Mostrar mensagens com a etiqueta Sam Savage. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Sam Savage. Mostrar todas as mensagens

sexta-feira, 27 de junho de 2014

"Firmin" de Sam Savage - Opinião

                                                     "Firmin" é o verdadeiro rato de biblioteca!
Nascido na Pembroke Books, uma livraria da Boston dos anos 60, Firmin começou cedo nos clássico, ou não tivesse ele nascido em cima de Joyce! Aprendeu a ler devorando, literalmente, páginas e páginas de inúmeros livros. Insaciável, as suas leituras e interesses conferem-lhe um humor e um perfil quase "humano" preso num corpo de ratazana... essa foi a sua tragédia!

"Tornei-me um cidadão bem informado e, quando o jornal mencionava o «o público em geral», sentia uma pontinha de orgulho." (pp.82)

Era assim mesmo que se sentia Firmin. Depois de muitas e muitas páginas devoradas, mesmo que de clássicos amarelados e já quase caídos em desuso, Firmin considerava um ser interessante (à parte do aspecto físico) e cheio de interesses. Era um ser culto, conhecedor de inúmeros autores e seus respectivos períodos literários, era um conhecer de cinema clássico e profundo apaixonado por Fred Astaire e a sua bela Ginger Rogers. Firmin era um frequentador assíduo ;) da livraria e do cine teatro da Scollay Square da velha Boston. 

Firmin não seria propriamente um BIBLIOBÚLICO, pois ele não esqueceu o mundo à sua volta, aliás passou a interpretá-lo melhor. Este rato de biblioteca, ou neste caso de livraria é mais um caso de BIBLIOBULIMIA. Ele era incapaz de parar. A ingestão literária era tão elevada que Firmin não se esqueceu do mundo, esqueceu-se sim do seu lugar típico no mundo. E é isso que é fantástico neste enredo. A autenticidade da paixão pelos livros. A forma enternecedora como é relata essa paixão. O amor inocente e platónico que desenvolve pelas personagens, pelos escritores, pelo livreiro... É a amizade, mas é também a solidão, é a imaginação fértil que o anima, mas a dura realidade que o abate, que o põe em risco.
Ao fim ao cabo, a literatura é capaz de ser um assunto violente e de colocar o leitor em risco de vida... em especial se for uma ratazana ;)

"Quando se tem fome, come-se o que há. O simples acto de mastigar e engolir seja o que for pode não alimentar o corpo, mas alimenta os sonhos. E os sonhos com comida são como os outros sonhos - pode-se viver deles até morrer." (pp.27)

É neste sonho que se alimenta e se firma na BIBLIÓFILO, dos seus observatórios suspensos, o Balão e a Varanda, Firmin apaixona-se por Norman e arrelia-se com algumas manias de outros leitores, como é o caso das dedicatórias, fazendo achar que os livros deveriam ser enterrados com os donos... A educação desta ratazana grotesca (descrição pelo próprio) evoluiu para além da Pembroke Books, estendendo-se às incursões no Rialto Theater, apaixonando-se por filmes antigos entre uma dentada num resto de uma pipoca ou de um rebuçado.

Porém, todo este equilíbrio educacional será posto em causa. "O futuro estava agora envolto numa neblina venenosa".

Sam Savage criou uma fábula muito rica e desenhada para brindar ao leitor apaixonado por livros. Um leitor que se reconheça em certas taras e manias de Firmin, irá apaixonar-se ainda mais por este livro.

Se por acaso e acredito que muito dificilmente não se apaixone por Firmin, apaixone-se e aprecie Sam Savage, em especial com o livro "O Grito da Preguiça", comentado aqui ou o mais recente "As Recordações de Edna", também lido e comentado aqui.


Uma leitura com o apoio PLANETA.

quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

«As Recordações de Edna» de Sam Savage - Opinião




"Quero falar acerca do silêncio: é o silêncio da ausência de rugido, um rugido que se ouve (...) um rugido cacofónico e mesclado da amálgama de pessoas..." (pág.31)

É neste rugido, já quase imperceptível, não que esteja a ficar surda, mas porque já o ignora, que Edna vê passar os seus dias. É no silêncio e na ausência que Edna para e sente, realmente, o passar do tempo e Clarence que já se foi.

Inclinada para a divagação, Edna tem em mãos a árdua tarefa de dissertar acerca de Clarence, aquele que foi seu marido e companheiro de uma vida, mas de quem recorda tiques, manias, taras e alegrias, entre as suas próprias memórias, confundindo entre o que é seu e o que era de Clarence. O que me deixa logo a mãos com uma questão: ao fim de tantos anos de vida em comum, que memórias são as nossas, a não ser as que são de ambos!?

É no "martelar das teclas" que Edna se sente tentada a deixar "trovejar" os pensamentos e a aplicar-lhes pouco filtro... já se sabe, que muitos anos de vida em comum, são mais do que suficientes para apontar todos os defeitos... mas será isso que os leitores de Clarence querem ler!? Mas se assim não for, conheceram verdadeiramente o homem por detrás do escritor?

"As solidões, reparei, não gozam de atracção mútua."
É nesta frase brilhante que Edna nos apresenta Potts, a vizinha que lhe fará uma brecha na solidão, não pela sua presença, mas por outra, um tanto peculiar e que aqui não vou desvendar. 

«As recordações de Edna» são quase como um resumo atabalhoado daquilo que pode ser a vida conjugal, depois de muito se ter ido embora e apenas restarem as atribuladas e magoadas visões do passado, que poderão alternar-se entre saudade, nostalgia, remorso, frustração... afinal tudo isto se acumula ao longo da vida, ou não?

"Quando li aquilo pensei, mas qual é a vida que tem capítulos?" (pág.38)


Que capítulos se estabelece na idade geriátrica? É nessa canseira, entorpecida pelo peso da idade que Edna se vê confrontada com ideias e mais ideias que surgem em catadupa, numa torrente imparável, uma fonte que não seca, onde as águas se sobrepõem em movimentos enérgicos. Ainda para mais, tudo isto em contraponto com a falta de energia física, que apenas dá para uma voltinha no jardim e escrever à máquina virada para um vidro, literalmente, marcado pelo passar do tempo.

E o barulho das coisas mortas que incomoda tanto o silêncio dos vivos!? Curioso, não é?
Pensamentos de quem pensa demais. Pensamentos de quem deseja o sossego, para não encarar o desassossego dos outros e dos seus dias cheios de vida.

"(...) empurrada para aqui e para ali pelos ventos da veleidade e da memória (...)" Edna volta a escrever, perdão, a dactilografar, entreolhando as folhas escritas que teimam em fugir debaixo do pisa papeis, que é nada mais nada menos que O Peso do Mundo de Peter Handke, numa metáfora, a meu ver, surreal, para a mão critica de Edna sobre Clarence.
Mas afinal, que peso e importância teve Clarence na vida de Edna?

"O que me leva a perguntar se o importante é o que acontece no passado, ou o que nos lembramos que aconteceu." (pág.98)

As divagações continuam e esperamos o resultado de tanta dactilografia de Edna. Mas, sucede-se o mesmo com as respostas que queríamos que Andrew Whittaker recebesse e nunca recebeu. É este estado de, sem resposta, que caracteriza os livros de Sam Savage. Esta tendência de abrir várias janelas e lançar muitas discussões, mas sem nunca bater com a porta ou dar o assunto encerrado.
Será isto uma analogia com a própria vida? Whittaker e Edna são ambos personagens solitários, terminaremos todos assim?

«Nem sequer é solidão, é pior do que solidão, é uma mente cheia de coisas» (p. 182)

E o que é esta mente cheia de coisas?
Talvez uma mente cheia de dúvidas!

«Há uma incongruência. Talvez os acontecimentos sejam demasiado grandes para as palavras. (...)Ou talvez seja ao contrário: as palavras é que são demasiado grandes; algumas palavras são demasiado grandes. A palavra «amor» é demasiado grande. (...)" (pág.163)

Que laço é esse o do amor? Uma ilusão? Um desgosto? Ou simplesmente o melhor que nos pode acontecer e que tanta falta nos faz quando o perdemos.
Na ilusão de que Clarence pode ter sido o tudo, como o nada, Edna vê-se presa às recordações e às dúvidas, à desconfiança do que teria sido, ou não, a sua vida ou até do que foi, deixando no ar a dúvida sobre se o destino cabe nas nossas mãos ou está às mãos do acaso.
A propósito de tal temática, Edna despertou-me a curiosidade para «Winesburg, Ohio», de Sherwood Anderson . E continuo também a querer ler Firmin, a primeira obra de Sam Savage.


«Uma mulher idosa dactilografa a sua vida numa sala cheia de luz suja»
«Isto não é literatura, é dactilografia" Capote ao livro de Keroauc.

Uma leitura com o apoio da Planeta. Obrigada!

segunda-feira, 7 de outubro de 2013

«O Grito da Preguiça» de Sam Savage - Opinião

A minha paixão por Sam Savage começou sem sequer ter lido nada do autor. Talvez o mais correcto seja dizer que me apaixonei pelo que Carlos Vaz Marques lia quando recomendava «As Recordações de Edna», que agora finalmente também veio parar-me às mãos, graças à nossa nova parceria, desta vez com a Planeta.


«O Grito da Preguiça» foi amor à primeira vista, já que a capa e a contra capa são bastante sugestivas e já deixam adivinhar o seu conteúdo, tornando-se desde cedo num prenúncio da sua qualidade.
Escrito através de cartas este é um grito muito para além da preguiça, diria até, que é um hino à rebeldia, num rasgo de criatividade enorme, apelando à doçura e ao lado jocoso do personagem e da própria escrita de Sam Savage.

Na parte da preguiça, se o pudermos comparar (ao Whittaker, claro), seria na lentidão dos seus passos, como se com isso medisse e escolhesse as palavras adequadas para que nenhuma carta fique corrompida pela devassidão dos dias apressados ou das vivências sociais.

É com extrema maleabilidade que, entre cartas, vamos conhecendo o que se passa na vida de Andrew Whittaker, ou será melhor dizer, que conhecemos o que se passa na sua cabeça!?
A forma como o personagem encara o mundo é o verdadeiro cerne de todo o livro, afinal o que é verdade para além da pobreza, das rendas em atraso, das dívidas, do divórcio, senão a sua própria interpretação da realidade!?
E que interpretação tão engenhosa, mas igualmente singela e quase infantil de explorar certas ideias. Melhor ainda é a forma, como dentro dessa quase inocência, vai dizendo e sugerindo uma crítica às revistas literárias, à literatura e aos escritores... mesmo que se vá denunciando, o que torna a leitura ainda mais hilariante.

É aliás, toda a componente de que nada pode ou deve ser levado tão a sério que torna o livro delirante. É uma solidão atroz que gera todas as situações ao redor de tantas e tantas cartas, abrindo assim o leque do impacto que pode ser a solidão de um escritor.
No entanto, os juízos de valor são feitos com brilhantes jogos de palavras e ideias, com conclusões inesperadas e (algumas) um tanto absurdas, mas vendo um lado muito mais pragmático da vida.

A participação do leitor é ávida, já que somos levados a imaginar as situações e a criar as nossas próprias ilações. É como se Sam Savage desse voz a quem o lê e o incluí-se na linha de vida do personagem, como que para dar ordem ao caos que se instalou, adivinhando as respostas dos destinatários, ou seja, deixa-nos como seus destinatários.
Se por vezes somos Jolie, noutras queremos ser Fern, raramente queremos ser os inquilinos, e se imaginamos escrever um livro, vemos o hilariante de muitos e muitos editores ao receberem milhares de manuscritos...
É inevitável pensarmos no que lhe iríamos remeter, nós queremos ser o destinatário de, pelo menos uma, das cartas de Andrew Whittaker e isso é tão ou mais hilariante do que todas as situações criadas pelo autor.

Se quem lê nunca está sozinho, quem escreve também não!



Nova Parceria :: Planeta

Com a chegada do Outono, celebramos uma nova parceria, desta vez com a Planeta. E qual a melhor maneira de aproveitar esta estação? A ler, pois claro!
 E de preferências as novidades fresquinhas para este Outono.


(Um Planeta de cores Outonais, fotografia de ElsaR)

Temos estado sempre de olho nas novidades da Planeta, cada metade nos temas e títulos que mais se adequam às suas preferências de leitura. Neste momento, esta metade mal pode esperar por "atacar" a leitura de "A Bibliotecária" e a outra metade opta pela novidade do mês de Outubro "Memórias de um amigo imaginário" (no entanto não esquece que "As recordações de Edna" ocupam um lugar especial na sua wishlist visto que ainda anda a maquinar a crítica de "O grito da preguiça", um dos livros com que abriu as leituras deste Verão (com artigo de opinião dentro em breve).

Sei que não somos os únicos curiosos com as novidades da Editora. São muitos os títulos que despertam a atenção dos mais variados leitores.
E sabem que com uma nova parceria, temos oportunidade de vos oferecer livrinhos. O que me dizem a um passatempo?

Boas leituras para todos!


terça-feira, 19 de março de 2013

As Recordações de Edna, SAM SAVAGE

As Recordações de Edna
SAM SAVAGE

Quando uma editora lhe solicitou que escrevesse um prefácio ao ro- mance do falecido marido, Edna decide escrever um livro autónomo «não apenas sobre Clarence mas também sobre a minha vida, porque ninguém pode aspirar a conhecer Clarence sem isso». Ao mesmo tempo, a vizinha pede-lhe que tome...
Quando uma editora lhe solicitou que escrevesse um prefácio ao ro- mance do falecido marido, Edna decide escrever um livro autónomo «não apenas sobre Clarence mas também sobre a minha vida, porque ninguém pode aspirar a conhecer Clarence sem isso». Ao mesmo tempo, a vizinha pede-lhe que tome conta do seu aparta- mento repleto de plantas e animais. As exigências dos seres vivos – uma ratazana, peixes, fetos – competem pela atenção de Edna com recordações há muito reprimidas. Dia após dia, páginas de pensa- mentos aparentemente aleatórios brotam da sua máquina de escrever. A pouco e pouco, toma forma no mosaico de recordações a história de um casamento notável e de uma mente levada ao limite. Serão as recordações de Edna uma homenagem ao marido ou um acto de vingança? Terá sido a vítima culta e hípersensível de um marido bruto e ambicioso, ou terá ele tido que cuidar de uma mulher neurótica e louca? Cabe ao leitor decidir.

Em As Recordações de Edna, Sam Savage criou, mais uma vez, uma personagem marcada pela contradição – ao mesmo tempo atraente e exasperante, cómico e trágico.

Eu já o queria ler, mas maior foi a vontade de lê-lo depois de ouvi-lo pela voz de Carlos Vaz Marques, no Livro do Dia - TSF

http://www.tsf.pt/Programas/programa.aspx?content_id=2316097&audio_id=3064735