as serras que visitei, nos inícios de Maio, tiveram todo um outro encanto, quando acompanhadas pelas palavras de Eça de Queiroz.


"Com que brilho e inspiração copiosa a compusera o divino Artista que faz as serras, e que tanto as cuidou, e tão ricamente as dotou, neste seu Portugal bem-amado! A grandeza igualava a graça. Para os vales, poderosamente cavados, desviam bandos de arvoredos, tão copados e redondos, de um verde tão moço, que eram musgo macio onde apetecia cair e rolar. Dos pendores, sobranceiros ao carreiro fragoso, largas ramarias estendiam o seu toldo amável, a que o esvoaçar leve dos pássaros sacudia a fragrância. Através de muros seculares, que sustêm as terras liados pelas heras, rompiam grossas raízes coleantes a que mais hera se enroscava."

Esvoaçava pouco, Jacinto, liado nos afazeres citadinos e nos demais inventos da época, que todos chegavam e inundavam Paris. Entediado e aprisionado, Jacinto não encontrava civilização que lhe trouxesse alegrias de viver; nem as festas ou mulheres, nem modas ou inventos, nem sequer a agenda cheia, tudo o cansa e enfada. Até a vasta biblioteca.

"Com os morangos novos, apareceu um instrumentozinho astuto, para lhes arrancar os pés, delicadamente. Depois recebemos outros, prodigioso, de prata e cristal, para remexer freneticamente as saladas; e, na primeira vez que o experimentei, todo o vinagre esparrinhou sobre os olhos do meu Príncipe, que fugiu aos uivos! Mas ele teimava... Nos actos mais elementares, para aliviar ou apressar o esforço, se socorria Jacinto da dinâmica. E agora era por intervenção de uma máquina que abotoava as ceroulas."

Zé Fernandes, o amigo vindo das serras, testemunha a passagem do tempo pelo seu Príncipe, Jacinto, e o lento enfado com a Paris que lhe engole o apetite pela vida. É ele que narra e nos mostra a transformação de Jacinto em Jacinto de Tormes, um citadino convertido aos prazeres das serras, abraçando com ânsia a Natureza, absorvendo dela energia e vitalidade como há muito não sentia. 

"Jacinto já não corcovava. Sobre a sua arrefecida palidez de supercivilizado, o ar montesino, ou a vida mais verdadeira, espalhara um rubor trigueiro e quente de sangue renovado que o virilizava soberbamente. Dos olhos, que na cidade andavam sempre tão crepusculares e desviados do Mundo, saltava agora um brilho de meio-dia, resoluto e largo, contente em se embeber na beleza das coisas. Até o bigode se lhe encrespara. E já não deslizava a mão desencantada sobre a face - mas batia com ela triunfalmente na coxa. Que sei? Era um Jacinto novíssimo. E quase me assustava (...).
E ali estava...
- Para todo o Verão?
- Não! Mas um mês... Dois meses! Enquanto houver chouriços, e a água da fonte, bebida pela telha ou numa folha de couve, me souber tão divinamente!"


«A cidade e as serras» de Eça de Queiroz é a última obra do autor e marca uma viragem na sua escrita, já que muitos estudiosos da obra queirosiana apontam Jacinto de Tormes como um reflexo do próprio Eça e das suas crenças e transformações.


Foto: Miradouro das Portas de Ródão
Cris Rodrigues, Maio'18



terça-feira, 24 de abril de 2018

«Cuba Libre, desejo de liberdade» de Tânia Ganho - Opinião



«Cuba Libre, desejo de liberdade», diz-nos logo desde bem cedo que estamos na presença de uma mulher aprisionada. A ilha da Madeira rodeia de água, a família de tradições e costumes, Lisboa de pessoas por todos os lados e o namorado, enfadonho e estável, cansa-a com a rotina e acena-lhe com casamento, filhos e uma vivenda, como o melhor que o futuro tem para lhes oferecer. 

"(...) cada vez mais me convenço de que os meus sentidos se bloqueiam na presença de grandes aglomerados de gente e eu fico como que a nadar num aquário de água turva, onde está tudo desfocado."

Mas conseguirá Clara fazer por ser e sentir-se livre?

Tânia Ganho vai oscilando os períodos da narrativa entre a ilha da Madeira, a Lisboa movimentada e umas férias em Cuba. E em cada capítulo chega-nos uma Clara que tanto foge da Natureza abrupta como a aprecia; uma mulher preparada para abraçar a capital cosmopolita, mas que a esmaga e sufoca, quando sonha com Cuba, não pelo que lá viu, mas pelo que lá viveu. Conheceu Len, uma mulher igualmente aprisionada, mas que a fez sentir ela mesma numa época em que as dúvidas já a assombravam.

"O problema é que eu não sabia ter o coração vazio e tinha sempre de encaixar alguém dentro dele, à força, a golpes de martelo."

Também à força de golpes duros sobre si mesma e de algum tempo passado a navegar ao sabor das paixões momentâneas e infrutíferas, Clara foi vivendo e experimentando para se descobrir e conhecer, mas ela era abrupta como a ilha, com os sentimentos a bombar, a pique, num coração que só precisava de se sossegar e conhecer. 

"Só vejo um horizonte enorme, vastíssimo, (...). Nas ilhas, o perímetro da vida é reduzido (...) A Madeira é agreste e eu sou como ela, de arestas espetadas onde as pessoas tropeçam e se magoam. Não tenho paisagens de areia fina, não sou suave, nem macia, nem balsâmica. Sou dura e pedregosa, vulcânica e traiçoeira, e devia ter um cartaz a avisar: Perigo-Falésia."

Apesar de muito bem escrito e caracterizado, este «Cuba Libre» não fala só da mulher e da sua eterna condição de procura e de descoberta. Fala também de um tempo de mudança, de acontecimentos políticos e sociais, que vão desde o estado do país, à música ou aos destinos de férias. É um livro rico em conteúdos que pautaram a viragem para o século XXI e os seus primeiros anos. E isso, tão depressa parece ter sido ontem, como ter acontecido há uma eternidade. 

"(...) morreu Álvaro Cunhal, um homem de convicções casmurras, mas com um fibra que já não se encontra nos tempos que correm. (...), seguiram-se-lhe o «companheiro» Vasco Gonçalves, um dos capitães de Abril, e o Eugénio de Andrade, que escreveu que «passamos pelas coisas sem as ver, gastos, como animais envelhecidos» e me fez sentir como um «fruto sem sabor, que vai caindo ao chão apodrecido».



quinta-feira, 22 de março de 2018

«Todos os Dias são Meus» de Ana Saragoça :: Opinião


"Sempre li muito. Não me lembro de mim em pequena sem um livro por perto - o que deve querer dizer que a minha vida consciente só começou quando descobri a leitura. Os livros afastavam-me do que me rodeava, das colegas que faziam troça de mim, da realidade melhor-que-a-de-muita-gente-mais-ainda-assim-bastante-desoladora da minha infância.
Ao longo dos anos fui-me recolhendo mais e mais nos livros. Recebi todos os rótulos possíveis: empinada, marrona, bicho-do-mato, (...) acabaram todos por me deixar em paz, arrumando-me na prateleira das caixas-d'óculos vagamente apalermadas. O resultado foi uma grande liberdade interior, que é a minha riqueza maior até hoje."

Esta é a voz da "razão", rotula-se a si mesma e apresenta-se através das páginas de um livro resgatado ao lixo. A solidão impera e a estranheza também.

A voz do professor, agora reformado, nostálgico e desamparado completa essa solidão e o abandona à rememoração e imaginação. 

O rebuliço do prédio, não menos só, pertence a dois miúdos inquietos, mas só, sem outra companhia para brincadeiras a não ser um elevador acompanhado do vómito diário do cão nervoso da porteira. 

A porteira, regateira, é um autêntico jornal de caserna, enche a sua solidão com o sobe e desce com que nos dá a conhecer a vida dos vizinhos. A vida que ela acha que eles têm. E é aí que tudo se torna mais digno de investigação. Conhecer a solidão de uns pelo espelho da solidão de outros e resolver o enigma do cadáver no elevador.

"Naquela noite chamei o elevador e ele veio. Ignorei o deslize da pobre máquina e desci as escadas. A luz do patamar estava acesa, a porta fechada. Sentei-me no último degrau, alimentando uma vaga esperança de que ela se tivesse enganado, mas lá no fundo sabia que acabara tudo.
Tudo o quê? Não me pergunte. O meu luto começou naquele dia, e enterrei-a no dia em que a mataram. Sei que foi assassinada, sei que é uma vítima, sei que ninguém merece morrer assim, mas que quer? Foi como se ela me tivesse fechada a porta na cara mais uma última vez."

Um enredo mirabolante que espalha personagens e vidas que se assumem como tentáculos, sugam o leitor e viciam-no até atingir a última página. Isto sem esquecer as gargalhadas, a inteligência e uma análises incisiva às coisinhas tipicamente portuguesas.


*
Uma edição Planeta



segunda-feira, 19 de março de 2018

«Viagem ao sonho americano» de Isabel Lucas :: Opinião


"O que é a América para mim depois de percorridos 97 mil quilómetros do seu território num só ano?A confirmação de que qualquer resposta será incompleta e que a literatura (...), é talvez o melhor meio para chegar perto (...)!

O que será para o leitor depois de quase 400 páginas de viagem nos meandros do sonho americano? A confirmação de que qualquer lista de livros a ler está sempre incompleta e que talvez a melhor solução é mesmo continuar a ler!

"A América pelos livros" pode aqui resumir-se, toscamente por mim, em pouco mais de meia dúzia de palavras que encerram em si mesmas complexos problemas sem solução à vista, são elas: estranheza, medo, imigração, diferença, igualdade, sucesso, discriminação e o que envolve o tal «sonho americano».

De meados de 2016, já em época de eleições, até à vitória e chegada de Trump à Casa Branca, Isabel Lucas percorre quase 100 mil quilómetros em território americano, em busca talvez do intangível: encontrar a América dos livros e confrontar a palavra escrita com aquelas que troca com pessoas, aqui e ali, com as quais procura respostas para essas palavras/questões complexas. O sucesso, o sonho, a igualdade, o racismo, a guerra, o terrorismo e o medo, pautam conversas que suplantam os livros e os seus autores; a tradição e a história; o povo e a origem, e tentam justificar as últimas resoluções políticas.

O livro de Isabel Lucas é para ser lido ao sabor de inúmeras sugestões de leitura que nos revelam uma América como uma imensidão geográfica, um colosso de diferenças e a inevitabilidade do caos. Se a paisagem nuns locais esmaga pela aridez e mistério da Natureza, noutros espartilha o indivíduo na invisibilidade das grandes cidades, autênticos impérios de betão e de um mundo obscuro, onde impera um outro tipo de brutalidade.

"Parar para ver revelou-se uma impossibilidade. Era ir, deixar-me levar entre a multidão e perceber que ficar perdido, sentir-se perdido, não é necessariamente mau."

Parar de ler este livro também se revelou impossível. É preciso ler, absorver, reflectir e ir anotando; sabendo desde cedo que iremos pegar em todos os livros pelos quais este livro viaja e voltar a cada um destes capítulos como que para conversar sobre os livros lidos.

sexta-feira, 16 de março de 2018

"Maria Adelaide Coelho da Cunha: Doida Não e Não" de Manuela Gonzaga - Opinião

Doida Não e Não!
1918, Maria Adelaide Coelho da Cunha, mulher da alta sociedade portuguesa, filha do fundador do Diário de Notícias e esposa do então administrador, intelectual e poeta, Alfredo da Cunha; apaixona-se pelo seu motorista particular e enceta uma história escandalosa que foi levada a público bem ao jeito dos actuais casos mediáticos que enchem jornais e publicações diárias.

A senhora de São Vicente, altamente reconhecida pelo modo como recebia a fina flor da sociedade, os influentes da época, é também destacada pela sua dedicada forma de declamar e interpretar as poesias do marido; lamentável é o facto de este marido austero e seco, nada a tratar bem e como merecia, já que lhe era conhecida a sensibilidade, os bons modos e a educação com que tratava todos à sua volta.

A sua fuga da vida familiar foi amplamente castigada, castrando-lhe a liberdade e o acesso aos bens. Digamos que Alfredo da Cunha, juntamente com os ilustres da Medicina julgaram-na fraca e facilmente arrumável num manicómio. No entanto, a sua finíssima educação e lucidez despertaram outros ilustres que levaram aos limites da época, à opinião pública, a sua história e necessidade de defesa.

"Cerca de dois anos mais tarde, numa entrevista à A Capital, Maria Adelaide justificou essa secura pelo facto de não acreditar que a sua ausência pudesse causar qualquer desgosto a Alfredo da Cunha «cuja severidade era de dia para dia mais acentuada, cavando entre ambos um abismo irremediável».

É precisamente nesse abismo e noutro ainda mais profundo, o do encarceramento, que encontramos a pesquisa rigorosa e detalhada de Manuela Gonzaga, transformada com esmero, de enredo e linguagem, num romance histórico cativante para o leitor. A forma como a autora constrói a narrativa, escolhendo e introduzindo frases e adjectivos, próprios dos intervenientes, transportam-nos à época e conferem outra dimensão aos testemunhos.

Os contornos de romance de cordel, a perspectiva do adultério, a fachada que podia ser o casamento e o uso dos poderes dos influentes, diz muito sobre a sociedade da época. Vejamos por exemplo o testemunho do médico e administrador do Conselho de Santa Comba: "Embora não justificasse uma queda nesta senhora, compreendia, no entanto, que ela tivesse relações sexuais com um chauffeur, contando que não saísse do seu meio, nem se prestasse a esta aventura de abandonar o domicílio conjugal e vir viver com o seu serviçal para um recanto da província."

Um coro de ilustre professa sentenças destas, pregando a moral cristã e os bons costumes, no entanto, encerraram uma mulher, enxovalhando-a e insistindo em humilhações e privações constantes, a título de terapêutica e tratamento, esperando dela uma confissão: ter endoidecido. Único propósito: restringi-la de todos os seus bens.

O internamento e a ilegalidade do facto, foram uma verdadeira saga. Bernardo Lucas, advogado e o diário do cárcere de Maria Adelaide vieram alimentar páginas e páginas de um escândalo que levou mais de dois anos a estar concluído, mas a interdição aos bens de família levaram muitos mais anos, bem como a desacreditação de outros familiares.

"Alfredo da Cunha, porém, entendia ser absolutamente necessário «desenterrar» os mortos da família da mulher, cujas desarticuladas biografias serviram para corroborar a tese da «pesada tara hereditária» que, na tapeçaria das gerações, manchava o sangue da senhora de São Vicente com uma «degenerescência»..."

A estudada degenerescência, atestou a passagem de adúltera a demente, valeu-lhe, digamos assim, a estratégia de defesa de Bernardo Lucas para levar a público na A Capital os textos que Adelaide escrever e que muito a devem ter ajudado a manter a sanidade.

"Portugal, anos 20 do século XX. Dois opositores, marido e mulher, ambos letrados, ambos muitíssimo famosos, manifestamente inteligentes e reconhecidamente sensíveis, vão a esgrimir um contra o outro, nos respectivos jornais ao seu serviço, com a mais letal de todas as armas. A palavra."

quinta-feira, 8 de março de 2018

«O Meu Tio» de Isabela Figueiredo - Opinião


«O TIO»

Uma mulher de nome Ernestina Adelaide, com um filho vegan convicto, recebe uma carta, um mail à mão, de um tio, ex-pide imigrado numa Bruxelas descaracterizada e entregue aos terroristas; que quer agora retornar à pátria, alegando que a casa da Tininha era o melhor local.

"A inesperada carta do tio Xavier era um estorvo."  

Estando ela a dois passos da Mesquita do Laranjeiro, seria isso um bom motivo para lhe negar abrigo?

"Há mais árabes no Laranjeiro do que na Palestina inteira. O Laranjeiro é o grande império dos talhos halal e da chamuça picante. Sempre que há um atentado atentado terrorista algures pelo mundo, passa-me pela cabeça que deve ter sido parcialmente ideado na cave esquerda no n.º 12 ..."

Entre muçulmanos, bairros sociais, tráfico de droga e rendimentos mínimos, a narradora revolve algumas memórias, com o tio e o pai à mistura; e a forma como ganhou a sua independência e se tornou escritora, ou seja, "Acabei (...), quero dizer, desempregada de longa duração. (...) As pessoas têm a ideia de que um escritor é alguém muito especial (...) mas eu não passo de carne ossuda, popular e profana."

A crença no futuro não era muita e a vinda do tio Xavier era mais uma incógnita. 

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Inéditos Expresso