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segunda-feira, 12 de dezembro de 2022

«A Vida não é aqui» Milan Kundera - Opinião



“O poeta necessita de uma metade mágica para fazer poesia.” Otávio Paz

Será essa metade a mãe? A vida ou a morte? A guerra? Ou a resistência?

Ao poeta não podemos exigir que evite a guerra. Mesmo palavras poderosas que ferem e separam. Mesmo essas, não matam. Por isso, ao poeta, só podemos pedir que resista e reconstrua os vazios da guerra, num diálogo alimentado a ausências.

Em “A vida não é aqui”, Kundera “deixa” escorregar do corpo de uma mulher, para os lençóis manchados do mundo, um poeta. Um bebé primaveril e por isso de nome Jaromil ;) Com o bebé nasce uma mãe, experimentando a poesia abrupta do corpo, uma animalidade que até ali a repugnava.

“Tratava-se de uma coisa completamente nova, porque a mãe experimentava desde a infância uma repugnância relativamente à animalidade, tanto dos outros como sua; achava degradante sentar-se no assento das sanitas (…), e havia mesmo alturas em que tinha vergonha de comer diante de gente, porque a mastigação e a deglutição lhe pareciam repugnantes. E eis que estranhamente a animalidade do seu filho, erguida acima de toda a fealdade, purificava e justificava aos olhos dela o seu próprio corpo.”

Talvez a metade mágica seja o amor, nas suas mais variadas formas e lutas e Jaromil teve a sorte de começar a vida com o amor materno, bem como o da restante família, porém se a falta de amor causa danos, tê-lo não o isentou de dissabores.

“O amor materno imprime na fronte dos rapazes uma marca que repele a simpatia dos colegas.”

E talvez alguns dissabores o conduzam a alguma solidão, uma solidão povoada por companhias fantásticas, tornando-a numa solidão produtiva.

“Sonhar com cães tornou-se a paixão da sua solidão (…) e como passava muito tempo à secretária do pai com um lápis e papel (…) de maneira que os seus devaneios e a sua falta de jeito deram origem a um universo estranho de homens cinocéfalos, um universo de personagens…”

Porém, quando as solidões se cruzam abrem brechas que podem virar abismos: “o abismo da intimidade ilícita e da compreensão proibida.”

Um livro sobre o universo interior que se alimenta muito do que não é dito, embora o que é dito e dado a entender nas entrelinhas seja suficiente para de uma história tecer várias, enredando-lhe os fios com os da literatura, da guerra, da filosofia, da poesia, da traição, da obscuridade, da loucura e da depressão, do amor e da solidão. Ou seja, a vida a enredar-se na vida. Nas vidas! Quando uma se esconde, outra se revela.

“Xavier não vivia uma vida só estendendo-se do nascimento à morte como um longo fio sujo; não vivia a sua vida, mas dormi-a; nessa vida-sono saltava de um sonho para outro sonho; sonhava; adormecia a sonhar e sonhava outro sonho, de tal maneira que o seu sono era como uma caixa na qual entre uma outra caixa, e nesta uma outra caixa ainda, e nesta outra, e assim por diante.”

quarta-feira, 7 de dezembro de 2022

«A Ignorância» de Milan Kundera :: Opinião


Lido pela primeira vez em 2010, «A Ignorância» é um pequeno livro cheio de grandes questões como é hábito conterem os livros de Milan Kundera. Nessa primeira leitura foquei-me na nostalgia, memória e regresso e desta não foi muito muito diferente, embora seja curioso ver a diferença entre os trechos selecionados. 

Um homem, Josef, vê-se a braços com um regresso e as indagações que daí advêm, quando se confronta com a pátria e uma mulher. Irene, da qual não se lembra, mas com o que ele mais se confronta é com a memória e a certeza de que o regresso é a reconciliação com a finitude da vida, caso contrário, seria alimentar a eterna fuga, «habitar o infinito», que foi precisamente do que fugiu quando deflagrou a guerra e o comunismo. 

E a dúvida instala-se! Atormenta-o. Aliás, atormenta-os a ambos, numa fraternidade nocturna, cujo sonho comum expõe os mesmos medos.

“Também a memória não é compreensível à falta de uma abordagem matemática. O dado fundamental é a relação numérica entre o tempo da vida vivida e o tempo da vida armazenada na memória. Nunca se tentou calcular esta relação e não existe de resto qualquer meio técnico de o fazer; no entanto, sem correr grande risco de me enganar, posso supor que a memória não guarda mais que um milionésimo, um bilionésimo, em suma uma parcela perfeitamente ínfima da vida vivida. Também isto faz parte da essência do homem. […] 

Nunca acabaremos de criticar os que de forma o passado, ou reescrevem, ou falsificam, que dilatam a importância de um acontecimento, e calam a de outro (…) À margem da nossa vontade e dos nossos interesses. Nada se compreenderá da vida humana enquanto se persistir em escamotear a primeira de todas as evidências: a realidade, tal como existia quando existia, já não existe; a sua restituição é impossível.”

 Atormenta-os também, a necessidade tão grande de catalogar e medir a dor e sofrimento, entre quem partiu e quem ficou, explorando uma ideia de hierarquia da dor, juntamente com os sentimentos de traição e amputação, dividindo novamente quem foi e quem resistiu, restituindo-se o reconhecimento como vítimas. Restituindo-se direitos. 

“Primeiro, com o desinteresse total pelo que ela viveu no estrangeiro, amputaram na de vinte anos de vida. Agora, com este interrogatório, tentam voltar a coser o seu passado antigo e a sua vida presente. Como se a amputassem do antebraço e lhe fixassem a mão diretamente no cotovelo, como se a amputassem das pernas pelo joelho e lhe prendessem aos joelhos os pés ponto siderada por esta imagem, não é capaz de responder nada às perguntas delas (…)”

Questionando a deformação da memória, essa «memória que o detestava, que não fazia outra coisa que não fosse caluniá-lo; esforçava-se por isso por não acreditar nela», por manter a sua «insuficiência de nostalgia» e «à medida que trechos da sua vida caem no esquecimento, o homem desembaraça-se daquilo de que não gosta e sente-se mais leve, mais livre», ainda assim, para se apaixonar, é preciso estar presente e no presente. E a paixão é a exaltação do presente, da vontade de viver, mas como poderia conhecer o sentido do presente quem não conhece o futuro?


quarta-feira, 7 de julho de 2010

A nostalgia da ignorância

A Ignorância, Milan Kundera - Opinião

"...a nostalgia aparece como o sofrimento da ignorância. Tu estás longe, e eu não sei o que te acontece. O meu país está longe, e não sei o que se lá passa... a obsessão do regresso...A Odisseia, a epopeia fundadora da nostalgia..."

Relatando a sua preocupação com a nostalgia e a ignorância, é na definição destes dois conceitos que se fundem e complementam que Milan Kundera disserta sobre a dificuldade de regresso à pátria abandonada ou que o abandonou!?

A memória que se tem do nosso país outrora massacrado e derrubado justifica em certos casos a ausência de nostalgia, «o doente sofre de deformação masoquista de memória» e por deformação da memória, os amantes confundem sentimentos e alegram-se com estranhas coincidências - "(...) nunca se sente tão penetrada de beleza como quando a nostalgia do seu primeiro amor se confunde com as surpresas do seu novo amor(...)."

Dilatando as nossas concepções sobre memórias, tempo de vida vivido, histórias armazenadas e outras esquecidas, Milan Kundera leva-nos até ao momento de regresso à nova e restaurada República Checa, onde o amor, um estranho amor lhe impele o desejo de retorno.

"(...) um dia saberemos e compreenderemos muitas coisas, mas será tarde demais...a vida terá sido decidida numa época em que não sabíamos nada!"

A emigração, os filhos, o casamento, a dúvida e os dilemas existenciais da vida, revividos na possibilidade de um regresso que não se sabe se é mais ou menos desejado, face à convivência já pouco justificada para se continuar emigrado!

Tal como as Edições ASA o classificaram, «Pequenos Prazeres da Literatura», Milan Kundera oferece-nos um pequeno prazer, mas uma grande reflexão!