segunda-feira, 18 de junho de 2018

Opinião "Chama-me pelo teu nome"

 Embora não seja costume ler o livro depois de ver a sua adaptação, não resisti em comprar este romance de André Aciman e de voltar aos idílicos meses de verão sob o sol italiano, tão repletos de paixão, mal entendidos, medos e experiências marcantes. Queria confirmar se o primeiro pensamento que tive, que esta história era uma coisa linda e livre de julgamento, se mantinha com a leitura.


Elio é um miúdo com 17 anos no corpo mas muitos mais na alma. A educação e a liberdade que os pais lhe deram fazem-no viver com a complexa tarefa de pensar e sentir como alguém mais velho mas não é por isso que deixa de ter coisas da sua idade.
Quando o mais recente visitante de verão chega para passar 6 semanas, Élio oscila entre a necessidade de agradar e a demonstração casual de indiferenca que por vezes lhe é característica mas que também esconde algo mais.
Oliver, nos seus plenos vinte quatro aproveita a oportunidade para trabalhar no seu livro enquanto ajuda o pai de Élio, isto tudo numa estadia que eu dava um dedo do pé para poder usufruir.

E o que começou com uma secreta atração unilateral transforma-se em algo profundo, capaz de derrubar as barreiras que eles próprios ergueram entre ambos, capaz de os fazer sair da sua própria pele.
Uma história de amor, desejo, culpa, dúvida e intimidade. Uma que me deu um gozo enorme conhecer e que me deixou rendida à beleza que os olhos de Élio captam naquelas semanas. Beleza essa que não se perde nem nas cenas mais in your face

E aquelas últimas 30 páginas mexeram comigo, tanto como quando vi o filme.
Não vos quero roubar a beleza pura de uma conversa em específico mas quando chegarem lá vão perceber. Ou talvez seja preciso ter passado pela nossa cota parte de amores, desamores, dúvidas e julgamentos para ver nesta história a beleza que lhe é inerente.
A verdade é que demoramos tanto tempo a perceber quem somos e vivemos tanta coisa em vidas paralelas à que levamos diante da grande maioria das pessoas que nos rodeia que é bom saber que há quem consiga, sem falácia ou moralidade, apoiar-nos no bom e no mau, no certo e no incerto.
Termino com um sorriso, uma lágrima e esta frase:

"Arrancamos tantos de nós próprios só para nos curarmos das coisas, mais depressa do que deveríamos, que entramos em falência por volta dos trinta anos e temos menos para oferecer de cada vez que começamos com alguém novo"

"Chama-me pelo teu nome" é um dos meus livros preferidos e chega a Portugal pela mão do Clube do Autor

quinta-feira, 14 de junho de 2018

Opinião "Os Altos e Baixos do meu Coração"


Molly apaixonou-se 27 vezes e em quase 100% dos casos, o alvo do seu afecto nem sequer sabia que ela gostava dele, como é que ela se chamava ou sequer que ela existia!
Quem nunca teve uma paixão secreta que mande a primeira pedra.
Molly simplesmente temia o mesmo que todos nós, seja qual for a nossa idade...
SER REJEITADA e ter de lidar com isso.
A adolescência é por si só uma época de altos e baixos mas o que fazer quando é o nosso coração que parece ter entrado numa montanha russa?

Molly manteve essas paixões secretas ao longo dos seus 17 anos mas o seu grupo de amigas, composto por Cassie, Olivia e a Abby, estiveram sempre a par de tudo e insistem que eventualmente ela precisa de arranjar um namorado, ou pelo menos, de beijar alguém.
Abby, a sua prima, mudou de cidade e agora namora Nick. Já os conhecemos no livro do Simon e são uns queridos. Não leram? Vão ler! E depois ver o filme!
Para Cassie, a sua irmã gémea, apaixonar-se é tão simples como respirar. Confortável na sua pele e na preferência por raparigas, Cassie leva a vida a um ritmo diferente da irmã cujo excesso de peso e falta de confiança em si mesma a fazem retrair e a impossibilitam de ver até que ponto a exposição lhe pode trazer frutos.

Pela mesma altura em que Cassie conhece a sua nova namorada, Mina, e se perde na fase de lua de mel de uma nova relação, Molly segue meia desamparada pelos eventos que se sucedem, especialmente quando na sua vida, até então cheia de coisas platónicas, aparecem dois potenciais candidatos a fazer florescer no seu coração algo mais que um "crush" passageiro.
Quem nunca se viu com um pretendente, o que faz quando de um momento para o outro percebe que tem dois?
Será que ela vai escolher bem? 
Por quem vamos nós torcer?

"Estou deitada ao lado do Will.
E do Reid.
Acho que o meu coração não quer ficar no meu peito"

A autora consegue dar-nos uma história que nos faz sorrir pela sua doçura e actualidade. Pegando em algo que trago da história do Simon só posso dizer:
"Todos merecemos uma grande história de amor"
E é exactamente isso que pensei enquanto lia a história de Molly. Não é o peso, a altura, a origem, a história familiar, o nariz torto, a preferência sexual ou a nossa geekness que nos rotulam de incapazes de amar e ser amado, somos nós próprios que nos deixamos etiquetar e que colocamos rótulos em nós próprios, que não são nada mais, nada menos que limites à nossa capacidade de sermos nós mesmos, livres e felizes.

Espero que gostem deste livro de Becky Albertalli. Eu gostei mais de ler a história do Simon mas gostos são gostos.
"Os Altos e Baixos do meu Coração" é uma aposta

sexta-feira, 8 de junho de 2018

«Submissão» de Michel Houellebecq - Opinião

Wook.pt - Submissão

Paris, 2022, François, professor universitário:  "Gostava de apanhar o metro pouco depois das sete da manhã, de ter a ilusão de pertencer à «França madrugadora», a França dos operários e dos artesãos, mas devia ser praticamente o único a gostar disso, porque dava a aula das oito horas a uma sala quase deserta, à excepção de um grupo compacto de chinesas, todas de gélida seriedade..."

Seriedade é palavra dúbia e carregada de metáforas nos livros de Houellebecq. Quem leu mais do que um livro do autor percebe que cada linha que ele tece, é preenchida com mais do que um duplo sentido. E todo este livro é uma critica constante à sociedade (desatenta, amorfa e despolitizada), mas, e sublinhe-se o mas, em certas alturas parece uma ode a atitudes racistas e misógenas. Por isso, a forma como o livro descreve o crescendo da extrema-direita ou a forma como a Fraternidade Muçulmana conquista terreno no cenário político francês, parece de leve aceitação por parte do professor. 

"- Sim, teoricamente és machista, sem dúvida. Mas tens gostos refinados: Mallarmé, Huysmans, e isso afasta-te definitivamente do simples machista. Além disso, tens uma sensibilidade anormal para escolher tecidos para a casa. Em contrapartida, veste-te sempre como um labrego. Enquanto personagem macho grunge, até podias ter uma certa credibilidade; mas não gostas de ZZ Top, sempre preferiste Nich Drake. Em resumo, és uma personalidade paradoxal."

São diversas as vezes que a sociedade ocidental é resumida a uma massa desatenta, amorfa e despolitizada, muito crente na sua liberdade, mas sem mais preocupações, contrastando com o resto do mundo: "- O que acontece - prosseguiu ele . é que a maior parte das pessoas vive a sua vida sem se preocupar com estas questões, que lhe parecem exageradamente filosóficas (...). Quer dizer, é assim no Ocidente; porque por toda a parte no resto do mundo é em nome destas questões que os seres humanos morrem e se matam (...)."

"(...) convencido muito cedo de que, na maior parte das vezes, a transmissão do saber era impossível, que era extrema a diversidade das inteligências, e que nada poderia suprimir ou sequer atenuar essa desigualdade fundamental."

Essa desigualdade fundamental é um raciocínio pouco abonatório para a personagem. No entanto, cedo percebe onde o autor quer chegar. A submissão está iminente e, à semelhança do tão estudado Huysmans, encarará certas mudanças como uma recusa, até desejada, e própria do tédio burguês:
"(...) o fardo da existência individual desapareceria." Seria apenas necessário garantir a existência do prazer, mas a fé islâmica até isso lhe proporcionava.
Mas será a poligamia suficiente para a sociedade ocidental aceitar a expansão muçulmana e a sua consequente submissão?

Chega a parecer que sim, pois as restantes equações ele resolve-as todas. A retirada da mulher do mercado de trabalho, o entorpecimento dos media, a educação controlada e subsidiada pelos desígnios da fé, o petróleo como patrocinador máximo da economia e a integração de grandes demografias (Turquia e Egipto) para a Europa... 

A decomposição repugnante da Europa Ocidental era a justificação máxima para se abraçar a submissão ao islão, religião irmã, mais recente, mais simples, mais autêntica.


«Submissão» é um livro fácil de ler, mas julgo estar repleto de camadas e interpretações, onde as opiniões do personagens se confundem com a realidade actual e é isso, que em parte, o chega a tornar assustador.

segunda-feira, 28 de maio de 2018

Opinião "Quando tu voltaste"

"Oohh que querido!" foi o meu primeiro pensamento ao terminar a leitura.
Se achei cliché o primeiro amor que volta para plantar dúvidas numa fase decisiva da vida de alguém, é com ternura que mudo de opinião ao conhecer a história de Lizzie e Alex.
Quem nunca encarou com nostalgia o seu primeiro amor? Quem não tem no seu passado aquilo a que chamamos a "pedra no sapato"?


Lizzie está a meses de se casar. Josh é um querido e embora os preparativos estejam a consumir mais tempo e fundos do que esperava, Lizzie está entusiasmadíssima para que chegue o dia. Mas embora o caminho a percorrer não seja longo, o que ela não contava era tropeçar num obstáculo do passado.
Alex Jackson foi o seu primeiro amor, o namorado com quem trocou juras de amor eternas mas que um dia lhe partiu o coração.
Depois de uma década sem qualquer contacto, porque é que Alex tinha de aparecer na sua vida? E logo agora? Porquê?
Será que foi a eminência do casamento ou algo mais?

Em countdown para o grande dia vamos revisitando o passado. Recuamos aos anos em que, ainda na faculdade, Alex e Lizzie se conheceram e criaram uma relação sólida e com pernas para andar.
O que poderá ter acontecido? O que fez Alex partir? E porque raio demorou uma década para reaparecer?
Até se podem pôr a adivinhar, como eu fiz, mas só a leitura vos vai dar a resposta.

Pensem...existem forças incontroláveis que são catastróficas para a vida de cada um de nós e quando confrontados com o rumo que levamos temos de saber quando deixar de lutar ou remar com todas as forças contra a corrente

E ao longo deste livro andei a cantarolar esta música :)
Tia Adele com um cover dos The Cure



Uma leitura com o apoio

sexta-feira, 25 de maio de 2018

«Aqui estou» de Jonatham Safran Foer :: Opinião


Aqui estou! Estou aqui! 
As mesmas duas palavras. Sentidos tão opostos.
Aqui estou, aceita, sacrifica. 
Estou aqui, afirma-se, destaca-se.

O novo romance de Foer, após onze anos de interregno, acerta em cheio no leitor e pede-lhe que se renda. Que aceite as atitudes, os sentimentos, as emoções, as decisões e as peripécias da família Bloch face a todas as necessidades da vida familiar, por vezes irreconciliáveis com as exigências do mundo actual.

"A parte de dentro da vida tornou-se muito mais pequena do que a de fora, o que criou uma cavidade, um vazio. Por isso o bar mitzvá parecia tão importante: era o último fio de um laço prestes a romper-se. (...)
O rabi entrelaçou os dedos, mesmo como um rabi.
- Há um provérbio hassídico que diz: «Quando corremos atrás da felicidade, fugimos da satisfação.»"

Talvez a família Bloch corresse atrás do barulho do tempo. Daquele zumbido de fundo, banda sonora de uma grande parte da vida em que ainda: pai, mãe e filhos convivem em puro ambiente de partilha.
Julia, Jacob, Sam, Max, Benjy e Argus, o cão; compõem uma família prestes a atingir duas décadas de história, mas a história deles tem ligações mais ancestrais, o judaísmo e a luta em Israel são personagens maiores que determinam tradição, conceito de família e noção de lar. E é essa vida de fora que tanto povoa a de dentro, que criou um fosso entre todos eles e os demais familiares que os rodeiam. Talvez se brinque às aparências, cumprindo rituais e forçando ligações e assim se vá jogando com sentimentos, numa constante ocultação do ressentimento e das necessidades tão próprias de cada um.

"Tudo era outra coisa sublimada: a proximidade doméstica tornara-se distância íntima, a distância íntima tornara-se vergonha, a vergonha tornara-se resignação, o ressentimento tornara-se auto-defesa. Julia pensara várias vezes que, se ao menos conseguissem seguir o fio até à origem da ocultação, poderiam chegar a encontrar a abertura."

Encontrar a abertura dar-lhe-à abertura para superar o que os separa? Serão os danos, entre familiares, recuperáveis com o passar dos anos? Ou apenas se aprende a esconder melhor o que nos incomoda? E por quanto tempo se aguenta esse esconde-esconde? E os outros, notarão?

Foer diz-nos que sim. Os filhos reparam, a família desconfia e os casais sabem que algo não está bem, mas avançam. «T-B-I-S-T-O-P-A-S-A-R-A-» é o nome de um dos capítulos deste romance, em jeito de prenúncio ou de aviso. Existem várias formas se superação, talvez só seja preciso encontrar o tempo certo para cada um.

"Tentava não repara nas vidas deles, mas era impossível ignorar a quantidade de vezes que o pai adormecia a ver a ausência de notícias, como a mãe se retirava para ir podar as árvores dos modelos arquitectónicos, como o pai agora se servia de sobremesa todas as noites, como a mãe dizia ao Argus que «precisava de espaço» quando ele a lambia, como o pai mudara a palavra-passe do iPad, (...) o fim do contacto visual."

É nessa ausência de contacto visual que deixamos de ver o outro e também de olhar para nós mesmos. Jacob e Julia são personagens interessantes, com complexos e medos transversais a todos nós. Ela com a necessidade de obter nos filhos um escudo, uma desculpa que a tudo dá justificação. Ele com a necessidade de ter e dar atenção, criou laços diferentes, mais flexíveis, mas nem por isso mais íntimos. Ambos se chocam e sentem ciúmes, girando em torno de dois grandes temas: os filhos e o facto de serem judeus, talvez para camuflar o desconforto da vida íntima.

"Ficou à porta até ouvir Benjy respirar fundo. Jacob era um homem que recusava o conforto, mas permanecia à porta quando outros teriam partido há muito. Ficava sempre à porta de casa até muito depois de o carro que levava os miúdos à escola ter partido. tal como ficava à janela até a roda traseira da bicicleta de Sam desaparecer na esquina. Tal como ficava a ver-se a si mesmo desaparecer."

"As armas enterradas na terra de Jacob e Julia não eram tão inofensivas como isso (...)
Os rituais domésticos estavam suficientemente enraizados para lhes permitir evitarem-se de forma fácil e discreta. (...) Ela dava o pequeno-almoço aos miúdos, ele tomava duche (...), ela levava os miúdos até ao carro e ia até à rua Newark para ver se vinham carros a descer o monte, ele fazia marcha-atrás."

Duas décadas de feridas demasiado rombas para matar, mas suficientes para equacionar a inautenticidade da vida e representar o espectáculo do divórcio. Nas entrelinhas resta-lhes compreender o barulho do tempo de cada um. 

"Demorou algum tempo (...) a perceber do que é que ele estava a falar. O frigorífico estava a ser arranjado, por isso faltava, na cozinha, aquele zumbido omnipresente e quase imperceptível. (...) Esse era o barulho do tempo dele.
O meu pai ouvia ataques.
Julia ouvia as vozes dos miúdos.
Eu ouvia silêncios.
Sam ouvia traições e o som de produtos da Aplle a ligar.
Max ouvia os ganidos de Argus.
Benjy era o único suficientemente jovem para ouvir a casa."

Encarar diferenças, limitações, profundidade das atitudes, necessidade de diversão, de espaço, de conforto ou de um abraço pode diminuir o desgaste próprio da vida e equilibrar melhor a rotina dos dias. «Aqui estou» tem alusões à Bíblia e à Tora, fala do luta dos Judeus, chama à atenção para a guerra eterna em Israel, satiriza e discute a causa, mas acima de tudo é um livro sobre o íntimo de cada um e a compaixão necessária para que a resignação não supere a vida.



quarta-feira, 23 de maio de 2018

«Ala feminina» de Vanessa Ribeiro Rodrigues :: Opinião


Estou fã dos livros das Edições Desassossego!

Este destacou-se mais pelo cariz feminino e os casos de vida. Em tempos tive ideia de fazer voluntariado para a alfabetização nas prisões, mas a idade foi um factor determinante e isso não aconteceu, mas fiquei sempre atenta. Como a série portuguesa «Dentro», no entanto há muito que não lia nada sobre o tema. Aconteceu agora e foi uma boa leitura, a deste trabalho de intervenção e sensibilização da jornalista Vanessa Rodrigues para reflectirmos sobre a condição humana e a fronteira estabelecida pelas prisões. Esta peça quebrara parte da fronteira entre nós (fora) e os outros (dentro).

"O testemunho é seco, curto, frontal, dissecado. Não pestaneja, como se tivesse repetido esta ladainha tantas vezes que parece que já sai desta forma automática, sem rodeios. E Catarina fala lacónica, sem desenvolver a história. Para ela, aquela não é a sua história. Economiza as palavras, como se desconhecesse a própria narrativa. Ou a quisesse esquecer."

Os testemunhos são realmente secos ou parcos em detalhes, as narrativas espelham a "vida descontinuada" e interrompida, efeito talvez menos nefasto do encarceramento. A falta de esperança, a solidão, o desapego, a ausência de perspectivas e a dificuldade de retornar à vida activa, serão efeitos bem mais nefastos nas vidas destas mulheres presas. A resistência que a vida da prisão lhes pede e algumas oportunidades que existem lá dentro, serão outra sentença, uma mais catártica, que se espera que dê frutos e as endurece para uma outra vida que não aquela que as levou até ali. Algumas mais do que uma vez. 

"Às vezes ouve-se um berro. É Rose de novo. Rose presente nesta história, impondo-se sem querer participar. Tem voz grave. Só o som está autorizado a sair a sair destes muros. Há árvores com raízes de fora, a querer sair da terra. Vejo um prédio praticamente sem pintura (...) As paredes terão sido brancas? Amarelo-claro? Beges? Já mal se percebe a qual pantone de tinta pertence aquela parede. O pantone da erosão."

A erosão maior lá dentro, talvez seja a da solidão, corroendo-lhes os sentimentos e as relações. Os filhos são as maiores preocupações; os que nascem lá dentro ou aqueles que ficam cá fora. Em ambos os casos são igualmente privados pelo encarceramento das mães. 

"Os filhos podem ser verbos na vida de homens e mulheres porque são sempre o futuro. Porque a vida ali dentro deixa um rasto de saudade permanente, nunca mitigado pelas visitas, tudo é sempre pouco."

Mesmo nesse pouco, dado pelas visitas ou conseguido pelo trabalho dentro da prisão, estas mulheres tentam levar a sua vida de acordo com a sua pena. Algumas têm recaídas. A droga é uma das maiores causadoras. Mas a família, a sociedade, o trabalho, as dificuldades ou o desejo de facilidades também se relacionam com os desvios que as levam a este caminho a que é preciso dar voz, conforme Vanessa Rodrigues afirma diversas vezes. 

Algo que ganha uma voz maior que todas, é o tempo. O tempo na cadeia parece ser medido de outra forma, é o que relatam as mulheres deste livro. A reclusão aguça a forma como se sente a passagem do tempo. Essa é outra coisa à qual a jornalista quer dar voz. Há a urgência de se ocupar!

"Lina está há dois anos e meio em Tires. A maioria das reclusas prefere cumprir pena a trabalhar, por causa dessa unidade universal quasi-invisível, a grandeza física que se mede com base na duração de fenómenos periódicos: o tempo. (...) é reflectir sobre o tempo, a cadência dele e a forma como ele fala connosco. (...) trabalhar é uma espécie de ilusionismo para o real (...) E, com o corpo cansado a saudade espanta."

Ao longo destas mais de 250 páginas somos confrontadas com testemunhos que denunciam um nó que se reflecte nos olhos. Nós que o cérebro tenta deslindar nessa solidão e nesse tempo que será sempre demasiado mesmo quando ocupado. É esse o ensinamento maior. Isso e uma frase de Eduardo Galeano que a autora cita:
«Assobia o vento dentro de mim. Estou despido. Dono de nada, dono de ninguém, nem mesmo dono de minhas certezas, sou minha cara contra o vento, a contravento, e sou o vento que bate em minha cara.» 


Uma edição da
Resultado de imagem para Edições Desassossego logo


terça-feira, 22 de maio de 2018

«A cidade e as serras» de Eça de Queiroz - Opinião

As cidades e as serras que visitei, nos inícios de Maio, tiveram todo um outro encanto, quando acompanhadas pelas palavras de Eça de Queiroz.


"Com que brilho e inspiração copiosa a compusera o divino Artista que faz as serras, e que tanto as cuidou, e tão ricamente as dotou, neste seu Portugal bem-amado! A grandeza igualava a graça. Para os vales, poderosamente cavados, desviam bandos de arvoredos, tão copados e redondos, de um verde tão moço, que eram musgo macio onde apetecia cair e rolar. Dos pendores, sobranceiros ao carreiro fragoso, largas ramarias estendiam o seu toldo amável, a que o esvoaçar leve dos pássaros sacudia a fragrância. Através de muros seculares, que sustêm as terras liados pelas heras, rompiam grossas raízes coleantes a que mais hera se enroscava."

Esvoaçava pouco, Jacinto, liado nos afazeres citadinos e nos demais inventos da época, que todos chegavam e inundavam Paris. Entediado e aprisionado, Jacinto não encontrava civilização que lhe trouxesse alegrias de viver; nem as festas ou mulheres, nem modas ou inventos, nem sequer a agenda cheia, tudo o cansa e enfada. Até a vasta biblioteca.

"Com os morangos novos, apareceu um instrumentozinho astuto, para lhes arrancar os pés, delicadamente. Depois recebemos outros, prodigioso, de prata e cristal, para remexer freneticamente as saladas; e, na primeira vez que o experimentei, todo o vinagre esparrinhou sobre os olhos do meu Príncipe, que fugiu aos uivos! Mas ele teimava... Nos actos mais elementares, para aliviar ou apressar o esforço, se socorria Jacinto da dinâmica. E agora era por intervenção de uma máquina que abotoava as ceroulas."

Zé Fernandes, o amigo vindo das serras, testemunha a passagem do tempo pelo seu Príncipe, Jacinto, e o lento enfado com a Paris que lhe engole o apetite pela vida. É ele que narra e nos mostra a transformação de Jacinto em Jacinto de Tormes, um citadino convertido aos prazeres das serras, abraçando com ânsia a Natureza, absorvendo dela energia e vitalidade como há muito não sentia. 

"Jacinto já não corcovava. Sobre a sua arrefecida palidez de supercivilizado, o ar montesino, ou a vida mais verdadeira, espalhara um rubor trigueiro e quente de sangue renovado que o virilizava soberbamente. Dos olhos, que na cidade andavam sempre tão crepusculares e desviados do Mundo, saltava agora um brilho de meio-dia, resoluto e largo, contente em se embeber na beleza das coisas. Até o bigode se lhe encrespara. E já não deslizava a mão desencantada sobre a face - mas batia com ela triunfalmente na coxa. Que sei? Era um Jacinto novíssimo. E quase me assustava (...).
E ali estava...
- Para todo o Verão?
- Não! Mas um mês... Dois meses! Enquanto houver chouriços, e a água da fonte, bebida pela telha ou numa folha de couve, me souber tão divinamente!"


«A cidade e as serras» de Eça de Queiroz é a última obra do autor e marca uma viragem na sua escrita, já que muitos estudiosos da obra queirosiana apontam Jacinto de Tormes como um reflexo do próprio Eça e das suas crenças e transformações.


Foto: Miradouro das Portas de Ródão
Cris Rodrigues, Maio'18