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quinta-feira, 8 de março de 2018

«O Meu Tio» de Isabela Figueiredo - Opinião


«O TIO»

Uma mulher de nome Ernestina Adelaide, com um filho vegan convicto, recebe uma carta, um mail à mão, de um tio, ex-pide imigrado numa Bruxelas descaracterizada e entregue aos terroristas; que quer agora retornar à pátria, alegando que a casa da Tininha era o melhor local.

"A inesperada carta do tio Xavier era um estorvo."  

Estando ela a dois passos da Mesquita do Laranjeiro, seria isso um bom motivo para lhe negar abrigo?

"Há mais árabes no Laranjeiro do que na Palestina inteira. O Laranjeiro é o grande império dos talhos halal e da chamuça picante. Sempre que há um atentado atentado terrorista algures pelo mundo, passa-me pela cabeça que deve ter sido parcialmente ideado na cave esquerda no n.º 12 ..."

Entre muçulmanos, bairros sociais, tráfico de droga e rendimentos mínimos, a narradora revolve algumas memórias, com o tio e o pai à mistura; e a forma como ganhou a sua independência e se tornou escritora, ou seja, "Acabei (...), quero dizer, desempregada de longa duração. (...) As pessoas têm a ideia de que um escritor é alguém muito especial (...) mas eu não passo de carne ossuda, popular e profana."

A crença no futuro não era muita e a vinda do tio Xavier era mais uma incógnita. 

*
Inéditos Expresso

terça-feira, 8 de agosto de 2017

«Caderno de MEMÓRIAS COLONIAIS» de Isabela Figueiredo :: Opinião



"Era África, inflamante, sensual e livre. Sentia-se crescer por debaixo dos pés. tremia. Um coração inchado. Era vermelha. Cheirava a terra molhada, a terra mexida, a terra queimada, e cheirava sempre."

"Nesse momento houve um vácuo de tempo em que não fomos pessoas, não tivemos culpas nem prazeres; nada humano - só nós; senti ao longe o odor da sua carne transpirada, ácida e doce, que era a minha, dos seus ombros e rosto, um abraço que não pudemos desapertar nunca; e ainda não, e em lugar nenhum, nunca, porque não era apenas um abraço, mas uma aliança invisível, muda, que mantínhamos, à qual fui fiel mesmo quando o traí."

«Caderno de MEMÓRIAS COLONIAIS» de Isabela Figueiredo é uma declaração de amor a Moçambique e ao pai. Um paixão e uma admiração quase secretas e caladas. Uma declaração de memórias conturbadas e pesadas, mas escritas de uma forma que fluí no leitor e só apetece agarrar e ler sem parar. O mesmo aconteceu aquando da leitura de «A Gorda» e tenho vontade de dizer que este livro supera o outro, não fosse a estrutura de casa que o outro tem. Este pode ainda ganhar pelos segredos que se revelam e o lado ainda mais cru e desempoeirado. 

Isabela transporta o leitor para onde ela quer e é isso que se torna inesquecível na sua escrita, no seu relato íntimo e sem pudores. Lourenço Marques, o colonialismo e o racismo, as abruptas diferenças, o trabalho e a imagem; as rendas das suas roupas, os cães famintos e os restos que componham as vidas dos pretos; os pretos só por si, renegados para último plano; a metrópole e as políticas que estavam lá longe, tão longe como o horizonte; o 25 de Abril e a inversão da história, a violência e o peso de uma catana; o calor e a terra queimada... tudo isto e muito mais. Tudo cabe na escrita deste Caderno.

"«Os negros mataram, à catanada, o marido e os filhos da Conceição, no Infulene; lembra-te disto, desmembraram-no todo, estava espalhado no milheiral... foi o teu pai que lhe encontrou os bocados...!»"
(...)
Na metrópole não conheciam a catana. Seria necessário descrever as características e potencialidades dessa arma. Só depois contar, 
Largas como as do talho, a maior parte, mas longas, com lâminas largas, ligeiramente curvadas (...) A catana podia transformar qualquer corpo vivo numa massa aleatória e informe de órgãos. Em segundos. Era um instrumento de morte e poder como nenhum outro. (...)"

No Caderno cabe também e não podia faltar a morte, o desterro, o desenraizamento, a solidão, a pobreza, a recriminação e a culpa e tantos outros sentimentos que vão sendo expressados ao longe de pouco mais de duzentas páginas. 

"Um desterrado é também uma estátua de culpa. E a culpa, a culpa, a culpa que deixamos crescer e enrolar-se por dentro de nós como uma trepadeira incolor, ata-nos ao silêncio, à solidão, ao insolúvel desterro."

Nesta trepadeira de memórias que se apoderam desta escrita ficou só a faltar uma epígrafe sonora como «A Gorda» tem.

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Recomendo vivamente a leitura de ambos os livros de Isabela Figueiredo.
Livros Editorial Caminho

segunda-feira, 8 de maio de 2017

«A Gorda» de Isabela Figueiredo :: Opinião


Um livro que começa com uma epígrafe sonora repleta de músicas que oiço de anos para cá e que sempre são capazes de me arrancar memórias, sorrisos, lágrimas, sentimentos e até alguns arrepios, é desde logo muito bom sinal. Escolhi não ouvir todas logo no começo, aliás, a leitura foi tão ávida que só voltei a olhar às mesmas agora que fechei o livro e vejo que fazem todo o sentido face ao relato que aqui é narrado. 

"O monstro da fome é um grande amigo quando está saciado. 
Sinto-me consolada. Se não, vai-me espetando no estômago o seu refrão, para que não me esqueça. Não esqueço. Acalma-te, fome, eis as tuas oferendas! Pão com marmelada. Pão com manteiga. Pão com chouriço. Teria preferido sentir fome nos pulmões para saciá-los com grandes golfadas de ar. Ou no coração, para correr e acelerar a pulsação. Calhou-me o monstro multicéfalo da fome no interior do estômago, ligado ao cérebro. 
É como se tivesse cogumelos a crescer no interior escuro e húmido do meu corpo."

«A Gorda» é um livro que coloca em nós um feitiço, nos faz rir e dançar, mas também é capaz de provocar dor e solidão. Leva-nos até outros tempos, os da infância e da adolescência, voltam as memórias de rebeldia vivida ao som de Nirvana, juntamente com a descoberta de Joplin ou The Doors, até uma fase já mais madura, onde essas e outras canções nos apelam a imagens que até parecem já não nos pertencer. E atrás de uma imagem, outra e mais outra, que a vida se vai compondo e ganhando os seus cheiros, as suas músicas, imagens, pessoas e coisas, pequenos e grandes nadas que de anos a anos se fecham em caixas e se pensam arrumar, longe da vista, nesta ou naquela divisão da casa, mas a casa acaba por nos habitar e nos fazer recordar. E de canto em canto, vamos revivendo anos e anos de memórias, na casa de família, já depois do retorno a Portugal.

É isso, «A Gorda» é um livro de memórias, escrito ao ritmo dos dias de hoje, percorrendo os cantos à casa, como quem se percorre a si mesmo. Sendo imperdoável e mutilador com o passado, o presente e até o amanhã. Isabela Figueiredo traçou um diário de bordo de mais de trinta anos de memórias e administra no leitor uma generosa dose da história de Maria Luísa.

"Mas que vitória? A minha vida oscilava entre os momentos de pragmática e dura realidade e os de evasão em estado puro, graças à capacidade de fantasiar com que Deus me dotou para que me aguentasse viva. Uma bênção concedida! Recorresse eu a ela nos bons ou nos maus momentos, sempre que dela necessitasse. E o resto: os cães, os gatos, os ouriços, as flores, o mar, a literatura, a arte e o pensamento... Poderia ter-me concedido também a graça do sono. Isso é que teria sido divino! A insónia persegue-me ao longo das inúmeras vidas que já vivi nesta."

O drama, o humor, as recordações e a vida vivida como gorda, mostram bem as mágoas e as ironias pelas quais Maria Luísa passou. É fácil partilhar da sua sátira e aceitá-la, e chegamos a torcer para que as coisas lhe corram de outra forma. A certa altura todos somos a história dos outros e os outros estão dentro de nós, da nossa casa, partilhando e vivendo como iguais. 

"O sexo era uma brincadeira, mas a sério, sumarenta e líquida como descascar uma laranja e comê-la, sem palavras próprias nem regras. (...) Não podia ser possível nem verdade que os nossos pais se entregassem a um gosto tão bom depois de nos ensinarem a encará-lo como vergonha. 
Não somos capazes de ver os pais como pessoas iguais a nós, como penso que eles não são capazes de nos ver como pessoas que também já foram, antes de se terem tornado aqueles que conhecemos. Somos continuações e prolongamentos uns dos outros, que se escondem e se temem."

*

Um livro Editorial Caminho.