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terça-feira, 16 de abril de 2024

«Amor estragado» de Ana Bárbara Pedrosa :: Opinião

"Um dia, depois de um bagaço, desabafei com um amigo, que tinha sido burro e era padre. Coitado, aquilo dava-me pena. Passava os dias no meio de velhas beatas e nunca ia saber que o único milagre que existe está num corpo de uma mulher a dizer que não quer mais."

Que se sublinhe "num corpo de uma mulher a dizer que não quer mais"

Embora seja uma premissa mais do que errada, abusiva, violenta, tóxica e transtornante, essa é a premissa para se entrar na cabeça do Manel, e por sua vez, na voz que a Ana Bárbara tão acutilantemente criou para nos destabilizar com esta história desestruturante e destruidora de tudo o que pode ser uma relação e uma família, menos amor, desejo, compreensão, empatia, cumplicidade ou sequer intimidade. Tudo o que aqui nos surge perante os olhos e nos assome à garganta como asco e vómito, é uma dura e triste realidade. É a realidade de muitas famílias, mulheres e filhos. Uma realidade que pode estar debaixo do nosso nariz, na porta ao lado, no quarto por baixo do nosso, na nossa família, na casa do nosso irmão. É a realidade e nós fazemos parte dela. Por isso, metade do asco, da aspereza e da realidade está-nos debaixo das unhas e isso é feito com uma mestria brutal e desarmante, conseguida nesta escrita crua e estragada de Ana Bárbara.

quarta-feira, 5 de janeiro de 2022

«Palavra do senhor» de Ana Bárbara Pedrosa – Opinião

“Dei-lhes pernas para andar, joelhos para correr, braços para chegar à fruta e mãos para agarrá-la. Olhos para não bater nos troncos, dentes para trincar, língua para palrar até dizer palavras e poder dar nomes às coisas. No fim, pareceu-me funcional e algo rústico.”

Do rústico e por entretenimento, tirou uma costela e fez Eva: “Já tinha aprimorado a forma, trabalhei os traços: ancas arredondadas, barriga lisa, pele macia. No peito, carne que parecia inútil, mas que viria a alimentar a espécie numa simbiose natural.

Tirei-a do homem por preguiça, mas quando ele percebeu julgou-a sua. Não foi logo, primeiro veio o pasmo de ver outra, e a confusão ao ouvi-la dizer «Eva». Tudo sem verbos ainda, o Verbo era só Eu.”

E da ausência de verbos, de passado e de futuro, questionou o paraíso: “Davam as mãos em direcção ao pôr-do-sol e não pediam mais da vida do que a felicidade até ao fim.

Chamam-lhe hoje paraíso, mas aquilo eram só árvores e maçãs. Não havia futuro nem passado, restava apenas um excesso de paisagem. Se acabassem com a fruta, que seria deles?”

Palavra do Senhor é isso mesmo, um livro de questionamento e reflexão, do que se construiu e destruiu com esse excesso de paisagem e uma mão cheia de abundância, ora de escassez, dominando a natureza inacabada de cada personagem que ditou o curso desta história às mãos da inevitabilidade do destino.

“Tinha sido feito para ser testado: já antes de nascer seria um assassino. Rejeitei-o antes de ter cometido o crime, a culpa e a morte eram a génesis da criação. Protestou contra a injustiça, mas falhou no alvo, quem morreu foi o irmão. Verdade seja dita, onde mais poderia gastar a sua raiva?”

Crime, culpa, castigo, o Bem e o Mal e um enredo com um narrador que compara os seus feitos a outros grandes da ficção, como Stephen King, teatralizando ainda mais o acto da criação e nivelando-o pelo que mais tem de terreno e palpável, sem esquecer um ou outro episódio mais transcendente.

“Não havia dúvida: quem nega o filho nega o pai, e ele assumiu a autoridade para falar por mim – espírito do seu sangue. Só assim poderia imbuir-se de uma razão maior do que os homens e então a sua palavra poderia ser igual ao Verbo. Não o pus no mundo para lançar a paz, mas uma espada, porque não quis barreiras para este cavalo à solta, e ele rasgou o ar com o seu golpe.”

Se dúvidas há sobre o conteúdo e a mensagem aqui habilmente compilados por Ana Bárbara Pedrosa, talvez baste dizer que enceta a desmistificação e concluí: “(…) todos saberiam que a razão última da vida era a família, que os humanos e os deuses deveriam unir-se para se protegerem uns aos outros.”

É um livro experimental, mas que assume uma voz muito própria e até irreverente, mas bastante cuidada e que desperta a curiosidade do leitor, seja para temas bíblicos seja para outros livros da autora.