segunda-feira, 28 de novembro de 2022

A Balada de Adam Henry de Ian McEwan :: Opinião


“Ela tinha poder para retirar o filho a um pai cruel, e por vezes fazia-o. Mas retirar-se a si própria a um marido cruel? Quando estava fraca e inconsolável, onde estava o juiz para a proteger? (...)

O rosto do marido estava tenso quando ele encolheu os ombros e saiu da sala. Ao ver as costas dele afastarem-se, ela sentiu o mesmo medo frio. Se não fosse o receio de ser ignorada, teria chamado por ele. O que poderia dizer? (…) e depois o silêncio a abater-se sobre o apartamento deles, o silêncio e a chuva que não parava havia um mês.”

Ian McEwan tem uma capacidade muito própria para, em poucas palavras, dizer o indizível e dar vitalidade ao não-dito que chega a sufocar com os silêncios gritantes a cada frase. A solidão, a melancolia se entranha em eventos complexos, causa de contornos irreparáveis que mexem escorregadiamente com as emoções e os sentimentos dos seus personagens. E por conseguintes os dos seus leitores.

“Aqueles eram pensamentos novos, aquela era a forma como o verme da suspeita infestava o passado.”

O passado, a suspeita, os fantasmas dos problemas que se tentam camuflar com a passagem do tempo... esses medos frios autodestrutivos que quando nos confrontam nunca chegam sós. Um impossível nunca chega sozinho, diria Saramago e neste enredo de McEwan é bem visível.

Fionna May é essa mulher de poder, que encabeça um desfile de adultos importantes e importunos, cheia de si e das suas conquistas, uma juíza do Tribunal de Família, cujo os casos mediáticos, de causas duríssimas, têm infligido lanhos profundos no seu casamento já votado a uma certa surdez conjugal, mas não tão profundos quanto a traição de Jack cravou na sua auto-estima e energia.

A amante mais nova que ela não anteviu. O pedido descabido por uma relação aberta. Uma amante nova, ardente e voluptuosa enquanto ela envelhecia, vendo nos milímetros paranoicos, ainda assim mensuráveis, dos tornozelos que engrossavam, da cintura que se avolumava ou “os cantos da boca a começarem a descair em busca de uma expressão de constante recriminação. Muito razoável numa juíza de cabeleira a fitar o advogado de cenho franzido. Mas numa amante?”

É isso que Fionna se sente, uma juíza de cenho franzido, embrenhada em processos complexos, condicionada por questões éticas e religiosas, onde a ciência e a lei ora se cruzam ora caminham para lados opostos e é preciso sentenciar para impedir um mal maior.

Quantos males menores deixou Fionna pelo caminho, não como juíza, mas como mulher, como esposa?

Adiamentos, remorsos, culpa e amargura dão uma capa de frieza, pragmatismo e poder a uma mulher que carrega arrependimentos que despertam agora atitudes que a surpreendem perante um novo caso, o de Adam Henry. A pressão e o mediatismo do caso e as escassas horas que separam Henry de uma sentença de morte. Caso o tribunal não decida contrariamente aquela que é a sua vontade, suportada na devoção e ensinamentos religiosos, Henry sucumbirá por falta de uma transfusão de sangue.

“De novo a religião (…). Todo o circo a ser montado, mas tão lentamente (…) como um balão de ar quente, torto e mal amarrado.”

Perante a assombrosa singularidade do caso (também porque Adam Henry é um adolescente excepcional e cativante, apesar de condicionada à educação ininterruptamente religiosa monocromática), a crueldade da doença, a dualidade religião/ciência e a fragilidade e autocomiseração que a assaltam e deixam indefesa nesta fase da vida, Fionna sente-se amordaçada entre convicções, dúvidas e arrependimentos antigos que esbarram em toda uma teatralidade de uma máscara que está cansada de usar.

“O seu tom emocional, como ela por vezes o designava e que gostava de controlar, era uma completa novidade. Um misto de mágoa e de indignação. Ou de nostalgia e de fúria. Queria que ele voltasse e nunca mais o queria ver. A vergonha também era uma componente.”

“(...) adiando o momento do regresso, perguntando-se de novo se aquilo que perdera não seria tanto o amor quanto uma forma moderna de respeitabilidade, se o que temia não seria tanto o desprezo e o ostracismo, como nos romances de Flaubert e Tostói, mas a piedade. Ser alvo da compaixão geral era também uma forma de morte social. O século XIX estava mais próximo do que a maioria das mulheres pensava. Ser apanhada a representar o seu papel num estereótipo revelava mais mau gosto do que uma falta de moral.”

McEwan é exímio ao escrever sobre sentimentos e sobre todas essas energias que confluem para as relações humanas, ainda assim, consegue uma mistura muito equilibrada entre temas polémicos, casos reais, critica social, reflexões muitos actuais e sensações e sentimentos, tudo milimetricamente organizado num tom poético extremamente vívido.

“Em vez disso, ficou ali, indefesa perante o momento. A sensação de pele contra pele anulou qualquer possibilidade de escolha.”

terça-feira, 15 de novembro de 2022

«O Jogo do Mundo» de Julio Cortazar :: Opinião

o tal capítulo 7 de Rayuela

"Toco a tua boca. 

Com um dedo, toco a borda da tua boca, desenhando-a como se saísse da minha mão, como se a tua boca se entreabrisse pela primeira vez, e basta-me fechar os olhos para tudo desfazer e começar de novo, faço nascer outra vez a boca que desejo, a boca que a minha mão define e desenha na tua cara, uma boca escolhida entre todas as bocas, escolhida por mim com soberana liberdade para desenhá-la com a minha mão na tua cara e que, por um acaso que não procuro compreender, coincide exactamente com a tua boca, que sorri por baixo da que a minha mão te desenha.

Olhas-me, de perto me olhas, cada vez mais perto, e então brincamos aos ciclopes, olhando-nos cada vez mais de perto. Os olhos agigantam-se, aproximam-se entre si, sobrepõem-se, e os ciclopes olham-se, respirando confundidos, as bocas encontram-se e lutam sem vontade, mordendo-se com os lábios, quase não apoiando a língua nos dentes, brincando nos seus espaços onde um ar pesado vai e vem com um perfume velho e um silêncio. Então as minhas mãos tentam fundir-se no teu cabelo, acariciar lentamente as profundezas do teu cabelo enquanto nos beijamos como se tivéssemos a boca cheia de flores ou de peixes, de movimentos vivos, de uma fragância obscura. E se nos mordemos a dor é doce, e se nos afogamos num breve e terrível absorver simultâneo do fôlego, essa morte instantânea é bela. E há apenas uma saliva e apenas um sabor a fruta madura, e eu sinto-te tremer em mim como a lua na água."

*

A transcrição deste excerto visa apenas demonstrar a beleza e a perfeição de um capítulo que, só por si, é um livro inteiro; um livro que se lê sem se saber muito bem o que se está a ler, como se deve ler, quem é quem e qual é o seu papel, qual é o sentido de tudo aquilo... numa época "lá" e outra "cá", que é como quem diz Paris e Buenos Aires, respectivamente, acompanhamos um homem que se desdobra, caminha, ama, divaga e convive.

E talvez o que mais nos fique são as suas angústias, o amor e considerações afectivas e claro, divagações. Quase uma centena de divagações que o autor isenta o leitor da necessidade de lê-las para ter o livro como completo. 

Claro está que esses 99 “capítulos prescindíveis” são provavelmente aqueles que vamos logo atacar, como quem pica e debica e vai provando para saber se fica ou não cortazado.

Rayuela é um puzzle com capítulos-peça cujo arestas estão em falta ou dobradas e nem sempre encaixam. Ou encaixam! Já que a sua composição experimental deixa em aberto todas as direcções possíveis, apelando à interpretação (e criatividade?) de cada leitor, exigindo-lhe que participe e decida. 

Um romance interminável que marca uma viragem na forma de fazer literatura e que está carregado de simbolismo, metáforas, jogos narrativos e de linguagem, expondo ideias e reflexões ainda bastante actuais ou até premonitórias; a própria metáfora do título/jogo da macaca como forma de estar - e ir andando na vida - é brilhante e até muito acertada!

*

Este livro foi lido no seguimento de «O Avesso da pele» de Jeferson Tenório que faz referência, especificamente, ao memorável capítulo 7

quarta-feira, 2 de novembro de 2022

O INTRUSO de Tana French - Opinião

 


Cheguei a Tana French e ao seu cáustico INTRUSO pelas estantes da biblioteca que às vezes percorro como se de uma montra de doces se tratasse ;)

Ao pegar e ler: “A Brigada de Homicídios não gosta da detetive (vou fingir que está lá o “c”) Antoinette Conway. (...). Consegues vencer um assassino, mas vencer a tua própria equipa é outra coisa.” fiquei logo de pulga atrás da orelha.

“Breslin abre a porta para que eu possa sair primeiro da sala de observação e não trocar uma palavra com Steve nas costas dele – não que precisemos de trocar sussurros, mas ainda assim. O corredor devia envolver-me com a familiaridade de um lar: tem a tinta verde a descascar e a alcatifa gasta e tudo; devia parecer um caminho conhecido através do meu território, levando-me direita e em segurança (…) em vez disso, parece um trilho não assinalado através da terra de ninguém pejado de buracos traiçoeiros e armadilhas.

(…). Nunca tinha percebido que precisamos realmente que a brigada seja uma parte de nós, próxima e de confiança como o nosso próprio corpo, para conseguirmos sobreviver a ela.”

Um thriller psicológico, carregado de muita lama a turvar a água, onde os que deviam ser os bons são os maus (aparentemente) faz sempre pensar nos motivos por que tal acontece e por isso mesmo eu queria ter recebido mais deste livro, no entanto, o forte deste enredo está na perseguição que Conway sente e o texto explora e transborda dessa pressão psicológica de que é vítima por parte da sua equipa e em especial pelo pavãozinho inchado do Breslin (UMA TOUPEIRA?). Isso tudo, junto com a teoria dos “ses” em que o detective Stephen Moran (o colega e compincha de Conway) é perito e que lhes dá pilhas de nada (mas que dão trabalho), fazem o livro e justificam a sua leitura numas tardes de esplanada a torrar ao sol (enquanto na Irlanda o tempo faz caretas – sempre!).

“- E se ela o encontrou? (…) E se afinal não fosse um namorado? Se fosse o pai dela? (…), dou dar em doida se tiver de aguentar mais tempo esta merda do se.
- Está bem – diz Steve (…). Então, se o pai quer compensá-la pelos anos…
- Caralho – respondo, ligando o Kadett e ficando a ouvi-lo protestar por ter sido acordado. – E se eu te pagar para não fazeres essa merda? Funciona?
- Devias tentar. Aceito cheques.
- Aceitas barras de Snickers? Porque pelo menos fechas a matraca quando estás a comer.
Encontro o Snickers na mala e atiro-lhe para o colo, e ele dedica-se a devorá-lo. (…). Sei que o Steve não é o puto sardento simplório que aparenta ser, mas ainda assim… Parece, isso sim, estar a pensar no chocolate.
- O que foi? – pergunta com a boca cheia.
- Nada – respondo. – O silêncio combina contigo, só isso. – E dou por mim a sorrir ao avançar para o meio do trânsito.”


French tem um discurso cáustico e humoristicamente negro que elevam o livro e melhor, consegue-o ao longo das mais de 450 páginas, sem cansar o leitor, até mesmo quando a acção e alguns desfechos são previsíveis.

E os diálogos são top! Sejam eles entre a dupla de novatos: Conway e Moran ou Conway e Breslin a embirrarem e a desconfiarem um do outro, ou ainda em dois momentos muito bons de interrogatório, superando a já habitual cena do polícia bom, polícia mau.

quinta-feira, 15 de setembro de 2022

“O meu nome era Eileen” de Ottessa Moshfegh :: Opinião


"(...) raramente sorria. Quando sorria, fazia um enorme esforço para impedir que o meu lábio de cima subisse, tarefa que exigia uma grande austeridade, consciência e autodomínio. Nem dá para acreditar no tempo que passei a disciplinar aquele lábio. Sentia deveras que o interior da minha boca era uma parte íntima, saliências e reentrâncias de carne húmida separada, por isso, deixar que alguém o visse era algo tão mau como abrir as pernas."

Otessa Moshfegh conseguiu redesenhar os contornos da solidão. Uma solidão bem afiada, decadente, sórdida e profundamente sombria e dentro dela está Eileen. 
Eileen Dunlop é protagonista e narradora deste enredo sufocante e caótico, para o qual é impossível não nos sentirmos puxados tal é o fascínio (e também alguma repulsa) por esta personagem de mente fantasiosa e rebuscada, dona de atitudes bruscas e arrogantes, mas também contida, púdica, perdida. 

Eileen é um misto de invisibilidade com lança-chamas, embora muito do que aconteça se passe só na sua cabeça, é na forma como o revela que se desnuda, seja com sensibilidade e atenção ao detalhe, seja na total crueza e fúria. Uma fúria reprimida.

"(...) quando a minha mãe faleceu, passou a beber gim. A melhor explicação que consigo encontrar é que talvez o gim lhe fizesse lembrar o perfume dela - ela usava uma eau de toilette forte, floral, mas acre, de marca Adelaide - e que talvez absorver a fragância da morte de algum modo o apaziguasse. Ou talvez não. Ouvi dizer que um trago de gim nos torna imunes aos mosquitos e a outras pragas. Por isso, talvez ele o bebesse tendo essa lógica por base."

Também Eileen tinha uma lógica semelhante. Engolia remorsos enquanto se empanturrava de gelado, misturando tudo com álcool e comprimidos, alimentando ideias tóxicas que lhe consumiam o corpo. Quando atingia o limite, expelia tudo a toque de laxantes, celebrando o festim de excrementos e as manifestações corporais que tanto a fascinavam.

"Eu parecia extremamente fastidiosa, insípida, apática e impassível, mas na verdade estava sempre furiosa, violenta, com os pensamentos em rodopio, a mente como a de um assassino. (...) Eu gostava de livros sobre coisas tenebrosas, tais como assassínios, doenças e morte (...) para estudar a macabra prática de extrair o cérebro dos defuntos pelo nariz como se fossem meadas de lã. Gostava de pensar no meu cérebro desse modo, emaranhado dentro do meu crânio. A ideia de que o meu cérebro podia ser desemaranhado, endireitado e, desse modo, refeito num estado de paz e sanidade, era uma fantasia reconfortante."

"O meu nome é Eileen" é um relato inteligente, obscuro e bastante equilibrado no quanto brinda o leitor com momentos de elogio e de delírio (e também com momentos desagradáveis) mostrando como uma família disfuncional pode danificar a imagem que uma criança tem de si e do mundo, mas mais ainda, é um relato sobre o mundo interior, a psique e o que ela não revela na convivência do dia-a-dia. 

"Por muito desprezíveis que fosse, as minhas colegas de trabalho não ocupavam um lugar cimeiro na lista de pessoas abjectas que fizeram parte da minha vida (...) As minhas colegas eram por demais taciturnas, insípidas e afectadas (...).
Consigo ainda recordar as imagens mentais que eu fazia delas em posições sexuais, as caras enfiadas nas partes pudendas uma da outra, contorcendo os narizes por causa do cheiro enquanto esticavam as línguas.
As minhas suspeitas em relação às minhas colegas de escritório não eram necessariamente depreciativas. Ajudavam-me a nutrir alguma compaixão..."

O desajuste, a indiferença, a falsa responsabilização ou culpa e a maledicência, juntamente com uma solidão profunda alimentaram em Eileen um fardo pesado e o uso constante da uma máscara fúnebre, mas mesmo assim, denunciadamente triste e só, Eileen era invisível.
E o manto da invisibilidade não era um crime seu. Cresceu com ela, enquanto desabrochava espicaçada e ridicularizada, numa infância descarnada de qualquer carinho, atenção ou sequer a lancheira preparada.

*

Leia mais sobre este livro no artigo de Gonçalo Correia/Observador por ocasião do Festival Literário da Madeira (2018) com a presença da autora.

terça-feira, 16 de agosto de 2022

«Uma Vida à Sua Frente» de Romain Gary :: Opinião

Numa França vista do 6º andar de um prédio pobre, Momo, um rapaz que “não foi datado” vive aos cuidados de Madame Rosa, ex-prostituta e ex-judia, (os próprios papéis provam essas “não-existências”) que o recebeu por ele ser uma “criança ilegal”, “um filho de puta”. Mas os anos estão a passar e os quilos da Madame a aumentar à mesma velocidade que o seu corpo se deteriora com eventos em que a cabeça ganha pernas e vai passear.

As histórias destes Miseráveis, porque Victor Hugo e a sua capacidade de descrever a França e a miséria são uma inspiração e aspiração de Momo (e do Senhor Hamil) que, quando crescer, quer escrever assim a histórias dos seus miseráveis e Roman Gary consegue isso mesmo em «Uma vida à sua frente» na voz desta criança de dez anos, Momo, que com a sua inocência, própria da idade, mas com a perspicácia (e alguma confusão, já que Momo ao início era muito novo para ir à escola e de repente já tinha idade a mais) de quem teve de se desenvencilhar sozinho… até para ter uma mesada!

“Quando os vales deixavam de vir para um de nós, a Madame Rosa não punha o culpado na rua. Era o caso do pequeno Banania, o pai dele era desconhecido, logo não o podíamos censurar por nada; (…) a Madame Rosa ralhava com o Banania mas ele estava a borrifar-se, porque só tinha três anos e sorrisos. Acho que a Madame Rosa teria dado o Banania à Assistência, mas não o seu sorriso, e como não se podia separar um do outro, via-se obrigada a ficar com os dois.”

Momo narra a sobrevivência que por ali se vive quase sem maldade, embora exista dinheiros e leis à mistura, coisas que Momo pouco percebe, entre muitas outras, mas de solidão, desamparo e ausências Momo percebe.

“Não faço ideia do que me deu, mas havia anos que não tinha mãe nem pai, nem mesmo bicicleta (…). Fiquei todo tocado e possuído pela violência, nem dá para acreditar. Vinha de dentro de mim, e é ali que é pior. Quando vem de fora com pontapés no cu, podemos sempre fugir. Mas de dentro, não é possível. Quando me apanha, quero ir-me embora e não voltar mais a lado nenhum. É como se estivesse alguém a morar dentro de mim. Começo a gritar, atiro-me para o chão, bato com a cabeça para sair, mas não é possível, não tem pernas, nunca temos pernas dentro de nós. Faz-me bem falar disto, aliás, é como se estivesse a sair um pouco. Estão a perceber?”

E o leitor vai percebendo!

Vai aceitando a dureza do relato enquanto desanuvia pelo humor e ironia com que é descrita e é aí que reside toda a peculiaridade da escrita de Gary; é na força do humor, pelo traço inocente da voz de Momo que a fronteira que segrega estas pessoas, a invisibilidade e o preconceito em que vivem, é denunciada.

Ainda assim, existem excepções, e ainda bem!

“Eu ia muitas vezes sentar-me na sala de espera do Doutor Katz, já que a Madame Rosa repetia que era um homem que fazia o bem, mas não senti nada. Talvez por não ter ficado tempo suficiente. Sei que há gente que faz o bem no mundo, mas não fazem isso a toda a hora e é preciso calhar no momento certo. (…) A Madame Rosa dizia que o Doutor Katz era a medicina geral, e é verdade que se via de tudo ali, judeus, claro, norte-africanos, para não dizer árabes, negros (…)”

«Uma vida à sua frente» denuncia e reflecte sobre temas que ainda hoje são discutidos, seja pela controvérsia, seja pela herança tóxica dos conflitos armados, do colonialismo ou outros que ainda têm muito de tabu, como é o caso da eutanásia.

“Não queria ouvir falar do hospital onde nos fazem morrer até ao fim, em vez de nos darem uma injecção. Dizia que, em França, estão contra a morte serena e que nos obrigam a viver enquanto ainda formos capazes de sofrer. A Madame Rosa tinha um pavor à tortura e dizia sempre que, quando tivesse que chegasse, far-se-ia abortar. (...) Vi logo que ela se tinha deteriorado mais na minha ausência e sobretudo em cima, na cabeça, onde ela estava pior do que nos outros sítios. (…) estava tão danificada que até os seus cabelos tinham parado de cair porque o mecanismo que os fazia cair tinha-se também deteriorado.”

É impossível ao leitor não sorrir, por vezes até rir à gargalhada com os termos inocentes de Momo, num humor afiado, quase cáustico, que dão toda uma outra dimensão ao que nos narra e a leveza com que revela preocupação pelo sentido da vida: “se quiserem a minha opinião, o tempo, é para os lados dos ladrões que temos de o ir procurar.”

Procurar o tempo junto dos ladrões, abortar alguém na velhice, “perder-se no seu interior” ou “ter uma cabeça que passeia” quase que retira seriedade aos assuntos, mas acrescenta uma sensibilidade enorme a uma criança que efectivamente é responsável por uma mulher idosa com demência e a quem, se pudesse, daria uma morte digna e como ela pretendia, enquanto ainda podia escolher.

“- Vão obrigar-me a viver, Momo. É o que fazem nos hospitais, têm leis para isso. Não quero viver mais do que o necessário. Há um limite, até para os judeus. (…) Não quero viver só porque a medicina o exige. (…)
Prometes?
- Khaïrem.
Quer dizer «juro» (…)
Eu teria prometido qualquer coisa à Madame Rosa para fazê-la feliz, porque mesmo quando se é muito velho a felicidade ainda pode ser útil (…).”

A felicidade mesmo que a conta gotas é sempre útil e dá-la, às vezes até sem a ter, é um acto de amor. E é preciso amar mesmo que seja num «buraco judeu». E Gary conseguiu um livro terno, não pelo que conta, mas pela forma como o faz, com um humor redentor.


segunda-feira, 15 de agosto de 2022

«Terra Alta» de Javier Cercas :: Opinião


“(…) a lembrança mais nítida que Melchor guardava da sua infância era o ruído, um ruído tão ubíquo quanto persistente, que lhe parecia indistinguível do som habitual da realidade, como se esta carecesse do direito a existir sem o barulho dos tubos de escape, das buzinas dos carros, (…) sem gritos ébrios ou insultos aguerridos ou rixas de vândalos (…) um bairro tóxico.”

Diz-se que a realidade supera sempre a ficção e a vida de Melchor, aqui descrita sobriamente por Cercas, é a prova disso. Um menino destinado a ser um Rei Mago, que disso só herdou o nome, Melchor, cresce desamparado e crente nos males da sociedade. Maltratado, mas também capaz de maltratar é encarcerado e aí descobre o seu caminho, converter-se pelo poder da literatura, através de sucessivas leituras de Os Miseráveis.

«Da sociedade não recebera senão males. Os homens só lhe tocaram para o maltratar. Qualquer contacto que com eles teve significou uma ferida (…) de sofrimento em sofrimento, chegou à convicção de que a vida é uma guerra e de que, nessa guerra, ele era o vencido. E, não tendo outras armas para além do ódio, resolveu aguça-lo no presídio e levá-lo consigo à saída.»

Guiado por excertos que toma como guias orientadoras da sua vida, Melchor, um Javert secretamente virtuoso, decide dedicar a sua vida a sarar o ódio que asfixiou a sua juventude. No entanto, o aconselhado exílio na «Terra Alta» não lhe trará o sossego prometido. Ou duradouro. 
Por lá ainda pairam os fantasmas da Guerra Civil e a metralha de uma batalha sangrenta que contrastam com a beleza imponente e silenciosa do local (e as horas de leitura na biblioteca) mas não só o passado se imiscui na vida de Melchor como um acontecimento brutal altera o compasso da localidade: um crime sangrento que brutaliza o ramo mais antigo da família Adell; que como uma árvore enorme a tudo faz sombra.

“No ar paira um cheiro intenso a sangue, a carne torturada e a suplício, e uma sensação estranha, como se aquelas quatro paredes tivessem preservado os uivos do calvário a que assistiram; ao mesmo tempo, Melchor Julga sentir no ar do aposento – e talvez seja isto que mais o perturba – um certo aroma de exultação ou de euforia, alguma coisa para a qual não encontra palavras mas que, caso as encontrasse, poderia definir como o rasto festivo de um carnaval macabro, de um ritual demente, de um sacrifício humano desfrutado.”

Um crime que parece fruto de um ódio frio e destruidor, mas não indiscriminado, coloca Melchor num estado obsessivo. Em apneia, pela persistência quase tóxica, desassossegando o percurso que tem vindo a construir com Olga (e com os livros).

“(…) retirarem-se sem opor resistência, como se se rendessem diante daquele suicídio colectivo ou como se estivessem tão fartos da guerra como os seus inimigos e já não tivessem disposição para continuar a matar.”

Cercas é exímio nas descrições, no cortar o friso cronológico e suspender cada acção outra, história atrás de história, sabendo com toda a mestria selecionar, cirurgicamente, que eventos nos revela, por vezes telegraficamente, noutras num tom poético, capaz de colocar o leitor no cenário, seja no mais macabro ou em perseguição ou entre os lençóis com o casal que descobriu o prazer de ler em voz alta um para o outro.

«Aconteceu-lhe tudo o que podia acontecer-lhe. Sentiu tudo, sofreu tudo, experimentou tudo, suportou tudo, perdeu tudo, chorou tudo. No entanto, é um erro acreditar que a sorte se esgota e que se toca o fundo de alguma situação, qualquer que seja. Aquele que sabe isso vê em qualquer escuridão.”

Nessa escuridão pulsam sentimentos que moldam decisões auto-destruidoras, denunciando que as feridas não fecham na totalidade. E pior, alimentando desejos profundos de vingança e justiça. Porém,
mas a que preço e com que legitimidade? É sobre isso que Cercas questiona e reflecte neste seu primeiro policial.

domingo, 17 de julho de 2022

«Talvez devesses falar com alguém» de Lori Gottlieb :: Opinião


«Talvez devesses falar com alguém» de Lori Gottlieb é viciante! É também atrevido e honesto e vai destapando alguns mitos, lugares-comuns e meias verdades sobre todos nós e a intervenção terapêutica. E a necessidade que todos temos dela. Porque temos! Embora mascaremos confissões e partilhas e ainda seja tabu falar de dificuldades emocionais e do quanto comprometemos a nossa saúde mental.

Sem quaisquer rodeios, a primeira parte abre assim: “Nada é mais desejável do que ser-se libertado de um padecimento, mas nada é mais assustador do que ser-se privado de uma muleta.” (James Baldwin). E, nas suas próprias palavras, acrescenta: “Um dos passos mais importantes na terapia é ajudar as pessoas a assumir a responsabilidade pelos seus problemas actuais, porque, assim que compreendem que podem (e devem) construir as suas vidas, ganham a liberdade para gerar mudança. Ou, como também rapidamente nos diz: “A terapia provoca reações estranhas, porque, de certa forma, é como a pornografia. Ambas envolvem alguma nudez. Ambas podem causar alguma excitação. E ambas têm milhões de utilizadores, a maioria dos quais não divulga essa utilização.”

Passando esta introdução de posicionamento, contextualização e revelação, o que Gottlieb pretende dizer é que precisamos reescrever a narrativa da nossa vida, romper com o discurso desencorajador e aceitar que muitas vezes necessitamos de acompanhamento na dor e a terapia é um espaço seguro para essa partilha, compaixão (e auto-compaixão) e construção do futuro.

“Quando o presente se desmorona, o mesmo acontece com o futuro que lhe tínhamos associado. E ficarmos de repente sem futuro é a maior de todas as reviravoltas. Mas se passarmos o presente a tentar consertar o passado ou controlar o futuro, permaneceremos presos no mesmo lugar, perpetuamente desgostosos.”

Se algumas considerações nos parecem óbvias e rebatidas, é porque são, mas estão lá para nos relembrar disso mesmo: se são tão óbvias por que nos esquecemos tanto delas e de as pôr em prática?

Juntamente com essas chamadas de atenção, Gottlieb entra habilmente em explicações de foro psicológico que ajudam a atender o porquê de diversas situações, escolhas ou até mesmo da inércia, ajudando num auto-diagnóstico. Sem esquecer as emoções e os sentimentos que precisamos tratar com mais cuidado.

“Ocorre-me um pensamento que tenho muitas vezes quando vejo os meus pacientes autoflagelarem-se: Neste momento, você não é a melhor pessoa para falar consigo acerca de si mesmo. Há uma diferença, explico-lhes, entre culparem-se e assumirem a responsabilidade, o que é o corolário de algo dito por Jack Kornfield: «Uma qualidade que advém da maturidade de espírito é a gentileza. É baseada no conceito fundamental de autoaceitação.» Na terapia, damos preferência à autocompaixão (serei humano?) em detrimento da autoestima (um julgamento: serei bom ou mau?).”

Pode parecer o mesmo, mas Lori explica que não. A verdade e a aceitação vêm pouco a pouco da verbalização e afirma-se com a importância de ouvir-se a si mesmo, da responsabilização com a realidade e a gestão de expectativas. E toda a vulnerabilidade que é precisa no processo. 
Não é um processo fácil, mas desmistifica-lo é um dos objectivos deste livro, sempre com humor e honestidade:

“Podemos ajudar os pacientes a encontrarem a paz, mas talvez um tipo de paz diferente daquele que pensavam encontrar quando começaram o tratamento. Segundo a famosa frase do falecido psicoterapeuta John Weakland, «Antes de uma terapia bem-sucedida, são sempre os mesmos problemas. Depois de uma terapia bem-sucedida, é um problema a seguir ao outro.”

Mas não esmoreça. 
E lembre-se: «Se a rainha tivesse tomates, seria o rei.”