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quarta-feira, 24 de abril de 2013

«BATALHA» de David Soares, Opinião

Apesar de conhecer a obra de David Soares ainda não havia pegado em nenhum livro dele, mas a recomendação de João Gonçalves da Saída de Emergência alertou-me para este romance efabulatório, pungente e metafísico de David Soares.




«BATALHA»

«Foi num dia nem muito curto nem muito comprido que Brancaflor e Calcaterra descobriram uma coisa estranha num sítio familiar.»

*

"Nesse caso, os animais seriam uma espécie de homens e os homens uma espécie de animais, proposições que são incompatíveis com os ensinamentos da religião." Père Bougeant



Se pensarmos que «Batalha» é uma fábula inofensiva, com personagens e passagens que chegam a ser ternas e apaixonantes, seremos tentados a lê-la até às crianças. Mas se pensarmos que «Batalha» é uma ratazana, movida por um coração cego e as dúvidas do homem, juntamente com o uso recorrente a vocábulos que remontam aos ecos de uma língua quase esquecida, enriquecedora, mas desconhecida, abusando ainda de inúmeras aliterações, então atingimos as profundezas e rastejamos para uma história tenebrosa e de cunho (quase) gótico.



«Tranquilos, como inflorescências imperturbáveis do corpo nocturno, pares de borboletas bailavam naquele palco semimorto, vestidas com mais nada a não ser luar e pó estelar.
Pintados de púrpura, amarelo e azul, os insectos iridisciam o lado contrário do espectro, como um arco-íris virado do avesso.»


Ainda assim, a profundidade e a universalidade das questões colocadas por seres como a ratazana ateia ou a porca piedosa continuam a encaminhar-nos para a teatralidade de uma fábula infantil, recheada de moral, que alegoricamente ensina e educa. A religião, o sentido da vida, a dignidade e a condição humana... temas eternamente questionáveis, mas aqui debatidos com a frescura de uma narrativa genuína e muito cuidada.

David Soares escreve não para ser lido em surdina e no sossego pensativo de cada leitor. A sua escrita é uma dádiva para a oralidade, são palavras, melodicamente emparelhadas numa narrativa que embala e que pede para ser declamada.

O autor descreve com mestria, a maior batalha que o ser humano trava dentro de si, a luta pelo bem e pelo mal, pela crença no divino e a certeza de contar com o terreno e o que lhe é semelhante, depositando nos outros esperança e sentido para a vida.

O traço lhano e efabulatório povoa o palco da nossa imaginação, chamando-nos à realidade, apenas com o travamento de episódios linguísticos quase hostis, que nos obrigam a dobrar a língua e a silvar por sinónimos e sentido, combatendo assim o atavismo de não questionarmos as grandes questões da vida!


«Se dependesse desses homens, não existiriam flores no mundo, pensou Batalha. Apenas ervas-daninhas.»



As ilustrações ficaram a cargo de Daniel da Silva 

Excerto 


«Tal como a rancidez se regozija com o ar desprotegido, também a nudez vulnerável é o estado espontâneo da cópula. Nus, todos os bichos são lesáveis e a vulva é uma mitene que só cobre o pénis, deixando o resto do corpo ao capricho do contágio — neurotomias naturais que a todos deixam indefesos. A reprodução é regular, sem sobressaltos, como uma colónia de fungos rompendo a casca grossa dos carvalhos; e, em jeito de alcalóide amanitário, o amor escorre pelos troncos cerebrais abaixo, como vinho entornado: o símbolo universal da alegria, da sorte. O sal desperdiçado, símbolo universal da tristeza, do azar, somos nós todos, nos começos das nossas vidas: brutos, informes, impuros, sem o conhecimento das relações sensuais e da morte. Precisamos, por isso, de ser ungidos, purificados e diluídos com vinho — com sexo e deterioração — de modo a crescer, a amadurecer, a salinar. Só então podemos ambicionar a ser completos, adultos, mas Batalha, repudiando a oferta de Caldaça, estaria sempre perdido, como um infante anquilosado ao crisol, ao colo do útero. Conjuctio do macho e da fêmea — estado principal da Grande Obra, na qual toda a gente participa ou assiste — que gera a Luz: fetos incandescentes, sangrantes e vermelhos como o Sol, que choram e, com esse plangente anúncio, dão início à contagem do tempo — dos seus tempos, porque não existem outros.
O tempo é apanágio da matéria viva — os mortos não precisam dele.
Os mortos não precisam de nada.
E, por mais que fingisse estar morto, no interior do profundo buraco acabado de escavar, com a intenção de ser a sua sepultura, Batalha podia sentir a vida que ainda lhe pulsava no pénis turgescente, nas veias urziformes e na língua ressequida.
Do que é que precisava?»

*

"Para se levar a escrita a sério é preciso ter espírito de missão." 
Vejam a entrevista sobre o romance Batalha, feita com perguntas enviadas por email pelos leitores.
Retirado directamente do blogue do autor 

Uma edição Saída de Emergência


quarta-feira, 17 de abril de 2013

Nova Leitura ... «Batalha» David Soares

A BATALHA parece-me um livro para ler, sentir, cheirar e reler!


E aqui está (quase) tudo dito:


Clique para saber e ler mais sobre o autor e a sua obra:



Uma leitura com o apoio e recomendação da:








domingo, 2 de dezembro de 2012

Lisboa Triunfante


O Triunfo da literatura Portuguesa!


Aqui esta um livro que me surpreendeu em muito pela positiva...
usando as palavras do autor “Lisboa Triunfante é um triunfo da imaginação”...
Uma história muito bem contada... que nos descreve várias épocas da nossa amada Lisboa...
Um conto que roça o sobrenatural, o terror, o romance a fantasia... sem se esquecer de relatar factos históricos...
Todas estas qualidades muito bem misturadas num chorrilho de palavras...
que muitas vezes têm de ser lidas duas, três ou quatro vezes... isto se queremos, realmente, compreender o que o autor diz.
!?!?!
Eu diria que para a leitura das obras de David Soares, com o seu perfil erudito e as suas palavras arcaicas...
 ... ;)
"sim aconselho o uso do dicionário de Português mais arcaico"...

Foi um livro que me conseguiu levar a épocas passadas,
que me conseguiu fazer visualizar alguns acontecimentos mais fortes...
Fez-me imaginar como seria brutal haver filme baseado em Lisboa Triunfante

simplesmente amei... e recomendo muito!


David Soares já conta com mais de sete livros editados e parece-me que todos eles verdadeiros trunfos!?
Quem leu outras obras do autor?