"Recordar é a nossa forma de luto" (Herta Mülller)
As palavras não são de Trabucco nem das personagens dest'A Subtração, que como o próprio título indica, tira mais do que acrescenta, porque eles habituaram-se a calar, a desconfiar, a temer, a sofrer. Hoje, querem recordar, exorcizar e superar. Eles querem paz no silêncio que há muito caiu sobre as suas cabeças. Mas o silêncio é em si mesmo um luto e existem lutos que se infiltram na linguagem, marcam o tempo e o espaço colectivo e corroem de forma palpável até o vazio, as ausências, os fantasmas. Corroem a palavra e eles, nós, todos nós, precisamos da palavra para sarar. Da palavra dita. De cada palavra ouvida.
"E eu, mais uma vez, deixei de ouvir, tentando fugir ao peso daquelas frases, convencida de que, como quando era criança, cada pessoa não vivia uma série de anos, mas sim um número predefinido de palavras que conseguia ouvir durante a vida (...)"
Iquela, Filipe e Paloma, divididos entre eles e nós, que é como quem diz, os que partiram e os que ficaram, são filhos da ditadura chilena e transportam o peso da história e uma herança de dor, a dos pais e a deles; são habitados por traumas e fantasmas com quem fazem uma travessia imersa na ambiência cinzenta oferecida pelo vulcão e é com essa paisagem poeirenta e sufocante (metáfora muito bem conseguida) que os três iniciam uma viagem dolorosa que explorará a nostalgia de um tempo que lhe foi negado e silenciado.
O enchimento do livro é feito pela densidade do que não é dito e pela a tensão latente entre o passado do país e da história pessoal de cada personagem, face ao que agora são e ao desafio sempre presente de não deixar que só esse passado os molde.
Negar o diálogo sobre o trauma, é dificultar a superação, é atrasar o exorcismo de todos os males provocados pelo regime. Mas não só, há também a eterna discussão entre os que partem e os que ficam e a cissão que isso causou entre famílias e comunidades e isso alimenta a tensão entre eles. O trauma histórico não é apenas uma marca no tempo coletivo, mas um elemento corrosivo e palpável nas relações pessoais, na linguagem e até na perceção do silêncio. Um silêncio forçado, fruto do medo que se infiltrou na linguagem.
Não obstante todas as palavras agora disponíveis, o trio evita a profusão das mesmas, de ideias ou desculpas, não cai sequer na nostalgia fácil da infância, porque qualquer recordar é sempre reviver o trauma.
Recordar fere, divide, isola.
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