sábado, 16 de março de 2024

«Um Grito de Amor Desde o Centro do Mundo» de Kyoichi Katayama - Opinião

Enquanto lia este livro, cruzei-me com uma frases que anotei aquando da leitura de «Os Abismos» de Pilar Quintana: "todas as minhas histórias preferidas trazem um aviso qualquer" e eu acrescentaria, todos os livros que leio, goste muito deles ou não, trazem frases que desde o momento que são lidas me ficam na cabeça.

"É surpreendente o quão puro te tornas quando pensas que o futuro não é possível, mas, quando percebes que estás vivo, os teus desejos renascem."

Eu não conhecia o fenómeno em torno da história de Sakutarô e Aki, a série mangá e o filme, e nessas adaptações está muito da essência do livro: a filosofia de vida dos adolescentes, as reflexões que fazem e as atitudes perante o confronto com a morte precoce. Haverão por certo diferente formas de olhar ao enredo, é previsível e já um tanto gasto, mas como disse, a essência está nas conversas entre os personagens, seja ente Sakutarô e o avô ou mesmo entre os jovens amantes, ainda assim foi um livro que me cativou pouco, embora tenha gostado da forma que Katayama encontrou para descrever os personagens e dar espessura aos sentimentos, sensações e relações.

terça-feira, 12 de março de 2024

«A Axila de Egon Schiele» de André Tecedeiro :: Opinião

 


“(…) Mas antes disso, esfreguei as mãos na terra.

Não teria conseguido se não estivessem vazias.”

 

Se oscilarmos pela poesia de André Tecedeiro, ao sabor dos humores do dia-a-dia, encontramos sempre algo que nos anime. Ou que nos faça pensar. Não propriamente no sentido de desarranjar a cabeça. São palavras simples. Assim parecem.

“Cada um lê no poema,

o poema que traz em si.”

quarta-feira, 6 de março de 2024

«A Nação das Plantas» de Stefano Mancuso :: Opinião


O novo livro de Mancuso é uma apologia aos seres vivos mais vulneráveis e frágeis, facilmente esquecidos ou ignorados e cada vez mais ameaçados. O objectivo do autor é claro: demonstrar para conhecer e conhecendo, sermos incapazes de ignorar ou não defender esta nação das plantas. Uma nação da qual fazemos parte e vamos querer continuar a pertencer. Não compreendê-la é querer viver à margem, numa bolha. Mas atenção, a bolha está prestes a rebentar!

“Ao percecionarmos as plantas como algo mais próximo do mundo inorgânico do que da plena vida, cometemos um erro fundamental de perspetiva, que nos poderá custar caro. Para tentar remediar a escassa consciência que temos do mundo vegetal e a baixa estima pelo mesmo, dado que nós homens compreendemos somente as categorias humanas, este livro trata as plantas como se todas elas fizessem parte de uma nação, ou seja, de uma comunidade de indivíduos que partilham a mesma origem, história, organizações e objetivos: a Nação das Plantas. Ao olharmos para as plantas como quem olha para uma nação humana, os resultados são surpreendentes.”

“(…) os fungos têm uma biomassa seis vezes superior à dos animais (12 gigatoneladas). As plantas (450 gigatoneladas) representam mais de 80% da biomassa da Terra, e os homens, com as suas 0,06 gigatoneladas, significam uma mísera percentagem de 0,01%. É evidente que não é em virtude do nosso número que exercemos a soberania no planeta. Pelo seu número e relevância, a soberania da Terra deveria pertencer às plantas.”

Continuar a ignorar os factos sobre o peso da importância das plantas e da sua necessidade fulcral, juntamente com os actos inconscientes dos humanos e a distância mantida como se habitássemos um planeta à parte (a tal bolha), só pode, na visão de Mancuso, dar um resultado semelhante ao do horror e do mal causado pelo Holocausto. Perpetuá-lo por desconhecimento já nem sequer é aceitável, uma vez que todos os tipos de debates têm deixado claro os possíveis desfechos. Ainda assim, Mancuso sublinha:

“As afirmações de Arendt foram à época julgadas irracionais. A tese de que numa dada organização hierarquizada na qual: 1) exista suficiente distância entre a própria ação e os resultados da mesma, 2) a autoridade seja forte, 3) as relações no interior da hierarquia sejam despersonalizadas, é possível recriar o horror do Holocausto afigurou-se totalmente inaceitável para a maioria. O que Arendt escreveu escandalizou o mundo: não só o Holocausto podia acontecer novamente, como qualquer um podia ser responsável por ele.”

Mancuso não pretende chocar, mas pretende enviar um forte alerta. Somos todos responsáveis pelos danos ao planeta, essencialmente e embora não se consiga adivinhar a extensão total dos danos, não podemos ignorar o que está a acontecer diariamente diante dos nossos olhos. A militância deveria ser diária também, especialmente porque todos os anos estamos cada vez mais cedo a atingir o Earth Overshoot Day (EOD).

“Todos deveriam ser mobilizados, e se acham que estou a exagerar e não veem qualquer razão para se levantarem do sofá a fim de defenderem o ambiente e as florestas, então fiquem a saber que esta é a única e verdadeira emergência mundial. A generalidade dos problemas que afligem atualmente a humanidade, mesmo que aparentemente longínquos, estão relacionados com a ameaça ambiental e representam apenas os sintomas inofensivos daquilo que está para vir se não enfrentarmos esta questão com a devida firmeza.”

O uso e abuso de recursos já incapazes de se regenerar é uma emergência maior que todas as outras, um dano irreversível para o ecossistema terrestre e para a própria sobrevivência da espécie humana. E mesmo embora se reconheçam capacidades exclusivas e extraordinárias à Nação das Plantas, as suas estratégias de adaptação e sobrevivência não são inesgotáveis e muitas delas são fruto da característica que mais as distingue: a sua falta de movimento, que os cientistas muito têm estudado na tentativa de aplicar a outros seres vivos, no entanto, essa enorme sensibilidade está proporcional a milhares de anos de evolução e epigenética. E claro, de cooperação. E com estes exemplos de «apoio mútuo» muito se poderia aprender, uma vez que têm sido determinantes para a evolução inter-espécies e este detalhe é o mais fascinante. No obstante, a competição que existe por água e luz, a competição versus cooperação exige evolução e resiliência, gerando estratégias de sobrevivência e progresso das espécies de plantas.


Carta dos Direitos das Plantas


Artigo 1.º - A Terra é a casa comum da vida. A soberania pertence a cada um dos seres vivos.

Artigo 2.º - A Nação das Plantas reconhece e garante os direitos invioláveis das comunidades naturais enquanto sociedades assentes nas relações entre os organismos que as compõem.

Artigo 3.º - A Nação das Plantas não reconhece as hierarquias animais, fundadas em centros de comando e funções concentradas, favorecendo antes democracias vegetais difusas e descentralizadas.

Artigo 4.° - A Nação das Plantas respeita universalmente os direitos dos atuais seres vivos e os das próximas gerações.

Artigo 5.° - A Nação das Plantas garante o direito a água, solo e atmosfera limpa.

Artigo 6.º - É proibido o consumo de quaisquer recursos naturais não renováveis para as gerações futuras de seres vivos.

Artigo 7.º - A Nação das Plantas não tem fronteiras. Todos os seres vivos são livres de se deslocarem, transferirem e viverem nela sem qualquer limitação.

Artigo 8.º - A Nação das Plantas reconhece e incentiva o apoio mútuo entre as diferentes comunidades naturais de seres vivos enquanto instrumento de convivência e de progresso.


***
Este livro foi lido a propósito de um desafio proposto para 2024 na RODA DOS LIVROS



sábado, 24 de fevereiro de 2024

«O assassino cego» de Margaret Atwood - Opinião

“A única forma de escrever a verdade é partir do princípio que aquilo que se escreve nunca vai ser lido por ninguém. Nem por outra pessoa, nem mesmo nós próprios, mais tarde. De outra maneira começamos a desculpar-nos a nós próprios.”

Esta é a premissa de «O Assassino Cego» onde Iris Chase escreve para se confessar, mas não pede perdão. Narrada ao ritmo da sua velhice: “cada vez mais me sinto como uma carta – depositada aqui, recolhida ali. Mas uma carta que não é dirigida a ninguém.” Ou é, nem que seja a si mesma, enquanto se ouve a recontar, detalhadamente os acontecimentos. É uma caça às recordações.

“Um pássaro vivo não é a mesma coisa que os seus ossos etiquetados”

Nas primeiras cinquenta páginas temos elementos-chave para toda esta narrativa complexa e descritiva. 

As mulheres sem língua, inchadas por aquilo que as obrigam a calar, é apanágio da época. Calar as mulheres, casá-las para salvar a honra e as fortunas depenadas das famílias, entregá-las aos conventos ou à religião… tudo se justificava pelo papel submisso e secundário da mulher numa sociedade onde “havia muitos deuses. Os deuses dão sempre jeito, justificam quase tudo…” ainda assim, a narradora-protagonista, Iris Chase diz que à luz quente de uma chama, quando confrontados com a verdade não somos mais que ossos e “Sabe Deus que ossos roí durante o sono.”

quarta-feira, 21 de fevereiro de 2024

«O vento mudou de direção» de Simone Duarte :: Opinião

Os ataques terroristas às Torres Gêmeas geraram ondas de pânico e pavor, de alterações à segurança e ao entendimento que os americanos (e o resto do mundo) têm face aos árabes e aos muçulmanos. Mas mais que tudo, o 11 de Setembro gerou uma Guerra ao Terror levada a cabo pelos Estados Unidos com o maior contingente de sempre a invadir e a permanecer num país estrangeiro, causando uma destruição massiva e um terror tentacular que se estende a diversas geografias para além do Afeganistão, do Iraque e do Paquistão. 

Em «O vento mudou de direção», Simone Duarte narra isso mesmo, a realidade tentacular dos efeitos colaterais de um atentado com consequências devastadoras: "Os americanos tiveram um 11 de Setembro. Nós continuamos a viver o nosso 11 de Setembro até hoje."

Esse «nós» são sete pessoas específicas que a jornalista entrevistou e conheceu, denunciando aqui como a realidade destas pessoas, representa infâncias, juventudes, profissões, famílias, sonhos, futuros... países, totalmente estilhaçados e hipotecados. Vítimas esquecidas, perdidas entre o medo e o terror paralisante de quem teve a guerra à porta de casa. Vítimas resgatadas mas atiradas para os meandros de uma imigração forçada. Refugiados para quem mudou tudo e não encontram referências em nada. Cidadãos de países em risco de se transformarem para sempre e com eles, o destino de todas estas pessoas.

"Entrou no país com um visto que só tinha validade de 10 dias. O prazo havia expirado e ela precisou de decidir entre voltar para Cabul sob a ameaça diária de atentados suicidas ou ficar num país em que o medo não a paralisaria. Não haveria outra hipótese. Só não imaginou que passaria esta primeira noite na cadeia." (Gawhar, Viena 2016)

quinta-feira, 8 de fevereiro de 2024

«Poeta Chileno» de Alejandro Zambra - Opinião

A forma como chegamos a cada livro é quase tão importante como a leitura em si. Cada vez mais acredito que as expectativas e as histórias em redor de um livro, tema ou autor, podem determinar o rumo de uma leitura. Tanto que por vezes nem lemos o que lá está. Lemos o que achámos que íamos ler. Parece complexo, mas é essencialmente o poder da influência e claro, da auto-sugestão. Quando a coisa começa a correr de outra forma, a opinião enviesa e a leitura sofre com isso.

Quando ouvi falar deste livro, pela voz de Giovana Madalosso em conversa com Mariana Alvim, a forma como a autora brasileira descreveu aquela relação fragmentada entre pai e filho, eu fiz (só pode!) todo um desenho do livro na minha cabeça com o bónus de ter um gato à mistura. Sobre o livro propriamente dito eu não fui ler nada, a recomendação sentida e entusiasta chegou, especialmente porque eu tinha lido há pouco - e gostado muito - de «Tudo pode ser roubado», portanto o livro de Alejandro Zambra só podia ser bom.

E foi! 

Só não foi mais por culpa desta impaciência que eu às vezes deixo que tome conta das leituras, mas que felizmente já se amenizou quando eu vou escrever e quando me deparo novamente com o texto, com detalhes que eu mesma sublinhei, com passagens que eu marquei, toda uma selecção de momentos que me dão um novo olhar sobre o livro. É um olhar melhor. E aí apercebo-me de que gostei mais ainda da leitura e li efectivamente o que lá estava. A citação abaixo é a prova disso.

domingo, 4 de fevereiro de 2024

«Pequena coreografia do adeus» de Aline Bei – Opinião

Uma garota que deseja ser uma música bonita que desparece quando é rádio é desligado, pede ao espelho que não se apaixone por ela. Mas cedo vai descobrir que mesmo sem espelho, mesmo invisível, as são coisas existem e doem. E que mesmo as coisas bonitas se fazem em cacos, como aqueles que colecciona.

“as brigas dos meus pais foram virando o chão onde pisávamos.
o silencio da casa era sempre uma fermentação.”

Decepção atrás de decepção.

“(…) uma conversa em família
Nunca foi possível, não em minha casa
Lá somos três solitários
Irreversíveis
Gravemente feridos
Da guerra que travamos contra nós.”

Abandono atrás de abandono. Numa solidão que povoa tudo, Júlia cresce.

“sentia-me um verdadeiro Pêndulo: ora caminhando
solenemente para a presença materna, ora fugindo
de qualquer possibilidade de mãe.”

Caco atrás de caco, o Pêndulo sente-se um amontoado de destroços, mas mesmo os cacos fermentam, na linha ou cola que os une e mesmo nos destroços entra luz e gera vida e a família cresce mesmo só com uma. Ela! Júlia, cresce e floresce e vai escolhendo quem quer ter por perto, aprendendo a gerir distâncias e expectativas.

“os estranhos não nos doem porque ainda não nos dececionaram
e se mantivermos tudo a uma boa distância: seguirão sendo
essa doce incógnita.”

Porém a vida não pode acontecer com tudo à distância, é preciso ir ensaiando pequenas coreografias de adeus.

quarta-feira, 24 de janeiro de 2024

«Temporada de Furacões» de Fernanda Melchor :: Opinião

«Temporada de Furacões» de Fernanda Melchor é uma narrativa gargantuesca que se desenrola a um ritmo frenético, não só pela forma como os eventos acontecem (pelo menos até certa parte), mas pela escrita de Melchor, uma escrita de tirar o fôlego, como se subíssemos uma escadaria enorme. Interminável. Onde cada degrau é bem maior que o anterior e precisamos sempre de balanço para continuar a subir. As frases – e sim, as frases – muitas delas são de mais de uma página e narram uma enorme miséria, sofrimento e violência, mas ao mesmo tempo demonstram a riqueza bruta da escrita da autora.

A escrita é o furacão!

“(…) com os cabelos despenteados e as faces rosadas pela emoção, as mulheres da terra benziam-se porque podiam imaginá-la nua, a montar o diabo e a afundar-se na sua verga grotesca até à empunhadura, com o sémen do diabo a escorrer-lhe pelas coxas, vermelho como lava, ou verde e espesso como as mistelas que borbulhavam no caldeirão em cima do lume e que a Bruxa dava a beber às colheradas para as curar dos seus males…” 

segunda-feira, 15 de janeiro de 2024

«Limpa» de Alia Trabucco Zéran :: Opinião

"A mulher ficou calada.
Ele pediu-lhe por favor.
Ela levantou-se, ajeitou a saia, pegou no casaco e na mala.
- O que define uma tragédia - disse a mulher -, é que sabemos sempre como acaba."

Podia escolher o epílogo com as palavras de Camus, mas estas são tão ou mais agitadoras, quantas as vezes forem recordadas ao longo da leitura.

A senhora dona Mara López:
"Havia qualquer coisa nela. Era como um... deixem-me pensar. Um desapego. Ou não. Essa não é a melhor palavra. Um desprezo, é isso. Como se todos a aborrecessem ou lhe repugnasse todo e qualquer tipo de cumplicidade. Pelo menos era essa a sua aparência. A máscara que cuidadosamente colocava todas as manhãs."

O senhor doutor Jensen:
"Não sei descrevê-lo melhor, talvez vocês me possam ajudar. Como definiriam uma pessoa que não fuma, que quase não bebe, que antes e pronunciar uma palavra a pesa e calcula, de forma a evitar exageros que o façam perder tempo. Um homem  obcecado pelo tempo. (...) uma perpétua contagem decrescente."

Falta apresentar a menina. A patroa mais pequena. 
A menina morreu. 
Sim a menina está morta! A história pode ter vários inícios, mas o desfecho é esse. A menina morreu. A menina filha dos patrões está morta!

sábado, 13 de janeiro de 2024

«Raparigas da Província» de Edna O’Brien - Opinião

Li com muito interesse, sofreguidão e até sofrimento o livro, «Menina» de Edna O’Brien, e fui em busca desse efeito quando agarrei em «Raparigas da Província», talvez porque a menina-mulher na capa, no seu ar frágil, mas de expressão forte, ao mesmo tempo ausente e misterioso, captou logo o meu interesse. E sim, ainda vou a muitos livros pelo magnetismo de uma boa capa, mesmo quando se trata de um livro de início de carreira, como é o caso deste que data de 1960.

Ambas as leituras têm quase 60 anos de diferença. 60 anos de produção literária 😉 mas o génio de O’Brien já lá está, com cerca de 30 anos. 

O brilhantismo de em poucas palavras, criar imagens fortes, as personagens com valores, mas que se questionam no seu moralismo (e o dos outros), as preocupações com grandes temas, felizmente posicionando as mulheres no centro das narrativas, mesmo que expondo as suas fragilidades e condicionantes, sem que para isso os homens sejam demonizados. Muito por isto, mas por tantas coisas mais, será para breve o regresso à escrita desta irlandesa e dessa vez será com o aclamado «Pequenas Cadeiras Vermelhas».

sexta-feira, 12 de janeiro de 2024

«Lucy à beira-mar» de Elizabeth Strout :: Opinião


"A tristeza no meu peito parecia subir e descer de acordo com... com o quê? Não sabia.
E o tempo mantinha-se frio, lúgubre.
Sobre o meu trabalho, eu pensava: nunca mais escrevo uma única palavra."

Mas ainda bem que escreveu! Ainda bem que Elizabeth Strout continuou este saga de Lucy Barton, pois para mim é como reencontrar pessoas que conheço (que vou conhecendo e de quem gosto) e sinto que me conhecem a mim, tal é a forma brilhante como a autora consegue captar sentimentos e sensações, narrando esta coisa de amar que em tanto parece diferente, mas que facilmente encontra semelhantes.

"Quase sempre, predominava a tal sensação de estar debaixo de água; de nada me parecer de verdade.
(...) A tristeza que subia e descia em mim era como as marés."

Foi dessa forma que a pandemia invadiu as nossas vidas, mergulhando-nos a todos em dúvidas e preocupações, afastando-nos com uma onda esmagadora que só pela força das marés seguintes quis contrariar o que poderia ser o destino e foi-nos deixando recuperar aos poucos. E é precisamente sobre afastamento e reaproximação que Strout nos fala neste quarto livro onde reencontramos Lucy e William, as filhas do casal e as memórias que teimam em surgir numa época mais que propícia a isso: o confinamento. 

"«A minha infância inteira foi um confinamento. Nunca via ninguém e nunca ia a lado nenhum.» E a verdade desta constatação atingiu-me em cheio nos intestinos e o William olhou simplesmente para mim e respondeu: «Eu sei, Lucy.» Disse-o de maneira automática, sem pensar nas minhas palavras, pelo menos foi o que achei."

Algumas dessas memórias permitem atravessar melhor esses dias quase desertos, outras bem que podiam não ter sido convocadas. Por isso, a pandemia afectou-nos de formas tão díspares. E uso sempre tempos verbais que me incluam, porque os livros de Strout são isso mesmo, viagens que fazemos com estes personagens que vão dentro de nós. 

"O Sol ia alto no céu azul, perto dele as nuvens brancas pareciam entufadas e, de repente, num ápice, o Sol escondeu-se atrás de uma das nuvens e alterou a aparência do mundo (...)"

O Sol aqui é a escrita de Strout, exímia em evocar nuvens que transformam pequenos entendimentos do nosso mundo, nem que seja o nosso pequeno-mundo-bolha de leitor.

*

Opiniões anteriores:

- «Oh, William!»

- «Tudo é possível»

- «O meu nome é Lucy Barton»

sexta-feira, 8 de dezembro de 2023

«Pedro Páramo» de Juan Rulfo :: Opinião

“(…) não há nomes próprios mais próprios do que os das pessoas dos seus livros.” Diz-nos Gabriel Garcia Marques nas breves notas nostálgicas sobre Juan Rulfo e é com essa enaltação e o entusiasmo da leitura que o leitor pode começar a embrenhar-se nesse clássico. É claro que é um clássico e o nobel coloca Rulfo do panteão dos grandes. Um génio na forma e na estrutura, nos diálogos, nas cenas, na composição de cenários com apenas uma mancheia de palavras. Não lhe escapa nada. Nem os nomes dos personagens fogem da sua genialidade. Antes pelo contrário.

Só há um senão em “Pedro Páramo”, as almas penam ou são penadas?

“- Este mundo, que nos aperta por todos os lados, que vai esvaziando punhados do nosso pó aqui e ali, desfazendo-nos em pedaços como se orvalhasse a terra com o nosso sangue. Que fazemos nós? Porque nos apodreceu a alma?” (pp105)

Avistamos Comala, ainda vivos, embora cambados como um sapato velho, devido à longa viagem em “tempo da canícula, quando o ar de Agosto sopra quente, envenenado pelo odor putrefacto.” A visão ao longe é triste e cinzenta, puro calor sem ar e o Almocreve diz que em Comala ainda será pior.

Com os diálogos e as descrições do que vê, o narrador coloca-nos junto dele desde o início. E logo aí há um aviso, desceremos a um lugar desolado, vazio, assombrado. Os mortos daquela terra, quando chegam ao Inferno, voltam amiúde a procurar o calor a que estão habituados.

Tudo naquele local é feio, retorcido, fétido, pobre, duro. Tudo contrasta com as memórias da mãe de Juan Preciado. O verde, os pastos, as searas… tudo secou. Tudo morreu. Aparentemente como tudo o resto. O que não pereceu, ensandeceu.

“A cama era de verga, coberta com mantas que cheiravam a urina, como se nunca tivessem sido arejadas ao sol; e a almofada era um enxergão cheio de cotão ou de uma lã tão dura ou tão suada que endurecera como madeira.”

A sujidade, a traição, o medo, a violência, as dificuldades e os abusos constantes por anos a fio, espremeram as gentes de Comala até ao tutano. Juan não fugirá à sina dos daquela terra, enrijecerá de medo, mas não resistirá. Entretanto o leitor, vai emudecendo e ficando sem fôlego, lendo abruptamente as cenas que sucedem umas atrás das outras, cruzando épocas e histórias, para se perder e logo a seguir se achar, ou achar que se achou entre almas perdidas e histórias ainda mais de perdição.

“E, para cúmulo, a aldeia foi ficando deserta; todos se fizeram à estrada para novos rumos e com eles partiu também a caridade de que eu vivia. Sentei-me à espera da morte.
(…)
- Lá fora, o tempo deve estar a mudar. A minha mãe dizia-me que mal começava a chover tudo se enchia de luzes e do cheiro verde dos rebentos. (…)
- Não sei, Juan Preciado. Há já tantos anos que não erguia a cara que me esqueci do céu. E ainda que o tivesse feito, que teria eu ganho? O céu está tão alto e os meus olhos tão sem olhar que vivia contente só por saber onde ficava a terra.”

A brilhar nesta Comala só a escrita de Rulfo, visível em cada descrição dos seus personagens, embora na maioria seja irreparáveis, mas arrebatadores. A mudança constante dos tempos em que acção decorre, entre memórias dos que sofreram às mãos do cacique, desfiguram a imagem de Pedro Páramo, um príncipe, um conquistador, um Maquievel senhorial, capaz de cometer as crueldades de um só golpe, mas distribuindo ódio e violência por todos, um por um, quase ninguém lhe escapou.

“Quisera adivinhar os seus pensamentos e ver a batalha daquele coração para rejeitar as imagens que ele semeava dentro dela.”

Em batalha andamos nós leitores, descodificando como tudo desmorona, até mesmo Pedro Páramo.

“Pedro Páramo, a personagem, é uma personagem de epopeia. O seu romance, aquele que tem o seu nome, é um mito que despoja a personagem do seu carácter épico” («Rulfo, o tempo do mito» por Carlos Fuentes)

terça-feira, 28 de novembro de 2023

"Baiôa sem data para morrer" de Rui Couceiro - Opinião

 

Chegamos a Gorda e Feia pela mão hábil e minuciosa de Rui Couceiro que encontrou na voz de um narrador anónimo, o veículo ideal para fazer chegar aos leitores as peripécias de uma aldeia onde de repente (parece, mas não é) todos começaram a morrer. Mas este professor-narrador não conta só a história dos que vão morrendo, conta também a história de uma região, de uma família – a sua – e de uma comunidade que também se fez família pela proximidade que o isolamento traz. E nessa família aceitaram este narrador-forasteiro que com a calma a que o calor obriga e a imensidão dos campos inspira, se fez menos pacóvio urbano e mais destemido perante a fantasmagoria rural.

Cúmplice nessa transformação estava Baiôa. Joaquim Baiôa, um homem enrugado, quase tanto como uma uva ao sol. Um homem que vivia na inquietação de cuidar, limpar, edificar, lutar… era a sua luta por permanecer, por não deixar morrer a aldeia onde sempre tinha vivido.

“Baiôa vivia consciente de que a inquietação edificava, sentia-se sabedor de que nada de mais humano existia do que o desassossego. (…) Vivia em agonia, sentindo o desespero do fim através das mortes dos outros, torturas permanentes para ele que ficava e não sabia por quanto tempo.”

Não era apenas Baiôa que viva em desassossego, também o narrador se sentia em desesperos, alguns até os desconhecia.

“Em certa medida (…) valeu-me o rio. (…) O rio, que em rigor é um ribeiro, será nestas páginas sempre rio, por absoluto merecimento de tal promoção: não só é entidade viva em terra de mortos (…) No rio, via o meu reflexo parado sobre as minhas ânsias correntes, duas partes de mim que se separavam uma da outra e das reflexões deixadas nas margens.”

Não são só as reflexões que o narrador deixa nas margens. Também lá vai ficando o telemóvel e as incontornáveis redes sociais que tanto alimentavam os seus dias e as suas insónias, coisa crónica que o apanhava constantemente. Ou melhor dizendo, coisa que lhe abalroava de todo as ideias e as certezas, de tal forma que até ouvia a mãe: “Nós não somos nada, filho,”

É entre estes cenários de tormentos e mesmo fustigados pelo calor que Baiôa e o narrador vão reconstruindo casas na aldeia enquanto compõem as abordagens oficiais que regem os trabalhos no Observatório da Morte.

«Baiôa sem data para morrer» é isso mesmo, um peculiar observatório das mortes em Gorda e Feia, uma incrível sucessão de acontecimentos com a qual o narrador se viu a braços, como quem toma notas naqueles papeizinhos amarelos com a banda autocolante a ficar-lhe presa em todos os seus movimentos. Até que, atulhado neles, se decide a escrever este livro, edificando assim uma homenagem às memórias da ruralidade que atravessa todos nós.

sábado, 11 de novembro de 2023

"O último acto em Lisboa" de Robert Wilson - Opinião


Robert Wilson converteu o género policial num épico, no entanto, tenho a sensação que enfiou o Rossio na rua da Betesga e expressão mais portuguesa não há para aquilo que faz ao longo de mais de 500 páginas. Há uma pesquisa imensurável e Wilson precisou cozê-la toda com ponto bem apertadinho para dar ao leitor uma viagem pela História recente de Portugal, sem esquecer detalhes de todo o género, no entanto, o diabo está nos detalhes. São demasiados. Nomes, referências, ruas, praças, patentes, expressões…. Tanto quantas as incontáveis personagens, mas… lá está, navegamos dos idos de 1990 e troca o passo para uma incursão à Alemanha nazi, para logo a seguir atravessarmos a serrania raiana portuguesa e entrarmos nos meandros do volfrâmio, cruzando a ruralidade inóspita com a ostentação da metrópole e as suas lides de espiões e quando o leitor está quase confortável com o que lê, mais um salto cronológico e a conspiração continua décadas atrás ou à frente e tanto estamos entre oficiais das SS como entre inspectores que tomam uma bica e um pastel e nata enquanto discutem trivialidades de um Portugal à espreita da viragem do século.

É intenso, é complexo, ganha ritmo, mas perde-o logo a seguir com a constante mudança nas personagens e com os infinitos detalhes. Os mal-afamados detalhes ;() Sem esquecer os que se disfarçam, mudam de rosto, de nome, de local… mal sabíamos nós que este «Último acto em Lisboa» era uma saga, embora o autor nos avise, disfarçadamente, pois também a linguagem usada é exímia e mestre do disfarce.

“Cheguei ao topo das gastas escadas de madeira e por instante senti-me como um homem a quem tivessem mandado carregar sozinho um piano.”

E lá vamos nós, empurrando o piano ou como Felsen, “(…) pisando e repisando o mesmo terreno , de tal modo que, se os seus pensamentos fossem passos, teria cavado uma trincheira circular até aos ombros.”

E a mestria do autor é essa, ele pisa e repisar, circularmente, cozendo com habilidade cirúrgica, uma conspiração que atravessa décadas e une as histórias que ao longo de muitas páginas teimam (assim parece) em não se cruzar. Sem esquecer, como estrangeiro que é, de ler, interpretar e escrever com humor, traços tão portugueses, que só nós português parecemos não ver, mas assim descritos tornam-se tão evidentes que não podemos fazer mais nada a não ser: rir!

“- A única coisa que os portugueses põem atrás das costas é a cadeira à hora das refeições. Vivemos com a história como se tudo continuasse a acontecer. Há gente nesta terra que ainda espera que D. Sebastião o Encoberto volte ao fim de quatrocentos anos para nos levar a cumprir Portugal…”

Entre factos muitos distintos, histórias e História, há ainda lugar para humor, roteiro turístico, crimes com investigações à portuguesa, especulações sobre heranças ancestrais, politiquices intemporais e um ou outro comentário romântico de pacotilha com pendor para o drama, ainda assim, a verdade não se escondeu debaixo do colchão como as notas de alguns, firmando a ideia “é tudo uma questão de negócios. O dinheiro não tem moral” ou a “impunidade dos tubarões”.



quinta-feira, 26 de outubro de 2023

«A lua de Joana» e «O guarda da praia» 30 anos depois 😉

 


O desafio de reler «A lua de Joana» foi lançado pela metade mais colorida deste blog, a ElsaR e em boa hora eu aderi. Não sei quem mais o fez, mas se nos lêem, não deixem de comentar, partilhando sensações.
São perto de 30 anos que separam estas leituras. 30!? Ah pois é. E as sensações desta leituras deveriam ser uma entrada de diário que eu pudesse comparar com outra, escrita pelo meu eu de doze anos. Mas não existe e recorrendo apenas à memória pouco por cá existe sobre ambas estas narrativa, a não ser pequenos detalhes: o baloiço em forma de lua, algumas sensações sobre a escola e a paixão, essa grande paixão que é a praia. Presença constante na minha vida. Tal como a leitura.

A primeira surpresa foi a ilustração com que abre o livro, foi uma surpresa, não me recordava nada dela, mas acho bem capaz, se ainda conservasse o meu exemplar, de a encontrar pintada. 

Ilustração de frontispício: Cristina Malaquias

Relendo este livro-fenómeno, por ser até hoje vendido e debatido nas escolas, reencontro acima de tudo a mística associada à escrita diarística e não deixa de ser curioso que nos últimos tempos tenha lido vários livros dentro deste registo, mas seja algo que não mantenha, nem procure ler. Mas tem calhado. E algo muito curioso é a forma como certas entradas parecem ser escritas pela minha mão, pelo menos algumas linhas, seja aqui neste registo mais adolescente, em «Dano e Virtude» de Ivone Mendes da Silva ou nas linhas atormentadas, ácidas e até repetitivas de «O regresso dos andorinhões» de Aramburu. O que é certo é que um diário encerra a eterna questão: a da incompreensão. E essas são as melhores passagens.


É precisamente nessa incompreensão que começa «A lua de Joana».
Joana não compreende o que aconteceu a Marta, o que a levou a tal desfecho, mas pior, não compreende como levar a vida adiante sem a sua amiga, a sua confidente, aquela que a ajudava a descodificar o mundo à volta delas. O mundo convulso e desafiante que é o da adolescência, os desafios de saber o que estudar, a dificuldade em compreender a família, os amigos... e o papel num todo no qual não se reconhecem. Por isso, Joana continua a escrever a Marta, mesmo a amiga estando morta. Escreve em busca de resposta, despejando as mágoas no papel e enquanto o faz revela a solidão e o desamparo que sente e nós, hoje 30 anos depois, vemos tantas coisas mais que não veríamos com doze ou treze anos. Há uma desconexão brutal entre os elementos estereotipados desta família, falha a comunicação e falha logo numa fase crucial, a do luto e a solidão. Joana não tem como nem como quem tapar o buraco que lhe comprime o peito e as ideias. Ou até tem, mas por pouco tempo e esse segundo luto define um caminho que já se adivinhava no horizonte.

Sem dúvida que «A lua de Joana» é um livro que merece ser lido e relido. É um objecto de estudo e de debate e consoante as idades, as sensações e preocupações mudam e isso ainda o melhora mais, por ser capaz de se transformar juntamente com os seus leitores.


Com «O guarda da praia» as sensações são diferentes. As preocupações também. Embora os temas sejam igualmente importantes, pois existe um alerta para a preservação e respeito pelo meio ambiente e também uma relação, até certa parte nebulosa, entre uma mulher e uma criança, recriando um pouco o mito do menino selvagem, sem esquecer questões de abandono familiar e a maternidade.

Gostaria muito, talvez até mais, de ter a tal entrada no meu diário e reler as ideias sobre esta história, lembro-me de ter gostado muito, de ter escrito até qualquer coisa inspirada por esta praia, mas a memória está carregada disso: efeitos-dos-livros 😉




segunda-feira, 23 de outubro de 2023

«Duas mulheres em Praga» de Juan José Millás :: OPINIÃO


«Duas mulheres em Praga» é um reencontro com toda a estranheza, mas também toda a autenticidade que povoam cada livro de Millás. É certo que nem sempre é fácil encontrar as palavras que dão forma aquilo que se sente a cada leitura, pois talvez precise de vivenciar o mundo mais com o lado esquerdo, especialmente em dias em que sou atacada pelo lumbago. ;) Estranho? Não! É só o mundo Millás a tomar conta do texto.

Estranhas são as coincidências entre leituras e a forma como dialogam e se interceptam, neste caso, entre este e o livro de Edith Wharton. É quase como se lhe respondesse ou assim quis eu lê-lo quando aceitei este périplo por entre filhos órfãos, pais adoptivos, mulheres que se completam e homens em dúvida acossados pela própria genialidade. Ou a genialidade é das mulheres e eles simplesmente alimentam-se delas?

“- Estou de baixa, por depressão. Sou funcionária pública e decidi nunca mais voltar ao escritório, nunca mais, mas para não voltar tenho de me deprimir mais ainda. O médico nota quando se fica boa e, por isso, estive dois meses a fazer exercícios de depressão para continuar de baixa. Mas dois meses sem falar com ninguém é demasiado. É de enlouquecer. Então vi o anúncio das biografias, liguei para os Ateliers Literários e marquei a entrevista.”

Garanto que o leitor em nada vai deprimir, mas de vez em quando gargalhará como um louco perdido nesta “geografia sem mapa”, ao que se deve acrescentar: aparentemente sem mapa, já que a habilidade de Millás é precisamente essa, não só compõe o mapa como as instruções para lê-lo e tudo em pouco mais de 170 páginas, descrevendo a vontade de cada uma destas personagens em ter uma vida mais plena, mais saldada, porém a vida teima em ficar a dever-lhes sempre alguma coisa.

“- Não és viúva, pois não? – perguntou ele.
- É como se fosse.
- Não te preocupes, eu também não sou órfão.
- Olha que é um alívio. A que te dedicas?
- Sou escritor – disse Álvaro, e inexplicavelmente saltaram-lhe as lágrimas como a Luz Acaso quando lhe disse que era viúva.
- Conheço outro escritor que também chora por tudo e por nada. Vocês são uns fracos.
- Não é que sejamos fracos – respondeu ele, reprimindo o pranto -, é que a vida deve-nos qualquer coisa que não nos dá.”

Esta realidade constantemente em dívida, compõe um novelo a desfiar-se numa dimensão paralela, sob a qual o leitor vai levitando inocentemente e incólume aos nós e penitências de cada um deles. Uma penitência ensaiada ou um delírio acarinhado. Calculista também. Ainda assim, o leitor compadece-se como se fossem assuntos sérios e perturbações reais

“Colocou o espelho retrovisor de maneira que, em vez de ver o trânsito, se visse a si própria. Deste modo, cada vez que olhava distinguia os seus próprios olhos e imaginava que eram os de uma passageira que viajava nas suas costas, perseguindo-a, embora se sentisse cada vez mais longe de si mesma.  (…)
Pensei, então, que cada um de nós tem dentro um «o que não», quer dizer, algo que não lhe aconteceu e que no entanto tem mais peso na sua vida do que «o que sim», o que lhe aconteceu.”

Diria até que a mestria de Millás é fazer com que as suas personagens se afastem sempre de si mesmas enquanto nunca se afastam um milímetro sequer dos seus dramas, criando conflitos e duplicidades maravilhosas, ficcionando muito bem a vida que nada tem de plana ou linear e basta ajustar o retrovisor para nos convencermos disso mesmo.

Ou como o próprio narrador nos diz, que um Ninguém se torna alguém porque o escrevemos com letra grande 😉 E que as mentiras, quando biografadas, tornam-se verdades, sempre carentes de mais um capítulo, porque a realidade nem sempre sabe escrever-se e precisa de mão habilidosa.


“- Olha, é uma amiga que te admira muito. Agora está a conquistar o seu lado esquerdo, para escrever um livro Canhoto.
- O que é um livro Canhoto?
- Não sei. Um livro escrito com o lado que não se sabe escrever.
Álvaro sentiu que Luz Acaso acabava de verbalizar com uma simplicidade surpreendente, uma ideia sua (…)
Fui tomando consciência de que estava a ser vítima de uma ficção que o meu próprio desejo contribuíra para construir. Era tudo mentira, de acordo, mas as peças dessa quimera começavam a encaixar tão bem que precisava de me repetir continuamente, é mentira, é mentira, porque à medida que os minutos passavam, era cada vez mais verdade.”

quinta-feira, 12 de outubro de 2023

"A História do Riso e do Escárnio" de Georges Minois :: Opinião


Algumas considerações sobre uma leitura salteada mas atenta, deste grande compêndio sobre essa arte tão humana: o RISO!


Premissa para o estudo
: “Não será interessante verificar, por exemplo, que vivemos hoje em dia numa dupla contradição? 

Por um lado, há muito quem tenha a impressão de o riso estar em regressão quando, de facto, ele se mostra em toda a parte; por outro lado, nós rimos cada vez menos, enquanto todas as ciências nos gabam os méritos, mais ou menos miraculosos, do riso.

Compreender o riso é compreender a história da evolução do homem.

O «inextinguível riso» dos deuses. Os deuses riem e riem muito desde a Antiguidade e riram-se de tudo, sendo implacáveis com tudo. O riso serviu todos os propósitos, desde a violência, à deformidade, à cumplicidade e ao regresso à vida.

Do riso dos deuses até à humanização do riso foi um passo filosófico, com um afinamento da linguagem e uma intelectualização: “ao riso homérico, duro e agressivo, sucedeu a partir do século IV, o riso aveludado, sinal de urbanidade e de cultura, o riso finamente irónico Que Sócrates punha ao serviço da busca da verdade.”

Mas atenção, o riso oponha-se ao sagrado, ao equilíbrio, à sensatez e ao autodomínio. E toca de afinar mais uma vez o riso: a sátira. A inteligência da sátira política e a capacidade de auto-escárnio.

“A tomada de consciência do ridículo., do monstruoso e do absurdo no interior do ser gera um soluço caótico e gelado que do riso, já só tem as características físicas: «Instrumento de arte, Visão estruturada do mundo, mas construção, também., de um universo de já do total, o grotesco constitui um instrumento eficaz de uma análise lúcida, por vezes ridícula, mas cruel, do homem absurdo de todos os tempos.» (L. Callebat)

É bem por isso que a comicidade grotesca só aparece num estádio tardio da evolução das mentalidades e da cultura numa dada civilização. Resulta da verificação da incompreensibilidade do mundo, verificação consecutiva a traumatismos coletivos que desfiguram a fachada lógica das coisas que por trás das aparências deram a entrever uma realidade proteiforme* na qual nós não temos poder. O riso grotesco refere-se à própria essência do real, que perde a sua consistência. Verdadeira desforra do diabo, no sentido em que pulveriza a ontologia e desintegra a criação divina, reduzida ao estado de ilusão. Ao lado do riso irónico, verificação do absurdo, o riso grotesco é uma declaração da improcedência; dois risos cerebrais que reduzem o ser ao absurdo ou a aparência.

(*que muda de forma frequentemente)

O riso filosófico e a filosofia do riso perduram séculos e as discussões sobre o riso, do grotesco ao absurdo, passando do satírico à loucura, à estudada ironia, à comicocracia ou à proibição (ou tentativa) do riso, entre tantas outras formas de expressão, compõem séculos de história sobre a maledicência do outro e o prazer a isso associado.

O riso caricaturista «Realiza desproporções e deformações que deviam existir na natureza no Estado de veleidades, mas que, repelidas por uma força melhor, não vingaram. A sua arte, que tem qualquer coisa de diabólico, substitui o demónio que o anjo deitou por Terra».

E, ainda: «O riso é sempre verdadeiramente uma espécie de troça social». Nunca era um prazer puramente estético. Trazia em si: «a intenção inconfessada de humilhar, e com ela, é verdade, a de corrigir». Castigava muito mais a insociabilidade que a imoralidade.”

“Rir é, antes de tudo, uma sanção. Feito para humilhar, deve dar uma impressão dolorosa à pessoa que é seu objeto. A sociedade vinga se por seu intermédio das liberdades que foram tomadas contra ela. O riso não atingirá o seu objetivo, se trouxesse a marca da simpatia e da bondade.” (H. Bergson, 1989)

Por isso o autor afirma que o século XX, esse século horrendo que nunca mais acabava, morreu de riso, soube zombar de si mesmo. Precisava!

“(…) um riso louco (…) um riso nervoso e incontível. O mundo riu de tudo, riu dos seus deuses e dos seus demónios e, principalmente, de si próprio. O riso foi o ópio do século XX, de Dada aos Monthy Pithon. Essa droga suave deu à humanidade um meio de sobreviver às suas vergonhas. Insinuou-se por toda a parte, e o século morreu de overdose – uma overdose de riso quando, depois de tudo reduzido ao absurdo por esse riso, o mundo se achou de novo perante o seu não-sentido original.”

 

O século XXI ameaça o riso com a sua comercialização, globalização e massificação.

O riso virou produto de consumo. Terá validade? Gastar-se-á a fita? Catalogado perderá público? Haverá neste século tendencioso uma ditadura do riso disfarçada de uma qualquer felicidade (obsessão!) de rápido consumo?


“(…) reencontramos nisto a ideia de escárnio universal: o riso como refúgio supremo e recusa das ilusões ideológicas. Mas também aqui o riso voluntário, utilitário e planificado, coagula depressa. A festa contemporânea queria domesticar o riso, mas ele só pode voar em estado selvagem, em pura liberdade.”

quinta-feira, 5 de outubro de 2023

«O homem mais feliz no mundo» de Eddie Jaku - Opinião

Foi com enorme gosto e interesse que conheci Eddie Jaku, embora tenha sido uma leitura entusiasmante, foi igualmente uma leitura sofrida, mas quem sou eu para falar de sofrimento perante um relato destes!

E por isso mesmo a melhor mensagem que se retira desta leitura só pode ser o mantra que acompanha esta biografia.

"Quem partilha as dores, sofre metade.
Quem partilha o prazer, desfruta o dobro."

Claro que são palavras bonitas que pretendem olhar para trás com o pendor do perdão e da superação de anos e anos de tormentas com memórias e fantasmas, mas também isso Eddie Jaku revela quando nos diz até que ponto foi infeliz e atormentado e a partir de que ponto senti uma emoção sem igual que lhe permitiu abraçar o futuro com outra postura. Ainda assim, essa alegria do nascimento do filho teve sempre uma sombra: quando e quanto devia revelar da sua história pessoal como vítima do Holocausto?

"Foi uma emoção muito forte. Desatei a chorar. A minha irmã nem quis olhar para a caixa, tão perturbada se sentiu. É impossível esquecermos a imensidão da dor que carregamos e do sofrimento que sufoca o nosso subconsciente, até nos confrontarmos com provas de tudo o que perdemos."

Essa revelação - um choque para muitos - foi outra parte da superação que o levou a acreditar ser o homem mais feliz do mundo e mais uma vez o seu mantra fazia sentido. É preciso partilhar, é preciso sofrer e sorrir em comunhão com os outros, quer sejam eles outros sobreviventes, a sua própria família ou estranhos espalhados pelo mundo. Eddie acreditou sempre que de cada vez que partilhou a sua história fez um amigo. Que em cada leitor que leu o seu livro fez mais um amigo. E que cada amigo partilhará a sua história e que é dessa partilha que nasce a empatia que nos permite tomar parte naquilo que é correcto.  

segunda-feira, 18 de setembro de 2023

"O Filho de Duas Mães" de Edith Wharton :: Opinião

A estreia com Edith Wharton não podia ter sido melhor, «O filho de duas mães» tem uma aura misteriosa tal como a caracterização de Bernard Berenson sobre a autora e a sua obra: “Edith Wharton mantêm-se apenas incontactável, num sítio qualquer onde não a ouvimos e de onde não pode responder-nos. É muito duro, mas não é aquilo a que chamamos morte.”

É com este pesar e fascínio que sentimos o enredo, para o qual é difícil encontrar sinopse, embora as palavras de Berenson funcionem muito bem, cativando o leitor a abrir o livro, e encetada a leitura, tornam-se num prenúncio.

São as palavras de Aníbal Fernandes que abrem o livro mas eu só as li no final, e ainda bem, encontramos nelas algumas revelações que eu dispensava antes da leitura, mas achamos também o medo, a solidão, a opressão e a renuncia, sentimentos dos quais o enredo se alimenta, e junto com a qualidade da escrita, são a maior experiência de leitura.

Leitura essa que fiz com voracidade e sofreguidão, tanta que não me deixou espaço para conclusões precipitadas ou óbvias, de tão enlaçada que estava. Tanto melhor, ter acontecido dessa forma. O medo tornou-se real, a opressão apertou-me de igualmente, a desconfiança gerou dúvida de todos e a solidão, essa, partilhei-a com qualquer uma daquelas personagens, mas nunca tomei as vezes de narrador e me senti tentada a antecipar desfechos. Coisa rara em mim. Senti-me completamente levada pelas sensações de cada uma daquelas pessoas, sem no entanto favoritar ou desprezar, aliás flutuamos muito por sentimentos contraditórios, fruto da mestria com que está escrito este «O filho de duas mães».

A qualidade narrativa redobrar o estado de confusão do leitor, em muito conseguido pela forma como o narrador desenha as personagens diante dos nossos olhos, quase dando um pedestal a estes personagens de sentimentos (e atitudes) indecifráveis.

“(…) dei por mim sentado ao seu lado e a recordar-me destas coisas. «Pobres criaturas – era como se dois bustos de mármores fossem quebrados, atirados do alto dos seus pedestais e esmagados», pensei ao relembrar-me dos rostos do marido e da sua mulher depois de o rapaz morrer; «e ela, a pobre mulher, foi duas vezes esmagada…”

Se Catherine Glenn tinha a perfeição de um busto renascentista, já a frieza do mesmo não se lhe podia atribuir, especialmente à medida que adentramos na história das duas mães e sem precisarmos do laço taciturno e enfermo do recém-descoberto filho, embora a sua sensibilidade artística complete ainda mais a percepção que o leitor tem: a maternidade não é o tema fulcral, mas talvez uma generosa ostentação da solidão. Uma suposta fragilidade.

“Ser verdadeiramente maternizado era para ele uma nova experiência (…) ele era sensível de mais para a classificar (…) resignou-se a olhá-la como alguém que possuía um indecifrável orgulho e uma incorrigível perfeição. (…) Ela é um tema.”

Inebriados seguimos com estas personagens-tema até ao declínio de uma e a ascensão corpulenta de outra, esquecendo o filho ou o narrador, mas não um outro tema, o do quanto somos colonizados pelo outro e ansiamos devolver o resultado dessa colonização