segunda-feira, 27 de agosto de 2018

«A Submissão» de Amy Waldman - Opinião



"Deixa-me fazer-te uma pergunta. Tu, com as tuas causas liberais, como reconcilias o teu apoio ao islão com o teu apoio aos direitos dos homossexuais, ao feminismo, quando vês como as mulheres, ou os homossexuais, ou as minorias, são tratados em tantos países muçulmano?
- O Khan não é esse tipo de muçulmano.
- Mas então tens uma medida pessoal... os muçulmanos «aceitáveis» são aqueles que concordam contigo."

Quem são os muçulmanos aceitáveis?
Quais são as causas e as minorias por quem é «aceitável» lutar após o 11 de Setembro?
Quem são os que têm direito a decidir sobre o memorial a erguer no ground zero?
A quem pertence a maior dor? Existem mortes mais importantes do que outras? 
Quem tem legitimidade para afirmar sentenças perante temas tão ambíguos como o significado da arte ou a profundidade da dor?

O debate é acesso e pejado de discórdias: as aceitáveis e as manipuladas pela ganância dos media, astutamente personificada por Alyssa Spier. Mohammad Khan tem uma presença ambígua, mas o estado em que se encontra Nova Iorque e a opinião pública também. O conflito tem início com uma fuga de informação e a pressão espalha-se aos mais variados intervenientes. O peso da herança cultural, a interpretação do islão, o significado da arte e a profundidade da dor são o centro deste livro. Ou seja, política. Mas política é também o papel dominante dos jornalistas, das associações, dos debates transformados em manifestações, as angariações e os grupos de suporte, um manancial de intervenientes que espelham uma América divida, com medo e altamente manipulada por muito ruído e pouco espaço à reflexão. 

"(...) temos pessoas a arrancarem os lenços da cabeça das nossas mulheres e os nossos jovens a radicalizarem-se em resposta, e quem pode censurá-los? Isto vai acabar mal. - Virou-se para Mo. - Você está a levar-nos para um mau final. Foi você, não os terroristas, quem sequestrou a nossa religião. Pelo menos os terroristas são crentes. Qual é a sua desculpa?"

O extremismo não está só nas acções, mas também na forma tão "preto no branco" de olhar a um assunto complexo. 
"Mo não tinha o eco - teológico, histórico e histérico - de Mohammad." 
O não entendimento a Khan, assume exposição máxima, negando-lhe qualquer pertença. Sem obter aceitação de nenhum dos lados, Mo é excluídos de uma América que não entende os seus intentos e é igualmente excluídos de uma religião que pede mais do que ele dá. Sobra-lhe a arquitectura para interpretar o que o rodeia.

"Há cinco dias que estava a jejuar. Ele era apenas um grão de areia, entre centenas de milhões de muçulmanos que observavam o Ramadão - (...). Ele via esse período como um edifício, medido de quarto crescente a quarto crescente, fazia de cada dia uma sala, medida do nascer ao pôr do sol. A refeição antes do nascer do dia era uma ombreira e, durante as horas de abstinência, a boca era como uma porta trancada. Mas estes eram os conceitos rebuscados de um arquiteto. A verdade era que não sabia por que motivo estava a fazê-lo..."

O impulso de privilegiar a tolerância e a importância da arte como resposta para a esperança perdida chocam com a própria vulnerabilidade de cada um e o pedido de segurança que é feito por todos. É com muita desta dualidade que todo o enredo se depara, explorando teorias da conspiração que parecem absurdas, mas que pautaram os jornais naquele período conturbado.

"Claire acendeu a televisão, curiosa por saber o que as classes histéricas pensavam disto.
- Num desenvolvimento potencialmente explosivo, o design do memorial pode, na verdade, ser o Paraíso dos mártires - informou com ar sério um apresentador da Fox News, antes de passar a palavra a um painel de especialistas no islão radical.
(...)
- Os restos mortais deles também estão naqueles terrenos. Ele desenhou um túmulo, um cemitério, para os terroristas, não para as suas vítimas. Certamente que sabia que, em árabe, a palavra para túmulo e jardim é a mesma. 
(...) «Jardim da Vitória» gritava o Post. O editorial de opinião do Wall Street Journal chamava ao design de Khan «um ataque à herança judaico-cristã da América (...) uma tentativa encoberta de islamização.», prosseguia o artigo."

A memória colectiva quer manter viva a memória de uma tragédia, mas a necessidade de se curvar perante necessidades tão particulares e outras tão patrióticas, torna impraticável o processo de luto, tornando-o num lugar barulhento e vazio das reflexões necessárias.

"- Lamento, mas um memorial não é um cemitério. É um símbolo nacional, um significante histórico, uma forma de garantir que qualquer pessoas que o visita... por mais ténue que seja a sua ligação em termos temporais ou geográficos com o ataque... compreende como foi, o que significou."


*

A melhor frase de todo o livro:

"A tristeza dele, demasiado grande para um corpo tão pequeno, era como uma sombra que não deixava crescer uma planta."

Opinião "A Vida Amorosa de Nathaniel P."


Outro dia contemplava a mega estante da metade negra quando ela começou a tirar livros da prateleira, a perguntar se já tinha lido este ou aquele livro. É de dizer que voltei com 4 ou 5 nos braços e este "A vida amorosa de Nathaniel P." foi um deles.
Livro do ano de não sei quantas publicações de renome e uma leitura que se revelou como uma tumultuosa e irritante viagem à mente masculina.

Honestamente desejei desistir uma mão cheia de vezes nas primeiras 40 páginas. 
Da última vez que pensei "não dá, não tenho paciência para vaguear na mente de um gajo intelectualóide e todo cheio de si" foi quando embalei e levei a leitura até ao fim.

Nate sempre quis escrever. Filho de uma família emigrante com sua dose de pretensão, Nate frequentou Harvard e algum tempo depois mudou-se para Nova Iorque. Sem um livro debaixo do braço e nem um contrato editorial na calha, Nate comeu nos primeiros tempos graças a pequenos trabalhos, opiniões e outra coisas pontuais para revistas mais ou menos conhecidas. No entanto, quando o conhecemos, o seu nome já se tornou sonante no meio editorial, tem um livro a sair dentro de alguns meses, é invejado por colegas e cobiçado pelas mulheres. 
Como uma personagem que imaginamos a caminhar pelas ruas de Brooklyn enquanto fala para o espectador, em close up para a câmara, Nate vai divagando sobre a sua pessoa, o seu trabalho, mas acima de tudo, sobre as mulheres da sua vida.

E se num momento conseguimos compreende-lo e ser complacentes com ele, no seguinte ele irrita-nos com a sua falta de tacto e incapacidade para ser honesto especialmente em relação ao seu mais recente emparelhamento. 

Por vezes aquilo que dizemos que queremos e aquilo que realmente gostamos de ter são coisas diferentes.
Nós sabemos, as relações não são fáceis. Ou será que deviam ser fáceis e se não o são, é porque não valem a pena?
"Por que raio é que as mulheres, por mais inteligentes, por mais independentes que fossem, revertiam inevitavelmente para este estamos de imbecilidade voluntária?"
Este Nate é um detector de defeitos e detalhes nefastos que minam a imagem da mulher à sua frente. Quando as coisas típicas de um namoro acontecem Ad infinitum (como ele salienta) e a rotina se instala no casal, é quando percebemos o momento em que Nate começa a sabotar as suas relações.

"Por norma os homens querem um motivo para terminar uma relação, enquanto as mulheres querem um motivo para a manter...é por isso que, depois, os homens olham para tudo o que estava mal na relação, para confirmar que fizeram bem em termina-la. As mulheres, por outro lado, voltam atrás e procuram aquilo que podia ter sido diferente, aquilo que podia ter feito com que as coisas funcionassem."
Este "A Vida Amorosa de Nathaniel P." parece ter sido escrito como se um agente infiltrado no cérebro masculino tivesse captado a essência dos pensamentos, desejos e receios dos homens para depois os vender ao sexo oposto. Adelle Waldman cria uma voz para Nate que, arrisco-me a mandar esta afirmação para a frente por falta de cultura e conhecimentos literários, se torna refrescante ao escancarar uma janela mal lavada e com pouca visibilidade para a mente masculina.

E agora, o que pensa a minha metade literária da minha opinião ao livro que ela me sugeriu?

sexta-feira, 24 de agosto de 2018

Opinião "O homem que pensei que eras"

Em todos estes anos de Efeito dos Livros, se há algo de que me posso orgulhar, é de ter consigo manter isto spoiler free!
Falar de "O homem que pensei que eras" sem dar a entender o que se passa mas transmitindo a dimensão da história, o remoinho sentido no peito durante a leitura e o momento em que tive de abandonar a piscina para não chorar na espreguiçadeira....

É complicado. Mas eu vou tentar!


Anna e Mark vivem na sua bolha de felicidade e matrimónio faz alguns anos. Em total sintonia um com o outro, é como uma grande chapada na cara de Anna o momento em que, ao final de um dia completamente normal, Mark chega a casa e com cara de enterro anuncia que acabou tudo, que vai embora para longe, que já não dá para ali ficar e que ela não vá atrás dele.
E nós pensamos
"O quê?? Não dá! Não pode ser! Não se entende?! Não se faz!!"
E entramos no estado de espírito "este gajo passou-se e isto é mais um caso do gajo que saiu para comprar tabaco e não voltou OU é algo mais?"

Acompanhamos Anna, que de coração apertado e completamente de rastos, enquanto confirma que não só ele desapareceu sem telemóvel, como se despediu e ninguém sabe como o encontrar.
Que segredos esconde Mark para necessitar eclipar-se da sua própria vida, abandonando a mulher, a casa e o emprego?
Quão longe terá Anna de ir para revelar uma parte da pessoa que mais ama no mundo e que julgava conhecer?
Será esta ruptura abrupta capaz de danificar o amor que Anna sente e que então era partilhado e valorizado por ambos?
"...tentarmos escudar-nos de sofrimentos e dores futuras isolando-nos do amor é só fazer mal a nós...e aos que nos rodeiam. Por isso, mais vale correr esse risco, porque a vida vai acontecer, quer queiramos quer não."
Vá, agora que já vos falei da historia, tenho se referir o como esta me abalou a harmonia veraneante em férias com leituras fofinhas. 
Dizer que me deprimiu era abusar mas senti-me como se Anna fosse aquela amiga que tem uma situação pesada a acontecer na sua vida e por isso temos de meter tudo em pausa na nossa e tentar ajudá-la. Ouvir os seus lamentos, dar apoio quando as forças lhe faltam, participar nas buscas e se tiver de ser, se o que ele tiver feito não tiver perdão, ser uma das que vai buscar o taco de beisebol e aponta às canelas do tipo.
No entanto, quando Anna começa a avançar na história vamos baixando o taco e levantando a mão para aparar as lágrimas que teimam brotar-nos dos olhos.
Perante uma questão destas ...
Como será que reagiamos?
Será egoísmo pensar no bem estar dos outros mesmo que repleto de ignorância e dor, ou devemos aceitar a mão que nos estendem e permitir que nos acompanhem?

"O homem que pensei que eras" é uma aposta

quinta-feira, 23 de agosto de 2018

Opinião "Um de nós mente"


Um jovem morre misteriosamente rodeado de quatro pessoas que, ainda sem saberem, têm todos os motivos para o querer ver desaparecer da face da terra.
  Antes do fatídico dia em que Simon morreu, ninguém se aproximava muito dele. Conhecido pela capacidade digna de Agente Secreto para descobrir segredos dos outros e o à vontade com que os divulgava no seu site "Má língua", Simon não era uma das pessoas mais amadas de Bayview High. Na realidade, distância era a medida que todo o corpo estudantil aplicava, não fosse algum dos seus dirty little secrets acabar publicado aos olhos de todos. 

Quando conhecemos o quarteto presente no momento chave da abertura deste livro não podemos deixar de nós rir pelo grupinho Breakfast Club mais típico de sempre... 
Bronwyn, o cérebro, a aluna dedicada, a filha perfeita e total cumpridora das regras. 
Cooper, o desportista, estrela em ascensão da equipa de basebol e menino lindo sulista cheio de boas maneiras. 
Nate, o ovelha negra, actualmente em liberdade condicional por vender droga e com um suporte familiar igual a zero. 
Addy, a menina bonita, com o cabelo e o namorado perfeito mas sem grande coisa na cabeça. 
Quem são realmente Bronwyn, Cooper, Nate e Addy além do estereótipo que representam?
Que etiquetas se colariam à sua imagem actual se o que escondem viesse a público?
 Numa dança das cadeiras onde todos têm segredos e ninguém é bem o que parece ser, quem é que não vai conseguir lugar no banco dos inocentes quando a música acabar ? 


E sabem, "Um de nós mente" começa a matar....mesmo!
Somos levados a descobrir cada camada da personalidade, do passado e presente dos diversos intervenientes que estavam no castigo desse dia, inclusive de Simon.
Ao longo da história a autora conseguiu que se apontasse o dedo a todos, sem excepção e quando finalmente perceberem vão concluir o mesmo que eu
"Estes putos são marados!"
Mas eu gosto de gente marada, por isso, adorei este livro.
"Um de nós mente" pode ter pitadinhas de Breakfast Club, Pretty Little Liars e outras histórias do género mas consegue prender o leitor pelos detalhes de cada personagem porque, assim como nos exemplos mencionados antes, há sempre uma personagem com quem simpatizamos mais.
Comigo foi o Nate.
Qual foi o vossa?

"Um de nós mente" é uma aposta

quarta-feira, 22 de agosto de 2018

Opinião "Noiva Até Sexta"

Livro lido na versão original em Fevereiro de 2017


Percebi que este "Noiva Até Sexta" de Catherine Bybee, que saiu em Agosto, é nada mais nada menos, que a história de Gwen e Neil que já devia ser sido lançada antes de outro que já saiu mas ooh well!
Aqui fica a mini opinião que escrevi na altura e que publico agora com o lançamento da versão portuguesa.

Gwen, a ingénua, a irmã do Duque, a "Princezinha", aquela que não sabe tomar conta dela própria e que é protegida por todos que a rodeiam. Enganam-se todos os que a julgam indefesa e tontinha.
Ao longo dos últimos dois livros, Gwen tem-nos vindo a conquistar e a derrubar a barreira que existe entre ela e Neil, o responsável pela segurança privada dos Harrison. Sabem aquele tipo durão, ex-fuzileiro e homem de poucas palavras? Esse mesmo!
Pode até parecer um pouco rápido a evolução do casal neste livro, especialmente se não têm feito a leitura por ordem mas há muito sentimento e te(n)são entre estes dois casmurros. Ela é uma desafiadora e ele um resistente.
Quanto tempo vão aguentar?
Será necessário uma questão de vida ou morte para os fazer avançar?
Ou era tudo uma questão de tempo para ela ficar noiva até sexta-feira?

Adoro esta série! Sabe tão bem reencontrar personagens que já conhecemos de livros anteriores.
Carter e Eliza lá estão felizes e contentes. Sam e Blake vivem a sua vidinha muito bem acompanhados com os seus rebentos e saltitam numa onda de felicidade que os leva ano a ano a renovar os seus votos. Se no ano anterior foi no Texas, onde sabemos que as coisas aqueceram bastante, este ano é em Aruba.
Gwen e Karen estão à frente da Alliance, mais focadas do que nunca em expandir a rede de clientes da agência, tanto que Karen acaba por garantir a data do seu primeiro casamento e divórcio (oh esta parte da história....pano para mangas!!)
Consequentemente Gwen acaba por ficar sozinha na casa da Agência e por mais vigilância que tenha, coisas estranhas começam a acontecer. Será algo relacionado com a Agência ou com eles directamente?
Neil não arrisca e quando uma ameaça do passado retorna, deixando Gwen no meio do fogo cruzado, ele move o mundo para salvar a vida da mulher que o tem vindo a conquistar lentamente a cada novo dia.
Mas será ele capaz de se salvar a si mesmo?
E a mulher que mexe tanto com a sua cabeça como com o seu coração?

O suspense foi bem desenvolvido, com situações que nos deixaram na pontinha da cadeira para saber se tudo corria bem e chegávamos bem ao final.

Oh Catherine como eu adoro os teus livros!

 "Noiva Até Sexta" é parte integrante da série Weekday Brides de Catherine Bybee, uma aposta
Relembro a opinião aos outros livros da série:

terça-feira, 21 de agosto de 2018

Opinião "Parem todos os relógios"


São poucos os livros que ao longo do ano saltam entre as duas estantes que compõem o Efeito dos Livros. As nossas leituras são diferentes, sempre o foram. Depois há livros como “Parem todos os relógios”, uma sugestão da metade negra à colorida e que terminou com uma troca de ideias, questões e desejos de continuação, tudo num telefonema feita 2 minutos após ter terminado a leitura.
É bom encontrar livros que podemos partilhar com outras pessoas e ver que não fomos os únicos a ser consumidos pela história. A história da Tia Helena, como carinhosamente apelidei “Parem todos os relógios”, já chegou às minhas mãos com as notas e os cantos dobrados da mana mas preciso de abrir esta opinião com uma das frases que me fez sorrir:
 “Antes de Fabrizio, habituara-se a viver sem um homem a seu lado, certa de que, comparadas com as paixões da literatura, as que o mundo lhe oferecia eram mornas. E, porque acreditava no aviso do Livro do Apocalipse de que Deus vomita os tépidos, conformara-se com o seu destino de solteirona: não podendo ferver, preferia ser gelada”.
 Helena Remington viveu um grande amor, um daqueles proibidos e que queima tudo à sua volta tal é a intensidade com que arde. No entanto, os últimos 20 anos não foram capazes de apagar as memórias suspensas no tempo idílico que viveu com Frabrizio​​ mas a incapacidade de estar com o homem que sempre amou não fez da Tia Helena uma pessoa amargurada ou revoltada com o mundo. Filha de uma família de bem e mulher num tempo em que ter um homem como cabeça do agregado familiar era a única coisa lógica para se fazer com a vida de uma mulher, Helena mudou-se para a capital, exerceu a sua profissão com o mesmo fervor que sempre dedicou às coisas que a interessavam e foi um pilar na vida de outro personagem que conhecemos neste livro, o seu sobrinho-neto Carlos. 
Uma narrativa que nos apanha logo com a entrada com um mistério, que desenvolve maravilhosamente a trama de cada personagem e que nos faz saltar entre momentos chave que se passam ao longo de décadas, este "Parem todos os relógios" faz-me pensar no quanto os segredos nos podem consumir ou fazer manter a sanidade.

Eu já o sugeri a uma mão cheia de amigos. Agora venho reforçar a minha sugestão a quem por aqui passa.
Aproveito para deixar a opinião da mana, que foi quem me sugeriu a leitura.

Boas leituras !

segunda-feira, 20 de agosto de 2018

Opinião "O que fica somos nós"

Eu tenho uma certa e doentia preferência por romances que doem, por histórias impossíveis e por amores não correspondidos. 
Quando li que este "o que fica somos nós" era um encontro entre "Um dia" e "Viver depois de ti" sabia me iam arrancar pedacinhos do coração e não me enganei. 
Dei comigo a pensar "gostaria de ter escrito este livro". 


Lucy e Gabe conheceram-se num dia que ainda hoje me faz engolir em seco quando penso na data, 11 de setembro de 2001. O mundo mudou e consequentemente também todos nós mudámos. Para Lucy e Gabe foi o começo de algo arrebatador e honesto mas também o dia em que prometeram fazer os possíveis para deixar uma marca no mundo. Se para Lucy era mudar mentalidades das gerações futuras, para Gabe era mostrar a realidade ao mundo com as suas fotografias.
Mesmo quando tudo à nossa volta é um mar de rosas, há espinhos que mais tarde ou mais cedo acabam por nos ferir. Por vezes é o mundo que não nos deixa seguir o caminho que queremos e outras vezes somos nós que escolhemos um destino diferente e que não se mantém interligado com o da pessoa que mais amamos. 

A história de Lucy e Gabe é-nos contada pela voz de Lucy e isso aproxima-nos dela, quer pela dor que lhe reconhecemos quer pelas dúvidas que todos nós um dia já tivemos por mais perfeita que seja a nossa vida a determinado ponto. Quem nunca foi assaltada por um nome, um perfume ou a visão de alguém do passado? Quantos de nós temos uma pessoa nos nossos passados que ainda acampa no nosso coração e nos atormenta a alma? 

"Nunca senti que fosses meu no mesmo sentido em que o Darren o era...sempre me pareceu que pertencias a ti próprio e que te emprestava a mim quando te apetecia; nunca te possui completamente" 

Oh como eu gostei de ler esta história!
Passamos o livro a conhecer a sua história. O momento que se conheceram, o tempo que o fogo da sua paixão consumia todo o mundo em seu redor e os anos que passaram separados. Ao longo da leitura temos mil e uma ideias sobre o que se passou ou em que ponto estão agora. Queremos saber se eles algum dia voltam a ser o "nós" que internamente nunca deixaram de ser ou porque raio só ouvimos a voz de Lucy ao longo de todo o livro. E depois, se forem como eu, percebem tudo e fazem os possíveis para aguentar as lágrimas até ao final.

Este era daqueles livros que em filme resultava tãooooooooooooo bem :) 

Uma aposta

sábado, 11 de agosto de 2018

Opinião "Um Acordo Muito Sedutor"

Nem acredito que tive este livro na estante durante tanto tempo. Desculpa livrinho pelos 3 anos em que te ignorei :P
"Um acordo muito sedutor" é mesmo o tipo de leitura que me puxa para o modo leitura voraz que eu tanto aprecio. 


Louisa Stratton cresceu órfã. Quando os pais faleceram, ela tinha apenas quatro anos e desde esse momento todos os passos da sua vida foram controlados pela tia, que com punho de ferro comandou Louisa, a sua fortuna e Rosemont, a casa de família. E quando esse aperto afrouxou um pouco, Louisa não perdeu a oportunidade para agarrar a liberdade. Após uma viagem de um ano com apenas a sua fiel criada e amiga Kathleen por companhia, Louisa passeou, viveu, conduziu carros por caminhos perigosos e fugiu às responsabilidades mas pregou a maior mentira de todos os tempos, a que tinha conhecido e casado com o grande amor da sua vida, Maximilian Norwich. Agora no regresso a casa para solucionar de uma vez por todas os problemas que a afastaram, tem duas soluções: contar a verdade e ser considerada louca ou encontrar alguém que possa ser Maximilian por um mês 😃

 Charles Cooper é um capitão do exercício a quem os estilhaços da guerra feriram a alma e o corpo. Desde que regressou a Inglaterra, o único consolo que encontra é no esquecimento que uma gigantesca quantidade de gin lhe proporciona. Determinado em se manter afastado de tudo e todos, não é com bons olhos (ou olho, já que perdeu um na guerra) que vê a proposta da magnânima senhora Evensong, a proprietária da agência de recrutamento mais credível e respeitável do reino. Tudo o que Charles precisa de fazer, além de se manter sóbrio, é fingir ser o marido da herdeira Louisa Stratton no seu regresso a Rosemont. 

O que à primeira vista até parecia fácil, não o é, ou não fosse ela própria um caso especial e houvesse demasiada gente atrás da sua fortuna. A estadia em Rosemont é atribulada por mil e uma razões mas com especial ênfase no facto de alguém atentar contra a vida de Charles/Maximillian logo no primeiro dia e a atração entre o suposto casal começar quase que de imediato. Determinados em descobrir a verdade sobre o que se passa em Rosemont enquanto fingem ser marido e mulher em público mas andam secretamente a consumar o seu "casamento" em privado, Louisa e Charles criam um casal muito à frente do seu tempo, com uma dinâmica dentro e fora do quarto capaz de rivalizar com os grandes casais atormentados que temos conhecido em tantas histórias deste género. 
Separados têm as suas falhas, juntos são invencíveis.

Pena que não se tenha apostado mais nos livros desta autora. A série "Ladies Unlaced" tem mais três volumes e todos com uma mãozinha da Sra. Evensong

"Um Acordo Muito Sedutor" é um livro 

quinta-feira, 9 de agosto de 2018

Opinião "36 perguntas que me fizeram gostar de ti"

 
Qual foi a última vez que tiveram um encontro com um estranho?
Sei que na era da Internet, do Tinder e companhia isso é capaz de ser bem comum mas mesmo assim garanto que existem muitos de vós que responderam "nunca" ou "nem pensar" à minha pergunta.
Agora imaginem que são pessoas predispostas a responder a inquéritos, estudos de mercado e coisas do género. Achariam interessante o confronto de dois desconhecidos, escolhidos aleatoriamente, perante 36 perguntas feitas para se ficarem a conhecer melhor, quem sabe, até se apaixonarem?
Eu acho a experiência uma coisa curiosa e creio que por vezes encontramos mais facilidade em abrirmos a alma a um estranho, do que a quem nos conheceu toda a vida.

Hildy é a típica menina de boas famílias, voluntariosa por natureza que decide participar no estudo por puro "desporto", ou melhor, por interesse na área de psicologia. Quando descobre a temática fica um pouco de pé atrás, talvez por complicações amorosas passadas mas não hesita em avançar.
Já Paul chega desinteressado e pronto a despachar tudo num ápice, já que o incentivo à participação só é recebido no final.
O completo oposto a Hildy, que fala sem parar quanto mais nervosa está, Paul parece inicialmente arrogante e mais interessado em queimar o tempo do que ouvir a parceira no estudo mas quando o verniz entre ambos estala é que a coisa anima a valer.
Serão estas 36 perguntas suficientes para que os pólos opostos se atraíam?

Duas pessoas que caso se cruzassem na rua não olhariam uma para a outra com interesse, encontram nesta "experiência" o escrutínio que lhes permite olhar para si e para o outro com uma perspectiva diferente.
Um romance que me surpreendeu pela positiva e que me deixou a querer mais. Mais história, mais um livro, mais Paul e Hildy.

E vocês? Estão dispostas a sentar frente a frente com um desconhecido e responder honestamente a 36 perguntas que vos colocam a alma a nu?
Leiam o livro de Vicki Grant e confirmem isso mesmo. Eu dei por mim a responder às perguntas para mim própria e pensei no quanto deve ser um desafio olhar outra pessoa nos olhos e deixar sair cá para fora a verdade.

"36 perguntas que me fizeram gostar de ti" é um livro

Opinião da metade negra

quarta-feira, 8 de agosto de 2018

Opinião "Se eu tivesse um Duque"

Estes Duques da Desgraça são a minha perdição!
Depois do escandaloso duque de Harland e da falsa Lady Dorothea, em "Conquistar um Duque", temos a oportunidade de conhecer a verdadeira Thea e saber mais detalhes sobre o fugidio Duque de Osborne. 


 Educada para ser uma Lady refinada com as arestas todas limadas pela sua mãe a Condessa Beaumont, Dorothea tem sido sempre uma desilusão. Com duas temporadas repletas de gaffes e uma trapalhada de todo o tamanho no seu quase casamento com o Duque de Harland, Dorothea foi enviada para a Irlanda para casa de uma tia até ser novamente inserida na sociedade para aquela que será a sua última oportunidade. Determinada em passar despercebida e assim poder voltar à pacatez do campo onde pode sonhar com arte, em especial com a misteriosa vida da pintora Artemísia Gentileschi, Dorothea vê os seus intentos gorados quando numa tentativa de chamar a atenção do Duque de Orborne para os quadros da sua casa irlandesa, acaba no centro das atenções do primeiro baile da temporada e se torna a solteira mais desejada de Londres. Determinada em responsabilizar o culpado, nada mais nada menos que o libertino e fugidio Duque, Dorothea arrisca a sua reputação ao entrar nos aposentos ducais para exigir que este desfaça o mal que lhe fez ou compactue com a sua fuga para a Irlanda. O que ela mal sabe é que essa noite iria mudar o rumo da sua vida para sempre. O Duque não é apenas um homem indulgente e o ocioso. O sensacionalismo em volta dos seus casos amorosos é apenas um capote que encobre as suas actividades de justiceiro e a sua saga de vingança pela morte do irmão.

Da escura noite Londrina, de onde fugiram à pressa e descontentes com a companhia um do outro, até à costa da Irlanda onde colocam a nú a sua alma (e não só), Thea e Dalton (o Duque!) fazem deste "Se eu tivesse um Duque" uma magnífica continuação à série iniciada pela meia irmã dela e o melhor amigo dele. 

 "Desde que estejamos vivos, podemos mudar. Até sermos ossos a descansar numa cripta, temos o poder de moldar os nossos destinos" 

 E é com mestria, engenho, prazer e perdão que estes dois derrubam as barreiras que sempre os rodearam, quer tenham sido erigidas pela exigência da família, a sede de vingança ou a falta de confiança em si próprios. Adorei este Duque e Thea não lhe fica nada atrás. Adorei relembrar os quadros de Artemísia Gentileschi que como Thea, tive o prazer de observar durante muito tempo nas Uffizi em Florença. Curiosamente foi um livro que me levou lá. Quem diz que os livros não têm nada de interessante?!  

Estou bastante curiosa para saber o que se segue. Lorde Hatherly, está preparado para o seu escândalo amoroso?
Já estou a esfregar as mãos :D

Esta é uma novidade


terça-feira, 7 de agosto de 2018

Opiniao "A Ilha dos Segredos"

"Temos tendência para projectar o que queremos ver nas pessoas, ou o que achamos ser a verdade em relação a quem são"


Melhor que estar de férias é conseguir ler uma história que nos faz viajar para outro destino onde teríamos todo o gosto de ir e ficar lá perdida durante uns meses.
O encanto das ilhas gregas é-nos incutido ao longo de todo este romance, assim como a compreensão grega sobre os diversos tipos de amor, a devoção à família e a dualidade que o ser humano encontra quando o que mais deseja no mundo e o que deve fazer não coincidem.
 
Anna viveu a sua vida em Inglaterra e esta tem sido a sua casa desde sempre, no entanto, a ilha grega de onde o pai é natural e onde passou bons momentos da sua vida, ocupa um lugar especial no seu coração.
Quando a sua vida entra num momento montanha russa, em que o seu casamento sofre um abalo, a saudade da falecida mãe é insuportável e a necessidade de aproveitar tempo de qualidade com o pai é imperativa, Anna ruma à pequena ilha no mar Egeu para um verão repleto de horizontes a perder de vista, cheiros que a transportam para o passado e tempo que sobra para aproveitar a companhia do pai e dos familiares paternos.
No entanto o que Anna encontra é um verão com sabor à adolescência, repleto de noites ao som das ondas, dos cantares gregos e do tilintar de copos pela noite dentro.
É na ilha que irá igualmente encontrar alguma paz de espírito para voltar a desenhar pelo meio da natureza e sem querer, abrir uma janela para o passado, um conhecimento que a vai fazer colocar toda o seu passado em perspectiva e quem sabe moldar para sempre as decisões e a maneira como dá rumo à sua vida.

Uma lição sobre amor, família, herança cultural e o sentido que cada um dá à palavra "casa".
Mais que o sítio onde vivemos ou nascemos, "casa" pode assumir uma multitude se locais, caras ou momentos.
Poderá até ser um sentimento?


"A ilha dos segredos" é um romance de verão com a capacidade de nos fazer mergulhar de cabeça na leitura e esquecer a piscina que cintila à nossa frente.
Será que posso fechar os olhos aqui e abri-los de frente para o mar Egeu?
Esta descrição toda de sombras de limoeiros, noites quentes ao som de guitarras e copos, movimentos constantes do mar e o carácter grego só me deixou com mais vontade de ir à Grécia.
Posso ir umas semanas para uma destas ilhas no mar Egeu? Eu até aprendo um pouco de grego, não me importo.

Boas leituras
"A Ilha dos Segredos" é uma novidade

quarta-feira, 25 de julho de 2018

«O Executor» de Lars Kepler :: Opinião


A saga continua! Serão oito volumes e eu ainda tenho mais seis para me imiscuir no passado do detective Joona Linna. Em entrevista, a propósito de «O Executor» os autores referem o papel do passado, a profundidade dos assuntos e o compromisso com a leitura viciante. E neste vamos encontrar um tema polémico: a exportação de armas, os contratos entre governos e um dos negócios mais antigos do mundo, o tráfico.

Neste volume, o motivo que se aponta para as mortes está relacionado com o comercio ilegal de armas para zonas em conflito, países arrasados pela guerra e para os quais as leis internacionais proíbem exportar material bélico. Claro está, isso não se cumpre. É explorando esses contractos ilegais, esses pactos com o diabo, um negócio do qual nunca se sai ileso, que vamos seguindo viciados neste enredo e percebemos que a activista e pacifista Penélope Fernández é um alvo a abater. 

Este livro é também detalhado e muito completo para elucidar o leitor para a perícia com que os crimes podem ser executados, especialmente a forma como se suspeita do suicídio/assassinato de Carl Palmcrona. E isso é muito interessante.
Outro detalhe é como remete ao passado de diversos personagens para justificar as suas acções, traumas e preconceitos. Um dos que mais gostei foi de Saga Bauer e até nisso os autores estão atentos à actualidade e; como critica social descrevem as mulheres sempre em maior esforço e maior investimento para que lhes sejam valorizadas as suas competências, mostrando que os nórdicos também ainda têm ainda um caminho a percorrer no que respeita à igualdade de géneros. 

O drama dos refugiados, igualmente actual, também está presente neste volume, mais precisamente o drama do Darfur, as minorias étnicas e os massacres. E é bastante curioso que uma personagem como Penélope, com o passado de clausura que teve, ter como objectivo de vida estas missões humanitárias.

Melhor ainda é a correlação estabelecida ao longo de toda a história com a música e o compositor e violinista Niccolò Paganini. Uma obsessão que leva a um enredo paralelo (que daria bem um outro livro) e que ajudará a resolver os crimes. E com isto não estou a dar qualquer spoiler ;)

"O andamento é subitamente vertiginoso, prestíssimo. É divertido e belo e, ao mesmo tempo, entrecortado por repentinas mudanças de cordas e saltos arriscados entre as oitavas."

Tal como o livro da dupla Kepler!

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Com este livro surge a referência para outro, um que uma das personagens lê: «O acidente» de Friedrich Dürrenmatt

sexta-feira, 20 de julho de 2018

«Fahrenheit 451» de Ray Bradbury - Opinião


Em 1953 o livro de Ray Bradbury foi publicado como um manifesto contra a censura e traçava um cenário diabólico, que à época parecia absurdo. Era afinal um aviso. O seu tom era premonitório e hoje choca pela semelhança com a realidade que temos, numa sociedade tão virada para os ecrãs e em constante estupidificação. 
O alerta era para a massificação da televisão e que as pessoas não estavam a perceber o quanto isso as tornava imbecis e desinteressadas do que realmente as rodeava. E pior é ver que mais de cinquenta anos depois a massificação continua e o cidadão vai empalidecendo atrás dos diversos tipos de ecrãs.
No entanto,  «Fahrenheit 451» é, acima de tudo, uma saga, uma viagem de redenção. Há uma reviravolta e uma conversão que ainda é possível: "vagabundos por fora e bibliotecas por dentro".

Da fogueira até aos homens-livro, conhecemos a reviravolta na cabeça de Montag, o bombeiro que incendeia livros: essas ameaças de luz aos cidadãos cinzentos, viciados em ecrãs e comprimidos. 
O prazer com que Montag exercia a sua profissão/missão é assustadora e percebe-se que é uma referência ligada ao passado recente de uma Europa entregue aos totalitarismos. A critica social é feroz e um espelho do que tem vindo a acontecer até aos dias de hoje:

"Depois, o cinema no início do século XX. A rádio. A televisão. As coisas começaram a ser em massa.
Montag permaneceu sentado, imóvel.
- E porque possuíam massa, tornaram-se mais simples. Outrora, os livros atraíram algumas pessoas, aqui e ali, um pouco por todo o lado. Pessoas que podiam dar-se ao luxo de serem diferentes. Havia espaço para isso no mundo. Mas depois o mundo encheu-se de olhos, de cotovelos e de bocas. A população duplicou, triplicou. Os filmes e a rádio, as revistas, os livros foram ficando todos ao mesmo nível, uma espécie de pudim pastoso (...)
- (...) Os livros ficam mais curtos. Condensações. Resumos. Tabloides. Tudo se orienta para a piada, o fim abrupto.
(...) Tudo digerido, resumido, digerido-resumido. Política? Uma coluna, duas frases, um título! E depois, tudo desaparece! A mente dos homens anda a tal velocidade neste carrossel movido pelas mãos dos editores, exploradores e radiodifusores que, nesse movimento centrífugo, se perde tudo o que seja pensamento, considerado desnecessário, uma perda de tempo!"

Até nesta digestão acelerada e ao sabor de interesses comerciais, este livro se aproxima dos dias de hoje. Cada avanço na narrativa quer chamar à atenção para o poder dos livros e da necessidade de abandonar a máscara social e a vida ao sabor de modas e tendências. Se actualmente "ser diferente" está na moda, a pergunta que fica é se essa diferença é genuína ou simplesmente provocada para uma integração no modelo ditado pelas maiorias. 

«Fahrenheit 451»  é um grito contra o status quo, é um abanão, abana a árvore e deita abaixo essa preguiça... a preguiça de questionar, de pensar. A sociedade distópica aqui relatada não questiona, não tem curiosidades, todos são egoístas e niilistas, aborrecidos e irresponsáveis. Controlam a raiva através de divertimentos tão bizarros e impunes como ir atropelar pessoas. Os livros aqui são símbolos para o livre pensamento, através do acto de ler, pensar, questionar e em última estância, criar e evoluir.

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Uma edição SDE | Saída de Emergência


«O Hipnotista» - Lars Kepler :: Opinião


Publicado em 2010 pela Porto Editora, «O Hipnotista» inicia a saga do detective Joona Linna pela mão da dupla Alexander Ahndoril e Alexandra Coelho Ahndoril, o casal por detrás do muito aclamado pseudónimo: Lars Kepler.
Aquando da publicação do último volume, «O Caçador», cujo a sinopse me cativou bastante, decidi-me a começar esta longa saga e ficar a conhecer esta dupla, donos de enredos psicológicos e sangrentos. 

«O Hipnotista» parte do mito grego, do deus Hipnos, cujo o nome significa «sono». Hipnos é irmão gémeo da morte e filho da noite da escuridão. Mas indica também que a hipnose remonta à medicina com a data de 1843, como um estado próximo do sono e, ao mesmo tempo, de extrema atenção e grande recetividade. 
Será com esta ambivalência que o leitor se depara durante todo o livro até perceber os motivos do crime inicial e de outros que são descobertos mais tarde. 

Também hipnotizado, o leitor segue com Erik Maria Bark, no frio anestesiante de uma noite nevada e desde logo se percebe que o hipnotista irá ceder e quebrar a promessa. Uma família foi violentamente assassinada, esquartejados, corpos despedaçados pela casa fora, uma carnificina digna de ajustes de contas entre cartéis de droga. 
Bark aceita a sugestão de Daniela e voltará a hipnotizar, mas com resultados que poderão entrar em conflito com o desenrolar da investigação a cargo de Joona Linna, ou pelo menos ele assim decide. Teimoso e persistente, Linna persegue uma investigação de contornos alucinantes, nomeadamente o rapaz que, vítima de inúmeras facadas, se encontrava vivo, contrariamente ao que era suposto.

"O comissário pensa na palavra sueca para «autópsia», obduktion, que vem do latim e que significa, originalmente, «cobrir, ocultar, envolver», quando, na realidade, o que se faz durante esse processo é precisamente o contrário."

Tal como numa investigação, recorra ela a um passado recente ou a um já bem enterrado.
O passado, tão útil a ocultar dramas, mas não a sarar feridas; vive precisamente disso: cobrir, ocultar, envolver e, influenciar o presente. Especialmente quando ocorre o rapto de Benjamin, filho de Erik Bark. É por certo o passado a persegui-lo!

"«O passado não está morto. O passado nem sequer passou», citando o escritor William Faulkner, referia-me a que cada pequena coisa que acontece a um ser humano o acompanha até ao presente. Todas as vivências influenciam (...) tratando-se de experiências traumáticas, o passado passa a ocupar todo o espaço do presente."

É precisamente dessas experiências traumáticas que a dupla Kepler se alimenta para tecer um thriller psicológico intenso e viciante, fazendo o leitor querer logo pegar no volume seguinte: «O Executor» de tão boa que é esta estreia.

quinta-feira, 19 de julho de 2018

«O Bom Inverno» de João Tordo - Opinião


Frustrado, cínico e hipocondríaco, o narrador: um escritor entregue à melancolia e a um certo ócio, está descrente do poder da literatura. Céptico com o poder dos livros e das suas histórias e, igualmente pessimista com o que a realidade tem para lhe oferecer.

"Se antes eu era um pessimista, depois de comprar a bengala passei a ser um cínico. Um homem novo com uma bengala podia dar-se ao luxo de desprezar o mundo e, assim sendo, eu tencionava aproveitar a oportunidade para ajustar contas com a realidade."

Apoiado na bengala recentemente adquirida, o narrador escritor larga o conforto anestesiante do seu apartamento e segue em direcção a um enigma oferecido por Vincenzo e um grupo de jovens escritores com quem se encontra numa palestra internacional. 

"«Sabes o que é curioso?», perguntei, sorrindo, embora sem grande vontade, «Eu, no que diz respeito à literatura, regredi. (...)
Nina pensou durante uns momentos.
«(...) cada vez mais acredito que só vale a pena ler um romance (...) quando temos uma pergunta na cabeça para a qual não sabemos a resposta. Ou, mesmo que tenhamos encontrado a resposta, se precisarmos de confirmação.»
Fiquei intrigado. Pedi-lhe nova explicação.
«Pensa bem: o mesmo se aplica a escrever livros, ou não? Não será o escritor, verdadeiramente, o único interessado naquilo que escreve? Quero dizer, porquê andar a inventar histórias a torto e a direito, a menos que essas histórias sejam a solução, temporária ou absoluta, para um enigma qualquer?»
«Todos temos enigmas por decifrar», repliquei. «No entanto, nem todos lemos ficção. E somos ainda menos os que a escrevemos.»
«Justamente», respondeu Nina. «Porque pessoas diferentes encontram as respostas em lugares diferentes (...)»
«Ao mesmo tempo é uma forma de cobardia», respondi (...)
«Pois é», (...) «Os escritores, no fundo, são todos uns cobardes.»
Fiquei sem resposta..."

Com alguma cobardia e sem grande determinação, o destino é a idílica Itália, com o objectivo de conhecer uma prometedora sumidade do cinema e das artes em geral, Don Metzger e usufruir de uma temporada de Verão na sua casa com a promessa de algumas peripécias e acontecimentos inesperados.

"Sabaudia é um lugar estranho, que cai algures entre o cinema realista italiano aprovado por Vittorio Mussolini, filho do grande ditador, e o melhor surrealismo de Fellini. Difícil de explicar. A cidade foi mandada construir por Mussolini em cima de uma vasta extensão de pântanos drenados (...)
«Um lugar bizarro»"

E num lugar bizarro espera-se que aconteçam coisas igualmente bizarras. Vicenzo esperava-o e silenciosamente o escritor desesperançado também, nem que fosse alguma curiosidade que Nina despertava nele para um ajuste de contas com a realidade. Juntos rapidamente se vêem enredados num crime, uma morte seguida de outra, como num jogo viciado ou envolvido nos meandros da máfia. 

"Cauteloso era um eufemismo para aquilo que eu me tornara; na verdade, eu desistira, permitindo que a indiferença vencesse. 
Ajustar contas com a realidade escusando-me de existir, e um homem que se escusa voluntariamente a existir sucumbiu ao apelo da fraqueza, ou da cobardia, ou da ausência (...)"

Um homem que se escusa voluntariamente a existir, mas que mesmo assim seguiu aquele grupo, embora coxo, deprimido e cansado, não é homem para abandonar tudo por completo. É sim um cínico, um escritor camuflado na lentidão da bengala, na soberba de captar os melhores detalhes para um enredo refinado e primoroso como os balões de ar quente que dão pano de fundo a esta narrativa, juntamente com a voluptuosidade de um bom inverno e o misticismo da floresta.

"O Verão instalou-se na sua grandeza e também na sua miséria. A noção de que pouco havia a fazer naquele momento infundiu nas almas uma entranha apatia e, ao mesmo tempo, de uma urgência em regressar ao quotidiano (...) e partilhavam-no com quem quer que se encontrasse por ali (...) e os seus silêncios eram longos, melancólicos e pesados."

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Desde «A biografia involuntária dos amantes» que um livro do Tordo não me prendia tanto ao enredo e ao narrador. Há como que uma salvação pessoal apegada à salvação dos outros, sempre voluntariamente disfarçada, um pouco cobarde, um tanto cínica, numa procura constante pelas miudezas que dão sentido à vida.

«O desaparecimento de Stephanie Mailer» de Joël Dicker - Opinião



Sou fã de Dicker!
O suiço cria enredos que mais parecem redes velhas de pesca. Embaraçadas em nós antigos, presos por restos de muitas outras pescarias das quais já ninguém se lembra. Depois, numa madrugada em que o mar está de feição, alguém se lembra de desenovelar essas velhas redes e lançar-se a novas descobertas.
O leitor tem assim um papel de mexilhão, fixa-se como pode, agarrando-se aos detalhes, tentado compreender o fluxo da maré.

«O desaparecimento de Stephanie Mailer» é um livro puzzle como «A verdade sobre o caso de Harry Quebert» mas que a meu ver não supera nem se iguala a esse. Os livros estão dentro de livros , a investigação chega a ser incauta ou pessoal mais do que detetivesca, o amor move sempre a maioria dos personagens, mas a forma como este último é montado não se torna tão viciante como o primeiro, e nem cumpre a máxima: "Um bom livro, Marcus, é um livro que lamentamos ter acabado de ler."

Talvez a expectativa fosse muito elevada ou então é a minha exigência. O que sei é que não me fixei tanto nas personagens e senti semelhanças com outros enredos ou dei por mim a divagar para outros cenários. Houve personagens ou situações que me lembraram a série «Fargo»,a falsidade de certas personagens levou-me a pensar em «Big Litle Lies», o cenário, Orphea, cansou-me pela sua superficialidade.

No entanto, o livro tem tudo: os capítulos incisivos e que alimentam o ritmo de leitura, o enredo que se adensa, as peripécias, os supostos deslizes dos personagens para o leitor achar que já sabe quem matou quem, o lado de farsa daquela camada social, o critico azedo, a jornalista e a detective que querem singrar como profissionais reconhecidas, um pouco daquele charme do policia bom e do policia mau... e claro está, um erro que pode pôr em causa mais de vinte anos de uma carreira bem sucedida. Mas falta-lhe qualquer coisa e creio que desta vez os detalhes, as histórias de tantas personagens acabam por distrair ou talvez até cansar o leitor, que quer ver uma justificação para tantos enredos dentro do enredo e sai um pouco frustrado pela colagem final.
É muito mais uma série de mal entendidos, acasos infelizes e amores assolapados do que mentes argutas e frias que arquitectam um crime perfeito.

Repito sou fã do autor, li os seus quatro livros, o meu favorito é o que foge ao ambiente de thriller, «Os Últimos Dias dos Nossos Pais» é um livro de extrema beleza, essencialmente pelo lado humano e a forma como descreve as relações que superam o ambiente de guerra. Este último, definitivamente, não me convenceu.

sábado, 14 de julho de 2018

«Morrer com dignidade – a decisão de cada um» - Opinião


O livro "Morrer com dignidade: a decisão de cada um", da autoria do movimento cívico Direito a Morrer com Dignidade e organizado pelo médico e político João Semedo (coautor de «Salvar o SNS», Porto Editora 2017), pretende esclarecer e informar sobre a despenalização da Morte Assistida. O livro inclui testemunhos de personalidades públicas e textos que abordam as questões fundamentais sobre a morte assistida e ainda apontamentos de foro jurídico sobre os projectos de lei que visam a despenalização na ajuda à morte. 
Seja apelidada de eutanásia, suicídio assistido ou morte assistida, tudo são termos para obter ajuda a morrer de forma legal e sem consequências para quem ajuda, nomeadamente familiares. O tema já não é novo no debate nacional e é dos que mais tempo tem sido alvo de debates e criticas ferozes, mas ainda assim, muito há ainda que debater e esclarecer, para que exista uma maior aceitação pela escolha de cada um.
"A despenalização da morte assistida é a mais humanitária e democrática opção que podemos aprovar para o final da vida: ninguém é obrigado e ninguém é impedido, o único critério é a escolha de cada um."

E é nessa possibilidade de escolha que reside ou que devia residir a democracia actual, permitindo a actuação em liberdade e responsabilidade, tanto de quem pede para ser ajudado a morrer, como quem pode e tem meios para ajudar. A relação médico-doente tem sido igual e amplamente debatida e muito se tem discutido sobre a missão dos médicos, mas também sobre a forma paternalista como se olha à pessoa doente.

"Nós somos seres para a morte. Sabemo-lo desde que nascemos (...) É «humano» e - como dizia Ter~encio - nada do que é humano nos é estranho. Então porquê considerar uma aceitação do fim, um planear do fim, como um transtorno da razão? Se a doença altera o nosso estado de espírito não nos estupidifica necessariamente. Nem nos obriga a suportar um sofrimento indizível. A doença pode dar-nos uma consciência renovada sobre a nossa finitude (...)
Deverá o médico consolar? Sim, (...) mas respeitando criteriosamente a racionalidade interna do seu doente (...) Pois o médico não tem de ser um dador de sentido. Tem de ser um respeitador dos sentidos."

Laura Ferreira Alves («Ajudas-me a morrer?», Sextante 2009) fala do fim da vida em sofrimento como uma tortura e é no sentido de acabar com essa tortura que se apela ao direito da liberdade individual de escolha em antecipar o fim dessa mesma vida. No entanto, a deliberação a favor da despenalização continua a protelar e a apelar, ou a apoiar-se, nos cuidados paliativos, que sabemos serem bastante fracos no nosso país e daí o constante alerta: "morre-se mal em Portugal". A degradação lenta e penosa da pessoa perante a doença é o principal fundamento para se exigir ao direito a uma morte digna e livre do peso da clandestinidade.



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sábado, 23 de junho de 2018

"Extremamente alto e incrivelmente perto" de Jonatham Safran Foer :: Opinião

Resultado de imagem para "Extremamente alto e incrivelmente perto" de Jonathan Safran Foer

Mais de dez anos separam os romances "Extremamente perto e incrivelmente alto" de "Aqui estou", mas eu não não precisei sequer de um mês para devorar ambos os livros. A escrita de Foer é altamente marcante. O autor cria narrativas entrecortadas no tempo, que fazem o leitor sentir-se à deriva. Afinal o foco dos seus romances é a família e quantas vezes os dramas familiares não são isso mesmo: um imenso mar onde tudo choca, tudo balanceia e se revolve, aguardando por marés mais calmas, mais apaziguadoras. 

"As palavras já se tinham esgotado quando conheci a tua mãe, talvez tivesse sido isso a tornar o nosso casamento possível, ela nunca teve de me conhecer."

A sensação de não conhecer perdura no leitor por muito tempo, diria até que navegamos sem rumo por mais de uma centena de páginas. A dificuldade de ligar as histórias e saber quem é quem parece propositada, só Oskar nos vai encaminhando e puxando para o presente. E mesmo assim, a forma acelerada e complexa como funciona a sua cabeça, em modos de quase-cientista, ajuda a compor uma autêntica sinfonia com toda a restante família.

"As minhas botas estavam tão pesadas que me senti contente por haver uma coluna por baixo de nós. Como podia uma pessoas tão solitária ter vivido tão perto de mim durante toda a sua vida? (...)
Isso fez-me começar a perguntar-me se haveria outras pessoas tão solitárias assim tão perto. Pensei em «Eleanor Rigby» (título de uma canção dos Beatles). É verdade, de onde vêm todos eles? E onde pertencem?"

 A solidão é uma constante. É uma tempestade avassaladora. Oskar perdeu o pai nos atentados do 11 de Setembro e a sua luta é tentar sentir-se mais perto dele, todos os dias. Oskar não o quer esquecer, não se quer desfazer de objectos do pai, não quer que a mãe prossiga com a sua vida. E mais, quer desvendar um mistério por detrás de uma chave misteriosa. E isso levá-lo-à a confrontar-se com a solidão dos outros, as suas emoções mais retraídas e a crescer em mais direcções do que aquelas em que já cresceu para a sua pouca idade de onze anos.

"Outra coisa que também me surpreendeu foi o caixão não estar fechado à chave, nem sequer pregado com pregos. A tampa só estava assente em cima dele (...). Isso não me pareceu bem. Mas, por outro lado, quem iria abrir querer abrir um caixão?
Abri o caixão.
Fiquei outra vez surpreendido, embora, mais uma vez, não devesse ter ficado. (...) Ou talvez ficasse surpreendido por ele estar tão incrivelmente vazio. Pareceu-me olhar para a definição de vazio no dicionário."

A variação no discurso é complexa e leva-nos até diferentes personagens que convergem para o passado. O passado, mais ou menos longínquo, é constantemente invocado através cartas dispersas, umas guardadas, outras lançadas ao acaso e ainda outras eternamente à espera de encontrarem coragem para as selar e seguir o seu caminho. 

A memória e o passado atravessam esta narrativa com a mesma força com que Oskar se empenha na sua busca. "Extremamente alto e incrivelmente perto." é um livro desafiante, recheado de peripécias e uma boa dose de humor negro, devido à forma como Oskar olha e comenta o mundo à sua volta. E é ainda um livro carregado de emoções que ora nos faz olhar ao nosso umbigo, fazendo-nos reflectir, ora nos abre os olhos para uma dimensão muito maior do mundo. 

segunda-feira, 18 de junho de 2018

Opinião "Chama-me pelo teu nome"

 Embora não seja costume ler o livro depois de ver a sua adaptação, não resisti em comprar este romance de André Aciman e de voltar aos idílicos meses de verão sob o sol italiano, tão repletos de paixão, mal entendidos, medos e experiências marcantes. Queria confirmar se o primeiro pensamento que tive, que esta história era uma coisa linda e livre de julgamento, se mantinha com a leitura.


Elio é um miúdo com 17 anos no corpo mas muitos mais na alma. A educação e a liberdade que os pais lhe deram fazem-no viver com a complexa tarefa de pensar e sentir como alguém mais velho mas não é por isso que deixa de ter coisas da sua idade.
Quando o mais recente visitante de verão chega para passar 6 semanas, Élio oscila entre a necessidade de agradar e a demonstração casual de indiferenca que por vezes lhe é característica mas que também esconde algo mais.
Oliver, nos seus plenos vinte quatro aproveita a oportunidade para trabalhar no seu livro enquanto ajuda o pai de Élio, isto tudo numa estadia que eu dava um dedo do pé para poder usufruir.

E o que começou com uma secreta atração unilateral transforma-se em algo profundo, capaz de derrubar as barreiras que eles próprios ergueram entre ambos, capaz de os fazer sair da sua própria pele.
Uma história de amor, desejo, culpa, dúvida e intimidade. Uma que me deu um gozo enorme conhecer e que me deixou rendida à beleza que os olhos de Élio captam naquelas semanas. Beleza essa que não se perde nem nas cenas mais in your face

E aquelas últimas 30 páginas mexeram comigo, tanto como quando vi o filme.
Não vos quero roubar a beleza pura de uma conversa em específico mas quando chegarem lá vão perceber. Ou talvez seja preciso ter passado pela nossa cota parte de amores, desamores, dúvidas e julgamentos para ver nesta história a beleza que lhe é inerente.
A verdade é que demoramos tanto tempo a perceber quem somos e vivemos tanta coisa em vidas paralelas à que levamos diante da grande maioria das pessoas que nos rodeia que é bom saber que há quem consiga, sem falácia ou moralidade, apoiar-nos no bom e no mau, no certo e no incerto.
Termino com um sorriso, uma lágrima e esta frase:

"Arrancamos tanto de nós próprios só para nos curarmos das coisas, mais depressa do que deveríamos, que entramos em falência por volta dos trinta anos e temos menos para oferecer de cada vez que começamos com alguém novo"

"Chama-me pelo teu nome" é um dos meus livros preferidos e chega a Portugal pela mão do Clube do Autor