«Cadente» de Mário Rufino é um livro escrito com coragem — a
de olhar de frente a degradação trazida pela doença e o que ela impõe a uma
relação familiar íntima, na estreita proximidade com o narrador deste relato que
se move entre a contenção e a exposição, entre o silêncio do que já não pode
ser dito e o grito contido daquilo que ainda precisa ser narrado.
No centro está a relação entre neto e avó — atravessada pelo
abandono maternal, a morte, a doença e as memórias de um crescimento atribulado
e claro, por tudo o que se perde com o passar do tempo e um certo abandono
próprio da correria das vidas que divergem.
Há momentos de grande beleza que nos ficam através de frases
lapidadas pela precisão de quem escreve para gravar bem uma ideia no leitor,
mas o texto nem sempre consegue manter essa marca e a tensão, oscilando entre o
esculpido e o tom mais solto, enquanto navega por um rol de memórias, entre nostalgia
e culpa, num acerto de contas à mercê do tempo que ainda lhes resta.
