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sexta-feira, 8 de março de 2019

«O meu amante de domingo» de Alexandra Lucas Coelho - Opinião


"Alguém com uma vingança nunca está só."


Há um "não sei o quê" que me puxa para os livros de Alexandra Lucas Coelho (ALC) que eu não sei o que é, mas que me leva a entrar neles adentro e só sair quando atinjo o fim. 
Encontro sempre personagens que têm um traço meu, neste claramente é a linguagem desbragada, como muitos me acusam de ter. A narradora consegue ser fulminante com alguns comentários e pensamentos tóxicos, no entanto, o tom que o romance leva, que se esforço por não querer parecer sério, faz-nos cingir essa linguagem à revolta e à fúria que aquela mulher sente e então passa a fazer sentido.

"Lá fui para a Bobadela à hora a que já estaria no centro de Lisboa a nadar, apurando a cada braçada o sofrimento mais adequado a um filha da puta criativo. Roda? Garrote? Esmagamento por pata de elefante? A vingança é muito subestimada até se manifestar (...)"

Neste "O meu amante de domingo" há uma mulher esmagada pela solidão imposta pelo árido Alentejo, sufocando-a num espaço aberto mas exíguo delimitado por um muro. E isso pode, e deve ser, metáfora para tanta coisa seja na vida desta personagem, seja nas vidas que lhe quisermos juntar. Isto para dizer que sinto sempre os livros de ALC como tratados sociológicos cheios de detalhes reais, mas que fogem para um campo surrealista pela riqueza com que a autora divaga e cruza referências. Aqui, a cabeça do autor viaja entre defuntos, vinganças, memórias póstumas e sexo sem compromisso entre viagens a Lisboa. 

"Porque confiei naquele cabrão? (...)
O decapitador dará a mão ao filho depois dos trabalhos do dia, talvez até lhe ensine como é isto de cortar cabeças, talvez lhe cante uma canção. Amor total e ausência de amor são quartos contíguos da mesma casa."

Todo o livros está pejado de referências, Machado de Assis, Nelson Rodrigues, entre outras que não Literatura, ainda assim, vemos que o foco central é a revolta de uma mulher que busca no sexo ocasional uma ligação para compreender que é no sexo que tudo conflui: nada nos aproxima tanto, título de um dos capítulos, resumo bem essa ideia. Sexo, paixão, revolta, vingança, geram e são emoções associadas a tantas outras: solidão, desconexão, fracasso, entrega, medo... Tal como a paixão, o sexo ou a amizade.

"Toda a paixão é um ataque ao sistema imunitário. Se precisamos dela para viver, mais precisamos que ela acalme, ou seja, acabe, para continuarmos vivos."

sexta-feira, 14 de setembro de 2018

"UPA-LA, UPA, UPA, UPA-LA"

"UPA-LA, UPA, UPA, UPA-LA" ou «A nossa alegria chegou» é o regresso, esfuziante e fantasioso, de Alexandra Lucas Coelho ao romance.



Agarre neste livro e num pano de estampagem colorida, tire os chinelos de enfiar no dedo e siga pelo trilho mais isolado até à praia. Sinta o calor da areia a espalhar-se pelo dedos, a chegar aos tornozelos, deixe a brisa invadir-lhe o rosto. Encontre um pedaço de areia só para si e leia. Leia sem parar. A sensação que se tem com este livro é de que Alexandra Lucas Coelho (ALC) o escreveu de rompante, tal é a energia com que nos agarra e prende do princípio ou fim da leitura.

"- A história do mundo começou em Alendabar, contam os nativos!
O convidado está disposto a concordar, perante o que vê. Uma orla florejante bordeja o areal, extensíssimo. Num extremo da praia, a falésia negra, encostada a um vulcão. No outro, a foz do rio incandescente (...)
Valeu a pena contornar o planeta, pensa. Nem muros nem mastins, a selva será a melhor guarnição."

Alendabar é lugar imaginário, tem cheiros fauna e flora e, restos de uma língua perdida entre canoas e um povo que se balança nas redes suportadas pelas morambeiras. Povo esse que come as cinza dos seus mortos, misturada na polpa tenra e fresca das morambas, num ritual ao pé do rio que abriga os mitos dos seus deuses ancestrais.

"Há milénios que as morambeiras de Alendabar são o braço a camas de rede, guarida a barcos de pescador, além de tudo o que nelas pousa, mora, se come ou se bebe. (...)
Mais antigo, só o cacto flor de índigo...
(...)
Fantasia é quase fé. E um sexo exposto é deus."

A escrita escorreita e tão directa de ALC quase que ataca o leitor. Há coisas escritas de forma tão declarada, tão escarrapachada, que o leitor até precisa de as ler duas vezes para as perceber melhor, e percebeu, é claro que percebeu, mas é essa incidência, esse lado tão incisivo que abanam o leitor.

"Então Aurora parou de pensar nisso. Pensou que pensar nisso é que era um truque do mal para nos desorientar, até não acreditarmos em nada. E quando não acreditamos em nada o mal ganha. Não podemos esquecer quem é o verdadeiro inimigo. O bem não é um truque do mal. O bem é acreditar que o mal não levará tudo. O bem é a luta."

E sim, este é um livro de luta, de denúncia, do mal contra o bem, da inocência da idade, mas da pouca idade marcada pelos desaires da vida. Aurora, Ossi e Ira são três jovens em defesa desse bem, buscando o lugar próprio de cada um entre a tirana que escraviza e amedronta. Tá cá tudo, neste livro cheio de foco: política, escravidão - a mais velha de todos os tempos e a mais moderna, a poluição e a preocupação com o ambiente, as questões de género e de igualdade, a falta de ética da exploração animal e a violência inerente, a ganância e a demência dos tempos modernos; mas também o amor, o luto, a paixão, o sexo e o acreditar que a vida pode ser sempre mais.

"Não há nada mais vazio do que um ecrã negro de um computador. (...) e dentro desse espelho dorme a voz que Zu mais ouviu nos últimos anos. Como pode ter saudades de alguém sem corpo, sem coração? Se Jade existe, como pode não estar com ela agora? Se Jade não existe, que faz ele aqui, de computador aberto?
(...)
Jade é a bela adormecida deste tempo. Aquele que nem pode ser beijada."

Alendabar tem aura de mil e uma noites, onde o sultão é o leitor, entretido pelas histórias, não de uma bela condenada à morte, mas de três jovens que parecem viver uma aventuras de «Ali Baba e os 40 ladrões», não no deserto mongol, mas numa praia de «Lagoa Azul», ou não fosse os cabelos loiros de alguns dignos de um espectáculo exótico.

Nestes cabelos loiros, a história é tecida com outros fios e unida à de Atlas, por quem Felix e a mãe estão de luto. Por fios ainda mais imaginário, há a história de um convidado, Zu, que encerra em si os medos e as ansiedades do homem moderno, essencialmente em conflito consigo mesmo.

"O humano é esse primata, não o que fala, não o que pensa, mas o da planta do pé arqueada que imagina histórias, ri com elas, chora com elas. Só ele sabe como estar vivo é o grande buraco negro."

domingo, 12 de abril de 2015

«E a Noite Roda», de Alexandra Lucas Coelho :: Opinião


Quem já leu Alexandra Lucas Coelho saberá o quanto é difícil falar da sua escrita. Enquanto lia este «e a noite roda» apelidei-o logo de frenético, mas é mais. É um romance sem rodeios, sem floreados. É um relato de viagens bem viajado, de quem está num local e tem a cabeça num outro ou em vários, ainda assim, as referências que surgem de divagação, não atrasam ou demoram, antes pelo contrário energizam o romance, a viagem.

No Livro do Dia da TSF, Carlos Vaz Marques intitula esta escrita exacta e frenética assim "(...) com um poder de observação invulgar e sem excessos. Uma escrita no osso." É isso mesmo, há aqui como que um esqueleto, frágil, mas complexo, que se enreda e se dispersa, mas nunca esconde ou "engana" o leitor. O fim é desde a primeira página anunciado, mas a atenção fica presa no querermos saber o que aconteceu, por onde viajaram Ana e Léon.

Tudo roda, a noite, os amantes, a política, a guerra, os fieis e os infiéis, a música, a vida. Às vezes tudo roda sem que nada saia do sítio e é essa a capacidade intrínseca na escrita de Alexandra Lucas Coelho de meter o leitor num rodopio.

“Fazemos as perguntas dos estranhos sem nunca termos sido estranhos. Há dois diálogos a acontecer ao mesmo tempo. As palavras são as de quem não sabe o suficiente, o silêncio é o de quem sabe demasiado. A nossa intimidade fica a pairar, como se não soubesse para onde ir.”


Há sempre um jogo entre os amantes, uma ligação, que mesmo a milhares de quilómetros de distância tenta mantê-los unidos. Existe a falta que ambos fazem na vida do outro, mas há uma vida que mete outras vidas em jogo. Poderia ser apenas mais uma história de adultério, de vidas aceleradas, vividas ao minutos em ambientes de elevada tensão, onde o prazer justificasse as acções, mas não é isso que Ana nos vai relatando. A sua história com Léon assume mais que só esses contornos e é o tom vivo e enérgico, como quem está na rua e precisa de fugir a um conflito, mas tem de narrar a sua história, sem esquecer detalhes, mas sabendo que a economia das palavras a fará ganhar imortalidade.

A troca de mensagens é continua entre Ana e Léon e também isso dá outro clima ao livro, quando ela lhe relata o significado de "men aiuni" a expressão árabe que expressa muito mais que "dos meus olhos". A intensidade do amor sente-se na agitação das vidas e na ausência que causam um ao outro.

"No começo de Abril escreves a contar que passaste três dias terríveis em Paris, a andar nos nossos passos, sentado à mesa onde uns apaixonados se olharam nos olhos e pediram champanhe e queijo, sozinhos no mundo. E perguntas se me deves contar isto (...) achas que o silêncio é mais obcecante?
Não é o silêncio que te obceca, sou eu, dizes."

Longe de uma vida comum ou em comum o livro está pejado de detalhes deliciosos, sensíveis e que fazem o quotidiano dos apaixonados. Simples, mas muitas vezes angustiante. A certeza que o fim nos dá confunde-se com a incerteza do que ocorreu durante todo aquele tempo. Há acontecimentos chave que envolvem o leitor e um rol de referências, essencialmente as musicais que bem que o livro poderia vir acompanhado de banda sonora. 


"O mundo real é o que inventamos para viver, não porque o mundo seja bom e belo, mas porque é sobretudo o contrário. Arrancar a vida ao dia-a-dia, será isso a poesia. E muitas vezes estamos incapazes de falar, é preciso simplesmente dizê-lo. Perdoa-me este P.S. Acordei como se me arrancassem o coração."