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domingo, 15 de junho de 2025

«A Subtração» de Alia Trabucco Zerán - Opinião

 "Recordar é a nossa forma de luto" (Herta Mülller)

As palavras não são de Trabucco nem das personagens dest'A Subtração, que como o próprio título indica, tira mais do que acrescenta, porque eles habituaram-se a calar, a desconfiar, a temer, a sofrer. Hoje, querem recordar, exorcizar e superar. Eles querem paz no silêncio que há muito caiu sobre as suas cabeças. Mas o silêncio é em si mesmo um luto e existem lutos que se infiltram na linguagem, marcam o tempo e o espaço colectivo e corroem de forma palpável até o vazio, as ausências, os fantasmas. Corroem a palavra e eles, nós, todos nós, precisamos da palavra para sarar. Da palavra dita. De cada palavra ouvida.

"E eu, mais uma vez, deixei de ouvir, tentando fugir ao peso daquelas frases, convencida de que, como quando era criança, cada pessoa não vivia uma série de anos, mas sim um número predefinido de palavras que conseguia ouvir durante a vida (...)"

sexta-feira, 10 de janeiro de 2025

"Os Dias Contados" , de João Tordo :: Opinião

Em "Os Dias Contados", João Tordo transporta-nos para fevereiro de 2013, onde um acidente na Serra Nevada desencadeia uma série de eventos que culminam no primeiro grande caso da subcomissária Pilar Benamor. Este thriller mergulha-nos na personificação do mal, mas não esquece as crises familiares e existenciais de cada personagem, com um toque de humor muito peculiar, especialmente na dupla pai e filho que foram as partes que mais me conquistaram.


Por outro lado, quando peguei no livro achava que ia ler sobre um novo caso de Pilar Benamor, completando assim a trilogia, mas vê-se logo que não fui pesquisar sobre o livro e o processo de escrita, caso contrário teria percebido que um acidente pessoal fez nascer a personagem de Flores Baltazar que com os (seus) dias contados virou o livro numa prequela 😉 e em muito boa hora.

"Ela estacou. À luz do candeeiro de rua, naquele princípio de noite fria, vi uma mulher diferente daquela com quem me casara - alguém que, por via da relação com um homem como eu, se havia tornado, ela própria, uma dependente. Alguém que existia em função de apagar os fogos que eu ateava - vezes e vezes sem conta, repetidamente -, devido à minha personalidade ou às características mais empedernidas do meu carácter, que eu gostava de apelidar de criativo. Eu intuía que esse tempo estava a chegar ao fim; só não sabia ainda como.”

quarta-feira, 21 de agosto de 2024

«O nome que a cidade esqueceu» de João Tordo – Opinião

“Para quem isto que escrevo, então?
Resposta: Para ti, mas não para ti:
para mim; para ti em mim.”
J. M. COETZEE, A Idade do Ferro

Pelas palavras de Coetzee entramos na vida de Natacha e George B. e desde cedo sabemos que muito dos outros ficou dentro deles. Em parte, um muito que ficou por resolver e com quem fazer as pazes.

Embora as circunstâncias sejam muito distintas, fruto daquilo que não se controla; ambos estão exilados, não obstante serem livres. As suas acções estão presas ao passado, ao medo, à solidão, mas essencialmente ao medo de ter medo, de se magoarem ainda mais, de não saberem com quem contar.

Assim, o livro divide-se porque os dois caminharão em sentidos opostos, George B. não vai superar o seu isolamento, mas Natacha vai florir e abrir-se ao mundo e às pessoas. No meio, conheceremos as histórias de cada um deles e de quem ou o quê, os moldou a serem satélites. E pensamos...

De quantos satélites se compõe a nossa história? Quantos orbitam perdidos no espaço escuro e imenso que são as memórias e o passado? Quantos se tornam lixo espacial? Ou especial?
E o que é que os satélites têm a ver com a história? Muito! Os satélites e o espaço. O vazio!

domingo, 11 de agosto de 2024

Amy e Isabelle - Opinião - Opinião

“A vida, delicada como um tecido, podia ser rasgada pelos golpes caprichosos de um momento aleatório e egoísta.”

E a frase não podia ser mais verdadeira e transversal à história das mulheres que encontramos nos livros de Strout e mesmo este sendo o seu primeiro romance já se sente a provocação e o confronto geracional, especialmente no feminino e que povoará a relação mãe-filha em Barton ou até mesmo a forte e acutilante Kitteridge.

Em «Amy e Isabelle» uma insegurança disfarçada e uma certa indiferença, caracterizam filha e mãe, respectivamente e a conturbada relação entre ambas que de forma tentacular ultrapassa as fronteiras do doméstico, seja por estarem integradas numa comunidade próxima, seja porque a dada altura trabalham juntas. Ainda assim, a hostilidade aumenta entre as duas, depois do ambiente ficar envolto em mistério e segredos, transformando a atitude de cada uma, embora o início da idade adulta faça mais estragos que qualquer outro evento.

“O verdadeiro problema, claro, era que ela e a mãe passavam o dia todo juntas. Amy tinha a sensação de que as ligava uma linha negra, uma linha não maior do que um risco feito a lápis, talvez, mas, ainda assim, uma linha omnipresente.”

E essa linha nunca se apaga em todo o livro, tal como uma outra que une as mulheres do escritório, reforçando que quando é preciso são aliadas umas das outras, mostrando uma análise muito interessante por parte de Strout sobre os ambientes por onde o mulherio prolifera.

segunda-feira, 15 de julho de 2024

«Estela sem deus» de Jeferson Tenório :: Opinião


"Escutei e concordei com tudo. Não estava disposta a discutir nada com ele. Porque eu estava me aproximando do lado esquerdo do meu coração, então era preciso calar, calar até que o momento exato surgisse, até que meu grito pudesse sair puro e vulcânico, livre das amarras. Livre do peso dos homens.”
É curioso voltar a uma leitura através das frases a que se dá destaque, juntamente com um regresso ao livro anterior por aquilo que se escreveu, e ver as semelhanças que não foram sentidas aquando da leitura, no entanto, não é possível ignorá-las. A procura por um pai e a aspereza das relações entre as pessoas, juntamente com a racialização, a fé, a família, a educação (e os livros!) e o abandono, deixam feridas abertas em cada personagem e ESTELA não é excepção.

quinta-feira, 11 de julho de 2024

«Sono» de Nick Littlehales :: Opinião

Ler «Sono» de Nick Littlehales é aprender que dormir 8h é um mito e só contribuí para a nossa ansiedade e é ficar desperto para termos como power nap, jetlag social, lâmpadas solares, dietas de luz, colchões e roupa de cama equivalente a nuvens, equilíbrio digital, a abordagem R90 e a controversa técnica de mouth taping.

"Ir para a cama quando não estamos cansados ou preparados para o fazer apenas causará problemas, e sentirmo-nos tensos por causa disso a meio da noite não nos ajudará a voltar a adormecer. Assim que começa a preocupação, libertam-se as hormonas do stress, como a adrenalina e o cortisol, e ficamos ainda mais alerta."

Mantendo essa ideia como a principal, já que o mito das 8h de sono é um "tamanho único" que claramente não serve a todos e juntando a organização do sono e do dia em períodos de 90m (Abordagem R90), sem esquecer que precisa tanto combater o jetlag social como reduzir o excesso de cafeína = «ser uma sombra nervosa de si próprio e claro» – e reduzir o nº de horas de uso de equipamentos, essencialmente o pc/tablet e o telemóvel.

Manter esta dieta de aparelhos e apimentar a vida com mais caminhadas, desporto em geral, música que estimule as ondas delta (para de noite) e as ondas beta (de dia!) e estipular períodos de 90m para organizar o dia-a-dia será o essencial para melhorar e reprogramar o cérebro para tempos de sono de qualidade.


Na Abordagem R90 há princípios básicos:
- acordar pelo menos 90m antes da hora de estar apto para o trabalho ou no trabalho;
- é importante manter sempre horário de acordar, mesmo quando não precisa, para não dar informações erradas ao organismo;
- organizar ciclos de 90m para estruturar o seu dia, seja com actividades, períodos de sono, de lazer;
- reduzir ou anular dispositivos antes de dormir (dieta de luz)

segunda-feira, 17 de junho de 2024

"O segredo dos teus olhos" de Eduardo Sacheri :: Opinião

“O segredo dos seus olhos”, aclamado primeiro romance de Eduardo Sacheri, foi adaptado ao cinema por Juan José Campanella, arrecadando diversos Prémios, entre eles, o Óscar de Melhor Filme Internacional (2010) e um Goya e ainda em 2016 foi inserido na lista dos 100 Melhores Filmes do Século XXI pela BBC. As ovações não são em vão, tanto livro como filme são dois objectos de culto distintos e amplamente intensos.

“Muitas vezes me surpreendeu notar no meu espírito certa alegria culpada perante os horrores alheios, como se a circunstância de sucederem coisas pavorosas aos outros fosse um modo de afastar da minha vida tais tragédias. Uma espécie de salvo-conduto.”

Benjamín Chaparro era o dono desse salvo-conduto, no entanto, um homicídio de uma bela mulher e o coração dilacerado do marido porão chaparro numa luta obstinada por descobrir o culpado, como se esse crime lhe desse “a oportunidade de ver reflectidos, nessa vida destroçada pela dor e pela tragédia, os fantasmas dos meus próprios medos.” 

domingo, 16 de junho de 2024

«O Samaritano» de Mason Cross - Opinião

Mason Cross tem publicada em Portugal a trilogia dedicada a Carter Blake, um operacional que satisfaz os pedidos do FBI quando é preciso encontrar quem não quer ser encontrado. A história que acompanha o percurso deste asset não é desconhecida das séries do grande público ou dos enredos típicos dos page turners habitualmente viciantes e frenéticos. E embora se perceba que mais tarde ou mais cedo, Blake saberá demais e tornar-se-á ele mesmo um alvo, a história não desilude, antes pelo contrário, é a perspectiva e os conhecimentos do próprio Blake que aceleram o ritmo da acção. 

Em «O Samaritano» a acção centra-se num homem que supostamente ajuda mulheres cujos carros avariam à beira da estrada. Mas será que avariam mesmo? Será ele uma ajuda?

Claro que não! No entanto, não é nada a que os detetives Allen e Mazzucco não estejam habituados: as mulheres são os alvos principais de determinado tipo de crime e o nível de violência tem escalado nos últimos, mas os corpos que agora são encontrados têm uma mutilação caraterística, um corte que é uma assinatura. 

No rasto dessa assinatura surge Blake, que desconfia de um outro profissional que ele conheceu bem.

“- É um local ótimo para se largar corpos e não se trata do trabalho de um novato. Até um recruta o perceberia imediatamente, (…).

Era verdade. Tudo o que haviam visto até ali apontava para que o corpo fosse a última vítima de uma série, e não um crime isolado. As feridas da tortura mostravam paciência, deliberação, confiança. Comedimento, até, se isso não fosse uma contradição. Tivera o cuidado de manter a jovem viva durante algum tempo. O golpe mortal fora desferido com determinação absoluta, à primeira tentativa. Várias pessoas tinham comentado o profissionalismo da sepultura. A sorte fora a única razão para o corpo ser descoberto. Tudo somado, apontava para a obra de um assassino experimentado. Mas não era a verdade completa. A verdade completa necessitava de mais reflexão antes que ela a revelasse a alguém, incluindo o homem em quem mais confiava no departamento. Sabia apenas que haveria mais corpos.”

Skills, calculismo, paciência e anos de treino, confiança e premeditação, anonimato, liberdade e impulsos homicidas tudo combinado com sorte, muita sorte a favor de um assassino que opera como um fantasma, até que um aluimento de terras o deserdou da sorte que lhe tem permitido correr o país a matar e a ocultar corpos. Crozier tem a preparação certa para continuar a sua obra: “Sem um corpo é impossível decidir conclusivamente que um desaparecimento é o resultado de um crime”, mas o facto de Blake conhecer o seu traço (o serrilhado da sua faca de mato) vem atalhar os planos de Crozier e bem sabemos que quando a pressão aumenta, os erros surgem.

E quando o caos se instala, todos são suspeitos e Blake não passa de consultor que oferece os seus serviços a troco de nada. E todos sabem que não há almoços de borla. Especialmente os detetives.


domingo, 28 de abril de 2024

«A mãe e o crocodilo» de José Gardeazabal - Opinião

“A minha mãe conta que comecei a caminhar para trás. Ela dava-me a mão e eu avançava de costas, sem sequer olhar. Não acredito. A minha mãe diz que foi precisa imensa paciência até eu me resignar a andar para a frente.”

“Os sentimentos são um lago onde as pessoas se molham até ao pescoço e eu estou do lado de fora porque não sei nadar.”

Este é Vladimir e nós vamos continuar na dúvida como ele. Ou vamos duvidar dele. É uma escolha do leitor e vai determinar o quanto nos podemos divertir, sensibilizar, rir ou chorar com as dúvidas dele, do crocodilo e do gato que domem juntos no cimento, com a mãe, os vizinhos e vamos ainda pensar nas suas dores e dúvidas perante o mundo. Vamos cavalgar juntos no crocodilo e filosofar com eles. 

“A minha mãe está há três anos a falar sozinha a tentar dizer o que pensa. Não é muito tempo.”

Vladimir é filho de pai solteiro e mãe solteira, vive a cuidar da mãe e de Benito, o crocodilo 🐊 Vivem os três à procura de se compreenderem enquanto esperam o futuro, porque o futuro é um sítio onde se pode gritar, mas... “Na nossa casa, o passado e o futuro são tão iguais que não lhes vemos a cara quando dançam.” 

Fora de casa, divide as horas entre o trabalho, onde salva o mundo à mão, ou seja, recicla e o supermercado alemão que vende coisas baratas, ajudando assim a alimentar o mundo que lhe dá de comer. Um mundo de flores de plástico, comida de plástico, ideias de plástico... tudo pronto a reciclar. É a era do capitalismo verde.

“Reciclar rima com ressuscitar. Foi a nós, pobres trabalhadores, a quem confiaram a ressurreição do mundo. Não é pouco.”

Mas e o amor? Como e onde se recicla?

“O amor, para mim, é primeiro imaginação e depois realidade. Para mim, amar uma mulher é ficção. Ficção e mentira são coisas diferentes, os pobres e os sozinhos precisam muito de ficção.”

Vladimir diz gostar de mulheres, mas não tem nenhuma para troca ou reciclagem, seja no passado ou para o futuro, mas isso que importa se o presente se faz de palavras alemãs, críticas ao progresso, debates sobre a Lua, a crise da habitação, a reciclagem e os subsídios, a emigração e a política... Eles (Vladimir e os amigos) avançam reacionários contra tudo e eles mesmos. Os despedimentos, os temporários, os arrendatários, os imigrantes, os plásticos e a fábrica. Reacionários e unidos eles são um substantivo maior - eles estão (são?) sindicalizados.

“Os mais velhos lembram-se, normalização quer dizer que vai morrer gente. Racionalização, que a matança será organizada. (...) Um ano depois do fim da reciclagem (e já depois do fim da mina) as pessoas pareciam transparentes, de uma maneira má (…) a pobreza perdeu o seu romantismo, não há mais nada a perder.”

Mas o que interessa isso tudo se o que Vladimir quer gritar ao megafone 📣é sexualmente activo, já sem pausas, sem vírgulas... SexualmenteActivo, uma palavra só, uma palavras que rima sem coxear. Rima com Noor.

E afinal, onde entra a mãe e o crocodilo no meio disto tudo?

O leitor talvez saiba. Ou não! E tu, vais continuar na dúvida?

“Uma luzinha entra pela claraboia. Suspeito de um sol extraordinário do lado de fora. Não saio, para continuar em dúvida.”

quinta-feira, 8 de fevereiro de 2024

«Poeta Chileno» de Alejandro Zambra - Opinião

A forma como chegamos a cada livro é quase tão importante como a leitura em si. Cada vez mais acredito que as expectativas e as histórias em redor de um livro, tema ou autor, podem determinar o rumo de uma leitura. Tanto que por vezes nem lemos o que lá está. Lemos o que achámos que íamos ler. Parece complexo, mas é essencialmente o poder da influência e claro, da auto-sugestão. Quando a coisa começa a correr de outra forma, a opinião enviesa e a leitura sofre com isso.

Quando ouvi falar deste livro, pela voz de Giovana Madalosso em conversa com Mariana Alvim, a forma como a autora brasileira descreveu aquela relação fragmentada entre pai e filho, eu fiz (só pode!) todo um desenho do livro na minha cabeça com o bónus de ter um gato à mistura. Sobre o livro propriamente dito eu não fui ler nada, a recomendação sentida e entusiasta chegou, especialmente porque eu tinha lido há pouco - e gostado muito - de «Tudo pode ser roubado», portanto o livro de Alejandro Zambra só podia ser bom.

E foi! 

Só não foi mais por culpa desta impaciência que eu às vezes deixo que tome conta das leituras, mas que felizmente já se amenizou quando eu vou escrever e quando me deparo novamente com o texto, com detalhes que eu mesma sublinhei, com passagens que eu marquei, toda uma selecção de momentos que me dão um novo olhar sobre o livro. É um olhar melhor. E aí apercebo-me de que gostei mais ainda da leitura e li efectivamente o que lá estava. A citação abaixo é a prova disso.

quarta-feira, 24 de janeiro de 2024

«Temporada de Furacões» de Fernanda Melchor :: Opinião

«Temporada de Furacões» de Fernanda Melchor é uma narrativa gargantuesca que se desenrola a um ritmo frenético, não só pela forma como os eventos acontecem (pelo menos até certa parte), mas pela escrita de Melchor, uma escrita de tirar o fôlego, como se subíssemos uma escadaria enorme. Interminável. Onde cada degrau é bem maior que o anterior e precisamos sempre de balanço para continuar a subir. As frases – e sim, as frases – muitas delas são de mais de uma página e narram uma enorme miséria, sofrimento e violência, mas ao mesmo tempo demonstram a riqueza bruta da escrita da autora.

A escrita é o furacão!

“(…) com os cabelos despenteados e as faces rosadas pela emoção, as mulheres da terra benziam-se porque podiam imaginá-la nua, a montar o diabo e a afundar-se na sua verga grotesca até à empunhadura, com o sémen do diabo a escorrer-lhe pelas coxas, vermelho como lava, ou verde e espesso como as mistelas que borbulhavam no caldeirão em cima do lume e que a Bruxa dava a beber às colheradas para as curar dos seus males…” 

segunda-feira, 15 de janeiro de 2024

«Limpa» de Alia Trabucco Zéran :: Opinião

"A mulher ficou calada.
Ele pediu-lhe por favor.
Ela levantou-se, ajeitou a saia, pegou no casaco e na mala.
- O que define uma tragédia - disse a mulher -, é que sabemos sempre como acaba."

Podia escolher o epílogo com as palavras de Camus, mas estas são tão ou mais agitadoras, quantas as vezes forem recordadas ao longo da leitura.

A senhora dona Mara López:
"Havia qualquer coisa nela. Era como um... deixem-me pensar. Um desapego. Ou não. Essa não é a melhor palavra. Um desprezo, é isso. Como se todos a aborrecessem ou lhe repugnasse todo e qualquer tipo de cumplicidade. Pelo menos era essa a sua aparência. A máscara que cuidadosamente colocava todas as manhãs."

O senhor doutor Jensen:
"Não sei descrevê-lo melhor, talvez vocês me possam ajudar. Como definiriam uma pessoa que não fuma, que quase não bebe, que antes e pronunciar uma palavra a pesa e calcula, de forma a evitar exageros que o façam perder tempo. Um homem  obcecado pelo tempo. (...) uma perpétua contagem decrescente."

Falta apresentar a menina. A patroa mais pequena. 
A menina morreu. 
Sim a menina está morta! A história pode ter vários inícios, mas o desfecho é esse. A menina morreu. A menina filha dos patrões está morta!

sexta-feira, 12 de janeiro de 2024

«Lucy à beira-mar» de Elizabeth Strout :: Opinião


"A tristeza no meu peito parecia subir e descer de acordo com... com o quê? Não sabia.
E o tempo mantinha-se frio, lúgubre.
Sobre o meu trabalho, eu pensava: nunca mais escrevo uma única palavra."

Mas ainda bem que escreveu! Ainda bem que Elizabeth Strout continuou este saga de Lucy Barton, pois para mim é como reencontrar pessoas que conheço (que vou conhecendo e de quem gosto) e sinto que me conhecem a mim, tal é a forma brilhante como a autora consegue captar sentimentos e sensações, narrando esta coisa de amar que em tanto parece diferente, mas que facilmente encontra semelhantes.

"Quase sempre, predominava a tal sensação de estar debaixo de água; de nada me parecer de verdade.
(...) A tristeza que subia e descia em mim era como as marés."

Foi dessa forma que a pandemia invadiu as nossas vidas, mergulhando-nos a todos em dúvidas e preocupações, afastando-nos com uma onda esmagadora que só pela força das marés seguintes quis contrariar o que poderia ser o destino e foi-nos deixando recuperar aos poucos. E é precisamente sobre afastamento e reaproximação que Strout nos fala neste quarto livro onde reencontramos Lucy e William, as filhas do casal e as memórias que teimam em surgir numa época mais que propícia a isso: o confinamento. 

"«A minha infância inteira foi um confinamento. Nunca via ninguém e nunca ia a lado nenhum.» E a verdade desta constatação atingiu-me em cheio nos intestinos e o William olhou simplesmente para mim e respondeu: «Eu sei, Lucy.» Disse-o de maneira automática, sem pensar nas minhas palavras, pelo menos foi o que achei."

Algumas dessas memórias permitem atravessar melhor esses dias quase desertos, outras bem que podiam não ter sido convocadas. Por isso, a pandemia afectou-nos de formas tão díspares. E uso sempre tempos verbais que me incluam, porque os livros de Strout são isso mesmo, viagens que fazemos com estes personagens que vão dentro de nós. 

"O Sol ia alto no céu azul, perto dele as nuvens brancas pareciam entufadas e, de repente, num ápice, o Sol escondeu-se atrás de uma das nuvens e alterou a aparência do mundo (...)"

O Sol aqui é a escrita de Strout, exímia em evocar nuvens que transformam pequenos entendimentos do nosso mundo, nem que seja o nosso pequeno-mundo-bolha de leitor.

*

Opiniões anteriores:

- «Oh, William!»

- «Tudo é possível»

- «O meu nome é Lucy Barton»

quinta-feira, 15 de setembro de 2022

“O meu nome era Eileen” de Ottessa Moshfegh :: Opinião


"(...) raramente sorria. Quando sorria, fazia um enorme esforço para impedir que o meu lábio de cima subisse, tarefa que exigia uma grande austeridade, consciência e autodomínio. Nem dá para acreditar no tempo que passei a disciplinar aquele lábio. Sentia deveras que o interior da minha boca era uma parte íntima, saliências e reentrâncias de carne húmida separada, por isso, deixar que alguém o visse era algo tão mau como abrir as pernas."

Otessa Moshfegh conseguiu redesenhar os contornos da solidão. Uma solidão bem afiada, decadente, sórdida e profundamente sombria e dentro dela está Eileen. 
Eileen Dunlop é protagonista e narradora deste enredo sufocante e caótico, para o qual é impossível não nos sentirmos puxados tal é o fascínio (e também alguma repulsa) por esta personagem de mente fantasiosa e rebuscada, dona de atitudes bruscas e arrogantes, mas também contida, púdica, perdida. 

Eileen é um misto de invisibilidade com lança-chamas, embora muito do que aconteça se passe só na sua cabeça, é na forma como o revela que se desnuda, seja com sensibilidade e atenção ao detalhe, seja na total crueza e fúria. Uma fúria reprimida.

"(...) quando a minha mãe faleceu, passou a beber gim. A melhor explicação que consigo encontrar é que talvez o gim lhe fizesse lembrar o perfume dela - ela usava uma eau de toilette forte, floral, mas acre, de marca Adelaide - e que talvez absorver a fragância da morte de algum modo o apaziguasse. Ou talvez não. Ouvi dizer que um trago de gim nos torna imunes aos mosquitos e a outras pragas. Por isso, talvez ele o bebesse tendo essa lógica por base."

Também Eileen tinha uma lógica semelhante. Engolia remorsos enquanto se empanturrava de gelado, misturando tudo com álcool e comprimidos, alimentando ideias tóxicas que lhe consumiam o corpo. Quando atingia o limite, expelia tudo a toque de laxantes, celebrando o festim de excrementos e as manifestações corporais que tanto a fascinavam.

"Eu parecia extremamente fastidiosa, insípida, apática e impassível, mas na verdade estava sempre furiosa, violenta, com os pensamentos em rodopio, a mente como a de um assassino. (...) Eu gostava de livros sobre coisas tenebrosas, tais como assassínios, doenças e morte (...) para estudar a macabra prática de extrair o cérebro dos defuntos pelo nariz como se fossem meadas de lã. Gostava de pensar no meu cérebro desse modo, emaranhado dentro do meu crânio. A ideia de que o meu cérebro podia ser desemaranhado, endireitado e, desse modo, refeito num estado de paz e sanidade, era uma fantasia reconfortante."

"O meu nome é Eileen" é um relato inteligente, obscuro e bastante equilibrado no quanto brinda o leitor com momentos de elogio e de delírio (e também com momentos desagradáveis) mostrando como uma família disfuncional pode danificar a imagem que uma criança tem de si e do mundo, mas mais ainda, é um relato sobre o mundo interior, a psique e o que ela não revela na convivência do dia-a-dia. 

"Por muito desprezíveis que fosse, as minhas colegas de trabalho não ocupavam um lugar cimeiro na lista de pessoas abjectas que fizeram parte da minha vida (...) As minhas colegas eram por demais taciturnas, insípidas e afectadas (...).
Consigo ainda recordar as imagens mentais que eu fazia delas em posições sexuais, as caras enfiadas nas partes pudendas uma da outra, contorcendo os narizes por causa do cheiro enquanto esticavam as línguas.
As minhas suspeitas em relação às minhas colegas de escritório não eram necessariamente depreciativas. Ajudavam-me a nutrir alguma compaixão..."

O desajuste, a indiferença, a falsa responsabilização ou culpa e a maledicência, juntamente com uma solidão profunda alimentaram em Eileen um fardo pesado e o uso constante da uma máscara fúnebre, mas mesmo assim, denunciadamente triste e só, Eileen era invisível.
E o manto da invisibilidade não era um crime seu. Cresceu com ela, enquanto desabrochava espicaçada e ridicularizada, numa infância descarnada de qualquer carinho, atenção ou sequer a lancheira preparada.

*

Leia mais sobre este livro no artigo de Gonçalo Correia/Observador por ocasião do Festival Literário da Madeira (2018) com a presença da autora.

terça-feira, 21 de junho de 2022

«Cai a noite em Caracas» de Karina Sainz Borgo :: Opinião

 


“(…) continuo a pensar que às palavras há que arrancar-lhes a pele. Não há outra maneira para perceber de que são feitas.”

A frase pertence a Saramago, mas encontrei-a enquanto relia este fabuloso (mas um tanto assustador!) «Cai a noite em Caracas» e fez-me todo o sentido, pois é exactamente o que se passa com as palavras que Karina Sainz Borgo encontrou, ou escolheu cirurgicamente, para aprisionar o leitor, trespassá-lo com um dardo de medo, tal como Adelaida Falcon vive os seus dias à beira de cair nas mãos dos algozes.

Um relato de sobrevivência que cruza escuridão, medo e silêncio com a desumanização bruta que gera força, coragem e engenho tudo na mesma medida gritante de violência, desenraizamento e luto.

“«Lá» era um passado. Um lugar do qual pareciam ter saído na condição de nunca mais o mencionarem. Uma palavra que ardia como o coto de um braço amputado.”

Um romance feito furacão distópico que com a força bruta do tom profético, lança um alerta sobre o quão ténue é a linha que nos separa de um passado esgaçado pela guerra e do quanto a história se repete. E olhar para trás afunda e Adelaida larga tudo, tudo o que é mais seu, os seus mortos, mas também os vivos, a quem a sobrevivência morde com os dentes afiados da culpa. Uma culpa que luta por migalhas onde até os afectos são racionados.

“Os vivos lutam às dentadas pelas sobras.”

Num país triturador, munido de uma infantaria violenta e impune, colocando todos em perigo e numa espécie de antecâmara do além-túmulo, seres na iminência de apodrecer lutam sem sequer ter direito a gritar. Tiram-lhes tudo, até o direito a enterrar os seus mortos. A ocupação chegou até aos ossos e não o inocente já não se distingue do carrasco. Por isso, abatida, desenraizada e numa demolição em espiral, Adelaide Falcon, filha, enterra Adelaide Falcon, mãe. Não há renascimento possível, nem na fuga nem nas chamas, restar-lhe-á a vocação para as palavras para conseguir firmar memórias, numa biografia fragmentada entre identidades separadas por um Oceano coberto pelo cinzentismo da História que castiga meninas e mulheres, mulheres-rocha que cimentam o mundo.

“Mulheres infelizes que, às pancadas, (…) que rebentam as suas dores contra um almofariz (…) uma linhagem de fêmeas a quem o mundo só deu braços para alimentar a prole que manava da genitália, sempre estafada de tanto parir. Mulheres rochosas, com coração de pão duro e a pele curtida (…)
sem braços nem coxas tão fortes como os daquelas negras, essas catedrais de carne preta que cantavam de pé diante de uma chapa de ferro. Maneiras de chorar semelhantes aos incêndios do campo. (…)
Fechei os olhos e inspirei com força os restos de uma biografia feita à paulada. A vida foi aquilo que aconteceu. Aquilo que fizemos e que nos fizeram. O tabuleiro onde nos abriram ao meio como um pão prestes a crescer.”

Karina Sainz Borgo conseguiu espelhar uma realidade dura (e assustadora) e ainda assim homenagear as mulheres numa Venezuela triturada e dilacerada, mas também qualquer mulher, unindo-as por uma ancestralidade que é transversal a todas, sem esquecer o lado de denúncia que qualquer cenário de ditadura e guerra exige, para assim cumprir com a militância que o testemunho de qualquer exilada, refugiada e migrante traz consigo e com a sua luta.  


sábado, 11 de junho de 2022

A Vida Secreta das Viúvas Panjábi de Balli Kaur Jaswal :: Opinião


"- O que foi? - perguntou ela, desviando o olhar. Ele esticou o braço e, suavemente, virou-lhe o rosto para o seu. Olharam-se e os lábios dela estremeceram. As gargalhadas encheram a divisão; eram como uma baforada de calor no primeiro dia de verão. Quando parara de rir, começaram de novo e repararam que estavam ambos a chorar. Limparam as lágrimas um do outro.
- Aquelas histórias... - disse Sarab. - Aquelas... histórias... - estava encantado."

Balli Kaur Jaswal traz até ao leitor «A vida secreta das viúvas panjábi» uma comédia romântica que junta uma pitada de erotismo e um toque de policial. Afinal há um crime por resolver que a pouco e pouco fica mais a descoberto, enquanto um grupo de viúvas ou bibis, de idades bastante variadas, unem experiências, preocupações, anseios e desafios que ditam para o papel sobre o disfarce de contos eróticos.

E digo disfarce, já que a sexualidade parece o tema central que desafia as restrições impostas a estas mulheres, aliás a todas a da comunidade panjábi, mas nas entrelinhas, dos contos e das conversas, as restrições e condicionalismos são inúmeros e atentam à moral e aos costumes que elas trazem desde a Índia até uma Londres supostamente cosmopolita. Por isso, Balli Kaur também aborda a comunidade londrina no mosaico que a caracteriza, tocando em temas como a imigração e a desigualdade de género. 
Mas muito mais.
Existem diversas camadas disfarçadas sob o estilo de um romance leve. Que o é. É verdade. Até por um lado um tanto inocente e sonhador, mas que também é receita de sucesso para fazer passar a mensagem e lançar algumas sementes, tal como as aulas que a protagonista, Nikki, começa a dar.

"- Mas o sexo e o prazer são instintivos, certo? Sendo bom e satisfatório, faz todo o sentido, até para a pessoa mais analfabeta. Tu e eu estamos apenas habituados a vê-lo como uma invenção avançada, porque apenas ficámos a saber da sua existência depois de aprendermos as outras coisas básicas, como ler, escrever, aprender a mexer num computador, tudo isso. Para as viúvas, o sexo vem antes de todo esse conhecimento."

Neste excerto entre Nikki, a inusitada professora e Jason, que mesmo sendo um homem também se vê a braços com as tradições, podemos perceber que as descobertas e revelações não estão reservadas apenas ao grupo de viúvas, aliás, um vasto grupo de pessoas tem aprendizagens a retirar dos desafios que irão testar esta comunidade panjabi de Southall que de um momento para o outro achou que era mais do tempo de juntar mais masala às receitas mais ancestrais.


quarta-feira, 26 de janeiro de 2022

"Bairro sem saída" de Fernando Ribeiro - Opinião

 


O convite de Fernando Ribeiro é que entremos no Bairro da Verdade (ou na Brandoa) no virar da década de 70 e o façamos pela sua mão poética e gótica a que já nos habituou, seja em tons mais ou menos melódicos, nas letras e poemas de que é autor. Chegada a vez do romance, o leitor é convidado a recuar a um dos bairros mais clandestinos das Europa e conhecer tanto aquilo que tombou, como a geração que vingou, com personagens peculiares e bem caracterizadas, numa linguagem e um traço de humor negro que fazem logo metade do enredo que acompanha Rogério Paulo desde que fez estremecer as paredes pela primeira vez.

"Dentro de um quarto de um hospital na capital, entre tremores e rebentamentos de águas, eu tentava nascer. Rogério Paulo. O crucifixo na parede agitava-se. Parecia que até Cristo queria sair dali para fora, enjoado com o marear desta frágil jangada. (...) a cada grito da minha mãe, os médicos recuavam um passo, como se no útero dela radicasse o epicentro que rachava o branco das paredes. (...) O seu Ai! era um eco distante, pequenino entre as vozes que invocavam uma agonia preocupada."

Entre o entulho dos assustados, uma jangada meio à deriva, abre caminho entre tremeliques da terra enlameada, assim nasce Rogério Paulo e perde-se Fernando, o primo que dará uma aura ao romance.
E, na agonia preocupada, que sempre ocupou as mentes e os dias de muitos dos habitantes da Brandoa, fossem essas preocupações fruto da época social e política que o país atravessava, e obviamente todo o impacto económico que isso tinha na vida em geral, havia ainda a própria precariedade do bairro e o quanto isso foi alimento para a criatividade necessária à sobrevivência diária. E parte deste livro é isso mesmo, um relato dessa criatividade entre miúdos. E graúdos.

"Eu lá crescia, imitando o Bairro.
Como um casaco aos buracos, o Bairro lá se ia remendando. Desengane-se quem pensar que a brisa da prosperidade já por ali soprava. Era preciso mais que água e sabão para desinfectar o charco. (...) Nos arredores da capital, o Bairro apresentava-se como um espantalho vestido de retalhos de louça, azulejo e cimento ao sol. Cá de baixo da estrada, os carros tiravam-lhe a fotografia enquadrada pela aritmética do desprezo. (...)
O ar incompleto das suas ruas era parecido ao daquela manga de camisa que não chega a dar a volta ao punho (...) Estava feito à imagem das pessoas que o habitavam por dentro, cabeças de milho arrancadas à força do êxodo rural, lançados nas pressas ao vento soprada através da clandestinidade das noites."

Na clandestinidade e à força, na boleia dos biscates entre passadas apatetadas, a Brandoa e a Buraca cresciam, desarmando a inocência das primeiras idades e fazia-os crescer um tanto desencantados com a vida. No entanto, muitos fizeram-se às ruas sem sinalização e deram com a saída!

"A caspa descia para os autos, como naqueles globos artificiais de neve com figuras natalícias, e, às vezes, por passar a mão na bochecha, o polícia de turno ficava com tinta na cara. Conferia algo de cómico à confusão das liberdades interrompidas pela voz de prisão que amontoava pessoas ao pé da esquadra, impelidas pelo tal arfar das esquinas."

terça-feira, 25 de janeiro de 2022

"A Ocupação" de Julián Fuks :: Opinião


"Todo o homem é a ruína de um homem (...) 
Não pensei se o homem era a ruína do homem quando cheguei para ver o meu pai. Não pensei em nada. Vi o seu corpo (...) Estava crescido o meu pai, como se o mal que sofria expandisse os seus contornos, como se o infortúnio aumentasse o espaço que ele ocupava no mundo

Um homem narra a ocupação que pode ser a doença e a gravidez. Um evento trágico em contraponto com um evento puro de alegria, ilógico e pleno de desconexão com todos os males que ocupam tantas outras existências, ocupações tóxicas, como a política que vai degradando tudo à sua volta ou como a própria vida que se esgota, à frente dos nossos olhos, adensando a impotência da qual somos feitos perante a doença e a morte. Perante a solidão que nos sobra.

Entrar em "A Ocupação" é quase como continuar em "A Resistência", mantendo vincada a temática do quanto o lado pessoal é político e o político afecta a esfera do íntimo. Um pouco também como «O avesso da pele» de Jeferson Tenório, livros que lemos seguidos como se as personagens pudessem - e estão! - no mesmo Brasil. Alguns familiares de Pedro podiam ter estado no hotel ocupado, Sebastián podia ter tomado parte em manifestações pelas mesmas causas que Pedro e ambos poderiam encontrar-se e discutir o quanto ter filhos é um acto de resistência. E assim, os livros dialogariam para além do que já dialogam na cabeça do leitor. 

"Sim, porque o mundo é feito de infinitos trânsitos, do movimento contínuo de seres. (...) uma infinidade de deslocamentos em sua génese. Toda a humanidade é feita desse movimento incessante, e só existe tal como a conhecemos graças a esses deslocamentos. (...) cada um de nós fez o seu caminho, mas que somos todos descendentes de um mesmo ancestral absoluto e longínquo. Esse raciocínio tem (...) algo de incestuoso, será sempre um amor entre irmãos (...) e toda a violência contra o outro é uma violência contra nós mesmos, fadada a destruir a um só tempo cada um se nós e a humanidade inteira."

"A Ocupação" narra a violência, a opressão, a política e as causas mais variadas, mas narra mais ainda a ocupação feita pela família, pelo outro. O que nos é querido e o que nos é estranho. 
Quanto da nossa ocupação mais íntima é herança do outro? E é aí, ainda mais, que os livros referidos se cruzam e a história de cada indivíduo se cruza com a de qualquer outro e talvez essa seja a ocupação maior a que Fuks se refere.

"Por mais de uma década fomos dois na mesma casa, apenas dois (...) uma intimidade maior do que aquela que cada um experimentava quando só, quando abandonado. (...) parecia impossível que não compuséssemos uma enciclopédia comum de ideias, um receituário de actos, um atlas de gestos, um dicionário de palavras particulares. Com essa bibliografia nunca impressa* (...) íamos nos ensinando a ser semelhantes (...)
E então quisemos ser três (...). Só de querer ser três já sentíamos a visita de um terceiro, um intruso entre nós, um estranho, um segredo."

*Ler este "A Ocupação" é também para o leitor a oportunidade de dar mais designações às palavras que já conhece, por exemplo:
- alegria: privilégio de distracção e desconexão 
- literatura: abertura para o diálogo
- escritor: alguém que soma fugas
- dúvida: partir a tranquilidade
- filho: ampliar o sentido da vida
ou
- ocupação: como chega fundo a raiz do desterro

segunda-feira, 24 de janeiro de 2022

«O AVESSO DA PELE» de Jeferson Tenório :: Opinião

 

"Às vezes você fazia um pensamento e morava nele. Afastava-se. Construía uma casa assim. Longínqua. Dentro de si. (…) E apesar de tudo, nesta casa, neste apartamento, você será sempre um corpo que não vai parar de morrer. Será sempre o pai que se recusa a partir. Na verdade, você nunca soube ir embora. Até ao fim você acreditou que os livros poderiam fazer algo pelas pessoas. (…) É com eles que te invento e te recupero. É com eles que tento descobrir quantas tragédias ainda podemos suportar (…)"

«O avesso da pele» de Jeferson Tenório arranca desta forma e diz muito sobre a incompreensão e a dificuldade de relacionamento entre duas pessoas. Uma realidade áspera, antes e agora, a de um filho que procura recuperar e entender as memórias e ausência, uma ausência feita de objetos, feita caos que comove.

A ausência de um pai, que pode ao mesmo tempo, ser um legado e um abismo. Um abismo do qual se abeira qualquer filho quando, entre pai e mãe começa mal. E daí ser tão pertinente: descobrir quantas tragédias ainda podemos suportar.

“(…) o que começa mal termina mal. Eram apenas duas pessoas quebradas. Cada um com os seus cacos. Cada um buscando uma escora. O amor como muleta. Naquele momento, a vida já havia tirado tanto, que vocês achavam injusto que o amor não pudesse servir como amparo. Acontece que, em vez de buscarem algo que pudesse reconstruíram os afetos, resolveram se cortar o que restou."

Pedro, o narrador protagonista, perde-se na geografia vasta dos afectos, a analisar o interior do labirinto que foi a vida familiar dos pais, e até a sua, colocando na equação questões cruciais que se cruzavam com o amor, que o delimitavam e definiram: a cor da pele! A pele na sociedade, a pele em todos os relacionamentos. A pele dentro da cabeça de cada um que é sempre mais do que pele.

Ou, e mais importante ainda, a conturbada relação entre pele e o avesso da pele!

Mesmo com o ocutá atrás da porta, a pobreza, o preconceito e a injustiça, espreitavam a cada esquina e aumentavam a ferida funda que ameaçava rasgar o avesso, mas Pedro tenta, neste relato, recuperar os afectos e entender todo o tipo de herança que lhe ficou. E o que fazer com ela.

“Li recentemente que as relações afetivas são formadas por duas categorias: dos egoístas e dos doadores. Você era um doador nato. Minha mãe era uma egoísta nata. (…) não a condeno por isso. (…) A infância nos fornece certas mágoas e é com elas que lutamos.”

 *

Jeferson Tenório explora os afectos, mas explora ainda mais o viver confinado ao meio-fio da vida, porque a sociedade te coloca nessa mesma berma, nesse lado marginal da vida e como combater para sair desse lado, onde se é posto de parte. E o romance explora diversas formas de viver à parte, por se ser lá colocado e por tanto se lutar pela integração, que a pessoa acaba criando uma margem só sua, um lado de dentro só seu… uma forma de alimentar uma solidão inacessível aos outros, talvez vencida, só pelos livros* e pelos afectos (quando possíveis).

"Vocês só sabiam lidar com os afectos na precariedade. Vocês não eram equilibrados. Eram equilibristas. A corda bamba como terreno dos afectos"

É nessa corda bamba que, com um pé bem atrás do outro – passos curtos mas nem sempre firmes - se avança, embora a dor e o trauma desenhem os contornos destas vidas, com que Tenório compõe um livro belíssimo. Duro, mas belíssimo.

 

* capítulo 7 de «O Jogo do Mundo» de Córtazar que eu fui descobrir graças aos livros aqui referidos

segunda-feira, 25 de outubro de 2021

«Laços» de Domenico Starnone :: Opinião


«Laços» de Domenico Starnone (Alfaguara, Junho 2018), inédito em Portugal até este livro, recebeu no ano passado a adaptação cinematográfica, «Laços de Família», filme de Daniele Luchetti que não recebeu críticas equiparáveis às tecidas ao livro, no entanto, saber da sua estreia em Portugal fez-me querer recordar este enredo e a releitura foi ainda melhor do que o primeiro contacto com esta família disfuncional, cujo a relação segue caminhos sinuosos após o abandono (e regresso!) por parte de Aldo, o pai e marido adúltero, após um caso com uma mulher mais nova. 

As fragilidades do enredo prendem-se com um lado banal das acções do casal: ele vive deslumbrado por Lídia e agradecido por ela olhar para ele, sentindo-se mais vivo do que nunca e Vanda encarna o papel de mulher traída da forma mais acérrima e tóxica possível, desgastando-se e desfigurando-se enquanto recorda o quanto hipotecou de si em prol do casamento e dos filhos. No entanto, é precisamente a forma como Starnone passa dessa banalidade, de forma muito simples e concisa, para as motivações que fazem girar este casal que torna o livro duro e brilhante. É como se o autor fizesse um raio-x ao lugar mais fundo e íntimo dos pensamentos destas quatro pessoas enquanto as décadas avançam e isto apenas em pouco mais de cem páginas. A capacidade de tecer toda uma cena, de anos, num pequeno parágrafo é de um poder de concisão que espanta e abana o leitor.

“Disparataste longamente, com pedante tranquilidade, acerca dos papéis dentro dos quais nos tínhamos aprisionado ao casarmo-nos – o marido, a mulher, a mãe, o pai e os filhos – e descreveste-mos – a mim, a ti, aos nossos miúdos – como engrenagens de uma máquina desprovida de sentido, obrigadas a repetir para sempre, os mesmos movimentos sensaborões.”

“As pernas sobem agora com base em hábitos adquiridos. E a tensão, a emoção, a felicidade do passo perderam-se, como se perdeu a singularidade da maneira de andar. Deslocamo-nos achando que o movimento das pernas é nosso, mas não é verdade, sobe connosco esses degraus uma pequena multidão à qual nos adaptámos, a segurança das pernas não é senão o resultado do nosso conformismo. Ou mudamos o passo – concluis – reencontrando a alegria do início ou ficamos condenados à normalidade mais soturna.”

Tudo nesta narrativa ganha outro impacto pelas palavras que são escolhidas, ci-rur-gi-ca-men-te e com uma precisão geométrica, não vá a palavra errada estragar o pouco equilíbrio que sobra ou arruinar uma pequena conquista. E ruina é bem o que se analisa com o final entregue às mãos dos filhos: Sandro e Anna. 

“Olhei-os demoradamente. As crianças empurravam-se, insultavam-se, a mãe ameaçava-os. Levava um sobretudo fora de moda, eles calçavam sapatos deformados. Pensei: é a minha família a voltar do esquecimento, e vi de repente o meu lugar vazio ao lado deles, convenci-me de que tinha sido aquele vazio a modifica-los daquela maneira.”

Dito de forma disparatada ou não, a verdade é que Aldo tece desde o início palavras chave que determinaram a relação familiar: o conformismo, o casamento castrador, os filhos como extensão necessária de um casal, um repetir de movimentos que esmaga vontades e alegrias e o aprisionamento que são os anos que ainda lhes faltam. E aqui importa salientar que os que sobram e actuam como espelho são os filhos, levantando questões como: numa família tem sempre de existir o carrasco e a vítima? De que forma os papeis se invertem? E para a plateia (os filhos) o que sobra? Com os anos nada mais se acrescentar a não ser o cansaço?

"Agradava à Lídia, agradava a toda a gente. E, enquanto isso, uma névoa ia cobrindo o passado em que me sentira lento e inconsequente. Desvaneceu-se a casa de Nápoles, desvaneceram-se os parentes, os amigos. Permaneceram vivos, persistentes, a Vanda, o Sandro, a Anna, mas só enquanto a distância não lhes retirasse a energia, não retirasse espessura à dor."

Esta ideia da espessura da dor versus a distância e a invisibilidade é muito interessante e explorada mesmo quando o casal habita a mesma casa e envolve ainda outra questão: a do corpo estranho. É só o corpo da amante que é um corpo estranho ou os anos e a habituação ao corpo do outro também nos fazem estranhar um corpo que já não vermos? Quando é que o outro se torna invisível? 

Oscilamos entre considerar uma família como um laço constante, apertado e que protege; para a considerar um somatório de jeitos que se dá para unir vários fios, com gestos automáticos e de olhos fechados, gestos já sem sentido. Dinâmicas inofensivas que roçam a ameaça.

"Sinto o meu pai e a minha mãe. Sinto-os pelas divisões silenciosas, juntos e separados. O Sandro murmurou: esconderam-se um do outro, mas não sem deixarem a ameaça de se descobrirem a qualquer momento."