Depois de mais de vinte cinco anos da primeira edição (Afrontamento, 1992), a estrondosa obra «Uma solidão demasiado ruidosa» de Bohumil Hrabal volta aos escaparates portugueses (Antígona, 2019).
A leitura é uma viagem por palavras nacionais, estrangeiras, umas cultas, outras menos, umas mais rebuscadas, outras simplificadas, algumas levam-nos às lágrimas, muitas delas às gargalhadas e as melhores, aquelas que nos deixam abismadas, tamanha é a profundeza da ideia, da genuinidade expositiva, onde a simples contemplação daquelas palavras nos deixa assim: sob o Efeito dos Livros!
quinta-feira, 12 de maio de 2022
“Uma Solidão Demasiado Ruidosa” de Bohumil Hrabal :: Opinião
segunda-feira, 21 de fevereiro de 2022
«O Século da Solidão» de Noreena Hertz :: Opinião
“Eu aninhada no corpo dele, o meu
peito encostado às suas costas, as nossas respirações sincronizadas, os pés
entrelaçados. Foi assim que dormimos mais de 5000 noites.
Mas agora dormimos em quartos
separados. Durante o dia, bailamos em ziguezague a dança da distância dos dois
metros. Abraços, carícias, beijos, a nossa estenografia diária, agora proibida;
«fica longe de mim» é a minha nova manifestação de ternura.”
Podia ser o início de um romance, tendo como pano de fundo
a pandemia mundial que a todos confinou. Uma pandemia também de isolamento que
a todos trouxe medo e uma outra dimensão da solidão e tantas questões de foro
psicológico levantou, juntamente com uma constatação: este é O Século da
Solidão e a culpa não foi da pandemia, como tão bem nos elucida Noreena Hertz
ao longo de uma boa dezena de capítulos onde percebemos quão longos são os
tentáculos da solidão.
Contrariando a ideia de global, de maior conexão, de mais
informação disponível, melhores condições e maior esperança de vida e de toda a
modernidade do nosso século, a verdade é que tudo parece contribuir para que
sejamos só mais um ratinho solitário numa roda movida a pilhas
inesgotáveis que nos torna cada vez menos sociáveis, mais tribais e mais
zangados. Nunca a busca por sentido foi tão complexa e vasta, alimentada por
tanta informação dispersa e desconectada. Numa era onde tudo pode ser
personalizado, também a solidão atingiu números assustadores e conclusões
científicas tão claras e alarmantes: a solidão consegue ser medida no quanto é nefasta
e tóxica num corpo e permite afirmar: a solidão mata!
“(…) a nossa capacidade de nos sentirmos sós e a nossa dor
e inquietação quando nos sentimos distantes de outros seres humanos, são uma
brilhante característica evolutiva. «Nunca devemos querer desligar o estímulo
da solidão», disse John Cacioppo (…)”
“Por um lado, um corpo solitário é um corpo stressado: é
um corpo que se fatiga facilmente e está excessivamente inflamado. (…) Com a
solidão crónica, não existe interruptor para desligar que lembre o corpo que se
deve acalmar. Por isso, a inflamação induzida pela solidão pode tornar-se
crónica - «o novo normal». (…) a solidão é um tipo de stress que pode
amplificar maciçamente os efeitos de outros stresses. (…) Um estudo influente
sugeriu que a solidão prejudica o funcionamento de várias glândulas endócrinas
que segregam as hormonas em todo o corpo e estão relacionadas com a nossa
resposta imunológica.”
O mundo actual padece de solidão e o seu eco propaga-se a
todas as dimensões da sociedade. Explicando diversos fenómenos, como por
exemplo o aumento da viragem para a aceitação de políticas extremistas, mas
também a exploração da solidão como negócio. Os exemplos são variados e Hertz
relata episódios dos mais variados países e classes sociais para que percebamos
que a solidão está generalizada e apresenta-se à frente dos nossos olhos das
mais variadas maneiras. Cabe-nos observamo-nos bem, a nós mesmos e aos outros e
agir: «fazer para não perder!»
“Para Arendt, o totalitarismo
«baseia-se na solidão […] que é uma das mais radicais e desesperadas
experiências que o Homem pode ter.»
Encontrando os seus adeptos nas pessoas cuja «principal
características […] não é a brutalidade nem a rudeza, mas o seu isolamento e a
sua falta de relações sociais normais», ela argumenta que, para quem «sente não
ter lugar na sociedade, é na entrega do seu eu individual à ideologia que o
solitário redescobre o seu propósito e amor-próprio.»”
A bibliografia é vasta e detalhada
e as leituras são inúmeras para o leitor que quiser mais informação além da
aqui compilada por Hertz, embora apenas esta leitura já possa desencadear um
sem número de pensamentos e acções com vista ao objetivo proposto pela autora:
reconectar, recuperar o sentido de comunidade, partilhar, repensar e agir.
Precisamos agir!
Precisamos recuperar ligações com
os que nos rodeiam, desde a família, aos vizinhos, aos colegas de trabalho ou
ao simples acto de falar com desconhecidos, quebrando a corrente da era digital
e deixando o “sem fios” apenas para os dispositivos eletrónicos, sendo capazes
de nos desligar da coisa certo ou seja, fugir ao chicote digital das redes
sociais e tantas outras aplicações que mascaram as relações interpessoais.
A epidemia do século é a solidão e
é disso que precisamos ter consciência, compreendendo até onde chega essa
doença e como afecta a todos. A todos, mesmo! E só assim poderemos actuar.
Sendo assim, anote algumas ideias-chave:
é preciso restaurar o conceito de comunidade e humanizar as cidades e bairros; queira
participar activamente no seio de sua comunidade; é preciso reaprender a
conversar para “discutir” melhor; olhar os outros nos olhos para nos
sincronizarmos uns com os outros; abraçar, abraçar mais e mais prolongado, pois
abraçar cura; sentir-se útil por participar, pertencer, cuidar e ser cuidado;
informe-se melhor para compreender melhor e aceitar, mas também para desconfiar
menos; tire os olhos do telefone e foque-os no mundo à sua volta; cuide da sua
saúde física e mental sem medos; avalie aspectos negativos do que o rodeia,
especialmente no trabalho e avalie para equilibrar melhor o binómio
vida-trabalho.
Em suma, para equilibrar uma série
de aspectos nas nossas vidas modernas o melhor será mesmo fazer algumas coisas
à moda antiga!
quinta-feira, 17 de fevereiro de 2022
«A Psicologia da Estupidez» de Jean-François Marmion :: Opinião
"«O bom senso é a coisa mais partilhada do mundo», escrevia Descartes. Então e a estupidez?"
Em jeito de advertência, Jean-François Marmion, compilou uma série de textos de altas personalidades na análise da estupidez e em muitas outras questões inerentes à existência do ser humano, para nos alertar para o facto de que somos todos um bocado estúpidos (mesmo que inteligentes!). Pois só um estúpido reconhece outros estúpidos!São mais de duas dezenas de textos, para tipificar a anatomia dos estúpidos, a fim de afirmar que a armadilha da estupidez é por vezes habilmente tecida e estrategicamente composta, levando individualmente um estúpido a engrandecer a sua estupidez, aderindo às massas que se metamorfoseiam em nome de ideias adulteradas, a tolice obstinada e a arrogância que cega.
"O estúpido por excelência condena sem apelo, de imediato, sem circunstâncias atenuantes, fazendo apenas fé nas aparências que, além disso, ele se limita a vislumbrar por entre os seus antolhos. Sabe mostrar-se zeloso para reunir os seus semelhantes, incitar ao linchamento, em nome da virtude, das conveniências, do respeito. O estúpido caça em matilha e pensa como uma manda."
Por entre uma manada de teorias espreme-se o lado científico que explica as atitudes dos estúpidos: "Ele tem dificuldades em compreender que a sorte é a interpretação que o estúpido dá às probabilidades" e começamos logo a rir e a constatar que realmente somos todos um bocado estúpidos, afinal quem é que não nomeia constantemente a sorte como escapatória para um comportamento, afinal, estúpido?
Abra bem o radar, pois as conclusões vão deixá-lo ainda mais sensível à estupidez. À sua e à dos outros, já que a teoria também explica que: "(...) é graças ao expediente de negatividade que somos capazes de detectar mais rapidamente um estúpido do que um génio num meio social complexo."
Claro que no capítulo dedicado à tipificação e em mais uma ou outra entrevista podemos perceber que, para além da estupidez ter vários níveis, tipologias e graus de imunização do sujeito estúpido, há todo um complexo índice de proporções quando falamos em estupidez colectiva. E essa é a mais preocupante. Seja pela forma como eleva a estupidez de cada indivíduo ou, quando em massa, tornando os actos galopantes e até descontrolados. Ou viralizando, estendendo os tentáculos numa escala desconhecida.
Os tentáculos analisados nos vários textos tocam aspectos tão banais, como a simples tolice e idolatria quase inocente do tolo teimoso, mas inofensivo do que outros e depois exemplos mais sofisticados e maquiavélicos que estrategicamente alimentam teorias da conspiração e esta era do pós-verdade e da manipulação pela redes sociais. Por isso, temas como as eleições americanas, a vacinação, o coronavírus, a desinformação e o culto do falso, a idolatria fácil e instável, o negócio da felicidade ou os crescentes nacionalismos, são terrenos férteis par analisar comportamentos estupidificantes. Mas também se analisam livros, filmes, séries e temas em geral que estão presentes no nosso quotidiano e nesses casos as entrevistas são excelentes pontos de partida para o debate.
É importante também referir que são vários os textos que fazem a ponte entre a estupidez e outros traços de personalidade, sem esquecer o peso das emoções e até as terapias e a necessidade constante de autoanálise, relembrando que se a estupidez é uma armadilha, o tempo também o é: "(...) mesmo quando encontramos o tempo certo para interagir com o passado, nunca conseguimos alterá-lo." (Adelino Cunha)
Em suma, é um livro ao qual devemos de vez em quando voltar, para que não nos percamos numa certa cegueira de achar que um produto acabado.
sexta-feira, 28 de janeiro de 2022
"O Segredo de Christine" de Benjamin Black e «O Mar» de John Banville - Opinião
Fui ler «O Segredo de Christine» por ter gostado de «O Mar» de John Banville. Black é o pseudónimo de Banville quando este escreve enredos mais policias, no entanto, voltando agora a ambos os livros, às suas personagens e enredos, e aos dramas que aqui são revelados, descobrimos mais traços comuns do que diferenças.
quarta-feira, 26 de janeiro de 2022
«Somos o Esquecimento que Seremos» de Hector Abad Faciolince :: Opinião
Aqui. Hoje. Já somos o esquecimento que seremos… Jorge Luis Borges
"Bairro sem saída" de Fernando Ribeiro - Opinião
terça-feira, 25 de janeiro de 2022
"A Ocupação" de Julián Fuks :: Opinião
segunda-feira, 24 de janeiro de 2022
«O AVESSO DA PELE» de Jeferson Tenório :: Opinião
"Às vezes você fazia um pensamento e morava nele.
Afastava-se. Construía uma casa assim. Longínqua. Dentro de si. (…) E apesar de
tudo, nesta casa, neste apartamento, você será sempre um corpo que não vai
parar de morrer. Será sempre o pai que se recusa a partir. Na verdade, você
nunca soube ir embora. Até ao fim você acreditou que os livros poderiam fazer
algo pelas pessoas. (…) É com eles que te invento e te recupero. É com eles que
tento descobrir quantas tragédias ainda podemos suportar (…)"
«O avesso da pele» de Jeferson Tenório arranca desta forma e
diz muito sobre a incompreensão e a dificuldade de relacionamento entre duas
pessoas. Uma realidade áspera, antes e agora, a de um filho que procura
recuperar e entender as memórias e ausência, uma ausência feita de objetos, feita
caos que comove.
A ausência de um pai, que pode ao mesmo tempo, ser um legado e um abismo. Um abismo do qual se abeira qualquer filho quando, entre pai e mãe começa mal. E daí ser tão pertinente: descobrir quantas tragédias ainda podemos suportar.
“(…) o que começa mal termina mal. Eram apenas duas pessoas
quebradas. Cada um com os seus cacos. Cada um buscando uma escora. O amor como
muleta. Naquele momento, a vida já havia tirado tanto, que vocês achavam
injusto que o amor não pudesse servir como amparo. Acontece que, em vez de
buscarem algo que pudesse reconstruíram os afetos, resolveram se cortar o que
restou."
Pedro, o narrador protagonista, perde-se na geografia vasta
dos afectos, a analisar o interior do labirinto que foi a vida familiar dos pais, e até a sua,
colocando na equação questões cruciais que se cruzavam com o amor, que o
delimitavam e definiram: a cor da pele! A pele na sociedade, a pele em todos os relacionamentos. A pele dentro da cabeça de cada um que é sempre mais do que pele.
Ou, e mais importante ainda, a conturbada relação entre pele e o avesso da
pele!
Mesmo com o ocutá atrás da porta, a pobreza, o
preconceito e a injustiça, espreitavam a cada esquina e aumentavam a ferida
funda que ameaçava rasgar o avesso, mas Pedro tenta, neste relato, recuperar os
afectos e entender todo o tipo de herança que lhe ficou. E o que fazer com ela.
“Li recentemente que as relações afetivas são formadas por
duas categorias: dos egoístas e dos doadores. Você era um doador nato. Minha
mãe era uma egoísta nata. (…) não a condeno por isso. (…) A infância nos
fornece certas mágoas e é com elas que lutamos.”
Jeferson Tenório explora os afectos, mas explora ainda mais
o viver confinado ao meio-fio da vida, porque a sociedade te coloca
nessa mesma berma, nesse lado marginal da vida e como combater para sair desse
lado, onde se é posto de parte. E o romance explora diversas formas de viver à
parte, por se ser lá colocado e por tanto se lutar pela integração, que a
pessoa acaba criando uma margem só sua, um lado de dentro só seu… uma forma de
alimentar uma solidão inacessível aos outros, talvez vencida, só pelos livros* e pelos
afectos (quando possíveis).
"Vocês só sabiam lidar com os afectos na precariedade. Vocês não eram equilibrados. Eram equilibristas. A corda bamba como terreno dos afectos"
É nessa corda bamba que, com um pé bem atrás do outro – passos curtos mas nem sempre
firmes - se avança, embora a dor e o trauma desenhem os contornos destas vidas, com que Tenório compõe um livro belíssimo. Duro, mas belíssimo.
* capítulo 7 de «O Jogo do Mundo» de Córtazar que eu fui descobrir graças aos livros aqui referidos
sexta-feira, 21 de janeiro de 2022
«Arco-íris» de Banana Yoshimoto :: Opinião
terça-feira, 18 de janeiro de 2022
«Os amores do Senhor Nishino» de Hiromi Kawakami :: Opinião
“Ato contínuo, ele colocou-se diante de mim. Tal como eu esperava, estava com cara de zangado. No entanto, a expressão era meiga. A doçura no rosto, o aprumo, a precisão com que atara o obi por mim era uma espécie de imagem de marca.”
"Nishino sorriu. Havia algo de misterioso no sorriso dele, como se soubesse de ciência certa que não existia nenhuma mulher capaz de o amar. O sorriso lembrava-me a chama azulada do aquecedor a gás."
Nishino e as suas amantes são tal como este frase: enigmática e ao mesmo tempo certeira, sem que perca uma aura própria que ecoa nos textos de Kawakami.
“À imagem e semelhança do colecionador que estica as asas de uma borboleta e as fixa com alfinetes numa caixa. Como quem manuseia delicadamente o corpo sem vida de um inseto, a fim de preparar o mostruário. Pode dizer-se que ele me captara. Sem me ter sequer tocado com um dedo. Sem que tivéssemos trocado um olhar. (...)
No entanto, tinha qualquer coisa de suave, de quente e infinitamente agradável, criando a ilusão de que a aura era o próprio Nishino.”
Ilusório é sem dúvida um adjectivo para a linha ténue com que se cose este enredo. Vamos conhecendo, mas pouco, a história de Nishino, pelas várias mulheres narradoras, das quais também apenas vislumbramos algumas características, para, uma após a outra, constatarmos que aqui o que importa é o mistério, os humores flutuantes e a melancolia e, até uma certa estranheza, tudo bem macerado com uma boa dose de Natureza que se cruza com a cidade e se prova em vários encontros gastronómicos. Detalhes esses que compõem muito cada breve narrativa e permite quase estabelecer um padrão, mas mais nas mulheres que tão fácil se aproximam de Nishino, como sabiamente recuam e o negam com subtileza.
"Imaginava que a luz secreta que caracterizava os nossos encontros - que podia ou não ser natural - se perderia a partir do momento em que deixássemos de ser apenas dois.
Tínhamos uma relação efémera. Era precisamente o que me agradava nela. Se começássemos a conviver com terceiros, receava que isso fizesse de nós «um casal». Mal isso acontecesse, a nossa relação ficaria exposta aos olhos do mundo, como uma fatura na parede, e seríamos forçados a acertar contas um com o outro."
No decorrer dos vários anos, as tonalidades com que estas mulheres vão colorindo ou acinzentando Nishino, mostram-nos também as oscilações nos seus próprios sentimentos e as relações entre algumas delas, num jogo subtil, onde se analisam com mais ou menos frieza, mas tentam perceber-se como parte de um todo, um corpo único que tentou amar e compreender Nishino, sem negarem uma certa exuberância que contrastava em absoluto com a tristeza espelhada no rosto (de algumas delas).
quarta-feira, 5 de janeiro de 2022
«De olhos fixos no sol» de Irvin D. Yalom :: Opinião
«Realize a sua vida»
e «Morra na altura certa»
Os epigramas de Nietzche podem resumir o objectivo deste «De
olhos fixos no sol» de Irvin D. Yalon, embora sejam mais fáceis de dizer do que
praticar. E é com isso que nos deparamos ao ler sobre a necessidade de nos
questionarmos e aceitarmos a inevitabilidade da morte e esse medo que nos
persegue, por vezes disfarçado de imensas fugas e sofrimentos mal resolvidos.
Reconhecer a ansiedade da morte é aceitar um caminho
manifestamente marcado pelo despertar de novas dinâmicas que trarão maior sentido
às interacções interpessoais, mas também àquelas em que dialogamos para dentro,
de modo a compreendermos que o que damos e deixamos aos outros não é mais do
que uma soma de atitudes e momentos que apenas perduraram no tempo através das
pessoas às quais nos conectamos (rippling).
Aceitar a morte ou encarar o sol de frente, reduzirá a
miséria humana, ou seja, reduzirá a origem, a raiz da maioria dos nossos
problemas. Ideia essa defendida por Epicuro e esmiuçada por Yalon nas suas
sessões de psicoterapia. E claro, parte do objectivo deste livro é explicar que
uma terapia bem orientada, numa base de empatia e conexão genuína entre o
terapeuta e o paciente é encontrar um meio facilitador para superar medos e
encontrar ferramentas de aceitação. E atenção, é aceitação, não rituais de
protecção, onde reprimimos e engolimos a noção da nossa natureza finita.
“A morte realmente faz comichão e é uma comichão bem
persistente; está sempre connosco, a arranhar alguma porta interior, a zumbir
suavemente, quase sem se ouvir, mesmo por baixo da membrana da consciência.
Escondida e mascarada, gotejando uma variedade de sintomas, é a fonte de muitas
das nossas preocupações, stress e conflitos.”
Ler este livro pode realmente abrir algumas dessas portas
interiores, mas o objectivo é mesmo esse, juntamente com relatos de casos
clínicos, mostrar aos leitores, uma panóplia de situações que escondem esse
receio da morte e o projectam em sentimentos, dores, preocupações e prisões que
diminuem a qualidade e a força da existência de cada um de nós.
“O escritor existencialista checo Milan Kundera sugere que
também provamos a morte através do acto de esquecer: «O que mete mais medo na
morte não é perder o futuro mas antes o passado. De facto, o acto de esquecer é
uma forma de morte sempre presente na vida.»”
Yalon vai mais longe e avisa-nos: contemplar a morte ou um
grande episódio de dor, podes ser experiências decisivas para despertar e
provocar mudanças, servindo-se de grandes filósofos (e não só!) para
desmitificar noções contraditórias sobre a morte que inflamam uma existência
menos independente.
“O leitor não poderá conectar-se ou dar seja o que for de importante aos que morrem, (…) a menos que esteja disposto a enfrentar os seus próprios medos, equivalentes aos de quem está a morrer, juntando-se-lhes num território partilhado. Ser capaz de fazer este sacrifício pelo outro é a essência de um acto de verdadeira compaixão e que traduz empatia. Esta disponibilidade para experimentar a nossa própria dor, em sintonia com a de alguém, tem feito parte da tradição curativa.”
A ideia poderosa do «eterno retorno» de Nietzche, em «Assim
falava Zaratustra» que propõe um desafio: "(...) e se pudesse viver uma existência
igualzinha à que viveu, uma e outra vez, por toda a eternidade, de que forma
isso mudaria a sua vida neste momento?”
Se a mera sugestão de que pode ser obrigado a repetir tudo é
assustadora, essa pode ser a força motriz que faltava para gerar mudança.
Ou seja, é o poder de olhar com maior transparência ao que nos acontece, permitindo uma maior higiene intelectual e equilíbrio emocional, alimentando a tão desejada serenidade mental ou equanimidade.
Mas o conselho maior é mesmo o de se socorrer de boas ideias, positividade e uma rede de boas memórias baseada na conectividade humana, combatendo a solidão e o isolamento e aumentando a compaixão e a empatia que permitem esbater a indiferença e baixar os muros da intolerância. E exemplo disso são sessões de psicoterapia que se sustentem na autenticidade, empatia e no olhar incondicionalmente positivo, criando uma interacção significativa.
«Palavra do senhor» de Ana Bárbara Pedrosa – Opinião
“Dei-lhes pernas para andar, joelhos para correr, braços para chegar à fruta e mãos para agarrá-la. Olhos para não bater nos troncos, dentes para trincar, língua para palrar até dizer palavras e poder dar nomes às coisas. No fim, pareceu-me funcional e algo rústico.”
Do rústico e por entretenimento,
tirou uma costela e fez Eva: “Já tinha aprimorado a forma, trabalhei os traços:
ancas arredondadas, barriga lisa, pele macia. No peito, carne que parecia inútil,
mas que viria a alimentar a espécie numa simbiose natural.
Tirei-a do homem por preguiça, mas quando ele percebeu julgou-a sua. Não foi logo, primeiro veio o pasmo de ver outra, e a confusão ao ouvi-la dizer «Eva». Tudo sem verbos ainda, o Verbo era só Eu.”
E da ausência de verbos, de
passado e de futuro, questionou o paraíso: “Davam as mãos em direcção ao
pôr-do-sol e não pediam mais da vida do que a felicidade até ao fim.
Chamam-lhe hoje paraíso, mas aquilo eram só árvores e maçãs. Não havia futuro nem passado, restava apenas um excesso de paisagem. Se acabassem com a fruta, que seria deles?”
Palavra do Senhor é isso mesmo, um livro de questionamento e reflexão, do que se construiu e destruiu com esse excesso de paisagem e uma mão cheia de abundância, ora de escassez, dominando a natureza inacabada de cada personagem que ditou o curso desta história às mãos da inevitabilidade do destino.
“Tinha sido feito para ser testado: já antes de nascer seria um assassino. Rejeitei-o antes de ter cometido o crime, a culpa e a morte eram a génesis da criação. Protestou contra a injustiça, mas falhou no alvo, quem morreu foi o irmão. Verdade seja dita, onde mais poderia gastar a sua raiva?”
Crime, culpa, castigo, o Bem e o Mal e um enredo com um narrador que compara os seus feitos a outros grandes da ficção, como Stephen King, teatralizando ainda mais o acto da criação e nivelando-o pelo que mais tem de terreno e palpável, sem esquecer um ou outro episódio mais transcendente.
“Não havia dúvida: quem nega o filho nega o pai, e ele assumiu a autoridade para falar por mim – espírito do seu sangue. Só assim poderia imbuir-se de uma razão maior do que os homens e então a sua palavra poderia ser igual ao Verbo. Não o pus no mundo para lançar a paz, mas uma espada, porque não quis barreiras para este cavalo à solta, e ele rasgou o ar com o seu golpe.”
Se dúvidas há sobre o conteúdo e a mensagem aqui habilmente compilados por Ana Bárbara Pedrosa, talvez baste dizer que enceta a desmistificação e concluí: “(…) todos saberiam que a razão última da vida era a família, que os humanos e os deuses deveriam unir-se para se protegerem uns aos outros.”
É um livro experimental, mas que
assume uma voz muito própria e até irreverente, mas bastante cuidada e que
desperta a curiosidade do leitor, seja para temas bíblicos seja para outros
livros da autora.
«TRÂNSITO» de Rachel Cusk - Opinião
“Concluía por vezes que as pessoas desejam aquilo que não
têm a certeza de poderem vir a possuir, outras vezes, a coisa parecia-lhe mais
complexa.”
Dito quase nas primeiras linhas, esta frase tornar-se numa
sentença que se estende como conclusão de diversos episódios ocorridos na vida
da narradora protagonista, Faye, que em busca de mudança, que já haviam sido
iniciadas em «Contraluz»,
a levam desta vez a procurar estabelecer-se por Londres.
Os desejos estão aqui em trânsito, e essa noção é de
confluência, quase de engarrafamento, onde uma série de coisas empancam, umas
atrás das outras, num curto espaço de tempo, tudo afazeres necessários aquando de
uma mudança. Como a casa. O foco desta narrativa.
Por outro lado, são também todas as coisas que surgem a quem
corre atrás de um tempo que parece ainda mais acelerado. E mais uma vez o
título funciona muito como metáfora para as ocorrências e encontros. Ela está
em trânsito entre duas realidades: a do eu unitário e solitário e a de
um eu mais universal, mais partilhado que comunga com uma realidade mais
sinérgica.
“(…) ao fim de tanto tempo, parecia ter criado um acordo
tácito de que, até estarmos ambos seguros do chão que pisávamos, deveríamos
permanecer em terreno neutro e orientarmo-nos por balizas públicas.”
Neutro é muitas vezes o terreno literário que se estende ao
logo de todo o relato, neutro pela ausência, quase total, de enredo, já que os
instantâneos da vida de Faye, embora narrados na primeira pessoa, parecem
isentos de avaliações sentimentais. Não o são, mas surgem de forma muito inteligente
e com um humor peculiar, expondo uma análise pelas atitudes de terceiros,
talvez até como forma de não acrescentar mais itens à lista de pecados que
Faye afirma possuir.
“Esta ideia de dois cães a partilharem a tarefa de decifrar
os sinais do falcão, achava-a muito empolgante. Sugeria que a realização
suprema de um ser consciente residia não na solidão, mas numa partilha tão
elaborada e cooperante que quase podia dizer-se que representava o entrelaçar
de dois eus. Esta noção, do eu unitário a ser rompido, da consciência, não de
um aprisionamento nas suas próprias perceções, mas, antes, como alguma coisa
mais íntima e menos dividida, uma universalidade.”
Da universalidade é compreendermo-nos pelo outro. Conclusões
encontradas no discurso alheio. Afirmando o poder restaurador que é escutar,
Faye, expõem-se menos, mas compreende-se nas revelações dos outros, que de
forma brilhante narra ao leitor, abrindo apenas pequenas brechas sobre si
mesma, como quem exercita e reforça, apenas em doses homeopáticas, o sistema imunitário.
E por isso afirma: “talvez seja só nas nossas feridas que o futuro pode criar
raízes.”
Ainda assim, a dualidade desempenha um papel importante, e
talvez por andarmos em busca dela se consiga encontrar um certo enredo, fruto
da natureza esgotante “(…) muitas vezes as pessoas se revelam,
involuntariamente, por aquilo que notavam nos outros.”
“(…) se não pode ser interpretada, então pela concretização
ao menos de um olhar humano admirativo, tal como uma pintura suspensa numa
parede, aguardando.
Embora com passagens muito bem conseguidas, há uma certa
redenção e um tom menos cáustico com que pincelou «Contraluz». E uma
agressividade mais contida e até contemplativa.
sexta-feira, 3 de dezembro de 2021
«Os dias do abandono» de Elena Ferrante :: Opinião
quarta-feira, 17 de novembro de 2021
«Vista Chinesa» de Tatiana Salem Levy :: Opinião
"Até aquela terça feira o medo era para mim uma abstração. (…)
Só quero estar livre para concluir minha travessia, eu disse a Diana. O luto do pedaço de mim que se perdeu...”
«Vista Chinesa» é um relato duro, mas cirurgicamente detalhado, tornando-se num poderoso testemunho de uma batalha individual pela superação após um ataque que revela raízes profundas e abrangentes. Essas raízes, lançadas pela guerra ancestral que é a violação das mulheres, uma violência intemporal e sem fim à vista, uma (quase) herança espiritual e energética que atormenta todas e que aqui são unidas pelo fantasma que as condena tanto psicológica como fisicamente, pois estar viva não é igual a se sentir viva e este relato é precisamente sobre essa luta. E sobre tanto mais.
Tatiana Salem Levy narra, com extrema concisão e numa linguagem visceral, tanto o episódio da violação, como memórias recentes associadas ao trauma e à luta íntima que é a vivência pessoal, e em família, após a violação. O fio narrativo é emaranhado e por camadas. Camadas de dor que vão solidificando e por cada camada uma etapa de luto.
A narrativa é intensa e coloca o leitor à beira do precipício, pois percebe-se que a autora quer manter a objectiva bem focada naquele episódio, com flashes bem vívidos, mas logo esbatidos pela dor, humilhação e medo. E é no meio desse caos e de uma euforia transtornante, entre a violência do ataque e a exasperação com a investigação policial, que se revelam todas as preocupações.
“Lembro de ter me perguntado se era por estar no meu lugar ou no lugar dela, uma dor inalcançável, a impossibilidade de um sofrimento físico, palpável, a lacuna que nos separava. Eu veria minha mãe emagrecer nos dias seguintes, mas ela nunca iria conhecer no corpo a agrura que eu havia experimentado, e não deve haver aflição pior que o desconhecimento tangível da dor de um filho."
Entre fragmentos da memória, surgem as expectativas com o futuro, num combate diário entre a expiação do mal e o amor pela família, o emprego, os filhos e o viver do dia-a-dia, enquanto aquela mulher se reconstrói. E reconstrói-se mais ainda por ela mesma, no entanto, faltam-lhe as palavras, falta nomear o que lhe aconteceu e daí este quase-testamento para os filhos, pois atormenta-a a dúvida: saberão eles? Eles que foram carregados dentro dela.
(...) ninguém sabe, nem eu sei ao certo, é tão difícil saber (...) meus filhos quando estavam na minha barriga sentiram um corpo inteiro ou um corpo fraturado, vocês são duas crianças lindas, perfeitas, mas por dentro serão inteiros ou, por terem recebido alimento e energia de um corpo rachado, também carregam uma alma rachada.”
Mesmo que seja uma herança hipotética, ela precisa se apaziguar e matar o fantasma da violação que paira sobre todas as mulheres e pela palavra há uma superação mais concreta. Tal como redescobrir-se sexualmente, daí a própria gravidez ser também analisada como algo visceral e ancestral. E novamente a dor. A dor primitiva e o grito selvagem.
Sem dúvida que o fio condutor é a dor, uma dor partilhada entre mulheres, que é visível no poder que tem o relato na primeira pessoa revelando a capacidade de Tatiana Salem Levy em se apoderar de um episódio real, mesmo que exterior ao seu corpo.
Outra preocupação deste livro é a de denunciar a dificuldade de um tratamento digno e sem histrionismos, seja em ambiente hospitalar ou policial e neste caso, vê-se uma condução desajeitada de toda a trajectória da investigação, que cede à pressão de ter um culpado, não o verdadeiro, mas apenas um que satisfaça as estatísticas e os resultados da própria polícia. Facto esse que espelha as preocupações sociais e políticas com um Rio de Janeiro em convulsão e com registos de níveis de violência históricos e persistentes.
“Vista Chinesa” é sem dúvida um livro intenso e completo, dando ao leitor muitos pontos de vista
segunda-feira, 25 de outubro de 2021
«Laços» de Domenico Starnone :: Opinião
«Laços» de Domenico Starnone (Alfaguara, Junho 2018), inédito em Portugal até este livro, recebeu no ano passado a adaptação cinematográfica, «Laços de Família», filme de Daniele Luchetti que não recebeu críticas equiparáveis às tecidas ao livro, no entanto, saber da sua estreia em Portugal fez-me querer recordar este enredo e a releitura foi ainda melhor do que o primeiro contacto com esta família disfuncional, cujo a relação segue caminhos sinuosos após o abandono (e regresso!) por parte de Aldo, o pai e marido adúltero, após um caso com uma mulher mais nova.
As fragilidades do enredo prendem-se com um lado banal das acções do casal: ele vive deslumbrado por Lídia e agradecido por ela olhar para ele, sentindo-se mais vivo do que nunca e Vanda encarna o papel de mulher traída da forma mais acérrima e tóxica possível, desgastando-se e desfigurando-se enquanto recorda o quanto hipotecou de si em prol do casamento e dos filhos. No entanto, é precisamente a forma como Starnone passa dessa banalidade, de forma muito simples e concisa, para as motivações que fazem girar este casal que torna o livro duro e brilhante. É como se o autor fizesse um raio-x ao lugar mais fundo e íntimo dos pensamentos destas quatro pessoas enquanto as décadas avançam e isto apenas em pouco mais de cem páginas. A capacidade de tecer toda uma cena, de anos, num pequeno parágrafo é de um poder de concisão que espanta e abana o leitor.
“Disparataste longamente, com pedante tranquilidade, acerca dos papéis dentro dos quais nos tínhamos aprisionado ao casarmo-nos – o marido, a mulher, a mãe, o pai e os filhos – e descreveste-mos – a mim, a ti, aos nossos miúdos – como engrenagens de uma máquina desprovida de sentido, obrigadas a repetir para sempre, os mesmos movimentos sensaborões.”
“As pernas sobem agora com base em hábitos adquiridos. E a tensão, a emoção, a felicidade do passo perderam-se, como se perdeu a singularidade da maneira de andar. Deslocamo-nos achando que o movimento das pernas é nosso, mas não é verdade, sobe connosco esses degraus uma pequena multidão à qual nos adaptámos, a segurança das pernas não é senão o resultado do nosso conformismo. Ou mudamos o passo – concluis – reencontrando a alegria do início ou ficamos condenados à normalidade mais soturna.”
Tudo nesta narrativa ganha outro impacto pelas palavras que são escolhidas, ci-rur-gi-ca-men-te e com uma precisão geométrica, não vá a palavra errada estragar o pouco equilíbrio que sobra ou arruinar uma pequena conquista. E ruina é bem o que se analisa com o final entregue às mãos dos filhos: Sandro e Anna.
“Olhei-os demoradamente. As crianças empurravam-se, insultavam-se, a mãe ameaçava-os. Levava um sobretudo fora de moda, eles calçavam sapatos deformados. Pensei: é a minha família a voltar do esquecimento, e vi de repente o meu lugar vazio ao lado deles, convenci-me de que tinha sido aquele vazio a modifica-los daquela maneira.”
Dito de forma disparatada ou não, a verdade é que Aldo tece desde o início palavras chave que determinaram a relação familiar: o conformismo, o casamento castrador, os filhos como extensão necessária de um casal, um repetir de movimentos que esmaga vontades e alegrias e o aprisionamento que são os anos que ainda lhes faltam. E aqui importa salientar que os que sobram e actuam como espelho são os filhos, levantando questões como: numa família tem sempre de existir o carrasco e a vítima? De que forma os papeis se invertem? E para a plateia (os filhos) o que sobra? Com os anos nada mais se acrescentar a não ser o cansaço?
"Agradava à Lídia, agradava a toda a gente. E, enquanto isso, uma névoa ia cobrindo o passado em que me sentira lento e inconsequente. Desvaneceu-se a casa de Nápoles, desvaneceram-se os parentes, os amigos. Permaneceram vivos, persistentes, a Vanda, o Sandro, a Anna, mas só enquanto a distância não lhes retirasse a energia, não retirasse espessura à dor."
Esta ideia da espessura da dor versus a distância e a invisibilidade é muito interessante e explorada mesmo quando o casal habita a mesma casa e envolve ainda outra questão: a do corpo estranho. É só o corpo da amante que é um corpo estranho ou os anos e a habituação ao corpo do outro também nos fazem estranhar um corpo que já não vermos? Quando é que o outro se torna invisível?
Oscilamos entre considerar uma família como um laço constante, apertado e que protege; para a considerar um somatório de jeitos que se dá para unir vários fios, com gestos automáticos e de olhos fechados, gestos já sem sentido. Dinâmicas inofensivas que roçam a ameaça.
"Sinto o meu pai e a minha mãe. Sinto-os pelas divisões silenciosas, juntos e separados. O Sandro murmurou: esconderam-se um do outro, mas não sem deixarem a ameaça de se descobrirem a qualquer momento."
sábado, 16 de outubro de 2021
«A Casa» de Emma Becker :: Opinião
“Falo de um mundo onde as prostitutas podiam escolher ser princesas, elfos, fadas, sereias, meninas ou mulheres fatais. Falo de uma casa que ganhava as dimensões de um palácio, a doçura de um porto de abrigo. Agora, o resto do mundo é, para estas raparigas, um matadouro.”
“Dois anos imersa num mundo onde elas se farejam da cabeça aos pés, e continuo a corar quando uma rapariga me beija o rosto.
(…) E, contudo, quando estava mergulhada entre as pernas dela a lambê-la, com um apetite pouco fingido, pensava naquela carícia banal na perna e imaginava o que poderia levá-la ao orgasmo e se ela tivesse sabido como o fazer comigo, que sítios tocar, que linguagem inventar para insuflar de novo esse arrepio de vida na carne."
Emma Becker, vinte cinco anos, recentemente chegada a Berlim, é a francesinha de serviço num bordel aconchegante que protege as suas mulheres e que elas carinhosamente apelidam de A Casa. Becker é autora e narradora desta experiência na primeira pessoa, já que por curiosidade e gosto por sexo, decidiu prostituir-se na Alemanha a fim de expor este mundo pela perspectiva mais pessoal de cada uma das suas companheiras. Desse trabalho sob disfarce resultou um livro, quase como um herbário: uma forma de as alfinetar como borboletas para mais tarde as contemplar. Um livro que é uma declaração de amor às mulheres, aos seus corpos e às suas vontades e a tudo o que a experiência lhe permitiu aprender.
“Antes de mais, há os saltos: ninguém conseguiria andar naquilo, eu certamente não. Contudo, parecem uma extensão tão natural da sua perna como um pé descalço. E aquele barulho, aquele estalido langoroso, ao longo dos dez passos, para lá e para cá, que lhe delimitam o território... ouvindo-os, sabemos que aquele ritmo sábio não pode ser produzido por uma rapariguinha cambaleante, ameaçando torcer os calcanhares - por detrás daquele som há sem dúvida uma mulher agressivamente sedutora, cheia de si própria.”
Percebemos desde cedo a fascinação de Emma pela Casa, seja por comparação à prostituição de rua, seja por outras casas, mas sempre mais pelas mulheres que lhe dão corpo e os objectos que compõem os quartos, tal cenário de uma peça, previamente encenada. Tudo terá um certo valor sentimental, embora o que mais interesse sejam os episódios que penetram nesses cenários.
“Penso sempre: eis mulheres que são verdadeiramente mulheres, que mais não são, de facto, do que isso. Eis seres eminentemente sexuados, passíveis de serem definidos sem qualquer problema. Se houvesse nelas o que quer que fosse de ligeiramente ambíguo, tal duplicidade ficaria imersa no excesso de ornamentos e feromonas com que saturavam aquele canto (…).”
“A junção destes dois aromas perenes tem algo de infantil e obsceno, como se farejássemos a roupa de um bando de colegiais, escondidas na casa de banho para fumar… e, nos espaços que elas enchem de gritos, pulverizou-se uma essência um pouco ordinária, entre o detergente e o desodorizante barato, queimaram-se cinco incensos diferentes numa tentativa infrutífera de dissimular o fumo, as axilas húmidas e os dedos pegajosos de homens que estão sempre de passagem; é uma nota um pouco acre, quase indiscernível.”
O sentimentalismo é posto de lado, tudo assume um tom prático, mas o êxtase vem da forma como é descrito, sempre bastante visual, sensorial e até luxuriante. No entanto, o enredo fica um pouco a dever ao ritmo, pois para além de alguns episódios que oscilam entre recordações de amores antigos e situações com clientes no bordel, o que o leitor mais experimenta são manifestos de afirmação, usando o tom explícito a favor daquilo que defende: o valor das escolhas a que cada uma tem direito e a exaltação (e compreensão) pelo desejo que se alimenta em corpos que não as alugam à hora. Ou seja, há desejo para além da prática daquela actividade profissional.
“Aquele que não fode. Aquele que vem apenas beijar religiosamente aquela coorte de vaginas morenas, loiras, ruivas, rapadas ou hirsutas, que enche o seu herbário de mil clítoris com desenhos sofisticados de catedrais, cheiros de vaginas e de rabos, e do qual nem suspeita que se alivia nas casas de banho com uma dança febril de punho.”
Um arrepio sente o leitor em alguns capítulos, que mesmo retirados do contexto, funcionam muito bem como pequenos contos, brindam à lassidão, às mulheres e à diferença, mas também contêm análise sociológica à profissão, aos clientes e aos motivos que sustentam uma das profissões mais antigas, nunca escondendo uma indolência, um tom de humor e o respeito pelo tema; o fio condutor é a qualidade literária de um enredo que pretende humanizar a prostituição e fazer pensar sobre grandes questões, a da motivação de ambos os lados.
“Será que alguma vez se para de verdade? Que acontece a esta sensação na boca do estômago, quando ouvimos alguém pronunciar, seja por que razão for, a palavra puta? Deixamos de ser capazes de discutir objetivamente sobre prostituição… e, de resto, trata-se de uma discussão a evitar, se não nos queremos trair graças a uma veemência irreprimível.”
“O verdadeiro problema é o tempo. Que se pode, contra o tempo? Talvez face a esse inimigo supremo, invisível, invencível, os homens saquem da arma do bordel como um pecado menor, mais desculpável, do que uma história de amor paralela, mais desprezível também, porventura. O bordel é a parte da humildade inexorável da sociedade… o homem e a mulher reduzidos à sua mais estrita verdade… a da carne, que saboreia, sente e estremece.”
sábado, 9 de outubro de 2021
«NADA» de Carmen Laforet :: Opinião

«NADA» de Carmen Laforet narra o despertar de Andrea numa Barcelona enegrecida e depauperada pelos anos do regime franquista que se entranhou desmedidamente na parte da família que a recebe e que é suposto educá-la.
"Sem pensar duas vezes, lancei-me na escuridão das ruelas que a rodeiam. Nada podia acalmar e maravilhar a minha imaginação como aquela cidade gótica. Naufragando entre húmidas casas construídas sem estilo no meio das suas veneráveis cantarias, mas às quais os anos tinham dado uma pátina de um encanto especial, como se tivessem sido contagiadas pela beleza. (...) O frio mais intenso, engavetado entre as ruas sinuosas (...). Havia uma solidão impressionante como se todos os habitantes da cidade tivessem morrido."
Entramos neste belo e terrível romance, como o caracterizou Mário Vargas Llosa, e somos desde cedo confrontados com uma assumida tristeza que quebra a energia inicial com que Andrea chega e percorre uma Barcelona nocturna e húmida, mas que ainda assim a conquista e liberta, uma liberdade que demorará até voltar, já que o desalento com o cenário familiar bizarro, que a recebe é composto por pessoas em ruínas, destruturadas e tóxicas que nos recordam os ambientes confusos, violentos e de terror dos enredos de Shirley Jackson ou os mais melancólicos e pesarosos de Carson McCullers.
A decrépita casa da Rua de Aribau é tal como a tia Angústias, “um bocado vivo do passado que estorva a marcha das coisas.” e “Os dias sem importância (…) pesavam como uma quadrada pedra cinzenta no cérebro.” de Andrea, que se entregou à inércia dos dias inúteis. E são precisamente nas descrições dos dias inúteis e povoados de Nadas que Laforet domina as emoções dos leitor e nos cerca com esse ambiente. A atribuição de cheiros à nostalgia e à solidão ou até à humilhação conseguem uma dimensão ainda maior para a dor e o abandono, que desafiam a "sombra gelada da tarde (…) uma tarde de luz muito triste.", como muitas tardes em que Andrea vagueia, salvando-a apenas um reduto de Natureza e a amizade com Pons e Eva.
Já os tios são personagens em constante devaneio, seres soezes, ordinários e agressivos, que encontram na violência e na humilhação, uma forma de expiarem dos demónios que os corroem, ainda assim são dignos de uma incompreensível estima e até carinho que gera uma repulsa, extensível à tia Angústias no que toca à capacidade de ferir os sentimentos alheios. Até a avó, essa última folha* de uma árvore já extinta, cujo os ecos ainda ressoam e vibram nos sentimentos de todos, sobretudo em Glória.
*”(…) tive a sensação de estar perante uma daquelas últimas folhas de Outono, mortas na árvore, antes de serem arrancadas pelo vento.”
Arrancados, desenraizados e desbragados são tanto os personagens como as discussões bafientas que alimentam esta estranha relação familiar, que vive de argumentos já gastos: “(…) como pássaros envelhecidos e escuros, com os peitos palpitantes por terem voado muito num pedaço de céu muito pequeno.”
Um pedaço de céu muito pequeno é a casa, também ela personagem. Acozinha, a sala, as escadas ou até o quarto-orelha, todo "funciona" como um conjunto desconexo e grotesco em que tantos os rostos vazios habitam a casa, como a própria casa os habita a eles e os ocupa com a revolta e o esforço que sobrou de um passado recente e marcante. A casa, a rua e a própria cidade, outrora como eles, seres dignos de destaque, sobrou em escombros e sombras, sendo metáfora para a critica social que se lê nas entrelinhas.
Contracenam com a desolação dos trastes inúteis, acabrunhados sob uma carga de desvario, uma amizade propícia a novos despertares dessa mulher-menina que é Andrea ainda que mergulhada em ilusões e sonhos do campo e que reverdece a cada reencontro com pedaços soltos de natureza naquele poço gótico que era Barcelona.




