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terça-feira, 2 de abril de 2013

Andrea Hirata em Portugal - autor de «Os Guerreiros do Arco-íris»

O autor do livro «Os Guerreiros do Arco-íris», Andrea Hirata esteve em Portugal na passada segunda-feira, dia 25 de Março para divulgar o seu livro, recentemente editado pela Editorial Presença.

O encontro promovido pela Editora rapidamente tomou os contornos de um agradável encontro entre amigos, onde a conversa fluiu informalmente e Andrea Hirata se revelou um habilidoso contador de estórias e uma pessoa simples, cordial e afectuosa.
Ao longo de mais de uma hora de conversa, o autor, contou-nos a história real por detrás do livro. A missão de homenagear seres humanos tão especiais como os que compartilharam com ele a sua infância.
«Os Guerreiros do Arco-Íris» é um presente, é uma homenagem a Bu Mus, professora e companheira na missão da amizade, da partilha e de um bem maior, a Educação.


Andrea Hirata pareceu ser uma pessoa bastante atenta e pouco deslumbrada com o sucesso. As suas preocupações são reais e muito actuais. A vida no limiar da pobreza, a recusa dos direitos humanos em muitos locais do Planeta, as dificuldades com que os professores se debatem - uns pela falta de condições, já outros pela falta de motivação. Há também a preocupação com as políticas internacionais e a exploração de recursos em locais paradisíacos e o consequente abandono, desrespeitando os locais e a sua cultura... entre tantos outros que o autor foi referindo enquanto respondia às questões colocadas.

Na introdução que fez à sua obra e à sua história, Andrea fez questão de salientar que a Indonésia é actualmente um país mais democrático e com mais progresso no que respeita à Educação, no entanto, também referiu que permitiu e achou por bem a adaptação do seu relato e das aventuras dos pequenos guerreiros à sétima arte, já que o acesso a livros e à leitura ainda não é uma realidade tão vasta no seu país. Aliás, um dos seus actuais projectos é uma escola e um museu que têm também uma biblioteca - onde por sinal - ao início os empréstimos de livros foram alvo de conturbadas devoluções!? Ou seja, a população tão pouco habituada à leitura e a ter livros, queriam deter os da bibliotecas, achando-os seus. Actualmente, uma das dinâmicas da biblioteca são os contadores de histórias, que fomentam a leitura e o gosto pelos livros, num povo bem mais virado e disponível para as facilidades de acesso à sétima arte.

Andrea Hirata acredita que o seu trabalho e a sua história contribuem para uma missão e o saber ler e interpretar os sinais que o tempo, a vida, os acontecimentos... nos vão dando!
"É preciso saber ver os sinais!" E claro, acreditar no destino - "Eu acredito no destino."
Hirata acredita assim que a sua forma pura, simples e quase crua de escrever é um dom, um traço do destino, uma coisa boa. O autor afirmou escrever porque lhe faz bem, escreve para se sentir melhor - e, se "te sentires bem, farás o bem - serás melhor!"

"Writting is my mission"

Se escrever é então a missão deste indonésio, vindo dos confins da paradisíaca Belintog ficámos a saber que as tropas do arco-íris poderão ter continuação e que o autor tem outros futuros livros na calha.
Um autor para quem "virar páginas" é uma motivação e um prazer, para quem James Herriot é uma inspiração e a frase de John Lennon uma sentença.

"A vida é aquilo que nos acontece enquanto estamos ocupados a fazer planos."

Para o autor que acredita no poder dos sonhos e na importância de sonhar quando quase não se tem mais nada, este livro é bem real e a sua presença foi igualmente uma viagem, uma descoberta e uma inspiração.



Mais uma vez muito obrigada à Editorial Presença pelo convite e o reconhecimento do nosso trabalho e claro ao autor pela conversa tão próxima e amistosa, revelando um sorriso contagiante.

Para conhecer mais sobre Andrea Hirata:
Visitem o site www.andrea-hirata.com 
ou o blog www.museumandreahirata.blogspot.com.

E quem gostar de adaptação, veja também o filme:




«Os Guerreiros do Arco-íris» de Andrea Hirata - Opinião

O que faz um livro quase a preto e branco ter um título tão colorido!?
É o mesmo que acontece com a história, que tem tudo para ser descolorada e insípida, mas resplandece cor, magia e força ... os pequenos grandes guerreiros brindam-nos com uma história de fé. Sim, FÉ! Fé na humanidade, no poder das escolhas, no imaginário de quem confia e dá, dá incondicionalmente.


Amar makruf nahi mungkar

«Faz o que é bom e evita o que é mau.»
O livro de Andrea Hirata está recheado de pequenas premissas  que parecem insignificantes e banais, mas que representam o que de mais simples pode ter a vida e que por vezes é tão difícil praticar. Por isso, pela mão de 10 crianças pobres e quase sem direito à educação chegamos até Belitong, Indonésia onde uma escola luta por ter 10 crianças, para garantir que podem exercer o seu direito a ensinar (sem pagamentos, sem condições, sem materiais...).
A escola - Sekolah Dasar Muhammadiyah - onde o lema Amar makruf nahi mungkar prevalece enaltece o espírito de quem ensina e de quem aprende. Tendo a educação como um bem maior, como a aventura da partilha, como a corrida ao pote de ouro!

O livro é também um olhar atento ao potencial de cada criança, como tudo o que cada um - sem excepção - tem para oferecer aos demais que a envolvem. A presença de Harun é uma benção, é a salvação, é o atingir do número perfeito através da imperfeição e da deficiência, salientando mais uma vez o poder da dedicação, da aceitação e da inspiração que todos poderão ter para oferecer ao outro.

A raridade de pessoas como Pak Harfan ou a autenticidade de Bu Mus irão deixar marca nas crianças, que todas, a seu próprio género e modo, moldam as suas vidas, com a influência que lhes é possível ter.
A excentricidade de Marah, o misticismo de Flo ou A Ling e as unhas perfeitas, Kucai e a sua política ou o dom de Lintang e a paixão de Ikal são pequenos detalhes que fazem a beleza e a simplicidade deste relato.

Um livro despretensioso, sem arrogância, mas recheado do brilhantismo infantil, de quem acredita no poder do sonho, sonhar leva-nos mais longe, exaltando assim o que de melhor tem a infância.

Laskar Pelangi que significa Guerreiros do Arco-íris é igualmente um livro sério, retratando a pobreza, fazendo uma forte crítica ao estado da educação e dos direitos humanos na Indonésia (anos 80, essencialmente) e também à colonização e exploração dos recursos da ilha por parte de grandes companhias.

"A profundidade do mar é imensurável, a profundidade de uma mentira é imprevisível."

Andrea Hirata consegue ainda arrancar-nos algumas gargalhadas com comparações tão improváveis e episódios hilariantes e simplórios, que nos fazem repensar o valor que damos ás coisas e às pessoas na nossa vida e se isso ainda não chegar Lintang e o homem pinheiro serão capazes de chegar a corações mais duros!



O lema dos Laskar Pelangi era ser capaz de "dar tanto quanto nos fosse possível, não tirando tudo o que nos fosse possível."


É o sopro da educação nas personagens de Pak Harfan e Bu Mus!

Uma aposta da Editorial Presença