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sexta-feira, 17 de setembro de 2021

"três homens num barco (já para não falar do cão)" de jerome k. jerome :: Opinião


“Eramos quatro - o George, o William Samuel Harris, eu próprio e o Montmorency.”

Assim começa o relato desta viagem.

Existem várias viagens dentro desta viagem de barco, algumas delas são divagações de cariz filosófico, outras são crítica social, a maioria são autênticas digressões nas memórias de cada um dos três homens, em périplos alucinantes fruto de uma imaginação prodigiosa e ainda há espaço para servir de guia turístico pelas aldeias pictóricas nas margens do Tamisa e aproveitar para uma tacada política aqui e ali.

Portanto, temos um preguiçoso crónico hipocondríaco que se queixa do seu amigo insone e igualmente “doente” e ambos se debatem com outro amigo que, deprimido, dorme demais (já para não falar dos pés enormes que tudo atrapalham). Todos se sentem moribundos (menos o cão) e decidem que o rio e os ares aquáticos seriam o melhor remédio para todos.

“A maior ambição do Montmorency é meter-se de permeio e ser insultado. Se conseguir enfiar-se num sítio onde ninguém o quer, pôr tudo numa roda-viva, fazer com que as pessoas fiquem furiosas e lhe atirem coisas à cabeça, então ele acha que não perdeu o dia.”

Cedo concluímos que o ócio é o motor desta narrativa e o objectivo principal é simples: se não poder ajudar, atrapalhe. 🤭 O importante é participar! O mesmo se aplica ao cão, nas suas francas amizades com gatos e chaleiras fumegantes.

A maior ferramenta do humor de Jerome K. Jerome é a ironia e o sarcasmo e a intelegência com que narra episódios que roçam o absurdo e historietas do arco da velha que se tornam mais cómicas pela escolha da linguagem e o encadeamento que vão tendo com a própria aventura que era suposto ter o papel principal, mas desengane-se o leitor se pensa que isto é só uma viagem de barco!

É uma viagem pela natureza humana e as suas crises existenciais, num texto cheio de tiradas poéticas.

“(…) mas à noite, quando a mãe natureza foi para a cama e nos deixou acordados, oh! O mundo fica solitário e ficamos cheios de medo (…) Sentimo-nos tão desamparados e tão pequeninos no meio daquele grande silêncio, quando só se houve o rumorejar das árvores negras ao vento da noite. (…) Mais vale juntarmo-nos todos nas grandes cidades e acender grandes fogueiras de milhões de candeeiros de gás, e gritar e cantar em uníssono, e sentirmo-nos corajoso.”

No entanto, estes espíritos indolentes não procuram reparação ou redenção para os seus constantes elogios ao pecado do ócio e à doce contemplação do trabalho, esse bem precioso no qual é melhor não tocar; antes pelo contrário, eles tecem aqui quase um tratado de como continuar nessa vida mesmo estando cientes das tarefas laboriosas e dos caprichos das previsões meteorológicas que determinam o sucesso de uma actividade e vida ao ar livre e é isso que confere todo o lado cómico às peripécias pelas margens do Tamisa.

“Não existe sensação mais excitante do que a de velejar. (…) As asas do vento sibilante parecem transportar-nos sempre em frente, não se sabe para onde. Já não somos aquelas coisas de barro lentas, laboriosas, débeis, que se arrastam tortuosamente sobre a terra; tornámo-nos parte da Natureza. (…) Os seus braços gloriosos abraçam-nos e erguem-nos de encontro ao seu peito.”

Difícil é amarrar a tenda ao barco e não dormir ao relento. Saber se lhe colocam os espeques todos os não, bem como a hercúlea tarefa de pelar umas batatas ou lavar uma peça de roupa.

“(…) ora bem, o rio entre Reading e Henley ficou muito mais limpo depois de lá termos lavado a nossa roupa. Toda a sujidade contida no rio foi recolhida por nós durante a lavagem, e ficou retida na nossa roupa. A lavadeira de Streatley disse que tinha de nos cobrar o triplo do preço normal para lavar aquela roupa. Na opinião dela, aquilo não era propriamente uma lavagem, era mais uma espécie de escavação.”

Tá explicado porque J. não sofre de artrite de lavadeira!

Em suma, quase todos os relatos arrancam sonoras gargalhadas ao leitor, mas um dos episódios mais brilhantemente descritos e a ritmo de meter inveja ao restante livro, é o capítulo três, quase todo ele dedicado à perseverança e empenho do tio Podger e a sua capacidade para a bricolage. Mas também, o episódio do guisado irlandês ou o familiar que tenta aprender a tocar gaita de foles, são hilariantes. Ou a risota entre J. e George com a camisa que cai ao rio ou uma espécie de luta livre na manteiga entre George e Harris. (já para não falar do queijo capaz de matar só com o cheiro).

segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

Cotovia de Dezsö Kosztolányi - Opinião


Cotovia de Dezsö Kosztolányi é considerada uma obra-prima da literatura húngara. Um romance pejado de realismo, num retrato de época brilhante e de enorme beleza estética. São alguns dos atributos e elogios que a crítica e o tempo têm feito a este livro de enredo simples, mas pejado de uma linguagem e uma escrita magistral. Ainda assim, é uma obra que não me cativa na sua totalidade, já que o alargamento de todo o enredo se perde em alongadas e detalhadas descrições, que farão um retrato fiel da sociedade e dos costumes da época, é certo, mas para mim, de tão distantes que estão dos meus interesses e experiências, tornam-se enfadonhos e retiram o interesse que a temática poderia ter.

Julgo que a essência deste livro está em pensarmos no peso que um familiar representa e a liberdade que reprime aos restante, mesmo que a decisão de ser esse peso não seja voluntário por parte da pessoa em causa. Por outro lado, é um livro que relata o afastamento, a falta de comunicação e de uma relação próxima, muito em parte pelos próprios costumes de época. O afastamento da filha, Cotovia, é visto como um enorme drama, ainda que se leia nas entrelinhas toda a vida que escapa das mãos destes pais e que quase por uma última vez vão ter a possibilidade de reviver.

"Quem parte é alguém que desaparece, se aniquila, já não existe. Vive exclusivamente como lembrança, que visita com frequência a nossa imaginação. Sabemos que está algures mas não o vemos, tal como os que morreram"

Perdura em todo o romance o peso de uma sociedade abrilhantada pelos modos requintados, mas os sentimentos e as relações urgem de maiores momentos, se bem que quando surgem há tanto uma forma sóbria e quase desapegada como uma forma exagerada e dramática demais.

A leitura deste romance de Dezsö Kosztolányi surgiu devido à leitura de "O Meu Irmão", de Afonso Reis Cabral, como obre sugerida pelo próprio autor. As semelhanças são evidentes. O sentido de compromisso e sacrifício surgem de igual modo como forma de garantir a segurança, o amor e o lar que o ente querido precisa. O afastamento e o peso que causam é notório em ambos os enredos, apesar de serem gerados por situações díspares. Se por um lado pensamos em casamentos, dotes e costumes de final de século XIX, por outro pensamos em deficiência e dificuldade de inclusão total na sociedade actual.

Fica de ambos, a servidão e a escravidão (consentida!?) a que por vezes o amor obriga ou fomenta.