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segunda-feira, 14 de maio de 2018

Novidades Caminho :: Maio


Era uma vez um homem que vivia numa casa muito, muito alta, tão alta que quase tocava o céu. Como ele era carteiro, as pessoas diziam que, muito provavelmente, morava numa casa assim para poder entregar cartas aos anjos! Mas, na verdade, esta era uma casa de família. Ora, o senhor carteiro, que era de quem eu estava a falar, tinha um problema: falava, frequentemente, a rimar e, por isso, adquirira a alcunha de Senhor Rimas. No início, as pessoas da aldeia de Não-Sei-Onde-Moras achavam-lhe muita graça, mas, depois, tornou-se aborrecido ter de ouvir a toda a hora e a todo o instante aquelas falas rimadas. Tal era o desespero da aldeia que decidiram os habitantes marcar um encontro na praça para discutirem o assunto. Então, ao saber disto, e vendo o desconforto que provocava nos seus amigos e nos seus colegas de trabalho, o Senhor Rimas decidiu abandonar a aldeia…


Toda a gente foi apanhada de surpresa, pelo que ninguém tentou impedir o inesperado assassinato do mais conhecido e traduzido escritor das ilhas, breves momentos antes do início da cerimónia de apresentação do que acabou por ser a sua última obra. E, no entanto, nesse dia o vasto auditório transbordava de uma festiva multidão de fãs e outros curiosos, todos impacientes ante a expectativa de ter um autógrafo no já muito badalado livro que se preparavam para adquirir. De modo que a ninguém terá passado pela cabeça que um evento daquela natureza, sempre aguardado com geral e grande ansiedade, poderia vir a ter um desfecho tão inesperado quanto brutal, especialmente tendo em conta a qualidade das pessoas envolvidas na tragédia.

Novidades

terça-feira, 6 de março de 2018

«Quando as girafas baixam o pescoço» de Sandro William Junqueira :: Opinião


"A gente é rascunho de pássaro
não acabaram de fazer"
Manoel de Barros

«Quando as girafas baixam o pescoço» (Caminho, 2017) parece compêndio de personagens; o leitor pede continuação.

Sandro William Junqueira tece um romance como quem junta retalhos, cose uns com linha, outros com lã, meia dúzia com pontos rebuscados e remates violentos e faz da sua galeria de inquilinos, tecidos criativos expostos na montra de uma retrosaria de bairro. 

"Naquela urbanização há um buraco", durante a leitura descobriremos outros. A Mulher Gorda é bem capaz de ter um buraco no coração. Os jacintos que carrega, equilibram-lhe os pratos da balança sentimental, descompensada e agitada pelas dores que o marido lhe dá e pelos prantos que podia fazer pela filha, a Rapariga Magra. A mulher gorda escreve. O leitor deseja achar-lhe o diário. 

No livro há iogurtes magros com adoçante, mas a instabilidade e o apetite de cada personagem tirará a fome ao leitor. Talvez alguns capítulos mais à frente, relembre que leu: "Os livros fazem fazer coisas. O amor também." mas rapidamente lembrará do "algodão impregnado de monotonia" e se aperceberá que a banalidade dos dias está presente em todas as páginas. A banalidade fragmentada, privada, a história do vizinho, os gritos na porta ao lado, o fantasma da vida alheia que se confunde com a história rotineira do dia a dia. Ou seja: a bisbilhotice que adoça os dias perdidos para o tédio.

"Havia pouco a fazer. É clara a dicotomia entre o que se passa no lado de dentro e o que escorre para fora. Ou seja: entre o revestimento, visível, e as costura, sempre ocultas. Muitas coisas na cabeça e quase nada para fazer. É por isso que a humanidade anda em busca de violência."

O livro cresce como quem tece um vestido, acrescenta-lhe detalhes, um fecho aqui, uns botões acolá, punhos trabalhados, bordados na gola, talvez uma girafa a adornar um bolso, um único, sozinho para guardar segredos. Um remate na bainha que deixa ver o joelho, ou não, dependendo se é Cátia com "C" ou Kátia com "K" que o usa.

"(...) O tédio é lugar confortável.
(...) Mas a frase sai sem temperatura.
Desde a última inconsequente entrevista de emprego raramente sai do esconderijo. Ou seja, conhece bem o território: a dureza da cadeira onde se senta para comer batatas cozidas. Os desenhos feitos a ponta de faca no tampo da mesa. A paisagem imóvel das paredes. A loiça suja empilhada no lava-loiça. O silêncio da biblioteca. Os gritos familiares dos vizinhos."




quinta-feira, 22 de fevereiro de 2018

«Também os brancos sabem dançar», um romance musical de Kalaf Epalanga :: Opinião


Um romance musical só se faz com ritmo e passos de dança, ao sabor melodias que nos levam para longe; viajamos com palavras até outras danças, outros corpos... músicas que se cruzam num enredo que transpira kuduro, coladera, kizomba, semba e fado, palavras que se misturam na sua lusofonia”.

«Também os brancos sabem dançar» poderá ser um romance da geração Buraka, aliás, inclui de certeza mais duas ou três gerações, as que cresceram em bairros sociais, as que testemunharam a influência das grandes superfícies comerciais no moldar da sociedade de periferia e aquelas que hoje, desde há dez anos para cá assistem a uma africanização ou kizombização da música e de Portugal. Explicar a origem do kuduro é viajar até à festa de quintal angolana, mas entender o semba e a kizomba também. É perceber que uma comunidade faz de uma sexta feira uma festa que começa numa sentada familiar e acaba a altas horas da madrugada. 
Mas gostar de kuduro implica gostar de semba? Sentir o beat e ser capaz de mexer o corpo mistura brancos e pretos, e outros, numa união nunca antes vista?!? Kalaf explica e ficciona, entretêm o leitor e vai-lhe dando música. Os temas sociais estão lá, o racismo, o politicamente correcto, a discriminação no mercado de trabalho, a ignorância para com o desconhecido, a desconfiança no vizinho do lado...Mas não é só isto. É muita música e é muito mais. Kalaf pega no leitor e leva-o por uma viagem bastante inteligente e completa, as paisagens são muitas, as piadas também, a critica social muito bem engendrada e em meia dúzia de palavras e até dicas de sedução e engate.

" Passavamos tardes a fio junto do rádio, a gravar a selecção perfeita que, regra geral, oferecíamos aos amigos ou às garinas. «Que nunca se subestime o poder de uma mixtape no jogo da sedução», dizia Tininho. «Uma cassete com a selecção certa, na nossa era, vale tanto quanto os sonetos de Shakespeare», acrescentava. (...)
Tal como as fotografias, as canções perpetuam momentos cujo o prazo de validade não é definido pelo tempo."

Não sei se a minha selecção faria uma mixtape perfeita, mas o roteiro musical de Kalaf fez-me compor esta playlist.

Clique na imagem para aceder à playlist
O que é que o Van Damme tem a ver com o Kuduro? 
Tudo!
Mas tem de ler para saber.





quarta-feira, 11 de outubro de 2017

Novidade CAMINHO :: "Quando as girafas baixam o pescoço"


A mulher gorda gosta de comprar jacintos, o desempregado sonha com um prato de goulash e há duas irmãs que andam a costurar linhas complicadas entre elas. De vez em quando, nos intervalos dos barulhos da cidade, ouve-se pelas paredes uma música de Brel, rosas a crescer ou um programa sobre a vida animal – como é que a cabeça das girafas não rebenta se está tão longe do coração? Em comum, entre os pés que fazem barulho em cima da cabeça e os pés que incomodam quem está em baixo, só a gaiola de cimento onde se tentam arrumar as vidinhas e, ainda assim, aquela vontade de ser pássaro.

Sandro William Junqueira continua a construir, agora em altura, um território literário de desconfortos e pulsões que estava ainda por cartografar, e volta à ficção com um livro feito de penas e betão.

Uma novidade

terça-feira, 8 de agosto de 2017

«Caderno de MEMÓRIAS COLONIAIS» de Isabela Figueiredo :: Opinião



"Era África, inflamante, sensual e livre. Sentia-se crescer por debaixo dos pés. tremia. Um coração inchado. Era vermelha. Cheirava a terra molhada, a terra mexida, a terra queimada, e cheirava sempre."

"Nesse momento houve um vácuo de tempo em que não fomos pessoas, não tivemos culpas nem prazeres; nada humano - só nós; senti ao longe o odor da sua carne transpirada, ácida e doce, que era a minha, dos seus ombros e rosto, um abraço que não pudemos desapertar nunca; e ainda não, e em lugar nenhum, nunca, porque não era apenas um abraço, mas uma aliança invisível, muda, que mantínhamos, à qual fui fiel mesmo quando o traí."

«Caderno de MEMÓRIAS COLONIAIS» de Isabela Figueiredo é uma declaração de amor a Moçambique e ao pai. Um paixão e uma admiração quase secretas e caladas. Uma declaração de memórias conturbadas e pesadas, mas escritas de uma forma que fluí no leitor e só apetece agarrar e ler sem parar. O mesmo aconteceu aquando da leitura de «A Gorda» e tenho vontade de dizer que este livro supera o outro, não fosse a estrutura de casa que o outro tem. Este pode ainda ganhar pelos segredos que se revelam e o lado ainda mais cru e desempoeirado. 

Isabela transporta o leitor para onde ela quer e é isso que se torna inesquecível na sua escrita, no seu relato íntimo e sem pudores. Lourenço Marques, o colonialismo e o racismo, as abruptas diferenças, o trabalho e a imagem; as rendas das suas roupas, os cães famintos e os restos que componham as vidas dos pretos; os pretos só por si, renegados para último plano; a metrópole e as políticas que estavam lá longe, tão longe como o horizonte; o 25 de Abril e a inversão da história, a violência e o peso de uma catana; o calor e a terra queimada... tudo isto e muito mais. Tudo cabe na escrita deste Caderno.

"«Os negros mataram, à catanada, o marido e os filhos da Conceição, no Infulene; lembra-te disto, desmembraram-no todo, estava espalhado no milheiral... foi o teu pai que lhe encontrou os bocados...!»"
(...)
Na metrópole não conheciam a catana. Seria necessário descrever as características e potencialidades dessa arma. Só depois contar, 
Largas como as do talho, a maior parte, mas longas, com lâminas largas, ligeiramente curvadas (...) A catana podia transformar qualquer corpo vivo numa massa aleatória e informe de órgãos. Em segundos. Era um instrumento de morte e poder como nenhum outro. (...)"

No Caderno cabe também e não podia faltar a morte, o desterro, o desenraizamento, a solidão, a pobreza, a recriminação e a culpa e tantos outros sentimentos que vão sendo expressados ao longe de pouco mais de duzentas páginas. 

"Um desterrado é também uma estátua de culpa. E a culpa, a culpa, a culpa que deixamos crescer e enrolar-se por dentro de nós como uma trepadeira incolor, ata-nos ao silêncio, à solidão, ao insolúvel desterro."

Nesta trepadeira de memórias que se apoderam desta escrita ficou só a faltar uma epígrafe sonora como «A Gorda» tem.

*
Recomendo vivamente a leitura de ambos os livros de Isabela Figueiredo.
Livros Editorial Caminho

segunda-feira, 8 de maio de 2017

«A Gorda» de Isabela Figueiredo :: Opinião


Um livro que começa com uma epígrafe sonora repleta de músicas que oiço de anos para cá e que sempre são capazes de me arrancar memórias, sorrisos, lágrimas, sentimentos e até alguns arrepios, é desde logo muito bom sinal. Escolhi não ouvir todas logo no começo, aliás, a leitura foi tão ávida que só voltei a olhar às mesmas agora que fechei o livro e vejo que fazem todo o sentido face ao relato que aqui é narrado. 

"O monstro da fome é um grande amigo quando está saciado. 
Sinto-me consolada. Se não, vai-me espetando no estômago o seu refrão, para que não me esqueça. Não esqueço. Acalma-te, fome, eis as tuas oferendas! Pão com marmelada. Pão com manteiga. Pão com chouriço. Teria preferido sentir fome nos pulmões para saciá-los com grandes golfadas de ar. Ou no coração, para correr e acelerar a pulsação. Calhou-me o monstro multicéfalo da fome no interior do estômago, ligado ao cérebro. 
É como se tivesse cogumelos a crescer no interior escuro e húmido do meu corpo."

«A Gorda» é um livro que coloca em nós um feitiço, nos faz rir e dançar, mas também é capaz de provocar dor e solidão. Leva-nos até outros tempos, os da infância e da adolescência, voltam as memórias de rebeldia vivida ao som de Nirvana, juntamente com a descoberta de Joplin ou The Doors, até uma fase já mais madura, onde essas e outras canções nos apelam a imagens que até parecem já não nos pertencer. E atrás de uma imagem, outra e mais outra, que a vida se vai compondo e ganhando os seus cheiros, as suas músicas, imagens, pessoas e coisas, pequenos e grandes nadas que de anos a anos se fecham em caixas e se pensam arrumar, longe da vista, nesta ou naquela divisão da casa, mas a casa acaba por nos habitar e nos fazer recordar. E de canto em canto, vamos revivendo anos e anos de memórias, na casa de família, já depois do retorno a Portugal.

É isso, «A Gorda» é um livro de memórias, escrito ao ritmo dos dias de hoje, percorrendo os cantos à casa, como quem se percorre a si mesmo. Sendo imperdoável e mutilador com o passado, o presente e até o amanhã. Isabela Figueiredo traçou um diário de bordo de mais de trinta anos de memórias e administra no leitor uma generosa dose da história de Maria Luísa.

"Mas que vitória? A minha vida oscilava entre os momentos de pragmática e dura realidade e os de evasão em estado puro, graças à capacidade de fantasiar com que Deus me dotou para que me aguentasse viva. Uma bênção concedida! Recorresse eu a ela nos bons ou nos maus momentos, sempre que dela necessitasse. E o resto: os cães, os gatos, os ouriços, as flores, o mar, a literatura, a arte e o pensamento... Poderia ter-me concedido também a graça do sono. Isso é que teria sido divino! A insónia persegue-me ao longo das inúmeras vidas que já vivi nesta."

O drama, o humor, as recordações e a vida vivida como gorda, mostram bem as mágoas e as ironias pelas quais Maria Luísa passou. É fácil partilhar da sua sátira e aceitá-la, e chegamos a torcer para que as coisas lhe corram de outra forma. A certa altura todos somos a história dos outros e os outros estão dentro de nós, da nossa casa, partilhando e vivendo como iguais. 

"O sexo era uma brincadeira, mas a sério, sumarenta e líquida como descascar uma laranja e comê-la, sem palavras próprias nem regras. (...) Não podia ser possível nem verdade que os nossos pais se entregassem a um gosto tão bom depois de nos ensinarem a encará-lo como vergonha. 
Não somos capazes de ver os pais como pessoas iguais a nós, como penso que eles não são capazes de nos ver como pessoas que também já foram, antes de se terem tornado aqueles que conhecemos. Somos continuações e prolongamentos uns dos outros, que se escondem e se temem."

*

Um livro Editorial Caminho. 


terça-feira, 31 de maio de 2016

«Vamos comprar um poeta» de Afonso Cruz :: Opinião




Contrariando a tendência que tenho para me alongar sempre que escrevo sobre os livros que leio e porque aqui podia correr o risco de escrever quase tanto como o texto que compõe este «Vamos comprar um poeta», pois tanto se poderia dizer.
Digo sem rodeios que o melhor que têm a fazer é mesmo comprar um poeta. Se o dinheiro não chegar, o melhor será encontrar o poeta dentro de si ou quem sabe procurar por algum à sua volta, talvez um familiar ou um amigo. Se ainda assim não encontrar um poeta, compre o livro do Afonso Cruz.

"Uma janela é uma janela, mas uma janela que é um pássaro a voar é uma realidade mais profunda, para lá do vidro, algo que está para além da definição do dicionário, está do outro lado da janela, mas que faz parte dela e que a descreve, ainda que por um breve momento.
Uma janela é muitas coisas e..."

Para contrariar o vazio sentimental que afecta a sociedade em geral e combater a precariedade e bancarrota (sentimental) até mesmo dentro das família, uma família pragmática, centrada nas regras e na prosperidade da economia decide dar um novo tom à sua realidade e comprar um poeta.

Na tentativa de ir desembaciando os dias e porque a "poesia é um dedo espetado na realidade" a família vai experimentando as peripécias de ter um poeta deambulando por casa.

Como irão estas vidas lidar com este inutilista?

"(...) estudos afirmam que os poetas vivem com pouca relação com a realidade e com quem os rodeia..."

«Vamos comprar um poeta» é um mini tratado de como olhar a vida para além das definições que vêm no dicionário obrigatório do viver em sociedade. É também o retorno à magia e à poética que os momentos simples da vida têm, mas que pela frieza do crescimento e o passar do tempo vamos perdendo.

"Aos poucos fui começando a perceber o que o poeta dizia (...)
Metáforas.
     Metáforas?
     Sim, confirmou o poeta.
Peço desculpa, mas um sapato não é um luva apaixonada pelas mãos erradas. No mundo onde todos vivemos chama-se mentira e é muito feio, desconta-nos muitos pontos percentuais de moralidade.
(...)
Francamente."


Uma edição Editorial CAMINHO

sexta-feira, 1 de abril de 2016

Novidade Caminho : "Vamos Comprar um Poeta" de Afonso Cruz

Data de Lançamento - 12 de Abril

Numa sociedade imaginada, o materialismo controla todos os aspetos das vidas dos seus habitantes. Todas as pessoas têm números em vez de nomes, todos os alimentos são medidos com total exatidão e até os afetos são contabilizados ao grama. E, nesta sociedade, as famílias têm artistas em vez de animais de estimação. A protagonista desta história escolheu ter um poeta e um poeta não sai caro nem suja muito - como acontece com os pintores ou os escultores - mas pode transformar muita coisa. A vida desta menina nunca mais será igual…

Uma história sobre a importância da Poesia, da Criatividade e da Cultura nas nossas vidas, celebrando a beleza das ideias e das ações desinteressadas.

Uma novidade

Opiniões sobre outros títulos do autor

quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

«Descobri que estava morto» J. P. Cuenca :: Opinião


"A franqueza é a primeira virtude de um defunto." Brás Cuba

Quando terminei «Descobri que estava morto» do Cuenca pensei: "é muito frontal com fanta". E é bem verdade se o ligar ao desejo de invisibilidade com o qual começa o livro, espelhando o trabalho de Oscar Munõz e a constante reconstrução do retrato. 

«Descobri que estava morto» funciona como um epitáfio para um pseudo morto. Um ser transtornado, mas ainda muito consciente que, por entre ruas do Rio de Janeiro, faz um inventário de críticas à cidade em ambiente pré-olímpico. Com a geografia de road book, revela-nos quem queria fugir mas ter quem lhe sentisse a falta. 

Este é um livro pejado de pérolas.

Aquele que se vai apagando nesta história é dado a reclamações e depressões, alimentava vagas de inquietação metafísicas e criava narradores desafinados e donos de platitudes já gastas. Com apurada vocação para a tristeza, herdada desde o cordão umbilical, e ampliada por algum misantropismo, altera períodos de fanfarronice com outros mais atávicos e delirantes.

Cuenca traz novamente à acção Tomás Anselmo e é com ele, numa espécie de solidariedade postiça masculina que arregaça as gengivas e combate a letargia de querer estar morto. No entretanto, cutuca o excesso de orgulho do brasileiro em espírito de olimpíada, apontando o dedo à cidade neo-pacificada, mas sem se excluir, o que torna ainda mais esquizofrénica e divertida a sua análise. 

Os anos avançam, a política e os melhoramentos na cidade também, mas nada de muito profundo que quebre a esculhambação típica do brasileiro e ele, na sua recém conquistada solidão dá passos, pequenos e pouco firmes na direcção de resolver o mistério da sua morte fictícia. O vício no circo portátil do hedonismo que o persegue apodera-se cada vez mais, patrocinando a sua enclausura e abandono, apelidada pelo próprio de procrastinação masturbatória e inútil, aumentando assim a certeza de que é uma fraude, tal como o Rio pré olímpico que o acolhe. 

A fatídica prosperidade que afecta a sua cidade traz um equilíbrio frágil e até pernicioso, uma espécie de imunidade que vai talhando a bolha de delírio em torno da sua literatura e o faz questionar tudo.

"Como o que eu realmente desejava era destruir tudo e não criar porra nenhuma, todas as minhas escolhas pareciam me levar para longe de onde eu devia estar. Para longe do lugar correto. Todos os caminhos, uma vez que eu os pisava, transformavam-se em desvios."  


Uma leitura com o apoio Caminho/Leya, veja mais aqui.

quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

No céu não há limões de Sandro William Junqueira - Opinião

Conhecem aquela sensação ao abrir um livro e voltar a lê-lo, aqui e ali, seguindo os cantos dobrados, as folhas mais marcadas, as frases sublinhadas e redescobrir o que tanto nos atraiu e nos fez ficar presos nesse livro!? Foi isso mesmo que me aconteceu quando ontem peguei para comentar este último romance de Sandro William Junqueira (SWJ) que já li em Agosto.


Não deixei por rever este livro por acaso. Há tanto de extraordinário como de comum neste romance de contornos meio surreais e distópicos, mas igualmente semelhante aos dias de hoje, com tudo o que de nefasto existe nos flagelos actuais. Existe fé, mas não vence a corrupção do corpo. Existe deus, mas é conspurcado pela mente dos homens. Poderia existir amor, mas o poder fala sempre mais alto... talvez haja inocência, mas é confundida com desconhecimento ou falta de sofrimento. Existe humor, mas lapidado pelo lado negro.

Sandro William Junqueira junta as dualidades mais opressivas que o ser humano acarreta em si e transporta-as para um lugar desconhecido que poderia ser o país de qualquer um, mas planta a acção perto do mar ;() onde a Avó consegue sentir a aragem marítima. Separa o Norte do Sul, atribuí grandezas a uns e fome de tudo a outros, mas separa-os por uma fronteira tenebrosa, mas ténue onde os interesses e o poder se confundem em prol dos desejos e das necessidades fúteis dos mesmos do costume.

Não é fácil fazer-me entender ao falar deste livro sem ter a tendência, ou para explicá-lo (conforme eu entendi) ou para enredá-lo e complicá-lo um pouco mais. É complexo, sim. A forma e a estrutura que assume é diferente, não será novidade para quem leu o romance anterior, mas não deixa de ser complexo imaginar todo um enredo sem espaço geográfico definido, tempo ou nome para as personagens. A Avó é assim nomeada pelas características óbvias, como o Bispo, pelas funções que desempenha, ou o Padre, ou até a Adolescente evidentemente pela idade e outros atributos.

A espontânea maldade intrínseca no argumento que compõe este "No céu não há limões" é, a meu ver, um olhar atento à Humanidade e aos dilemas intemporais e existenciais que o ser humano atravessa nas várias idades da vida, mas essencialmente naquela em que questiona o sentido e a direcção da sua missão, do seu papel e talvez questione a presença de uma mão superior, abstracta e poderosa que possa garantir o seu caminho. Mas isso não acontece de forma suave e muito menos sem perguntas e dúvidas.

Estou a falar de fé, de religião, de acreditar ou não em Deus e decidir o que sentimos segundo as leis dessa crença, dessa espiritualidade. Não sei se esta é a essência deste romance, mas foi isso que ficou evidente para mim. Em que ponto da nossa vida procuramos a fé e a espiritualidade? E quando surge, é facilmente absorvida ou somos antes de tudo absorvidos para os dilemas e os problemas associados?

Penso no lado menos colorido deste tema, pois o livro segue esse lado mais negro. Um lado que desenterra o passado, um lado que verte sangue e derrama lágrimas. Julgo que o centro da acção deste enredo está precisamente nessa maldade que aguarda a queda do homem. À distância de promessas sem compromisso ficam acções que poderiam salvar as almas e orientá-las num futuro melhor, mas sente-se pouca esperança ao longo das páginas.

A missão falha, arrasta-se e está obstipada. Há um certo azedo que acidifica todo este cenário estruturado para o que é feio e que torna os homens em meros figurantes. Um discurso recheado de metáforas para a ficção em que se tornou o palco da vida.
E julgo que não podia ter encontrado melhor parágrafo para finalizar, tentando fazer justiça ao único traço belo deste romance: a linguagem extremamente funcional mas lírica com que Sandro Willliam Junqueira consegue compor, usando palavras simples, mas que não podiam ser as mais adequadas.


Uma leitura com o apoio EDITORIAL CAMINHO.

quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

O Banquete - Patrícia Portela - Caminho

Confesso. Nunca tinha ouvido falar de Patrícia Portela, nem nunca tinha lido nada dela. Este livro chamou-me à atenção pela sua capa, que achei fabulosa e porque o tinham recomendado à Cris por ela gostar de autores como Afonso Cruz e Sandro William Junqueira.

Assim que começou a minha aventura neste livro, cujo o género tenho dificuldade em classificar tive a noção de ser um livro totalmente alternativo e que tenho alguma dificuldade em classificar.

Após algumas páginas a primeira coisa que me veio a ideia foi: que estranho, que relatos tão distantes, que histórias e notícias são estas!? Cada capitulo parecia uma história diferente e depois existiam as notícias científicas e ainda a conferência dos pássaros, que mais tarde vim a descobrir existir em livro, da autoria de Farid Ud-Din Atal. 

Então temos: uma historia sobre um banquete, pequenas noticias, talvez até meio descabidas, sobre ciência e outros sobre acontecimentos insólitos e a conferencia dos pássaros, desconcertante? Sim. Original e diferente? Sem dúvida. Este é um daqueles livros que vamos lendo como que para descodificar exactamente exactamente o sentido do que lemos.

Mas, ainda assim, Patrícia Portela consegue agarrar-nos às páginas, de tão interessantes ou surreais que são as ideias que vai expondo. Com alguns toques de humor e com uma incrível capacidade de nos baralhar as ideias, a autora tem o dom da imaginação e brinca com o leitor deixando-a pensar no que vai sair daqui.

Entre mitos, teorias cientificas e a conferência dos pássaros a autora leva-nos a pensar no ser humano, na sua possível imortalidade e invoca uma quimera, com duas partes, uma humana outra animal, uma quimera dividida entre estas duas metades, sem nunca conseguir viver em separado.
Continua estranho? Sim, é certo. Talvez este seja um daqueles livros que não se explica, lê-se e sente-se, já que as explicações parecem demasiado racionais para aquilo que experimentámos.

Para mim foi um livro de enigmas e um tanto ao quanto confuso. Ainda assim, recomendo pelo desafio que representa.

Mais informações no site da Caminho. Uma leitura com o apoio do grupo Leya.


segunda-feira, 17 de novembro de 2014

A pensar em ler, a divulgar e a ler sobre O BANQUETE, de Patrícia Portela


Apelida por uma forte imaginação, ou antes ainda, por uma imaginação invulgar, Patrícia Portela é assim apresentada no Livro do Dia TSF.
O Banquete, foi uma das últimas leituras do Caracol Literário e em breve uma das minhas.

Por isso, não podia deixar passar a oportunidade para divulgar.

Fonte: TSF

O que é que poderá juntar numa mesma narrativa notícias científicas absurdas, a história de uma investigadora em Biologia Molecular condenada à reclusão na sua própria casa e uma assembleia de pássaros, abelhas, aranhas e ventos reunida para discutir o desvario humano? A unir tudo isto está a imaginação inclassificável de Patrícia Portela. Inclassificável porque há nos livros que tem vindo a publicar uma originalidade difícil de catalogar.
Como acontece em textos anteriores, também este nasceu para uma performance da autora, já há alguns anos. Antes de ser uma escritora, Patrícia Portela é uma mulher do palco e essa marca está em praticamente tudo aquilo que escreve. Embora «O Banquete» esteja longe de ser um texto dramatúrgico em sentido linear.

Aquilo a que Patrícia Portela se dedica é a um exercício de reflexão ficcional em torno de algumas ideias filosóficas antigas e sempre atuais, como por exemplo o mito de Fausto, aquele que se troca a alma por uma coisa qualquer. E a pergunta é: o que é que nos leva hoje a vender a alma?

Uma das histórias que se conta em «O Banquete» é a de um casal que cumpre escrupulosamente a obrigação de alimentar uma criança virtual que tem a seu cargo mas que acaba por deixar morrer à fome, por desleixo, o seu próprio bebé de carne e osso.

A ficção tomou conta da realidade.

*
«O Banquete», de Patrícia Portela, edição Caminho.

Uma leitura com o apoio:

quinta-feira, 13 de março de 2014

"Os Transparentes", de Ondjaki - Opinião

Em Os Transparentes, Ondjaki expõem uma Luanda, que talvez não resuma, mas caracteriza Angola, naquela globalização e capitalismo acelerados, na imposição de uma mutação acelerada.
É com base nessa realidade que o escritor conhece e sobre a qual escreve, uma realidade que estrangula a ficção e expõe a verdade. A urgência da verdade! A desconstrução moral e a urgência do capitalismo bruto que urge, que queima e que expõe uma cidade, um povo, diria eu, a uma corrupção desenfreada que não olha a meios.

"- a verdade é ainda mais triste, Baba: não somos transparentes por não comer... nós somos transparentes porque somos pobres." (pág. 203)

É nesta constatação da transparência de um povo, que Ondjaki revê também os portugueses. Talvez, arrisco a dizer, também os veja com o humor que reconhece no povo angolano, na alegria de viver, no desenrascanso típico, por vezes arrojado e criativo, tanto para sobreviver como para atalhar nas dificuldades da vida. Se neste livro eu li e vi Luanda, vi também Portugal. As makas podem ser outras, a banga também, mas os vijús tendem a ter a mesma vivacidade na hora de inventar e dar corda ao mujimbo ... ;)
É também nesta particularidade linguística e de contexto que o livro de Ondjaki ganha riqueza e promove aprendizagem. Há uma certa vivência que se experimenta lendo assim estes diálogos, que tendem a arrancar de nós uma certa teatralidade e interpretação, fazendo-nos rir e experienciar o livro.

"(...) desorientado por vocação, acordava cedo para ter mais tempo de não fazer nada." (pág.25)
Talvez a característica do Ciente seja uma forma de compreender a noção de tempo e o que se faz com ele... espelha uma certa contrariedade, uma atitude dúbia, mas que nos deixa a pensar. Aliás, todas as personagens irão ter características chave que nos deixam alerta: o Carteiro, o VendedorDeConchas ou o Cego, e a dureza da luta diária, mas também a simplicidade. A ideologia e o credo da AvóKunjikise, a corrupção e as manhas dos Fiscais ou do Ministro,... o amor à cidade e a transparência de Odonato... são transparentes, mas cheios de conteúdo!

"(...) porque só os grandes homens choram na companhia solitária de outros homens..." (pág.201)

Outro conteúdo que é trazido para o livro é a cidade, metamorfoseada pela exploração, pela corrupção... pelos mesmos de sempre e agora pelas perfurações em busca de petróleo... Ondjaki, tal como refere em algumas entrevistas, pretende chamar à atenção para a necessidade de se pensar Luanda, como cidade, como ser vivo, volátil e permeável a todas as mudanças trazidas pela globalização e capitalismo. É nessa mutação acelerada que a cidade perde qualidades e esmaga o povo, que luta pela dignidade de um dia melhor, menos sofrido, menos explorado... com menos fome. A fome é também uma grande temática.

Com um estilo e humor característico, o autor vai levantando o véu e denunciando o que lhe preocupa:
"- mas quem manda em tudo isto?
- gente muito superior.
- superior.. como deus?
- não. superior mesmo! aqui em Angola há pessoas que estão a mandar mais que deus."

A cada parte do livro, o leitor ganho um novo fôlego, naquelas páginas a negro, onde as palavras do autor ganham uma nova aura e anunciam a imaginação essa "faculdade que nos separa dos outros seres" ... essa potencialidade que tanto a ciência como a humanidade precisam.
Espelho dessa humanidade, mas também da criatividade do autor, é o prédio, metáfora para o povo e daquilo que os homens são feitos. Ele, o prédio, é o palco de uma Luanda esburacada, fragmentada.

Na lança que Ondjaki solta com este romance está uma imaginação que se embriagou nas estórias de um povo bom vivant que talvez ainda queira a sua Angola de outros tempos.


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Uma leitura com o apoio CAMINHO, veja mais aqui.
Ondjaki, vence Prémio José Saramago, veja a notícia em Novembro 2013, aqui.

sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

"Um piano para cavalos altos", de Sandro William Junqueira - Opinião

"Um piano para cavalos altos", uma composição musical, num compasso descompassado, como o coração daqueles que amam, detestam e se revoltam!
Um calendiário (pág. 113) em jeito de diário de uma tragédia ajeitada, secretamente anunciada, anotada com xizes vermelhos, num calendário de horas e dias, em bizarras sucessões!

Da sonata de Inverno até ao concerto de Verão, Sandro William Junqueira traça uma possível distopia, que não é nada mais nada menos do que um olhar duro à realidade e um "apanhado" à História recente. O que nos leva a muitas questões sobre poder, medo, povo, felicidade, política, amor, mas ao ler a opinião da Renata (Roda dos Livros), a pergunta que ela coloca é a mais pertinente: "será que é a violência dos regimes opressivos e autoritários que brutaliza as pessoas ou será que é a brutalidade dos seres humanos que gera as ditaduras?"
E os dados estão lançados para o cerne deste enredo de traços exacerbados e em tom alucinado, mas que olham o mundo de frente e de olhos bem abertos:

"A implosão das igrejas é outro passo certo dado em direcção a um estado social que não desperdiça. O reino da Igreja não é deste mundo. E, se ao mundo não pertence, nele não se deve edificar. Plantar raízes. A fé não nasce de um edifício nem se desenvolve nos volumes da arquitectura. (...) A casa de Deus só pode ser a cabeça, o coração, as mãos, os pulmões, os rins, os pénis, ânus e vaginas de quem acredita. Fora da carne, Deus perde compostura, ideias e emoção." (p. 30)

Tendo o enredo num tempo indeterminado e num lugar incomum, comandado por um governo totalitário, com mão de ferro e leis opressoras, o Ministro Calvo e o Director vêem a sua ordem abalada após um ataque a um militar. A ordem está em causa porque O Mensageiro havia previsto o acontecimento, referindo uma estranho conversa com Ele... fazendo assim tremer os alicerces religiosos já impostos.

Estranhamos o facto de nenhum personagem ter nome próprio, mas sim o nome da sua profissão ou de alguma característica física: a Ruiva, o Director, o Ministro, a Prostituta Anã... Tal escolha do autor, dá-nos a possibilidade de: ou lhe atribuímos um nome - ou pensamos em como aquela sociedade seria fria e estratificada, retirando a individualidade de um nome e a liberdade que isso lhes daria.

O sexo, as relações, o poder, o amor, o esforço, a dedicação, a guerra, a política... tudo por frases curtas e um enredo cru, duro... que a certo ponto pretende ser violento e até, talvez, chocante.
Depois, mistura-se e deixa-se perder em divagações que mais parecem infantis e oníricas, que sem entender muito bem ou até gostar, ligo à necessidade que o autor tem em separar as personagens em dois estratos daquela sociedade.

 É impessoal e frio, mas igualmente belo, cuidado, parecendo ter palavras escolhidas e pesadas milimetricamente para aquele contexto, depois noutros, deixa-nos à procura do seu sentido, do seu rumo.
É como se as palavras, as próprias palavras quisessem, só por si, dar-nos a sensação de violência, de perdição, de frustração e até de delírio que o próprio cenário e enquadramento têm... mas depois há a fome, a fome do amor, da entrega, da comunicação, do desejo... tudo confinado, amarrado, entalado, sufocado... nas regras, no rigor...

"Só quando o inferno nos toca com a asa inesperada é que abrimos os olhos." (pág.160)

Tudo nesta obra pode e deve ter reticências, até chegar ao fim e saber afirmar se gostámos ou não, ponto parágrafo, parece-me impossível. Preciso de reticências!
Talvez a sua leitura deva reticenciar-se, repetir-se, alongar-se... uma leitura para reler e reinterpretar!

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(excerto completo)

“O motor: breve súmula dos mais importantes ditados do Ministro Calvo

O medo é motor indispensável à civilização.
Agente potente que, bem oleado, bem afinado, bem conduzido, permitirá o progresso económico. Não controlado, este movimentador de massas tornar-se-á adversário. Inimigo em vez de amigo. Uma bomba temível que fará a política resvalar para terrenos lodosos e encravar engrenagens. O Governo deve ter isto em atenção. E analisar com argúcia todos os seus componentes e peças: do pequeno receio ao grande terror; da cautela particular ao pânico geral. É necessário examiná-los, testá-los, pô-los em movimento, a todos. Lubrificar o medo. Realizar experiências. Trabalho de oficina. Para do medo retirarmos o máximo lucro. E o rápido avanço. Está mais que provado: o amor é inútil, só atrasa, não dá lucro. E é talvez o maior adversário da boa política.
Assim e, antes de qualquer tomada de decisão, este Governo deverá ter sempre presente, como auxiliar formal e pedagógico às suas ideias e leis, os números, as tabelas, enfim: os consumos do medo.
O que mais teme o povo?
Deverá ser a primeira questão.” (p. 204)


As influências musicais: Rachmaninoff e Erik Satie
Oiçam o autor em: Ler Mais, Ler Melhor 

Uma edição, clique e saiba mais sobre o livro



sexta-feira, 20 de agosto de 2010

A viagem do Elefante - Opinião

Passados não sei bem quantos anos, decidi que queria voltar a ler Saramago. E peguei em "A Viagem do Elefante".

Começo já por dizer que adorei o modo como está escrito, pelos jogos de palavras, pela inteligência como certas ideias estão colocadas, mas sinceramente tenho a necessidade de dizer que o livro me chateou, cheguei a achá-lo enfadonho! Dos muitos últimos que tenho lido este foi realmente cansativo de ler, não me apetecia, cansava saber que ia continuar a seguir com os olhos as palavras que descreviam, sempre, desde o princípio até ao fim, a viagem de certo Elefante desde Belém até Valladolid e depois até à Áustria...

Será que há aqui um detalhe histórico que me falha?
Existe alguma ironia e critica à monarquia dessa época que eu desconheço e então a história perde o sentido e o interesse?

Ainda assim quero dizer que o modo como está escrito é sem dúvida o melhor deste livro, Saramago descreve-nos o Elefante como um ser equiparável às pessoas que o rodeiam, ou melhor, em certas fases, um ser superior! E é sem dúvida o Elefante que faz toda a diferença.