Mostrar mensagens com a etiqueta Elisabeth Strout. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Elisabeth Strout. Mostrar todas as mensagens

domingo, 11 de agosto de 2024

Amy e Isabelle - Opinião - Opinião

“A vida, delicada como um tecido, podia ser rasgada pelos golpes caprichosos de um momento aleatório e egoísta.”

E a frase não podia ser mais verdadeira e transversal à história das mulheres que encontramos nos livros de Strout e mesmo este sendo o seu primeiro romance já se sente a provocação e o confronto geracional, especialmente no feminino e que povoará a relação mãe-filha em Barton ou até mesmo a forte e acutilante Kitteridge.

Em «Amy e Isabelle» uma insegurança disfarçada e uma certa indiferença, caracterizam filha e mãe, respectivamente e a conturbada relação entre ambas que de forma tentacular ultrapassa as fronteiras do doméstico, seja por estarem integradas numa comunidade próxima, seja porque a dada altura trabalham juntas. Ainda assim, a hostilidade aumenta entre as duas, depois do ambiente ficar envolto em mistério e segredos, transformando a atitude de cada uma, embora o início da idade adulta faça mais estragos que qualquer outro evento.

“O verdadeiro problema, claro, era que ela e a mãe passavam o dia todo juntas. Amy tinha a sensação de que as ligava uma linha negra, uma linha não maior do que um risco feito a lápis, talvez, mas, ainda assim, uma linha omnipresente.”

E essa linha nunca se apaga em todo o livro, tal como uma outra que une as mulheres do escritório, reforçando que quando é preciso são aliadas umas das outras, mostrando uma análise muito interessante por parte de Strout sobre os ambientes por onde o mulherio prolifera.

sexta-feira, 12 de janeiro de 2024

«Lucy à beira-mar» de Elizabeth Strout :: Opinião


"A tristeza no meu peito parecia subir e descer de acordo com... com o quê? Não sabia.
E o tempo mantinha-se frio, lúgubre.
Sobre o meu trabalho, eu pensava: nunca mais escrevo uma única palavra."

Mas ainda bem que escreveu! Ainda bem que Elizabeth Strout continuou este saga de Lucy Barton, pois para mim é como reencontrar pessoas que conheço (que vou conhecendo e de quem gosto) e sinto que me conhecem a mim, tal é a forma brilhante como a autora consegue captar sentimentos e sensações, narrando esta coisa de amar que em tanto parece diferente, mas que facilmente encontra semelhantes.

"Quase sempre, predominava a tal sensação de estar debaixo de água; de nada me parecer de verdade.
(...) A tristeza que subia e descia em mim era como as marés."

Foi dessa forma que a pandemia invadiu as nossas vidas, mergulhando-nos a todos em dúvidas e preocupações, afastando-nos com uma onda esmagadora que só pela força das marés seguintes quis contrariar o que poderia ser o destino e foi-nos deixando recuperar aos poucos. E é precisamente sobre afastamento e reaproximação que Strout nos fala neste quarto livro onde reencontramos Lucy e William, as filhas do casal e as memórias que teimam em surgir numa época mais que propícia a isso: o confinamento. 

"«A minha infância inteira foi um confinamento. Nunca via ninguém e nunca ia a lado nenhum.» E a verdade desta constatação atingiu-me em cheio nos intestinos e o William olhou simplesmente para mim e respondeu: «Eu sei, Lucy.» Disse-o de maneira automática, sem pensar nas minhas palavras, pelo menos foi o que achei."

Algumas dessas memórias permitem atravessar melhor esses dias quase desertos, outras bem que podiam não ter sido convocadas. Por isso, a pandemia afectou-nos de formas tão díspares. E uso sempre tempos verbais que me incluam, porque os livros de Strout são isso mesmo, viagens que fazemos com estes personagens que vão dentro de nós. 

"O Sol ia alto no céu azul, perto dele as nuvens brancas pareciam entufadas e, de repente, num ápice, o Sol escondeu-se atrás de uma das nuvens e alterou a aparência do mundo (...)"

O Sol aqui é a escrita de Strout, exímia em evocar nuvens que transformam pequenos entendimentos do nosso mundo, nem que seja o nosso pequeno-mundo-bolha de leitor.

*

Opiniões anteriores:

- «Oh, William!»

- «Tudo é possível»

- «O meu nome é Lucy Barton»

quinta-feira, 26 de agosto de 2021

"A segunda vida de Olive Kitteridge" de Elizabeth Strout :: Opinião


"(...) nem queria acreditar. A sério que não. Era um pouco como quando caíra de bicicleta, anos e anos antes (...) a sensação em câmara lenta de que algo terrível está a acontecer e a noção de que nada podia fazer para o impedir. Ver o alcatrão vir de encontro à face."

Strout traz nos uma Olive ainda mais olivesca 😉 que nos leva a pensar no quanto todos temos uma Olive dentro de nós e como nos ligamos a essa faceta. Ou se nem sequer temos ideia de tal, o que deixa uma pergunta: estaremos a guardar para a velhice? É que cair de bicicleta na velhice pode nunca mais dar para recuperar!

Regressamos a Crosby, no Maine para percorrer algumas ruas e corredores de supermercado ou os lares que nos esperam na velhice para ouvir algumas lamúrias, mas mais ainda conclusões que vêm com o entendimento tácito dos anos. Do amadurecimento e da velhice. Por isso, revive-se o casamento, o nascimento e a criação dos filhos, o avanço rápido da vida que tudo atropela e entra-se na velhice quando já ela já se instalou: "Olive tinha a sensação de que uma rede descera sobre ela, o tipo de coisa que se põe a cobrir um bolo ou uma mesa de piquenique, para afastar as moscas. Ou seja, estava encurralada e a sua visão do mundo reduzira-se."

No entanto, Olive em nada está reduzida. Nos capítulos onde Olive não está, Olive esta sempre lá, pois habilmente Strout ausculta (palavra feia) nos feitios e problemas dos outros, caminhos que nos levam às conclusões que a idade tem trazido a Olive, ou seja, aquelas personagens parecem surgir do nada, mas trazem consigo todo um propósito, seja validar ou contrariar o que aprendemos com Olive. E isso é estrategicamente bem equacionado no seguimento da narrativa. A sequência que cada conto ou capítulo tem, não pode, de todo, ser ao acaso. Há um fio que tudo cose, mesmo que padeça de um certo caos. Tal como a vida. Ou as aprendizagens que a vida nos dá, mesmo que às vezes seja à bruta.

"Mas mesmo por detrás dos olhos fechados, Olive via a casa e um arrepio percorreu-lhe os ossos. A casa onde criara o filho, sem nunca, nunca se aperceber de que ela própria criara, durante todo esse tempo, uma criança órfã de mãe, que agora estava muito, muito longe de casa."

Olive revive mágoas antigas quando as redescobre nas aprendizagens que faz cada vez mais com o passar dos anos, por isso, o leitor reencontra Christopher, Henry e Jack que vai alterar um pouco o curso da vida de Olive, ainda assim reencontrar Olive Kitteridge é encarar uma solidão tão característica da sua personalidade que talvez toque, ali e ali, a solidão que todos sentimos. Nesse tomar de consciência e com as várias gargalhadas que vamos dando, podemos dizer que respeito será a palavra que mais aprendemos à medida que somos confrontados com certos episódios. Respeito e a máxima: mais amor por favor!

sexta-feira, 27 de novembro de 2020

“Olive Kitteridge” de Elizabeth Strout :: Opinião

 «Olive Kitteridge» valeu um Pulitzer a Elizabeth Strout e valeu recentemente à HBO uma série fabulosa. 

                                    

A narrativa, dispersa por mais de uma dezena de contos, cruza vários personagens, todos eles residentes numa vila costeira, meio idílica, onde todos se cruzam mais ou menos de perto com Olive ao longo de mais de 25 anos e é dessa forma que vai surgindo, peça a peça, a imagem da temível professora do liceu, da educação que deu ao seu filho e da sua relação com Henry, o marido gentil e dedicado, que é também o farmacêutico da vila.

"Lembrou-se novamente de John Berryman. Salva-nos de espingardas e suicídios paternos [...] Misericórdia! [...] não primas o gatilho senão, a minha vida toda, sofrerei pela tua ira. (...) não, Kevin não suportava a ideia de uma criança descobrir o que ele próprio descobrira: que a sua mãe sentira uma necessidade tão grande e tão urgente de devorar a vida, que deixara as portas dos armários todos da cozinha salpicados com restos da sua corporeidade."

A escrita é cativante, mas dolorosa, retratando solidão e desamparo, mas também a incompreensão da vida quando olhada em retrospectiva e quando a única saída parece estar no cano de uma espingarda que porá fim à angústia e nos devolverá para junto dos que mais amamos. Podemos até dizer que o suicídio é um fio condutor entre histórias, um motor bizarro que mantem alguns deles em andamento.

O cruzamento de desespero sufocado e silencioso com da crueza como é descrita Olive, contracena brutalmente com a interpretação feita por Frances McDormand. E talvez seja isso que faz toda a diferença, agigantando a Olive que imaginámos conto atrás de conto.

Ler este livro e logo de seguida assistir aos quatro episódios que compõe a série é como que dar continuidade ao enredo ou uma maior consistência a algumas cenas que ficam a pairar na cabeça do leitor, quando também nós fomos alvo dessa esponja húmida de tinta.

"Depois disso, foi como uma pintura a esponja, como se alguém tivesse encostado uma esponja húmida de tinta a escorrer no interior da sua mente e só mesmo o que a esponja pontou, umas quantas manchas aqui e acolá, tivesse retido aquilo de que ela se lembra do resto dessa noite."

Os sentimentos e as emoções, tal como a memória, estão manchados e fragmentados, perdidos no meio de uma depressão longa, mas são o que mais surpreendem em Olive, ela não é simpática ou amável, mas é empática e observadora, conseguindo por vezes ajudar em situações limite, ela ama e é frágil, mesmo quando todos a julgam forte e insensível e parte dessa transformação é redentora e convocam no leitor um profundo apreço pela personagem. 

"(...) O céu estava cinzento e pesado. Olive sentiu uma perturbação diferente das outras vezes. Provinha de Christopher, sim. Mas ela parecia presa entre as pinças de um remorso intratável. Um embaraço profundo e pessoal inundou-a, (...) Foi a vergonha que lhe fustigou a alma, como os limpa-pára-brisas diante de si: dois grandes dedos negros e compridos, inexoráveis e rítmicos no seu castigo."

O que fustiga o leitor, tanto no livro como na série é a angústia da depressão e uma franqueza fria, desapegada, que parecem estar inevitavelmente de mãos dadas, e talvez por isso, mais para o final da sua vida Olive pondere a culpa e a vergonha. Vai até mais longe e pensa em castigo e isso abre um fosso enorme sobre a compreensão e aceitação da doença e da coragem que é precisa para viver. 


segunda-feira, 23 de abril de 2018

«Tudo é possível» de Elizabeth Strout :: Opinião



"«Pois é», (...) O que Annie não disse foi que havia muitas maneiras de não saber as coisas; a sua própria experiência ao longo dos anos espalhava-se agora no seu colo como uma peça tricotada, com fios de cores diferentes - alguns escuros - entrelaçados."

Entrelaçadas são as histórias que compõem este «Tudo é possível» e que eu acho que dá continuidade ao livro «O meu nome Lucy Barton». Voltamos a encontrar Lucy e o leque de personagens que habitam na vida uns dos outros. A solidão, o modo imperfeito de amar, a rendição e a generosidade, voltam para tentar explicar acções, pois até não fazer nada é em si mesmo uma decisão e um acto.

"Parecia que, quanto mais envelhecia - e estava velho -, mais consciência tinha de que não conseguia compreender a disputa confusa entre o bem e o mal, e que talvez as pessoas não estivessem destinadas a compreender as coisas desta vida."

Parece-me que nos livros de Strout se procura esta compreensão, dificilmente atingida e tão frágil, no entanto a escrita da autora tem ainda a capacidade de nos encher os olhos com metáforas que nos deixam a pensar na vida como ela é, onde tudo é possível, bom ou mau, maioritariamente mau, mas onde mesmo os corações mais fortemente despedaçados conseguem remendar-se e seguir adiante. 

A família é o centro da narrativa, aliás, o centro de todas as narrativas que compõem este livro e que se entrelaçam e terminam as histórias umas das outras, tal como acontece com as pessoas, quando se cruzam e se intrometem na vida alheia ou, por cumplicidade, se completam. As vidas completam-se quando se enchem de pessoas, ou se de uma, que tanto nos enche como nos esvazia e esventra com a dura verdade. A dura realidade. E é dessas realidades, surpreendentes e explícitas que este livro está cheio e nos acertam na cara quando menos esperamos. 

"- Devia ser perfeito.
- Perfeitamente solitário. Um advogado de sucesso que nunca está por perto. Ela gosta dos filhos, mas as tarefas relacionadas com as crianças aborrecem-na. E sente-se irritada com a ama e com a empregada doméstica, e o marido não quer saber disso (...) e pensa, «Deus, o que é isto?» Os filhos irão crescer e depois é o que vai ficar mesmo na Tédiolândia, e irá comprar uma nova pulseira, a seguir um novo par de sapatos (...) não tarda receitam-lhe Valium ou antidepressivos, porque há muitos anos que a sociedade droga as mulheres..."

E assim, desta forma despudorada e ruidosa, Strout atinge-nos como um raio e diz sem medos, afirma e compara-nos, reduz-nos e diminui-nos como se não importássemos, mas ao mesmo tempo tudo dependesse de nós mesmos para avançar. E as metáforas, de tão simples que são, abalam-nos. 

"Tudo aquilo fazia Annie imaginar uma salsicha em cuja pele ela tinha feito um buraco e estava a contorcer-se para sair."

E são nessas constantes vontade de sair, de fugir, que este livro nos revela. Temos um leque variado de personagens que fugiram, cada uma à sua maneira, cada uma como podia, mesmo aqueles que parecem não conseguir, fogem.
Fogem nem que seja deles mesmos e da sua realidade imobilizada, estanque. E mesmo nessa aparente indiferença, a autora consegue imprimir acção. Movimentos quase insignificantes que nos deixam a pensar. 

"Olhou à sua volta. O quadro de Hopper estava pendurado na parede com uma tal indiferença que começou a parecer-lhe pessoal, como se tivesse sido pintado para aquele momento: os teus problemas são enormes e insignificantes, parecia dizer, a única coisa que resta é o sol a incidir no lado de uma casa."


segunda-feira, 21 de novembro de 2016

«O meu nome é Lucy Barton» de Elizabeth Strout :: Opinião


No outro dia lia sobre Etgar Keret e sobre o seu último livro publicado cá, «Sete anos bons» que são aqueles em que conseguiu ser em simultâneo, filho e pai para o seu filho. E inevitavelmente lembrei-me deste «O meu nome é Lucy Barton», leitura a qual ainda não tinha sido alvo de um texto aqui para o blogue. 
Lucy Barton pega num episódio da sua vida, um período em que esteve hospitalizada e fala de ser filha, mas também de ser mãe. Na monotonia da espera pela recuperação, a visita da mãe, fá-la também recuperar dores, lembranças e preocupações que pautam a relação mãe-filha e claro, as comparações comparações que tecem as histórias das famílias. 

"Se compreendo a dor que as minhas filhas sentem?
Acho que sim, embora elas possam afirmar o contrário. Mas creio que conheço muito bem a dor que nós, crianças, apertamos contra o nosso peito, como ela dura a totalidade das nossas vidas, com anseios tão desmesurados que não se consegue sequer chorar. Agarramo-la com força, nós, com cada espasmo do coração que bate: Isto é meu, isto é meu, isto e meu."

É esse tão seu que vamos lendo nestas páginas e pensando talvez em quantas coisas também são tão nossas e talvez por isso este livro tenha sido lido e pousado, sossegado, ali num canto, canto esse que por vezes chamava por mim e se continuar a apelar ao lado íntimo e familiar corro o risco de apelidar o livro de lamechas e não é nada disso que aqui se encontra. É antes o lado cruel da falta de amor, um amor sempre a saldo negativo, mas que encontra a desforra e o acerto de contas com o chegar do fim da vida. 

"(...) Esta é a história de uma mãe que ama a sua filha. De modo imperfeito. Porque todos nós amamos de forma imperfeita. (...)"

Podemos dizer que este é um livro que pode conter algumas lágrimas, a redenção está lá, espreita por todo o lado, apelando a que sejamos mais capazes de compaixão, nem que ela por vezes venha só assim, em doses contidas, em coisa pouca, de cem duzentas páginas. Importa é vir. É como o amor. 

"E nessa altura ele olhou para mim, com uma grande bondade no rosto, e vejo agora que reconheceu aquilo que não reconheci: que, apesar da minha plenitude, estava só. A solidão foi o primeiro sabor que provei na vida, e esteve sempre lá, escondida nas frestas da minha boca, para mo recordar. Ele viu isso naquele dia, parece-me. E foi generoso."

*