terça-feira, 16 de agosto de 2022

«Uma Vida à Sua Frente» de Romain Gary :: Opinião

Numa França vista do 6º andar de um prédio pobre, Momo, um rapaz que “não foi datado” vive aos cuidados de Madame Rosa, ex-prostituta e ex-judia, (os próprios papéis provam essas “não-existências”) que o recebeu por ele ser uma “criança ilegal”, “um filho de puta”. Mas os anos estão a passar e os quilos da Madame a aumentar à mesma velocidade que o seu corpo se deteriora com eventos em que a cabeça ganha pernas e vai passear.

As histórias destes Miseráveis, porque Victor Hugo e a sua capacidade de descrever a França e a miséria são uma inspiração e aspiração de Momo (e do Senhor Hamil) que, quando crescer, quer escrever assim a histórias dos seus miseráveis e Roman Gary consegue isso mesmo em «Uma vida à sua frente» na voz desta criança de dez anos, Momo, que com a sua inocência, própria da idade, mas com a perspicácia (e alguma confusão, já que Momo ao início era muito novo para ir à escola e de repente já tinha idade a mais) de quem teve de se desenvencilhar sozinho… até para ter uma mesada!

“Quando os vales deixavam de vir para um de nós, a Madame Rosa não punha o culpado na rua. Era o caso do pequeno Banania, o pai dele era desconhecido, logo não o podíamos censurar por nada; (…) a Madame Rosa ralhava com o Banania mas ele estava a borrifar-se, porque só tinha três anos e sorrisos. Acho que a Madame Rosa teria dado o Banania à Assistência, mas não o seu sorriso, e como não se podia separar um do outro, via-se obrigada a ficar com os dois.”

Momo narra a sobrevivência que por ali se vive quase sem maldade, embora exista dinheiros e leis à mistura, coisas que Momo pouco percebe, entre muitas outras, mas de solidão, desamparo e ausências Momo percebe.

“Não faço ideia do que me deu, mas havia anos que não tinha mãe nem pai, nem mesmo bicicleta (…). Fiquei todo tocado e possuído pela violência, nem dá para acreditar. Vinha de dentro de mim, e é ali que é pior. Quando vem de fora com pontapés no cu, podemos sempre fugir. Mas de dentro, não é possível. Quando me apanha, quero ir-me embora e não voltar mais a lado nenhum. É como se estivesse alguém a morar dentro de mim. Começo a gritar, atiro-me para o chão, bato com a cabeça para sair, mas não é possível, não tem pernas, nunca temos pernas dentro de nós. Faz-me bem falar disto, aliás, é como se estivesse a sair um pouco. Estão a perceber?”

E o leitor vai percebendo!

Vai aceitando a dureza do relato enquanto desanuvia pelo humor e ironia com que é descrita e é aí que reside toda a peculiaridade da escrita de Gary; é na força do humor, pelo traço inocente da voz de Momo que a fronteira que segrega estas pessoas, a invisibilidade e o preconceito em que vivem, é denunciada.

Ainda assim, existem excepções, e ainda bem!

“Eu ia muitas vezes sentar-me na sala de espera do Doutor Katz, já que a Madame Rosa repetia que era um homem que fazia o bem, mas não senti nada. Talvez por não ter ficado tempo suficiente. Sei que há gente que faz o bem no mundo, mas não fazem isso a toda a hora e é preciso calhar no momento certo. (…) A Madame Rosa dizia que o Doutor Katz era a medicina geral, e é verdade que se via de tudo ali, judeus, claro, norte-africanos, para não dizer árabes, negros (…)”

«Uma vida à sua frente» denuncia e reflecte sobre temas que ainda hoje são discutidos, seja pela controvérsia, seja pela herança tóxica dos conflitos armados, do colonialismo ou outros que ainda têm muito de tabu, como é o caso da eutanásia.

“Não queria ouvir falar do hospital onde nos fazem morrer até ao fim, em vez de nos darem uma injecção. Dizia que, em França, estão contra a morte serena e que nos obrigam a viver enquanto ainda formos capazes de sofrer. A Madame Rosa tinha um pavor à tortura e dizia sempre que, quando tivesse que chegasse, far-se-ia abortar. (...) Vi logo que ela se tinha deteriorado mais na minha ausência e sobretudo em cima, na cabeça, onde ela estava pior do que nos outros sítios. (…) estava tão danificada que até os seus cabelos tinham parado de cair porque o mecanismo que os fazia cair tinha-se também deteriorado.”

É impossível ao leitor não sorrir, por vezes até rir à gargalhada com os termos inocentes de Momo, num humor afiado, quase cáustico, que dão toda uma outra dimensão ao que nos narra e a leveza com que revela preocupação pelo sentido da vida: “se quiserem a minha opinião, o tempo, é para os lados dos ladrões que temos de o ir procurar.”

Procurar o tempo junto dos ladrões, abortar alguém na velhice, “perder-se no seu interior” ou “ter uma cabeça que passeia” quase que retira seriedade aos assuntos, mas acrescenta uma sensibilidade enorme a uma criança que efectivamente é responsável por uma mulher idosa com demência e a quem, se pudesse, daria uma morte digna e como ela pretendia, enquanto ainda podia escolher.

“- Vão obrigar-me a viver, Momo. É o que fazem nos hospitais, têm leis para isso. Não quero viver mais do que o necessário. Há um limite, até para os judeus. (…) Não quero viver só porque a medicina o exige. (…)
Prometes?
- Khaïrem.
Quer dizer «juro» (…)
Eu teria prometido qualquer coisa à Madame Rosa para fazê-la feliz, porque mesmo quando se é muito velho a felicidade ainda pode ser útil (…).”

A felicidade mesmo que a conta gotas é sempre útil e dá-la, às vezes até sem a ter, é um acto de amor. E é preciso amar mesmo que seja num «buraco judeu». E Gary conseguiu um livro terno, não pelo que conta, mas pela forma como o faz, com um humor redentor.


segunda-feira, 15 de agosto de 2022

«Terra Alta» de Javier Cercas :: Opinião


“(…) a lembrança mais nítida que Melchor guardava da sua infância era o ruído, um ruído tão ubíquo quanto persistente, que lhe parecia indistinguível do som habitual da realidade, como se esta carecesse do direito a existir sem o barulho dos tubos de escape, das buzinas dos carros, (…) sem gritos ébrios ou insultos aguerridos ou rixas de vândalos (…) um bairro tóxico.”

Diz-se que a realidade supera sempre a ficção e a vida de Melchor, aqui descrita sobriamente por Cercas, é a prova disso. Um menino destinado a ser um Rei Mago, que disso só herdou o nome, Melchor, cresce desamparado e crente nos males da sociedade. Maltratado, mas também capaz de maltratar é encarcerado e aí descobre o seu caminho, converter-se pelo poder da literatura, através de sucessivas leituras de Os Miseráveis.

«Da sociedade não recebera senão males. Os homens só lhe tocaram para o maltratar. Qualquer contacto que com eles teve significou uma ferida (…) de sofrimento em sofrimento, chegou à convicção de que a vida é uma guerra e de que, nessa guerra, ele era o vencido. E, não tendo outras armas para além do ódio, resolveu aguça-lo no presídio e levá-lo consigo à saída.»

Guiado por excertos que toma como guias orientadoras da sua vida, Melchor, um Javert secretamente virtuoso, decide dedicar a sua vida a sarar o ódio que asfixiou a sua juventude. No entanto, o aconselhado exílio na «Terra Alta» não lhe trará o sossego prometido. Ou duradouro. 
Por lá ainda pairam os fantasmas da Guerra Civil e a metralha de uma batalha sangrenta que contrastam com a beleza imponente e silenciosa do local (e as horas de leitura na biblioteca) mas não só o passado se imiscui na vida de Melchor como um acontecimento brutal altera o compasso da localidade: um crime sangrento que brutaliza o ramo mais antigo da família Adell; que como uma árvore enorme a tudo faz sombra.

“No ar paira um cheiro intenso a sangue, a carne torturada e a suplício, e uma sensação estranha, como se aquelas quatro paredes tivessem preservado os uivos do calvário a que assistiram; ao mesmo tempo, Melchor Julga sentir no ar do aposento – e talvez seja isto que mais o perturba – um certo aroma de exultação ou de euforia, alguma coisa para a qual não encontra palavras mas que, caso as encontrasse, poderia definir como o rasto festivo de um carnaval macabro, de um ritual demente, de um sacrifício humano desfrutado.”

Um crime que parece fruto de um ódio frio e destruidor, mas não indiscriminado, coloca Melchor num estado obsessivo. Em apneia, pela persistência quase tóxica, desassossegando o percurso que tem vindo a construir com Olga (e com os livros).

“(…) retirarem-se sem opor resistência, como se se rendessem diante daquele suicídio colectivo ou como se estivessem tão fartos da guerra como os seus inimigos e já não tivessem disposição para continuar a matar.”

Cercas é exímio nas descrições, no cortar o friso cronológico e suspender cada acção outra, história atrás de história, sabendo com toda a mestria selecionar, cirurgicamente, que eventos nos revela, por vezes telegraficamente, noutras num tom poético, capaz de colocar o leitor no cenário, seja no mais macabro ou em perseguição ou entre os lençóis com o casal que descobriu o prazer de ler em voz alta um para o outro.

«Aconteceu-lhe tudo o que podia acontecer-lhe. Sentiu tudo, sofreu tudo, experimentou tudo, suportou tudo, perdeu tudo, chorou tudo. No entanto, é um erro acreditar que a sorte se esgota e que se toca o fundo de alguma situação, qualquer que seja. Aquele que sabe isso vê em qualquer escuridão.”

Nessa escuridão pulsam sentimentos que moldam decisões auto-destruidoras, denunciando que as feridas não fecham na totalidade. E pior, alimentando desejos profundos de vingança e justiça. Porém,
mas a que preço e com que legitimidade? É sobre isso que Cercas questiona e reflecte neste seu primeiro policial.

domingo, 7 de agosto de 2022

«Gente Ansiosa» de Fredrik Backman - Opinião


Imaginem o enredo que dá, colocarmos oito pessoas ansiosas, prestes a se tornarem reféns acidentais de uma outra pessoa pouco experiente nas lides do crime (pouco!) organizado e a contar serem salvas por duas outras pessoas que não se entendem, embora sejam policias, são também pai e filho.

"(...) algo que é impossível aos filhos compreenderem e que os pais têm vergonha de admitir: na verdade, não queremos que os nossos filhos persigam os seus próprios sonhos nem que sigam as nossas pegadas. Queremos, sim, seguir as pegadas deles enquanto perseguem os nossos sonhos."

Azar de Jim que não queria Jack como polícia. E, aparentemente, azar daquele apartamento cheio de gente que conta com eles para desvendar o roubo e a consequente situação de reféns. Situação essa, que, à boa maneira de gente ansiosa, se altera rapidamente com pessoas muito diferentes a descobrirem laços que julgavam inexistente e a se identificarem e protegerem mutuamente

"Esta coisa das palavras é complicada, em particular quando uma pessoa é mais velha e tudo o que quer dizer a alguém mais novo é: «Vejo o teu sofrimento, e isso faz-me sofrer.”

E para ver o sofrimento do outro, basta por vezes parar para ouvir realmente, com espaço e admitir o quão fácil, horrível e assustador é fracassar nisto de ser adulto, ainda para mais quando ser adulto envolve ajudar outros a tornarem-se adultos.

E até quando seguimos nisto de tornarmo-nos adultos?

Conhecendo Roger e Anna-Lena, diríamos que uma vida toda. Ou é apenas medo pelo excesso de tempo, quando temos tempo para pensar que já nos falta pouco tempo? Parece um pouco idiota, mas a ansiedade não nos torna a todos um pouco idiotas?

«Gente Ansiosa» de Fredrik Backman é um livro cheio de perguntas, mesmo quando aparecem sobre a forma de respostas. É um enredo com tantos enredos dentro, tantos quantos são os personagens. Aliás, mais, é gente com gente dentro. Gente com problemas e ansiedades como as da gente 😉 E ao mesmo tempo é uma narrativa cheia de saltos e perspectivas, momentos tensos e outros de calmaria. E lucidez. Pois até mesmo «gente ansiosa» tem momentos de lucidez, como Zara na psicóloga a debater o que é a felicidade. A debater não, a afirmar.

Tal como o livro se vai afirmando com pequenas verdades: «[…] a solidão é como a fome: só nos apercebemos do quão esfomeados estávamos quando começamos a comer.»



domingo, 17 de julho de 2022

«Talvez devesses falar com alguém» de Lori Gottlieb :: Opinião


«Talvez devesses falar com alguém» de Lori Gottlieb é viciante! É também atrevido e honesto e vai destapando alguns mitos, lugares-comuns e meias verdades sobre todos nós e a intervenção terapêutica. E a necessidade que todos temos dela. Porque temos! Embora mascaremos confissões e partilhas e ainda seja tabu falar de dificuldades emocionais e do quanto comprometemos a nossa saúde mental.

Sem quaisquer rodeios, a primeira parte abre assim: “Nada é mais desejável do que ser-se libertado de um padecimento, mas nada é mais assustador do que ser-se privado de uma muleta.” (James Baldwin). E, nas suas próprias palavras, acrescenta: “Um dos passos mais importantes na terapia é ajudar as pessoas a assumir a responsabilidade pelos seus problemas actuais, porque, assim que compreendem que podem (e devem) construir as suas vidas, ganham a liberdade para gerar mudança. Ou, como também rapidamente nos diz: “A terapia provoca reações estranhas, porque, de certa forma, é como a pornografia. Ambas envolvem alguma nudez. Ambas podem causar alguma excitação. E ambas têm milhões de utilizadores, a maioria dos quais não divulga essa utilização.”

Passando esta introdução de posicionamento, contextualização e revelação, o que Gottlieb pretende dizer é que precisamos reescrever a narrativa da nossa vida, romper com o discurso desencorajador e aceitar que muitas vezes necessitamos de acompanhamento na dor e a terapia é um espaço seguro para essa partilha, compaixão (e auto-compaixão) e construção do futuro.

“Quando o presente se desmorona, o mesmo acontece com o futuro que lhe tínhamos associado. E ficarmos de repente sem futuro é a maior de todas as reviravoltas. Mas se passarmos o presente a tentar consertar o passado ou controlar o futuro, permaneceremos presos no mesmo lugar, perpetuamente desgostosos.”

Se algumas considerações nos parecem óbvias e rebatidas, é porque são, mas estão lá para nos relembrar disso mesmo: se são tão óbvias por que nos esquecemos tanto delas e de as pôr em prática?

Juntamente com essas chamadas de atenção, Gottlieb entra habilmente em explicações de foro psicológico que ajudam a atender o porquê de diversas situações, escolhas ou até mesmo da inércia, ajudando num auto-diagnóstico. Sem esquecer as emoções e os sentimentos que precisamos tratar com mais cuidado.

“Ocorre-me um pensamento que tenho muitas vezes quando vejo os meus pacientes autoflagelarem-se: Neste momento, você não é a melhor pessoa para falar consigo acerca de si mesmo. Há uma diferença, explico-lhes, entre culparem-se e assumirem a responsabilidade, o que é o corolário de algo dito por Jack Kornfield: «Uma qualidade que advém da maturidade de espírito é a gentileza. É baseada no conceito fundamental de autoaceitação.» Na terapia, damos preferência à autocompaixão (serei humano?) em detrimento da autoestima (um julgamento: serei bom ou mau?).”

Pode parecer o mesmo, mas Lori explica que não. A verdade e a aceitação vêm pouco a pouco da verbalização e afirma-se com a importância de ouvir-se a si mesmo, da responsabilização com a realidade e a gestão de expectativas. E toda a vulnerabilidade que é precisa no processo. 
Não é um processo fácil, mas desmistifica-lo é um dos objectivos deste livro, sempre com humor e honestidade:

“Podemos ajudar os pacientes a encontrarem a paz, mas talvez um tipo de paz diferente daquele que pensavam encontrar quando começaram o tratamento. Segundo a famosa frase do falecido psicoterapeuta John Weakland, «Antes de uma terapia bem-sucedida, são sempre os mesmos problemas. Depois de uma terapia bem-sucedida, é um problema a seguir ao outro.”

Mas não esmoreça. 
E lembre-se: «Se a rainha tivesse tomates, seria o rei.”

quarta-feira, 13 de julho de 2022

«A Porta» de Magda Szabó :: Opinião


«A Porta» é um relato enigmático, metafórico, desconcertante e desconcertado, no quanto releva a inadequação das relações humanas quando falha a comunicação. Podemos até dizer que a comunicação é mesmo uma porta, metáfora de fronteira, linha ténue e frágil, cheia de sombras: a das classes, a do binómio urbano-rural e a do fosso entre o que é braçal e intelectual, sem esquecer o tanto que não pode ser dito com todas as palavras e que é político e militante. A critica apelida-a de uma obra corajosa e confessional e nós leitores não somos capazes de ficar indiferentes aos mundos de Magdusca e Emerence (e ao de Viola) que colidem contra diversas portas. A da violência e a da sensibilidade (ou falta dela!) talvez sejam as que mais apoquentem o leitor, no entanto, Szabó consegue redenção pelo brilhantismo com que escreve, empregando a narrativa de inúmeras camadas.

“O que eu vira, Viola à mesa, talvez só aos meus olhos fosse uma imagem idílica, e o festim de Emerence devia representar outra paixão mitológica, pois, pensando melhor, não os via à mesa como um bravo cão recompensado e a sua dona mas como dois convivas de um terrível banquete da mitologia, e a carne engolida pelo animal não passava, acaso, de uma aparência de assado, não era comida, mas invisíveis fibras e vísceras, uma espécie de sacrifício humano, como se Emerence, com as suas lembranças e as suas boas intenções, quisesse servir ao cão a pessoa que não tinha vindo à tarde (…) beliscando o que havia de mais importante nas profundezas de Emerence, de que ela nunca falava com ninguém.

(…). Voltara, enfim, à casa o silêncio, e, uma vez mais, nem me dei conta de que este silêncio era tão falacioso como a calmaria antes da tempestade, comprazia-me nele, quando as orelhas baixas de Viola e a sua atonia deveriam ter-me feito compreender que alguma coisa estava para acontecer.”

É fácil compreender que este triângulo encerra parte do enigma para toda a acção, porém, qualquer uma das mulheres é mais difícil de entender que qualquer animal, embora dotadas da capacidade de fala, pouco fazem uso dessa ferramenta. Emerence é secreta, desapegada (das pessoas) e noir. Tem episódios grotescos nos rasgos de violência que profere ou tenta; e Magda não se torna menos grotesca e chocante por “apenas” assistir. Também ela é enigmática nesse seu lado calado e de consentimento, para o qual a intelectualidade não lhe confere nenhuma vantagem. São duas mulheres sabedoras e vividas de realidades e cruezas distintas e exercem, uma sobre a outra, uma toxicidade que oscila, mas alimenta a amizade. Amizade essa que flui, aos repelões, como um cão que passeia à trela nas mãos de um dono teimoso que não entende que o passeio é do cão e não o deixa ir olfatar tudo o que precisa.

“Não me foi fácil admitir que (…) a sua existência tornara-se uma das componentes da minha vida, e, no início, fiquei apavorada com a ideia de a perder, se eu lhe sobrevivesse, o que aumentaria o meu exército de sombras, cuja presença imanente e intangível me perturba e mergulha no desespero. (…) por vezes, ela tratava-me de um moto tão rude que um estranho, se assistisse, se espantaria por que razão eu tolerava isso. Tal não contava: há muito que eu já não prestava atenção aos movimentos tectónicos que agitavam a superfície de Emerence; ela deve ter descoberto o mesmo, e, por mais que não quisesse arriscar o coração, (…), também ela não podia escapar à sua afeição por mim.”

A insólita e dramática amizade que as mulheres mantêm terá repercussões ao longo dos anos. São aprendizagens e partilhas, autênticas catarses, e poderão ter efeito idêntico no leitor.

«A Porta» é um livro para se ler as entrelinhas, para se reflectir no não dito, nos gestos que morrem à beira de uma mão que não se enlaça noutra. É um relato que se espelha em nós e nos nossos, para se crescer e chorar, para se espantar - espantando fantasmas - e revoltar-se com a inércia, mesmo sabendo que não agir é em si uma acção, uma tomada de posição. É um relato para despertar compaixão, fé e cumplicidade, para se saber que até a mais forte das portas pode ser abalada e pisada, até mesmo quando as vontades são do Bem.

“- Há-de matar. Ainda há-de matar (…). Saiba que não se pode prender aquele para quem chegou a hora, porque nada lhe pode oferecer no lugar da vida. (…) O melhor presente que se pode dar a alguém é impedi-lo de sofrer.”

“(…) não analisara a fundo até que ponto a paixão é um sentimento ilógico, mortal, imprevisível, e, contudo, conhecia a literatura grega, que não representava mais do que as paixões, a morte, cujo o machado cintilante é sustido pelas mãos enlaçadas do amor e da afeição.”

“Ora, ora! Viverá eternamente, isso não me preocupa. Agora, ao escrever estas linhas na máquina, sinto como se tivesse decidido pela segunda vez, e definitivamente, o seu destino, porque, nesse momento, lhe larguei a mão.”

«A Porta» é um livro cheio de contradições. Como a vida!

Quem o ler não lhe ficará indiferente.

terça-feira, 21 de junho de 2022

«Cai a noite em Caracas» de Karina Sainz Borgo :: Opinião

 


“(…) continuo a pensar que às palavras há que arrancar-lhes a pele. Não há outra maneira para perceber de que são feitas.”

A frase pertence a Saramago, mas encontrei-a enquanto relia este fabuloso (mas um tanto assustador!) «Cai a noite em Caracas» e fez-me todo o sentido, pois é exactamente o que se passa com as palavras que Karina Sainz Borgo encontrou, ou escolheu cirurgicamente, para aprisionar o leitor, trespassá-lo com um dardo de medo, tal como Adelaida Falcon vive os seus dias à beira de cair nas mãos dos algozes.

Um relato de sobrevivência que cruza escuridão, medo e silêncio com a desumanização bruta que gera força, coragem e engenho tudo na mesma medida gritante de violência, desenraizamento e luto.

“«Lá» era um passado. Um lugar do qual pareciam ter saído na condição de nunca mais o mencionarem. Uma palavra que ardia como o coto de um braço amputado.”

Um romance feito furacão distópico que com a força bruta do tom profético, lança um alerta sobre o quão ténue é a linha que nos separa de um passado esgaçado pela guerra e do quanto a história se repete. E olhar para trás afunda e Adelaida larga tudo, tudo o que é mais seu, os seus mortos, mas também os vivos, a quem a sobrevivência morde com os dentes afiados da culpa. Uma culpa que luta por migalhas onde até os afectos são racionados.

“Os vivos lutam às dentadas pelas sobras.”

Num país triturador, munido de uma infantaria violenta e impune, colocando todos em perigo e numa espécie de antecâmara do além-túmulo, seres na iminência de apodrecer lutam sem sequer ter direito a gritar. Tiram-lhes tudo, até o direito a enterrar os seus mortos. A ocupação chegou até aos ossos e não o inocente já não se distingue do carrasco. Por isso, abatida, desenraizada e numa demolição em espiral, Adelaide Falcon, filha, enterra Adelaide Falcon, mãe. Não há renascimento possível, nem na fuga nem nas chamas, restar-lhe-á a vocação para as palavras para conseguir firmar memórias, numa biografia fragmentada entre identidades separadas por um Oceano coberto pelo cinzentismo da História que castiga meninas e mulheres, mulheres-rocha que cimentam o mundo.

“Mulheres infelizes que, às pancadas, (…) que rebentam as suas dores contra um almofariz (…) uma linhagem de fêmeas a quem o mundo só deu braços para alimentar a prole que manava da genitália, sempre estafada de tanto parir. Mulheres rochosas, com coração de pão duro e a pele curtida (…)
sem braços nem coxas tão fortes como os daquelas negras, essas catedrais de carne preta que cantavam de pé diante de uma chapa de ferro. Maneiras de chorar semelhantes aos incêndios do campo. (…)
Fechei os olhos e inspirei com força os restos de uma biografia feita à paulada. A vida foi aquilo que aconteceu. Aquilo que fizemos e que nos fizeram. O tabuleiro onde nos abriram ao meio como um pão prestes a crescer.”

Karina Sainz Borgo conseguiu espelhar uma realidade dura (e assustadora) e ainda assim homenagear as mulheres numa Venezuela triturada e dilacerada, mas também qualquer mulher, unindo-as por uma ancestralidade que é transversal a todas, sem esquecer o lado de denúncia que qualquer cenário de ditadura e guerra exige, para assim cumprir com a militância que o testemunho de qualquer exilada, refugiada e migrante traz consigo e com a sua luta.  


sábado, 11 de junho de 2022

A Vida Secreta das Viúvas Panjábi de Balli Kaur Jaswal :: Opinião


"- O que foi? - perguntou ela, desviando o olhar. Ele esticou o braço e, suavemente, virou-lhe o rosto para o seu. Olharam-se e os lábios dela estremeceram. As gargalhadas encheram a divisão; eram como uma baforada de calor no primeiro dia de verão. Quando parara de rir, começaram de novo e repararam que estavam ambos a chorar. Limparam as lágrimas um do outro.
- Aquelas histórias... - disse Sarab. - Aquelas... histórias... - estava encantado."

Balli Kaur Jaswal traz até ao leitor «A vida secreta das viúvas panjábi» uma comédia romântica que junta uma pitada de erotismo e um toque de policial. Afinal há um crime por resolver que a pouco e pouco fica mais a descoberto, enquanto um grupo de viúvas ou bibis, de idades bastante variadas, unem experiências, preocupações, anseios e desafios que ditam para o papel sobre o disfarce de contos eróticos.

E digo disfarce, já que a sexualidade parece o tema central que desafia as restrições impostas a estas mulheres, aliás a todas a da comunidade panjábi, mas nas entrelinhas, dos contos e das conversas, as restrições e condicionalismos são inúmeros e atentam à moral e aos costumes que elas trazem desde a Índia até uma Londres supostamente cosmopolita. Por isso, Balli Kaur também aborda a comunidade londrina no mosaico que a caracteriza, tocando em temas como a imigração e a desigualdade de género. 
Mas muito mais.
Existem diversas camadas disfarçadas sob o estilo de um romance leve. Que o é. É verdade. Até por um lado um tanto inocente e sonhador, mas que também é receita de sucesso para fazer passar a mensagem e lançar algumas sementes, tal como as aulas que a protagonista, Nikki, começa a dar.

"- Mas o sexo e o prazer são instintivos, certo? Sendo bom e satisfatório, faz todo o sentido, até para a pessoa mais analfabeta. Tu e eu estamos apenas habituados a vê-lo como uma invenção avançada, porque apenas ficámos a saber da sua existência depois de aprendermos as outras coisas básicas, como ler, escrever, aprender a mexer num computador, tudo isso. Para as viúvas, o sexo vem antes de todo esse conhecimento."

Neste excerto entre Nikki, a inusitada professora e Jason, que mesmo sendo um homem também se vê a braços com as tradições, podemos perceber que as descobertas e revelações não estão reservadas apenas ao grupo de viúvas, aliás, um vasto grupo de pessoas tem aprendizagens a retirar dos desafios que irão testar esta comunidade panjabi de Southall que de um momento para o outro achou que era mais do tempo de juntar mais masala às receitas mais ancestrais.


quinta-feira, 12 de maio de 2022

“Uma Solidão Demasiado Ruidosa” de Bohumil Hrabal :: Opinião

Depois de mais de vinte cinco anos da primeira edição (Afrontamento, 1992), a estrondosa obra «Uma solidão demasiado ruidosa» de Bohumil Hrabal volta aos escaparates portugueses (Antígona, 2019).


"Só o Sol tem direito às suas manchas." 
Goethe


Um homem trabalha há 35 anos na companhia de papel velho, sujo e manchado e considera-se igualmente velho, sujo e manchado tal como as toneladas de enciclopédias e livros que destrói numa prensa hidráulica, também ela velha. Histórica, provavelmente!
 
"(...) sou culto independentemente da minha vontade e, assim, nem sei bem quais as ideias que são minhas e saídas da minha cabeça, e que ideias li. (...) afinal nem leio, apenas colho com o bico uma bela frase e chupo-a como um rebuçado, como se bebericasse um cálice de licor durante muito tempo, até que ideia se espalhe em mim como o álcool; ela dissolve-se em mim tão lentamente que penetra não só no meu cérebro e no meu coração mas pulsa também nas minhas artérias até as raízes capilares (...) o meu cérebro é feito de ideias prensadas pela prensa hidráulica - são pacotes de ideias - a minha cabeça é a noz da Cinderela, cujo o cabelo foi consumido pelo fogo."

É assim que se descreve e se sente este "terno carniceiro" que treme com as palavras que lê e se alimenta a cântaros de cerveja que o deixam desperto, para assim ter mais horas para ler e tratar de acumular livros que se empilham, periclitantemente, em forma de dossel, acompanhando-lhe o sono.

"E tenho a sensação física de que eu próprio sou um pacote de livros prensados, que também em mim existe uma pequena chama semelhante à de um esquentador, à de um frigorífico a gás, uma pequena lamparina eterna que todos os dias reanimo com o óleo das ideias que li durante o trabalho e independentemente da minha vontade nos livros que agora trago na pasta para casa."

Entre episódios sobre livros e outros da sua vida pessoal, Hanta consegue, como nas palavras de Lau-Tseu: conhecer a vergonha e conservar a Glória, já que o episódio com Mariazinha pode também ser uma metáfora para os seus dias narrados do fundo da cave bafienta, que habita com os seus livros, ambos condenados ao esquecimento por uma sociedade que ruboriza e se excita perante mais uma mancheia de ideias prensadas. Quadradas.

"(...) vivo num país que sabe ler e escrever há quinze gerações; habito um antigo reino onde havia e continua a haver o hábito e a obsessão de prensar pacientemente na cabeça as ideias e as imagens que trazem um prazer indescritível e uma mágoa ainda maior; vivo entre pessoas que são capazes de dar até a sua vida por um pacote de ideias prensadas."


Uma solidão demasiado ruidosa é uma ode ao amor pela literatura e aos livros como objetos, à arte em geral, mas também uma crítica à sociedade entalada entre o nazismo e o comunismo e daí a destruição massiva de livros e ideias. Um esmagamento contínuo.

Perdido muitas vezes ente o delírio, o sonho e alguns pesadelos, Hanta revisita grandes autores e os seus clássicos, filósofos e seus ensinamentos, mas não se esquece de aprender com um simples rato ou seu tio agulheiro, a quem quer copiar a ideia de um jardim de delícias, quase tão peculiares e bizarras quantas as de Bosh, no entanto, o futuro é uma ameaça em breves e frenéticos ruídos de tiquetaque, tiquetaque. 

"(...) eu consolava-me com a esperança louca de que a minha máquina faria greve, ficaria doente, fingiria que as suas rodas tinham ficado obstruídas e as correias partido, mas até a minha prensa hidráulica me traiu: trabalhava de uma forma completamente diferente, como quando era jovem: bramia, trabalhando com toda a força, e chegando à sua velocidade máxima tinia; desde o primeiro pacote tinia sem parar, como se estivesse a gozar comigo, como se quisesse demonstrar que só debaixo das mãos da brigada socialista do trabalho desenvolvera todas as suas capacidades e possibilidades.

Esta obra preciosa de Hrabal é quase simples como madeira tosca (e o amor simples da sua ciganita), sensível como se pudesse desmoronar-se apenas "com o som da voz", mas poderosa como a prensa que avança bruta e friamente, impondo-se a qualquer tentativa de revolução.

Ainda assim, se nascer é subir e morrer é entrar, Hrabal demonstra, através do activismo de Hanta, que tal como ratos ou os excrementos, também os livros podem ser destruídos, mas dificilmente desaparecerão por completo: "(...) do texto a mais sobra do que ideias imateriais que esvoaçam no ar, repousam no ar, se alimentam do ar e para o ar regressam, por tudo é, afinal, apenas ar, assim como o sangue existe e não existe, simultaneamente, na hóstia sagrada."


segunda-feira, 21 de fevereiro de 2022

«O Século da Solidão» de Noreena Hertz :: Opinião

 

“Eu aninhada no corpo dele, o meu peito encostado às suas costas, as nossas respirações sincronizadas, os pés entrelaçados. Foi assim que dormimos mais de 5000 noites.

Mas agora dormimos em quartos separados. Durante o dia, bailamos em ziguezague a dança da distância dos dois metros. Abraços, carícias, beijos, a nossa estenografia diária, agora proibida; «fica longe de mim» é a minha nova manifestação de ternura.”

Podia ser o início de um romance, tendo como pano de fundo a pandemia mundial que a todos confinou. Uma pandemia também de isolamento que a todos trouxe medo e uma outra dimensão da solidão e tantas questões de foro psicológico levantou, juntamente com uma constatação: este é O Século da Solidão e a culpa não foi da pandemia, como tão bem nos elucida Noreena Hertz ao longo de uma boa dezena de capítulos onde percebemos quão longos são os tentáculos da solidão.

Contrariando a ideia de global, de maior conexão, de mais informação disponível, melhores condições e maior esperança de vida e de toda a modernidade do nosso século, a verdade é que tudo parece contribuir para que sejamos só mais um ratinho solitário numa roda movida a pilhas inesgotáveis que nos torna cada vez menos sociáveis, mais tribais e mais zangados. Nunca a busca por sentido foi tão complexa e vasta, alimentada por tanta informação dispersa e desconectada. Numa era onde tudo pode ser personalizado, também a solidão atingiu números assustadores e conclusões científicas tão claras e alarmantes: a solidão consegue ser medida no quanto é nefasta e tóxica num corpo e permite afirmar: a solidão mata!

“(…) a nossa capacidade de nos sentirmos sós e a nossa dor e inquietação quando nos sentimos distantes de outros seres humanos, são uma brilhante característica evolutiva. «Nunca devemos querer desligar o estímulo da solidão», disse John Cacioppo (…)”

“Por um lado, um corpo solitário é um corpo stressado: é um corpo que se fatiga facilmente e está excessivamente inflamado. (…) Com a solidão crónica, não existe interruptor para desligar que lembre o corpo que se deve acalmar. Por isso, a inflamação induzida pela solidão pode tornar-se crónica - «o novo normal». (…) a solidão é um tipo de stress que pode amplificar maciçamente os efeitos de outros stresses. (…) Um estudo influente sugeriu que a solidão prejudica o funcionamento de várias glândulas endócrinas que segregam as hormonas em todo o corpo e estão relacionadas com a nossa resposta imunológica.”

O mundo actual padece de solidão e o seu eco propaga-se a todas as dimensões da sociedade. Explicando diversos fenómenos, como por exemplo o aumento da viragem para a aceitação de políticas extremistas, mas também a exploração da solidão como negócio. Os exemplos são variados e Hertz relata episódios dos mais variados países e classes sociais para que percebamos que a solidão está generalizada e apresenta-se à frente dos nossos olhos das mais variadas maneiras. Cabe-nos observamo-nos bem, a nós mesmos e aos outros e agir: «fazer para não perder!»

 

“Para Arendt, o totalitarismo «baseia-se na solidão […] que é uma das mais radicais e desesperadas experiências que o Homem pode ter.»

Encontrando os seus adeptos nas pessoas cuja «principal características […] não é a brutalidade nem a rudeza, mas o seu isolamento e a sua falta de relações sociais normais», ela argumenta que, para quem «sente não ter lugar na sociedade, é na entrega do seu eu individual à ideologia que o solitário redescobre o seu propósito e amor-próprio.»”

A bibliografia é vasta e detalhada e as leituras são inúmeras para o leitor que quiser mais informação além da aqui compilada por Hertz, embora apenas esta leitura já possa desencadear um sem número de pensamentos e acções com vista ao objetivo proposto pela autora: reconectar, recuperar o sentido de comunidade, partilhar, repensar e agir.

Precisamos agir!

Precisamos recuperar ligações com os que nos rodeiam, desde a família, aos vizinhos, aos colegas de trabalho ou ao simples acto de falar com desconhecidos, quebrando a corrente da era digital e deixando o “sem fios” apenas para os dispositivos eletrónicos, sendo capazes de nos desligar da coisa certo ou seja, fugir ao chicote digital das redes sociais e tantas outras aplicações que mascaram as relações interpessoais.

A epidemia do século é a solidão e é disso que precisamos ter consciência, compreendendo até onde chega essa doença e como afecta a todos. A todos, mesmo! E só assim poderemos actuar.

Sendo assim, anote algumas ideias-chave: é preciso restaurar o conceito de comunidade e humanizar as cidades e bairros; queira participar activamente no seio de sua comunidade; é preciso reaprender a conversar para “discutir” melhor; olhar os outros nos olhos para nos sincronizarmos uns com os outros; abraçar, abraçar mais e mais prolongado, pois abraçar cura; sentir-se útil por participar, pertencer, cuidar e ser cuidado; informe-se melhor para compreender melhor e aceitar, mas também para desconfiar menos; tire os olhos do telefone e foque-os no mundo à sua volta; cuide da sua saúde física e mental sem medos; avalie aspectos negativos do que o rodeia, especialmente no trabalho e avalie para equilibrar melhor o binómio vida-trabalho.

Em suma, para equilibrar uma série de aspectos nas nossas vidas modernas o melhor será mesmo fazer algumas coisas à moda antiga!

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2022

«A Psicologia da Estupidez» de Jean-François Marmion :: Opinião

"«O bom senso é a coisa mais partilhada do mundo», escrevia Descartes. Então e a estupidez?"

Em jeito de advertência, Jean-François Marmion, compilou uma série de textos de altas personalidades na análise da estupidez e em muitas outras questões inerentes à existência do ser humano, para nos alertar para o facto de que somos todos um bocado estúpidos (mesmo que inteligentes!). Pois só um estúpido reconhece outros estúpidos!

São mais de duas dezenas de textos, para tipificar a anatomia dos estúpidos, a fim de afirmar que a armadilha da estupidez é por vezes habilmente tecida e estrategicamente composta, levando individualmente um estúpido a engrandecer a sua estupidez, aderindo às massas que se metamorfoseiam em nome de ideias adulteradas, a tolice obstinada e a arrogância que cega.

"O estúpido por excelência condena sem apelo, de imediato, sem circunstâncias atenuantes, fazendo apenas fé nas aparências que, além disso, ele se limita a vislumbrar por entre os seus antolhos. Sabe mostrar-se zeloso para reunir os seus semelhantes, incitar ao linchamento, em nome da virtude, das conveniências, do respeito. O estúpido caça em matilha e pensa como uma manda."

Por entre uma manada de teorias espreme-se o lado científico que explica as atitudes dos estúpidos: "Ele tem dificuldades em compreender que a sorte é a interpretação que o estúpido dá às probabilidades" e começamos logo a rir e a constatar que realmente somos todos um bocado estúpidos, afinal quem é que não nomeia constantemente a sorte como escapatória para um comportamento, afinal, estúpido?

Abra bem o radar, pois as conclusões vão deixá-lo ainda mais sensível à estupidez. À sua e à dos outros, já que a teoria também explica que: "(...) é graças ao expediente de negatividade que somos capazes de detectar mais rapidamente um estúpido do que um génio num meio social complexo."

Claro que no capítulo dedicado à tipificação e em mais uma ou outra entrevista podemos perceber que, para além da estupidez ter vários níveis, tipologias e graus de imunização do sujeito estúpido, há todo um complexo índice de proporções quando falamos em estupidez colectiva. E essa é a mais preocupante. Seja pela forma como eleva a estupidez de cada indivíduo ou, quando em massa, tornando os actos galopantes e até descontrolados. Ou viralizando, estendendo os tentáculos numa escala desconhecida. 

Os tentáculos analisados nos vários textos tocam aspectos tão banais, como a simples tolice e idolatria quase inocente do tolo teimoso, mas inofensivo do que outros e depois exemplos mais sofisticados e maquiavélicos que estrategicamente alimentam teorias da conspiração e esta era do pós-verdade e da manipulação pela redes sociais. Por isso, temas como as eleições americanas, a vacinação, o coronavírus, a desinformação e o culto do falso, a idolatria fácil e instável, o negócio da felicidade ou os crescentes nacionalismos, são terrenos férteis par analisar comportamentos estupidificantes. Mas também se analisam livros, filmes, séries e temas em geral que estão presentes no nosso quotidiano e nesses casos as entrevistas são excelentes pontos de partida para o debate.

É importante também referir que são vários os textos que fazem a ponte entre a estupidez e outros traços de personalidade, sem esquecer o peso das emoções e até as terapias e a necessidade constante de autoanálise, relembrando que se a estupidez é uma armadilha, o tempo também o é: "(...) mesmo quando encontramos o tempo certo para interagir com o passado, nunca conseguimos alterá-lo." (Adelino Cunha) 

Em suma, é um livro ao qual devemos de vez em quando voltar, para que não nos percamos numa certa cegueira de achar que um produto acabado.



sexta-feira, 28 de janeiro de 2022

"O Segredo de Christine" de Benjamin Black e «O Mar» de John Banville - Opinião



Fui ler «O Segredo de Christine» por ter gostado de «O Mar» de John Banville. Black é o pseudónimo de Banville quando este escreve enredos mais policias, no entanto, voltando agora a ambos os livros, às suas personagens e enredos, e aos dramas que aqui são revelados, descobrimos mais traços comuns do que diferenças. 

Em «O Mar» focamo-nos em Max Morden, viúvo, introspectivo, silencioso e em quem o passado lhe pulsa como um "segundo coração".
Em «O Segredo de Christine» também Quirke é viúvo e sente que o passado o persegue, é igualmente um homem solitário e silencioso que prefere ou, o frio e esclarecedor ambiente da morgue ou o calor de mais um copo.
Ambos vêm de uma classe social mais baixa, mas em alguma fase da vida foram adoptados por uma elite que até certo ponto os protegeu das asperezas da vida, pelo menos até serem tocados pela doença, a mentira e a morte.

"Tudo aquilo que realmente sempre desejei foi sentir-me defendido, protegido, resguardado, refugiar-me numa toca de tepidez uterina e ficar acocorado lá dentro, escondido do olhar indiferente do céu e das asperezas do ar agreste."

A morte e a doença juntam-se a outros ressentimentos, que deixam o ambiente pesado e sórdido, quase insuportável, tornando o presente numa dissimulação e fingimento constantes que apenas deixam espaço para sentir as memórias e os escombros do passado, camadas impressas nestes homens como se de um quadro se tratassem. 

No entanto, ambos os personagens sentem que já viveram a vida com outra energia e até dotados de uma percepção sensorial pulsante. Tinham uma crença diferente no futuro. Sentiam-se vivos. Conectados.

"A vida, a verdadeira vida, deve ser uma luta constante, cheia de acção (...), que a vontade não pára de bater com a cabeça dura contra a parede do mundo."
"Sempre sofri do que julgo ser uma percepção extremamente penetrante da mistura de aromas que emanam da presença humana (...) a fragância acre e acidulada da própria vida..."

No entanto, ambos os enredos preferem explorar o peso do passado e transformar os protagonistas em pequenos botes de tristeza à deriva "(...) numa fúria muda, carregando nos punhos fechados as frustrações do dia como se fossem bagagem." Tanto Max como Quirke experimentam um acumular da infelicidade, essa espécie de zumbido agudo e incessante mas inaudível que lhes apaga o rasto em direcção ao futuro.

A morte, o passado, as memórias ou as descobertas febris da juventude são tão personagens como estes homens, bem como a intensidade da palavra, a forma cuidada e pensada com que o autor escolhe caracterizar os traços de cada interveniente, seja uma mulher a quem que cobiçam os seios altivos mas proporcionais à tristeza que carrega; a janela como testemunha que revela e espelha uma dor; a gaveta bafienta que encobre segredos; uma praia que devolve a infância ou um copo, companheiro predilecto de uma noite.  

Banville tem a mestria de elevar linguagem, transformando-a num personagem que tudo une. Embora a certa parte assuma:
"Porém, mantenho-me firmemente sentado à mesa, a empurrar os parágrafos como se fossem fichas de um jogo que já não sei jogar."
Ou seja, parágrafo atrás de parágrafo, vá munindo o enredo com mais instrospecção do que acção: "seu mutismo era uma emanação penetrante e saturante. Não dizia nada, mas nunca estava silencioso."

Mesmo que se lhes mude o pano de fundo, "O Segredo de Christine" de Benjamin Black ou «O Mar» de John Banville, são narrados na invernia que pode ser o imaginário de um homem sozinho, a braços com os pensamentos, que com a força de uma barragem, estão prontos a desaguar.

quarta-feira, 26 de janeiro de 2022

«Somos o Esquecimento que Seremos» de Hector Abad Faciolince :: Opinião


"É um dos paradoxos mais tristes da minha vida: quase tudo o que escrevi foi escrito para alguém que não me pode ler, e mesmo este livro não é mais do que uma carta a uma sombra."

Hector Abad não é uma sombra é antes a sombra que Hector Abad (o filho, o escritor) queria ter sempre consigo, mas quis a vida de um país e as lutas ideológicas sem fim, retirar-lhe essa sombra quando ainda lhe fazia tanta falta o amor exagerado de pai, mesmo que o narrador e protagonista fosse já um homem adulto. Uma falta que levou vinte anos a ser macerada e digerida em forma de declaração de amor, de testemunho e de documento que revela um país, uma luta, um homem e um crime que passou impune. 

"Somos o esquecimento que seremos" é primeira estrofe de um poema de Borges e um axioma que Hector Abad, pai e Hector Abad, filho, sabiam precisar de combater pelo acto da luta e da escrita. Isso e denunciar todo um outro tipo de sombras que durante décadas assombraram uma Colômbia que não quis saber dos seus melhores cérebros.
Ainda assim, quero crer que o leitor (não colombiano) retirará mais do lado afectivo e emocional que é ver a dedicação e o amor entre pai e filho, assim exposto como a mais bela poesia se oferece aos amores eternos e espelha uma inocência, tão própria, dos amores incondicionais. 

"Eu participava nessas procissões, mas, à tarde, o meu pai contrabalançava com a enciclopédia e com as suas palavras e leituras as minhas práticas diurnas. Como numa luta surda por se apoderar da minha alma, eu passava das tenebrosas cavernas teológicas matutinas para os reflectores iluministas vespertinos. Nessa idade em que se formam as crenças mais sólidas, as que provavelmente nos acompanharão até ao túmulo, eu vivia açoitado por um vendaval contraditório, embora o meu verdadeiro herói, secreto e vencedor, fosse esse nocturno cavaleiro solitário que, com paciência de professor e amor de pai, me esclarecia tudo com a luz da sua inteligência, ao amparo da escuridão."

Se a mão e a voz do pai eram formas de amparo contra a escuridão e a dúvida, as mãos da mãe e a sua determinação sagaz eram a garantia de segurança e retidão familiar, embora mais pelo lado de cuidadora empenhado do que só boa cristã.

"A minha mãe, pelo contrário, era e continua a ser mística, embora sempre repita que tem falta e gostaria de ter «muitíssima mais fé». (...) A sua religiosidade, no entanto, tinha uma componente animista muito forte, quase pagã, pois os santos em que ela mais acreditava não eram os do santoral, mas as almas das pessoas mortas da sua própria família, que ela santificava assim que morriam (...) e se algum de nós adoecia, ela encomendava o assunto à alma do tio Joaquím (...), a da minha irmã (...) e, finalmente, á do meu pai, desde que o mataram. Mas, ao mesmo tempo, embora sempre estivesse atenta a estas imateriais presenças (...) era - e continua a ser - a pessoas mais realista que já conheci e com os pés bem assentes na terra (...) e muito mais capaz que o meu pai de resolver os problemas práticos, tanto os nossos como os dos outros, se tivesse tempo para isso."

Percebe-se desde cedo que a fé do homem e do escritor que aqui encontramos nestas páginas, está voltada para dentro de casa, para a família que sempre o acolheu e amou e para os livros, esse refúgio que encontra em cada palavra e pela qual sabe demonstrar a sua crença no amor, mas também a tristeza, a solidão e a dor. Palavras tão comuns à história da sua família e do seu país. 

"A cronologia da infância não está feita de linhas esbeltas, mas de sobressaltos. A memória é um espelho opaco que se fez em cacos ou, melhor dizendo, é feita de intemporais conchas de recordações dispersas numa praia de olvidos. (...) recordá-las é tão desesperante como tentar recordar um sonho, um sonho que nos deixou uma sensação, mas nenhuma imagem, uma história sem história, vazia, da qual apenas resta um vago estado de ânimo. As imagens perderam-se. (...) no entanto, de repente, ao revermos o passado, qualquer coisa volta a iluminar-se na obscura região do esquecimento. Trata-se, quase sempre, de um misto de vergonha e alegria, e quase sempre aparece a cara do meu pai colada à minha como a sombra que arrastamos ou que nos arrasta."

Cronologia da memória e registo detalhado de uma vida que terminou abrupta, Faciolince traça uma ode ao pai em palavras que são pranto sem lágrimas, uma dor interior que não parece comovida, mas paralisada, uma quieta inquietação. E nessa inquietação que também é uma forma de amor, comove e desassossega quem o lê.

*

Aqui. Hoje. Já somos o esquecimento que seremos…                    Jorge Luis Borges    

                    Aqui. Hoje.
                    Já somos o esquecimento que seremos.
                   
                    A poeira elementar que nos ignora
                    e que foi o rubro Adão, e que é agora
                    todos os homens e que não veremos.

                    Já somos na tumba as duas datas
                    do princípio e do termo, o esquife,
                    a obscena corrupção e a mortalha,
                    os ritos da morte e as elegias.

                    Não sou o insensato que se aferra
                    ao mágico som do meu nome:
                    penso com esperança naquele homem
                    que não saberá quem fui sobre a Terra.

                    Sob o indiferente azul do céu
                    esta meditação é um consolo.


"Bairro sem saída" de Fernando Ribeiro - Opinião

 


O convite de Fernando Ribeiro é que entremos no Bairro da Verdade (ou na Brandoa) no virar da década de 70 e o façamos pela sua mão poética e gótica a que já nos habituou, seja em tons mais ou menos melódicos, nas letras e poemas de que é autor. Chegada a vez do romance, o leitor é convidado a recuar a um dos bairros mais clandestinos das Europa e conhecer tanto aquilo que tombou, como a geração que vingou, com personagens peculiares e bem caracterizadas, numa linguagem e um traço de humor negro que fazem logo metade do enredo que acompanha Rogério Paulo desde que fez estremecer as paredes pela primeira vez.

"Dentro de um quarto de um hospital na capital, entre tremores e rebentamentos de águas, eu tentava nascer. Rogério Paulo. O crucifixo na parede agitava-se. Parecia que até Cristo queria sair dali para fora, enjoado com o marear desta frágil jangada. (...) a cada grito da minha mãe, os médicos recuavam um passo, como se no útero dela radicasse o epicentro que rachava o branco das paredes. (...) O seu Ai! era um eco distante, pequenino entre as vozes que invocavam uma agonia preocupada."

Entre o entulho dos assustados, uma jangada meio à deriva, abre caminho entre tremeliques da terra enlameada, assim nasce Rogério Paulo e perde-se Fernando, o primo que dará uma aura ao romance.
E, na agonia preocupada, que sempre ocupou as mentes e os dias de muitos dos habitantes da Brandoa, fossem essas preocupações fruto da época social e política que o país atravessava, e obviamente todo o impacto económico que isso tinha na vida em geral, havia ainda a própria precariedade do bairro e o quanto isso foi alimento para a criatividade necessária à sobrevivência diária. E parte deste livro é isso mesmo, um relato dessa criatividade entre miúdos. E graúdos.

"Eu lá crescia, imitando o Bairro.
Como um casaco aos buracos, o Bairro lá se ia remendando. Desengane-se quem pensar que a brisa da prosperidade já por ali soprava. Era preciso mais que água e sabão para desinfectar o charco. (...) Nos arredores da capital, o Bairro apresentava-se como um espantalho vestido de retalhos de louça, azulejo e cimento ao sol. Cá de baixo da estrada, os carros tiravam-lhe a fotografia enquadrada pela aritmética do desprezo. (...)
O ar incompleto das suas ruas era parecido ao daquela manga de camisa que não chega a dar a volta ao punho (...) Estava feito à imagem das pessoas que o habitavam por dentro, cabeças de milho arrancadas à força do êxodo rural, lançados nas pressas ao vento soprada através da clandestinidade das noites."

Na clandestinidade e à força, na boleia dos biscates entre passadas apatetadas, a Brandoa e a Buraca cresciam, desarmando a inocência das primeiras idades e fazia-os crescer um tanto desencantados com a vida. No entanto, muitos fizeram-se às ruas sem sinalização e deram com a saída!

"A caspa descia para os autos, como naqueles globos artificiais de neve com figuras natalícias, e, às vezes, por passar a mão na bochecha, o polícia de turno ficava com tinta na cara. Conferia algo de cómico à confusão das liberdades interrompidas pela voz de prisão que amontoava pessoas ao pé da esquadra, impelidas pelo tal arfar das esquinas."

terça-feira, 25 de janeiro de 2022

"A Ocupação" de Julián Fuks :: Opinião


"Todo o homem é a ruína de um homem (...) 
Não pensei se o homem era a ruína do homem quando cheguei para ver o meu pai. Não pensei em nada. Vi o seu corpo (...) Estava crescido o meu pai, como se o mal que sofria expandisse os seus contornos, como se o infortúnio aumentasse o espaço que ele ocupava no mundo

Um homem narra a ocupação que pode ser a doença e a gravidez. Um evento trágico em contraponto com um evento puro de alegria, ilógico e pleno de desconexão com todos os males que ocupam tantas outras existências, ocupações tóxicas, como a política que vai degradando tudo à sua volta ou como a própria vida que se esgota, à frente dos nossos olhos, adensando a impotência da qual somos feitos perante a doença e a morte. Perante a solidão que nos sobra.

Entrar em "A Ocupação" é quase como continuar em "A Resistência", mantendo vincada a temática do quanto o lado pessoal é político e o político afecta a esfera do íntimo. Um pouco também como «O avesso da pele» de Jeferson Tenório, livros que lemos seguidos como se as personagens pudessem - e estão! - no mesmo Brasil. Alguns familiares de Pedro podiam ter estado no hotel ocupado, Sebastián podia ter tomado parte em manifestações pelas mesmas causas que Pedro e ambos poderiam encontrar-se e discutir o quanto ter filhos é um acto de resistência. E assim, os livros dialogariam para além do que já dialogam na cabeça do leitor. 

"Sim, porque o mundo é feito de infinitos trânsitos, do movimento contínuo de seres. (...) uma infinidade de deslocamentos em sua génese. Toda a humanidade é feita desse movimento incessante, e só existe tal como a conhecemos graças a esses deslocamentos. (...) cada um de nós fez o seu caminho, mas que somos todos descendentes de um mesmo ancestral absoluto e longínquo. Esse raciocínio tem (...) algo de incestuoso, será sempre um amor entre irmãos (...) e toda a violência contra o outro é uma violência contra nós mesmos, fadada a destruir a um só tempo cada um se nós e a humanidade inteira."

"A Ocupação" narra a violência, a opressão, a política e as causas mais variadas, mas narra mais ainda a ocupação feita pela família, pelo outro. O que nos é querido e o que nos é estranho. 
Quanto da nossa ocupação mais íntima é herança do outro? E é aí, ainda mais, que os livros referidos se cruzam e a história de cada indivíduo se cruza com a de qualquer outro e talvez essa seja a ocupação maior a que Fuks se refere.

"Por mais de uma década fomos dois na mesma casa, apenas dois (...) uma intimidade maior do que aquela que cada um experimentava quando só, quando abandonado. (...) parecia impossível que não compuséssemos uma enciclopédia comum de ideias, um receituário de actos, um atlas de gestos, um dicionário de palavras particulares. Com essa bibliografia nunca impressa* (...) íamos nos ensinando a ser semelhantes (...)
E então quisemos ser três (...). Só de querer ser três já sentíamos a visita de um terceiro, um intruso entre nós, um estranho, um segredo."

*Ler este "A Ocupação" é também para o leitor a oportunidade de dar mais designações às palavras que já conhece, por exemplo:
- alegria: privilégio de distracção e desconexão 
- literatura: abertura para o diálogo
- escritor: alguém que soma fugas
- dúvida: partir a tranquilidade
- filho: ampliar o sentido da vida
ou
- ocupação: como chega fundo a raiz do desterro

segunda-feira, 24 de janeiro de 2022

«O AVESSO DA PELE» de Jeferson Tenório :: Opinião

 

"Às vezes você fazia um pensamento e morava nele. Afastava-se. Construía uma casa assim. Longínqua. Dentro de si. (…) E apesar de tudo, nesta casa, neste apartamento, você será sempre um corpo que não vai parar de morrer. Será sempre o pai que se recusa a partir. Na verdade, você nunca soube ir embora. Até ao fim você acreditou que os livros poderiam fazer algo pelas pessoas. (…) É com eles que te invento e te recupero. É com eles que tento descobrir quantas tragédias ainda podemos suportar (…)"

«O avesso da pele» de Jeferson Tenório arranca desta forma e diz muito sobre a incompreensão e a dificuldade de relacionamento entre duas pessoas. Uma realidade áspera, antes e agora, a de um filho que procura recuperar e entender as memórias e ausência, uma ausência feita de objetos, feita caos que comove.

A ausência de um pai, que pode ao mesmo tempo, ser um legado e um abismo. Um abismo do qual se abeira qualquer filho quando, entre pai e mãe começa mal. E daí ser tão pertinente: descobrir quantas tragédias ainda podemos suportar.

“(…) o que começa mal termina mal. Eram apenas duas pessoas quebradas. Cada um com os seus cacos. Cada um buscando uma escora. O amor como muleta. Naquele momento, a vida já havia tirado tanto, que vocês achavam injusto que o amor não pudesse servir como amparo. Acontece que, em vez de buscarem algo que pudesse reconstruíram os afetos, resolveram se cortar o que restou."

Pedro, o narrador protagonista, perde-se na geografia vasta dos afectos, a analisar o interior do labirinto que foi a vida familiar dos pais, e até a sua, colocando na equação questões cruciais que se cruzavam com o amor, que o delimitavam e definiram: a cor da pele! A pele na sociedade, a pele em todos os relacionamentos. A pele dentro da cabeça de cada um que é sempre mais do que pele.

Ou, e mais importante ainda, a conturbada relação entre pele e o avesso da pele!

Mesmo com o ocutá atrás da porta, a pobreza, o preconceito e a injustiça, espreitavam a cada esquina e aumentavam a ferida funda que ameaçava rasgar o avesso, mas Pedro tenta, neste relato, recuperar os afectos e entender todo o tipo de herança que lhe ficou. E o que fazer com ela.

“Li recentemente que as relações afetivas são formadas por duas categorias: dos egoístas e dos doadores. Você era um doador nato. Minha mãe era uma egoísta nata. (…) não a condeno por isso. (…) A infância nos fornece certas mágoas e é com elas que lutamos.”

 *

Jeferson Tenório explora os afectos, mas explora ainda mais o viver confinado ao meio-fio da vida, porque a sociedade te coloca nessa mesma berma, nesse lado marginal da vida e como combater para sair desse lado, onde se é posto de parte. E o romance explora diversas formas de viver à parte, por se ser lá colocado e por tanto se lutar pela integração, que a pessoa acaba criando uma margem só sua, um lado de dentro só seu… uma forma de alimentar uma solidão inacessível aos outros, talvez vencida, só pelos livros* e pelos afectos (quando possíveis).

"Vocês só sabiam lidar com os afectos na precariedade. Vocês não eram equilibrados. Eram equilibristas. A corda bamba como terreno dos afectos"

É nessa corda bamba que, com um pé bem atrás do outro – passos curtos mas nem sempre firmes - se avança, embora a dor e o trauma desenhem os contornos destas vidas, com que Tenório compõe um livro belíssimo. Duro, mas belíssimo.

 

* capítulo 7 de «O Jogo do Mundo» de Córtazar que eu fui descobrir graças aos livros aqui referidos

sexta-feira, 21 de janeiro de 2022

«Arco-íris» de Banana Yoshimoto :: Opinião


Na minha estreia com Banana Yoshimoto senti que regressava a um ambiente conhecido, melancólico, exuberante, exótico e até simples nas palavras, à boa maneira das autoras nipónicas, que foi como se já tivesse lido vários livros da autora. Mentira, foi o primeiro, mas sinto como se soubesse que decisões a protagonista ia tomar, onde ia vacilar, como ia defender com unhas e dentes os animais ou como ia relatar experiências cristalinas que colocariam o leitor a sentir locais desconhecidos como se lá estivesse ou até sentado à mesa num festim gastronómico enérgico, capaz de revitalizar energias e ânimos. E sentia que o âmago da questão não estava em qualquer paixão platónica, bem como a solução passava por apenas existir e sentir. 
Mesmo dito desta forma, não exponho nada que revele o curso da história ou sequer como Eiko resolve as suas dúvidas ou preenche a solidão que lhe fica após uma perda enorme. 

"Não me agradava de todo viver de recordações, porém às vezes, acontece que se toma consciência do valor que elas têm."

Eiko é uma mulher persistente e consciente do seu foco, embora um pouco abalada por as circunstâncias em que se encontro. O luto tem muito estágios e nada indica que por vezes, antes de se avançar, não tenhamos de recuar e fazer no novo a mesmo viagem. Resignificando-a. Compreendendo-a melhor. Dando espaço apenas para sentir.

"Todavia, o nosso silêncio não era embaraçante. Era um silêncio rico, um silêncio do sabor do ar, um silêncio feito daquele ar fresco que, se for aspirado profundamente, enche os pulmões com algo de belo."

Belo e simples. A beleza das pequenas coisas ;)

A contemplação, a natureza, a brisa do lago, as caminhadas ao luar: "(...) A Lua, como se fosse uma unha bem cortada, começava a descer e irradiava uma luz clara e difusa", os passeios com o cão Tarôt que apagavam nela a angústia e a tristeza e lhe permitiam voltar a sentir o mundo com uns olhos mais apaziguados, quase infantis - ansiosos pela descoberta. "(...) se o corpo se cala, a vista torna-se mais perspicaz".
Acalmando a ansiedade, Eiko segue mais consciente das ocasiões em que é mesmo necessário entrar em contacto com o mundo, sem deixar que o mundo a estilhaçasse mais.

*

terça-feira, 18 de janeiro de 2022

«Os amores do Senhor Nishino» de Hiromi Kawakami :: Opinião

“Ato contínuo, ele colocou-se diante de mim. Tal como eu esperava, estava com cara de zangado. No entanto, a expressão era meiga. A doçura no rosto, o aprumo, a precisão com que atara o obi por mim era uma espécie de imagem de marca.”

"Nishino sorriu. Havia algo de misterioso no sorriso dele, como se soubesse de ciência certa que não existia nenhuma mulher capaz de o amar. O sorriso lembrava-me a chama azulada do aquecedor a gás."

Nishino e as suas amantes são tal como este frase: enigmática e ao mesmo tempo certeira, sem que perca uma aura própria que ecoa nos textos de Kawakami.  

“À imagem e semelhança do colecionador que estica as asas de uma borboleta e as fixa com alfinetes numa caixa. Como quem manuseia delicadamente o corpo sem vida de um inseto, a fim de preparar o mostruário. Pode dizer-se que ele me captara. Sem me ter sequer tocado com um dedo. Sem que tivéssemos trocado um olhar. (...)

No entanto, tinha qualquer coisa de suave, de quente e infinitamente agradável, criando a ilusão de que a aura era o próprio Nishino.”

Ilusório é sem dúvida um adjectivo para a linha ténue com que se cose este enredo. Vamos conhecendo, mas pouco, a história de Nishino, pelas várias mulheres narradoras, das quais também apenas vislumbramos algumas características, para, uma após a outra, constatarmos que aqui o que importa é o mistério, os humores flutuantes e a melancolia e, até uma certa estranheza, tudo bem macerado com uma boa dose de Natureza que se cruza com a cidade e se prova em vários encontros gastronómicos. Detalhes esses que compõem muito cada breve narrativa e permite quase estabelecer um padrão, mas mais nas mulheres que tão fácil se aproximam de Nishino, como sabiamente recuam e o negam com subtileza.

"Imaginava que a luz secreta que caracterizava os nossos encontros - que podia ou não ser natural - se perderia a partir do momento em que deixássemos de ser apenas dois.
Tínhamos uma relação efémera. Era precisamente o que me agradava nela. Se começássemos a conviver com terceiros, receava que isso fizesse de nós «um casal». Mal isso acontecesse, a nossa relação ficaria exposta aos olhos do mundo, como uma fatura na parede, e seríamos forçados a acertar contas um com o outro."

No decorrer dos vários anos, as tonalidades com que estas mulheres vão colorindo ou acinzentando Nishino, mostram-nos também as oscilações nos seus próprios sentimentos e as relações entre algumas delas, num jogo subtil, onde se analisam com mais ou menos frieza, mas tentam perceber-se como parte de um todo, um corpo único que tentou amar e compreender Nishino, sem negarem uma certa exuberância que contrastava em absoluto com a tristeza espelhada no rosto (de algumas delas).


quarta-feira, 5 de janeiro de 2022

«De olhos fixos no sol» de Irvin D. Yalom :: Opinião

 

«Realize a sua vida» e «Morra na altura certa»

Os epigramas de Nietzche podem resumir o objectivo deste «De olhos fixos no sol» de Irvin D. Yalon, embora sejam mais fáceis de dizer do que praticar. E é com isso que nos deparamos ao ler sobre a necessidade de nos questionarmos e aceitarmos a inevitabilidade da morte e esse medo que nos persegue, por vezes disfarçado de imensas fugas e sofrimentos mal resolvidos.

Reconhecer a ansiedade da morte é aceitar um caminho manifestamente marcado pelo despertar de novas dinâmicas que trarão maior sentido às interacções interpessoais, mas também àquelas em que dialogamos para dentro, de modo a compreendermos que o que damos e deixamos aos outros não é mais do que uma soma de atitudes e momentos que apenas perduraram no tempo através das pessoas às quais nos conectamos (rippling).

Aceitar a morte ou encarar o sol de frente, reduzirá a miséria humana, ou seja, reduzirá a origem, a raiz da maioria dos nossos problemas. Ideia essa defendida por Epicuro e esmiuçada por Yalon nas suas sessões de psicoterapia. E claro, parte do objectivo deste livro é explicar que uma terapia bem orientada, numa base de empatia e conexão genuína entre o terapeuta e o paciente é encontrar um meio facilitador para superar medos e encontrar ferramentas de aceitação. E atenção, é aceitação, não rituais de protecção, onde reprimimos e engolimos a noção da nossa natureza finita.

“A morte realmente faz comichão e é uma comichão bem persistente; está sempre connosco, a arranhar alguma porta interior, a zumbir suavemente, quase sem se ouvir, mesmo por baixo da membrana da consciência. Escondida e mascarada, gotejando uma variedade de sintomas, é a fonte de muitas das nossas preocupações, stress e conflitos.”

Ler este livro pode realmente abrir algumas dessas portas interiores, mas o objectivo é mesmo esse, juntamente com relatos de casos clínicos, mostrar aos leitores, uma panóplia de situações que escondem esse receio da morte e o projectam em sentimentos, dores, preocupações e prisões que diminuem a qualidade e a força da existência de cada um de nós.

“O escritor existencialista checo Milan Kundera sugere que também provamos a morte através do acto de esquecer: «O que mete mais medo na morte não é perder o futuro mas antes o passado. De facto, o acto de esquecer é uma forma de morte sempre presente na vida.»”

Yalon vai mais longe e avisa-nos: contemplar a morte ou um grande episódio de dor, podes ser experiências decisivas para despertar e provocar mudanças, servindo-se de grandes filósofos (e não só!) para desmitificar noções contraditórias sobre a morte que inflamam uma existência menos independente.

“O leitor não poderá conectar-se ou dar seja o que for de importante aos que morrem, (…) a menos que esteja disposto a enfrentar os seus próprios medos, equivalentes aos de quem está a morrer, juntando-se-lhes num território partilhado. Ser capaz de fazer este sacrifício pelo outro é a essência de um acto de verdadeira compaixão e que traduz empatia. Esta disponibilidade para experimentar a nossa própria dor, em sintonia com a de alguém, tem feito parte da tradição curativa.”

A ideia poderosa do «eterno retorno» de Nietzche, em «Assim falava Zaratustra» que propõe um desafio: "(...) e se pudesse viver uma existência igualzinha à que viveu, uma e outra vez, por toda a eternidade, de que forma isso mudaria a sua vida neste momento?”

Se a mera sugestão de que pode ser obrigado a repetir tudo é assustadora, essa pode ser a força motriz que faltava para gerar mudança.

Ou seja, é o poder de olhar com maior transparência ao que nos acontece, permitindo uma maior higiene intelectual e equilíbrio emocional, alimentando a tão desejada serenidade mental ou equanimidade.

Mas o conselho maior é mesmo o de se socorrer de boas ideias, positividade e uma rede de boas memórias baseada na conectividade humana, combatendo a solidão e o isolamento e aumentando a compaixão e a empatia que permitem esbater a indiferença e baixar os muros da intolerância. E exemplo disso são sessões de psicoterapia que se sustentem na autenticidade, empatia e no olhar incondicionalmente positivo, criando uma interacção significativa. 

«Palavra do senhor» de Ana Bárbara Pedrosa – Opinião

“Dei-lhes pernas para andar, joelhos para correr, braços para chegar à fruta e mãos para agarrá-la. Olhos para não bater nos troncos, dentes para trincar, língua para palrar até dizer palavras e poder dar nomes às coisas. No fim, pareceu-me funcional e algo rústico.”

Do rústico e por entretenimento, tirou uma costela e fez Eva: “Já tinha aprimorado a forma, trabalhei os traços: ancas arredondadas, barriga lisa, pele macia. No peito, carne que parecia inútil, mas que viria a alimentar a espécie numa simbiose natural.

Tirei-a do homem por preguiça, mas quando ele percebeu julgou-a sua. Não foi logo, primeiro veio o pasmo de ver outra, e a confusão ao ouvi-la dizer «Eva». Tudo sem verbos ainda, o Verbo era só Eu.”

E da ausência de verbos, de passado e de futuro, questionou o paraíso: “Davam as mãos em direcção ao pôr-do-sol e não pediam mais da vida do que a felicidade até ao fim.

Chamam-lhe hoje paraíso, mas aquilo eram só árvores e maçãs. Não havia futuro nem passado, restava apenas um excesso de paisagem. Se acabassem com a fruta, que seria deles?”

Palavra do Senhor é isso mesmo, um livro de questionamento e reflexão, do que se construiu e destruiu com esse excesso de paisagem e uma mão cheia de abundância, ora de escassez, dominando a natureza inacabada de cada personagem que ditou o curso desta história às mãos da inevitabilidade do destino.

“Tinha sido feito para ser testado: já antes de nascer seria um assassino. Rejeitei-o antes de ter cometido o crime, a culpa e a morte eram a génesis da criação. Protestou contra a injustiça, mas falhou no alvo, quem morreu foi o irmão. Verdade seja dita, onde mais poderia gastar a sua raiva?”

Crime, culpa, castigo, o Bem e o Mal e um enredo com um narrador que compara os seus feitos a outros grandes da ficção, como Stephen King, teatralizando ainda mais o acto da criação e nivelando-o pelo que mais tem de terreno e palpável, sem esquecer um ou outro episódio mais transcendente.

“Não havia dúvida: quem nega o filho nega o pai, e ele assumiu a autoridade para falar por mim – espírito do seu sangue. Só assim poderia imbuir-se de uma razão maior do que os homens e então a sua palavra poderia ser igual ao Verbo. Não o pus no mundo para lançar a paz, mas uma espada, porque não quis barreiras para este cavalo à solta, e ele rasgou o ar com o seu golpe.”

Se dúvidas há sobre o conteúdo e a mensagem aqui habilmente compilados por Ana Bárbara Pedrosa, talvez baste dizer que enceta a desmistificação e concluí: “(…) todos saberiam que a razão última da vida era a família, que os humanos e os deuses deveriam unir-se para se protegerem uns aos outros.”

É um livro experimental, mas que assume uma voz muito própria e até irreverente, mas bastante cuidada e que desperta a curiosidade do leitor, seja para temas bíblicos seja para outros livros da autora.