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quinta-feira, 25 de fevereiro de 2021

"Os Malaquias" de Andrea del Fuego - Opinião

 


Creio que o leitor aterra em "Os Malaquias" tal com o raio lhes entra pela casa e lhes esturrica a hipótese de serem uma família com princípio, meio e fim. 
A família está em risco tal como a localidade rural Serra Morena que, em bagunça, é um espelho líquido do progresso, ou seja, a modernidade chegou em forma de água devido a uma barragem que surgiu numas terras ali próximas.

Seja pelo progresso seja pela fatalidade que lhes aconteceu, os três irmãos Malaquias são separados e ganham sortes diferentes, às mãos dos interesses alheios mais diversos e assim passarão a próxima década - que se atravessa nos olhos do leitor como outro relâmpago, já que a autora tem a capacidade de num parágrafo narrar a história de uma família e em três ou quatro páginas trilhar uma década como quem corre uma maratona. E fá-lo de forma muito concisa e quase cirúrgica, escolhendo palavra a palavra e uma ordem muito peculiar para que todas as imagens ganhem uma vivacidade determinante e assim possamos ligar-nos às personagens. Ou não. Pois tal cirurgia causa uma certa estranheza.

"Júlia (...) recebia cuidados para não perder o viço dos doces de vitrine."

Mais peculiar ainda é termos outras presenças ou estruturas nesta narrativa que têm tanto viço como os vivos e contribuem tanto ou mais para o curso da história.

"Geraldina Passos morreu no começo do verão, mas enterrar o corpo não apagou a figura. Restou uma espécie de memória, que mesmo minúscula e transparente tinha uma estrutura, permanecia organizada e material. Circulava como o pó de uma penteadeira não encerada, a respiração de alguém a faria levitar."

E levitamos!
Muitas vezes perdidos, outras perplexos com a raridade com que a autora conjuga certas palavras. 

"(...) Nico deu por exata uma surdez parcial, sequela do trovão. Ele ainda se refrigerava debaixo da Lua mesmo adulto (...). Absorvia luz feito bebê sorve o leite da mãe, fortalecendo as vértebras, transformando galhos de cálcio em toras de madeira nobre."


quinta-feira, 24 de dezembro de 2020

«As três vidas» de João Tordo - Opinião



Sou fã dos enredos emaranhados construídos por João Tordo. A prodigiosa imaginação do autor cativa-me constantemente. A sua escrita embrenha-nos num sem fim de eventos que nos embalam, viciando-nos nas personagens, por norma todas elas indecisas, misteriosas e até sombrias, criando uma névoa que os envolve num ambiente suspeito, como se todas as vidas fossem possuídas por enigmáticos acontecimentos que anulam a banalidade dos dias rotineiros e idênticos entre pares. Tordo explora os enredos, enche-os de referências, mistura-os com factos reais e atravessa frisos cronológicos inteiros, não para baralhar o leitor, mas para o agarrar até à última página.

E neste «As três vidas» não é excepção.
"(...) a possibilidade do fracasso era a receita do sucesso. Quanto mais vezes o andarilho na corda bamba ameaçasse a queda, desequilibrando-se, (...) mais empatia o espectador sentia por ele. A perfeição não era perfeita, por assim dizer; a perfeição era andar no limite do imperfeito, e essa, sim, era a autêntica arte."

O isolamento e o mistério em torno da Quinta do Tempo, juntamente com o seu mentor Millhouse Pascal e a sua actividade ultra-secreta são o conjunto perfeito para pôr a vida do narrador na corda bamba, fazendo-o aspirar não pela perfeição, mas pela existência simples e pacata de outrora. No entanto, a literatura e o amor, puxam o protagonista para uma espiral de contradições que lhe atravessam a vida por várias décadas e é navegando nesse friso do tempo e de lugares insólitos que vamos acompanhando o narrar dessas memórias até ao tempo presente.

"Mais tarde, pensei se haveria, na verdade, alguma espécie de estranho engenho dentro da cabeça de um homem que o impedisse, a partir de certa altura em que já nada espera, quando aprendeu a aceitar a derrota, de conseguir reconhecer aquilo sem que lhe parecera, em tempos, que não podia viver. Ansiamos por esse momento de felicidade; ele surge (...) e, de repente, não acreditamos nele, por estarmos tão acostumados à sua irrevogável ausência."

Se a felicidade, essa busca incessante for em si mesma uma vida, podemos considerar que o perdão e o aceitar do passado são outra, mas o que podemos esperar de uma terceira vida? Uma vida já plena de aceitação e suas rotinas sem as quais tememos definhar? 

Habitam sempre os romances de João Tordo inúmeras questões taciturnas e considerações melancólicas que põe os personagens à deriva e por vezes também o leitor.

"É impossível, a partir de um certo ponto, esconder o passado ou aquilo que fomos. Fica impresso nos nossos traços como uma cicatriz invisível, a denúncia de uma duplicidade insuportável para os outros e para nós próprios."

*

Outros lidos de João Tordo lidos e comentados por mim aqui no blogue:

"Biografia Involuntária dos Amantes" 



quinta-feira, 13 de março de 2014

"Os Transparentes", de Ondjaki - Opinião

Em Os Transparentes, Ondjaki expõem uma Luanda, que talvez não resuma, mas caracteriza Angola, naquela globalização e capitalismo acelerados, na imposição de uma mutação acelerada.
É com base nessa realidade que o escritor conhece e sobre a qual escreve, uma realidade que estrangula a ficção e expõe a verdade. A urgência da verdade! A desconstrução moral e a urgência do capitalismo bruto que urge, que queima e que expõe uma cidade, um povo, diria eu, a uma corrupção desenfreada que não olha a meios.

"- a verdade é ainda mais triste, Baba: não somos transparentes por não comer... nós somos transparentes porque somos pobres." (pág. 203)

É nesta constatação da transparência de um povo, que Ondjaki revê também os portugueses. Talvez, arrisco a dizer, também os veja com o humor que reconhece no povo angolano, na alegria de viver, no desenrascanso típico, por vezes arrojado e criativo, tanto para sobreviver como para atalhar nas dificuldades da vida. Se neste livro eu li e vi Luanda, vi também Portugal. As makas podem ser outras, a banga também, mas os vijús tendem a ter a mesma vivacidade na hora de inventar e dar corda ao mujimbo ... ;)
É também nesta particularidade linguística e de contexto que o livro de Ondjaki ganha riqueza e promove aprendizagem. Há uma certa vivência que se experimenta lendo assim estes diálogos, que tendem a arrancar de nós uma certa teatralidade e interpretação, fazendo-nos rir e experienciar o livro.

"(...) desorientado por vocação, acordava cedo para ter mais tempo de não fazer nada." (pág.25)
Talvez a característica do Ciente seja uma forma de compreender a noção de tempo e o que se faz com ele... espelha uma certa contrariedade, uma atitude dúbia, mas que nos deixa a pensar. Aliás, todas as personagens irão ter características chave que nos deixam alerta: o Carteiro, o VendedorDeConchas ou o Cego, e a dureza da luta diária, mas também a simplicidade. A ideologia e o credo da AvóKunjikise, a corrupção e as manhas dos Fiscais ou do Ministro,... o amor à cidade e a transparência de Odonato... são transparentes, mas cheios de conteúdo!

"(...) porque só os grandes homens choram na companhia solitária de outros homens..." (pág.201)

Outro conteúdo que é trazido para o livro é a cidade, metamorfoseada pela exploração, pela corrupção... pelos mesmos de sempre e agora pelas perfurações em busca de petróleo... Ondjaki, tal como refere em algumas entrevistas, pretende chamar à atenção para a necessidade de se pensar Luanda, como cidade, como ser vivo, volátil e permeável a todas as mudanças trazidas pela globalização e capitalismo. É nessa mutação acelerada que a cidade perde qualidades e esmaga o povo, que luta pela dignidade de um dia melhor, menos sofrido, menos explorado... com menos fome. A fome é também uma grande temática.

Com um estilo e humor característico, o autor vai levantando o véu e denunciando o que lhe preocupa:
"- mas quem manda em tudo isto?
- gente muito superior.
- superior.. como deus?
- não. superior mesmo! aqui em Angola há pessoas que estão a mandar mais que deus."

A cada parte do livro, o leitor ganho um novo fôlego, naquelas páginas a negro, onde as palavras do autor ganham uma nova aura e anunciam a imaginação essa "faculdade que nos separa dos outros seres" ... essa potencialidade que tanto a ciência como a humanidade precisam.
Espelho dessa humanidade, mas também da criatividade do autor, é o prédio, metáfora para o povo e daquilo que os homens são feitos. Ele, o prédio, é o palco de uma Luanda esburacada, fragmentada.

Na lança que Ondjaki solta com este romance está uma imaginação que se embriagou nas estórias de um povo bom vivant que talvez ainda queira a sua Angola de outros tempos.


*
Uma leitura com o apoio CAMINHO, veja mais aqui.
Ondjaki, vence Prémio José Saramago, veja a notícia em Novembro 2013, aqui.