quarta-feira, 8 de abril de 2020

«Bowie, uma biografia» de María Hesse :: Opinião



Every time I thought I'd got it made
It seemed the taste was not so sweet

Com um verso de «Changes» de 1971 podemos, talvez, traçar uma linha que acompanhou todo o universo visionário que sempre acompanhou Bowie. Por isso, e usando esse mesmo traço que divide de forma muito ténue realidade e ficção, María Hesse e Fran Ruiz desenharam e narraram uma biografia que espicaça o leitor fã, colocando-o a voar por entre décadas de boa música, influências e tendências sociais que se infiltraram sempre nas composições e performances do artista. 

"Por isso, e porque estamos conscientes de que uma biografia é, inevitavelmente, uma obra de ficção, decidimos misturar passagens da vida real de Bowie com elementos fantásticos. (...)
Apresentar as coisas apenas sob um único prisma por muito honesto que este tente ser, pode revelar-se mais enganador do que uma visão fragmentada e ambígua."


As I ask you to focus on

Sailors fighting in the dance hall

Oh man, look at those cavemen go

It's the freakiest show

Bowie é um mundo e é difícil resumi-lo em algumas linhas, as músicas e as ilustrações só ajudam a navegarmos cada vez mais longe.

Ainda criança e com o pai que lhe mostrou a música como uma nave na qual podia viajar sempre que quisesse, Bowie começou a perder-se por entre sonoridades que já o começavam a delinear como o músico que viria a ser, no entanto, a convivência o irmão a sofrer de doença mental e numa cidade onde ainda se brincava entre escombros, desde logo quis fugir ao tédio e ao cinzentismo do quotidiano.


A entrada no mundo artístico e nos palcos teve influências variadas fruto das novidades que foram os anos 60 e 70, com ressonâncias tão diversas como Muddy Waters, Little Richard, Velvet Underground ou Leonard Cohen. 

Se o álbum «Space Odity» revela ao mundo o ser alienígena que procura revelações nos círculos mais eléctricos da ficção científica, as influências do budismo ou a voz de Cohen, pedem-lhe outras variações. Mas nada foi tão forte no início da sua discografia do que o amor versus o tédio do casamento e da fidelidade, junto com o lado esquizofrénico do seu irmão que por extensão o afectavam e o faziam questionar tudo e toda a "contaminação social e política" fruto dos tempos revoltosos e conturbados da época de 70.
As mudanças em direcção ao universo de Ziggy Stardust e o álbum «Hunky Dory» marcado pelo nascimento do primeiro filho, marcam de certeza a primeira década discográfica de Bowie, fechando-a com a "trilogia berlinense", onde o tom experimental, a cidade fragmentada, as margens da sociedade e a alucinação das drogas (e a amizade com Iggy Pop) estiveram presentes até «Ashes to Ashes», uma declaração de intenções para fechar um ciclo e entrar na década de 80 como numa nova era.


"They'll split you're pretty cranium and fill it full of air."

A entrada nos anos 80 foi marcada pelo divórcio, pelo reatar da relação com o filho e pela mítica e eterna "Let's Dance", no entanto e apesar de ter sido um êxito milionário, Bowie viu-se a ser criticado pelo lado mais pop comercial. Mas Bowie considerou-a uma plumagem diferente e tão necessária à constante transfiguração do artista. O início nos anos 80 também fica marcado pela parceria e amizade com Frddy Mercury e o hit «Under Pressure", que por disparidades contratuais com a editora RCA da qual Bowie se queria desatar, ficara para os Queen.

Estar na linha da frente da industria pop valeu-lhe criticas e o constante foçar na sua vida pessoal, no entanto isso não se atravessou no caminho criativo que nos valeu, a nós ouvintes e fãs, a eterna e maravilhosa "Absolute Beginners". Os anos 80 são também marcados pela tour «Glass Spider», uma monstruosa performance que de tão grandiosa se tornou exigente para o artista e os músicos que o acompanhavam, revelando o tédio e a solidão associada à fama, especialmente a pós a morte do irmão Terry ter morrida e a sua ausência no funeral ter despertado uma onde de indignação e críticas. 

A década de 90 arranca e fica marcada pelo casamento com Iman Mohamed Abdulmajid, a mulher que viria a acalmar "o alienígena isolado num planeta onde nunca se tinha encaixado", fase essa também marcada pela introspecção sobre a sua forma de criar e se: "Quanto da minha arte não passará de uma tentativa de entender a doença do meu irmão?" 



Antes do virar do século Bowie dedica-se também à pintura, ganhando algum destaque em 1995 aquando a sua primeira exposição individual. Este fim de século é marcado por outro facto muito importante, recupera direitos dos seus primeiros discos e dessa forma do seu antigo agente Tony Defries. Há ainda, todo um novo universo cheio de possibilidades e ofertas para explorar: a Internet!

Nos anos 2000 a sua discografia é marcada pela reflexão social, política, filosófica e pelo 11 de Setembro, num misto de plenitude que tem na  sua vida conjugal com Iman e a filha Zahara, no entanto, a doença cardíaca marca um fim antecipado em 2003 naquela que seria a sua última tournée. 
Em 2013 e após um silêncio complemente inusual para Bowie, espanta todos com o lançamento de «The next day» centrado nas suas inquietações, mas faltava ainda o disco da plenitude e de despedido: «Blackstar» 

We live closer to the earth
Never to the heavens
The stars are never far away
Stars are out tonight


Em suma, este livro só faz uma coisa: abrir ainda mais a curiosidade e a admiração por este homem alien camaleão único eterno e sempre, mas sempre "an absolute beginner"

*

 Fica uma possibilidade de playlist

domingo, 5 de abril de 2020

"O Meu Mapa de Ti"

Diz a letra de uma música que "A House is a not Home" porque quem faz um lar são as pessoas que o compõem, aqueles que nos preenchem os dias, aqueles que nos amam e por quem vivemos. Sim, nós também somos parte integrante do nosso próprio lar mas infelizmente há momentos na nossa vida em que essa noção sofre alterações, se perde ou se desvanece até não restar nada que faça sentido.

Para Holly Wright o seu lar era apenas uma casa alugada em Londres, onde vivia desde o momento em que se viu sozinha no mundo. Ao contrário da sinopse apresentada na contracapa do livro editado em Portugal pela Editorial Planeta, eu acho que a da versão em inglês me cativou muito mais para a leitura.


"Holly Wright teve alguns anos difíceis. Após a morte da mãe, Holly tornou-se numa especialista em manter as pessoas à distância - incluindo o seu namorado, Rupert. Mas quando Holly recebe uma carta inesperada que a informa que uma tia, que ela nunca conheceu, lhe deixou uma casa na ilha grega de Zakynthos, os muros que ela construiu começaram a desmoronar. Ao chegar à ilha, Holly conhece Aidan e lentamente começa a descobrir a verdade sobre o segredo que destruiu sua família. Será a ilha o lugar onde Holly realmente pertence? Ou será que a vida real lhe vai passar a perna?"
(tradução feita pela Elsa) :P

Sem revelar mais "spoilers" sobre a história acho que é preciso aquela informação relevante sobre o passado de Holly para compreender a sua vida em Londres, a sua relação com o Rupert e a reacção ao facto de ter herdado uma casa numa ilha grega com ar de paraíso (sim, vão googlar Zakhintos)
O primeiro pensamento de qualquer pessoa seria "OH MEU DEUS, OBRIGADA!" mesmo que no cantinho da vossa mente estivesse um "quem raio é esta tia e porque me deixa uma casa se nunca me viu".

Para Holly foi mais uma pedra a cair na superfície aparentemente estável do lago que se tornou a sua vida, pronta para criar ondas desnecessárias e trazer ao de cima o que quer que estivesse escondido no fundo.
A sua incapacidade de ser verdadeira consigo mesma e com o seu passado, acompanham-na naquela que poderia ser só uma viagem de férias à Grécia mas que se torna num enorme deja-vu e o principio de algo mais.
Podia dizer que "O meu mapa de ti" é um romance leve, daqueles que gostamos de ler estendidas ao sol num dia de verão mas a viagem de auto-descoberta de Holly, a exploração geografia e temporal dos segredos da família e o impacto que o passado e presente têm na personagem principal, são bem capazes de mexer convosco, assim como mexeram comigo. Acho que tenho andado demasiado afastada dos livros e das vidas dos personagens :P
  
Faz imenso tempo que não me sento para escrever uma opinião a um livro. Mais do que meses, talvez já tenha passado um ano.
As justificações são tantas que não saberia por onde começar e encontro na história de Holly uma semelhança. Existem paixões, passatempos ou talentos que temos que são um tremendo conforto e algo que gostamos imenso de fazer mas sem saber bem porquê, deixamo-los esquecidos numa mala debaixo da cama ou numa prateleira a ganhar pó.
E assim como Holly, também eu tenho de voltar a meter as mãos ao trabalho, não a escrever emails profissionais mas para deixar os meus dedos teclarem furiosamente enquanto o meu cérebro lhes envia sinais, por vezes a um ritmo avassalador, sem parar para pensar, em visão em túnel para não me distrair e assim deixar que tudo o que me vêm à cabeça passe efectivamente "para o papel".

"O meu mapa de ti" veio tirar-me do marasmo de leitura e embora ainda não esteja ao nível de entusiasmo, interesse e velocidade habituais, já me sinto muito mais a leitora que sempre consumiu linhas escritas em livros e despejou outras tantas em opiniões escritas quase imediatamente após fechar o livro e sorrir para a contracapa.

Os livros foram e serão sempre um bálsamo. E se este me fez parar e olhar para o tempo de chuva lá fora enquanto lia sobre o céu azul de Zakhintos e as suas maravilhosas vistas, é a sensação de liberdade de agarrar na mochila e meter-me no próximo voo para as ilhas gregas que mais me doí cá dentro nestes momentos incertos e enclausurados que vivemos neste momento. 
Que a realidade de acordar com vontade de viajar e não descansar enquanto não marco um bilhete de avião esteja a pouco tempo de distância, que a normalidade que tanto demos por garantida nos possa ser restituída em breve e que este tempo de isolamento, controlo e incerteza nos torne mais agradecidos, solidários e a conscientes.

E até lá, deixo-vos embalados com a Ella 


"O meu mapa até ti" é uma aposta


terça-feira, 17 de março de 2020

«A história de uma serva» de Margaret Atwood :: Novela gráfica - Opinião



"Vendo que não dava à luz filhos a Jacob, Raquel começou a ter inveja da irmã e disse a Jacob: «Dá-me filhos ou, então, morro!»

E Jacob irritou-se com Raquel e disse-lhe: «Julgas-me capaz de substituir Deus, que te recusou a fecundidade?»

Ela respondeu: «Aqui tens a minha serva Bila; vai ter com ela. Que ela dê à luz sobre os meus joelhos; assim, por ela, eu também terei filhos.»"  
                                                                                                                                       Génesis, 30:1-3

Esta passagem da Bíblia é um dos pilares fundadores da sociedade de Gileade, uma estrutura ditatorial, apoiada no fanatismo religioso e numa segregação sufocante e violenta para as mulheres. Atwood idealizou e montou o romance «A história de uma serva», um relato igualmente sufocante e que lemos com nó na garganta. 

"Se o que estou a contar é uma história, então tenho controlo sobre o final. Haverá então um final para a história, ao que se seguirá a vida a sério. Posso recomeçar onde fiquei.
O que eu estou a contar não é uma história. (...)
Contar, em vez de escrever, porque não tenho nada com que escrever e, em todo o caso, escrever é proibido. Mas se é uma história, mesmo na minha cabeça, devo estar a contá-la a alguém. Há sempre mais alguém. (...) Querido Tu, diria eu. Apenas tu, sem um nome. Juntar um nome, junta-te ao mundo dos factos, que é mais arriscado (...) Tu pode até ser mais de uma pessoa.
Tu podem ser milhares."


Ler o romance escrito por Atwood e agora poder ver esta interpretação gráfica por Renée Nault permite dar outra dimensão às palavras já intensas da autora; as imagens captam muito bem a rigidez, a apreensão, o sufoco, a ameaça, o medo, mas também a vontade de fuga e resistência, a necessidade do toque, a constante denúncia e revolta; entre tantas outras coisas para as quais é difícil dar um só nome. 

Ver com atenção estas imagens, estáticas, tão diferente de ver o livro adaptado a série televisiva, acrescenta essa tal dimensão que refiro, podemos perder-nos dentro de muitas destas imagens tempos sem fim e ir ler e reler passagens que marcámos aquando da leitura deste diário, contado na cabeça da Serva June, não June, não, DeFred, já que não pode mais usar o seu próprio nome, ela já não é dela mesma, mas sim de um homem, de um líder, do Comandante.

"A noite é minha, um tempo meu, para fazer o que quiser, desde que em silêncio. Desde que não me mexa. Desde que fique deitada, imóvel. (...)
Estou deitada na cama, ainda a tremer. Se molharmos o rebordo de um copo e passarmos o dedo por ele, produz um som. É assim que me sinto: esse som do vidro. Sinto-me como a palavra estilhaçar
Quero estar com alguém."

A falta de contacto é em si uma forma de subjugação, as Servas nem no acto da Cerimónia devem ser tocadas pelo Comandante, ele apenas as deve possuir, a fim de depositar nelas a semente.

"Espero, lavada, penteada, alimentada, como um porco premiado. 
(...)
A cerimónia decorre conforme o habitual.
Deito-me de costas, completamente vestida com excepção da saudável roupa interior de algodão branco. (...)
Envolve-nos uma neblina de Lírio do Vale, um tanto fria, quase fresca. Não há calor neste quarto.
Acima de mim, (...) encontra-se Serena Joy, estendida. Tem as pernas abertas, eu estou deitada no meio delas, tenho a cabeça no estômago dela, a nuca em cima do seu osso púbico, ladeadas pelas coxas dela. Também ela está completamente vestida. 
Tenho os braços levantados; as mãos dela seguram as minhas. O que supostamente significa que somos uma só carne, um só ser. (...)
A minha saia vermelha está subida até à cintura, mas não mais do que isso. Abaixo dela, o Comandante fode. Aquilo que fode é a parte inferior do meu corpo. (...)
Serena Joy  aperta-me as mãos como se estivesse ela a ser fodida (...) e o Comandante fode, com a cadência de marcha regular dois-quatro, e assim continua como uma torneira a gotejar. (...)"

Poderia continuar com descrições, mas nada como pegarem na novela gráfica e irem descobrindo as imagens e lendo passagens correspondentes na narrativa. E melhor ainda, a Bertrand publicou recentemente «Os Testamentos» continuando assim a história de Gileade e a da Resistência. E é sobre isso mesmo este último excerto: a resistência, a esperança e o acreditar.

"Na penúria, uma pessoa é levada a acreditar em todo o tipo de coisas. Agora a credito na transmissão de pensamento, vibrações do éter, tretas dessas. Nunca tinha acreditado.
Também acredito que não o apanharam, ou que não o alcançaram, afinal de contas, que ele conseguiu chegar à outra margem (...) Imagino a roupa. É um conforto para mim vesti-lo com roupas quentes. Estabeleceu contacto com os outros, deve haver uma resistência , um Governo no exílio. Há-de haver lá alguém, a tratar das coisas. Acredito na resistência da mesma maneira que acredito que não pode haver luz sem sombra; ou melhor, não pode haver sombra a não ser que também haja luz. Tem de haver uma resistência, senão de onde é que vêm todos os criminosos, na televisão?"

*

quarta-feira, 11 de março de 2020

«As aves não têm céu» de Ricardo Fonseca Mota :: Opinião



"Que salvação tem uma alma que persegue a vontade cega de esquecer?"

É com a cabeça cheia de perguntas e "o retrovisor vazio para sempre" que conhecemos Leto. Atormentado, não suportando encostar a cabeça na almofada, é um homem em pedaços, com as sobras num remoinho e que reinventa a vida apenas para poder continuar a sofrer.

Leto perdeu a filha e sente uma culpa maior que tudo, uma dor que não encontra semelhantes. A dor é uma verdade diferente para quem a sente. A mulher de quem se divorciou, os amigos os pais, os sogros, ninguém entende a dimensão do seu sofrimento e Leto fecha-se na densidade de um sofrimento muito próprio e que o faz vaguear sem sentido.

"É censurável o facto de não sabermos morrer. Andamos a morrer há milhares de anos e ainda não sabemos como se faz. Seja castigo, prémio ou escárnio, ainda morremos de forma muito atabalhoada."

O estado de espírito de Leto é uma personagem só por si, a sua dor é tanta que se espalha por tudo à sua volta: "A atmosfera tensa da cidade torna-se ainda mais inútil quando não há ninguém que a pise."
A constante "repulsa pelo movimento" pauta os dias deste homem que já não espera nada da vida.  Movimento é andar para a frente, é avançar e esquecer, mas Leto não quer esquecer. Ele é o homem gaveta, um mistério que encerra palavras que ninguém entende, lamentos que os outros não ouvem.

"O que cada um faz com o vento serve para fugir à escuridão, (...). Descobri depois que acontece o mesmo com as palavras."

Palavras essas, ditas em surdina que ainda o surpreendem com verdades que lhe mostram a sua lucidez com que olha ao mundo: "desconhecia haver vitória no falhanço."

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Neste "As aves não têm céu" faz-se um retrato duro e cru de um homem despedaçado que “não espera nada das pessoas, senão presença, ruído e desprezo” e que vive num estado de espírito de permanente desilusão com a vida: “Se eu der um tiro na cabeça será que ouço o barulho da arma a cair no chão?”

São nestas dúvidas que vai marinando a vida sem préstimo de Leto que num “dia de céu balsâmico” perdeu a filha e culpa-se como talvez todos os pais se culpam da morte de um filho. É esmiuçando no sofrimento, no luto e no remoer de episódios do passado que a vida deste homem surge tão fragmentada como a sua mente. Só a culpa não é fragmentada, essa sim está compacta, inteira, insuportável!

Há só um detalhe que para mim fez mossa, foi a desconexão da narrativa, compreendo-a e acho-a uma metáfora brilhante para o estado de espírito do personagem, no entanto, não é a estrutura que mais aprecie para seguir numa leitura, ainda assim acho um resultado extremamente positivo.

segunda-feira, 2 de março de 2020

«A noite em que o verão acabou», um thriller de João Tordo - Opinião

João Tordo traz-nos, ao fim de mais de uma dezena de livros, um bastante diferente da maioria dos que já escreveu. E expõe desde cedo que todos os thrillers, e crimes, se alimentam de três motivos: sexo, ambição e inveja. No entanto, há também um traço comum aos livros do autor: “A fragilidade exposta das nossas certezas” ou os fracassos adolescentes e a sua aura de irrealidade; juntamente com uma frase, que para quem leu quase todos os outros livros do outro, descreve muito bem traços das suas personagens e estabelece um fio que une todas as narrativas de Tordo:
                                                                           "O medo é um capricho dos nervosos."




Dividido entre várias décadas, a narrativa desperta no Verão de 1987, um verão húmido e desgastante, quando Pedro Taborda descobre mais do que os calores algarvios. Ele descobre as curvas e os modos atrevidos de Laura Walsh, a filha do magnata americano, Noah Walsh; mas conhece também Levi, uma criança misteriosa e meio desconexa que, um ano mais tarde, é a principal suspeita de ter assassinado o pai, de forma terrível e mesmo ao jeito de um bom escândalo como os americanos gostam de explorar. Especialmente os jornalistas, ainda mais por ter ocorrido na pequena vila veraneante de Chatlam, onde os Walsh são tão alvo de adoração como de ódios antigos.

Tordo caracteriza muito bem a família Taborda, nos seus portuguesismos exagerados quando esta se cruza com os maneirismos modernos dos Walsh, mas mais do que isso, o que atravessa todo o romance é a inquietação de Pedro por Laura e o mistério em torno da resolução apressada que é dada à morte do magnata.

O romance explora ainda o fascínio de Pedro pela escrita e pelos romances policiais, mas a literatura assume outro papel quando, em Nova Iorque, o protagonista priva com Gary List, o autor de culto que venera e quer para seu mentor. Aqui a narrativa assume outros contornos, voltando às frustrações dos autores, os sucessivos bloqueios, a busca pelo reconhecimento, o isolamento forçado, a solidão final e toda a ironia escondida nos livros. Digamos que um Tordo mais ao jeito que o conhecemos em outros livros.

Pelo enredo, de nada ser o que parece e pelos saltos temporais, mas também pelo desejo de Taborda ser escritor e privar com Gary List – o seu escritor favorito e mentor – fez-me muitas vezes lembrar «A verdade sobre o caso Harry Quebert», e o vilarejo recheado de segredos antigos juntamente com as duas irmãs recordou-me a recente adaptação de “Objectos cortantes” pela mão da HBO.
Faltou-me descobrir qual o autor que List representa para poder ir descobrir livros novos.

«A primeira pessoa» de Ali Smith - Opinião




Confesso que não consigo ficar fã de Ali Smith. Li há muito anos «Hotel Mundo» e lembro de ter gostado, porém não me recordo de nada. Será que gostei assim muito? Já mais breve tentei «Outono», não consegui passar das primeiras vinte ou trinta páginas. Há uma certa alegoria e transcendência que não me cativa nem faz avançar. Estranhando tudo a tal ponto, que nada faz sentido.

No entanto, neste livro de contos «A primeira pessoa» dei por mim a ler dois ou três deles com uma sensação enorme de curiosidade e até sofreguidão, com vontade de perceber a estranheza que envolvia tanto a discussão de duas mulheres à volta dos contos, bem como o delírio de uma outra mulher que se envolve num rapto esquisito e forçado de um bebé alheio.

Ambos os contos são completamente desconexos entre si e qualquer tentativa de ligação é ainda mais difícil do que a de encontrar um sentido em cada conto per si. Ainda assim, a forma como os contos estão organizados: primeira, segunda e terceira pessoa; dão a supor alguma interligação ou intertextualidade. Existindo, eu não a encontrei, a não ser a desconexão e o caos que senti ao lê-los.

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«O verdadeiro conto» em “A primeira pessoa” de Ali Smith

“Cynthia Ozick dizia que a diferença entre o conto e o romance está em que um romance é um livro em cuja viagem, se for um romance bem trabalhado, o leitor se modifica, enquanto um conto é mais como o presente talismânico oferecido ao protagonista de um conto de fadas – algo de completo, poderoso, cujo poder pode não ser ainda bem compreendido mas que pode andar nas nossas mãos ou dentro de um bolso e acompanhar-nos por uma floresta ao longo do caminho da vida.”

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Não importa nada, mas faria muita diferença. A capa da tradução brasileira, talvez prepare mais o leitor para a estranheza que encerram as páginas da narrativa de Smith.


quarta-feira, 29 de janeiro de 2020

O regresso do professor Catalão





Em «A Morte do Papa», Nuno Nepomuceno consegue transpor acontecimentos da década de 80 para a actualidade, socorrendo-se das valências da tecnologia para mover a intriga nos meandros da expiação online, conseguindo assim uma trama intensa e totalmente actual.

O enredo ganha ainda mais expressão por tocar em polémicas que têm colocado o Vaticano debaixo dos holofotes dos media e misturá-los com a crise de migrantes, a violência, a dificuldade de integração ou a exploração sexual. Junto a esses, o autor reaviva ainda a memória do leitor, trazendo do passado, o escândalo do Banco do Vaticano e o desaparecimento da filha de um dos responsáveis do "Santo" Banco. E ainda, é claro, os crimes de abuso de menores, a corrupção e a eleição polémica de que serão alvo a maioria, se não todos, os conclaves.

"Os problemas do mundo irão chegar ao fim quando todas as nações, em harmonia com as leis que regem os direitos de autor, obrigarem a que o Antigo Testamento seja prefaciado: Esta é uma obra de ficção. Por favor, mantenha-a longe das crianças.", Albino Luciani, 13 anos

É inspirado pela vida e as palavras de Albino Luciani, o Papa João Paulo I ou Papa Mateus I, como é designado no livro, que Nepomuceno guia o leitor por uma história intensa e desde cedo acompanhada pela obscuridade da famosa composição de Tartini, il trillo del diavolo avisando-nos para a negritude que acompanha a eleição e o mais curto papado da história do Vaticano. Em 33 dias vultos e conspirações cercam Mateus I, temendo o que ele poderá contar ao mundo, sabendo os cardeais que este Papa tem muito a dizer sobre aquilo com que não concorda e que acontece dentro das fronteiras bem guardadas pela Guarda Suiça. 

"A primeira vez fora a mais difícil de suportar. Houve muita dor mas não só devido à penetração. O que lhe custou mais naquela hora foi a humilhação que sofreu, a forma violenta como o cliente lhe cuspiu em cima e o esbofeteou, no rosto, no rabo, chamando-lhe nomes cujo o significado desconhecia, até ejacular várias vezes para a sua cara. No fim, deu-lhe um tabefe carinhoso. Fora um bom menino. (...)
No fundo para Nasir acabava por ser um pouco indiferente. (...) Bastava que se esforçasse e Alá iria ajudá-lo. Principalmente, se fizesse com que esquecesse o que acontecia todas as noites naquelas ruas de Roma."

Para explorar essas fronteiras e o que de podre transborda os muros do secretismo, chegam-nos personagens já conhecidas, como o professor Catalão e a jornalista Diana, mas também oficiais da Guarda Suiça, Cardeais corruptos, um escritor, um migrante sírio e personagens virtuais que minam a opinião pública socorrendo-se das modernices mediáticas. Desta forma, o autor cria um enredo onde os suspeitos do costume são postos à prova, mas não se esquece do sofrimento das minorias ou do lado mais familiar, atribuindo múltiplas perspectivas para se olhar as vários flagelos actuais.


quarta-feira, 1 de janeiro de 2020

Balanço literário de um ano híbrido e longo.




2019 foi um ano híbrido, a muitoooos níveis e com os livros não foi excepção!


Julgo não ter havido ano, nesta década que fechou, em que eu lesse, mas não terminasse vários livros e de ter mais de metade por lhes dedicar um texto.

Li 23 livros para os quais fiz um texto de opinião, 12 deles eram da biblioteca, para cumprir o objectivo: "vai mais à biblioteca" e mesmo no final do ano não foi excepção, pois trouxe 5 livros de contos que me têm acompanhado por dezembro e transitaram para 2020.

Produzi pouquíssimo para o projecto Deus me Livro, tão pouco que ainda é uma bênção poder de vez em quando publicar lá, especialmente a reportagem sobre a Noite Europeia da Literatura.

Já com a comunidade de leitores estive mais assídua, mas muito menos participativa com textos.

Tenho 28 por livros lidos sobre os quais não escrevi nada e nem sei bem porquê: preguiça? desleixo? vontade de acumular e ver a pilha a crescer?
Não sei e decidi nem querer saber ou me preocupar. Li-os, estão lidos, outros não os terminei (3) e daqui irão provavelmente para a estante ou para as da biblioteca municipal.

Apetecem-me apenas pequenos parágrafos e saber que os li, recordando-os ou por fotos ou por frases de destaque.
Isso, e ver se cumpri com o desafio lançado por mim mesma no princípio do ano, daí este balanço.

*

Um dos favoritos marcou logo o início do ano, «O filho único», uma narrativa muito bem montada com um narrador de 6 anos a tentar descodificar o mundo dos adultos, quando esse mundo se confunde ainda mais perante a morte de um filho, um outro filho.
O arranque do ano ficou igualmente marcado pelos contos de Ana Margarida de Carvalho, «Pequenos delírios domésticos» que brindam o leitor com uma escrita magnífica, cuidada e enredada, dando-nos sempre vontade de continuar cada conto, navegando assim naquela realidade paralela.

Janeiro de 2019 ficou ainda marcado pelo regresso a Richard Yates e o seu «O Desfile da Primavera» onde a tristeza e a dose certa de desgraça familiar completam a solidão que pauta os livros do autor. E isto, claro, envolvo numa escrita impressionante e que prende desde a primeira frase.

Em Fevereiro perdi-me nos contos e novelas de Mário de Carvalho, fiquei fã de "Cronovelemas» e em Março voltei a João Tordo na reedição de "As três vidas", cumprindo assim mais uma meta do desafio literário: "lê mais autores portugueses".

Ainda em Março regressei a In McEwan e descobri John Banville, mas não tive paciência para continuar com o nobelizado Wole Soyinka, mas o que me arrebatou mesmo foi a maluquice do «Onde estás Bernardette?», um livro no qual peguei por ver vários destaques e opiniões devido ao filme que ainda iria sair durante o ano.

Em Abril voltei a Philipe Claudel, mas também aos portugueses com «Filho da mãe» de Hugo Gonçalves que mesmo não me tendo conquistado, merecia que eu lhe dedicasse um texto. O luto é um dos meus temas favoritos e a forma como o autor faz uma road trip pelas memórias pós-morte da mãe vale bastante a pena e isso fez-me ir ao teatro ver uma peça adaptada de um dos seus livros de contos: «Fado, Samba e Beijos com Língua».

Em Maio perdi-me pelas novidades e li «O fim da solidão» ao qual não dediquei texto e do qual pouco ou nada me lembro. Mas lembro-me muito bem das mulheres que João Tordo trouxe em «A mulher que correu atrás do vento» juntamente com toda uma compilação musical que me fez completar mais partes do desafio literário: "Livro com música dentro" e "lê um calhamaço". Aliás com Tordo e já mais para o final do ano, li outro calhamaço «A noite em que o Verão acabou».

Já o ano ia a meio, voltei aos contos de Murakami com «Os celeiros incendiados», pensando ir ao cinema ver a adaptação cinematográfica, mas não fui a tempo, nem o conto me conquistou, tal como não percebi o furor em torno de "Devias ter-te ido embora" do alemão Daniel Kehlman. Também não me convenceu, o último do nórdico M. J. Arlidge: «A floresta do mal» ou a estreia com a portuguesa Julieta Monginho na reedição de «A terceira mãe". Convenceu-me sim «A criança que sonhava com o fim do mundo» e a «A filha devolvida» ou ainda «Crianças invisíveis», num retorno à escrita de Patrícia Reis. No entanto, para nenhum deles fiz um texto.

Como também descobri, após os empréstimos, que nunca fiz um texto para livros lidos em 2018, tais como «Ecologia» de Joana Bértholo; «Meio homem metade baleia» de José Gardeazabal ou o fabuloso e conciso «Laços» do italiano Dominico Starnone e o qual devo voltar a ler.

O verão propriamente dito foi marcado pela intensa leitura de «Um estado selvagem» que é talvez o livro do ano, pela dureza daquilo que relata e por falar de violência contra as mulheres juntamente com o clima de guerra que se vive em muitos países africanos, picando assim mais dois pontos do desafio de leitura: livros sobre os Direitos Humanos e livros cujo a narrativa é num cenário de guerra, mas também para este ponto podia eleger o fabuloso, e outro dos favoritos deste ano: «Cai a noite em Caracas» de Karina Sainz Borgo, que tem um enredo completamente fora de tudo o que li este ano, abordando tantos dos temas que têm inundado as notícias da actualidade. Este livro merecia um texto, mas merecia mais ainda uma série ou um filme para que fosse falado inúmeras vezes.

O Verão teve mais duas leituras marcantes: «Uma questão de conveniência» que muito diz sobre a sociedade, o trabalho e as convenções que nos iludem e condicionam e que são transversais, tanto no mundo nipónico como aqui entre nós. Outro marcante foi «Autobiografia» num regresso à escrita de José Luís Peixoto que levanta uma questão muito interessante: "Quantos Saramagos existem?", ou melhor ainda, em quantas pessoas se divide ou multiplica um autor, seja ele quem for, quando cria um livro? E isso é interessante de explorar e ao acaso cheguei a divagações idênticas já mais para o final do ano com os contos de Ali Smith.

No verão ainda houve lugar a alguns livros nos quais peguei, li um pouco e larguei, entre eles com muita pena minha, como é o caso de «Vendedor de sangue», tinha muita curiosidade, mas que não me agarrou de todo! Li ainda e não me marcou «As longas noites de Caxias» e «Eu sou Bolaño». O que me continua a agarrar é Flannery O'Connor de quem li contos e os livros destacados pelo Prémio Leya, de onde li «Torto Arado» que muito me envolveu naquela crueza da roça antiga brasileira, que desconfio ainda existir e ser metáfora para criticas à actualidade.

Entrei em Setembro envolvida em romances mais light com «O que nos fica somos nós», que li bastante envolvida, pois gosto de livros que exploram a culpa. Também gosto de livros com pessoas estranhas e por isso preferi o romance seguinte: «Perto demais» que muito me fez rir. Já «Nenhuma verdade se escreve no singular» do qual adorei o título, explora um enredo pouco plausível e que cansa o leitor.

No trimestre que fechou a década, o tempo dedicado aos livros foi pouco, escrevi apenas sobre «Novembro» tentando perder-me mais no universo das Graphic Novels e da Banda desenhada, e fiz uma excelente descoberta: Enki Bilal que me fez voltar várias vezes à biblioteca.

Li também «Não te afastes» uma ficção juvenil de David Machado e mais um romance a puxar para o thriller, «A mulher entre nós», que muito habilmente confunde o leitor entre saltos cronológicos e relatos de mulheres. Deixando uma questão: "em quantas mulheres uma mulher se multiplica ao longo da vida?"

Mesmo na recta final de 2019 o tempo foi partilhado entre os contos de Tolstói, Ali Smith e o tão badalado trhiller de João Tordo que não foi de todo uma das minhas escolhas, se bem que o arranque e as 100 paginas finais são muito hábeis e viciantes. Viciante e engenhoso foi também «O protesto do lobo mau», livro infanto-juvenil que ganhou o prémio Pingo Doce.

O ano não terminou sem voltar à biografia de David Bowie, que me vai acompanhar em 2020 e o retorno de Possidónio Cachapa, que tem um mote meio delirante, meio sonhado e todo ele uma metáfora e uma critica, mas não era bem o que eu esperava, já que sou fã do universo muito particular que o autor tem criado em todos os seus outros livros.

E com este longo texto, remato assim todos os textos que não fiz desde o final de 2018 e ao longo deste 2019 que pareceu arrastar-se em muitas coisas.

E face ao desafio do blogue, o livro pendente de 2018 ficou pendente na mesma, não li nenhum livro com árvore na capa; com mais de 100 anos peguei em Tolstói, mas não li mais do que um conto ou dois, não li nem o Nobel de 2018, nem a de 2019 e nas metas literárias ficou-me a faltar ler sobre Fernão de Magalhães. O que de melhor o desafio me trouxe foi ler fora da zona de conforto e ter lidos mais contos.



E sem mais demoras, o meu Top 10 são:

"O filho único"
"Pequenos delírios domésticos"
"O desfile da Primavera"
"Um estado selvagem"
"Cai a noite em Caracas"
"A mulher que correu atrás do vento"
"Uma questão de conveniência"
"Autobiografia"
"Bowie, uma biografia"
"O protesto do lobo mau"