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segunda-feira, 12 de outubro de 2015

«Nada de Lágrimas» de Lydie Salvayre - Opinião

"De qué temes, cobarde criatura? De qué lloras, corazón de mantequillas?
Cervantes

É entre Cervantes e Georges Bernanos que Lydie Salvayre, já amplamente reconhecida, ganha uma distinção ainda maior com o Prémio Goncourt de 2014 atribuído a este seu «Nada de Lágrimas», uma atribuição disputada juntamente com os mais recentes romances de Kamel Daoud e de David Foenkinos. Todos traduzidos em Portugal. 

No entanto, foi com lágrimas que a autora recebeu o prémio, talvez por este ser um romance pessoal e biográfico, onde a autora nos dá a conhecer a história de Montse, a sua mãe. O pano de fundo são essencialmente os anos de 1936 e 37, anos marcados pelo começo da Guerra Civil Espanhola e por eventos marcantes no lado mais pessoal da sua família, que como é óbvio a guerra afectou e mudou-lhes o curso. 

"A História, neste ponto, abunda em lições deploráveis. O que sei é que Schopenhauer declarou no seu tempo que o nacionalismo e a sífilis eram os dois males do seu século, e que se há muito tínhamos curado o primeiro, o segundo permanecia sem cura. "

A evocação da guerra tem um toque nostálgico ou não fosse o relato ter sido feito numa época em que a mente de Montse, a mãe de Lydie já se transforma e se perde no peso da idade e da doença. Talvez esse seja o detalhe que mais interessa em toda a toda a narrativa para compreendermos uma dinâmica quase que acelerada de toda a reposição de factos. Ao mesmo tempo é também meio confusa e desconexa, com necessidade de recorrer ao livros de História e meter os factos mais verídicos, menos romanceados e isso corta um pouco o decorrer da acção. É verdade que a guerra aconteceu e foi marcante, mas no que nós somos enredados é na vida de Montse, José e Diego e são essas vidas que pedem um romance.

"Estes pobres dom-quixotes, que partem para o combate calçados com pobres alpercatas (...), nada sabem dos usos da guerra, da sua demência cega, da sua repugnante, atroz selvajaria."

Talvez este seja um livro de despedida e uma homenagem à história da mulher que inspirou uma vida de história e narrativas compostas pela autora. Pelo menos foi isso que me ocorreu. Terá Lydie Salvayre outros romances sobre a guerra civil espanhola? Pelo que procurei, não tem, e talvez por isso este tenha sido tão reconhecido.

George Bernanos e o seu romance «Grandes Cemitérios sob a Lua» têm, supostamente, uma voz própria e distinta da de Montse, mas as vozes não são assim tão diferentes, aliás, arrisco a dizer que o romance funciona todo numa mesma linha, numa mesma voz, a da narradora que relata episódios, conforme lhe são narrados, mas à sua maneira muito própria, na sua linguagem intermitente, colocando umas expressões em castelhano, que pelo menos para mim, abrilhantaram e deram um toque hilariante ao texto. 

Sabendo que este é um livro de denuncia das atrocidades do nacionalismo espanhol, eu foquei-me essencialmente em duas personagens, José e Diego, que também eles cometem algumas, mas é a picardia entre os dois homens que só por si dava o mote para um romance de época, com todo o que a luta de classes e a rivalidade entre famílias têm no seu melhor para dar à literatura. A religiosidade e o combate às injustiças da mesma eram igualmente importantes para compor o ramalhete.

Salvayre cria assim um relato de partilha de vidas que se cruzaram com a guerra e a quem a guerra feriu e prejudicou.

"Como se partilhar, já estão a ver, pudesse de alguma maneira diminuir a miséria dos homens." 

*
Uma leitura com o apoio Bertrand.

quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

«O Filho» de Michel Rostain - Opinião



"Um filho que perde um pai chama-se órfão. Como se chama um pai que perde um filho?"

Um livro que começa logo pela capa. Um enredo negro e lúgubre o suficiente que pode desencorajar pessoas que se julguem mais sensíveis ou impressionáveis, mas que ninguém deixe de ler este relato sofrido, negro, mas também com um lado sarcástico e de humor, que mesmo negro, nos arranca alguns sorrisos. Não esperem contudo rir à gargalhada, fala-se de morte e da morte de um filho, algo fulminante. Mas fala-se de superação, de perdão, de confissão... de um pai purgar a sua dor através de um relato quase musical. Entre o lirismo de algumas peças, o tom dorido dos dias que passam sem sentido para um pai e a voz sarcástica e jovial de Lion... assim se narra «O Filho», o romance de estreia de Michel Rostain, a purga que lhe valeu a superação do luto, a imortalização da memória e do nome de Lion, mas valeu-lhe também um Prémio Goncourt em 2011.

Michel Rostain, para além de autor deste peculiar romance é também encenador de óperas, por sinal, algumas delas sobre a morte, em particular uma delas até a encenou e dirigiu perto da data de morte do filho. O percurso musical e a forma de sentir do autor estão intimamente ligadas à música, a própria forma de Michel sentir um outro cortejo fúnebre, pouco antes daquele que viria a "organizar" para o seu filho Lion, é caracterizado e descrito através das músicas. Mas não é só ai que a música entra, ela está em inúmeras páginas. Desde Bach a Ravel, Radiohead ou Portishead, Schubert ou até Audrey Tautou... o percurso musical é um caminho que é inevitável. Tão inevitável que lhe fiz uma banda sonora. O poder da música, confere ora ritmo ora pausas a este relato tão caricato. Carismático também, mas caricato e peculiar serão as palavras de ordem.

"Um pai herdeiro do filho, encadeamento incompreensível de palavras. Desordens do tempo." (pág. 23)

É nessa desordem do tempo que um pai se habitua a viver sem um filho, sem nunca esquecer que tem a necessidade de lutar para se lembrar disso... de que é capaz de viver depois da morte.
No caos e no sofrimento, por onde continua a vida? Acariciando fotos num computador? Relendo cadernos e outros testemunhos parcos em ensinamentos... que um pai procura para conhecer melhor o filho perdido!?

"A morte é uma máquina de arrependimentos?" (pág. 51)

Como se desimpede o caminho da dor? Que arrependimentos ficam... os das coisas que fizemos ou daquelas que nem sequer fizemos?

Confusão, medo, negação... lágrimas, luto! O peso do ontem.
Luta, purga, superação... lágrimas, luto! A força do amanhã!

"A caderneta de família não está em dia!" (pág.107)
E depois da morte de um filho, algum dia volta a estar em dia, essa tal caderneta de família?

E não podia acabar sem música, «Hold On» Tom Waits.




Uma leitura com o apoio da Sextante Editora, uma belíssima estreia para esta nossa nova parceria.
Leia mais sobre o livro aqui. Ou leia as primeiras páginas aqui.

Boas Leituras.

sábado, 23 de novembro de 2013

PRÉMIO GONCOURT 1º ROMANCE 2011 - "O Filho", de Michel Rostain

Ultimamente parece que o tema é recorrente, foi o último de Valter Hugo Mãe e também de Afonso Cruz e agora este romance de estreia - "O Filho", de Michel Rostain.

Deixo aqui na voz de Carlos Vaz Marques, o destaque desta edição da SEXTANTE, no «O Livro do Dia» na TSF.
Clique na imagem para ouvir:


Clique na imagem para ler mais sobre o livro