sábado, 18 de setembro de 2021

«Menina» de Edna 0’Brien :: Opinião

 


«Menina» de Edna 0’Brien é um livro duro, assustador, sombrio e revoltante que expõe e denuncia uma violência com inúmeros tentáculos que subjuga e condena inúmeras meninas e mulheres em prol da palavra (supostamente) sagrada que perpetua tradições sociais e religiosas que em muitos aspectos não são mais do que a continuação de crimes que continuam impunes ao longo dos séculos.

“À noite quando fico acordada, vejo o céu. Um céu vasto e violeta, uma terra de beleza que se tornou um lugar de dor. Tantas raparigas mortas. O triste abate das árvores.”

“As nossas blusas brancas, os nossos uniformes e lenços depressa se dissolveram em flocos leves de cinza-pardo que pairavam por um momento e depois eram levados a encontrar o seu caminho por entre os espaços do arama farpado. Segui-os mentalmente, e tola, julguei que os flocos incinerados seriam os nossos mensageiros.”

Apesar de perturbador, é um romance com passagens líricas e luminosas, onde uma centelha, mesmo por muito pequena que seja, de inocência e esperança, ainda paira sobre os pensamentos desta Menina. Embora logo de seguida, arrepie o leitor com descrições ritmadas e hipnóticas de episódios bárbaros e brutais.

“(…) carinhos de mão cheios de pedras, empilhadas, pardas e malignas. Eram de todas as cores, cinzentas, pretas, cor de carvão, com arestas afiladas, e haviam sido especialmente escolhidas para o que se seguiria. (…)

Meteram-na na cova, invisível para todos, ficando apenas à vista a cabeça e o pescoço, que passava no rebordo na perfeição.

A excitação estava a aumentar. Os homens troçavam e pediam que lhes dessem a honra de atirar a primeira pedra. (…) As pedras caíam desenfreadamente, acertando com monstruosidade naquele que fora o rosto mais lendário do enclave.

Tiras do outro lado do maxilar pendiam (…). As próprias pedras ficavam sujas ao cair, mas eram apanhadas de novo, para continuar o ataque.”

 

Existe um poder e um pesar nas palavras de O’Brien, um poder que nos esmaga enquanto leitores e nos faz ranger os dentes enquanto os olhos se enchem de água. A narrativa está brilhantemente encadeada para que todas as emoções se alinhem enquanto torcemos por Buki, Maryam e Babby. O destino só pode ser de refúgio e reparação, com alguém que as receba, as acompanhe e lhes mostre um caminho menos sinuoso. Já que a sociedade de onde foram abruptamente roubadas, lhes nega o direito ao digno retorno e integração. A comunidade não quer os relatos das vítimas, os testemunhos assustadores; não quer elos de sangue com guerrilheiros, não quer uma escrava sexual de volta ao seio familiar.

 

Os pecados deles são agora os pecados dela!

 

“-Não tenho idade para ser tua mãe – digo-lhe, a medo.

A sua expressão é vazia, ausente, o seu dedo aponta para longe com uma espécie de investida interrogativa. Começo a chorar. Choro do fundo do meu ventre. Choro de onde quer que deveria estar a raiz do meu amor por ela. Ela nunca me viu chorar abertamente. Baixa o dedo e enterra a cabeça no meu peito. O bater do meu coração é o único refúgio que tem.”

 

Para além da violência e da denúncia, «Menina» é um romance sobre coragem, resiliência e superação. É um elogio às meninas, às mulheres e às mães. Essencialmente às mães (…) descalças, suplicantes, a viver de restos, mas sem nunca desistirem, sem nunca desistirem. Elas não lhes cortam a garganta. Não cortam a garganta aos filhos para lhes beberem o sangue. Suportam tudo, tal como suportaram dar os filhos à luz. Pergunta como o fazem, essas mães com os filhos, como o fazem, como é que tu o fazes.”

 

Como é que o fazem? Como é que conseguem em condições tão violentas e indignas e no meio de tanta devastação exterior e interior. Como é que conseguem superar, é essa a questão que ressoa e nos faz ponderar e valorizar o que temos.

 

sexta-feira, 17 de setembro de 2021

"três homens num barco (já para não falar do cão)" de jerome k. jerome :: Opinião


“Eramos quatro - o George, o William Samuel Harris, eu próprio e o Montmorency.”

Assim começa o relato desta viagem.

Existem várias viagens dentro desta viagem de barco, algumas delas são divagações de cariz filosófico, outras são crítica social, a maioria são autênticas digressões nas memórias de cada um dos três homens, em périplos alucinantes fruto de uma imaginação prodigiosa e ainda há espaço para servir de guia turístico pelas aldeias pictóricas nas margens do Tamisa e aproveitar para uma tacada política aqui e ali.

Portanto, temos um preguiçoso crónico hipocondríaco que se queixa do seu amigo insone e igualmente “doente” e ambos se debatem com outro amigo que, deprimido, dorme demais (já para não falar dos pés enormes que tudo atrapalham). Todos se sentem moribundos (menos o cão) e decidem que o rio e os ares aquáticos seriam o melhor remédio para todos.

“A maior ambição do Montmorency é meter-se de permeio e ser insultado. Se conseguir enfiar-se num sítio onde ninguém o quer, pôr tudo numa roda-viva, fazer com que as pessoas fiquem furiosas e lhe atirem coisas à cabeça, então ele acha que não perdeu o dia.”

Cedo concluímos que o ócio é o motor desta narrativa e o objectivo principal é simples: se não poder ajudar, atrapalhe. 🤭 O importante é participar! O mesmo se aplica ao cão, nas suas francas amizades com gatos e chaleiras fumegantes.

A maior ferramenta do humor de Jerome K. Jerome é a ironia e o sarcasmo e a intelegência com que narra episódios que roçam o absurdo e historietas do arco da velha que se tornam mais cómicas pela escolha da linguagem e o encadeamento que vão tendo com a própria aventura que era suposto ter o papel principal, mas desengane-se o leitor se pensa que isto é só uma viagem de barco!

É uma viagem pela natureza humana e as suas crises existenciais, num texto cheio de tiradas poéticas.

“(…) mas à noite, quando a mãe natureza foi para a cama e nos deixou acordados, oh! O mundo fica solitário e ficamos cheios de medo (…) Sentimo-nos tão desamparados e tão pequeninos no meio daquele grande silêncio, quando só se houve o rumorejar das árvores negras ao vento da noite. (…) Mais vale juntarmo-nos todos nas grandes cidades e acender grandes fogueiras de milhões de candeeiros de gás, e gritar e cantar em uníssono, e sentirmo-nos corajoso.”

No entanto, estes espíritos indolentes não procuram reparação ou redenção para os seus constantes elogios ao pecado do ócio e à doce contemplação do trabalho, esse bem precioso no qual é melhor não tocar; antes pelo contrário, eles tecem aqui quase um tratado de como continuar nessa vida mesmo estando cientes das tarefas laboriosas e dos caprichos das previsões meteorológicas que determinam o sucesso de uma actividade e vida ao ar livre e é isso que confere todo o lado cómico às peripécias pelas margens do Tamisa.

“Não existe sensação mais excitante do que a de velejar. (…) As asas do vento sibilante parecem transportar-nos sempre em frente, não se sabe para onde. Já não somos aquelas coisas de barro lentas, laboriosas, débeis, que se arrastam tortuosamente sobre a terra; tornámo-nos parte da Natureza. (…) Os seus braços gloriosos abraçam-nos e erguem-nos de encontro ao seu peito.”

Difícil é amarrar a tenda ao barco e não dormir ao relento. Saber se lhe colocam os espeques todos os não, bem como a hercúlea tarefa de pelar umas batatas ou lavar uma peça de roupa.

“(…) ora bem, o rio entre Reading e Henley ficou muito mais limpo depois de lá termos lavado a nossa roupa. Toda a sujidade contida no rio foi recolhida por nós durante a lavagem, e ficou retida na nossa roupa. A lavadeira de Streatley disse que tinha de nos cobrar o triplo do preço normal para lavar aquela roupa. Na opinião dela, aquilo não era propriamente uma lavagem, era mais uma espécie de escavação.”

Tá explicado porque J. não sofre de artrite de lavadeira!

Em suma, quase todos os relatos arrancam sonoras gargalhadas ao leitor, mas um dos episódios mais brilhantemente descritos e a ritmo de meter inveja ao restante livro, é o capítulo três, quase todo ele dedicado à perseverança e empenho do tio Podger e a sua capacidade para a bricolage. Mas também, o episódio do guisado irlandês ou o familiar que tenta aprender a tocar gaita de foles, são hilariantes. Ou a risota entre J. e George com a camisa que cai ao rio ou uma espécie de luta livre na manteiga entre George e Harris. (já para não falar do queijo capaz de matar só com o cheiro).

quinta-feira, 16 de setembro de 2021

«Silêncio na Era do Ruído» de Erling Kagge :: Opinião

No seu «Silêncio na Era do Ruído», Erling Kagge predispõe-se a pensar sobre o que significa o silêncio, onde e como o encontramos e como o sentimos. O silêncio tem muito de indizível e de abstracto, no entanto, há uma busca incessante pela sua definição. Aproximar-se-á da definição do «nada»? Ou define-se pela experiência de cada um?

Experimentando-o cada um à sua maneira, sem garantia de conseguir-se expressar sobre ele de forma concreta ou palpável, que o digam os inúmeros artistas que tentaram filosofar, sentir, pintar, encenar, musicar, escrever ou expor o silêncio. Também sobre eles, Kagge, de forma breve e rendilhada, os cita para fundamentar as suas ideias sobre o silêncio, que tanto procurou, fosse em caminhadas solitárias de 50 dias pela Antártica, fosse na rede complexa de esgotos e túneis, chafurdando noutra dimensão de Nova Iorque.

“Conhecendo-nos a nós mesmos, conhecemos os outros. Ao ler Sacks, sinto que ele, tal como Nansen, ao dirigirem os seus olhos para o alto, também os dirigiam para dentro, em direcção ao seu silêncio interior e também aos seus aspectos interiores esquecidos. Em direcção a esse universo que para mim é tão misterioso como o espaço que nos rodeia. Um universo expande-se para fora, o outro para dentro. Para mim, este último universo tem o maior interesse. Porque justamente como concluiu a poetisa Emily Dickinson; «O cérebro – é mais vasto do que o céu.»”

Silêncio está associado a resiliência, relutância, satisfação, como essa mesma satisfação está intrinsecamente associada a sacrifício e meta. Porém, o caminho e as suas etapas são mais proveitosas que só a meta em si, é nessa perseverança que algo transformador acontece e desperta no cérebro sensações de bem estar e paz interior. Se assim for, silêncio é satisfação por auto-conquista? Que som tem o silêncio? A do auto-reconhecimento e da compreensão?

É tão vasta a definição como a forma de atingi-la, porém é na simplicidade do silêncio que ocorrem conversas entre os nossos pensamentos, capazes de vencer medos, de fazer avançar ou recuar, superar o aborrecimento mais por saber parar e contemplar e não por alimentar a ânsia, tão socialmente aceite, de continuar a fazer mais e mais. Mais intenso. 

“(…) Rumi escreveu: «Agora permanecerei em silêncio, e deixarei o silêncio separar o que é verdadeiro daquilo que mente»”

Talvez se possa dizer que a melhor definição de silêncio e aquela que o indica como uma sensação de paz interior, um luxo e uma liberdade, que tanta falta fazem nesta Era do ruído agudizada pelas aplicações que viciam e que dão estímulos exteriores que nunca são suficientes e atuam segundo a máxima: partilho logo existo; embora essa partilha seja feita sem que cada um abandone o seu isolamento, por vezes tóxico e caótico.

quinta-feira, 26 de agosto de 2021

"A segunda vida de Olive Kitteridge" de Elizabeth Strout :: Opinião


"(...) nem queria acreditar. A sério que não. Era um pouco como quando caíra de bicicleta, anos e anos antes (...) a sensação em câmara lenta de que algo terrível está a acontecer e a noção de que nada podia fazer para o impedir. Ver o alcatrão vir de encontro à face."

Strout traz nos uma Olive ainda mais olivesca 😉 que nos leva a pensar no quanto todos temos uma Olive dentro de nós e como nos ligamos a essa faceta. Ou se nem sequer temos ideia de tal, o que deixa uma pergunta: estaremos a guardar para a velhice? É que cair de bicicleta na velhice pode nunca mais dar para recuperar!

Regressamos a Crosby, no Maine para percorrer algumas ruas e corredores de supermercado ou os lares que nos esperam na velhice para ouvir algumas lamúrias, mas mais ainda conclusões que vêm com o entendimento tácito dos anos. Do amadurecimento e da velhice. Por isso, revive-se o casamento, o nascimento e a criação dos filhos, o avanço rápido da vida que tudo atropela e entra-se na velhice quando já ela já se instalou: "Olive tinha a sensação de que uma rede descera sobre ela, o tipo de coisa que se põe a cobrir um bolo ou uma mesa de piquenique, para afastar as moscas. Ou seja, estava encurralada e a sua visão do mundo reduzira-se."

No entanto, Olive em nada está reduzida. Nos capítulos onde Olive não está, Olive esta sempre lá, pois habilmente Strout ausculta (palavra feia) nos feitios e problemas dos outros, caminhos que nos levam às conclusões que a idade tem trazido a Olive, ou seja, aquelas personagens parecem surgir do nada, mas trazem consigo todo um propósito, seja validar ou contrariar o que aprendemos com Olive. E isso é estrategicamente bem equacionado no seguimento da narrativa. A sequência que cada conto ou capítulo tem, não pode, de todo, ser ao acaso. Há um fio que tudo cose, mesmo que padeça de um certo caos. Tal como a vida. Ou as aprendizagens que a vida nos dá, mesmo que às vezes seja à bruta.

"Mas mesmo por detrás dos olhos fechados, Olive via a casa e um arrepio percorreu-lhe os ossos. A casa onde criara o filho, sem nunca, nunca se aperceber de que ela própria criara, durante todo esse tempo, uma criança órfã de mãe, que agora estava muito, muito longe de casa."

Olive revive mágoas antigas quando as redescobre nas aprendizagens que faz cada vez mais com o passar dos anos, por isso, o leitor reencontra Christopher, Henry e Jack que vai alterar um pouco o curso da vida de Olive, ainda assim reencontrar Olive Kitteridge é encarar uma solidão tão característica da sua personalidade que talvez toque, ali e ali, a solidão que todos sentimos. Nesse tomar de consciência e com as várias gargalhadas que vamos dando, podemos dizer que respeito será a palavra que mais aprendemos à medida que somos confrontados com certos episódios. Respeito e a máxima: mais amor por favor!

segunda-feira, 2 de agosto de 2021

"A biblioteca de Paris" de Janet Skeslien Charles - Opinião

 


«Esperança é uma coisa com penas que se empoleira na alma.»
Emily Dickinson

"A Biblioteca de Paris" de Janet Skeslien Charles (Suma de Letras, 2021) capta desde logo a atenção com um primeiro capítulo que oscila entre o nervosismo de Odile, à beira de ser contratada para a Biblioteca Americana de Paris (BAP) e o sistema decimal de Melvil Dewey. É com esse texto entrecortado pelos números da classificação documentária, que ainda hoje se usa (com as devidas actulizações), que a autora cativa por certo qualquer leitor e frequentador de bibliotecas.

Odile é apaixonada por livros e o ambiente que se vive na Biblioteca é precisamente onde ela quer estar, no entanto, decorre o ano de 1939 e a Guerra será uma ameaça a esse cenário idílico de passar os dias rodeada de livros. Ainda antes do conflito estar mesmo às portas da Biblioteca e definir o rumo de cada braçada de livros, Odile descobre que os dias na biblioteca, entre leitores, podem ser tão desgastantes quanto o medo da página em branco.

"Quando cheguei ao fim do turno, a língua desertara. Era como abrir um romance e encontrar apenas páginas em branco."

Nas páginas deste romance são várias as histórias e as mulheres que vamos conhecendo, bem como os seus livros favoritos, que vão desde Jane Eyre, o "Drácula", uma ou outra referência a Ralph Waldo Emerson, passagens de "A idade da inocência" de Edith Warton (uma das primeiras administradoras da BAP) ou o incontornável "Crime e Castigo" e a poesia de Emily Dickinson, entre várias outras referências, no entanto, há uma frase do "De olhos pousados em Deus" de Zora Neale Hurston que espelha bem o que todos os personagens passaram a sentir com a presença alemã em Paris:

"Depois ela engomou e passou a ferro o rosto, moldando-o naquilo que as pessoas queriam ver..."

Que é igualmente uma excelente descrição para caracterizar o rosto de Lilly, a outra metade desta história, já na década de 80, em Froid, Montana, quando a sua vida muda e a saída da adolescência se faz em proximidade com Odile, já viúva e isolada entre livros, memórias e sonatas de Bach. Entre Odile e Lilly nasce uma amizade sediada no amor aos livros, no sabor de cantarolar lições em francês e sonhar com uma Paris lá longe, onde deviam ter ficado as memórias dos tempos difíceis, no entanto, existe a história de uma enorme resistência que não deve ser esquecida, precisamente para enaltecer os livros, mas também o poder da amizade.  

"Senti-me como se estivesse no meio de um globo de neve que alguém tinha abanado, só que as peças lá dentro não estavam coladas no fundo, e tudo girava..."

E giraram, pessoas e livros, corações e cartas. 
Circularam muitos livros, fruto do trabalho das bibliotecárias e da administração da BAP, para irem ao encontro de leitores encerrados em casa, privados das suas colecções, apenas por serem judeus ou de nacionalidade dos países aliados ou até para os soldados na frente de batalha e outros estropiados e acamados em hospitais de campanha, para os quais os livros eram um bálsamo e uma centelha de normalidade. 


"A devoradora de pecados" de Megan Campisi :: Opinião

 

"As pedras que a vão comprimir estão amontoados ali perto (...) eles usam pedras, algumas são largas como as rodas de uma carroça, para obrigar os traidores a falar se estes recusarem a confessar. Deitam o homem ou a mulher numa cama de madeira, a seguir empilham pedras sobre o seu peito, parando apenas se for feita a confissão. Falar ou morrer. Podem passar-se horas até as pedras esmagarem um corpo em forma."

Em "A devoradora de pecados" (SdE, 2021), assiste-se à caracterização sombria e requintada de um hábito que existiu até há pouco mais de cem anos nas regiões da Bretanha que a autora tratou de abrilhantar com detalhes grotescos e vívidos, conseguindo assim ofender visualmente o leitor, obrigando-o a desviar o olhar daquilo que se consegue visualizar tão nitidamente que arrepia. 

Megan Campisi compõe um enredo em torno de May, que por um crime pouco significativo é condenada a um destino de marginalização, segregação, silêncio e solidão. May será uma devoradora de pecados, uma proscrita amaldiçoada, uma serva de Eva que não se deve sequer olhar. Apenas tolerada nos momentos fúnebres ou junto aos corpos dos moribundos onde se banqueteia com línguas de vacas, sementes de mostarda, empadas de rins e muito alho ou corações dos mais variados animais, para engolir pecados que os outros cometeram. Comidos os pecados, é a devoradora quem os carrega até à morte, livrando assim a alma, para limpa, entrar no céu. 

Regozije-se então, quem deste sórdido banquete apenas tiver que engolir pepinos em conserva e sal, uma ou outra empada de restos e claro, pão. Pois significa que os seus pecados são pouco mais que a preguiça e o orgulho e claro, o pecado original.

A leitura torna-se cativante, apesar da envolvente, miserável, pobre, suja e violenta, que envolve o leitor num enredo cada vez maior, onde tudo, desde as paredes ao chão lamacento ou ao poço e um balde de mijo, contribuem para uma narrativa que cresce conforme a própria personagem se desenvolve e se empodera. Isto sem esquecer a critica social à nobreza mesquinha e ao poder desenfreado da religião, juntamente com uma opressão enorme conseguida pelo medo e pela ignorância de um tempo tão sombrio e tortuoso, tipicamente medieval, conseguido por cenários de violência que são explorados com uma linguagem extremamente visceral, provavelmente fruto da formação profissional da autora no ensino de teatro. 



«A minha irmã é uma serial killer» de Oyinkan Braithwaite - Opinião



"A Ayoola convoca-me com estas palavras: «Korede, matei-o.»
E eu que tivera esperança de nunca mais ouvir estas palavras..."

O livro sensação «A minha irmã é uma serial killer» (Quetzal, 2021) de Oyinkan Braithwaite é um livro por camadas ou até mesmo um livro puzzle que se monta por irmos interpretando essas camadas. A irmandade entre Korede e Ayoola vai-se intensificando à medida que a narradora (Korede) desmistifica, por pequenas brechas, acontecimentos do passado e por aí se compreende as margens para onde ambas as irmãs desabrocham. Opostas, mas completando-se (como quase sempre, diria eu!) e são fruto do tratamento dado pelos pais e a forma como a família as caracteriza pela aparência e respectivos actos, desde muito cedo e por aí as condiciona ou enaltece. Sem esquecer que as tradições e a forte presença paternal determina em muito a união que as mobiliza e lhes justifica os actos.

"Pergunto-me onde é que ela guardará a faca. Nunca a vi, a não ser naqueles instantes em que estou a olhar para o corpo ensanguentado (...) Não sei porquê, mas não consigo imaginar a Ayoola a esfaquear uma pessoa (...). Quem sabe se os objectos não têm as sua próprias intenções secretas? Ou se as intenções colectivas dos seus donos anteriores não continuam a orientar-lhes o propósito?"

A orientar-lhes o propósito, a ambas, está o passado e é talvez isso que alimenta a leitura sôfrega, se bem que a autora consegue-o também pela escrita escorreita e sucinta, agarrando o leitor ao ritmo quase aflitivo com que as irmãs vivem cada episódio. Para além disso, a dinâmica de ambas as personalidades também se desenvolve à velocidade de um thriller. 

Korede é determinação, Ayoola é descontração. Uma é reconhecida pela sua beleza, a outra pela inteligência e careira. Uma cozinha, a outra come, uma apaixona-se superficialmente, usufrui e pavoneia-se, até se chatear e matar, a outra vem desinfecta, esconde e oculta cadáveres. Juntas são um binómio interessante para matar sem deixar rasto. Ou não, pois uma tem consciência e a outra não.

Dizer mais pode enviesar leituras, mas não me aguento em acrescentar que por aqui restaram alguns mixed feellings com a forma como termina, mas quem ler e quiser trocar umas ideias, são todas bem vindas.

sábado, 31 de julho de 2021

GARRA - Contos de Cecelia Ahern - Opinião


«Garra» pode ser sobre a mulher que foi à boleia, subiu uma montanha, mas desceu ao fundo de si mesma e engolida pelo chão encontrou mais mulheres lá em baixo, tantas delas na escuridão que mesmo vestidas com o fato da vergonha, descobriram que partilhar aligeira o espartilho que a todas sufoca já que todas falavam mulher, antes ainda de terem um nome ou um destino. No entanto, não falará dos flagelos mais gritantes ou até dos grotescos que assombram milhares de mulheres pelo mundo fora.

É certo que importa muito a singularidade do caminho, relatando a experiência feminina, conseguindo seguidores para a causa feminista, mas mesmo que essa experiência seja peculiar e até alucinada na forma de contar, como Cecelia Ahern encontrou para relatar estas histórias, como aquela que ficava na prateleira enquanto era alimentada por um pato ou tantas outras que semeavam plantios inteiros de dúvidas ou outras que devolviam e trocavam de maridos, para aceitarem a necessidade de tolerar e viver nos sapatos do outros. Mas o que se precisam é de mais pessoas a se colocarem no lugar de tantas outras mulheres que são limitadas, discriminadas, humilhadas, violentadas e silenciadas, só por serem mulheres. Essa realidade mais negra teimou em não estar nestas garras.

Apesar das histórias que se expandem em tantas áreas da vida e outras tantas metáforas, fica a sensação de vivências que não são necessariamente ou ferozmente femininas. Talvez lhe falte relatos de sobrevivência tipicamente feminina, por exemplo no mundo do trabalho questões tão práticas, mas tão escondidas como a higiene menstrual ou até a própria discriminação associada a essa condição só feminina. Não estranhar a minha repetição de feminina!
Porém há um conto sobre a chegada ao topo de uma montanha que é uma metáfora muito boa para a competição tóxica que existe, desnecessariamente, entre mulheres e que ao mesmo tempo revela falta de conhecimento e investimento individual. É uma boa chamada de atenção.

Existe ainda, uma sensibilização ligeira para a igualdade pelo caminho da empatia, conhecimento e partilha que são precisos de ambos os lados, seja no diálogo de mulher para mulher, sejam entre homens ou como é óbvio entre homens e mulheres, sem que esteja em causa que um lado saia vencedor, pois se superarmos os constrangimentos, a união criará uma mistura astuta e elevada da qual o todo sairá beneficiado, seja o todo de apenas uma e cada mulher, um núcleo familiar, um ambiente empresarial ou um grupo de amigas. No entanto, não é um livro para abanar estruturas, chocando-as com as desigualdades gritantes e violentas que afectam a maior parte da Humanidade, num flagelo que persiste ao longos dos séculos. 


sexta-feira, 30 de julho de 2021

Opinião "Margo" de Tarryn Fisher

A Margo caiu-me no colo. Não me recordo deste livro ter sido publicado cá mas sei que a Tarryn Fisher é amiga da Colleen Hoover. E oh well, diz-me com quem andas e eu saberei o quanto és atrofiada da cabeça. E adivinhem lá, não me enganei.

Embora goste da capa, creio que pela sinopse não comprava o livro. Acho que dá demasiado e eu gosto que se dê um dedo, não o braço todo. Pior, acho que se dá o braço errado mas isso é outra conversa e eu sou pouco de dar spoilers.

Conhecemos Margo na sua existência transparente. Nascida numa casa que parece consumir quem lá habita, Margo escapa pelas divisões onde a presença de uma mãe negligente não chega, encaixa-se nos cantos onde a luz que acompanha os visitantes noturnos da mãe não brilha e alimenta a sua vida com doces, tal é o fraco acompanhamento que teve desde tenra idade. Por esse motivo, embora passe despercebida em termos de personalidade, sente que toda a gente vê a miúda feia e gorda da casa problemática.

Ao ambiente com que cresceu dentro de casa, junta-se o bairro que a vê passarinhar diariamente mas que é por si só um mal do qual se diz que quem lá nasce não consegue escapar. Bone, nos lados menos bons de Seattle, é um daqueles sítios em que se contam pelos dedos de uma mão às pessoas que se safam. Margo é uma delas, pelo menos até uma certa altura.

Sob existência atormentada desta jovem, está uma alma boa, altruísta, que se preocupa mas que também tem sempre um pé atrás, principalmente perante as injustiças visto que é, desde sempre, alvo de uma bem grave. Essa negligência é o que inicia o pontinho escuro que habita no seu ser e é dai que cresce a escuridão que a dor, a injustiça e a raiva vão alimentando. 

Quantas injustiças teríamos de presenciar na nossa vida para sentirmos ceder a camada que nos exige justiça?

Será que sob determinada pressão todos nós, independente da força da nossa espinha, cederíamos?

Margo muda sob os nossos olhos e com ela a nossa resposta, ou pelo menos a nossa bussola moral, face às perguntas acima colocadas.

Se é uma obra da literatura? Claro que não mas é uma história que mexe connosco, que consumimos num ápice porque precisamos de saber como acaba, que nos faz pensar no mal que fazemos e no quanto, todos os dias, tantos saem impunes.

Margo tem um cadinho de todos nós, especialmente aquele lado que não colocamos livremente e sem julgamentos à superfície.

Recomendo a leitura, tão escaldante como aqueles dias de verão com leituras à beira mar/piscina.

E o melhor de tudo, está a 5€ na wook! 

sexta-feira, 9 de julho de 2021

«A cor do hibisco» de Chimamanda Ngozi Adichie :: Opinião


Porque os afectos não têm horário e a vida deve galgar os muros da religião e das tradições e encontrar no calor das relações humanas o pilar para crescer em amor e segurança. É essa a maior mensagem de «A cor do hibisco», sem esquecer o peso das tradições como identidade, superando pesos maiores deixados pela colonização.

Seguimos esta família aprisionada nos horários rígidos de um pai que nas palavras da tia Ifeoma, é um produto fidedigno da colonização e que na sua total evangelização condena o tribalismo e a tradição pagã e não admitirá aos filhos, Kambili e Jaja ou à mulher Beatrice, quaisquer desvios ímpios.
O desrespeito é punido sempre!
A ordem e o silêncio sepulcral são para ser mantidos num ambiente doméstico entregue à oração, ao agradecimento e ao falar apenas com propósito. Por isso, quando por motivos santos, os horários das crianças ficam entregue à tia Ifeoma e ao seu sorriso resplandecente, a vida só poderá mudar.

Adichie escreve ainda sobre personagens para quem as possibilidades se abrem com um sorriso e a vida flui pelo poder da liberdade e do amor que não sufoca nem espezinha. É nas mulheres interpretadas por Kambili, Amaka, Ifeoma e Beatrice que nos mostra a resiliência feminina em diferentes perspectivas e nas mais variadas fases da vida.
Kambili no tríptico rígido de ser temente a Deus, boa filha e estudante de mérito, desabrocha para a puberdade, precisando vencer o silêncio e o medo que a sufoca e humilha.
~
"O inhame cozido e os legumes picantes recusaram-se a descer-me pela garganta abaixo; ficaram-me colados à boca como crianças agarras as mãos das mães à entrada da creche."
"Eu queria sorrir, mas não fui capaz. Os meus lábios e as minhas bochechas estavam petrificados, congelados, imunes ao calor que me fazia escorrer suor pelas faces abaixo. Estava demasiado ciente dos olhos dele postos em mim"

Amaka mostra à prima Kambili a amizade, a paixão e o amar-se a si mesma, mostrando que os sentimentos são para ser vividos sem restrições e que para chorar ninguém precisa esconder-se.

Beatrice, mãe, mulher e irmã, que na sua pequenez silenciosa se faz invisível, encerra em si segredos de muita violência e um medo paralisante que a cala mas não cega perante a realidade injusta em que vivem.

E claro, a tia Ifeoma, um pináculo de energia, resistência e sobrevivência, um modelo no que toca ao quebrar de padrões, sendo a força motriz das outras, é com o seu riso audível que quebra barreiras da frieza e alimenta a união possível daquela família, diminuindo o medo que limita os sobrinhos e sendo a única que confronta Eugene:

"-Ifukwa gi! És como uma mosca que segue um cadáver às cegas para dentro da sepultura."


É no alimentar dessa injustiça encontramos Eugene, a mosca a Ifeoma se refere, ele é o pai de família que castiga e justifica as suas acções aberrantes, julgando-se o mais justo dos justos, expiando os pecados por uma interpretação enviesada das escrituras, aterrorizando a sua família. No entanto, a mestria com que Adichie o descreve não chega a permitir uma total demonização deste homem, no seu lado bom ele é um omelora, o que zela pela comunidade, ainda assim ficamos a pensar se o cadáver é a religião ou a Nigéria. E é nos diálogos entre irmãos que vemos o lado político e social que também pauta a escrita da autora.

Toda a narrativa está contextualizada pelo catolicismo, o ambiente socio-político e a própria natureza, pesados e poeirentos como os ventos quentes do harmatão e do próprio golpe de estado, ainda assim, a gastronomia, os cheiros, as plantas coloridas, os tecidos, a música e a luta que vai surgindo por vários tipos de independência, iluminam todo o enredo.

As descrições ricas e peculiares são um dos traços que melhor caracterizam a escrita de Chimanda Ngozi Adichie que ao caracterizar as suas personagens as expõe por comparação ao que as envolve, assim podemos observar o medo no vento que tudo arrasta e emporcalha, os sentimentos que despertam como a comida picante que rebenta na boca ou certas descobertas que chegam com a força das chuvas e tudo limpam e abrem caminho à renovação.

"A tarde desfilou pela minha mente (...) eu tinha sorriso, corrido, rido. O meu peito parecia cheio de qualquer coisa tipo espuma de banho. Leve. A leveza era tão doce que a saboreei na língua, a doçura de um caju bem maduro, amarelo-vivo."


domingo, 30 de maio de 2021

«A Cadela», de Pilar Quintana :: Opinião


Pilar Quintana, autora conceituada na cena literária colombiana e na América Latina em geral, vencedora do Prémio Alfaguara 2021 com o romance «Os abismos», vê a sua obra começar a ser publicada em Portugal com o romance «A Cadela» romance finalista do National Book Award 2020. 

E que romance!


"A magia deste romance reside na capacidade de abordar questões importantes enquanto parece estar sempre a falar de outras coisas. Que questões são essas?
Violência, solidão, resiliência, crueldade. Os livros de Pilar Quintana maravilham-nos com a sua prosa desassombrada, acutilante e poderosa."                   Juan Gabriel Vasquez

 

Antes de tudo o que esta obra encerra e das feridas que pode deixar abertas, importa qualificar de grandiosa a capacidade da autora dizer tanto em tão poucas palavras. Abanar tantos fantasmas como o da culpa, dos sonhos perdidos, do desespero ou da solidão, mesmo com tão parcos parágrafos sobre o passado. Quintana descreve, tantos os seus personagens como as suas acções, de forma crua, serena e firmes nas suas emoções, arrastando-os para uma travessia contra a corrente. As vidas pequenas, mas enormes no sofrimento fazem-se ainda maiores quando dispersas pela natureza que se agiganta e os engole, tal qual os problemas eternos da natureza humana.

"(...) sentia que a vida era como um canal e que lhe tinha calhado ter de o atravessar com os pés enterrados na lama e a água pela cintura, completamente sozinha, num corpo que não lhe dava filhos e que só servia para partir coisas."

No cimo de um morro, uma barraca de gente pobre sobrevive às enchentes, sejam as dos rios ou as das intempéries emocionais de Damaris que em dias de humidade, "tanta que um peixe poderia manter-se vivo fora de água", alimenta com amor, gota a gota, uma cadela.

É essa mesma mulher, muitas vezes a sentir que se arrasta pelos dias, num silêncio apenas entrecortado pelo latir dos cães ou os sons da floresta que os podia engolir, que o seu corpo seco e pesado contrasta com a natureza que se renova em ciclos, que brota vida, mas que ela lembra como um burburinho choroso, digno de lamento. 

"Era uma noite de chuva intensa, mas estava calor (...) a sala pejada de melgas (...) Damaris, torturada pelos bichos, embrulhou-se da cabeça aos pés num lençol e deixou-se estar a ouvir a chuva, um zunzum contínuo que era como gente a rezar num velório."

Desconsolada e com os dias como os de um velório, o leitor acompanha, numa leitura sôfrega, a vida de Damaris e Rogélio, o marido, num avançar em crescendo que só pode terminar em tragédia, embora o leitor possa seguir enganado quase toda a narrativa. 


domingo, 18 de abril de 2021

«O que contamos ao vento» de Laura Imai Messina :: Opinião




"Yui tinha humores, tendia um pouco para a melancolia, como se tivesse sido concebida inclinada e resvalar fizesse parte da sua natureza."

Nessa sua natureza, Yui levava uma vida oca cheia de horas opacas, em que o amanhã enquanto princípio, era algo que não existia. E foi mais ou menos com essa sentença que Yiu e Takeshi estabeleceram contacto, depois de muita perda nas vidas de ambos, e como processo de cura, começaram a frequentar Bell Gardia, aguardando um certo serenar das respostas trazidas pelo vento.

No entanto, e por a cura ser um processo longo, as viagens de carro entre Tóquio e o telefone do vento, são uma forma de se conhecerem e conciliarem gostos e cumplicidades.

"Longas viagens de carro, horas intermináveis de condução, melodias de fundo, gargalhadas e silêncios confortáveis, verdadeiros haikus visuais para mais tarde recordar e que reforçavam os nervos e os músculos do coração."

O que é dito nas entrelinhas coloca-nos muitas questões sobre temas sensíveis, como a morte por doença, acidente, catástrofe natural ou até mesmo por suicídio, e aí sem evasivas ou desculpas, se afirma que o suicídio tem o rosto dos que lhe sobram, ainda assim é mais sobre luto e superação do que a morte, embora não esconda as ideias que pairam naquelas cabeças em dias mais negros. 

"Takeshi convenceu se de que era por causa dos sobreviventes, dos que ficavam, que a morte tinha, de facto, um rosto. Sem eles, a morte seria apenas uma palavra feia. Feia, mas no fundo, inofensiva."

O luto é o enxertar dos dias com estratégias de superação, como o homem da moldura, que nos dá uma metáfora para a forma como podemos ficar a ver a vida depois de partirem aqueles que mais amamos, uma constante recordação, retalhos de uma vida que só se vive por memórias: momentos emoldurados e espartilhados num rectângulo do tempo. Ou então, uma constante necessidade de fragmentar, aceitando e catalogando breves acontecimentos, emoldurados de felicidade, pequenos momentos felizes que não invalidam nem fazem esquecer o quadro maior da dor e do luto.

Ainda assim, tudo é dito com delicadeza e até doçura, como se com esses ingredientes pudéssemos amparar melhor a dor e aceitar que a perda nos deixa amarfanhados e desajeitados para aceitar novos sentimentos de pertença e dedicação. É preciso voltarmos a deixar que nos abracem, é preciso aceitar e deixar entrar novamente o amor.

"We need four hugs a day for survival, eight hugs a day for maintenance and we need twelve hugs a day for growth."                                  
                                                                                                    Virginia Satir

«O que contamos ao vento», de Laura Imai Messina, tem um enredo que nos enche de lugares, música e pensamentos, muito além do que é narrado e, se o amor é como a terapia, na qual é preciso acreditar para que funcione, um telefone ligado a nenhuma linha ou até um livro com muitas perguntas, podem igualmente dar respostas ou abrir a mente em outra direcção. Basta acreditarmos! E julgo ser essa a premissa principal deste relato: o poder de acreditar e sentir, muda tudo. Muda-nos.

Ao longo da leitura fui compilando uma lista de músicas, a maioria consta no livro, outras vieram por acréscimo, como aquela que mais pano de fundo a esta leitura:





terça-feira, 30 de março de 2021

«A única história» de Julian Barnes :: Opinião


Se o romance for uma escada sem degraus é uma rampa ascendente ou descendente? E onde nos leva?

Julian Barnes escreve-nos uma história de amor que começa de forma arrebatadora, pois nenhum deles sabia estar disponível para amar; Casey Paul pela tenra idade e alguma inocência e Susana por achar que na sua idade, já não amaria mais. No entanto, este amor, que dura décadas, é encarado de forma diferente para cada um deles e até para uma terceira pessoa que pode ser qualquer um deles caso se ponha a olhar de fora para aquela relação, uma relação que marcará a reputação de ambos na pacata vila do clube de ténis.

"Compreender o amor é para mais tarde, compreender o amor raia o sentido prático, compreender o amor é para quando o coração arrefece. O amante, extasiado, não quer compreender o amor, quer experimentá-lo, sentir a intensidade e o olhar sobre as coisas, o acelerar da vida, o egocentrismo totalmente justificado, o desaforo lúbrico, a prosa alegre (...)"

E julgo que o livro pretende precisamente isso: compreender o amor, fazer um balanço de como arrefeceu a relação e o peso que daí resultou. No entanto, falta-nos, faltou-me a mim, a perspectiva de Susan, ela é uma presença apagada, uma presença ausente, cujo a dependência do álcool a tornou numa presença corrosiva e falhada, deixando o leitor na dúvida sobre o peso da culpa dentro desta relação, seja a de Susan, seja a de Casey Paul, fazendo o leitor questionar sobre que mais existia dependência. 

"(...) não vi o pânico que estava dentro dela. como podia adivinhar? Pensei que era só dentro de mim. Vejo, já tarde, que ele está em toda a gente, é condição da nossa mortalidade. Temos códigos de conduta para o dissipar e reduzir, anedotas e rotinas e tantas formas de alheamento e diversão, mas há pânico e desordem à espera de irromper em todos nós (...)"

Ficamos a pensar na verdade e no lado pelo qual é narrado essa verdade, juntamente com a culpa e uma tristeza crónica, presente em quase tudo o que é narrado nas entrelinhas deste amor. Tal como os períodos bons e de euforia, que afirma ter existido, este relato, caótico e ao sabor da memória, dá-se mais aos momentos chave em que "o tronco racha a direito até ao veio" ou seja, os momentos em que a perda da inocência causou ruptura e crescimento, um confronto com a realidade, como as considerações do sexo triste:

"Sexo triste é ela estar drogada com um comprimido para animar, mas eu pensar que, se a foder, posso animá-la um pouco mais. Sexo triste é eu estar tão desesperado e a situação tão sensível à pré-história, tão agressiva e o próprio equilíbrio da alma tão incerto (...) Sexo triste é sentir que estou a perder o contacto com ela e ela comigo, mas que essa é uma maneira de dizermos um ao outro que a ligação ainda lá está, (...) que nenhum de nós desiste (...) Então descubro que insistir na ligação é o mesmo que prolongar a dor."

E a dor, essa dor tão intensa e corrosiva, que mesmo diminuindo tanto as expectativas deste amor, torna o que aqui é narrado numa leitura em sofreguidão mas sem saber muito bem do que realmente se gosta ou do porquê de nos sentirmos tão apegados a esta única história.
Faz-nos pensar se parte desta "única história" não é para além do amor, ou seja, a própria culpa e o pânico aliado à idade e ao medo, quando se ouve muito alto o "ranger das dobradiças".

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2021

“Manual de sobrevivência de um escritor”, de João Tordo :: Opinião

 




Auster, Melville, Rilke, Mishima, Pessoa, Kafka, Tolstói, Dostoiévski, Levi, Camus, Javier Cercas, Javier Marias, John Cheever, Ian McEwan, Raymond Carver, Joyce, Philiph Roth, S. King, Denis Johnson, Bolaño ou Baudelaire... "Sem todos estes nomes, não me teria tornado escritor. Sem a companhia de todos eles, sem a companhia dos mortos. Por isso, concluo que um escritor é uma estranha e improvável mistura de tradição colectiva e patologia individual, de uma ferida aberta, muito particular, e do caminho que outros, antes de si, lograram explorar e que ele vai percorrendo com paciência e humildade."

Regressando a uma aventura na feira do livro em 1986 até ao confronto com "Crime e Castigo", João Tordo traça um retrato de como pode ser a sobrevivência de um escritor a braços com tamanho legado que são as vozes da literatura, vozes essas que povoam o universo alienígena desta legião de infelizes e insanos que são os escritores, um regime de eremitas, donos de uma disfunção social que os remete para o isolamento, a depressão, a melancolia e uma dispersão caótica em perpétua mudança que só encontra estrutura (ou cura) na ficção. 

"A literatura nasce de uma necessidade quase atómica de ordenar aquilo que surge catastrófico, de reunir num volume a fragmentada experiência humana."

Não será ainda mais fragmentada por tantas referências que habitam o bom leitor?
E ir em busca dessas referência e ver como se cruzam com o autor e a escrita dos seus livros, é a meu ver o ponto alto deste Manual. É com muitas palavras de outros que Tordo organiza e justifica as suas, quando compõe, capítulo a capítulo, passando a pente fino este ofício que vive de inquietude, da emoção, da linguagem e de buracos da agulha.

"Se a emoção é a raiz, a imaginação alimenta-se de quê?"
"Olhar para a vida com a perspectiva de descobrir o buraco da agulha, o lugar através do qual entra a possibilidade de uma história. (...) o verdadeiro mistério é o visível."
"(....) perguntar o porquê (...) não importa; a pergunta é desinteressante; tem um travo académico que abala o fundamento de toda a efabulação."

Todo o peso está no poder da efabulação, salientada na obra de nomes maiores da literatura pelos quais nos vamos perdendo entre realidade e verdade e ficando despertos para inúmeros títulos pela forma como Tordo fala deles.

Sobre «Detectives Selvagens»:
"O enredo está presente, mas não passa de uma sombra - traçar um enredo para esse livro é como tentar seguir todas as ramificações de uma teia de aranha ao mesmo tempo."

Sobre «O ano da morte de Ricardo Reis»:
"(...) a melancolia é a cor do livro; e a melancolia é uma forma de beleza que merece aplauso."


"Os Malaquias" de Andrea del Fuego - Opinião

 


Creio que o leitor aterra em "Os Malaquias" tal com o raio lhes entra pela casa e lhes esturrica a hipótese de serem uma família com princípio, meio e fim. 
A família está em risco tal como a localidade rural Serra Morena que, em bagunça, é um espelho líquido do progresso, ou seja, a modernidade chegou em forma de água devido a uma barragem que surgiu numas terras ali próximas.

Seja pelo progresso seja pela fatalidade que lhes aconteceu, os três irmãos Malaquias são separados e ganham sortes diferentes, às mãos dos interesses alheios mais diversos e assim passarão a próxima década - que se atravessa nos olhos do leitor como outro relâmpago, já que a autora tem a capacidade de num parágrafo narrar a história de uma família e em três ou quatro páginas trilhar uma década como quem corre uma maratona. E fá-lo de forma muito concisa e quase cirúrgica, escolhendo palavra a palavra e uma ordem muito peculiar para que todas as imagens ganhem uma vivacidade determinante e assim possamos ligar-nos às personagens. Ou não. Pois tal cirurgia causa uma certa estranheza.

"Júlia (...) recebia cuidados para não perder o viço dos doces de vitrine."

Mais peculiar ainda é termos outras presenças ou estruturas nesta narrativa que têm tanto viço como os vivos e contribuem tanto ou mais para o curso da história.

"Geraldina Passos morreu no começo do verão, mas enterrar o corpo não apagou a figura. Restou uma espécie de memória, que mesmo minúscula e transparente tinha uma estrutura, permanecia organizada e material. Circulava como o pó de uma penteadeira não encerada, a respiração de alguém a faria levitar."

E levitamos!
Muitas vezes perdidos, outras perplexos com a raridade com que a autora conjuga certas palavras. 

"(...) Nico deu por exata uma surdez parcial, sequela do trovão. Ele ainda se refrigerava debaixo da Lua mesmo adulto (...). Absorvia luz feito bebê sorve o leite da mãe, fortalecendo as vértebras, transformando galhos de cálcio em toras de madeira nobre."


quarta-feira, 27 de janeiro de 2021

«Fica comigo» de Ayòbámi Adébáyo :: Opinião

 


Uma mulher cheia de coisas impactantes dentro de si, e usar o "cheia" não é inocente, despoja-se de anos de vida em comum e regressa a si desfeita como um laço que a vida afrouxou ao longo de anos de sofrimento às mãos das exigências feitas às mulheres: a obrigação de ter um filho e tendo-o, saber mantê-lo vivo, senão, substituí-lo por outro. Dito assim parece frio e é precisamente dessa forma que a escrita de Adébáyo nos faz crer que a sociedade nigeriana o exige às suas mulheres. O casamento pressupõe descendência, dois não são uma família e se uma mulher não chegar, outras mais lhe deverão suceder. Se a mulher não tem escolha, o homem também não.

"As coisas que importam estão dentro de mim, trancadas no meu peito como num túmulo, um sítio onde tudo pode permanecer, o meu cofre do tesouro em forma de caixão."
Neste livro de Ayòbámi Adébáyo não ter um filho é estar em guerra e ter esse mesmo filho é ter um escudo para essa guerra. Na história de Yejide e Akin e em certa parte de Dotun, descobrimos que essa guerra tem raízes ancestrais e trata-se com mesinhas e rezas, e oprime as mulheres de forma esmagadora, mas é igualmente nefasta para os homens com problemas que não podem sequer ser mencionados como problema.
Este livro ganha ainda mais intensidade por dar voz ao marido e os capítulos na sua voz antecipam segredos ao leitor, muito antes de se adivinharem para a restante família e revelam uma angústia e um desnorte face à sua posição na sociedade e na família, uma desordem maior que ele.
"E é verdade, ou meia verdade, mas ainda assim verdade. Além disso, que seria do amor sem as meias verdades, sem as versões melhores de nós próprios que exibimos como se fossem as únicas possíveis?"
As tradições da Nigéria, os presságios entre os dois lados da família, as meias verdades entre um casal, a guerra civil como pano de fundo, tudo contribui para que esses filhos, tido ou mortos, se tornem num elemento quase distópico, elevando a culpa a patamares que resvalam para o abismo, não sem antes de um desfile de culpa que tortura e bombardeia homens e mulheres. E este casal afunda-se, dia após dia numa dor silenciosa, numa ansiedade aflitiva que os leva a tomar atitudes que ao nossos olhos parecem incompreensíveis e de outros tempos.
"Durante o nosso primeiro ano de casados, sonhei muitas vezes com os estudantes mortos. Costumava vê-los estirados no asfalto, numa fila interminável, todos vestidos com calças de ganga azuis e justas. A Yejide estava sempre de pé do outro lado dos corpos. Eu tentava chegar até ela mas havia demasiados corpos no caminho."
Havia demasiados corpos no caminho é uma frase que faz todo sentido na história deste casal e que cedo surge no enredo mas o leitor não tenho noção de que corpos são esses. Mais pesados que esses corpos são a culpa, a mentira, o segredo e as vontades da família.

"Lá em baixo estava tudo em silêncio. O Silêncio era uma presença que estendia o braço e me dava murros na barriga (...) Tinha a certeza que as mãos (...) me tinham imprimido na pele marcas que brilhavam sub a lâmpada fluorescente que iluminava o nosso quarto, para que o meu marido as visse, marcas que nenhum banho que eu tomasse apagaria."

terça-feira, 26 de janeiro de 2021

«O Cardeal» de Nuno Nepomuceno

Neste novo regresso de Afonso Catalão, mas também de Adam Immanuel, a trama de «A Morte do Papa» ganha continuação neste «O Cardeal», alimentando novos enredos que desembocam em crimes que ganham inspiração em mais factos reais, tal como os episódios nos meandros dos conclaves polémicos.

As areias movediças que são os escândalos da Santa Sé e dos seus supostos santos padres são novamente expostas às mais actuais, mas já batidas, criticas. A religião católica está em crise e já não é surpresa! A violência, a homossexualidade, os conclaves tendenciosos e certas ocultações de verdades, ou apenas meias-verdades, fazem novamente parte do enredo e aqui separa-se pouco do livro anterior.

Ainda assim, o livro é rico em detalhes e descrições que pretendem relembrar o leitor dos episódios dos livros anteriores, posicioná-lo geograficamente desde Lisboa, Cambridge ou o Vaticano e esclarecer muito bem quem é quem, mas senti que isso atrasa mais o enredo do que lhe imprime o ritmo habitual de um thriller, especialmente até atingirmos a segunda parte, ou o topo, e nesse aspecto compreendo a escolha do autor, que nas palavras de Andy Andrews nos avisa logo que a subida vai ser mais lenta e menos recheada de novidades. 

"Todos desejam atingir o pico, mas não há qualquer crescimento no topo de uma montanha. É no vale, onde nos esforçamos arduamente por progredir pela relva luxuriante e pelo solo rico, que aprendemos e nos tornamos capazes de atingir o nosso novo cume."

Este aviso também dá uma perspectiva mais humana e mais terrena às decisões dos personagens, e isso é visível nas fragilidades que vários personagens apresentam, como é o caso de Catalão que acusa uma maior dependência da família e sente a pressão dos seus fantasmas. Porém, isso não os diminui em nada, mostra é ao leitor as diferentes preocupações com decisões mais ou menos estratégicas e isso também é dito, quase de forma profética, logo muito no início, com a fábula sobre o burro e a moral que decidiu retirar da história:

"É quando todos os outros estão a olhar para o lado que devemos desferir o nosso ataque."

Moral essa que pode ter várias interpretações face a alguns eventos que ocorrem com certas personagens.

Um detalhe em que «O Cardeal» difere dos anteriores, é intensificando a dimensão mais humana que o autor dá à maioria das suas personagens, explorando esses vales em que cada um caminha e os picos dos quais é tão fácil tombar; carregando menos na violência e nitidez dos cenários dos crimes como aconteceu em «Pecados Santos» e diminuindo o lado histórico e interpretativo das religiões, como em «A Célula Adormecida» (o meu favorito), no entanto, não deixa de fora o simbolismo associado a muitos aspectos da religião, a actualidade que fervilha com polémicas e alguma critica social. 

Ainda assim, sente-se saudades de um enredo onde se sofra junto com as personagens ou se vibre com o ritmo do enredo, como senti com os títulos anteriormente citados. Ou então todo um novo elenco e outra paisagem para vermos mais um salto na carreira do autor.


quarta-feira, 20 de janeiro de 2021

«O outro lado do adeus» de Ann Hood - Opinião

 


Gosto de livros sobre livros, cujo o enredo se desenvolve em torno de outros livros e por eles os personagens vivem outra dimensão das suas dores, perdas, ansiedades, lutos, desamores e claro, a redenção, o perdão e a descoberta de um outro caminho possível, tanta vez revelado pelos livros.

" Partiremos agora, para que este momento
permaneça uma memória perfeita...
Deixa que esta seja a nossa canção e pensa
em mim sempre que a ouvires."
                                                                                                Uma árvore cresce em Brooklyn, Betty Smith

Ann Hood junta as suas personagens em torno de uma selecção de livros que mensalmente são alvo de discussão numa comunidade de leitores que reúne de forma peculiar e corre atrás do simbolismo escondido em muitos livros.

Os participantes são desde cedo apresentados numa reunião de início de ano, onde Ava entra por ter pedido à sua amiga Catie para participar, como forma de espairecer as ideias e os dias depois do marido a ter trocado pela activista do tricot, de onde surge uma imagem muito adequada ao enredo que é o facto do marido ter um para-choques fofo envolto em lã, como que aplacando e diminuindo o impacto do que pudesse vir na direcção dele.

Os livros e as personagens vão se completando à medida que o grupo vai reunindo mês a mês e cada uma das partes do livro abre com citações da obra a debater, umas mais clássicas do que outras. O maior mistério gira em torno de um livro raro que acompanha todo o enredo e faz Ava regressar ao passado em busca de respostas que julgava há muito respondidas. E que ainda gritam por mais respostas com o surgimento de Hank, um polícia que na década de 70 esteve relacionado à sua família por motivos mais profundos dos que Ava sabia.

"Hank não lhe respondeu. Recostou-se na sua cadeira e aguardou. Há muito tempo que aprendera que, ao interrogar alguém, as pessoas falavam mais se ele ficasse calado. As pessoas não conseguem suportar o silêncio; têm de o preencher."

É já quase no final esta consideração por parte desta personagem secundária, mas reflecte muito bem a dificuldade e o peso do silêncio que acompanha o enredo. Ainda assim é um livro leve e fluído que nos desperta para tantos outros livros e é pena que alguns deles, referidos no início, não tenham tido mais  destaque. E tal como se pretende, dentro do género, tem um encadeamento das acções que vicia o leitor em querer saber sempre mais tornando a leitura compulsiva.