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quinta-feira, 14 de agosto de 2014

Intempérie - Jesús Carrasco - Marcador

Este é um daqueles livros que posso dizer que é belo demais para a história que conta.

Que quero dizer com isto?  Jesús conta-nos uma história negra com belas palavras, com descrições deliciosas e que por vezes nos fazem quase sofrer, de tão boas que são.

E sim, podem fazer-nos sofrer. Existem partes que, durante a sua leitura, me levaram lá ao local. Senti a necessidade de aquecer os meus pés, de tanto frio que a personagem sentia. Quase me faltou o ar e senti o fumo alastrar nos meus pulmões, tamanha era a realidade com que a cena era descrita. O incómodo foi grande que quase senti o cheira a queimado e a dor e o aperto que aquele menino sentia.

A escrita do autor é igualmente bela e dura e de um realismo intenso.

O autor presenteia-nos com odores, em forma de palavras que inundaram a minha mente durante algum tempo. Faz-nos o relato de uma das zonas quentes e áridas de Espanha que me levou muitas vezes até ao meu Alentejo. Sentindo ora o calor doloroso e seco, ora o frio cortante e tenebroso da noite. A noite só e silenciosa... às vezes aterradora.

Quanto a história, como já disse é bastante negra, falá-nos, de forma simples, de uma brutalidade extrema. Uma criança que se vê obrigada a fugir para sobreviver e que tem de aprender que a sobrevivência é dura e implacável, mas também pode conter bons ensinamentos, aprendizagens para a vida.

Uma história de medo, mas de aprender a confiar.
Um relato de horror, mas de esperança.
Uma vida, ainda pequena em idade, mas grande em sofrimento. Onde os medos, atormentam, mas são catalisadores para perder outro medo maior, o do desconhecido.

Ao mesmo tempo, Jesús Carrasco falá-nos de amor, de compaixão, de amizade, do poder do sacrifício e de uma humanidade muitas vezes esquecida por todos nós. A capacidade de darmos e sermos pelo o outro, mesmo que o outro seja um desconhecido.

A tal humanidade e compaixão aqui oferecida, por uma pessoa, que provavelmente seria o ultimo a passar pela cabeça capaz de o fazer, é talvez uma surpresa... e não vou explicar muito esta parte, pois durante algum tempo a minha mente levou, estas qualidades, para outros lados obscuros, o que poderia ainda tornar o livro mais duro. Depois de lerem tudo fará sentido.

Enfim, um livro a não perder, adorei....

quarta-feira, 18 de junho de 2014

"Intempérie" de Jesús Carrasco . Opinião

O livro de estreia de Jesús Carrasco está considerado como um dos melhores de 2013. Aliás arrecadou já vários prémios e a narrativa cuidada e polida de Carrasco tem sido acolhida e acarinhada pela critica.

Com um enredo cru e despojado, Carrasco cria uma intensidade na sua narrativa que seja a ser sufocante. A cadência das acções, dos diálogos, dos acontecimentos parece-nos sempre lenta, sempre reduzida, sempre diminuta e portanto, sufocante, intrigante, castigadora.
Talvez todo o cuidado com as palavras, que aparentam ter sido, milimetricamente escolhidas e consideradas, trazem peso à escrita e também à acção. É nesse polimento da linguagem que o leitor se pode perder e vaguear entre a natureza e a pureza de um cenário ancestral, rural e duro, mas nunca tão duro como a acção descrita.

Há todo um entendimento camuflado entre os dois personagens, num silêncio comprometedor, dificultando assim a aceitação por parte do leitor desta estranha relação. Pelo menos foi esse o sentimento que eu experimentei. O sentimento de estranheza. Tão depressa queria que toda aquela dor e ausência de afecto passasse, como queria que a descrição evoluí-se e perceber se alguma vez chegariam a unir-se e a aceitar-se mutuamente.

Se até agora a opinião parece estranha, a obra não menos o é! Aliás, é isso que quero transparecer. É verdade que se narram outros tempos, outra ditadura, outras limitações e condicionalismos, mas parece-me a mim que o enredo levanta alguns véus, mas deixa várias pontas soltas - serão para o leitor especular e decidir por ele?
Para quem não leu a sinopse, um rapaz, cujo o nome não sabemos, foge de casa. Vítima de maus tratos e talvez abusos, foge e pretende não mais voltar. Que o encontrem é o seu maior medo. Na fuga, na fome, na sede, no abandono, na aspereza e na aridez de um país vitimizado, este menino encontra um pastor. Um pastor porto de abrigo, dono de um silêncio profundo, de algumas cabras e conhecedor das lides do campo.
Numa amizade estranha, descrita por episódios duros e de sobrevivência, pastor e rapaz fogem ambos daquilo que os atormenta.


Confesso que senti necessidade de ir ler mais sobre o livro e o autor. Se por um lado, o que mais me cativou foi a sua escrita, foi também ela que por momentos me cansou e me fez esquecer aonde poderia o autor querer chegar ou levar-me.

"Passou a noite acocorado junto ao velho imóvel. Corria uma brisa tíbia  enfeitada com o rumor de algumas cabras nervosas. Ao homem ardia-lhe a testa e gemia em sonhos a sua dor como um salmo ininterrupto e acromático." (pp. 103)

Há no livro toda uma luta, todo um sofrimento intrínseco à luta pela sobrevivência. No meio de tanta miséria, o autor brinda o leitor com uma escrita que pretende seduzir.
"Tento não escrever um solilóquio em que me sinto um artista. Não me interessa que as pessoas façam um esforço e entendam se quiserem. Quero que se sintam seduzidos." Diz o autor na entrevista ao Público.

No meio de tamanha intempérie esperamos a chegada da bonança!

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Uma leitura com apoio MARCADOR, leia mais do livro, aqui.