quarta-feira, 25 de julho de 2018

«O Executor» de Lars Kepler :: Opinião


A saga continua! Serão oito volumes e eu ainda tenho mais seis para me imiscuir no passado do detective Joona Linna. Em entrevista, a propósito de «O Executor» os autores referem o papel do passado, a profundidade dos assuntos e o compromisso com a leitura viciante. E neste vamos encontrar um tema polémico: a exportação de armas, os contratos entre governos e um dos negócios mais antigos do mundo, o tráfico.

Neste volume, o motivo que se aponta para as mortes está relacionado com o comercio ilegal de armas para zonas em conflito, países arrasados pela guerra e para os quais as leis internacionais proíbem exportar material bélico. Claro está, isso não se cumpre. É explorando esses contractos ilegais, esses pactos com o diabo, um negócio do qual nunca se sai ileso, que vamos seguindo viciados neste enredo e percebemos que a activista e pacifista Penélope Fernández é um alvo a abater. 

Este livro é também detalhado e muito completo para elucidar o leitor para a perícia com que os crimes podem ser executados, especialmente a forma como se suspeita do suicídio/assassinato de Carl Palmcrona. E isso é muito interessante.
Outro detalhe é como remete ao passado de diversos personagens para justificar as suas acções, traumas e preconceitos. Um dos que mais gostei foi de Saga Bauer e até nisso os autores estão atentos à actualidade e; como critica social descrevem as mulheres sempre em maior esforço e maior investimento para que lhes sejam valorizadas as suas competências, mostrando que os nórdicos também ainda têm ainda um caminho a percorrer no que respeita à igualdade de géneros. 

O drama dos refugiados, igualmente actual, também está presente neste volume, mais precisamente o drama do Darfur, as minorias étnicas e os massacres. E é bastante curioso que uma personagem como Penélope, com o passado de clausura que teve, ter como objectivo de vida estas missões humanitárias.

Melhor ainda é a correlação estabelecida ao longo de toda a história com a música e o compositor e violinista Niccolò Paganini. Uma obsessão que leva a um enredo paralelo (que daria bem um outro livro) e que ajudará a resolver os crimes. E com isto não estou a dar qualquer spoiler ;)

"O andamento é subitamente vertiginoso, prestíssimo. É divertido e belo e, ao mesmo tempo, entrecortado por repentinas mudanças de cordas e saltos arriscados entre as oitavas."

Tal como o livro da dupla Kepler!

*

Com este livro surge a referência para outro, um que uma das personagens lê: «O acidente» de Friedrich Dürrenmatt

sexta-feira, 20 de julho de 2018

«Fahrenheit 451» de Ray Bradbury - Opinião


Em 1953 o livro de Ray Bradbury foi publicado como um manifesto contra a censura e traçava um cenário diabólico, que à época parecia absurdo. Era afinal um aviso. O seu tom era premonitório e hoje choca pela semelhança com a realidade que temos, numa sociedade tão virada para os ecrãs e em constante estupidificação. 
O alerta era para a massificação da televisão e que as pessoas não estavam a perceber o quanto isso as tornava imbecis e desinteressadas do que realmente as rodeava. E pior é ver que mais de cinquenta anos depois a massificação continua e o cidadão vai empalidecendo atrás dos diversos tipos de ecrãs.
No entanto,  «Fahrenheit 451» é, acima de tudo, uma saga, uma viagem de redenção. Há uma reviravolta e uma conversão que ainda é possível: "vagabundos por fora e bibliotecas por dentro".

Da fogueira até aos homens-livro, conhecemos a reviravolta na cabeça de Montag, o bombeiro que incendeia livros: essas ameaças de luz aos cidadãos cinzentos, viciados em ecrãs e comprimidos. 
O prazer com que Montag exercia a sua profissão/missão é assustadora e percebe-se que é uma referência ligada ao passado recente de uma Europa entregue aos totalitarismos. A critica social é feroz e um espelho do que tem vindo a acontecer até aos dias de hoje:

"Depois, o cinema no início do século XX. A rádio. A televisão. As coisas começaram a ser em massa.
Montag permaneceu sentado, imóvel.
- E porque possuíam massa, tornaram-se mais simples. Outrora, os livros atraíram algumas pessoas, aqui e ali, um pouco por todo o lado. Pessoas que podiam dar-se ao luxo de serem diferentes. Havia espaço para isso no mundo. Mas depois o mundo encheu-se de olhos, de cotovelos e de bocas. A população duplicou, triplicou. Os filmes e a rádio, as revistas, os livros foram ficando todos ao mesmo nível, uma espécie de pudim pastoso (...)
- (...) Os livros ficam mais curtos. Condensações. Resumos. Tabloides. Tudo se orienta para a piada, o fim abrupto.
(...) Tudo digerido, resumido, digerido-resumido. Política? Uma coluna, duas frases, um título! E depois, tudo desaparece! A mente dos homens anda a tal velocidade neste carrossel movido pelas mãos dos editores, exploradores e radiodifusores que, nesse movimento centrífugo, se perde tudo o que seja pensamento, considerado desnecessário, uma perda de tempo!"

Até nesta digestão acelerada e ao sabor de interesses comerciais, este livro se aproxima dos dias de hoje. Cada avanço na narrativa quer chamar à atenção para o poder dos livros e da necessidade de abandonar a máscara social e a vida ao sabor de modas e tendências. Se actualmente "ser diferente" está na moda, a pergunta que fica é se essa diferença é genuína ou simplesmente provocada para uma integração no modelo ditado pelas maiorias. 

«Fahrenheit 451»  é um grito contra o status quo, é um abanão, abana a árvore e deita abaixo essa preguiça... a preguiça de questionar, de pensar. A sociedade distópica aqui relatada não questiona, não tem curiosidades, todos são egoístas e niilistas, aborrecidos e irresponsáveis. Controlam a raiva através de divertimentos tão bizarros e impunes como ir atropelar pessoas. Os livros aqui são símbolos para o livre pensamento, através do acto de ler, pensar, questionar e em última estância, criar e evoluir.

*
Uma edição SDE | Saída de Emergência


«O Hipnotista» - Lars Kepler :: Opinião


Publicado em 2010 pela Porto Editora, «O Hipnotista» inicia a saga do detective Joona Linna pela mão da dupla Alexander Ahndoril e Alexandra Coelho Ahndoril, o casal por detrás do muito aclamado pseudónimo: Lars Kepler.
Aquando da publicação do último volume, «O Caçador», cujo a sinopse me cativou bastante, decidi-me a começar esta longa saga e ficar a conhecer esta dupla, donos de enredos psicológicos e sangrentos. 

«O Hipnotista» parte do mito grego, do deus Hipnos, cujo o nome significa «sono». Hipnos é irmão gémeo da morte e filho da noite da escuridão. Mas indica também que a hipnose remonta à medicina com a data de 1843, como um estado próximo do sono e, ao mesmo tempo, de extrema atenção e grande recetividade. 
Será com esta ambivalência que o leitor se depara durante todo o livro até perceber os motivos do crime inicial e de outros que são descobertos mais tarde. 

Também hipnotizado, o leitor segue com Erik Maria Bark, no frio anestesiante de uma noite nevada e desde logo se percebe que o hipnotista irá ceder e quebrar a promessa. Uma família foi violentamente assassinada, esquartejados, corpos despedaçados pela casa fora, uma carnificina digna de ajustes de contas entre cartéis de droga. 
Bark aceita a sugestão de Daniela e voltará a hipnotizar, mas com resultados que poderão entrar em conflito com o desenrolar da investigação a cargo de Joona Linna, ou pelo menos ele assim decide. Teimoso e persistente, Linna persegue uma investigação de contornos alucinantes, nomeadamente o rapaz que, vítima de inúmeras facadas, se encontrava vivo, contrariamente ao que era suposto.

"O comissário pensa na palavra sueca para «autópsia», obduktion, que vem do latim e que significa, originalmente, «cobrir, ocultar, envolver», quando, na realidade, o que se faz durante esse processo é precisamente o contrário."

Tal como numa investigação, recorra ela a um passado recente ou a um já bem enterrado.
O passado, tão útil a ocultar dramas, mas não a sarar feridas; vive precisamente disso: cobrir, ocultar, envolver e, influenciar o presente. Especialmente quando ocorre o rapto de Benjamin, filho de Erik Bark. É por certo o passado a persegui-lo!

"«O passado não está morto. O passado nem sequer passou», citando o escritor William Faulkner, referia-me a que cada pequena coisa que acontece a um ser humano o acompanha até ao presente. Todas as vivências influenciam (...) tratando-se de experiências traumáticas, o passado passa a ocupar todo o espaço do presente."

É precisamente dessas experiências traumáticas que a dupla Kepler se alimenta para tecer um thriller psicológico intenso e viciante, fazendo o leitor querer logo pegar no volume seguinte: «O Executor» de tão boa que é esta estreia.

quinta-feira, 19 de julho de 2018

«O Bom Inverno» de João Tordo - Opinião


Frustrado, cínico e hipocondríaco, o narrador: um escritor entregue à melancolia e a um certo ócio, está descrente do poder da literatura. Céptico com o poder dos livros e das suas histórias e, igualmente pessimista com o que a realidade tem para lhe oferecer.

"Se antes eu era um pessimista, depois de comprar a bengala passei a ser um cínico. Um homem novo com uma bengala podia dar-se ao luxo de desprezar o mundo e, assim sendo, eu tencionava aproveitar a oportunidade para ajustar contas com a realidade."

Apoiado na bengala recentemente adquirida, o narrador escritor larga o conforto anestesiante do seu apartamento e segue em direcção a um enigma oferecido por Vincenzo e um grupo de jovens escritores com quem se encontra numa palestra internacional. 

"«Sabes o que é curioso?», perguntei, sorrindo, embora sem grande vontade, «Eu, no que diz respeito à literatura, regredi. (...)
Nina pensou durante uns momentos.
«(...) cada vez mais acredito que só vale a pena ler um romance (...) quando temos uma pergunta na cabeça para a qual não sabemos a resposta. Ou, mesmo que tenhamos encontrado a resposta, se precisarmos de confirmação.»
Fiquei intrigado. Pedi-lhe nova explicação.
«Pensa bem: o mesmo se aplica a escrever livros, ou não? Não será o escritor, verdadeiramente, o único interessado naquilo que escreve? Quero dizer, porquê andar a inventar histórias a torto e a direito, a menos que essas histórias sejam a solução, temporária ou absoluta, para um enigma qualquer?»
«Todos temos enigmas por decifrar», repliquei. «No entanto, nem todos lemos ficção. E somos ainda menos os que a escrevemos.»
«Justamente», respondeu Nina. «Porque pessoas diferentes encontram as respostas em lugares diferentes (...)»
«Ao mesmo tempo é uma forma de cobardia», respondi (...)
«Pois é», (...) «Os escritores, no fundo, são todos uns cobardes.»
Fiquei sem resposta..."

Com alguma cobardia e sem grande determinação, o destino é a idílica Itália, com o objectivo de conhecer uma prometedora sumidade do cinema e das artes em geral, Don Metzger e usufruir de uma temporada de Verão na sua casa com a promessa de algumas peripécias e acontecimentos inesperados.

"Sabaudia é um lugar estranho, que cai algures entre o cinema realista italiano aprovado por Vittorio Mussolini, filho do grande ditador, e o melhor surrealismo de Fellini. Difícil de explicar. A cidade foi mandada construir por Mussolini em cima de uma vasta extensão de pântanos drenados (...)
«Um lugar bizarro»"

E num lugar bizarro espera-se que aconteçam coisas igualmente bizarras. Vicenzo esperava-o e silenciosamente o escritor desesperançado também, nem que fosse alguma curiosidade que Nina despertava nele para um ajuste de contas com a realidade. Juntos rapidamente se vêem enredados num crime, uma morte seguida de outra, como num jogo viciado ou envolvido nos meandros da máfia. 

"Cauteloso era um eufemismo para aquilo que eu me tornara; na verdade, eu desistira, permitindo que a indiferença vencesse. 
Ajustar contas com a realidade escusando-me de existir, e um homem que se escusa voluntariamente a existir sucumbiu ao apelo da fraqueza, ou da cobardia, ou da ausência (...)"

Um homem que se escusa voluntariamente a existir, mas que mesmo assim seguiu aquele grupo, embora coxo, deprimido e cansado, não é homem para abandonar tudo por completo. É sim um cínico, um escritor camuflado na lentidão da bengala, na soberba de captar os melhores detalhes para um enredo refinado e primoroso como os balões de ar quente que dão pano de fundo a esta narrativa, juntamente com a voluptuosidade de um bom inverno e o misticismo da floresta.

"O Verão instalou-se na sua grandeza e também na sua miséria. A noção de que pouco havia a fazer naquele momento infundiu nas almas uma entranha apatia e, ao mesmo tempo, de uma urgência em regressar ao quotidiano (...) e partilhavam-no com quem quer que se encontrasse por ali (...) e os seus silêncios eram longos, melancólicos e pesados."

*

Desde «A biografia involuntária dos amantes» que um livro do Tordo não me prendia tanto ao enredo e ao narrador. Há como que uma salvação pessoal apegada à salvação dos outros, sempre voluntariamente disfarçada, um pouco cobarde, um tanto cínica, numa procura constante pelas miudezas que dão sentido à vida.

«O desaparecimento de Stephanie Mailer» de Joël Dicker - Opinião



Sou fã de Dicker!
O suiço cria enredos que mais parecem redes velhas de pesca. Embaraçadas em nós antigos, presos por restos de muitas outras pescarias das quais já ninguém se lembra. Depois, numa madrugada em que o mar está de feição, alguém se lembra de desenovelar essas velhas redes e lançar-se a novas descobertas.
O leitor tem assim um papel de mexilhão, fixa-se como pode, agarrando-se aos detalhes, tentado compreender o fluxo da maré.

«O desaparecimento de Stephanie Mailer» é um livro puzzle como «A verdade sobre o caso de Harry Quebert» mas que a meu ver não supera nem se iguala a esse. Os livros estão dentro de livros , a investigação chega a ser incauta ou pessoal mais do que detetivesca, o amor move sempre a maioria dos personagens, mas a forma como este último é montado não se torna tão viciante como o primeiro, e nem cumpre a máxima: "Um bom livro, Marcus, é um livro que lamentamos ter acabado de ler."

Talvez a expectativa fosse muito elevada ou então é a minha exigência. O que sei é que não me fixei tanto nas personagens e senti semelhanças com outros enredos ou dei por mim a divagar para outros cenários. Houve personagens ou situações que me lembraram a série «Fargo»,a falsidade de certas personagens levou-me a pensar em «Big Litle Lies», o cenário, Orphea, cansou-me pela sua superficialidade.

No entanto, o livro tem tudo: os capítulos incisivos e que alimentam o ritmo de leitura, o enredo que se adensa, as peripécias, os supostos deslizes dos personagens para o leitor achar que já sabe quem matou quem, o lado de farsa daquela camada social, o critico azedo, a jornalista e a detective que querem singrar como profissionais reconhecidas, um pouco daquele charme do policia bom e do policia mau... e claro está, um erro que pode pôr em causa mais de vinte anos de uma carreira bem sucedida. Mas falta-lhe qualquer coisa e creio que desta vez os detalhes, as histórias de tantas personagens acabam por distrair ou talvez até cansar o leitor, que quer ver uma justificação para tantos enredos dentro do enredo e sai um pouco frustrado pela colagem final.
É muito mais uma série de mal entendidos, acasos infelizes e amores assolapados do que mentes argutas e frias que arquitectam um crime perfeito.

Repito sou fã do autor, li os seus quatro livros, o meu favorito é o que foge ao ambiente de thriller, «Os Últimos Dias dos Nossos Pais» é um livro de extrema beleza, essencialmente pelo lado humano e a forma como descreve as relações que superam o ambiente de guerra. Este último, definitivamente, não me convenceu.

sábado, 14 de julho de 2018

«Morrer com dignidade – a decisão de cada um» - Opinião


O livro "Morrer com dignidade: a decisão de cada um", da autoria do movimento cívico Direito a Morrer com Dignidade e organizado pelo médico e político João Semedo (coautor de «Salvar o SNS», Porto Editora 2017), pretende esclarecer e informar sobre a despenalização da Morte Assistida. O livro inclui testemunhos de personalidades públicas e textos que abordam as questões fundamentais sobre a morte assistida e ainda apontamentos de foro jurídico sobre os projectos de lei que visam a despenalização na ajuda à morte. 
Seja apelidada de eutanásia, suicídio assistido ou morte assistida, tudo são termos para obter ajuda a morrer de forma legal e sem consequências para quem ajuda, nomeadamente familiares. O tema já não é novo no debate nacional e é dos que mais tempo tem sido alvo de debates e criticas ferozes, mas ainda assim, muito há ainda que debater e esclarecer, para que exista uma maior aceitação pela escolha de cada um.
"A despenalização da morte assistida é a mais humanitária e democrática opção que podemos aprovar para o final da vida: ninguém é obrigado e ninguém é impedido, o único critério é a escolha de cada um."

E é nessa possibilidade de escolha que reside ou que devia residir a democracia actual, permitindo a actuação em liberdade e responsabilidade, tanto de quem pede para ser ajudado a morrer, como quem pode e tem meios para ajudar. A relação médico-doente tem sido igual e amplamente debatida e muito se tem discutido sobre a missão dos médicos, mas também sobre a forma paternalista como se olha à pessoa doente.

"Nós somos seres para a morte. Sabemo-lo desde que nascemos (...) É «humano» e - como dizia Ter~encio - nada do que é humano nos é estranho. Então porquê considerar uma aceitação do fim, um planear do fim, como um transtorno da razão? Se a doença altera o nosso estado de espírito não nos estupidifica necessariamente. Nem nos obriga a suportar um sofrimento indizível. A doença pode dar-nos uma consciência renovada sobre a nossa finitude (...)
Deverá o médico consolar? Sim, (...) mas respeitando criteriosamente a racionalidade interna do seu doente (...) Pois o médico não tem de ser um dador de sentido. Tem de ser um respeitador dos sentidos."

Laura Ferreira Alves («Ajudas-me a morrer?», Sextante 2009) fala do fim da vida em sofrimento como uma tortura e é no sentido de acabar com essa tortura que se apela ao direito da liberdade individual de escolha em antecipar o fim dessa mesma vida. No entanto, a deliberação a favor da despenalização continua a protelar e a apelar, ou a apoiar-se, nos cuidados paliativos, que sabemos serem bastante fracos no nosso país e daí o constante alerta: "morre-se mal em Portugal". A degradação lenta e penosa da pessoa perante a doença é o principal fundamento para se exigir ao direito a uma morte digna e livre do peso da clandestinidade.



*

sábado, 23 de junho de 2018

"Extremamente alto e incrivelmente perto" de Jonatham Safran Foer :: Opinião

Resultado de imagem para "Extremamente alto e incrivelmente perto" de Jonathan Safran Foer

Mais de dez anos separam os romances "Extremamente perto e incrivelmente alto" de "Aqui estou", mas eu não não precisei sequer de um mês para devorar ambos os livros. A escrita de Foer é altamente marcante. O autor cria narrativas entrecortadas no tempo, que fazem o leitor sentir-se à deriva. Afinal o foco dos seus romances é a família e quantas vezes os dramas familiares não são isso mesmo: um imenso mar onde tudo choca, tudo balanceia e se revolve, aguardando por marés mais calmas, mais apaziguadoras. 

"As palavras já se tinham esgotado quando conheci a tua mãe, talvez tivesse sido isso a tornar o nosso casamento possível, ela nunca teve de me conhecer."

A sensação de não conhecer perdura no leitor por muito tempo, diria até que navegamos sem rumo por mais de uma centena de páginas. A dificuldade de ligar as histórias e saber quem é quem parece propositada, só Oskar nos vai encaminhando e puxando para o presente. E mesmo assim, a forma acelerada e complexa como funciona a sua cabeça, em modos de quase-cientista, ajuda a compor uma autêntica sinfonia com toda a restante família.

"As minhas botas estavam tão pesadas que me senti contente por haver uma coluna por baixo de nós. Como podia uma pessoas tão solitária ter vivido tão perto de mim durante toda a sua vida? (...)
Isso fez-me começar a perguntar-me se haveria outras pessoas tão solitárias assim tão perto. Pensei em «Eleanor Rigby» (título de uma canção dos Beatles). É verdade, de onde vêm todos eles? E onde pertencem?"

 A solidão é uma constante. É uma tempestade avassaladora. Oskar perdeu o pai nos atentados do 11 de Setembro e a sua luta é tentar sentir-se mais perto dele, todos os dias. Oskar não o quer esquecer, não se quer desfazer de objectos do pai, não quer que a mãe prossiga com a sua vida. E mais, quer desvendar um mistério por detrás de uma chave misteriosa. E isso levá-lo-à a confrontar-se com a solidão dos outros, as suas emoções mais retraídas e a crescer em mais direcções do que aquelas em que já cresceu para a sua pouca idade de onze anos.

"Outra coisa que também me surpreendeu foi o caixão não estar fechado à chave, nem sequer pregado com pregos. A tampa só estava assente em cima dele (...). Isso não me pareceu bem. Mas, por outro lado, quem iria abrir querer abrir um caixão?
Abri o caixão.
Fiquei outra vez surpreendido, embora, mais uma vez, não devesse ter ficado. (...) Ou talvez ficasse surpreendido por ele estar tão incrivelmente vazio. Pareceu-me olhar para a definição de vazio no dicionário."

A variação no discurso é complexa e leva-nos até diferentes personagens que convergem para o passado. O passado, mais ou menos longínquo, é constantemente invocado através cartas dispersas, umas guardadas, outras lançadas ao acaso e ainda outras eternamente à espera de encontrarem coragem para as selar e seguir o seu caminho. 

A memória e o passado atravessam esta narrativa com a mesma força com que Oskar se empenha na sua busca. "Extremamente alto e incrivelmente perto." é um livro desafiante, recheado de peripécias e uma boa dose de humor negro, devido à forma como Oskar olha e comenta o mundo à sua volta. E é ainda um livro carregado de emoções que ora nos faz olhar ao nosso umbigo, fazendo-nos reflectir, ora nos abre os olhos para uma dimensão muito maior do mundo. 

segunda-feira, 18 de junho de 2018

Opinião "Chama-me pelo teu nome"

 Embora não seja costume ler o livro depois de ver a sua adaptação, não resisti em comprar este romance de André Aciman e de voltar aos idílicos meses de verão sob o sol italiano, tão repletos de paixão, mal entendidos, medos e experiências marcantes. Queria confirmar se o primeiro pensamento que tive, que esta história era uma coisa linda e livre de julgamento, se mantinha com a leitura.


Elio é um miúdo com 17 anos no corpo mas muitos mais na alma. A educação e a liberdade que os pais lhe deram fazem-no viver com a complexa tarefa de pensar e sentir como alguém mais velho mas não é por isso que deixa de ter coisas da sua idade.
Quando o mais recente visitante de verão chega para passar 6 semanas, Élio oscila entre a necessidade de agradar e a demonstração casual de indiferenca que por vezes lhe é característica mas que também esconde algo mais.
Oliver, nos seus plenos vinte quatro aproveita a oportunidade para trabalhar no seu livro enquanto ajuda o pai de Élio, isto tudo numa estadia que eu dava um dedo do pé para poder usufruir.

E o que começou com uma secreta atração unilateral transforma-se em algo profundo, capaz de derrubar as barreiras que eles próprios ergueram entre ambos, capaz de os fazer sair da sua própria pele.
Uma história de amor, desejo, culpa, dúvida e intimidade. Uma que me deu um gozo enorme conhecer e que me deixou rendida à beleza que os olhos de Élio captam naquelas semanas. Beleza essa que não se perde nem nas cenas mais in your face

E aquelas últimas 30 páginas mexeram comigo, tanto como quando vi o filme.
Não vos quero roubar a beleza pura de uma conversa em específico mas quando chegarem lá vão perceber. Ou talvez seja preciso ter passado pela nossa cota parte de amores, desamores, dúvidas e julgamentos para ver nesta história a beleza que lhe é inerente.
A verdade é que demoramos tanto tempo a perceber quem somos e vivemos tanta coisa em vidas paralelas à que levamos diante da grande maioria das pessoas que nos rodeia que é bom saber que há quem consiga, sem falácia ou moralidade, apoiar-nos no bom e no mau, no certo e no incerto.
Termino com um sorriso, uma lágrima e esta frase:

"Arrancamos tanto de nós próprios só para nos curarmos das coisas, mais depressa do que deveríamos, que entramos em falência por volta dos trinta anos e temos menos para oferecer de cada vez que começamos com alguém novo"

"Chama-me pelo teu nome" é um dos meus livros preferidos e chega a Portugal pela mão do Clube do Autor

quinta-feira, 14 de junho de 2018

Opinião "Os Altos e Baixos do meu Coração"


Molly apaixonou-se 27 vezes e em quase 100% dos casos, o alvo do seu afecto nem sequer sabia que ela gostava dele, como é que ela se chamava ou sequer que ela existia!
Quem nunca teve uma paixão secreta que mande a primeira pedra.
Molly simplesmente temia o mesmo que todos nós, seja qual for a nossa idade...
SER REJEITADA e ter de lidar com isso.
A adolescência é por si só uma época de altos e baixos mas o que fazer quando é o nosso coração que parece ter entrado numa montanha russa?

Molly manteve essas paixões secretas ao longo dos seus 17 anos mas o seu grupo de amigas, composto por Cassie, Olivia e a Abby, estiveram sempre a par de tudo e insistem que eventualmente ela precisa de arranjar um namorado, ou pelo menos, de beijar alguém.
Abby, a sua prima, mudou de cidade e agora namora Nick. Já os conhecemos no livro do Simon e são uns queridos. Não leram? Vão ler! E depois ver o filme!
Para Cassie, a sua irmã gémea, apaixonar-se é tão simples como respirar. Confortável na sua pele e na preferência por raparigas, Cassie leva a vida a um ritmo diferente da irmã cujo excesso de peso e falta de confiança em si mesma a fazem retrair e a impossibilitam de ver até que ponto a exposição lhe pode trazer frutos.

Pela mesma altura em que Cassie conhece a sua nova namorada, Mina, e se perde na fase de lua de mel de uma nova relação, Molly segue meia desamparada pelos eventos que se sucedem, especialmente quando na sua vida, até então cheia de coisas platónicas, aparecem dois potenciais candidatos a fazer florescer no seu coração algo mais que um "crush" passageiro.
Quem nunca se viu com um pretendente, o que faz quando de um momento para o outro percebe que tem dois?
Será que ela vai escolher bem? 
Por quem vamos nós torcer?

"Estou deitada ao lado do Will.
E do Reid.
Acho que o meu coração não quer ficar no meu peito"

A autora consegue dar-nos uma história que nos faz sorrir pela sua doçura e actualidade. Pegando em algo que trago da história do Simon só posso dizer:
"Todos merecemos uma grande história de amor"
E é exactamente isso que pensei enquanto lia a história de Molly. Não é o peso, a altura, a origem, a história familiar, o nariz torto, a preferência sexual ou a nossa geekness que nos rotulam de incapazes de amar e ser amado, somos nós próprios que nos deixamos etiquetar e que colocamos rótulos em nós próprios, que não são nada mais, nada menos que limites à nossa capacidade de sermos nós mesmos, livres e felizes.

Espero que gostem deste livro de Becky Albertalli. Eu gostei mais de ler a história do Simon mas gostos são gostos.
"Os Altos e Baixos do meu Coração" é uma aposta

sexta-feira, 8 de junho de 2018

«Submissão» de Michel Houellebecq - Opinião

Wook.pt - Submissão

Paris, 2022, François, professor universitário:  "Gostava de apanhar o metro pouco depois das sete da manhã, de ter a ilusão de pertencer à «França madrugadora», a França dos operários e dos artesãos, mas devia ser praticamente o único a gostar disso, porque dava a aula das oito horas a uma sala quase deserta, à excepção de um grupo compacto de chinesas, todas de gélida seriedade..."

Seriedade é palavra dúbia e carregada de metáforas nos livros de Houellebecq. Quem leu mais do que um livro do autor percebe que cada linha que ele tece, é preenchida com mais do que um duplo sentido. E todo este livro é uma critica constante à sociedade (desatenta, amorfa e despolitizada), mas, e sublinhe-se o mas, em certas alturas parece uma ode a atitudes racistas e misógenas. Por isso, a forma como o livro descreve o crescendo da extrema-direita ou a forma como a Fraternidade Muçulmana conquista terreno no cenário político francês, parece de leve aceitação por parte do professor. 

"- Sim, teoricamente és machista, sem dúvida. Mas tens gostos refinados: Mallarmé, Huysmans, e isso afasta-te definitivamente do simples machista. Além disso, tens uma sensibilidade anormal para escolher tecidos para a casa. Em contrapartida, veste-te sempre como um labrego. Enquanto personagem macho grunge, até podias ter uma certa credibilidade; mas não gostas de ZZ Top, sempre preferiste Nich Drake. Em resumo, és uma personalidade paradoxal."

São diversas as vezes que a sociedade ocidental é resumida a uma massa desatenta, amorfa e despolitizada, muito crente na sua liberdade, mas sem mais preocupações, contrastando com o resto do mundo: "- O que acontece - prosseguiu ele . é que a maior parte das pessoas vive a sua vida sem se preocupar com estas questões, que lhe parecem exageradamente filosóficas (...). Quer dizer, é assim no Ocidente; porque por toda a parte no resto do mundo é em nome destas questões que os seres humanos morrem e se matam (...)."

"(...) convencido muito cedo de que, na maior parte das vezes, a transmissão do saber era impossível, que era extrema a diversidade das inteligências, e que nada poderia suprimir ou sequer atenuar essa desigualdade fundamental."

Essa desigualdade fundamental é um raciocínio pouco abonatório para a personagem. No entanto, cedo percebe onde o autor quer chegar. A submissão está iminente e, à semelhança do tão estudado Huysmans, encarará certas mudanças como uma recusa, até desejada, e própria do tédio burguês:
"(...) o fardo da existência individual desapareceria." Seria apenas necessário garantir a existência do prazer, mas a fé islâmica até isso lhe proporcionava.
Mas será a poligamia suficiente para a sociedade ocidental aceitar a expansão muçulmana e a sua consequente submissão?

Chega a parecer que sim, pois as restantes equações ele resolve-as todas. A retirada da mulher do mercado de trabalho, o entorpecimento dos media, a educação controlada e subsidiada pelos desígnios da fé, o petróleo como patrocinador máximo da economia e a integração de grandes demografias (Turquia e Egipto) para a Europa... 

A decomposição repugnante da Europa Ocidental era a justificação máxima para se abraçar a submissão ao islão, religião irmã, mais recente, mais simples, mais autêntica.


«Submissão» é um livro fácil de ler, mas julgo estar repleto de camadas e interpretações, onde as opiniões do personagens se confundem com a realidade actual e é isso, que em parte, o chega a tornar assustador.

segunda-feira, 28 de maio de 2018

Opinião "Quando tu voltaste"

"Oohh que querido!" foi o meu primeiro pensamento ao terminar a leitura.
Se achei cliché o primeiro amor que volta para plantar dúvidas numa fase decisiva da vida de alguém, é com ternura que mudo de opinião ao conhecer a história de Lizzie e Alex.
Quem nunca encarou com nostalgia o seu primeiro amor? Quem não tem no seu passado aquilo a que chamamos a "pedra no sapato"?


Lizzie está a meses de se casar. Josh é um querido e embora os preparativos estejam a consumir mais tempo e fundos do que esperava, Lizzie está entusiasmadíssima para que chegue o dia. Mas embora o caminho a percorrer não seja longo, o que ela não contava era tropeçar num obstáculo do passado.
Alex Jackson foi o seu primeiro amor, o namorado com quem trocou juras de amor eternas mas que um dia lhe partiu o coração.
Depois de uma década sem qualquer contacto, porque é que Alex tinha de aparecer na sua vida? E logo agora? Porquê?
Será que foi a eminência do casamento ou algo mais?

Em countdown para o grande dia vamos revisitando o passado. Recuamos aos anos em que, ainda na faculdade, Alex e Lizzie se conheceram e criaram uma relação sólida e com pernas para andar.
O que poderá ter acontecido? O que fez Alex partir? E porque raio demorou uma década para reaparecer?
Até se podem pôr a adivinhar, como eu fiz, mas só a leitura vos vai dar a resposta.

Pensem...existem forças incontroláveis que são catastróficas para a vida de cada um de nós e quando confrontados com o rumo que levamos temos de saber quando deixar de lutar ou remar com todas as forças contra a corrente

E ao longo deste livro andei a cantarolar esta música :)
Tia Adele com um cover dos The Cure



Uma leitura com o apoio

sexta-feira, 25 de maio de 2018

«Aqui estou» de Jonatham Safran Foer :: Opinião


Aqui estou! Estou aqui! 
As mesmas duas palavras. Sentidos tão opostos.
Aqui estou, aceita, sacrifica. 
Estou aqui, afirma-se, destaca-se.

O novo romance de Foer, após onze anos de interregno, acerta em cheio no leitor e pede-lhe que se renda. Que aceite as atitudes, os sentimentos, as emoções, as decisões e as peripécias da família Bloch face a todas as necessidades da vida familiar, por vezes irreconciliáveis com as exigências do mundo actual.

"A parte de dentro da vida tornou-se muito mais pequena do que a de fora, o que criou uma cavidade, um vazio. Por isso o bar mitzvá parecia tão importante: era o último fio de um laço prestes a romper-se. (...)
O rabi entrelaçou os dedos, mesmo como um rabi.
- Há um provérbio hassídico que diz: «Quando corremos atrás da felicidade, fugimos da satisfação.»"

Talvez a família Bloch corresse atrás do barulho do tempo. Daquele zumbido de fundo, banda sonora de uma grande parte da vida em que ainda: pai, mãe e filhos convivem em puro ambiente de partilha.
Julia, Jacob, Sam, Max, Benjy e Argus, o cão; compõem uma família prestes a atingir duas décadas de história, mas a história deles tem ligações mais ancestrais, o judaísmo e a luta em Israel são personagens maiores que determinam tradição, conceito de família e noção de lar. E é essa vida de fora que tanto povoa a de dentro, que criou um fosso entre todos eles e os demais familiares que os rodeiam. Talvez se brinque às aparências, cumprindo rituais e forçando ligações e assim se vá jogando com sentimentos, numa constante ocultação do ressentimento e das necessidades tão próprias de cada um.

"Tudo era outra coisa sublimada: a proximidade doméstica tornara-se distância íntima, a distância íntima tornara-se vergonha, a vergonha tornara-se resignação, o ressentimento tornara-se auto-defesa. Julia pensara várias vezes que, se ao menos conseguissem seguir o fio até à origem da ocultação, poderiam chegar a encontrar a abertura."

Encontrar a abertura dar-lhe-à abertura para superar o que os separa? Serão os danos, entre familiares, recuperáveis com o passar dos anos? Ou apenas se aprende a esconder melhor o que nos incomoda? E por quanto tempo se aguenta esse esconde-esconde? E os outros, notarão?

Foer diz-nos que sim. Os filhos reparam, a família desconfia e os casais sabem que algo não está bem, mas avançam. «T-B-I-S-T-O-P-A-S-A-R-A-» é o nome de um dos capítulos deste romance, em jeito de prenúncio ou de aviso. Existem várias formas se superação, talvez só seja preciso encontrar o tempo certo para cada um.

"Tentava não repara nas vidas deles, mas era impossível ignorar a quantidade de vezes que o pai adormecia a ver a ausência de notícias, como a mãe se retirava para ir podar as árvores dos modelos arquitectónicos, como o pai agora se servia de sobremesa todas as noites, como a mãe dizia ao Argus que «precisava de espaço» quando ele a lambia, como o pai mudara a palavra-passe do iPad, (...) o fim do contacto visual."

É nessa ausência de contacto visual que deixamos de ver o outro e também de olhar para nós mesmos. Jacob e Julia são personagens interessantes, com complexos e medos transversais a todos nós. Ela com a necessidade de obter nos filhos um escudo, uma desculpa que a tudo dá justificação. Ele com a necessidade de ter e dar atenção, criou laços diferentes, mais flexíveis, mas nem por isso mais íntimos. Ambos se chocam e sentem ciúmes, girando em torno de dois grandes temas: os filhos e o facto de serem judeus, talvez para camuflar o desconforto da vida íntima.

"Ficou à porta até ouvir Benjy respirar fundo. Jacob era um homem que recusava o conforto, mas permanecia à porta quando outros teriam partido há muito. Ficava sempre à porta de casa até muito depois de o carro que levava os miúdos à escola ter partido. tal como ficava à janela até a roda traseira da bicicleta de Sam desaparecer na esquina. Tal como ficava a ver-se a si mesmo desaparecer."

"As armas enterradas na terra de Jacob e Julia não eram tão inofensivas como isso (...)
Os rituais domésticos estavam suficientemente enraizados para lhes permitir evitarem-se de forma fácil e discreta. (...) Ela dava o pequeno-almoço aos miúdos, ele tomava duche (...), ela levava os miúdos até ao carro e ia até à rua Newark para ver se vinham carros a descer o monte, ele fazia marcha-atrás."

Duas décadas de feridas demasiado rombas para matar, mas suficientes para equacionar a inautenticidade da vida e representar o espectáculo do divórcio. Nas entrelinhas resta-lhes compreender o barulho do tempo de cada um. 

"Demorou algum tempo (...) a perceber do que é que ele estava a falar. O frigorífico estava a ser arranjado, por isso faltava, na cozinha, aquele zumbido omnipresente e quase imperceptível. (...) Esse era o barulho do tempo dele.
O meu pai ouvia ataques.
Julia ouvia as vozes dos miúdos.
Eu ouvia silêncios.
Sam ouvia traições e o som de produtos da Aplle a ligar.
Max ouvia os ganidos de Argus.
Benjy era o único suficientemente jovem para ouvir a casa."

Encarar diferenças, limitações, profundidade das atitudes, necessidade de diversão, de espaço, de conforto ou de um abraço pode diminuir o desgaste próprio da vida e equilibrar melhor a rotina dos dias. «Aqui estou» tem alusões à Bíblia e à Tora, fala do luta dos Judeus, chama à atenção para a guerra eterna em Israel, satiriza e discute a causa, mas acima de tudo é um livro sobre o íntimo de cada um e a compaixão necessária para que a resignação não supere a vida.



quarta-feira, 23 de maio de 2018

«Ala feminina» de Vanessa Ribeiro Rodrigues :: Opinião


Estou fã dos livros das Edições Desassossego!

Este destacou-se mais pelo cariz feminino e os casos de vida. Em tempos tive ideia de fazer voluntariado para a alfabetização nas prisões, mas a idade foi um factor determinante e isso não aconteceu, mas fiquei sempre atenta. Como a série portuguesa «Dentro», no entanto há muito que não lia nada sobre o tema. Aconteceu agora e foi uma boa leitura, a deste trabalho de intervenção e sensibilização da jornalista Vanessa Rodrigues para reflectirmos sobre a condição humana e a fronteira estabelecida pelas prisões. Esta peça quebrara parte da fronteira entre nós (fora) e os outros (dentro).

"O testemunho é seco, curto, frontal, dissecado. Não pestaneja, como se tivesse repetido esta ladainha tantas vezes que parece que já sai desta forma automática, sem rodeios. E Catarina fala lacónica, sem desenvolver a história. Para ela, aquela não é a sua história. Economiza as palavras, como se desconhecesse a própria narrativa. Ou a quisesse esquecer."

Os testemunhos são realmente secos ou parcos em detalhes, as narrativas espelham a "vida descontinuada" e interrompida, efeito talvez menos nefasto do encarceramento. A falta de esperança, a solidão, o desapego, a ausência de perspectivas e a dificuldade de retornar à vida activa, serão efeitos bem mais nefastos nas vidas destas mulheres presas. A resistência que a vida da prisão lhes pede e algumas oportunidades que existem lá dentro, serão outra sentença, uma mais catártica, que se espera que dê frutos e as endurece para uma outra vida que não aquela que as levou até ali. Algumas mais do que uma vez. 

"Às vezes ouve-se um berro. É Rose de novo. Rose presente nesta história, impondo-se sem querer participar. Tem voz grave. Só o som está autorizado a sair a sair destes muros. Há árvores com raízes de fora, a querer sair da terra. Vejo um prédio praticamente sem pintura (...) As paredes terão sido brancas? Amarelo-claro? Beges? Já mal se percebe a qual pantone de tinta pertence aquela parede. O pantone da erosão."

A erosão maior lá dentro, talvez seja a da solidão, corroendo-lhes os sentimentos e as relações. Os filhos são as maiores preocupações; os que nascem lá dentro ou aqueles que ficam cá fora. Em ambos os casos são igualmente privados pelo encarceramento das mães. 

"Os filhos podem ser verbos na vida de homens e mulheres porque são sempre o futuro. Porque a vida ali dentro deixa um rasto de saudade permanente, nunca mitigado pelas visitas, tudo é sempre pouco."

Mesmo nesse pouco, dado pelas visitas ou conseguido pelo trabalho dentro da prisão, estas mulheres tentam levar a sua vida de acordo com a sua pena. Algumas têm recaídas. A droga é uma das maiores causadoras. Mas a família, a sociedade, o trabalho, as dificuldades ou o desejo de facilidades também se relacionam com os desvios que as levam a este caminho a que é preciso dar voz, conforme Vanessa Rodrigues afirma diversas vezes. 

Algo que ganha uma voz maior que todas, é o tempo. O tempo na cadeia parece ser medido de outra forma, é o que relatam as mulheres deste livro. A reclusão aguça a forma como se sente a passagem do tempo. Essa é outra coisa à qual a jornalista quer dar voz. Há a urgência de se ocupar!

"Lina está há dois anos e meio em Tires. A maioria das reclusas prefere cumprir pena a trabalhar, por causa dessa unidade universal quasi-invisível, a grandeza física que se mede com base na duração de fenómenos periódicos: o tempo. (...) é reflectir sobre o tempo, a cadência dele e a forma como ele fala connosco. (...) trabalhar é uma espécie de ilusionismo para o real (...) E, com o corpo cansado a saudade espanta."

Ao longo destas mais de 250 páginas somos confrontadas com testemunhos que denunciam um nó que se reflecte nos olhos. Nós que o cérebro tenta deslindar nessa solidão e nesse tempo que será sempre demasiado mesmo quando ocupado. É esse o ensinamento maior. Isso e uma frase de Eduardo Galeano que a autora cita:
«Assobia o vento dentro de mim. Estou despido. Dono de nada, dono de ninguém, nem mesmo dono de minhas certezas, sou minha cara contra o vento, a contravento, e sou o vento que bate em minha cara.» 


Uma edição da
Resultado de imagem para Edições Desassossego logo


terça-feira, 22 de maio de 2018

«A cidade e as serras» de Eça de Queiroz - Opinião

As cidades e as serras que visitei, nos inícios de Maio, tiveram todo um outro encanto, quando acompanhadas pelas palavras de Eça de Queiroz.


"Com que brilho e inspiração copiosa a compusera o divino Artista que faz as serras, e que tanto as cuidou, e tão ricamente as dotou, neste seu Portugal bem-amado! A grandeza igualava a graça. Para os vales, poderosamente cavados, desviam bandos de arvoredos, tão copados e redondos, de um verde tão moço, que eram musgo macio onde apetecia cair e rolar. Dos pendores, sobranceiros ao carreiro fragoso, largas ramarias estendiam o seu toldo amável, a que o esvoaçar leve dos pássaros sacudia a fragrância. Através de muros seculares, que sustêm as terras liados pelas heras, rompiam grossas raízes coleantes a que mais hera se enroscava."

Esvoaçava pouco, Jacinto, liado nos afazeres citadinos e nos demais inventos da época, que todos chegavam e inundavam Paris. Entediado e aprisionado, Jacinto não encontrava civilização que lhe trouxesse alegrias de viver; nem as festas ou mulheres, nem modas ou inventos, nem sequer a agenda cheia, tudo o cansa e enfada. Até a vasta biblioteca.

"Com os morangos novos, apareceu um instrumentozinho astuto, para lhes arrancar os pés, delicadamente. Depois recebemos outros, prodigioso, de prata e cristal, para remexer freneticamente as saladas; e, na primeira vez que o experimentei, todo o vinagre esparrinhou sobre os olhos do meu Príncipe, que fugiu aos uivos! Mas ele teimava... Nos actos mais elementares, para aliviar ou apressar o esforço, se socorria Jacinto da dinâmica. E agora era por intervenção de uma máquina que abotoava as ceroulas."

Zé Fernandes, o amigo vindo das serras, testemunha a passagem do tempo pelo seu Príncipe, Jacinto, e o lento enfado com a Paris que lhe engole o apetite pela vida. É ele que narra e nos mostra a transformação de Jacinto em Jacinto de Tormes, um citadino convertido aos prazeres das serras, abraçando com ânsia a Natureza, absorvendo dela energia e vitalidade como há muito não sentia. 

"Jacinto já não corcovava. Sobre a sua arrefecida palidez de supercivilizado, o ar montesino, ou a vida mais verdadeira, espalhara um rubor trigueiro e quente de sangue renovado que o virilizava soberbamente. Dos olhos, que na cidade andavam sempre tão crepusculares e desviados do Mundo, saltava agora um brilho de meio-dia, resoluto e largo, contente em se embeber na beleza das coisas. Até o bigode se lhe encrespara. E já não deslizava a mão desencantada sobre a face - mas batia com ela triunfalmente na coxa. Que sei? Era um Jacinto novíssimo. E quase me assustava (...).
E ali estava...
- Para todo o Verão?
- Não! Mas um mês... Dois meses! Enquanto houver chouriços, e a água da fonte, bebida pela telha ou numa folha de couve, me souber tão divinamente!"


«A cidade e as serras» de Eça de Queiroz é a última obra do autor e marca uma viragem na sua escrita, já que muitos estudiosos da obra queirosiana apontam Jacinto de Tormes como um reflexo do próprio Eça e das suas crenças e transformações.


Foto: Miradouro das Portas de Ródão
Cris Rodrigues, Maio'18



sexta-feira, 18 de maio de 2018

Opinião "Como Parar o Tempo"

"- O meu nome é Tom Hazard...

O nome em si contém demasiado. Contém todo a gente que me tratou por esse nome e toda a gente de quem alguma vez o escondi. Contém a minha mãe, Rose, Hendrich e Marion. Mas não é uma âncora. Porque uma âncora fixa-nos a um lugar e eu ainda não me fixei. Irei continuar a navegar pela vida eternamente a sentir-me assim? Um barco tem de acabar por parar. Tem de chegar a um porto, uma doca, um destino, conhecido ou desconhecido. Tem de chegar a algum lado e parar lá, senão, para que serve o barco? Já fui tantas pessoas diferentes, desempenhei tantos papéis diferentes na minha vida. Eu não sou uma pessoa. Sou uma multidão num só corpo.

Fui pessoas que odiava e pessoas que admirava. Fui empolgante, aborrecido, feliz e infinitamente triste. Estive do lado certo e errado da História.

Em suma, perdi-me."

Desde que li a sinopse de "Como parar o tempo" sabia que eventualmente teria de o ler. Havia qualquer coisa na história que me chamava.
Embora só tenha lido um livro do Matt Haig e nem sequer era ficção, houve qualquer coisa na escrita dele que ficou e me fez estar atenta às coisas que foram sendo publicadas.
"Como parar o tempo" só está na estante desde o mês de Fevereiro mas acabei por atropelar não sei quantas leituras para colocar este nos lugares prioritários.
Contudo, "Como parar o tempo" não me deu aquela vontade louca de que o mundo parasse à minha volta para que tivesse oportunidade de devorar o meu livro.

Conhecemos Tom Hazard com a sua aparência de 40 anos e a real idade de 439 anos. Não, Tom não descobriu o elixir da vida eterna, nem é imortal. 
A patologia, benção ou maldição de Tom desenvolveu-se por volta da puberdade e enquanto a idade passa para todos as outras pessoas, para quem sofre anageria, o ritmo de envelhecimento é bastaaaaaaante lento. Se um ano humano equivale a 7 anos caninos, 15 anos humanos não chegam para dar um ar adulto a um "jovem" com anageria. 
Um perigo para si mesmo mas acima de tudo para os que mais ama, 
Tom carrega o fardo da culpa, do luto, do conhecimento e dos séculos de história que viveu. Nem os muitos anos que já viveu apagam os momentos mais trágicos que lhe levaram a mãe, a mulher que mais amou e a filha de ambos.
A única esperança de redenção é conseguir encontrar a filha que anda em parte incerta e a quem a genética também passou a perna. Marion tem a mesma patologia que o pai.

Até aqui tudo bem. Até aqui tudo óptimo, especialmente quando se mistura pequenos vislumbres de Shakespeare no Globe ou numa taberna duvidosa, de F. Scott Fitzegerald a virar copos nos anos 20 em Paris ou do quanto uma cidade como Londres mudou ao longo das épocas.
É Tom que não me arrebata, quem não me prende à trama. Mais que a luta interna com a culpa e com o luto pela mulher, é a sua placidez com a vida, tendo ele tanta para viver, que mais me aborreceu. O tempo que vive afastado do mundo ou completamente camuflado no meio de uma cidade no século XXI faz-me pensar "porque raio queremos todos viver mais tempo do que aquele a que estamos destinados?" ou pior ainda "será isto o que nos aconteceria se nos fosse dada a oportunidade de prolongar a nossa estadia no mundo dos vivos?". 

Bem...talvez seja só eu que ando do contra com quase todos os livros que ando a ler.
Talvez esta não fosse a altura ideal para ler este livro, talvez fosse preciso lê-lo em dias de sol e não de chuva, talvez....talvez eu estivesse com as expectativas altas e o que me foi entregue ficou aquém do que eu queria encontrar.
Ser leitor é difícil mas ser escritor não deve ser mesmo nada fácil.

Creio que esta ideia no cinema, com os toques majestosos da passagem do tempo e a presença espectacular do Benedict Cumberbatch é bem capaz de me deixar finalmente tão maravilhada com achei que ia ficar ou talvez, como devia ter ficado.
Não se fiquem pela minha pobre opinião. O Goodreads está cheio de boas reviews e por isso mesmo, deixo-vos aqui uma frase que me agradou bastante.

"A minha cabeça apressa-se a tentar perceber. Isto acontece tantas vezes assim na minha vida. Passa-se tanto tempo a esperar por uma coisa - uma pessoa, um sentimento, uma informação -, que não se consegue absorvê-la quando surge à nossa frente. O buraco está tão habituado a ser um buraco, que não sabe como há de fechar-se."

Vá, agora vou ser o grumpy cat para outro lado.
E possivelmente dar a mão à palmatória e comprar o livro mais recente do autor "Os Humanos".
Até lá ficam com uma música que embalou a leitura deste livro.


quarta-feira, 16 de maio de 2018

Opinião "A rapariga que li no metro"

"...cada livro é um retrato e tem pelo menos dois rostos.
- Dois...
- Sim. O rosto daquele....ou daquela, no seu caso...que o dá. E o rosto daquela ou daquele que o recebe"


Quando peguei neste livro esperava algo completamente diferente, algo mais superficial, mais romance simplista, mais mastiga e deita fora.
Foi com surpresa que me vi enredada na existência de Juliette, na curta viagem de metro que faz parte da sua rotina e que num dia de impulso muda por completo a sua vida.
Que vida em modo autómato levava Juliette, sempre carregada com os seus livros mas a observar outros que à sua volta liam.
O que fazem os livros pelas outras pessoas?
Será que significam para os outros o mesmo que para nós?
Dizer que um livro pode mudar a nossa vida não é uma afirmação feita de ânimo leve em "A rapariga que lia no metro". 

Com Juliette perdemos-nos na divagação pelos mundos possíveis e imaginários que os livros encerram. Inclusive, até ela se perde um pouco no seu discurso especialmente enquanto o seu rumo é incerto.
Como o que esperava foi totalmente diferente do que encontrei posso dizer que esta história remete-me para aqueles momentos em que ficamos a olhar perdidos para os livros que nos rodeiam, quer a recordar as boas viagens que fizemos juntos quer somente a sorrir perante a sensação de prazer e paz que é tocar em livros.

Acho que, à semelhança do voluntariado altruísta literário que encontramos neste livro, vou sugerir a leitura deste título à minha metade literária. Ela encontrará neste livro um sem fim de sugestões de leitura, mais uns quantos para somar à lista que cresce quase ao mesmo ritmo que a estante vai ficando sem espaço.

Vou só fechar com esta frase que me fez parar a meio da leitura, ficar em suspenso com o livro aberto numa carruagem de comboio apinhada de gente.

"- Também estive coberta de pó - afirmou. - Acumulou-se sem que o sentisse, percebe?"

pequenas frases que fazem tanto sentido mesmo quando podem dizer mais do que uma coisa. Assim como o livro é um retrato com dois rostos, também o sentido de uma frase para quem escreve e para quem lê podem ser diferentes.

"A Rapariga que lia no metro" é uma aposta

segunda-feira, 14 de maio de 2018

Novidades Caminho :: Maio


Era uma vez um homem que vivia numa casa muito, muito alta, tão alta que quase tocava o céu. Como ele era carteiro, as pessoas diziam que, muito provavelmente, morava numa casa assim para poder entregar cartas aos anjos! Mas, na verdade, esta era uma casa de família. Ora, o senhor carteiro, que era de quem eu estava a falar, tinha um problema: falava, frequentemente, a rimar e, por isso, adquirira a alcunha de Senhor Rimas. No início, as pessoas da aldeia de Não-Sei-Onde-Moras achavam-lhe muita graça, mas, depois, tornou-se aborrecido ter de ouvir a toda a hora e a todo o instante aquelas falas rimadas. Tal era o desespero da aldeia que decidiram os habitantes marcar um encontro na praça para discutirem o assunto. Então, ao saber disto, e vendo o desconforto que provocava nos seus amigos e nos seus colegas de trabalho, o Senhor Rimas decidiu abandonar a aldeia…


Toda a gente foi apanhada de surpresa, pelo que ninguém tentou impedir o inesperado assassinato do mais conhecido e traduzido escritor das ilhas, breves momentos antes do início da cerimónia de apresentação do que acabou por ser a sua última obra. E, no entanto, nesse dia o vasto auditório transbordava de uma festiva multidão de fãs e outros curiosos, todos impacientes ante a expectativa de ter um autógrafo no já muito badalado livro que se preparavam para adquirir. De modo que a ninguém terá passado pela cabeça que um evento daquela natureza, sempre aguardado com geral e grande ansiedade, poderia vir a ter um desfecho tão inesperado quanto brutal, especialmente tendo em conta a qualidade das pessoas envolvidas na tragédia.

Novidades

Novidade Porto Editora :: "Os altos e baixos do meu coração"

 Depois do sucesso de O coração de Simon contra o mundo, cuja adaptação ao grande ecrã estreia em junho no nosso país, a Porto Editora publica, no dia 17 de maio, o segundo romance de Becky Albertalli, Os altos e baixos do meu coração.


Molly é uma adolescente que, apesar de se ter apaixonado platonicamente dezenas de vezes, nunca arriscou uma relação amorosa: quem não arrisca também não sofre. No entanto, quando a sua irmã gémea encontra o seu primeiro grande amor, Molly não suporta a ideia de ficar sozinha… e decide aventurar-se. Mas a vida é cheia de surpresas e acaba por ter de escolher entre dois rapazes completamente diferentes, percorrendo uma verdadeira montanha-russa emocional.

Uma novidade

Opinião "Todos Devemos Ser Feministas"


Faz algum tempo lembro-me de estar a falar com a minha metade literária sobre livros e ela mencionou um nome que me soou completamente desconhecido: Chimamanda Ngozi Adichie.
Ela tinha lido “Meio Sol Amarelo” e eu fiquei com a pulga atrás da orelha quando me deparei com uma TED Talk no qual a autora fala sobre o tema abordado neste livro.
Na realidade, são poucas as diferenças entre o texto e a TED Talk que incluo neste post.
Ri-me e revi-me em alguns comentários, e embora haja um foco especial sobre o seu país natal, há coisas que são comuns a muitas mulheres em todo o mundo.
Creio que toda a devia ler e pensar mais sobre este tema. Acima de tudo, creio que existem muitas mulheres que em vez de olhar de lado, deviam dar mais a mão, ajuda e compreende as mulheres que as rodeiam.
Uma leitura a não perder. Sim, realmente…Todos devemos ser feministas.
O livro inclui ainda um pequeno conto que faz parte da coletânea “A Coisa à Volta do Teu Pescoço”. 

sexta-feira, 11 de maio de 2018

Ainda falta mas fica a nota!

Depois d’A Verdade Sobre o Caso de Harry Quebert, O Desaparecimento de Stephanie Mailer, o novo livro de Joël Dicker chega a 7 de julho

(capa original)

Na noite de 30 de Julho de 1994 a pacata vila de Orphea, na costa leste dos Estados Unidos, assiste ao grande espectáculo de abertura do festival de teatro. Mas o presidente da Câmara está atrasado para a cerimónia… Ao mesmo tempo, Samuel Paladin percorre as ruas desertas da vila à procura da mulher. Só pára quando encontra o seu cadáver em frente à casa do presidente da câmara. Lá dentro, toda a família está morta.

A investigação é entregue a Jesse Rosenberg e Derek Scott, dois jovens polícias do estado de Nova Iorque. Ambiciosos e tenazes, conseguem cercar o assassino e são condecorados por isso.

Vinte anos mais tarde, na cerimónia de despedida de Rosenberg da Polícia, a jornalista Stephanie Mailer confronta-o com o inesperado: o assassino não é quem eles pensam, e a jornalista reclama ter informações-chave para encontrar o verdadeiro culpado.

Dias depois, Stephanie desaparece.

Assim começa este thriller colossal, de ritmo vertiginoso, entrelaçando tramas, personagens, surpresas e volte-faces, sacudindo o leitor e empurrando-o sem travão possível até ao inesperado e inesquecível desenlace.

O que aconteceu a Stephanie Mailer?

E, sobretudo, o que aconteceu realmente no Verão de 1994?

O thriller mais poderoso dos últimos anos, uma obra que não dá tréguas, tão sofisticada e viciante quanto A verdade sobre o caso Harry Quebert.