quinta-feira, 12 de maio de 2022

“Uma Solidão Demasiado Ruidosa” de Bohumil Hrabal :: Opinião

Depois de mais de vinte cinco anos da primeira edição (Afrontamento, 1992), a estrondosa obra «Uma solidão demasiado ruidosa» de Bohumil Hrabal volta aos escaparates portugueses (Antígona, 2019).


"Só o Sol tem direito às suas manchas." 
Goethe


Um homem trabalha há 35 anos na companhia de papel velho, sujo e manchado e considera-se igualmente velho, sujo e manchado tal como as toneladas de enciclopédias e livros que destrói numa prensa hidráulica, também ela velha. Histórica, provavelmente!
 
"(...) sou culto independentemente da minha vontade e, assim, nem sei bem quais as ideias que são minhas e saídas da minha cabeça, e que ideias li. (...) afinal nem leio, apenas colho com o bico uma bela frase e chupo-a como um rebuçado, como se bebericasse um cálice de licor durante muito tempo, até que ideia se espalhe em mim como o álcool; ela dissolve-se em mim tão lentamente que penetra não só no meu cérebro e no meu coração mas pulsa também nas minhas artérias até as raízes capilares (...) o meu cérebro é feito de ideias prensadas pela prensa hidráulica - são pacotes de ideias - a minha cabeça é a noz da Cinderela, cujo o cabelo foi consumido pelo fogo."

É assim que se descreve e se sente este "terno carniceiro" que treme com as palavras que lê e se alimenta a cântaros de cerveja que o deixam desperto, para assim ter mais horas para ler e tratar de acumular livros que se empilham, periclitantemente, em forma de dossel, acompanhando-lhe o sono.

"E tenho a sensação física de que eu próprio sou um pacote de livros prensados, que também em mim existe uma pequena chama semelhante à de um esquentador, à de um frigorífico a gás, uma pequena lamparina eterna que todos os dias reanimo com o óleo das ideias que li durante o trabalho e independentemente da minha vontade nos livros que agora trago na pasta para casa."

Entre episódios sobre livros e outros da sua vida pessoal, Hanta consegue, como nas palavras de Lau-Tseu: conhecer a vergonha e conservar a Glória, já que o episódio com Mariazinha pode também ser uma metáfora para os seus dias narrados do fundo da cave bafienta, que habita com os seus livros, ambos condenados ao esquecimento por uma sociedade que ruboriza e se excita perante mais uma mancheia de ideias prensadas. Quadradas.

"(...) vivo num país que sabe ler e escrever há quinze gerações; habito um antigo reino onde havia e continua a haver o hábito e a obsessão de prensar pacientemente na cabeça as ideias e as imagens que trazem um prazer indescritível e uma mágoa ainda maior; vivo entre pessoas que são capazes de dar até a sua vida por um pacote de ideias prensadas."


Uma solidão demasiado ruidosa é uma ode ao amor pela literatura e aos livros como objetos, à arte em geral, mas também uma crítica à sociedade entalada entre o nazismo e o comunismo e daí a destruição massiva de livros e ideias. Um esmagamento contínuo.

Perdido muitas vezes ente o delírio, o sonho e alguns pesadelos, Hanta revisita grandes autores e os seus clássicos, filósofos e seus ensinamentos, mas não se esquece de aprender com um simples rato ou seu tio agulheiro, a quem quer copiar a ideia de um jardim de delícias, quase tão peculiares e bizarras quantas as de Bosh, no entanto, o futuro é uma ameaça em breves e frenéticos ruídos de tiquetaque, tiquetaque. 

"(...) eu consolava-me com a esperança louca de que a minha máquina faria greve, ficaria doente, fingiria que as suas rodas tinham ficado obstruídas e as correias partido, mas até a minha prensa hidráulica me traiu: trabalhava de uma forma completamente diferente, como quando era jovem: bramia, trabalhando com toda a força, e chegando à sua velocidade máxima tinia; desde o primeiro pacote tinia sem parar, como se estivesse a gozar comigo, como se quisesse demonstrar que só debaixo das mãos da brigada socialista do trabalho desenvolvera todas as suas capacidades e possibilidades.

Esta obra preciosa de Hrabal é quase simples como madeira tosca (e o amor simples da sua ciganita), sensível como se pudesse desmoronar-se apenas "com o som da voz", mas poderosa como a prensa que avança bruta e friamente, impondo-se a qualquer tentativa de revolução.

Ainda assim, se nascer é subir e morrer é entrar, Hrabal demonstra, através do activismo de Hanta, que tal como ratos ou os excrementos, também os livros podem ser destruídos, mas dificilmente desaparecerão por completo: "(...) do texto a mais sobra do que ideias imateriais que esvoaçam no ar, repousam no ar, se alimentam do ar e para o ar regressam, por tudo é, afinal, apenas ar, assim como o sangue existe e não existe, simultaneamente, na hóstia sagrada."


segunda-feira, 21 de fevereiro de 2022

«O Século da Solidão» de Noreena Hertz :: Opinião

 

“Eu aninhada no corpo dele, o meu peito encostado às suas costas, as nossas respirações sincronizadas, os pés entrelaçados. Foi assim que dormimos mais de 5000 noites.

Mas agora dormimos em quartos separados. Durante o dia, bailamos em ziguezague a dança da distância dos dois metros. Abraços, carícias, beijos, a nossa estenografia diária, agora proibida; «fica longe de mim» é a minha nova manifestação de ternura.”

Podia ser o início de um romance, tendo como pano de fundo a pandemia mundial que a todos confinou. Uma pandemia também de isolamento que a todos trouxe medo e uma outra dimensão da solidão e tantas questões de foro psicológico levantou, juntamente com uma constatação: este é O Século da Solidão e a culpa não foi da pandemia, como tão bem nos elucida Noreena Hertz ao longo de uma boa dezena de capítulos onde percebemos quão longos são os tentáculos da solidão.

Contrariando a ideia de global, de maior conexão, de mais informação disponível, melhores condições e maior esperança de vida e de toda a modernidade do nosso século, a verdade é que tudo parece contribuir para que sejamos só mais um ratinho solitário numa roda movida a pilhas inesgotáveis que nos torna cada vez menos sociáveis, mais tribais e mais zangados. Nunca a busca por sentido foi tão complexa e vasta, alimentada por tanta informação dispersa e desconectada. Numa era onde tudo pode ser personalizado, também a solidão atingiu números assustadores e conclusões científicas tão claras e alarmantes: a solidão consegue ser medida no quanto é nefasta e tóxica num corpo e permite afirmar: a solidão mata!

“(…) a nossa capacidade de nos sentirmos sós e a nossa dor e inquietação quando nos sentimos distantes de outros seres humanos, são uma brilhante característica evolutiva. «Nunca devemos querer desligar o estímulo da solidão», disse John Cacioppo (…)”

“Por um lado, um corpo solitário é um corpo stressado: é um corpo que se fatiga facilmente e está excessivamente inflamado. (…) Com a solidão crónica, não existe interruptor para desligar que lembre o corpo que se deve acalmar. Por isso, a inflamação induzida pela solidão pode tornar-se crónica - «o novo normal». (…) a solidão é um tipo de stress que pode amplificar maciçamente os efeitos de outros stresses. (…) Um estudo influente sugeriu que a solidão prejudica o funcionamento de várias glândulas endócrinas que segregam as hormonas em todo o corpo e estão relacionadas com a nossa resposta imunológica.”

O mundo actual padece de solidão e o seu eco propaga-se a todas as dimensões da sociedade. Explicando diversos fenómenos, como por exemplo o aumento da viragem para a aceitação de políticas extremistas, mas também a exploração da solidão como negócio. Os exemplos são variados e Hertz relata episódios dos mais variados países e classes sociais para que percebamos que a solidão está generalizada e apresenta-se à frente dos nossos olhos das mais variadas maneiras. Cabe-nos observamo-nos bem, a nós mesmos e aos outros e agir: «fazer para não perder!»

 

“Para Arendt, o totalitarismo «baseia-se na solidão […] que é uma das mais radicais e desesperadas experiências que o Homem pode ter.»

Encontrando os seus adeptos nas pessoas cuja «principal características […] não é a brutalidade nem a rudeza, mas o seu isolamento e a sua falta de relações sociais normais», ela argumenta que, para quem «sente não ter lugar na sociedade, é na entrega do seu eu individual à ideologia que o solitário redescobre o seu propósito e amor-próprio.»”

A bibliografia é vasta e detalhada e as leituras são inúmeras para o leitor que quiser mais informação além da aqui compilada por Hertz, embora apenas esta leitura já possa desencadear um sem número de pensamentos e acções com vista ao objetivo proposto pela autora: reconectar, recuperar o sentido de comunidade, partilhar, repensar e agir.

Precisamos agir!

Precisamos recuperar ligações com os que nos rodeiam, desde a família, aos vizinhos, aos colegas de trabalho ou ao simples acto de falar com desconhecidos, quebrando a corrente da era digital e deixando o “sem fios” apenas para os dispositivos eletrónicos, sendo capazes de nos desligar da coisa certo ou seja, fugir ao chicote digital das redes sociais e tantas outras aplicações que mascaram as relações interpessoais.

A epidemia do século é a solidão e é disso que precisamos ter consciência, compreendendo até onde chega essa doença e como afecta a todos. A todos, mesmo! E só assim poderemos actuar.

Sendo assim, anote algumas ideias-chave: é preciso restaurar o conceito de comunidade e humanizar as cidades e bairros; queira participar activamente no seio de sua comunidade; é preciso reaprender a conversar para “discutir” melhor; olhar os outros nos olhos para nos sincronizarmos uns com os outros; abraçar, abraçar mais e mais prolongado, pois abraçar cura; sentir-se útil por participar, pertencer, cuidar e ser cuidado; informe-se melhor para compreender melhor e aceitar, mas também para desconfiar menos; tire os olhos do telefone e foque-os no mundo à sua volta; cuide da sua saúde física e mental sem medos; avalie aspectos negativos do que o rodeia, especialmente no trabalho e avalie para equilibrar melhor o binómio vida-trabalho.

Em suma, para equilibrar uma série de aspectos nas nossas vidas modernas o melhor será mesmo fazer algumas coisas à moda antiga!

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2022

«A Psicologia da Estupidez» de Jean-François Marmion :: Opinião

"«O bom senso é a coisa mais partilhada do mundo», escrevia Descartes. Então e a estupidez?"

Em jeito de advertência, Jean-François Marmion, compilou uma série de textos de altas personalidades na análise da estupidez e em muitas outras questões inerentes à existência do ser humano, para nos alertar para o facto de que somos todos um bocado estúpidos (mesmo que inteligentes!). Pois só um estúpido reconhece outros estúpidos!

São mais de duas dezenas de textos, para tipificar a anatomia dos estúpidos, a fim de afirmar que a armadilha da estupidez é por vezes habilmente tecida e estrategicamente composta, levando individualmente um estúpido a engrandecer a sua estupidez, aderindo às massas que se metamorfoseiam em nome de ideias adulteradas, a tolice obstinada e a arrogância que cega.

"O estúpido por excelência condena sem apelo, de imediato, sem circunstâncias atenuantes, fazendo apenas fé nas aparências que, além disso, ele se limita a vislumbrar por entre os seus antolhos. Sabe mostrar-se zeloso para reunir os seus semelhantes, incitar ao linchamento, em nome da virtude, das conveniências, do respeito. O estúpido caça em matilha e pensa como uma manda."

Por entre uma manada de teorias espreme-se o lado científico que explica as atitudes dos estúpidos: "Ele tem dificuldades em compreender que a sorte é a interpretação que o estúpido dá às probabilidades" e começamos logo a rir e a constatar que realmente somos todos um bocado estúpidos, afinal quem é que não nomeia constantemente a sorte como escapatória para um comportamento, afinal, estúpido?

Abra bem o radar, pois as conclusões vão deixá-lo ainda mais sensível à estupidez. À sua e à dos outros, já que a teoria também explica que: "(...) é graças ao expediente de negatividade que somos capazes de detectar mais rapidamente um estúpido do que um génio num meio social complexo."

Claro que no capítulo dedicado à tipificação e em mais uma ou outra entrevista podemos perceber que, para além da estupidez ter vários níveis, tipologias e graus de imunização do sujeito estúpido, há todo um complexo índice de proporções quando falamos em estupidez colectiva. E essa é a mais preocupante. Seja pela forma como eleva a estupidez de cada indivíduo ou, quando em massa, tornando os actos galopantes e até descontrolados. Ou viralizando, estendendo os tentáculos numa escala desconhecida. 

Os tentáculos analisados nos vários textos tocam aspectos tão banais, como a simples tolice e idolatria quase inocente do tolo teimoso, mas inofensivo do que outros e depois exemplos mais sofisticados e maquiavélicos que estrategicamente alimentam teorias da conspiração e esta era do pós-verdade e da manipulação pela redes sociais. Por isso, temas como as eleições americanas, a vacinação, o coronavírus, a desinformação e o culto do falso, a idolatria fácil e instável, o negócio da felicidade ou os crescentes nacionalismos, são terrenos férteis par analisar comportamentos estupidificantes. Mas também se analisam livros, filmes, séries e temas em geral que estão presentes no nosso quotidiano e nesses casos as entrevistas são excelentes pontos de partida para o debate.

É importante também referir que são vários os textos que fazem a ponte entre a estupidez e outros traços de personalidade, sem esquecer o peso das emoções e até as terapias e a necessidade constante de autoanálise, relembrando que se a estupidez é uma armadilha, o tempo também o é: "(...) mesmo quando encontramos o tempo certo para interagir com o passado, nunca conseguimos alterá-lo." (Adelino Cunha) 

Em suma, é um livro ao qual devemos de vez em quando voltar, para que não nos percamos numa certa cegueira de achar que um produto acabado.



sexta-feira, 28 de janeiro de 2022

"O Segredo de Christine" de Benjamin Black e «O Mar» de John Banville - Opinião



Fui ler «O Segredo de Christine» por ter gostado de «O Mar» de John Banville. Black é o pseudónimo de Banville quando este escreve enredos mais policias, no entanto, voltando agora a ambos os livros, às suas personagens e enredos, e aos dramas que aqui são revelados, descobrimos mais traços comuns do que diferenças. 

Em «O Mar» focamo-nos em Max Morden, viúvo, introspectivo, silencioso e em quem o passado lhe pulsa como um "segundo coração".
Em «O Segredo de Christine» também Quirke é viúvo e sente que o passado o persegue, é igualmente um homem solitário e silencioso que prefere ou, o frio e esclarecedor ambiente da morgue ou o calor de mais um copo.
Ambos vêm de uma classe social mais baixa, mas em alguma fase da vida foram adoptados por uma elite que até certo ponto os protegeu das asperezas da vida, pelo menos até serem tocados pela doença, a mentira e a morte.

"Tudo aquilo que realmente sempre desejei foi sentir-me defendido, protegido, resguardado, refugiar-me numa toca de tepidez uterina e ficar acocorado lá dentro, escondido do olhar indiferente do céu e das asperezas do ar agreste."

A morte e a doença juntam-se a outros ressentimentos, que deixam o ambiente pesado e sórdido, quase insuportável, tornando o presente numa dissimulação e fingimento constantes que apenas deixam espaço para sentir as memórias e os escombros do passado, camadas impressas nestes homens como se de um quadro se tratassem. 

No entanto, ambos os personagens sentem que já viveram a vida com outra energia e até dotados de uma percepção sensorial pulsante. Tinham uma crença diferente no futuro. Sentiam-se vivos. Conectados.

"A vida, a verdadeira vida, deve ser uma luta constante, cheia de acção (...), que a vontade não pára de bater com a cabeça dura contra a parede do mundo."
"Sempre sofri do que julgo ser uma percepção extremamente penetrante da mistura de aromas que emanam da presença humana (...) a fragância acre e acidulada da própria vida..."

No entanto, ambos os enredos preferem explorar o peso do passado e transformar os protagonistas em pequenos botes de tristeza à deriva "(...) numa fúria muda, carregando nos punhos fechados as frustrações do dia como se fossem bagagem." Tanto Max como Quirke experimentam um acumular da infelicidade, essa espécie de zumbido agudo e incessante mas inaudível que lhes apaga o rasto em direcção ao futuro.

A morte, o passado, as memórias ou as descobertas febris da juventude são tão personagens como estes homens, bem como a intensidade da palavra, a forma cuidada e pensada com que o autor escolhe caracterizar os traços de cada interveniente, seja uma mulher a quem que cobiçam os seios altivos mas proporcionais à tristeza que carrega; a janela como testemunha que revela e espelha uma dor; a gaveta bafienta que encobre segredos; uma praia que devolve a infância ou um copo, companheiro predilecto de uma noite.  

Banville tem a mestria de elevar linguagem, transformando-a num personagem que tudo une. Embora a certa parte assuma:
"Porém, mantenho-me firmemente sentado à mesa, a empurrar os parágrafos como se fossem fichas de um jogo que já não sei jogar."
Ou seja, parágrafo atrás de parágrafo, vá munindo o enredo com mais instrospecção do que acção: "seu mutismo era uma emanação penetrante e saturante. Não dizia nada, mas nunca estava silencioso."

Mesmo que se lhes mude o pano de fundo, "O Segredo de Christine" de Benjamin Black ou «O Mar» de John Banville, são narrados na invernia que pode ser o imaginário de um homem sozinho, a braços com os pensamentos, que com a força de uma barragem, estão prontos a desaguar.

quarta-feira, 26 de janeiro de 2022

«Somos o Esquecimento que Seremos» de Hector Abad Faciolince :: Opinião


"É um dos paradoxos mais tristes da minha vida: quase tudo o que escrevi foi escrito para alguém que não me pode ler, e mesmo este livro não é mais do que uma carta a uma sombra."

Hector Abad não é uma sombra é antes a sombra que Hector Abad (o filho, o escritor) queria ter sempre consigo, mas quis a vida de um país e as lutas ideológicas sem fim, retirar-lhe essa sombra quando ainda lhe fazia tanta falta o amor exagerado de pai, mesmo que o narrador e protagonista fosse já um homem adulto. Uma falta que levou vinte anos a ser macerada e digerida em forma de declaração de amor, de testemunho e de documento que revela um país, uma luta, um homem e um crime que passou impune. 

"Somos o esquecimento que seremos" é primeira estrofe de um poema de Borges e um axioma que Hector Abad, pai e Hector Abad, filho, sabiam precisar de combater pelo acto da luta e da escrita. Isso e denunciar todo um outro tipo de sombras que durante décadas assombraram uma Colômbia que não quis saber dos seus melhores cérebros.
Ainda assim, quero crer que o leitor (não colombiano) retirará mais do lado afectivo e emocional que é ver a dedicação e o amor entre pai e filho, assim exposto como a mais bela poesia se oferece aos amores eternos e espelha uma inocência, tão própria, dos amores incondicionais. 

"Eu participava nessas procissões, mas, à tarde, o meu pai contrabalançava com a enciclopédia e com as suas palavras e leituras as minhas práticas diurnas. Como numa luta surda por se apoderar da minha alma, eu passava das tenebrosas cavernas teológicas matutinas para os reflectores iluministas vespertinos. Nessa idade em que se formam as crenças mais sólidas, as que provavelmente nos acompanharão até ao túmulo, eu vivia açoitado por um vendaval contraditório, embora o meu verdadeiro herói, secreto e vencedor, fosse esse nocturno cavaleiro solitário que, com paciência de professor e amor de pai, me esclarecia tudo com a luz da sua inteligência, ao amparo da escuridão."

Se a mão e a voz do pai eram formas de amparo contra a escuridão e a dúvida, as mãos da mãe e a sua determinação sagaz eram a garantia de segurança e retidão familiar, embora mais pelo lado de cuidadora empenhado do que só boa cristã.

"A minha mãe, pelo contrário, era e continua a ser mística, embora sempre repita que tem falta e gostaria de ter «muitíssima mais fé». (...) A sua religiosidade, no entanto, tinha uma componente animista muito forte, quase pagã, pois os santos em que ela mais acreditava não eram os do santoral, mas as almas das pessoas mortas da sua própria família, que ela santificava assim que morriam (...) e se algum de nós adoecia, ela encomendava o assunto à alma do tio Joaquím (...), a da minha irmã (...) e, finalmente, á do meu pai, desde que o mataram. Mas, ao mesmo tempo, embora sempre estivesse atenta a estas imateriais presenças (...) era - e continua a ser - a pessoas mais realista que já conheci e com os pés bem assentes na terra (...) e muito mais capaz que o meu pai de resolver os problemas práticos, tanto os nossos como os dos outros, se tivesse tempo para isso."

Percebe-se desde cedo que a fé do homem e do escritor que aqui encontramos nestas páginas, está voltada para dentro de casa, para a família que sempre o acolheu e amou e para os livros, esse refúgio que encontra em cada palavra e pela qual sabe demonstrar a sua crença no amor, mas também a tristeza, a solidão e a dor. Palavras tão comuns à história da sua família e do seu país. 

"A cronologia da infância não está feita de linhas esbeltas, mas de sobressaltos. A memória é um espelho opaco que se fez em cacos ou, melhor dizendo, é feita de intemporais conchas de recordações dispersas numa praia de olvidos. (...) recordá-las é tão desesperante como tentar recordar um sonho, um sonho que nos deixou uma sensação, mas nenhuma imagem, uma história sem história, vazia, da qual apenas resta um vago estado de ânimo. As imagens perderam-se. (...) no entanto, de repente, ao revermos o passado, qualquer coisa volta a iluminar-se na obscura região do esquecimento. Trata-se, quase sempre, de um misto de vergonha e alegria, e quase sempre aparece a cara do meu pai colada à minha como a sombra que arrastamos ou que nos arrasta."

Cronologia da memória e registo detalhado de uma vida que terminou abrupta, Faciolince traça uma ode ao pai em palavras que são pranto sem lágrimas, uma dor interior que não parece comovida, mas paralisada, uma quieta inquietação. E nessa inquietação que também é uma forma de amor, comove e desassossega quem o lê.

*

Aqui. Hoje. Já somos o esquecimento que seremos…                    Jorge Luis Borges    

                    Aqui. Hoje.
                    Já somos o esquecimento que seremos.
                   
                    A poeira elementar que nos ignora
                    e que foi o rubro Adão, e que é agora
                    todos os homens e que não veremos.

                    Já somos na tumba as duas datas
                    do princípio e do termo, o esquife,
                    a obscena corrupção e a mortalha,
                    os ritos da morte e as elegias.

                    Não sou o insensato que se aferra
                    ao mágico som do meu nome:
                    penso com esperança naquele homem
                    que não saberá quem fui sobre a Terra.

                    Sob o indiferente azul do céu
                    esta meditação é um consolo.


"Bairro sem saída" de Fernando Ribeiro - Opinião

 


O convite de Fernando Ribeiro é que entremos no Bairro da Verdade (ou na Brandoa) no virar da década de 70 e o façamos pela sua mão poética e gótica a que já nos habituou, seja em tons mais ou menos melódicos, nas letras e poemas de que é autor. Chegada a vez do romance, o leitor é convidado a recuar a um dos bairros mais clandestinos das Europa e conhecer tanto aquilo que tombou, como a geração que vingou, com personagens peculiares e bem caracterizadas, numa linguagem e um traço de humor negro que fazem logo metade do enredo que acompanha Rogério Paulo desde que fez estremecer as paredes pela primeira vez.

"Dentro de um quarto de um hospital na capital, entre tremores e rebentamentos de águas, eu tentava nascer. Rogério Paulo. O crucifixo na parede agitava-se. Parecia que até Cristo queria sair dali para fora, enjoado com o marear desta frágil jangada. (...) a cada grito da minha mãe, os médicos recuavam um passo, como se no útero dela radicasse o epicentro que rachava o branco das paredes. (...) O seu Ai! era um eco distante, pequenino entre as vozes que invocavam uma agonia preocupada."

Entre o entulho dos assustados, uma jangada meio à deriva, abre caminho entre tremeliques da terra enlameada, assim nasce Rogério Paulo e perde-se Fernando, o primo que dará uma aura ao romance.
E, na agonia preocupada, que sempre ocupou as mentes e os dias de muitos dos habitantes da Brandoa, fossem essas preocupações fruto da época social e política que o país atravessava, e obviamente todo o impacto económico que isso tinha na vida em geral, havia ainda a própria precariedade do bairro e o quanto isso foi alimento para a criatividade necessária à sobrevivência diária. E parte deste livro é isso mesmo, um relato dessa criatividade entre miúdos. E graúdos.

"Eu lá crescia, imitando o Bairro.
Como um casaco aos buracos, o Bairro lá se ia remendando. Desengane-se quem pensar que a brisa da prosperidade já por ali soprava. Era preciso mais que água e sabão para desinfectar o charco. (...) Nos arredores da capital, o Bairro apresentava-se como um espantalho vestido de retalhos de louça, azulejo e cimento ao sol. Cá de baixo da estrada, os carros tiravam-lhe a fotografia enquadrada pela aritmética do desprezo. (...)
O ar incompleto das suas ruas era parecido ao daquela manga de camisa que não chega a dar a volta ao punho (...) Estava feito à imagem das pessoas que o habitavam por dentro, cabeças de milho arrancadas à força do êxodo rural, lançados nas pressas ao vento soprada através da clandestinidade das noites."

Na clandestinidade e à força, na boleia dos biscates entre passadas apatetadas, a Brandoa e a Buraca cresciam, desarmando a inocência das primeiras idades e fazia-os crescer um tanto desencantados com a vida. No entanto, muitos fizeram-se às ruas sem sinalização e deram com a saída!

"A caspa descia para os autos, como naqueles globos artificiais de neve com figuras natalícias, e, às vezes, por passar a mão na bochecha, o polícia de turno ficava com tinta na cara. Conferia algo de cómico à confusão das liberdades interrompidas pela voz de prisão que amontoava pessoas ao pé da esquadra, impelidas pelo tal arfar das esquinas."

terça-feira, 25 de janeiro de 2022

"A Ocupação" de Julián Fuks :: Opinião


"Todo o homem é a ruína de um homem (...) 
Não pensei se o homem era a ruína do homem quando cheguei para ver o meu pai. Não pensei em nada. Vi o seu corpo (...) Estava crescido o meu pai, como se o mal que sofria expandisse os seus contornos, como se o infortúnio aumentasse o espaço que ele ocupava no mundo

Um homem narra a ocupação que pode ser a doença e a gravidez. Um evento trágico em contraponto com um evento puro de alegria, ilógico e pleno de desconexão com todos os males que ocupam tantas outras existências, ocupações tóxicas, como a política que vai degradando tudo à sua volta ou como a própria vida que se esgota, à frente dos nossos olhos, adensando a impotência da qual somos feitos perante a doença e a morte. Perante a solidão que nos sobra.

Entrar em "A Ocupação" é quase como continuar em "A Resistência", mantendo vincada a temática do quanto o lado pessoal é político e o político afecta a esfera do íntimo. Um pouco também como «O avesso da pele» de Jeferson Tenório, livros que lemos seguidos como se as personagens pudessem - e estão! - no mesmo Brasil. Alguns familiares de Pedro podiam ter estado no hotel ocupado, Sebastián podia ter tomado parte em manifestações pelas mesmas causas que Pedro e ambos poderiam encontrar-se e discutir o quanto ter filhos é um acto de resistência. E assim, os livros dialogariam para além do que já dialogam na cabeça do leitor. 

"Sim, porque o mundo é feito de infinitos trânsitos, do movimento contínuo de seres. (...) uma infinidade de deslocamentos em sua génese. Toda a humanidade é feita desse movimento incessante, e só existe tal como a conhecemos graças a esses deslocamentos. (...) cada um de nós fez o seu caminho, mas que somos todos descendentes de um mesmo ancestral absoluto e longínquo. Esse raciocínio tem (...) algo de incestuoso, será sempre um amor entre irmãos (...) e toda a violência contra o outro é uma violência contra nós mesmos, fadada a destruir a um só tempo cada um se nós e a humanidade inteira."

"A Ocupação" narra a violência, a opressão, a política e as causas mais variadas, mas narra mais ainda a ocupação feita pela família, pelo outro. O que nos é querido e o que nos é estranho. 
Quanto da nossa ocupação mais íntima é herança do outro? E é aí, ainda mais, que os livros referidos se cruzam e a história de cada indivíduo se cruza com a de qualquer outro e talvez essa seja a ocupação maior a que Fuks se refere.

"Por mais de uma década fomos dois na mesma casa, apenas dois (...) uma intimidade maior do que aquela que cada um experimentava quando só, quando abandonado. (...) parecia impossível que não compuséssemos uma enciclopédia comum de ideias, um receituário de actos, um atlas de gestos, um dicionário de palavras particulares. Com essa bibliografia nunca impressa* (...) íamos nos ensinando a ser semelhantes (...)
E então quisemos ser três (...). Só de querer ser três já sentíamos a visita de um terceiro, um intruso entre nós, um estranho, um segredo."

*Ler este "A Ocupação" é também para o leitor a oportunidade de dar mais designações às palavras que já conhece, por exemplo:
- alegria: privilégio de distracção e desconexão 
- literatura: abertura para o diálogo
- escritor: alguém que soma fugas
- dúvida: partir a tranquilidade
- filho: ampliar o sentido da vida
ou
- ocupação: como chega fundo a raiz do desterro

segunda-feira, 24 de janeiro de 2022

«O AVESSO DA PELE» de Jeferson Tenório :: Opinião

 

"Às vezes você fazia um pensamento e morava nele. Afastava-se. Construía uma casa assim. Longínqua. Dentro de si. (…) E apesar de tudo, nesta casa, neste apartamento, você será sempre um corpo que não vai parar de morrer. Será sempre o pai que se recusa a partir. Na verdade, você nunca soube ir embora. Até ao fim você acreditou que os livros poderiam fazer algo pelas pessoas. (…) É com eles que te invento e te recupero. É com eles que tento descobrir quantas tragédias ainda podemos suportar (…)"

«O avesso da pele» de Jeferson Tenório arranca desta forma e diz muito sobre a incompreensão e a dificuldade de relacionamento entre duas pessoas. Uma realidade áspera, antes e agora, a de um filho que procura recuperar e entender as memórias e ausência, uma ausência feita de objetos, feita caos que comove.

A ausência de um pai, que pode ao mesmo tempo, ser um legado e um abismo. Um abismo do qual se abeira qualquer filho quando, entre pai e mãe começa mal. E daí ser tão pertinente: descobrir quantas tragédias ainda podemos suportar.

“(…) o que começa mal termina mal. Eram apenas duas pessoas quebradas. Cada um com os seus cacos. Cada um buscando uma escora. O amor como muleta. Naquele momento, a vida já havia tirado tanto, que vocês achavam injusto que o amor não pudesse servir como amparo. Acontece que, em vez de buscarem algo que pudesse reconstruíram os afetos, resolveram se cortar o que restou."

Pedro, o narrador protagonista, perde-se na geografia vasta dos afectos, a analisar o interior do labirinto que foi a vida familiar dos pais, e até a sua, colocando na equação questões cruciais que se cruzavam com o amor, que o delimitavam e definiram: a cor da pele! A pele na sociedade, a pele em todos os relacionamentos. A pele dentro da cabeça de cada um que é sempre mais do que pele.

Ou, e mais importante ainda, a conturbada relação entre pele e o avesso da pele!

Mesmo com o ocutá atrás da porta, a pobreza, o preconceito e a injustiça, espreitavam a cada esquina e aumentavam a ferida funda que ameaçava rasgar o avesso, mas Pedro tenta, neste relato, recuperar os afectos e entender todo o tipo de herança que lhe ficou. E o que fazer com ela.

“Li recentemente que as relações afetivas são formadas por duas categorias: dos egoístas e dos doadores. Você era um doador nato. Minha mãe era uma egoísta nata. (…) não a condeno por isso. (…) A infância nos fornece certas mágoas e é com elas que lutamos.”

 *

Jeferson Tenório explora os afectos, mas explora ainda mais o viver confinado ao meio-fio da vida, porque a sociedade te coloca nessa mesma berma, nesse lado marginal da vida e como combater para sair desse lado, onde se é posto de parte. E o romance explora diversas formas de viver à parte, por se ser lá colocado e por tanto se lutar pela integração, que a pessoa acaba criando uma margem só sua, um lado de dentro só seu… uma forma de alimentar uma solidão inacessível aos outros, talvez vencida, só pelos livros* e pelos afectos (quando possíveis).

"Vocês só sabiam lidar com os afectos na precariedade. Vocês não eram equilibrados. Eram equilibristas. A corda bamba como terreno dos afectos"

É nessa corda bamba que, com um pé bem atrás do outro – passos curtos mas nem sempre firmes - se avança, embora a dor e o trauma desenhem os contornos destas vidas, com que Tenório compõe um livro belíssimo. Duro, mas belíssimo.

 

* capítulo 7 de «O Jogo do Mundo» de Córtazar que eu fui descobrir graças aos livros aqui referidos

sexta-feira, 21 de janeiro de 2022

«Arco-íris» de Banana Yoshimoto :: Opinião


Na minha estreia com Banana Yoshimoto senti que regressava a um ambiente conhecido, melancólico, exuberante, exótico e até simples nas palavras, à boa maneira das autoras nipónicas, que foi como se já tivesse lido vários livros da autora. Mentira, foi o primeiro, mas sinto como se soubesse que decisões a protagonista ia tomar, onde ia vacilar, como ia defender com unhas e dentes os animais ou como ia relatar experiências cristalinas que colocariam o leitor a sentir locais desconhecidos como se lá estivesse ou até sentado à mesa num festim gastronómico enérgico, capaz de revitalizar energias e ânimos. E sentia que o âmago da questão não estava em qualquer paixão platónica, bem como a solução passava por apenas existir e sentir. 
Mesmo dito desta forma, não exponho nada que revele o curso da história ou sequer como Eiko resolve as suas dúvidas ou preenche a solidão que lhe fica após uma perda enorme. 

"Não me agradava de todo viver de recordações, porém às vezes, acontece que se toma consciência do valor que elas têm."

Eiko é uma mulher persistente e consciente do seu foco, embora um pouco abalada por as circunstâncias em que se encontro. O luto tem muito estágios e nada indica que por vezes, antes de se avançar, não tenhamos de recuar e fazer no novo a mesmo viagem. Resignificando-a. Compreendendo-a melhor. Dando espaço apenas para sentir.

"Todavia, o nosso silêncio não era embaraçante. Era um silêncio rico, um silêncio do sabor do ar, um silêncio feito daquele ar fresco que, se for aspirado profundamente, enche os pulmões com algo de belo."

Belo e simples. A beleza das pequenas coisas ;)

A contemplação, a natureza, a brisa do lago, as caminhadas ao luar: "(...) A Lua, como se fosse uma unha bem cortada, começava a descer e irradiava uma luz clara e difusa", os passeios com o cão Tarôt que apagavam nela a angústia e a tristeza e lhe permitiam voltar a sentir o mundo com uns olhos mais apaziguados, quase infantis - ansiosos pela descoberta. "(...) se o corpo se cala, a vista torna-se mais perspicaz".
Acalmando a ansiedade, Eiko segue mais consciente das ocasiões em que é mesmo necessário entrar em contacto com o mundo, sem deixar que o mundo a estilhaçasse mais.

*

terça-feira, 18 de janeiro de 2022

«Os amores do Senhor Nishino» de Hiromi Kawakami :: Opinião

“Ato contínuo, ele colocou-se diante de mim. Tal como eu esperava, estava com cara de zangado. No entanto, a expressão era meiga. A doçura no rosto, o aprumo, a precisão com que atara o obi por mim era uma espécie de imagem de marca.”

"Nishino sorriu. Havia algo de misterioso no sorriso dele, como se soubesse de ciência certa que não existia nenhuma mulher capaz de o amar. O sorriso lembrava-me a chama azulada do aquecedor a gás."

Nishino e as suas amantes são tal como este frase: enigmática e ao mesmo tempo certeira, sem que perca uma aura própria que ecoa nos textos de Kawakami.  

“À imagem e semelhança do colecionador que estica as asas de uma borboleta e as fixa com alfinetes numa caixa. Como quem manuseia delicadamente o corpo sem vida de um inseto, a fim de preparar o mostruário. Pode dizer-se que ele me captara. Sem me ter sequer tocado com um dedo. Sem que tivéssemos trocado um olhar. (...)

No entanto, tinha qualquer coisa de suave, de quente e infinitamente agradável, criando a ilusão de que a aura era o próprio Nishino.”

Ilusório é sem dúvida um adjectivo para a linha ténue com que se cose este enredo. Vamos conhecendo, mas pouco, a história de Nishino, pelas várias mulheres narradoras, das quais também apenas vislumbramos algumas características, para, uma após a outra, constatarmos que aqui o que importa é o mistério, os humores flutuantes e a melancolia e, até uma certa estranheza, tudo bem macerado com uma boa dose de Natureza que se cruza com a cidade e se prova em vários encontros gastronómicos. Detalhes esses que compõem muito cada breve narrativa e permite quase estabelecer um padrão, mas mais nas mulheres que tão fácil se aproximam de Nishino, como sabiamente recuam e o negam com subtileza.

"Imaginava que a luz secreta que caracterizava os nossos encontros - que podia ou não ser natural - se perderia a partir do momento em que deixássemos de ser apenas dois.
Tínhamos uma relação efémera. Era precisamente o que me agradava nela. Se começássemos a conviver com terceiros, receava que isso fizesse de nós «um casal». Mal isso acontecesse, a nossa relação ficaria exposta aos olhos do mundo, como uma fatura na parede, e seríamos forçados a acertar contas um com o outro."

No decorrer dos vários anos, as tonalidades com que estas mulheres vão colorindo ou acinzentando Nishino, mostram-nos também as oscilações nos seus próprios sentimentos e as relações entre algumas delas, num jogo subtil, onde se analisam com mais ou menos frieza, mas tentam perceber-se como parte de um todo, um corpo único que tentou amar e compreender Nishino, sem negarem uma certa exuberância que contrastava em absoluto com a tristeza espelhada no rosto (de algumas delas).


quarta-feira, 5 de janeiro de 2022

«De olhos fixos no sol» de Irvin D. Yalom :: Opinião

 

«Realize a sua vida» e «Morra na altura certa»

Os epigramas de Nietzche podem resumir o objectivo deste «De olhos fixos no sol» de Irvin D. Yalon, embora sejam mais fáceis de dizer do que praticar. E é com isso que nos deparamos ao ler sobre a necessidade de nos questionarmos e aceitarmos a inevitabilidade da morte e esse medo que nos persegue, por vezes disfarçado de imensas fugas e sofrimentos mal resolvidos.

Reconhecer a ansiedade da morte é aceitar um caminho manifestamente marcado pelo despertar de novas dinâmicas que trarão maior sentido às interacções interpessoais, mas também àquelas em que dialogamos para dentro, de modo a compreendermos que o que damos e deixamos aos outros não é mais do que uma soma de atitudes e momentos que apenas perduraram no tempo através das pessoas às quais nos conectamos (rippling).

Aceitar a morte ou encarar o sol de frente, reduzirá a miséria humana, ou seja, reduzirá a origem, a raiz da maioria dos nossos problemas. Ideia essa defendida por Epicuro e esmiuçada por Yalon nas suas sessões de psicoterapia. E claro, parte do objectivo deste livro é explicar que uma terapia bem orientada, numa base de empatia e conexão genuína entre o terapeuta e o paciente é encontrar um meio facilitador para superar medos e encontrar ferramentas de aceitação. E atenção, é aceitação, não rituais de protecção, onde reprimimos e engolimos a noção da nossa natureza finita.

“A morte realmente faz comichão e é uma comichão bem persistente; está sempre connosco, a arranhar alguma porta interior, a zumbir suavemente, quase sem se ouvir, mesmo por baixo da membrana da consciência. Escondida e mascarada, gotejando uma variedade de sintomas, é a fonte de muitas das nossas preocupações, stress e conflitos.”

Ler este livro pode realmente abrir algumas dessas portas interiores, mas o objectivo é mesmo esse, juntamente com relatos de casos clínicos, mostrar aos leitores, uma panóplia de situações que escondem esse receio da morte e o projectam em sentimentos, dores, preocupações e prisões que diminuem a qualidade e a força da existência de cada um de nós.

“O escritor existencialista checo Milan Kundera sugere que também provamos a morte através do acto de esquecer: «O que mete mais medo na morte não é perder o futuro mas antes o passado. De facto, o acto de esquecer é uma forma de morte sempre presente na vida.»”

Yalon vai mais longe e avisa-nos: contemplar a morte ou um grande episódio de dor, podes ser experiências decisivas para despertar e provocar mudanças, servindo-se de grandes filósofos (e não só!) para desmitificar noções contraditórias sobre a morte que inflamam uma existência menos independente.

“O leitor não poderá conectar-se ou dar seja o que for de importante aos que morrem, (…) a menos que esteja disposto a enfrentar os seus próprios medos, equivalentes aos de quem está a morrer, juntando-se-lhes num território partilhado. Ser capaz de fazer este sacrifício pelo outro é a essência de um acto de verdadeira compaixão e que traduz empatia. Esta disponibilidade para experimentar a nossa própria dor, em sintonia com a de alguém, tem feito parte da tradição curativa.”

A ideia poderosa do «eterno retorno» de Nietzche, em «Assim falava Zaratustra» que propõe um desafio: "(...) e se pudesse viver uma existência igualzinha à que viveu, uma e outra vez, por toda a eternidade, de que forma isso mudaria a sua vida neste momento?”

Se a mera sugestão de que pode ser obrigado a repetir tudo é assustadora, essa pode ser a força motriz que faltava para gerar mudança.

Ou seja, é o poder de olhar com maior transparência ao que nos acontece, permitindo uma maior higiene intelectual e equilíbrio emocional, alimentando a tão desejada serenidade mental ou equanimidade.

Mas o conselho maior é mesmo o de se socorrer de boas ideias, positividade e uma rede de boas memórias baseada na conectividade humana, combatendo a solidão e o isolamento e aumentando a compaixão e a empatia que permitem esbater a indiferença e baixar os muros da intolerância. E exemplo disso são sessões de psicoterapia que se sustentem na autenticidade, empatia e no olhar incondicionalmente positivo, criando uma interacção significativa. 

«Palavra do senhor» de Ana Bárbara Pedrosa – Opinião

“Dei-lhes pernas para andar, joelhos para correr, braços para chegar à fruta e mãos para agarrá-la. Olhos para não bater nos troncos, dentes para trincar, língua para palrar até dizer palavras e poder dar nomes às coisas. No fim, pareceu-me funcional e algo rústico.”

Do rústico e por entretenimento, tirou uma costela e fez Eva: “Já tinha aprimorado a forma, trabalhei os traços: ancas arredondadas, barriga lisa, pele macia. No peito, carne que parecia inútil, mas que viria a alimentar a espécie numa simbiose natural.

Tirei-a do homem por preguiça, mas quando ele percebeu julgou-a sua. Não foi logo, primeiro veio o pasmo de ver outra, e a confusão ao ouvi-la dizer «Eva». Tudo sem verbos ainda, o Verbo era só Eu.”

E da ausência de verbos, de passado e de futuro, questionou o paraíso: “Davam as mãos em direcção ao pôr-do-sol e não pediam mais da vida do que a felicidade até ao fim.

Chamam-lhe hoje paraíso, mas aquilo eram só árvores e maçãs. Não havia futuro nem passado, restava apenas um excesso de paisagem. Se acabassem com a fruta, que seria deles?”

Palavra do Senhor é isso mesmo, um livro de questionamento e reflexão, do que se construiu e destruiu com esse excesso de paisagem e uma mão cheia de abundância, ora de escassez, dominando a natureza inacabada de cada personagem que ditou o curso desta história às mãos da inevitabilidade do destino.

“Tinha sido feito para ser testado: já antes de nascer seria um assassino. Rejeitei-o antes de ter cometido o crime, a culpa e a morte eram a génesis da criação. Protestou contra a injustiça, mas falhou no alvo, quem morreu foi o irmão. Verdade seja dita, onde mais poderia gastar a sua raiva?”

Crime, culpa, castigo, o Bem e o Mal e um enredo com um narrador que compara os seus feitos a outros grandes da ficção, como Stephen King, teatralizando ainda mais o acto da criação e nivelando-o pelo que mais tem de terreno e palpável, sem esquecer um ou outro episódio mais transcendente.

“Não havia dúvida: quem nega o filho nega o pai, e ele assumiu a autoridade para falar por mim – espírito do seu sangue. Só assim poderia imbuir-se de uma razão maior do que os homens e então a sua palavra poderia ser igual ao Verbo. Não o pus no mundo para lançar a paz, mas uma espada, porque não quis barreiras para este cavalo à solta, e ele rasgou o ar com o seu golpe.”

Se dúvidas há sobre o conteúdo e a mensagem aqui habilmente compilados por Ana Bárbara Pedrosa, talvez baste dizer que enceta a desmistificação e concluí: “(…) todos saberiam que a razão última da vida era a família, que os humanos e os deuses deveriam unir-se para se protegerem uns aos outros.”

É um livro experimental, mas que assume uma voz muito própria e até irreverente, mas bastante cuidada e que desperta a curiosidade do leitor, seja para temas bíblicos seja para outros livros da autora.

«TRÂNSITO» de Rachel Cusk - Opinião

 

“Concluía por vezes que as pessoas desejam aquilo que não têm a certeza de poderem vir a possuir, outras vezes, a coisa parecia-lhe mais complexa.”

Dito quase nas primeiras linhas, esta frase tornar-se numa sentença que se estende como conclusão de diversos episódios ocorridos na vida da narradora protagonista, Faye, que em busca de mudança, que já haviam sido iniciadas em «Contraluz», a levam desta vez a procurar estabelecer-se por Londres.

Os desejos estão aqui em trânsito, e essa noção é de confluência, quase de engarrafamento, onde uma série de coisas empancam, umas atrás das outras, num curto espaço de tempo, tudo afazeres necessários aquando de uma mudança. Como a casa. O foco desta narrativa.

Por outro lado, são também todas as coisas que surgem a quem corre atrás de um tempo que parece ainda mais acelerado. E mais uma vez o título funciona muito como metáfora para as ocorrências e encontros. Ela está em trânsito entre duas realidades: a do eu unitário e solitário e a de um eu mais universal, mais partilhado que comunga com uma realidade mais sinérgica.

“(…) ao fim de tanto tempo, parecia ter criado um acordo tácito de que, até estarmos ambos seguros do chão que pisávamos, deveríamos permanecer em terreno neutro e orientarmo-nos por balizas públicas.”

Neutro é muitas vezes o terreno literário que se estende ao logo de todo o relato, neutro pela ausência, quase total, de enredo, já que os instantâneos da vida de Faye, embora narrados na primeira pessoa, parecem isentos de avaliações sentimentais. Não o são, mas surgem de forma muito inteligente e com um humor peculiar, expondo uma análise pelas atitudes de terceiros, talvez até como forma de não acrescentar mais itens à lista de pecados que Faye afirma possuir.

“Esta ideia de dois cães a partilharem a tarefa de decifrar os sinais do falcão, achava-a muito empolgante. Sugeria que a realização suprema de um ser consciente residia não na solidão, mas numa partilha tão elaborada e cooperante que quase podia dizer-se que representava o entrelaçar de dois eus. Esta noção, do eu unitário a ser rompido, da consciência, não de um aprisionamento nas suas próprias perceções, mas, antes, como alguma coisa mais íntima e menos dividida, uma universalidade.”

Da universalidade é compreendermo-nos pelo outro. Conclusões encontradas no discurso alheio. Afirmando o poder restaurador que é escutar, Faye, expõem-se menos, mas compreende-se nas revelações dos outros, que de forma brilhante narra ao leitor, abrindo apenas pequenas brechas sobre si mesma, como quem exercita e reforça, apenas em doses homeopáticas, o sistema imunitário. E por isso afirma: “talvez seja só nas nossas feridas que o futuro pode criar raízes.”

Ainda assim, a dualidade desempenha um papel importante, e talvez por andarmos em busca dela se consiga encontrar um certo enredo, fruto da natureza esgotante “(…) muitas vezes as pessoas se revelam, involuntariamente, por aquilo que notavam nos outros.”

“(…) se não pode ser interpretada, então pela concretização ao menos de um olhar humano admirativo, tal como uma pintura suspensa numa parede, aguardando.

Embora com passagens muito bem conseguidas, há uma certa redenção e um tom menos cáustico com que pincelou «Contraluz». E uma agressividade mais contida e até contemplativa.

sexta-feira, 3 de dezembro de 2021

«Os dias do abandono» de Elena Ferrante :: Opinião

 

Cheguei até este «Os dias do abandono» de Elena Ferrante por ter lido «Laços» de Domenico Starnone e numa pesquisa sobre o autor italiano, encontrei uma fofoca literária sobre como o livro de Ferrante era uma resposta do outro lado deste abandono, explorando a hipótese de terem sido marido e mulher, mas como a identidade de Ferrante permanece um mistério, este detalhe adensa o enredo em torno de ambos os livros. 

Resposta ou não, a verdade é que são inúmeros os pontos em comum e isso é muito curioso de se ir descobrindo, especialmente se lermos com pouco intervalo cada um dos livros. 
Eu já tinha apreciado muito o livro de Starnone, tanto que o reli este ano, mas quando peguei neste «Os dias do abandono» senti que tinha entrado numa dimensão maior da dor, numa espiral opressiva que eleva a definição de abandono.

*
"A minha família de origem era sentimentalmente ruidosa, demonstrativa, e eu, sobretudo durante a adolescência, até mesmo quando ficava muda e com as mãos a tapar os ouvidos (...) sentia a opressão de uma vida em silêncio em que tudo parecia tornar-se objeto de exibição por meio de algumas palavras demasiado veementes ou de um movimento pouco sereno do corpo. Assim, aprendera a falar pouco e depois de refletir, a nunca ter pressa, a não correr sequer para apanhar o autocarro, a prolongar o mais possível os meus tempos de reação, preenchendo-os com olhares de perplexidade e sorrisos de incerteza.

Na urgência de compreender, Olga, a quem a família histriónica e gesticulante, ensinou a calar e a aumentar o tempo de reacção, protegendo-se, tenta observar ao microscópio, ano após ano mais de 15 de casamento que acabam abruptamente. Inicialmente, "(...) tudo isso me fazia sentir como um pugilista que não se lembra dos gestos de luta apropriados e vagueia pelo ringue com as pernas moles e baixando a guarda."

De olhar perplexo, pernas moles e cheia de incerteza, Olga não encontrava nada que não assinalasse as consequências práticas do abandono. Foram horas longas, acompanhada por uma multidão de palavras mortas."

A narrativa de Ferrante esmaga e centrifuga o leitor, tal é a intensidade do abandono em que Olga se encontra. Um abandono tão espesso e tão cheio de camadas, que existe quase uma desapropriação de si mesma, das suas vontades, do seu Eu e isso é totalmente visível pela forma cavalgante como o enredo se adensa, engolindo seja o que for que exista para além daquele sofrimento que tudo envolve e enegrece.

As palavras mortas aquelas que disseram e já nada valem ou as que gritaram na febre do abandono, nada valem ou alteram o passado, a frustração e as explicações que não preenchem e também Ferrante foco a espessura da dor e do abandono com reflexões sobre o rotineiro do dias: "um contador da vida que passa deixando um rasto de angústia", associando esse contador ao corpo, tal como é referindo em «Laços» o corpo do outro como estranho e invisível. E a incredulidade de tomar consciência que quando se deixa de ver o outro, deixamos de nos ver a nós. É o casamento que anula o indivíduo ou há uma predisposição intrínseca numa das partes?

No livro de Ferrante há uma aspereza maior, especialmente associada à maternidade, esse evento que altera o casal, a vida, mas mais ainda o corpo da mulher e que também aqui é questionado, tal como no de Starnone como um marco que redefine (e condena?) o casal.

"E registava também, entre as parcelas das contas, a intervalos, o meu estado de espírito: uma bola de comida que os meus filhos mastigavam ininterruptamente; um bolo feito de matéria viva que amassava e amaciava a todo momento a sua substância viva para permitir a duas sanguessugas vorazes que se alimentassem de mim, deixando-me na pele o cheiro e o sabor dos seus sucos gástricos. O nojo da amamentação, dessa função animal. E, mais tarde, os vapores mornos e adocicados das papas. Por mais que me levasse, aquele mau cheiro a mãe não me saía do corpo. Mário às vezes colava-se a mim, abraçava-me e possuía-me ensonada, também ele cansado do trabalho, sem sem emoção. Fazia-o, atirando-se à minha carne quase ausente, que sabia a leite, a bolachas, a farinhas, cheio de um desespero pessoal que aflorava o meu sem o reconhecer. Eu era o corpo de um incesto, pensava atordoada pelo cheiro do vomitado de Gianni, era a violação da mãe, e não a posse de uma amante."


É realmente uma escrita brilhante, rica e complexa que vai ao fundo de cada interrogação e por isso mesmo, dura e até bruta, explorando, na mesma medida, tanto o supérfluo como a essência, deixando desde o início essa pergunta: numa relação o que é supérfluo e o que é essencial? E pode haver quem tenha mais prioridade no sentir?

"Sim, era estúpida. Tinha os canais dos sentidos obstruídos, a corrente da vida deixara de correr através deles havia tanto tempo que nem eu já sabia quanto. Foi um erro terrível encerrar o sentido da minha existência nos ritos que Mario me oferecia com um prudente entusiasmo conjugal (...) Fora um erro terrível, sobretudo, acreditar que não podia viver sem ele (...) 
(...) e por que razão eu, que opusera sempre à desordem ocasional do sangue a estabilidade da nossa ordem de afectos, experimentava agora tão violentamente o remorso da perda, uma dor intolerável, a ânsia de me desligar da teia de certezas e de reaprender a vida sem a segurança de quem já sabe tudo."

Sem dúvida que estes dias de abandono são narrados com mestria e simulam muito bem o que a narradora-protagonista deseja que a sua escrita fosse, quando antes de casada alimentava sonhos com pedaços de papel.

"Queria escrever histórias sobre mulheres dotadas de outros recursos, mulheres cujas palavras fossem invencíveis, e não um manual da mulher abandonada subordinando ao amor perdido todos os seus pensamentos. Era jovem alimentava ambições. Não gostava da página demasiado fechada, como uma persiana completamente descida. Gostava da luz, do ar que entrava por entre as ripas da persiana. Queria escrever histórias cheias de correntes de ar, infiltradas de raios de sol onde dançassem partículas de poeira. E depois, gostava da escrita que nos faz debruçar a cada linha e olhar para baixo, sentindo a vertigem da profundidade, as trevas do inferno."

E conseguiu!

quarta-feira, 17 de novembro de 2021

«Vista Chinesa» de Tatiana Salem Levy :: Opinião




"Até aquela terça feira o medo era para mim uma abstração. (…)
Só quero estar livre para concluir minha travessia, eu disse a Diana. O luto do pedaço de mim que se perdeu...”


«Vista Chinesa» é um relato duro, mas cirurgicamente detalhado, tornando-se num poderoso testemunho de uma batalha individual pela superação após um ataque que revela raízes profundas e abrangentes. Essas raízes, lançadas pela guerra ancestral que é a violação das mulheres, uma violência intemporal e sem fim à vista, uma (quase) herança espiritual e energética que atormenta todas e que aqui são unidas pelo fantasma que as condena tanto psicológica como fisicamente, pois estar viva não é igual a se sentir viva e este relato é precisamente sobre essa luta. E sobre tanto mais.

Tatiana Salem Levy narra, com extrema concisão e numa linguagem visceral, tanto o episódio da violação, como memórias recentes associadas ao trauma e à luta íntima que é a vivência pessoal, e em família, após a violação. O fio narrativo é emaranhado e por camadas. Camadas de dor que vão solidificando e por cada camada uma etapa de luto.

A narrativa é intensa e coloca o leitor à beira do precipício, pois percebe-se que a autora quer manter a objectiva bem focada naquele episódio, com flashes bem vívidos, mas logo esbatidos pela dor, humilhação e medo. E é no meio desse caos e de uma euforia transtornante, entre a violência do ataque e a exasperação com a investigação policial, que se revelam todas as preocupações.

“Lembro de ter me perguntado se era por estar no meu lugar ou no lugar dela, uma dor inalcançável, a impossibilidade de um sofrimento físico, palpável, a lacuna que nos separava. Eu veria minha mãe emagrecer nos dias seguintes, mas ela nunca iria conhecer no corpo a agrura que eu havia experimentado, e não deve haver aflição pior que o desconhecimento tangível da dor de um filho."

Entre fragmentos da memória, surgem as expectativas com o futuro, num combate diário entre a expiação do mal e o amor pela família, o emprego, os filhos e o viver do dia-a-dia, enquanto aquela mulher se reconstrói. E reconstrói-se mais ainda por ela mesma, no entanto, faltam-lhe as palavras, falta nomear o que lhe aconteceu e daí este quase-testamento para os filhos, pois atormenta-a a dúvida: saberão eles? Eles que foram carregados dentro dela.

(...) ninguém sabe, nem eu sei ao certo, é tão difícil saber (...) meus filhos quando estavam na minha barriga sentiram um corpo inteiro ou um corpo fraturado, vocês são duas crianças lindas, perfeitas, mas por dentro serão inteiros ou, por terem recebido alimento e energia de um corpo rachado, também carregam uma alma rachada.”

Mesmo que seja uma herança hipotética, ela precisa se apaziguar e matar o fantasma da violação que paira sobre todas as mulheres e pela palavra há uma superação mais concreta. Tal como redescobrir-se sexualmente, daí a própria gravidez ser também analisada como algo visceral e ancestral. E novamente a dor. A dor primitiva e o grito selvagem.

Sem dúvida que o fio condutor é a dor, uma dor partilhada entre mulheres, que é visível no poder que tem o relato na primeira pessoa revelando a capacidade de Tatiana Salem Levy em se apoderar de um episódio real, mesmo que exterior ao seu corpo.

Outra preocupação deste livro é a de denunciar a dificuldade de um tratamento digno e sem histrionismos, seja em ambiente hospitalar ou policial e neste caso, vê-se uma condução desajeitada de toda a trajectória da investigação, que cede à pressão de ter um culpado, não o verdadeiro, mas apenas um que satisfaça as estatísticas e os resultados da própria polícia. Facto esse que espelha as preocupações sociais e políticas com um Rio de Janeiro em convulsão e com registos de níveis de violência históricos e persistentes.

“Vista Chinesa” é sem dúvida um livro intenso e completo, dando ao leitor muitos pontos de vista

segunda-feira, 25 de outubro de 2021

«Laços» de Domenico Starnone :: Opinião


«Laços» de Domenico Starnone (Alfaguara, Junho 2018), inédito em Portugal até este livro, recebeu no ano passado a adaptação cinematográfica, «Laços de Família», filme de Daniele Luchetti que não recebeu críticas equiparáveis às tecidas ao livro, no entanto, saber da sua estreia em Portugal fez-me querer recordar este enredo e a releitura foi ainda melhor do que o primeiro contacto com esta família disfuncional, cujo a relação segue caminhos sinuosos após o abandono (e regresso!) por parte de Aldo, o pai e marido adúltero, após um caso com uma mulher mais nova. 

As fragilidades do enredo prendem-se com um lado banal das acções do casal: ele vive deslumbrado por Lídia e agradecido por ela olhar para ele, sentindo-se mais vivo do que nunca e Vanda encarna o papel de mulher traída da forma mais acérrima e tóxica possível, desgastando-se e desfigurando-se enquanto recorda o quanto hipotecou de si em prol do casamento e dos filhos. No entanto, é precisamente a forma como Starnone passa dessa banalidade, de forma muito simples e concisa, para as motivações que fazem girar este casal que torna o livro duro e brilhante. É como se o autor fizesse um raio-x ao lugar mais fundo e íntimo dos pensamentos destas quatro pessoas enquanto as décadas avançam e isto apenas em pouco mais de cem páginas. A capacidade de tecer toda uma cena, de anos, num pequeno parágrafo é de um poder de concisão que espanta e abana o leitor.

“Disparataste longamente, com pedante tranquilidade, acerca dos papéis dentro dos quais nos tínhamos aprisionado ao casarmo-nos – o marido, a mulher, a mãe, o pai e os filhos – e descreveste-mos – a mim, a ti, aos nossos miúdos – como engrenagens de uma máquina desprovida de sentido, obrigadas a repetir para sempre, os mesmos movimentos sensaborões.”

“As pernas sobem agora com base em hábitos adquiridos. E a tensão, a emoção, a felicidade do passo perderam-se, como se perdeu a singularidade da maneira de andar. Deslocamo-nos achando que o movimento das pernas é nosso, mas não é verdade, sobe connosco esses degraus uma pequena multidão à qual nos adaptámos, a segurança das pernas não é senão o resultado do nosso conformismo. Ou mudamos o passo – concluis – reencontrando a alegria do início ou ficamos condenados à normalidade mais soturna.”

Tudo nesta narrativa ganha outro impacto pelas palavras que são escolhidas, ci-rur-gi-ca-men-te e com uma precisão geométrica, não vá a palavra errada estragar o pouco equilíbrio que sobra ou arruinar uma pequena conquista. E ruina é bem o que se analisa com o final entregue às mãos dos filhos: Sandro e Anna. 

“Olhei-os demoradamente. As crianças empurravam-se, insultavam-se, a mãe ameaçava-os. Levava um sobretudo fora de moda, eles calçavam sapatos deformados. Pensei: é a minha família a voltar do esquecimento, e vi de repente o meu lugar vazio ao lado deles, convenci-me de que tinha sido aquele vazio a modifica-los daquela maneira.”

Dito de forma disparatada ou não, a verdade é que Aldo tece desde o início palavras chave que determinaram a relação familiar: o conformismo, o casamento castrador, os filhos como extensão necessária de um casal, um repetir de movimentos que esmaga vontades e alegrias e o aprisionamento que são os anos que ainda lhes faltam. E aqui importa salientar que os que sobram e actuam como espelho são os filhos, levantando questões como: numa família tem sempre de existir o carrasco e a vítima? De que forma os papeis se invertem? E para a plateia (os filhos) o que sobra? Com os anos nada mais se acrescentar a não ser o cansaço?

"Agradava à Lídia, agradava a toda a gente. E, enquanto isso, uma névoa ia cobrindo o passado em que me sentira lento e inconsequente. Desvaneceu-se a casa de Nápoles, desvaneceram-se os parentes, os amigos. Permaneceram vivos, persistentes, a Vanda, o Sandro, a Anna, mas só enquanto a distância não lhes retirasse a energia, não retirasse espessura à dor."

Esta ideia da espessura da dor versus a distância e a invisibilidade é muito interessante e explorada mesmo quando o casal habita a mesma casa e envolve ainda outra questão: a do corpo estranho. É só o corpo da amante que é um corpo estranho ou os anos e a habituação ao corpo do outro também nos fazem estranhar um corpo que já não vermos? Quando é que o outro se torna invisível? 

Oscilamos entre considerar uma família como um laço constante, apertado e que protege; para a considerar um somatório de jeitos que se dá para unir vários fios, com gestos automáticos e de olhos fechados, gestos já sem sentido. Dinâmicas inofensivas que roçam a ameaça.

"Sinto o meu pai e a minha mãe. Sinto-os pelas divisões silenciosas, juntos e separados. O Sandro murmurou: esconderam-se um do outro, mas não sem deixarem a ameaça de se descobrirem a qualquer momento."



sábado, 16 de outubro de 2021

«A Casa» de Emma Becker :: Opinião


“Falo de um mundo onde as prostitutas podiam escolher ser princesas, elfos, fadas, sereias, meninas ou mulheres fatais. Falo de uma casa que ganhava as dimensões de um palácio, a doçura de um porto de abrigo. Agora, o resto do mundo é, para estas raparigas, um matadouro.”
“Dois anos imersa num mundo onde elas se farejam da cabeça aos pés, e continuo a corar quando uma rapariga me beija o rosto.
(…) E, contudo, quando estava mergulhada entre as pernas dela a lambê-la, com um apetite pouco fingido, pensava naquela carícia banal na perna e imaginava o que poderia levá-la ao orgasmo e se ela tivesse sabido como o fazer comigo, que sítios tocar, que linguagem inventar para insuflar de novo esse arrepio de vida na carne."

Emma Becker, vinte cinco anos, recentemente chegada a Berlim, é a francesinha de serviço num bordel aconchegante que protege as suas mulheres e que elas carinhosamente apelidam de A Casa. Becker é autora e narradora desta experiência na primeira pessoa, já que por curiosidade e gosto por sexo, decidiu prostituir-se na Alemanha a fim de expor este mundo pela perspectiva mais pessoal de cada uma das suas companheiras. Desse trabalho sob disfarce resultou um livro, quase como um herbário: uma forma de as alfinetar como borboletas para mais tarde as contemplar. Um livro que é uma declaração de amor às mulheres, aos seus corpos e às suas vontades e a tudo o que a experiência lhe permitiu aprender.

“Antes de mais, há os saltos: ninguém conseguiria andar naquilo, eu certamente não. Contudo, parecem uma extensão tão natural da sua perna como um pé descalço. E aquele barulho, aquele estalido langoroso, ao longo dos dez passos, para lá e para cá, que lhe delimitam o território... ouvindo-os, sabemos que aquele ritmo sábio não pode ser produzido por uma rapariguinha cambaleante, ameaçando torcer os calcanhares - por detrás daquele som há sem dúvida uma mulher agressivamente sedutora, cheia de si própria.”

Percebemos desde cedo a fascinação de Emma pela Casa, seja por comparação à prostituição de rua, seja por outras casas, mas sempre mais pelas mulheres que lhe dão corpo e os objectos que compõem os quartos, tal cenário de uma peça, previamente encenada. Tudo terá um certo valor sentimental, embora o que mais interesse sejam os episódios que penetram nesses cenários.

“Penso sempre: eis mulheres que são verdadeiramente mulheres, que mais não são, de facto, do que isso. Eis seres eminentemente sexuados, passíveis de serem definidos sem qualquer problema. Se houvesse nelas o que quer que fosse de ligeiramente ambíguo, tal duplicidade ficaria imersa no excesso de ornamentos e feromonas com que saturavam aquele canto (…).”

“A junção destes dois aromas perenes tem algo de infantil e obsceno, como se farejássemos a roupa de um bando de colegiais, escondidas na casa de banho para fumar… e, nos espaços que elas enchem de gritos, pulverizou-se uma essência um pouco ordinária, entre o detergente e o desodorizante barato, queimaram-se cinco incensos diferentes numa tentativa infrutífera de dissimular o fumo, as axilas húmidas e os dedos pegajosos de homens que estão sempre de passagem; é uma nota um pouco acre, quase indiscernível.”

O sentimentalismo é posto de lado, tudo assume um tom prático, mas o êxtase vem da forma como é descrito, sempre bastante visual, sensorial e até luxuriante. No entanto, o enredo fica um pouco a dever ao ritmo, pois para além de alguns episódios que oscilam entre recordações de amores antigos e situações com clientes no bordel, o que o leitor mais experimenta são manifestos de afirmação, usando o tom explícito a favor daquilo que defende: o valor das escolhas a que cada uma tem direito e a exaltação (e compreensão) pelo desejo que se alimenta em corpos que não as alugam à hora. Ou seja, há desejo para além da prática daquela actividade profissional.

“Aquele que não fode. Aquele que vem apenas beijar religiosamente aquela coorte de vaginas morenas, loiras, ruivas, rapadas ou hirsutas, que enche o seu herbário de mil clítoris com desenhos sofisticados de catedrais, cheiros de vaginas e de rabos, e do qual nem suspeita que se alivia nas casas de banho com uma dança febril de punho.”

Um arrepio sente o leitor em alguns capítulos, que mesmo retirados do contexto, funcionam muito bem como pequenos contos, brindam à lassidão, às mulheres e à diferença, mas também contêm análise sociológica à profissão, aos clientes e aos motivos que sustentam uma das profissões mais antigas, nunca escondendo uma indolência, um tom de humor e o respeito pelo tema; o fio condutor é a qualidade literária de um enredo que pretende humanizar a prostituição e fazer pensar sobre grandes questões, a da motivação de ambos os lados.

“Será que alguma vez se para de verdade? Que acontece a esta sensação na boca do estômago, quando ouvimos alguém pronunciar, seja por que razão for, a palavra puta? Deixamos de ser capazes de discutir objetivamente sobre prostituição… e, de resto, trata-se de uma discussão a evitar, se não nos queremos trair graças a uma veemência irreprimível.”

“O verdadeiro problema é o tempo. Que se pode, contra o tempo? Talvez face a esse inimigo supremo, invisível, invencível, os homens saquem da arma do bordel como um pecado menor, mais desculpável, do que uma história de amor paralela, mais desprezível também, porventura. O bordel é a parte da humildade inexorável da sociedade… o homem e a mulher reduzidos à sua mais estrita verdade… a da carne, que saboreia, sente e estremece.”

sábado, 9 de outubro de 2021

«NADA» de Carmen Laforet :: Opinião

«NADA» de Carmen Laforet narra o despertar de Andrea numa Barcelona enegrecida e depauperada pelos anos do regime franquista que se entranhou desmedidamente na parte da família que a recebe e que é suposto educá-la.

"Sem pensar duas vezes, lancei-me na escuridão das ruelas que a rodeiam. Nada podia acalmar e maravilhar a minha imaginação como aquela cidade gótica. Naufragando entre húmidas casas construídas sem estilo no meio das suas veneráveis cantarias, mas às quais os anos tinham dado uma pátina de um encanto especial, como se tivessem sido contagiadas pela beleza. (...) O frio mais intenso, engavetado entre as ruas sinuosas (...). Havia uma solidão impressionante como se todos os habitantes da cidade tivessem morrido."

Entramos neste belo e terrível romance, como o caracterizou Mário Vargas Llosa, e somos desde cedo confrontados com uma assumida tristeza que quebra a energia inicial com que Andrea chega e percorre uma Barcelona nocturna e húmida, mas que ainda assim a conquista e liberta, uma liberdade que demorará até voltar, já que o desalento com o cenário familiar bizarro, que a recebe é composto por pessoas em ruínas, destruturadas e tóxicas que nos recordam os ambientes confusos, violentos e de terror dos enredos de Shirley Jackson ou os mais melancólicos e pesarosos de Carson McCullers.

A decrépita casa da Rua de Aribau é tal como a tia Angústias, “um bocado vivo do passado que estorva a marcha das coisas.” e  “Os dias sem importância (…) pesavam como uma quadrada pedra cinzenta no cérebro.” de Andrea, que se entregou à inércia dos dias inúteis. E são precisamente nas descrições dos  dias inúteis e povoados de Nadas que Laforet domina as emoções dos leitor e nos cerca com esse ambiente. A atribuição de cheiros à nostalgia e à solidão ou até à humilhação conseguem uma dimensão ainda maior para a dor e o abandono, que desafiam a "sombra gelada da tarde (…) uma tarde de luz muito triste.", como muitas tardes em que Andrea vagueia, salvando-a apenas um reduto de Natureza e a amizade com Pons e Eva.

Já os tios são personagens em constante devaneio, seres soezes, ordinários e agressivos, que encontram na violência e na humilhação, uma forma de expiarem dos demónios que os corroem, ainda assim são dignos de uma incompreensível estima e até carinho que gera uma repulsa, extensível à tia Angústias no que toca à capacidade de ferir os sentimentos alheios. Até a avó, essa última folha* de uma árvore já extinta, cujo os ecos ainda ressoam e vibram nos sentimentos de todos, sobretudo em Glória. 

*”(…) tive a sensação de estar perante uma daquelas últimas folhas de Outono, mortas na árvore, antes de serem arrancadas pelo vento.”

Arrancados, desenraizados e desbragados são tanto os personagens como as discussões bafientas que alimentam esta estranha relação familiar, que vive de argumentos já gastos: “(…) como pássaros envelhecidos e escuros, com os peitos palpitantes por terem voado muito num pedaço de céu muito pequeno.”

Um pedaço de céu muito pequeno é a casa, também ela personagem. Acozinha, a sala, as escadas ou até o quarto-orelha, todo "funciona" como um conjunto desconexo e grotesco em que tantos os rostos vazios habitam a casa, como a própria casa os habita a eles e os ocupa com a revolta e o esforço que sobrou de um passado recente e marcante. A casa, a rua e a própria cidade, outrora como eles, seres dignos de destaque, sobrou em escombros e sombras, sendo metáfora para a critica social que se lê nas entrelinhas. 

Contracenam com a desolação dos trastes inúteis, acabrunhados sob uma carga de desvario, uma amizade propícia a novos despertares dessa mulher-menina que é Andrea ainda que mergulhada em ilusões e sonhos do campo e que reverdece a cada reencontro com pedaços soltos de natureza naquele poço gótico que era Barcelona.