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quarta-feira, 26 de janeiro de 2022

«Somos o Esquecimento que Seremos» de Hector Abad Faciolince :: Opinião


"É um dos paradoxos mais tristes da minha vida: quase tudo o que escrevi foi escrito para alguém que não me pode ler, e mesmo este livro não é mais do que uma carta a uma sombra."

Hector Abad não é uma sombra é antes a sombra que Hector Abad (o filho, o escritor) queria ter sempre consigo, mas quis a vida de um país e as lutas ideológicas sem fim, retirar-lhe essa sombra quando ainda lhe fazia tanta falta o amor exagerado de pai, mesmo que o narrador e protagonista fosse já um homem adulto. Uma falta que levou vinte anos a ser macerada e digerida em forma de declaração de amor, de testemunho e de documento que revela um país, uma luta, um homem e um crime que passou impune. 

"Somos o esquecimento que seremos" é primeira estrofe de um poema de Borges e um axioma que Hector Abad, pai e Hector Abad, filho, sabiam precisar de combater pelo acto da luta e da escrita. Isso e denunciar todo um outro tipo de sombras que durante décadas assombraram uma Colômbia que não quis saber dos seus melhores cérebros.
Ainda assim, quero crer que o leitor (não colombiano) retirará mais do lado afectivo e emocional que é ver a dedicação e o amor entre pai e filho, assim exposto como a mais bela poesia se oferece aos amores eternos e espelha uma inocência, tão própria, dos amores incondicionais. 

"Eu participava nessas procissões, mas, à tarde, o meu pai contrabalançava com a enciclopédia e com as suas palavras e leituras as minhas práticas diurnas. Como numa luta surda por se apoderar da minha alma, eu passava das tenebrosas cavernas teológicas matutinas para os reflectores iluministas vespertinos. Nessa idade em que se formam as crenças mais sólidas, as que provavelmente nos acompanharão até ao túmulo, eu vivia açoitado por um vendaval contraditório, embora o meu verdadeiro herói, secreto e vencedor, fosse esse nocturno cavaleiro solitário que, com paciência de professor e amor de pai, me esclarecia tudo com a luz da sua inteligência, ao amparo da escuridão."

Se a mão e a voz do pai eram formas de amparo contra a escuridão e a dúvida, as mãos da mãe e a sua determinação sagaz eram a garantia de segurança e retidão familiar, embora mais pelo lado de cuidadora empenhado do que só boa cristã.

"A minha mãe, pelo contrário, era e continua a ser mística, embora sempre repita que tem falta e gostaria de ter «muitíssima mais fé». (...) A sua religiosidade, no entanto, tinha uma componente animista muito forte, quase pagã, pois os santos em que ela mais acreditava não eram os do santoral, mas as almas das pessoas mortas da sua própria família, que ela santificava assim que morriam (...) e se algum de nós adoecia, ela encomendava o assunto à alma do tio Joaquím (...), a da minha irmã (...) e, finalmente, á do meu pai, desde que o mataram. Mas, ao mesmo tempo, embora sempre estivesse atenta a estas imateriais presenças (...) era - e continua a ser - a pessoas mais realista que já conheci e com os pés bem assentes na terra (...) e muito mais capaz que o meu pai de resolver os problemas práticos, tanto os nossos como os dos outros, se tivesse tempo para isso."

Percebe-se desde cedo que a fé do homem e do escritor que aqui encontramos nestas páginas, está voltada para dentro de casa, para a família que sempre o acolheu e amou e para os livros, esse refúgio que encontra em cada palavra e pela qual sabe demonstrar a sua crença no amor, mas também a tristeza, a solidão e a dor. Palavras tão comuns à história da sua família e do seu país. 

"A cronologia da infância não está feita de linhas esbeltas, mas de sobressaltos. A memória é um espelho opaco que se fez em cacos ou, melhor dizendo, é feita de intemporais conchas de recordações dispersas numa praia de olvidos. (...) recordá-las é tão desesperante como tentar recordar um sonho, um sonho que nos deixou uma sensação, mas nenhuma imagem, uma história sem história, vazia, da qual apenas resta um vago estado de ânimo. As imagens perderam-se. (...) no entanto, de repente, ao revermos o passado, qualquer coisa volta a iluminar-se na obscura região do esquecimento. Trata-se, quase sempre, de um misto de vergonha e alegria, e quase sempre aparece a cara do meu pai colada à minha como a sombra que arrastamos ou que nos arrasta."

Cronologia da memória e registo detalhado de uma vida que terminou abrupta, Faciolince traça uma ode ao pai em palavras que são pranto sem lágrimas, uma dor interior que não parece comovida, mas paralisada, uma quieta inquietação. E nessa inquietação que também é uma forma de amor, comove e desassossega quem o lê.

*

Aqui. Hoje. Já somos o esquecimento que seremos…                    Jorge Luis Borges    

                    Aqui. Hoje.
                    Já somos o esquecimento que seremos.
                   
                    A poeira elementar que nos ignora
                    e que foi o rubro Adão, e que é agora
                    todos os homens e que não veremos.

                    Já somos na tumba as duas datas
                    do princípio e do termo, o esquife,
                    a obscena corrupção e a mortalha,
                    os ritos da morte e as elegias.

                    Não sou o insensato que se aferra
                    ao mágico som do meu nome:
                    penso com esperança naquele homem
                    que não saberá quem fui sobre a Terra.

                    Sob o indiferente azul do céu
                    esta meditação é um consolo.


sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016

«Oculta» de Héctor Abad Faciolince :: Opinião


Sou fã de livros como este, que me abraçam, me transportam, me fazem esquecer do tempo que passa e nos quais se sente que nada é forçado, nada é a mais, desnecessário ou mal calculado. Enquanto leio, sorrio, sinto uma falta imediata do que li e deixei para trás, marco frases e pequenos episódios dentro de momentos maiores... Não me apetece em fase alguma parar de lê-lo, mas depois sinto vontade de poupar aquelas histórias e fazê-las durar, para absorver mais lentamente todo o lado íntimo, sensível, familiar, oculto, desta narrativa de Faciolince.

Desde que li «Os dias de Davanzati» que sabia ter ficado fã deste autor colombiano. A sua escrita, sem uma estrutura muito habitual ou um enredo que caminhe para um desfecho, cria no leitor uma dependência pelas personagens e pelo envolvimento que cria. Somos levados para dentro das vidas daquelas pessoas quase com um instinto de expiar, de nos intrometermos e sabermos os seus segredos. Foi assim com Davanzati e é assim com a família Ángel. Desde o primeiro capítulo, onde conhecemos António pressentimos o desassossego que vai ser característico nesta família rodeados de emoções fortes que os ligam uns aos outros e à quinta, La Oculta, um pedaço de terra que chega a assumir proporções místicas, que ora os empurra e os afasta ora os arrasta até lá, perdidos de saudades e carregados de nostalgia.

Nas palavras de poéticas de Eva:
"Bastava eu chegar a La Oculta para sentir uma coisa especial, uma espécie de euforia interior misturada com serenidade, uma alegria tranquila, uma ligação com as montanhas, os barulhos, as infinitas cores das flores e da fruta, a brisa vinda do rio, a água escura do lago (...) o som das folhas de teca a cair no caminho de terra, o bafo da tarde e a frescura plena de orvalho da manhã.

Nas divagações de António:
"La Oculta faz sonhar (...)
(...) às vezes apodreço de frio e de nostalgia por não estar lá, em La Oculta. O Jon ensinou-me o significado da palavra nostalgia. Nostos, em grego, disse-me ele, quer dizer «regresso», e algia, «dor», e tal como mialgia é a dor dos músculos, a nostalgia é a dor do regresso.

E finalmente na crueza e na frontalidade de Pilar:
"Nostalgias parvas de um passado mais difícil e que as pessoas, por não terem noção de quão duro foi, idealizam."

É pela beleza mas também por algum tormento que conhecemos Eva, por alguma aspereza e ruralidade que conhecemos, mas menos tradicional do que se julga, Pilar e pelo carinho e pela memória com que narra a história dos seus anteriores que desde o início apreciamos o relato de António. Estes são os irmãos, filhos de Dona Ana e Jacobo Ángel, Anita e Cobo, como os filhos os tratavam. Por isso, esta não é só a história e a tradição que La Oculta encerra, nem podia, já que a terra é a família e todos eles lutam, à sua maneira, pela quinta que fez os Ángeles quem eles são.
Há algo de muito tradicionalista, algo muito colombiano em se ter um pedaço de terra!

"Nós já não éramos camponeses, como o avô, mas conversávamos o último quinhão das suas terras para honrarmos a sua memória, quem sabe, mas talvez para termos o prazer de ver os amanheceres de lá, de sentirmos o que se sente - é uma coisa profunda e antiga - quando se está num sítio que sabemos que é nosso e do qual ninguém nos pode tirar."

Há algo também profundo e de muita união entre os irmãos, nem que sejam as memórias e os segredos que nos revelam e que nos fazem dar corpo e alma a cada um deles, tornam-se pessoas completas, complexas, atormentadas, sofridas, mas também que partilham, que amam e que querem seguir as suas vidas, apesar de todas as contradições e dificuldades.

"A família é a mesma, mas é como diz o tango: uns nascem com boa estrela, outros nascem estrelados."


Um livro QUETZAL

sábado, 31 de janeiro de 2015

Os dias de Davanzati - Opinião



Com o título original "Basura" ou lixo, este romance meio puzzle, meio manta de retalhos, faz do livro de Faciolince uma colecção de rascunhos que bem poderia dar origem a um outro título, como encontramos no próprio livro, quando a certa parte há a referência a "O anotador de incoerências", o que a mim que pareceu brilhante.

Davanzati, vizinho e anteriormente escritor, confunde-se muitas vezes com o narrador, por vezes jornalista, mas maioritariamente solitário e pesquisador na vida alheia... não sei se me faço entender.
Basicamente o narrador, combatendo a sua própria solidão, ocupa os seus tempos com o tempo morto de um vizinho.
Mas, teremos algum de nós, um vizinho tão peculiar e interessante que nos leve a intrometer na sua vida e mais ainda no seu lixo!? E se descobríssemos que outrora foi um alguém de renome?!?

«eu sei perfeitamente que, quando um escritor se desprende de algum papel, não o faz para alguém o resgatar ou ler a seguir, pelo contrário, fá-lo para que ninguém, jamais, o leia»

Este livro é uma matrioska, de palavras, de textos, de sensações e de vidas, todas dentro da mesma. É um livro com pedaços de outros livros, rascunhos, esboços, tentativas de romances, contos... enredos inacabados... outros porém, mais valia não terem sido terminados, tal é a divagação e falta de nexo.

A estrutura é realmente viciante, bem como a própria intromissão e quase espionagem nos hábitos de vida alheia. Somos presos a essa expiação e esperamos ansiosamente para saber mais da vida do outro. A mim conquistou-me por completo com as primeiras passagens, os primeiros "roubos" do lixo alheio e a dúvida que tal levanta.

"De quem é o lixo? Tem dono, o lixo? Deitar uma coisa fora é o mesmo que oferecê-la? Fazia a mim próprio estas perguntas numa tentativa de me justificar."

O livro levanta muitas outras questões intemporais e existenciais e tem passagens brilhantes.

"(...) não emito nenhum pedido de auxílio, não pretendo que ninguém me socorra, não tenho fome de olhos que me salvem e me leiam, sou, simplesmente, um náufrago, e relato a mim mesmo que morro de sede enquanto morro de sede."

Há um constante tom de derrota e de anúncio do fim de vida, mas ao mesmo tempo há todo um resgate que dá esperança. É como se o tom de coscuvilhice que o narrador lança, fosse, até certo ponto, uma esperança de salvação para Dazanvati, no entanto, o fim aproxima-se e vislumbramos mais, constatamos que a mera observação e intromissão não nos revelam dados suficientes para conhecermos e avaliarmos... julgarmos o outro e aí há todo mudar de rumo, que traz um novo olhar ao romance.

"Ter-lhe-ia dito, talvez, que a prosa reflexiva dele possuía, por vezes, uma cândida angústia que me agradava, e ter-lhe-ia pedido que desistisse de uma vez por todas de contar histórias, e já que era completamente incapaz de inventar enredos imaginários, que se dedicasse a pensar e a glosar a sua própria vida."

Julgo que a mensagem que o livro passa é superior à peculiar estrutura do enredo e do próprio livro organizado dentro de rascunhos de potenciais outros livros. Enfim, vidas dentro de vidas, que se enredam, que se assemelham... a vida como ela é. Até com os devaneios e loucuras que todos temos e por vezes tentamos esconder.

Confesso que as divagações iniciais foram o primeiro traço de beleza que me conquistou e me prendeu ao livro. Diria que no seu todo é excelente, mas não o acho, pois a meio, parece-me que o autor claudicou um pouco, exagerando a divagação do próprio Davazanti, ainda assim, entre as páginas 158 e 164 está um conto dentro de outro conto com um livro também lá metido que é delicioso.

Há uma frase, mesmo na recta final, que transcrita aqui, quebraria parte do feitiço do livro, mas que revela toda a essência do que Faciolince aqui traz para ao leitor.
Um livro a ler, sem dúvida.