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segunda-feira, 26 de agosto de 2019

«As longas noites de Caxias» de Ana Cristina Silva - Opinião


«As longas noites de Caxias» de Ana Cristina Silva é um livro necessário essencialmente para recordar a maldade inerente à polícia política do Antigo Regime, mas mais do que tudo expor a maldade no feminino, daí que a PIDE venha na imagem da agente Leninha. No entanto, para deixar uma marca maior no leitor a autora podia ainda ter encruado mais o discurso, fosse no caracterizar das personagens fosse das descrições das longas noites. Ainda assim é um documento extremamente importante, e interessante, para se pensar a perseguição política e a humilhação a que tantos homens e mulheres foram sujeitados. Em certas partes, a linguagem com um leve toque poético não lhe cai mal, mas distraí o leitor do importante: a violência, o ódio, a injustiça e o clima de medo. 

"Como represália, gritaram-lhe que fizesse a estátua: «Agora vais fazer de Cristo». Um dos agentes riu-se e os outros pegaram-lhe nos braços. Laura sentiu um calafrio, uma horrível sensação causada pelo toque das mãos suadas na sua pele. Bastavam poucas horas naquela posição para ficar rígida como um cadáver. (...) 
As noites pertenciam às agentes femininas que as impediam de dormir. (...) - Leninha, Odete ou Lourdes - ia batendo com  moeda debaixo da mesa. Aquele ruído tinha o som de um trovão numa penumbra de profundo silêncio."

Há um constante duelo entre Laura e a agente, no entanto, a narrativa segue um outro rumo a partir do momento em entra mais na vida de Leninha e vemos que a sua luta é muito anterior à PIDE e percebemos o seu caminho pela violência, trazendo quase que uma justificação. 

"No dia em que Salazar foi a Setúbal e beijou Maria Helena na testa, o seu pai deu uma tareia à mulher."

Nestas descrições de época, retratando as décadas de ditadura e a necessidade de deixar muitas palavras rentes à boca é que conhecemos o outro lado, o de Laura, a jovem a quem é dada a oportunidade de vir para Lisboa estudar Direito e que por aqui, anos mais tarde, entra na luta e na resistência estudantil e é com ela que a autora nos a pensar na sobrevivência e na superação do trauma. Se é que é possível,  como e com que limitações.

“A vigilância praticada pelos agentes da PIDE era um serviço de Estado Português. O seu propósito secreto era o de que as pessoas deixassem de ter pensamentos para se transformarem numa frágil teia de espírito permeável ao terror.”

Quase no final, o testemunho da agente, carregado do palrar patriótico e a justificação pela lealdade e cumprimento de ordens, juntamente com nenhuma procura por redenção ou perdão, intensifica os traços psicológicos da personagem ligando-a à enorme desumanização de todos os regimes. 


sexta-feira, 7 de dezembro de 2018

«Salvação» de Ana Cristina Silva - Opinião


"Não grito menos, talvez grite mais baixinho, não choro menos, mas talvez as minhas lágrimas se tenham tornado menos silenciosas. Pela aritmética passaram seis meses desde a morte de Sofia, pelas minhas contas não passou nem um dia."

"Salvação" é um livro de recolhimento na morte e de superação pela escrita. Ou do processo de criação de personagens com as quais se reconstrói um sentido para a perda, o luto, mas também o perdão.

"Eu e David Negro recolhemo-nos na morte da mulher amada e tornámo-nos um só. Esta absorção de um no outro explica que tenha conseguido escrever um capítulo num único mês como se a minha personagem tivesse pegado na minha mão e redigisse por mim as frases."

Colonizado pela dor, o narrador deste livro dedica-se a preencher os seus dias com a escrita de um romance, um novo livro imposto pelo mulher que acabou de falecer, um pedido feito estratégia para que ele supere o luto.
Dividido em pouco mais de doze meses, acompanhamos os capítulos de "O Livro", escrito também sobre o luto e a perda de uma filha, onde o protagonista David Negro expõe as suas mágoas, memórias e reflexões. Ao mesmo tempo, em capítulos que são as fases de luto do narrador, vamos sabendo mais da sua vida com Sofia e do seu dia-a-dia lutando pela superação.

"Desde que a minha mulher morreu o meu luto tornou-se num dilúvio que não deixa espaço para mais nada. A dor não é um local iluminado (...) Mas neste momento, sinto que a jornada de David Negro se transforma num dever que vai para além do pedido de Sofia, ainda que esse percurso não esteja, nem nunca possa estar, separador dela. Até porque é minha intenção apontar o dedo ao deus a que ela tanto rezou e aprisioná-lo numa rede de acusações."

No longo corredor que é o luto e no qual não é possível passar a correr, o narrador embrenha-se numa complexa rede de memórias, no sofrimento e na culpa, sem esquecer acusações e dúvidas, onde Deus tem um papel decisivo, mas a História e o seu curso também. A forma como "O Livro" percorre séculos, o rumo dos eventos chega até aos actuais e as inquietações ancestrais são equiparadas às de hoje: as crises de fé e de valores e as consequências no ser humano. E assim, desta forma, Ana Cristina Silva cava ainda mais fundo o fosso do abandono e da culpa, retratando muito bem o lado emotivo dessa pressão psicológica.

"Continuo a falar com a minha mulher, mas lentamente a morte de Sofia vai deixando de ser a medida de todas as coisas. (...)
Se a dor tivesse assas e batesse, diria que o seu movimento se foi tornando mais suave (...) Porém, o sofrimento do luto não voa, apenas pulsa por dentro (...) tanto assim que só vivo para me afundar na memória dos tempos felizes."

Se retirássemos os capítulos que dizem respeito à escrita de "O Livro", a maneira como a autora relata a perda e a dor é de tal forma emotiva e insistente que traz o leitor para o sofrimento do narrador, tornando a leitura quase aflitiva. E quero com isto dizer que é extraordinária essa capacidade, pois não acho que caia na repetição, mas sim aumentando a densidade psicológica do personagem.

"(...) Em cada intervenção, ele alcança um novo patamar de profundidade, frases empolgadas, quase poéticas - como se existisse uma estética da morte - (...)"

Também seguindo uma estética da morte, associada à própria estética de fé e crença, "O Livro" transforma-se num romance histórico que denuncia e relembra o fanatismo religioso do século XVII e o liga aos eventos violentos actuais para os quais o próprio escritor se sensibiliza quando o luto lhe permita se ligar novamente à realidade que o rodeia: a morte no espectro do fanatismo jihadista.

"Há um momento em que tenho o mais absurdo dos pensamentos: talvez estivesse a ver repetidamente o mesmo grupo de pessoas a sofrer o mesmo atentado (...) Como se aquelas pessoas não tivessem individualidade, como se se tivessem convertido num borrão desfocado de um ecrã, como se a morte se tivesse tornado uma banalidade."



terça-feira, 21 de março de 2017

«Cartas Vermelhas» de Ana Cristina Silva :: Opinião


Carol, nascida em Cabo Verde, forma a sua identidade política, de ideais comunistas, enquanto estuda e vive a sua juventude em Lisboa, algum tempo depois já mãe, vê-se obrigada a deixar a filha num colégio russo para levar a cabo as suas missões partidárias. Os anos decorrem, os amores chegam e partem e a militância comanda-lhe os sonhos e a vida. Agora é tempo de reencontro, mas já passaram mais de 20 anos.

"O meu propósito não era modificar o passado, tão-pouco configurá-lo numa versão benigna, favorecendo-me através da descrição das circunstâncias que limitaram as minhas escolhas. No fundo, apenas desejava que reconhecesses como eu fora arrojada nesse tempo em que imaginava um novo mundo onde a felicidade dos homens viesse a ser saciada."

"Só a paixão detém poderes para anular as distâncias. Só esse estado fulminante faz com que o amor se perca de toda a racionalidade."

Sem modificações ou versão benigna, viajamos com Carol pelo seu passado, relatado através da sua memória, não para trazer de volta os anos que se perderam entre mãe e filha, mas para relatar o que foi a sua vida nos cerca de 20 anos de ausência na vida uma da outra. Desde a infância em Cabo Verde, até aos anos em Lisboa, e às missões pelo estrangeiro, tudo vai sendo relatado ao longe de capítulos que demonstram a escrita cuidada e equilibrada de Ana Cristina Silva. 

"O povo de Cabo Verde não era formado por gente, mas por silhuetas famintas que se moviam lentamente. Mas os miseráveis da Cidade da Praia (...) em vez de chorarem lágrimas crepusculares, quando a luminosidade do dia declinava, preferiam entoar cânticos festivos na praia, ao som de tambores."

Do amor a um povo e a uma cultura que sempre desinquietou Carol, rapidamente passamos à admiração pelas palavras visionárias que a fizeram abraçar a causa comunista. E também abrir espaço a novas aventuras e amores que a consumiam com o fogo da paixão, mas também a lucidez de uma mulher que se desejava independente.

"O discurso dele ia ao encontro do que sempre procurara em Cabo Verde e nunca descobrira. A justiça da doutrina inspirava-a. Ele não se exprimia como quem dá lições, mas como um verdadeiro visionário."

"Aquele beijo constituiu para Carol a verdadeira origem da autoconsciência do seu poder de mulher. Apesar da inexperiência, intuíra que, como em certos livros, no amor há sempre um que ama e outro que é amado..."

Avançamos enredo adentro com as várias identidades que Carol assumiu, mas aceitamos desde logo que a política e as suas aventuras e desventuras são o foco central do livro, as paixões, os homens, os amigos, os militantes, os destinos, são meros veículos para conhecermos esta mulher que agora se apresenta, por via da ficção, à filha Helena. A narrativa espelha uma certa angústia e um tom distante, mas, a meu ver, em busca de reconhecimento pelo percurso que traçou. 

"Ao relembrar o que aconteceu, puxa-se o fio de um novelo cuidadosamente enrolado. Um romance favorece uma história coerente, conseguindo atenuar a incongruência de certas acções, abrindo caminho para escolhas plausíveis que ficam bem numa narrativa, mas que na vida real revelam consequências devastadoras. Se confiarmos no texto, fico mais parecida com uma criatura mais fiável e corajosa."

sexta-feira, 1 de abril de 2016

«A noite não é eterna» de Ana Cristina Silva - Opinião



Na Roménia de Ceausescu, sob a alçada comunista, desenrola-se este «A noite não é eterna» de Ana Cristina Silva, trazendo até ao leitor uma aura de sofrimento, opressão, ditadura, frieza, mas também redenção, amor e esperança.

"(...) Sentiu-o antes de o compreender totalmente. Era sem dúvida, um desejo inútil, fazia o mesmo percurso do pó que corre à nossa frente sem nunca se materializar."

Nadia é sem dúvida como o pó, parece sempre que nunca irá materializar os seus desejos, mas a vida e as pessoas com quem se cruza irão permitir-lhe um outro percurso. Não menos sofredor ou previsível, mas diferente daquele que chegou a desejar.
Nadia é mulher de Paul, um entusiasta do partido que tudo faz para ascender até chegar ao ponto de entregar Drago, o filho de ambos com três anos, para alimentar as ideias do ditador de reforçar os orfanatos que serão, num futuro breve, as novas forças do partido e da pátria.

"Quando uma criança desaparece, gera-se um enorme silêncio em redor da sua ausência."

Revoltada, mas remetida ao silêncio que o marido e a política exigiam, a subtil Nadia terá de conseguir ver novamente o filho, mesmo que isso a inundasse de pensamentos loucos e vontades inimagináveis, levando-a a uma fragmentação total.
A narrativa da autora demonstra bem o sofrimento e o sufoco, porém, a forma como a mesma encontra para conferir acção ao desejo de vingança de Nadia parece-me, em parte, suspeita nos tempos que se viviam na Roménia, se bem que o aparecimento do inspector Pacepa vem corroborar a sua actividade nos orfanatos. Que por mais de uma vez a autora impõe ao autor de forma bastante sensorial.

"Eram casarões escuros com nuvens de crianças magras de rostos tristes e macilentos. A fome estava sempre presente nas suas caras e, pelo que Nadia percebeu, os castigos eram arbitrários e sem critérios."

Gosto da forma como com uma frase curta, no máximos duas, a autora consegue dar-nos cenários bastante vívidos ou descrições simples que demonstram a dor e o quanto perdida se sente Nadia ou como a frieza e o tom autoritário do marido cobrem a casa com uma aura de medo.

"A justiça era assim mesmo: uma enorme máquina de triturar. E ninguém pensava em protestar porque se vivia fechado no medo e no silêncio."

Apesar do medo, a resistência e a redenção chegam na forma de um homem muito distante do padrão que pautava a vida de Nadia. Com Vasile abre-se um sentimento incontrolável de desejo pelo futuro, o que desperta nela uma luta interna demonstrando o peso de uma dor tão íntima.

"A dor surda estava lá, tanto assim que ela chorava nos seus braços, mas essa condições parecia transformar-se noutra coisa, numa esperança qualquer.
A calma da noite era quase perfeita com a neve a cair(...)"

Foi uma leitura interessante, mas achei o rumo previsível. Se o fim fosse mais negro...


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