quinta-feira, 13 de outubro de 2011

Money de Martin Amis, da Teorema

Dono de um olhar provocante e misterioso, Martin Amis escreve de uma forma ainda mais provocante e atribulada, especialmente para a época em que foi escrito Money (1982).

Como já referi o livro foi escrito em 1982, mas podia perfeitamente ser um diário de um actual industrial do dinheiro, movido pelas perversões demoníacas de quem o possuí em excesso (na opinião do personagem John Self nenhum dinheiro está a mais), e realmente de excessos vive este personagem, facilmente alucinado com álcool, putas e dinheiro e claro sem esquecer a droga e a droga de vida que leva.

A história negra e depressiva da vida de John Self é, com certeza, uma metáfora muito bem conseguida, que retrata toda uma sociedade que cria dinheiro a partir do dinheiro e que se rege pelas regras deste, não aprofundando relações, confiança, amor ou qualquer outro sentimento.

Aqui toda a gente tem um preço, aqui o dinheiro fede e é pestilento, aqui o amor é sinónimo de sexo e pornografia, mulher é sinónimo de objecto que se compra e troca, bem como qualquer outra pessoa que se interesse por dinheiro e tenha ou queira mais dinheiro.

Não sei se devemos sempre associar dinheiro a crime, corrupção, mentiras, falsos amigos e superegos, mas a verdade é que este livro os relaciona entre si e com tudo o que é doentio, imaginário, alucinante e viciante.

Enfim, Money, dinheiro, cheta, pilim, papel... é um abismo de sinónimos, um precipício a que a sociedade moderna nos habituou, apreciarmos e desejamos, querendo mais, mesmo vendo a queda monstruosa que essas escolhas nos trarão.

Quero ainda acrescentar que ao fim de... quem sabe 150/200 páginas habituamo-nos à linguagem e à vertiginosa e caricata forma de escrever de Martin Amis.

A propósito da sua escrita, existem dissertações ou quem sabe alucinações, muito bem esgalhadas:

"O medo caminha de cabeça erguida neste planeta. O medo quer, pode e manda, próspero e eminente. O medo tem-nos a todos presos por um fio aqui em baixo." - é sem dúvida um resumo do muito que se teme actualmente, em muitas das áreas da nossa sociedade.

É loucura e impensável, cobrir toda a escrita deste autor, mas dei por mim a divagar em muitas das suas ideias, apresentadas assim, como que, quentes e loucas, ritmadas e tão transparentes que nos chegam a assustar.

Outra frase com a qual, tenho dias, me identifico plenamente é: "A minha cabeça é uma cidade, e há várias dores que para lá foram morar." - é simplesmente brilhante!

"Eu tenho uma teoria acerca das punhetas. Acontece que preciso de contacto humano. Como não há aqui nenhum ser humano, tenho de ser eu a fornecê-lo. Pelo menos não tenho que pagá-las, são gratuitas, não exigem compromisso financeiro."

Só para finalizar: "Muito mal se diz da vida, mas é raro ouvir-se uma palavra de censura ao dinheiro. O dinheiro, isso sim é que é uma merda boa."

Enquanto Salazar dormia, de Domingos Amaral, Edição de bolso na colecção Bis da Leya

"Que monumento... Abençoadas entranhas que a criaram."
O comentário é sobre uma mulher, mas bem que podia ser sobre Lisboa.

Ao ler este romance é impossível não fantasiar com uma Lisboa misteriosa, recheada de espiões e jogos políticos, em tempos estratégicos de uma política ditatorial e de amistosas relações ora com Inglaterra ora com a Alemanha .

"No final da guerra, em 1945, eu já era um especialista em mistificação, boatos negros, sujar o nome das pessoas com intrigas, mas, em 1941 ainda dava os primeiros passos nessa sinistra arte..."

Domingos Amaral retrata, de forma factual, mas também romanceada, uma Lisboa cosmopolita, ansiosa por novidades, mística e até glamourosa, recheada de intrigas, paixões, luxos e mulheres bonitas, que se passeiam nos sonhos dos nossos protagonistas masculinos.

a propósito de Mary... "Jack, ajuda-me, estou a cair... Abracei-a. Mas, mesmo nos meus braços, continuou a cair. Homem nenhum tinha força para impedir aquela queda."

a propósito de Alice... "Sexualmente famosa, acompanhante de luxo, gananciosa, perigosa: Alice tinha todas as características de uma mulher a evitar."

a propósito de Anika... "... murmurou em alemão: Eu sabia que isto não ia resultar. Azar dela, eu tinha aprendido alemão na escola. Por isso repliquei na sua língua: - Isto o quê? Abriu muito os olhos: - Fala alemão? Sorri, de novo cínico: - Ninguém é perfeito."
Lindo!!!

Um livro com um ritmo apaixonante, pelo menos eu adorei Jack Gil e adorava ver a adaptação para cinema, quem sabe com Sean Penn no papel principal;) Confesso que a ideia do cinema não é minha, mas é sem dúvida uma excelente sugestão pelo Blog Porta Livros de Rui Azeredo.

Assim que apanhar mais alguma obra de Domingos Amaral, não hesitarei em ler e se fosse a vocês faria igual.

Deixo-vos com um frase fascinante: "O mundo é dos que o conquistam. Não dos que sonham."

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

"De cada amor tu herdarás só o cinismo" de Arthur Dapieve

"imaginara, também, sem saber por que....o cérebro vive a se auto-sabotar, Adelaide aos chupões com um rapaz negro, suado e forte, sem camisa, espremida num poste."

livro da irmã, lido no trajecto casa-trabalho em 5 dias
resultado final: 5 cantos dobrados, um quantidade infindável de expressão típicas que desconhecia mas fiquei a saber e uma quantidade infinita de pensamentos formulados com sotaque brasileiro.
:)
Livro interessante, fora do meu habitual. Gostei!
Gostei ainda mais de como ele me foi parar às mãos mas isso é outra história. O que me cativou foi mesmo o título
"De cada amor tu herdarás só o cinismo"

e pensando bem, tem muita verdade
quando a vida não corre como queremos, quando os outros não gostam de nós do mesmo modo que gostamos deles, se largamos tudo por algo que achamos ser melhor e no fim ficamos a zeros
é normal que só sobre o cinismo

Quanto ao livro, este fala sobre a vida de Bernardino de Oliveira, quarentão, criativo de sucesso da Manteiga Napoleão III e que teve começou a ver a vida andar para trás no dia em que os seus olhos se cruzaram com os de Adelaide e ela já se encontrava a olhar para ele.
E dai podemos dizer, vem em espiral até ao fundo do poço.

Aborda muita coisa, a diferença de idades, a privação da loucura quando se vive uma vida normal "casado e pai de filhos", o alcool, ali um episódio bem marado com drogas mas acima de tudo, o que me mais interessou, além de uma imagem do Rio por quem lá vive é a autosabotagem que Dino (diminutivo amigavelmente colocado por Adelaide) consegue fazer a si próprio. A autosabotagem de quem está a ficar louco de desejo, de algo mais, de amor, de parvoice.....chamem-lhe o que quiserem.