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quinta-feira, 16 de novembro de 2017

«SÁBADO» de Ian McEwan :: Opinião



"Quem não dorme de madrugada faz um ninho com os seus próprios medos. Imaginar acontecimentos assustadores e esquemas para lhes escapar deve oferecer vantagens do ponto de vista da sobrevivência. Esse truque dos pensamentos negros é um legado da selecção natural num mundo perigoso. Na última hora esteve num estado de profunda insensatez (...) A incompreensão está generalizadas a todo o mundo. Como podemos confiar em nós próprios?"

Abrimos este «Sábado» às 03.40 com Henry Perowne, nu, contemplando o frio do quarto no corpo e apreciando essa sensação. Há também nele um certo despeito pelo que o rodeia, nada o incomoda para justificar aquela insónia; mas ainda assim teme estar a ver-se a ele mesmo num sonho, coisa que o desaponta, já que considera a realidade uma experiência muito mais rica. 

Analisa detalhadamente a Londres que consegue avistar da janela, pensa em Rosalind, a mulher com quem é casado e por quem continua a sentir um desejo sexual enorme e questiona casamentos falhados fruto de traições para as quais nunca se sentiu tentado; lembra-se da filha e das leituras que faz para se manter em contacto com ela; divaga por mudanças e exigências da sua profissão e das transformações dos últimos tempos no hospital, orgulhando-se da sua prestação. Continua a contemplar a cidade, avaliando-a à luz dos mais recentes eventos, como o atentado de 11 de Setembro. A mulher que se remexe ao de leve na cama, fá-lo parar por breves momentos as suas reflexões, mas volta rapidamente a um episódio que capta a sua atenção e o afasta de outros pensamentos como aqueles que tem sobre a criatividade do filho.

"A guitarra de Theo toca-o porque contém uma censura, um resquício da insatisfação mitigada da sua própria vida, do elemento que falta. Esse sentimento surge por vezes quando o concerto acaba, quando o neurocirurgião se despede afectuosamente de Theo e dos amigos e, ao chegar à rua, decide ir a pé e reflectir. Não há nada na sua vida que contenha aquela criatividade, aquela liberdade."

Talvez possamos ver neste longo primeiro capítulo, de um modo introdutório, um homem que se debate e procura conciliar o interno e o externo, exigindo da vida ou da idade, explicações e considerações que lhe mostrem a grandiosidade da vida. Uma grandiosidade em que ele tendia a acreditar e a querer ver, mas sem esquecer o peso de um outro lado da realidade, pejado de maus exemplos. A História estava viva e alimentava bem as memórias e o pessimismo actual. Ainda assim, seguimos neste «Sábado» com um dilema que se alimenta das divagações de Perowne, dissertando sobre a fragilidade da vida, o pessimismo, o terrorismo, mas também o valor das artes: a música, o romance ou a poesia e o seu papel na rotina do indivíduo.  

"(...) o sobrenatural era o recurso de quem tinha uma imaginação insuficiente, uma incúria, uma fuga infantil às dificuldades e às maravilhas do real, à exigente recriação do plausível”.

As maravilhas do real, dominadas por dois lados, aquele que é assustador e monstruoso, mas ainda assim cada vez mais especulado pelas notícias; e o lado do indivíduo, que fechado na sua individualidade cultivada e informada, julga ter algum papel activo na sociedade, esquecendo-se da sua pequenez. Desta forma questionamos qual é o papel de cada um de nós em questões importantes, mas que se passam do outro lado do mundo. E assim se assiste a uma clivagem entre pai e filha que discutem manifestações e motins pelo Não à guerra no Iraque. 

Ainda assim julgo que nada prepara o leitor para os episódios que o atingem e lhe abalam o fim do dia. O medo e o perdão, juntamente com a fragilidade da vida, que talvez pautem todas as considerações e decisões do personagem ao longo do livro,  não deixam adivinhar o desenlace final e as diferenças entre um Perowne confiante que madruga e se coloca à janela e um Perowne mais frágil que se aninha na mulher e aceita que o futuro nem sempre está nas nossas mãos.



terça-feira, 10 de outubro de 2017

Novidade Gradiva :: "Sinal de Vida"


Um observatório astronómico capta uma estranha emissão vinda do espaço na frequência dos 1,42 megahertz. Um sinal de vida. O governo americano e a ONU são imediatamente informados.

Um objeto dirige-se à Terra. 

A NASA prepara com urgência uma missão espacial internacional para ir ao encontro da nave desconhecida. Tomás Noronha, o maior criptanalista do mundo, é recrutado para a equipa de astronautas. 

Começa assim a mais invulgar aventura do grande herói das letras portuguesas modernas, uma história de cortar a respiração que nos leva ao coração do maior mistério do universo. Será a vida um acidente ou resultará de um desígnio? Estaremos sós ou seremos um entre milhões de mundos habitados? 

A existência é um acaso ou tem um propósito? 

Sinal de Vida traz-nos José Rodrigues dos Santos, o escritor favorito dos portugueses, no apogeu das suas extraordinárias capacidades narrativas. Um romance empolgante que, pelo fio de uma intriga intensa e absorvente, nos interpela sobre a vida, o seu objetivo e o nosso lugar no universo.

Uma novidade

sábado, 11 de abril de 2015

"A Sereia Muçulmana" - João Céu e Silva - Opinião


João Céu e Silva escreveu essencialmente biografias ou investigação literária e histórica, em 2002 publicou o seu primeiro romance «20 dias em Agosto» e em 2013 recebeu o Prémio Literário Alves Redol com este «A Sereia Muçulmana».
O júri destacou esta obra para vencedora devido à capacidade efabulatória do autor que é precisamente o que eu não apreciei na obra. Gostaria muito mais de ver debatidos, nem que fosse em conversas surreais com a cadela, as crises e angustias de quem esteve adormecido por tantos anos. 
Trazer a obra de Heródoto para o enredo, parco, é uma fonte de distracção e não sei se facilmente iremos ligar, metaforicamente, cada história de Heródoto com os capítulos - perdidos - de um homem que "dormiu" 30 anos!?

Existiu um factor surpresa pelo qual não esperava, visto a sinopse não referir e eu não tinha lido mais sobre o livro, por isso, o coma de 30 anos foi momento alto que me fez prosseguir a leitura. Depois foi o querer saber por que motivo esteve ele em coma. A guerra, a guerra colonial e depois 30 anos de adormecimento. Será uma metáfora para o próprio país e não só para um homem?

O abandono da família, da mulher, o «adeus» no bilhetinho à entrada da porta... parece dramático e avizinha enredo, pede um desfecho para isso, a meu ver não o há e a história perde muito com isso.

A ligação ao actual e uma crítica à sociedade está subjacente em quase toda a narrativa, ainda assim parece-me megalómana a tentativa de abarcar décadas de acontecimentos em meia dúzia de páginas, como uma contextualização quase escolar. Fiquei na dúvida, já que a capacidade narrativa não está aqui em causa, mas sim, na minha perspectiva, a ausência de um enredo que cative e faça o leitor seguir um fio condutor. 

É certo, são 30 anos na escuridão, no mais profundo sono, mas a tentativa de expressar essa angústia e ao mesmo tempo aventura deixa o leitor num misto de divagação e histórias sobre o homem que se pensa a si mesmo e quer manter um relato das suas acções... mas isto entre barcos, sereias e eventos pouco verosímeis... parece-me difícil.

No entanto, as questões que o personagem levanta são pertinentes e faz-nos pensar sobre a incerteza do futuro, mesmo até para quem não esteve em coma, ou será que o coma é um pensamento efabulado sobre a sociedade portuguesa em geral, será? Estaremos a dormir perante a realidade que acontece diante dos nossos olhos?



quinta-feira, 19 de julho de 2012

Leituras Matinais

Um novo dia, nova companhia nos transportes públicos.
Hoje no comboio para Lisboa, lia-se:


O Último Segredo
de José Rodrigues dos Santos

As Brumas de Avalon - A Rainha Suprema Vol. 2 
de Zimmer Bradley