Mostrar mensagens com a etiqueta A serpente do Essex. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta A serpente do Essex. Mostrar todas as mensagens

segunda-feira, 27 de março de 2017

«A Serpente do Essex» de Sarah Perry :: Opinião


A livraria Waterstones elegeu «A Serpente do Essex» de Sarah Perry como o livro do ano 2016., distinção essa que já anteriormente nos tinha brindado com o fabuloso «Stoner». Se com Willians nos apaixonamos pelo apático mas resiliente professor, aqui apaixonamo-nos por Cora Seaborne e os seus amigos, desde o cirurgião Luke Garrett, à sua apaixonada Martha ou ao desafiante pároco de Aldwinter, Will Ransome. Neste livro de Sarah Perry não são só as personagens que marcam o leitor, também os temas são historicamente marcantes e interessantes. Em boa hora a Minotauro renasceu e começou, precisamente, a sua colecção de ficção com este título. 

A escrita de Perry destaca-se por se embrenhar num ambiente escurecido e misterioso ou não fôssemos nós, atrás de Cora, em busca do tal ser mítico e tenebroso que habita as águas do Blackwater. 

"Era uma sensação esgotante, como se um órgão vital tivesse sido partilhado com o homem que morrera e estivesse a atrofiar-se por falta de uso. 
(...)
Ele era tão sombrio que quando as tentativas dela de aliviar o ambiente o faziam sorrir ela se sentia como uma imperatriz á cabeça de um exército (...)"

Esta é talvez a primeira grande descrição para nos deixarmos levar pela personalidade férrea de Cora, que após a morte do marido ganha uma nova perspectiva da vida, uma liberdade que ela julga ser-lhe essencial para uma segunda vida, uma vida efectiva. Em busca dessa segunda vida surge a vontade de encontra a serpente que aterroriza os habitantes de Aldwinter e nessas incursões conhece e trava uma amizade peculiar com Will. É desde o primeiro instante que se cruzam que a força que ambos possuem os coloca em quizília. A mulher informada e curiosa, solta de amarras religiosas choca com o lado temerário, mas igualmente bem alimentado intelecto do reverendo. 

"Estou convencido que é possível dar carne e osso aos nossos terrores, em especial quando voltamos as costas a Deus - consciente do olhar de Cora, divertido mas não condescendente, escondeu-se por trás do vapor da sua chávena de café. 
- E pensa que ele está louco, que não há nenhum fundo de verdade no que diz?
A compaixão de Cora pelo velho não conseguiu acalmar nem um bocadinho a sua curiosidade. No fundo estava perante uma espécie de prova!"

É a serpente que até certo ponto faz mover cada peça deste enredo, no entanto, a dupla de cirurgiões, Luke e George fazem avanços médicos que dão outra camada ao livro, tal como as preocupações sociais, relacionadas com as habitações dos mais pobres, para as quais Martha pretende angariar interessados e investidores a fim de melhorar as condições dos imigrantes, dos pobres e dos trabalhadores que habitam os bairros operários e degradados de Londres. Estes detalhes históricos dão outro ambiente ao livro e mantêm o leitor empolgado. 

Outra dimensão do livro é a epistolar. A troca de cartas, uma constante da época, dá outro lado, mais pessoal e único, de cada personagem, especialmente de Cora, Will e Luke, permitindo ao leitor ganhar outra proximidade com cada história. Existem cartas de amizade, de amor, de partilha de conhecimentos ou até de inocência como é o caso das de Francis, o filho de Cora, uma criança também ela com traços especiais. As inquietudes, as crenças, as doenças, os costumes, as discrepâncias citadinas para campo, tudo isso completa este livro e dá-lhe a aura histórica do final do século XIX, combinando passagens muito bem descritas com uma acção mais pausada e que decorre ao longo de um ano. 

"Mais tarde Will recordaria um momento imóvel, como na chapa de um fotógrafo: a mulher a cair, Banks a mover-se na direcção dela, e ele próprio, inútil, na boca a imundície adocicada que lhe chegava da maré que subia no estuário. Depois a imagem fragmentou-se e, de repente, de uma forma que nunca seria capaz de explicar, estavam todos nas salinas, junto aos ossos negros do Leviatã, a olhar com terror e piedade para aquilo que o mar trouxera."

Em suma, é um livro com contornos mitológicos, com aspiração a romance histórico, com traços de suspense e muito amor para distribuir, contudo muito desse amor se perde, daí que uma das frases que maior sentido faz, é: "Se o amor fosse um arqueiro, alguém lhe tinha arrancado os olhos e deixara-o à solta a atirar às cegas, sem nunca acertar no alvo.", pois é disso que este livro se alimenta. 

terça-feira, 14 de março de 2017

Novidade Editora Minotauro :: "A Serpente do Essex"


Londres, 1893. Quando o marido de Cora Seaborne morre, a viúva inicia uma nova vida marcada ao mesmo tempo por alívio e tristeza.
Não teve um casamento feliz e ela própria nunca se adequou ao papel de mulher da sociedade. Acompanhada pelo filho, Francis - um rapaz curioso e obsessivo -, troca a cidade pelo campo de Essex, onde espera que o ar fresco e os grandes espaços lhe proporcionem o refúgio de que necessita.

Quando se instalam em Colchester, chegam-lhe aos ouvidos rumores de que a Serpente do Essex, conhecida por em tempos ter percorrido os pântanos na sua avidez de colher vidas humanas, regressou à aldeia de Aldwinter. Cora, naturalista amadora sem interesse por superstições ou questões religiosas, fica empolgada com a ideia de que aquilo que as pessoas da região tomam por uma criatura sobrenatural possa, na realidade, ser uma espécie ainda por descobrir. 

Quando decide iniciar a sua investigação é apresentada ao reverendo de Aldwinter, William Ransome. Tal como Cora, Will sente uma desconfiança profunda em relação aos boatos, que considera um fenómeno de terror de caráter moral e um desvio da verdadeira fé. Enquanto Will procura tranquilizar os paroquianos, inicia-se entre ele e Cora uma relação intensa; apesar de os dois não concordarem a respeito de nada, são atraídos e afastados um do outro inexoravelmente, a ponto de isso modificar a vida de ambos de formas inesperadas.

Escrito com uma delicadeza e uma inteligência cheias de requinte, este romance é sobretudo uma celebração do amor e das muitas formas que ele pode assumir.

Uma novidade