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quarta-feira, 6 de julho de 2016

«A Viagem Vertical» de Enrique Vila-Matas :: Opinião

"Senti-me de repente contagiado pelo encanto natural e pela queda livre e descida vertical para o Sul daquele senhor de Barcelona que dizia ser nacionalista e a quem o abandono da mulher o transformara em alguém que, de forma possivelmente inconsciente, começara a empreender uma lenta descida para o mundo dos deslocados e dos excêntricos."

"Que destino nos revela a mão sem linha da vida?" (Al Berto)
Talvez esta seja a questão fundamental assim que começamos a ser puxados para esta viagem descrita por Enrique Vila-Matas. Com um humor peculiar, ficamos presos à história a partir do momento em que, entre alfaces e beringelas, um casal se mostra inflexível perante os ajustes que a vida lhes exige.

"- Tudo isto é por causa das alfaces e das beringelas, tenha a certeza. Isto disse Mayol e depois começou a alimentar a desesperada esperança de que a estranha atitude da mulher fosse passageira.
Mas uma semana depois, Mayol, refugiado num bar da Praça Letamendi (...) já sabia que lhe restavam poucas esperanças de que a atitude da mulher fosse passageira."

A vida corre mal a Federico Mayol e a mulher não é o único dos seus problemas, já que os filhos do casal, especialmente o jovem e artista Julián, não partilham das inquietudes do pai e ainda o confrontarão com dúvidas e algumas verdades que Mayol não aceita bem e isso leva-o a partir.
Aliás, são várias as viagens que este septuagenário empreende para redescobrir o sentido da vida. E logo ele que supostamente nunca questionou os caminhos que foi seguindo.

"(...) sentiu que regressava em força à sua consciência a ideia trágica do sempre mutável que é o ato de recordar as transformações que as lembranças sofrem ao serem revividas, a dificuldade de dominar com plenitude total a memória do que foram os nossos dias (...)"

A narrativa de Vila-Matas espelha constantemente essa preocupação com as memórias e o que com elas fazemos, aproximando-nos ou não, dos outros e de momentos que podem ter sido decisivos e que só mais tarde, revivendo-os, aceitamos e acreditamos terem sido determinantes. Todo o livro em questão funciona como uma viagem de regresso e isso sente-se a partir do momento em que, entre amigos, o personagem é aconselhado a viajar apenas para locais onde já esteve. E isso é algo muito interessante na medida em que evoca aquilo que já fomos, provocando confronto.

Entre deambulações, que são várias, sente-se uma alargada critica social, uma constante avaliação da vida conjugal e da paternidade, mas nunca sem esquecer, a religião e a fé, a política e a ditadura e o peso da formação e da educação para o indivíduo que no final da vida sente que o rumo do seu próprio país e da família lhe ditou certas limitações.

"Como ninguém está contente com a sua própria vida, aquele que julga conhecer quem ou o que a estropiou, nunca se esquece do responsável por essa vida não ter sido como esperava."

«A Viagem Vertical» está recheada de cenários hipotéticos, nas divagações e pensamentos que o personagem partilha, mas está também pejadas de cenários muito sólidos, quase como um roteiro que se abre na nossa mão e nos convida a deambular pelas cidades que Mayol visita, convidando o leitor, a perder-se nos becos e vielas, primeiro do Porto, depois Lisboa e por fim já na Madeira, mas talvez esse seja o destino mais metafísico desta viagem.

Entre algum alheamento e reflexão, somos levados para a intertextualidade que a critica em geral aponta às obras de Vila-Matas, neste livro em específico para alguns poetas portugueses. Em algumas passagens, mesmo que sem referências, a forma como o texto está construído apela a um certo encantamento pela poesia alheia.

"(...) tinha vinte anos e, nos primeiros meses, quando não estava no Internacional, dedicava-me exclusivamente a ler, a ler muito e a praticar a saudade, que era e é um sentimento que me encanta apesar de não saber muito bem o que consiste, e talvez por isso me agrade, porque pode ser o que se quiser."

Até certo ponto vamos sempre querendo que a viagem vertical se refira a algo mais transcendente, ultrapassando a própria verticalidade entre os destinos escolhidos, mas um certo acaso altera o enredo. No entanto, daquela imaginação prolifera esperava-se um final mais ao jeito do episódio, "o assassino de taxista da Marginal", que é talvez das partes mais humorísticas de todo o livro.

"Para chegar a essa reflexão, o taxista começou por fazer uma declaração extravagante, definindo-se como um pagão convicto.
- Cheguei a um momento da minha vida - disse, entre outras coisas, a Mayol - em que preciso de rezar. Por esse motivo inventei uns deuses e rezo a eles."

A conversa extravagante e insólita estava só a começar e toda ela é um pouco como o livro, eufórica, difusa e dona de alguns mal entendidos, com uma pitada de desespero e saudade, mas também com uma boa dose de mistério e até um certo charme. Enfim, um pouco como a própria vida que é disso que o livro fala.

"- Não posso estar mais de acordo com Magris quando diz que escrever significa transformar a vida em passado, ou seja envelhecer."


quarta-feira, 26 de agosto de 2015

«Na Margem» de Rafael Chirbes :: Opinião



"Ganha-se lá fora o que se perde cá dentro."


Considerado o melhor romance espanhol de 2013, «Na Margem» marca mais uma vez o reconhecimento de Rafael Chirbes no seu país e além fronteiras, aliás o escritor esteve recentemente em Lisboa pelo evento da Noite Europeia de Literatura.
«Na Margem» causou enorme impacto pela forma lúcida e até desapegada com que aborda, a decrepitude da crise humana causada pela crise em geral que é transversal a tantos aspectos da nossa sociedade. É, sem dúvida, um relato da condição humana, atravessando as tormentas mas também a passividade das várias fases da vida, sem esquecer uma abordagem crua e quase rude da velhice.

"O rancor é uma boa forma de garantir companhia, o poder de lançar à cara de alguém, todos os dias, o mal que nos fez: isso cria estabilidade. As pessoas pensam: que hei-de fazer? Ficar sozinho? (...) Morrer sozinho é desolador, é indecente, revela uma falha humana. (...) Há que partilhar. (...) Pega na esponja, no toalhete higiénico e toca a esfregar as carnes manchadas ... Pô-los ao teu serviço, ter uma multidão disposta a limpar-te o cu ...quantos mais melhor."

A escrita de Chirbes é crua, visceral, acusatória e povoada de memórias ferozes e, meio a vulso, analisa anos e anos da realidade familiar, empresarial e do país onde Esteban se encontra.

«Na Margem» cruza a realidade dos trabalhadores espanhóis e imigrantes, todos juntos em Espanha, mais particularmente em Olba, onde o narrador traça o perfil das relações entre ambos, tanto numa época anterior à crise e o que resta, afectado e devastado, por esta crise europeia e até mundial que teima em arrastar para o lodo famílias e empresas por completo, não poupando ninguém. Analisando muitas décadas de história.

"A reacção humana é desertar, o absurdo é ficar ali à espera que o sangue te encharque, o teu ou o alheio. Não há ideologia que consiga tirar-te isso da cabeça. (...) A certa altura deixei de distinguir os combatentes de um lado e do outro, (...) ter vivido isso une-te misteriosamente ao teu inimigo, àquele que o foi e continuou a sê-lo, converte-o em cúmplice, em camarada, o que torna tudo ainda mais complexo, mas culposo, absurdo, cruel (...)"

Com um tom, muita vezes, crítico e desapegado que lemos, sentimos, escutamos e nos arrepiamos com o relato, ora profundo, ora pragmático do velho Esteban, atravessando uma fase da vida onde a realidade, de ontem e de hoje não é mais do que um sucedâneo de memórias. Ele já não vive, apenas recorda, apenas sente a falta, questiona as acções que teve, as decisões que tomou e porquê, por quem?!

"Diria, em termos taurinos, que tive querência ao touril, eu próprio me encurralava, metia-me dentro de quatro paredes (...)"

"Mas aquilo que guardas dentro de ti, os teus pensamentos e desejos, que aparentemente nada pesam, não há Hércules que consigam carregá-los aos ombros para outro lado (...) Os homens batem por impotência. Julgam conseguir por meio da força aquilo que não alcançam por meio da ternura e da inteligência.

Chirbes recebeu com este romance o prémio de melhor narrativa 2013, mas não pense o leitor que se trata de um romance de fáceis contornos ou de capítulos organizados na linha cronológica de mais de 50 décadas de vida, não... Chirbes coloca o narrador, Esteban, lúcido e quase esfuziante na tarefa de relembrar e reviver diversos momentos ao longo dos seus 70 anos, com toda a bagagem que isso lhe dá. E esse peso sente-se e o leitor carrega-o ao longe de 400 páginas que compõem um só capítulo.
Se perante a descoberta inicial acompanhamos o ritmo com uma avidez quase de policial, tal como exige, é bom que o leitor redobre a atenção e aguce os sentidos para todo o exercício seguinte.

Num capítulo extenso e complexo, recheado de divagações, memórias e considerações, celebra o leitor, premiando-o pela resiliência. O narrador divaga mas não claudica, parece que se afasta do foco da narrativa, mas não, ele apenas acrescenta camadas à análise crítica que faz da vida, concedendo uma profundidade memorável a todas aquelas relações que foram ou são o centro da sua existência.


Rafael Chirbes faleceu neste mês, 16 de Agosto, vítima de cancro. Leia mais sobre o autor e a obra, no artigo assinado por José Riço Direitinho no Público.

quarta-feira, 15 de maio de 2013

Novidades Editoriais que chamam por mim... Enrique Vila-Matas

É pela mão Les Inrockuptibles que a curiosidade se aguçou para a escrita de Enrique Vila-Matas:


«Vila-Matas é um prestidigitador digno de Nabokov que organiza um mundo inteiramente feito de textos múltiplos que nos transmitem a ilusão de um texto único. Não um autor mas toda uma Factory em si mesmo. “Acredito que toda a minha obra nasce da impostura.” Vila-Matas, um impostor de génio, como todos os maiores artistas.»
Les Inrockuptibles


No passado mês de Abril a Assírio& Alvim publicou História Abreviada da Literatura Portátil e, no próximo dia 22 de Maio, lança Suicídios Exemplares, outro dos livros maiores na obra de Enrique Vila Matas. Neste livro, o suicídio torna-se a saída para as decepções ou ausências nas vidas dos personagens.
Contudo, acontece sempre alguma coisa que altera o desfecho esperado.

Com narrativas cheias de imaginação, subtileza e inteligência, a obsessão pelo suicídio acaba, paradoxalmente, por afastar a tentação da morte, tornando-se num incentivo para a vida e transformando positivamente a acção dos heróis deste livro.



«Há uns anos começaram a surgir uns misteriosos graffiti nas paredes da cidade de Fez, em Marrocos. Descobriu-se que eram traçados por um vagabundo, um camponês emigrado que não tendo conseguido integrar-se na vida urbana para se orientar começara a marcar os itinerários do seu próprio mapa secreto, sobrepondo-os à topografia da cidade moderna que lhe era alheia e hostil.
A minha ideia, ao iniciar este livro contra a vida alheia e hostil, é agir de modo semelhante ao do vagabundo de Fez, ou seja, tentar orientar-me no labirinto do suicídio marcando o itinerário do meu próprio mapa secreto e literário e esperar que este coincida com aquele que tanto atraiu o meu personagem favorito, esse romano do qual Savínio na Melancolia hermética nos conta que, a traços largos, a princípio viajava sumido na saudade, mais tarde foi invadido por uma tristeza muito humorística, procurou depois a serenidade helénica e finalmente - "Tentem, se puderem, deter um homem que viaja com o suicídio na lapela", dizia Rigaut - deu uma digna morte a si mesmo, e fê-lo de um modo ousado, como protesto por tanta estupidez e na plenitude de uma paixão, pois não desejava diluir-se obscuramente com a passagem dos anos.»




A Assírio & Alvim decidiu refundar a colecção Peninsulares. Enrique Vila-Matas, com «História Abreviada da Literatura Portátil», e Ricardo Menéndez Salmón, com «A Luz é Mais Antiga que o Amor» (a destacar brevemente), são os dois primeiros nomes a sair desta refundação, dois nomes de peso que coloca a Peninsulares na ordem do dia neste momento. Leia também a entrevista ao editor e a escolha por Henrique Vila-Matas, aqui, no Diário Digital

Uma aposta da Assírio & Alvim, que a propósito do lançamento do livro trazem o autor a Portugal, apresentando-se nesta 83ª edição da Feira. No próximo dia 25 de maio, sábado, Enrique Vila-Matas vai estar no Espaço Porto Editora, na Feira do Livro de Lisboa.