segunda-feira, 23 de abril de 2018

«Tudo é possível» de Elizabeth Strout :: Opinião



"«Pois é», (...) O que Annie não disse foi que havia muitas maneiras de não saber as coisas; a sua própria experiência ao longo dos anos espalhava-se agora no seu colo como uma peça tricotada, com fios de cores diferentes - alguns escuros - entrelaçados."

Entrelaçadas são as histórias que compõem este «Tudo é possível» e que eu gosto acho que dá continuidade ao livro «O meu nome Lucy Barton». Voltamos a encontrar Lucy e o leque de personagens que habitam na vida uns dos outros. A solidão, o modo imperfeito de amar, a rendição e a generosidade, voltam para tentar explicar acções, pois até não fazer nada é em si mesmo uma decisão e um acto.

"Parecia que, quanto mais envelhecia - e estava velho -, mais consciência tinha de que não conseguia compreender a disputa confusa entre o bem e o mal, e que talvez as pessoas não estivessem destinadas a compreender as coisas desta vida."

Parece-me que nos livros de Strout se procura esta compreensão, dificilmente atingida e tão frágil, no entanto a escrita da autora tem ainda a capacidade de nos encher os olhos com metáforas que nos deixam a pensar na vida como ela é, onde tudo é possível, bom ou mau, maioritariamente mau, mas onde mesmo os corações mais fortemente despedaçados conseguem remendar-se e seguir adiante. 

A família é o centro da narrativa, aliás, o centro de todas as narrativas que compõem este livro e que se entrelaçam e terminam as histórias umas das outras, tal como acontece com as pessoas, quando se cruzam e se intrometem na vida alheia ou, por cumplicidade, se completam. As vidas completam-se quando se enchem de pessoas, ou se de uma, que tanto nos enche como nos esvazia e esventra com a dura verdade. A dura realidade. E é dessas realidades, surpreendentes e explícitas que este livro está cheio e nos acertam na cara quando menos esperamos. 

"- Devia ser perfeito.
- Perfeitamente solitário. Um advogado de sucesso que nunca está por perto. Ela gosta dos filhos, mas as tarefas relacionadas com as crianças aborrecem-na. E sente-se irritada com a ama e com a empregada doméstica, e o marido não quer saber disso (...) e pensa, «Deus, o que é isto?» Os filhos irão crescer e depois é o que vai ficar mesmo na Tédiolândia, e irá comprar uma nova pulseira, a seguir um novo par de sapatos (...) não tarda receitam-lhe Valium ou antidepressivos, porque há muitos anos que a sociedade droga as mulheres..."

E assim, desta forma despudorada e ruidosa, Strout atinge-nos como um raio e diz sem medos, afirma e compara-nos, reduz-nos e diminui-nos como se não importássemos, mas ao mesmo tempo tudo dependesse de nós mesmos para avançar. E as metáforas, de tão simples que são, abalam-nos. 

"Tudo aquilo fazia Annie imaginar uma salsicha em cuja pele ela tinha feito um buraco e estava a contorcer-se para sair."

E são nessas constantes vontade de sair, de fugir, que este livro nos revela. Temos um leque variado de personagens que fugiu, cada um à sua maneira, cada um como podia, mesmo aquele que parecem não conseguir fugir, fogem... fogem nem que seja deles mesmos e da sua realidade imobilizada, condicionada. E mesmo nessa aparente indiferença, a autora consegue imprimir acção. Movimentos quase insignificantes que nos deixam a pensar. 

"Olhou à sua volta. O quadro de Hopper estava pendurado na parede com uma tal indiferença que começou a parecer-lhe pessoal, como se tivesse sido pintado para aquele momento: os teus problemas são enormes e insignificantes, parecia dizer, a única coisa que resta é o sol a incidir no lado de uma casa."


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