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quinta-feira, 18 de abril de 2019

«Princípio de Karenina» de Afonso Cruz :: Opinião



O princípio de Karenina ou a imperfeição que é querer medir a felicidade. 


"A imperfeição salvar-me-ia com igual intensidade e na mesma medida com que me faria sofrer"

É nesta medida dúbia, tendo na imperfeição a salvação, que um homem narra a sua história, numa longa carta de apresentação, à filha que não viu crescer. Explicando-lhe "uma orientação invisível e subtil das nossas vidas através dos afectos", mas também o drama de ter medo do desconhecido e como isso limita o tamanho do mundo; mundo esse sempre estrangeiro como o das mulheres que mais amou.

Essa aversão ao estrangeiro, as costas voltadas ao infinito que é uma janela aberta e toda as fronteiras que mais parecem muralhas, são heranças que cedo sabemos lhe terem ficado do pai. Heranças angustiantes, marcadas por sentimentos fortes que o sufocaram durante décadas. 

"Lembro-me muito bem dessa refeição em que o Dr. Vala disse à mesa que as batatas vinham da América do Sul. As emoções, positivas ou negativas, são uma máquina de impressão. Todos os acontecimentos tendem a desvanecer-se, mas a emoção grava-os na pedra da realidade, da nossa realidade (...) O cheiro das batatas cozidas estragava-me o nariz, (...). Olhei de soslaio para o meu pai, tentando perscrutar alguma reacção sua que confirmasse aquilo que eu acabara de perceber, a imoralidade de certa comida que mastigávamos e engolíamos (...)
- O que é que se passa? O menino está pálido.
Estava, efectivamente. Como se enfia na boca uma coisa de tão longe, com um oceano pelo meio, como se mastiga aquela distância toda?"

É essa distância, difícil de mastigar e, mais ainda de engolir, que o assombrou a vida inteira. Vida essa falsamente protegida pela imponência dos muros da moralidade, pregada entre gerações como estandarte contra o Mal.

"Um herói ou um santo só existe se confrontado com o Mal, só existe depois de emergir ileso da barbárie, e eu queria ser um santo como os que ouvia na missa e admirava nos nichos de pedra e nos frescos da igreja."

Para além dos santos, também a mãe vivia encerrada nesses nichos. Temente, ausente e de poucas palavras, constantemente esmagada entre a forte personalidade do marido e "a necessária encenação social que nos mantém coesos enquanto comunidade".

São entre estas personagens e outras pontuais que vamos conhecendo a história deste homem e de uma mulher vinda de geografias longínquas. Conhecemos-lhe o amor e os medos e questionamos atitudes de decisões de quem esteve mais perto de uma felicidade maior e a deixou fugir. Será mesmo assim? 
Este, como todos os livros de Afonso Cruz, faz-nos olhar para dentro. São frases pequenas, que parecem simples e que nos arrebatam, puxando-nos para dentro, numa tentativa de perceber mais o que metemos para fora. 
E a certa altura, numa conversa entre miúdos, concluímos que onde não há flores há caminho E que o medo nos pode fazer coxos da cabeça, deformando-nos. E que mesmo deformados encontramos um atalho para a vida.




sábado, 26 de novembro de 2016

«Nem todas as baleias voam» de Afonso Cruz :: Opinião



ABERTURA 



"A realidade é apenas uma fantasia exageradamente bem penteada, disse o escritor sérvio Goran Petrovic. O que me agrada particularmente nos blues é precisamente a recusa em pentear a realidade (...). Nos blues há uma denúncia constante da opressão, da injustiça, do racismo, da miséria."

*

A genialidade, a desordem, a excitação e a entrega que visualizei neste vídeo de Glenn Gould foi exactamente o que fui sentido ao longo da leitura deste «Nem todas as baleias voam», por isso fez-me todo o sentido unir esta peça de Bach, tocada por um outro Gould ao Gould que Afonso Cruz criou, oferecendo ao leitor um enredo carregado de blues e de frases com dotes de pugilismo, tal como esta, presente na abertura deste livro, que eu diria que encerra em si mesmo um género de caixinha de sapatos para doentes terminais, coleccionadores de dores, mas também de muitos pequenos momentos de magia.

"Traço mapas com histórias obscuras, que iluminam becos, atalhos, lugares que ninguém se lembraria de percorrer."

Desde cedo percebemos que há aqui uma ode ao belo dentro da maldade e do mal, aliás somos logo avisados para essa maneira sórdida e até perversa de alimentar esse engenho do mal, do medo e do aberrante como solução para nos mantermos à tona, à superfície da sobrevivência. 
Parece estranho? Se não o fosse é que seria de estranhar. Estamos novamente perante um livro intenso e imenso de Afonso Cruz, onde as personagens e as histórias se cruzam de tal forma que, mesmo a muitos quilómetros de distância, ganham uma intimidade que chega a fazer doer. 

"Depois abria os olhos, concentrava-se nas fotografias do atlas correspondentes ao território escolhido pela ponta do dedo (as fotografias ficavam sempre com a marca da unha do indicador, porque Tristan, ansioso e triste, deixava que alguma violência lhe saísse pelo dedo ao pressionar o lugar onde estaria a mãe.
(...)
- Onde estava ela?
- No mar.
Naquela manhã não lhe apeteciam frases compridas, foi só isso, mar, que é uma das palavras mais profundas e o lugar onde o dedo se espetara, uma marca de unha de indicador no meio da água."


RELATÓRIO GOULD




Julgo que o leitor vai entrando lentamente e vai sendo atraído para esta espécie de improvisação que pauta a estratégia do autor em nos encher os sentidos e nos explorar as emoções, apelando à palavra escrita, à cantada ou até àquela que não se ouve, mas está lá, saindo pela ponta de uns dedos que exprimem afecto e sentimentos profundos, tocando melodias que são autênticos relatórios das marcas que o tempo deixa. 

"(...) uma lesão incurável. 
- Vês?
- Não há pomadas?
- Dizem que o tempo cura.
- O tempo é uma pomada?
- Uma espécie de pomada.
- Não tem funcionado, pois não?
- Não. É que também vamos criando afecto pela dor, ela diz-nos que estamos vivos (...)"

EPÍLOGO



"O corpo dela cheirava agora a sabão, mas não disfarçava o odor intenso a uma certa solidão que lhe dava um ar quase etéreo, de quem vive acima do lodo do quotidiano (...)"

É neste acima do lodo do quotidiano que a história vai avançando, orientando-se na geografia do que é estranho, mas se intromete nas vidas, pejadas de dor e de solidão, mas também abertas à esperança que desponta aqui ou ali, como uma música que passa por uma frincha, uma brecha e nos entra na cabeça e permite a redenção que todos procuramos, corrigindo diferenças e tratando-nos do coração. 


MENSAGEM ARQUIVADA




*
Este texto estará igualmente publicado no Deus me Livro e na
Comunidade de Leitores Roda dos Livros.

Uma leitura com o apoio da ALFAGUARA.

terça-feira, 31 de maio de 2016

«Vamos comprar um poeta» de Afonso Cruz :: Opinião




Contrariando a tendência que tenho para me alongar sempre que escrevo sobre os livros que leio e porque aqui podia correr o risco de escrever quase tanto como o texto que compõe este «Vamos comprar um poeta», pois tanto se poderia dizer.
Digo sem rodeios que o melhor que têm a fazer é mesmo comprar um poeta. Se o dinheiro não chegar, o melhor será encontrar o poeta dentro de si ou quem sabe procurar por algum à sua volta, talvez um familiar ou um amigo. Se ainda assim não encontrar um poeta, compre o livro do Afonso Cruz.

"Uma janela é uma janela, mas uma janela que é um pássaro a voar é uma realidade mais profunda, para lá do vidro, algo que está para além da definição do dicionário, está do outro lado da janela, mas que faz parte dela e que a descreve, ainda que por um breve momento.
Uma janela é muitas coisas e..."

Para contrariar o vazio sentimental que afecta a sociedade em geral e combater a precariedade e bancarrota (sentimental) até mesmo dentro das família, uma família pragmática, centrada nas regras e na prosperidade da economia decide dar um novo tom à sua realidade e comprar um poeta.

Na tentativa de ir desembaciando os dias e porque a "poesia é um dedo espetado na realidade" a família vai experimentando as peripécias de ter um poeta deambulando por casa.

Como irão estas vidas lidar com este inutilista?

"(...) estudos afirmam que os poetas vivem com pouca relação com a realidade e com quem os rodeia..."

«Vamos comprar um poeta» é um mini tratado de como olhar a vida para além das definições que vêm no dicionário obrigatório do viver em sociedade. É também o retorno à magia e à poética que os momentos simples da vida têm, mas que pela frieza do crescimento e o passar do tempo vamos perdendo.

"Aos poucos fui começando a perceber o que o poeta dizia (...)
Metáforas.
     Metáforas?
     Sim, confirmou o poeta.
Peço desculpa, mas um sapato não é um luva apaixonada pelas mãos erradas. No mundo onde todos vivemos chama-se mentira e é muito feio, desconta-nos muitos pontos percentuais de moralidade.
(...)
Francamente."


Uma edição Editorial CAMINHO

sexta-feira, 1 de abril de 2016

Novidade Caminho : "Vamos Comprar um Poeta" de Afonso Cruz

Data de Lançamento - 12 de Abril

Numa sociedade imaginada, o materialismo controla todos os aspetos das vidas dos seus habitantes. Todas as pessoas têm números em vez de nomes, todos os alimentos são medidos com total exatidão e até os afetos são contabilizados ao grama. E, nesta sociedade, as famílias têm artistas em vez de animais de estimação. A protagonista desta história escolheu ter um poeta e um poeta não sai caro nem suja muito - como acontece com os pintores ou os escultores - mas pode transformar muita coisa. A vida desta menina nunca mais será igual…

Uma história sobre a importância da Poesia, da Criatividade e da Cultura nas nossas vidas, celebrando a beleza das ideias e das ações desinteressadas.

Uma novidade

Opiniões sobre outros títulos do autor

domingo, 15 de novembro de 2015

«Flores» de Afonso Cruz :: Opinião

Começo já pelo final quando é dito que são os detalhes que mostram a essência das pessoas. Será que podemos dizer que pela qualidade dos detalhes, pelo cuidado e atenção que o autor coloca no seu texto está a essência da sua escrita?

Se sim, estamos perante uma essência bastante rica e profunda. Cada história que Afonso Cruz traça nunca vem só, são camadas e camadas. As flores não são só flores. As flores são palavras e as palavras têm espinhos, mas antes com espinhos e ter flores e palavras que ter apenas o vazio ou a solidão.

Este flores é um jardim inteiro, são as flores para a alegria e são ao mesmo tempo as flores que se depositam no corpo que se leva a enterrar. São as flores que acompanham a noite da paixão, como as selvagens que crescem e embelezam os campos... mas são também as flores que murcham e secam como os dias resignados à rotina.

«Flores» é metáfora para medo, espinhoso e que pica, mas que desperta e faz o indivíduo agir e corrigir a sua direcção. «Flores» são música, são poesia.. detalhes recheados de música e força que podem corrigir e conseguem salvar o mundo, vencer a guerra, meter um sorriso num rosto triste e só.

«Flores» é a taumaturgia do próprio Afonso Cruz! O poder enigmático e metafórico da sua escrita, simples, mas profunda, que esmaga a rotina e realça a esperança que pode haver em todos os momentos.

Foto de Afonso Cruz por Bruno Colaço, na entrevista da ESTANTE

Uma leitura com o apoio
COMPANHIA DAS LETRAS


terça-feira, 26 de novembro de 2013

«Para onde vão os guarda-chuvas» de Afonso Cruz - Opinião

"Os caminhos são mais longos - disse um dia Elahi - para quem está sozinho. (...) Os dias esticam e ficam mais longos, o relógio diz que não, mas, com licença, o que sabem os relógios da alma humana? Não sabem nada, Alá me perdoe. O tempo demora mais a passar, muito mais, é assim que se sofre. Quando se está feliz, esse mesmo tempo passar a correr, parece que vai atrasado para uma festa, mas, se vê uma lágrima, pára e fica a ver o acidente, dá voltas à nossa desgraça e não anda para a frente como os relógios dizem que ele faz.

(...) Disse Ali: Não é a falta de pessoas à nossa volta que faz a solidão. São as pessoas erradas."


O caminho é verdadeiramente longo. Os dias irão esticar-se. O tempo parecerá parado. Os relógios avariados. «Para onde vão os guarda-chuvas» de Afonso Cruz é uma trovoada de questões e um dilúvio de emoções. Um relato carregado de luz, mas marcadamente povoado de nuvens negras.
"54. Encheremos o mundo de coisas preciosas. Serão tantas que os homens passarão por elas julgando-as banais."
Assim estou eu perante este livro. É precioso todo o encadeamento, todo o complexo de histórias que se cruzam, como as tais linhas dos tapetes de Fazal Elahi, mas o sofrimento é tanto, que eu ainda estou a recuperar de todos os socos violentos que esta narrativa nos dá! E o fim!? O fim foi sufocante.
Não posso dizer inesquecível, pois eu quero esquecer a possibilidade de tal acontecer, mas é inevitável dizer que o fim quebra todas as regras do quanto o ser humano suporta sofrimento.

Fazal Elahi era um homem com o desejo de passar invisível, acreditaria que de tão invisível conseguiria enganar a morte. E enganou, pelo menos a física, já a emocional...
Fazal Elahi era bom muçulmano, mas uma alma irrequieta e turbulenta, atulhada de questões, muitas a Alá.
A própria forma como aceitava as irreverência de Bibi demonstrava que o seu entendimento suplantava os ensinamentos mais restritos ou fundamentalistas. Aliás, a vida de Fazal Elahi foi toda feita de irreverências e rodeada de pessoas ainda mais irreverentes.


Badini, o mudo mais falador de sempre (só pode) fazia das mãos palavras e das suas palavras poemas, artes, explicações divinas para o entendimento supremo da vida. Mas se segundo ele somos estrelas, aquelas que Alá vê quando olha lá de cima, porque razão o futuro se pinta tão negro? O mudo tinha muito medo da felicidade. A felicidade era como uma mão que tira e uma outra que dá, mas só que em locais diferentes.

Nas mentes irrequietas e intelectualmente desconcertantes de Badini e Elahi recaem as melhores partes do livro. Os seus diálogos, revelando preocupações que ultrapassam religiões, costumes ou política, são antes o espelho das preocupações humanas, revelando as semelhanças que nos unem. Talvez nunca se diga em palavras explícitas, mas o que ambos desejariam era ponderação, tolerância, equilíbrio... mas a vida, o mundo, para além de ser um composto frágil, tem também um equilíbrio absurdamente/moralmente/curiosamente/esteticamente desequilibrado.

Curiosamente são as ideias, que mesmo dispersas rapidamente se unem, permitindo, quase absurdamente, ver um equilíbrio entre ensinamentos cristãos, hindus e muçulmanos, como se com um pouco de cada lado, se obtive-se um conjunto quase perfeito.

"- Disse Rumi: uma opinião é um pássaro com apenas uma asa."
"- Posso continuar cristão? (Isa, pág.379)
Fazal Elahi coçou a barba e condescendeu:
- Podes, desde que sejas um bom muçulmano."

Mas a religião não fica por aqui e não se esgota. A antiga Pérsia é também trazida para dentro do livro com toda a beleza dos Fragmentos Persas, um livro dentro de um livro. Como o Afonso Cruz já nos habituou. Há também ascetismos, esoterismo e misticismo... há filosofia, numa preocupação de entender a Humanidade, de compreender o próximo como uma continuação de nós mesmos.

Fazal Elahi será um exemplo? Será a sua fé e a sua capacidade de ser reinventar e perdoar um ensinamento? Mas o que lhe falta para ser constantemente magoado, espezinhado e atraiçoado?
Fazal Elahi perde um filho.
Bibi é atraiçoada nas suas convicções.
Aminah é fútil ou quererá apenas testar um sonho, uma promessa de emancipação!?
Badini que na sua divindade prova a sua teoria da felicidade.
Nachiketa Mudaliar converte-se por amor, mas não esquece as raízes e é com elas que justifica a vida
Salim, Nauman ou Isa... a inocência reflectida no íngreme que são as escadas da vida.

O rol de personagens é extenso, mas consistente. Afinal a vida é pautada de inúmeros encontros e desencontros que, mais ou menos, contribuem para a nossa educação, para a nossa liberdade...
"(...) a educação é uma limitação da nossa liberdade, ensinamos os outros a respeitar fronteiras..."

É difícil explicar, mas este livro é um compêndio de ideias, de ensinamentos, de questões... quem sabe uma bíblia para ateus, daqueles que crêem em algo, mas não sabem bem o quê. E "se é difícil de explicar, é porque não é verdade, a verdade é algo muito simples."

Mas como se ensina esta verdade simples, se somos todos tão complicados!? Não ensinamos, não explicamos... perguntamos, questionamos, vivemos na dúvida.

"O futuro é uma pergunta. Se há terrorismo eficaz, que valha a pena, é perguntar."

E vocês, sabem para onde vão os guarda-chuvas?


"Alguns poemas, traduzia Elahi às crianças, ficam colados nas árvores e no céu, e só se apanham quando estamos suficientemente maduros para o fazer."

*
Uma leitura com o apoio da Alfaguara/Objectiva. Vejam mais do livro, nos diversos links disponibilizados:
Facebook de Para onde vão os guarda-chuvas
Blogue da Editora Objectiva


quinta-feira, 21 de novembro de 2013

«Jesus Cristo bebia cerveja», de Afonso Cruz - Opinião

Brindemos, Jesus Cristo bebia cerveja!


Que fado dos infernos viveu esta Rosa. Malfadada personagem, perdida num lugarejo lúgubre alentejano, onde a ruralidade não deveria ser desculpa para as brutalidades cometidas.
Filha de mãe fugida e pai enforcado, junta-se ainda um avô atirado num poço e uma avó que mija a seus pés e que já conta com muitas dívidas à saúde.

Quem leu e não gostou, ou leu e achou pouco, eu creio que não precisa de ser tudo dito. Por um lado, ainda bem, por outro porque nos deixa magicar aquilo que o autor não revela, não cria... dando ao leitor um pedaço de criação. As personagens são marcantes. Todas elas. Rosa é inocente ... pen­sava que a san­ti­nha tinha as mãos jun­tas por­que batia palmas.
O Faia era bombeiro, mas pelos vistos não tinha quem lhe apagasse os seus fogos.
O pastor Ari, "o leão deitar-se-à com as ovelhas" ... e a profecia cumpre-se!
O policia que é corrupto, é bruto e muito pouco polícia, o que não deixa de ser irónico e talvez exemplificativo de como certa coisas acontecem com naturalidade, naturalmente aceite.

Há uma certa tendência para o exagero, dirão alguns. Eu encontro uma elevada tendência mágica para mascarar os acontecimentos, tornando-os na mesma brutos e crus, mas menos chocantes. As cenas de violência, de abuso, de sofrimento, de ignorância... estão todas lá, mas muito bem camufladas nesta capacidade quase poética de Afonso Cruz.

Se o Alentejo é terra árida, seca, sofrida e até selvagem, então Rosa é o Alentejo. A terra desenvolve-se (ou não) e Rosa cresce. A acção avança, as tragédias continuam a acontecer.

O Professor Borja e Miss Whitmore começam a ser fulcrais e a ideia central do livro começa a desenhar-se. Trazer Jerusalém ao Alentejo. Será o Alentejo a Terra Santa? Poderá este enredo original e idílico trazer água no bico e ser metáfora e piada a algumas considerações sobre a importância (ou a falta dela) do nosso Alentejo!? Não sei, deixo à discussão, mas essa ideia não me abandonou em todo o romance. Afinal o próprio autor trocou a capital pelo Alentejo, algo o atraiu para lá...

Os episódios acumulam-se e queremos ver tal engenho trazer a terra santa para que os desejos da idosa, a avó de Rosa, sejam cumpridos. Mas o melhor de todo o enredo, não está neste foco central, está sim nas palavras que o autor usa para criar certos ambientes e preencher, dar alma, às suas personagens. Mesmo quando a alma se sente vazia.

“Rosa nunca se sentiu única” porque tudo o que lhe acontece é minimizado pela avó, que lhe diz “isso também já me aconteceu. A vida de Rosa é partilhada por todos (...) Ela pertence a todos, como o pão da missa que se divide pela humanidade” (p. 157)

Pensando no sentido do título e no cabimento de Jesus Cristo dentro deste livro, existem inúmeras frases que são assim como que iluminadas, como que tocadas pela sabedoria, como aquelas que teimavam em reaparecer, divinamente, no muro branco da inglesa. "Parece que a sabedoria teima em reaparecer, como os fungos." (pág. 31).

As questões existenciais continuam e a luta de ideologias entre o hindu, os cristãos, ou até budistas... todos são chamados ao debate do "Eu", do vazio, alquimias e magias... os desígnios das "coisas". Enfim, a liberdade de ter opinião e deixá-la ganhar asas ou ser como as árvores ter asas e não voar, as raízes são profundas, enterradas, como palavras.

Existem aqui muitas, dessaspalavras enterradas, mudas, invisíveis... deixadas para o leitor para que não lhe sobre o "silêncio na boca". Talvez este livro seja preenchido com alguns silêncios, aqueles que fazemos entre determinadas frases mais profundas, aquelas que nos fazem ter vontade de gritar, mas "gritar é coisa de pessoa sozinha. Quando temos pessoas para nos ouvir não precisamos de gritar, pois não?" (pág.87)

E já para o fim, para se fazer ouvir, Rosa terá de tomar decisões. Talvez deixe de ser como os gatos. "a comer pássaros para voar." (pág.190) Talvez deixe de chupar pedras como se fossem rebuçados a vida se torne menos pesada e pedregosa. Talvez dê "carne às palavras" e de beber à solidão.
Talvez, talvez... Rosa, de menina a mulher, com a alma como "uma casa a precisar de ser caiada" (pág.246)

*

O Alentejo é um deserto onde a morte não ouve o pianista, Harold Estefânia, um nómada, que devia ter aprendido a cultivar... talvez, quem sabe. E mais não digo, o mistério da cerveja é, diria, alucinante e deixa-nos de sorriso nos lábios.

*

«Jesus Cristo bebia cerveja» é uma edição Alfaguara/Objectiva, consultem mais no Blogue da Objectiva
e oiçam aqui o livro em destaque na TSF, na rubrica Livro do Dia
ou oiçam o autor a falar deste seu livro no programa Ler Mais, Ler Melhor, aqui.


sexta-feira, 15 de novembro de 2013

A ler «Para onde vão os guarda-chuvas» e a pensar nos livros de Afonso Cruz


Deixo-vos o o episódio do "Ler Mais, Ler Melhor", 
dedicado ao livro «Jesus Cristo bebia cerveja», publicado pela Alfaguara.


*

domingo, 10 de novembro de 2013

como faço review aos livros do Afonso Cruz!?

A ideia não me sai da cabeça...
Eu passo por ele. Tento evitá-lo.
«Para onde vão os guarda chuvas» é o meu próximo livro!
Passando à frente de muitos, mas não consigo resistir!


Mas entretanto...
Como se escreve sobre os livros e as leituras ao Universo Livresco de Afonso Cruz!!!???
?


Talvez com estes livros comece ou melhor, retome um velho hábito.
Colagens.
A escrita de Afonso Cruz é tão visual e apelativa que só me apetece pintar, colar... misturar!



Mas eu chego lá - e amanhã talvez seja o dia!

Na lista estão:
- O Livro do Ano
- O Pintor debaixo do lava-loiça
- A Boneca de Kokoschka 
- Jesus Cristo Bebia Cerveja


sábado, 19 de outubro de 2013

«Jesus Cristo Bebia Cerveja» de Afonso Cruz - Opinião


Depois de me ter deliciado com o «Livro do Ano», que tive o prazer de ver lido, interpretado, musicado na apresentação do ZDB integrado na Noite de Literatura Europeia, quis ler algo deste autor, como a minha cara metade leu e amou a «Boneca de Kokoschka», decidi escolher outro titulo.
A escolha recaiu sobre  "Jesus Cristo Bebia Cerveja" pois tinha um titulo mais sugestivo e eu também bebo cerveja ;) (permitam-me o "lol"). E pelo que sei o Afonso Cruz também.

Tinha alguma expectativa quanto ao livro, que em parte não me deixou defraudado, amei a maneira simples e bela como o autor escreve, este consegue com as palavras mais simples e à sua maneira descrever cenários terríveis que quase chegam a parecer belos.

O livro tem passagens que me deixaram imaginar o ridículo da situação, deixaram-me a pensar que no meu Alentejo aquela situação era possível de se ver, transportaram-me imediatamente para o calor tórrido da minha terra e visualizei alguns velhotes algumas situações. Estou a referir-me em especial às sórdidas situações com a avó da Rosa.

Se tiver algo a apontar a este enredo de «Jesus Cristo bebia cerveja» é o facto de, infelizmente, não ter conseguido apegar-me a nenhuma das personagens. Gosto do enredo e os episódios são forte, mas nenhuma personagem me chegou a prender, de forma a ganhar sentimentos por ela. Desde o pastor à inglesa, à avó ou até à Rosa, nenhum deles ganhou assim por dizer grande destaque.

Outra coisa em que fiquei a pensar foi: se uma escrita tão bela como a de Afonso Cruz não seria melhor utilizada numa historia "bonita", não numa história deste tipo, nua e crua, representando a dureza da vida não só do campo como também da cidade. Não sei se me explico muito bem, mas quando lemos algo tão belo, esperamos uma história igualmente bela e aqui é tudo bem negro.


Por fim quero deixar ainda aqui um apontamento sobre o pequeno livro que se encontra no fim e que vem preencher algumas lacunas importantes e dar mais um toque delicioso a este livro.

Apesar de ter aquele ponto que menos apreciei, recomendo a leitura do mesmo para degustarem a maneira como este autor escreve, entretanto acho que vou ler a «Boneca de Kokoschka».

*

Leiam mais sobre o autor, aqui, na Alfaguara/Objectiva, que edita alguns dos seus livros.

quarta-feira, 22 de maio de 2013

Divulgação - Noite de Literatura Europeia, pela primeira vez em Lisboa


A Noite de Literatura Europeia invade o Bairro Alto, o Chiado, o Príncipe Real e o Rato no dia 24 de maio de 2013.

A primeira noite branca da literatura europeia decorre entre as 18h30 e as 22h30 simultaneamente em oito espaços da cidade – uma maratona de curtas leituras e dramatizações em língua portuguesa de obras de autores europeus contemporâneos. Atores e, em alguns casos, escritores dão corpo e voz aos textos. As leituras, de 15 minutos, repetem-se a cada meia-hora, de forma a permitir ao público visitar todos os locais e assistir ao programa completo.

Criado em Praga em 2008, este projeto, que procura despertar o interesse pela literatura europeia contemporânea, estreia-se este ano na capital portuguesa e promete espalhar a literatura pelas ruas.

A Noite de Literatura Europeia é organizada pelos parceiros da Rede Eunic Portugal (British Council, Goethe-Institut, Camões – Instituto da Cooperação e da Língua, Instituto Cervantes, Instituto Cultural Romeno, Institut Français du Portugal, Instituto Ibero-Americano da Finlândia e Instituto Italiano de Cultura) e é apoiada pela Comissão Europeia.

Mais informação, aqui - http://www.literaturenights.eu/2013/city/lisbon/writing/?lang=pt - locais, autores, livros e eventos.



Em grande destaque está «O Livro do Ano» de Afonso Cruz, como o representante português nesta noite de Literatura Europeia. 
Veja mais sobre o autor e o evento, no blogue da Objectiva - Alfaguara.

Afonso Cruz é editado actualmente pela Alfaguara, uma chancela da 

EVENTO COMPLEMENTAR - na 83ª Feira do Livro de Lisboa

A 25 de maio de 2013, vai ter lugar no auditório da Feira do Livro, a Conferência de Edimburgo (Edinburgh World Writers Conference). 

A conferência Edinburgh World Writers teve lugar pela primeira vez em 1962 durante o Edinburgh International Book Festival, onde escritores reconhecidos internacionalmente se juntaram para debater os cinco temas propostos e que suscitaram acesas discussões. A segunda edição da Conferência teve lugar em agosto de 2012 e nesta mais de 50 escritores falaram sobre os mesmos temas que foram debatidos em 1962. 

Na edição da Edinburgh World Writers em Lisboa irão ser debatidos dois temas. O primeiro debate, A Literatura pode ter Carácter Político? / "Should Literature be Political?", (16:00-17:30), com o escritor José Rodrigues dos Santos como orador principal acompanhado pela jovem escritora Rute Pereira Coelho. O segundo debate, O Romance: Qual o seu Futuro?/"The Future of the Novel" (18:30-20:00), conta a escritora Escocesa Denise Mina que vai facilitar o debate com outros escritores; João Tordo; Dulce Maria Cardoso; Mathias Ènard (FR) e Rosa Liksom (FIN).  Os debates serão transmitidos em livestream para todo o Mundo dando a oportunidade aos interessados em participar e comentar através das redes sociais (twitter; Facebook). Para mais informação sobre os debates e autores visite-nos em

http://www.edinburghworldwritersconference.org/ 
http://www.britishcouncil.org/portugal-artes-literatura.htm.