quarta-feira, 7 de março de 2018

«Livrarias» Jorge Carrión :: Opinião


Fiquei de olho no livro «Livrarias» desde o artigo do ipsílon onde José Riço Direitinho escreveu: Jorge Carrión, inveterado viajante, escreveu um livro que é mais do que um ensaio em redor de livrarias. Em tom melancólico, vai contando também histórias de leitores e de escritores em lugares que são uma "representação do mundo".

E foi exactamente isso que encontrei durante a leitura. Isso e uma extensa lista de livros para ler, filmes com que me deleitar e futuros destinos de viagem. Alguns é pena já terem desaparecido, caso contrário o roteiro seria ainda maior. 

Carrión afirma que as livrarias “São territórios sobre os quais muita pouca gente pensou, territórios quase inéditos em termos de estudos." E talvez seja isso que o livro se torna numa preciosidade. Apesar de "Uma livraria não ser mais do que uma ideia no tempo", afirmação de Carlos Pascual e com a qual o livro abre uma peregrinação para uma rota exótica e que parece longínqua, unida apenas pelos compridos corredores de estantes que unem leitores pelo mundo fora.

Os quilómetros de linhas lidas ou os metros de estantes que se percorrem com os dedos unem os leitores, mas Carrión sugere ainda uma colecção de carimbos, tal e qual como os peregrinos de Santiago obtêm na sua caderneta. A ideia é idílica, mas para leitores inveterados, apaixonados dos livros e dos espaços que os acolhem seria um objecto de valor inestimável. 
Eu chamar-lhe-ia a Caderneta do Leitor Peregrino.

"(...) senti que estava a selar algum tipo de documento, que ia acumulando carimbos que certificavam a minha passagem por uma rota internacional das livrarias mais importantes ou mais significativas ou melhores ou mais antigas ou mais interessantes ou simplesmente mais acessíveis naquele momento..."

"(...) todas as livrarias são convites à viagem, elas próprias viagens." e é isso que faz deste livro um convite ainda maior para entrar em tantos livros que o próprio autor sugere. Livros e autores, histórias de vida que se confundem com narrativas, livrarias que pela sua história davam um livro, mereciam uma viagem. Livrarias essa rede de túneis que permite abrir um livro e aterrar em Atenas, abrir o seguinte e chegar ao Japão. É essa a magia dos livros, magia em maior quantidade tem uma livraria e/ou biblioteca pela quantidade de livros que alberga. 
"A Biblioteca não pode existir sem a Livraria, que está vinculada, desde as suas origens, à Editora.
(...) A Biblioteca está sempre um passo atrás: a olhar para o passado. A Livraria, pelo contrário, está amarrada ao nervo do presente. (...) A Biblioteca é sólida, monumental (...). A Livraria, pelo contrário, é líquida, temporal, dura tanto como a sua capacidade para manter, com alterações mínimas, uma ideia no tempo. A Biblioteca é estabilidade. A Livraria distribui, a Biblioteca conserva."

Este é um livro por camadas, com histórias infindáveis e autores que perduram no tempo com os livros que nos deixaram e que, década após década, continuam a maravilhar novos leitores. Bem como livrarias que pereceram mas perduram pelos nomes que as frequentavam, pelas histórias quase míticas que ganharam à sua volta e por outras futuras que inspiraram. 
Carrión não esqueceu a Lello, a Bertrand ou a Ler Devagar, para falar de Portugal especificamente, mas o mais importante do livro é o apelo ao imaginário colectivo e a importância das livrarias na sociedade, como pólos de conhecimento, de cultura, de debate, de resistência e de fio condutor da memória. 

"Ninguém, nem sequer o dono de 89 anos, terceira geração, Mr. L., ninguém conhece as dimensões reais da livraria."
Lo Chin Cheng, Bookstore in a dream

1 comentário :

celina disse...

Já estava na lista, agora passou ara o TOP a adquirir!