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sexta-feira, 13 de abril de 2018

«Bibliotecas Cheias de Fantasmas» de Jacques Bonnet - Opinião



Este pequeno livro está cheio de ideias, preocupações e ambições bibliófagas e tem tudo menos o condor de ser pequeno. As suas páginas abrem portas para histórias infinitas e um rol de autores e livros que nos dão vontade de habitar uma casa cheia de estantes ou mudarmo-nos para a biblioteca mais próxima.
E logo quando ao início lemos: «Depois do prazer de possuir livros, não há outro que seja mais doce do que falar deles.» Quando Bonnet cita Charles Nodier, sabemos que estamos certos quando insistimos em pertencer a uma confraria (quase) secreta de bibliófagos, que para parecermos menos estranhos, lhe chamamos clube de leitores ;) 

A leitura deste livro é compulsiva, obsessiva e freneticamente anotada. A cada página que se vira, damos risinhos soltos e tontos quando percebemos que temos companhia neste acto solitário de ler e de se preocupar com os livros.

"(...) o tédio da infância só podia ser combatido se enveredássemos pelo desporto ou pela leitura. Esta última tinha qualquer coisa de rio edénico (...)
bastava abrir um livro para deambular pela Paris do século XVII correndo o risco de levar na cabeça com o conteúdo de um penico (...) A dada altura, apercebo-me de que os livros não eram apenas um meio de evasão salutar, mas que eles continham igualmente os instrumentos que permitiam decifrar a realidade circundante."

As considerações são muitas e as sugestões também, mas a que mais se repete é a paixão e constante recomendação de «A casa de papel» de Carlos María Domínguez, um livro igualmente pequeno, aliás, mínimo, magríssimo, mas de um poder esmagador. 

"O leitor furioso não é apenas inquieto, é também curioso." Nabokov

É essa curiosidade sem limites que permite ao leitor ter traços de coleccionador acumulador e  de leitor inveterado, sempre cheio de desejos de fuga; um leitor que desmultiplica a realidade limitada, pois ler é desejar essa fuga à realidade, mas encontrar, linha atrás de linha, explicações para ela.

O leitor frenético, compulsivo e curioso, conquista o livro, empenhado, de lápis na mão, conquista, sublinha, anota, desbrava, corrige, rabisca e usa o livro objecto, vincando melhor, na sua cabeça, as emoções vividas. 

"Quando não foi lido, um livro é na pior das hipóteses um conjunto de letras. Na melhor das hipóteses, é uma vaga - e muitas vezes falsa - imagem nascida do que sobre ele ouvimos dizer."

Os livros adquiridos vão compondo uma biografia do seu leitor bibliómano. A soma de todos constrói uma vida, onde a biblioteca é um refúgio contra o envelhecimento, a doença e a morte. Os livros mobilam a solidão.

sexta-feira, 16 de maio de 2014

"A casa de papel" um livro de culto! - Opinião

Um clássico para bibliófilos.
Um relato impregnado de paixão pelos livros... pelas palavras do Público.
Pequenos prazeres, é a "categoria" que a ASA lhe atribuí.
Um dos livros da vida de Ondjaki. - (link para vídeo - Ler mais ler melhor)... que foi por onde eu o descobri.
Para mim é um livro obrigatório!

Ao lê-lo deu-me uma vontade enorme de repetir "Como um romance", de Daniel Penac. Ambos dão uma série de deliciosos «mandamentos».
Ao lê-los sentimo-nos compreendidos, encontramos justificações para atitudes típicas de leitor, desde o dobrar o canto de uma página, a sublinhar frases ou ao simples acto de escrever o nosso nome na primeira página...

"Amiúde é mais difícil desfazermo-nos de um livro do que obtê-lo."

"A casa de papel" é um convite para viajar na literatura e aumentar a sua biblioteca, ou não fosse este livro um verdadeiro roteiro de grandes livros e grandes autores.
"(...) o tamanho das bibliotecas conta. Ficam expostas como um grande cérebro aberto (...)" " (...) uma biblioteca é uma porta no tempo."

A ideia de o leitor como um coleccionador minucioso munido de um cuidado estratégico de ladrão, que com a sua intrigada curiosidade constrói a sua própria casa de papel, é simplesmente divinal.

Divinal é também a caricata arrumação dos livros e a sua catalogação, uma descrição simplesmente brilhante, são duas a três páginas (pág. 40 em diante) de puro divertimento... por certo haverão leitores que irão rir ainda mais por encontrarem semelhanças consigo mesmos.

Este livro de culto de Carlos María Domínguez é um hino ao amor pelos livros, mas também à tragédia associada a eles. O vício dos livros levado ao extremo, numa dedicação sombria. Pois para além da curiosa morte de Bluma, temos o bibliófilo Carlos Brauer, um "animal de cidade até à medula" que vê a sua vida emparedada de livros e uma solidão atroz.

É ao relatar Brauer como "alguém pouco habitado" que surge a personificação do medo, um lugar sem sombra. A solisão é um lugar sem sombra.

Mais não posso revelar, só deixar-vos o link para a sinopse e mais informações.

(...)

"O arrependimento é um intervalo entre dois pecados" de Paul Eldridge é uma frase, mais que adequada para rematar este romance!

Boas leituras.